sábado, 7 de julho de 2018

4364) Outra vez Matraga (7.7.2018)



Sagarana foi escrito no Brasil, reescrito na Alemanha, quando Guimarães Rosa era diplomata. Ele próprio relata, num texto importantíssimo escrito para os arquivos do jornalista João Condé, e recolhido por sua filha Vilma Guimarães Rosa em Relembramentos (Nova Fronteira, 1983):

O livro foi escrito – quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas – em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945 foi “retrabalhado”, em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez).

Como receita não pode haver melhor. Basta apenas lembrar que a primeira versão é a que perdeu um concurso literário em 1938, porque Graciliano Ramos votou contra. E Rosa, depois, deu-lhe razão: o livro ainda estava “verde”.

Comentando o livro do colega, Graciliano (num texto recolhido em Em Memória de João Guimarães Rosa, José Olympio, 1968) dizia, da nova feição do livro Sagarana em sua primeira edição oficial:

Eliminaram-se três histórias, capinaram-se diversas cousas nocivas. As partes boas se aperfeiçoaram: “O Burrinho Pedrês”, “A Volta do Marido Pródigo”, “Duelo”, “Corpo Fechado”, sobretudo “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, que me faz desejar ver Rosa dedicar-se ao romance. (p. 44)

Guimarães Rosa afirmou que todos os contos desse livro buscavam uma forma específica de expressão, que ele foi descortinando aos poucos, conquistando por todos os flancos, e que surgiu pronta na derradeira história. “Matraga”, o último texto do primeiro livro, seria, por este julgamento, o primeiro texto a empregar todos os recursos de que o escritor já se sentia capaz.

A história tem um desenho simples. Nhô Augusto Esteves é um homem sem empatia, que pratica maldades cercado de capangas. Trata com desdém a esposa e a filha, vive raparigando, bebendo. Até que um dia se mete com um coronel poderoso, leva uma surra homérica, é dado como morto.

Oficialmente desaparecido, é recolhido por um casal pobre, tem uma sofrida convalescença durante a qual torna-se religioso, rezador, trabalhador. O oposto completo do que tinha sido antes. Com o casal de pretos velhos, emigra, vai morar num povoado distante; e os anos se passam.

Na sequência final, testemunhando uma injustiça de um chefe jagunço contra uma família de pobres, volta a ser o valentão que fora e volta a pegar em armas, mas agora em defesa de um ideal nobre.


Robert Heinlein gostava de resumir numa frase os enredos básicos das narrativas de ficção (não apenas da ficção científica). Um dos seus resumos favoritos era: “A man learns better”, um cara aprende uma lição. Ou seja: um sujeito obstinado, cascudo, cheio de si, sofre uma rebordosa. Essa crise de grandes proporções pulveriza suas certezas e o obriga a se recompor – mas agora em outros termos. Obriga-o a se recriar.

Essa é a narrativa básica de “A Hora e Vez de Augusto Matraga”.

Como bonecas russas umas dentro das outras, vemos que o Augusto rezador, pequenininho, já estava dentro do Augusto valentão. Vinha desde a infância, através da avó que o encorajava a rezar. Quando o valentão entra em crise, vai sendo recoberto por fora pela capa de um novo Augusto, que repete fanaticamente o mantra ensinado por um padre: “Jesus, manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao vosso!”

Quem assistiu a magnífica adaptação de Roberto Santos para o cinema, de 1966, deve lembrar o ator Leonardo Vilar (em sua hora e vez, e melhor momento da carreira) orando essa pequena prece até gritá-la furioso.

E o que começa a brotar ali é a síntese final entre o Augusto brabo e o Augusto manso e humilde de coração. Nesse momento de conversão na marra, ele brada a frase que ficou famosa:  “P’ra o céu eu vou, nem que seja a porrete!...”.

O primeiro encontro com os jagunços comandados por Joãozinho Bem-Bem ajuda a ressurgir em sua alma a força masculina, yang, que estava adormecida. Ele recorda seus tempos de brigador, dos quais ao mesmo tempo se envergonha e sente saudade, como quando se lamenta junto à preta velha que o adotou:

E eu já fui zápede, já pus fama em feira, mãe Quitéria! Na festa do Rosário, na Tapera... E um dia em que enfrentei uns dez, fazendo todo-o-mundo correr... Desarmei e dei pancada, no Sergipão Congo, mãe Quitéria, que era mão que desce, mesmo monstro matador!... E a briga, com a família inteira, pai, irmão, tio, da moça que eu tirei de casa, semana em antes de se casar?!...


Os jagunços vão embora mas o olho clínico de Joãozinho Bem-Bem o faz convidar Nhô Augusto para juntar-se ao bando, o que ele agradece mas recusa. Ainda não está pronto.

O tempo vai passando e um dia ele acorda vendo as maitacas em migração, aves ruidosas nas quais ele vê um sinal. Que está na hora de partir. Para onde? Ele não sabe.

Sagarana é um livro onde os personagens estão o tempo todo em movimento, viajando, passeando, migrando, fazendo aquelas intermináveis viagens a burro, a pé ou a cavalo, ao longo das quais acontecem variadas coisas e se encontram personagens aleatórios. Nhô Augusto deixa-se conduzir pelo jumentinho, deixando que ele decida:

E aí o jumento andou, e Nhô Augusto ainda deu um eco, para o cerrado ouvir:
– “Qualquer paixão me adiverte...” Oh coisa boa a gente andar solto, sem obrigação nenhuma e bem com Deus! (...)
E também, nas encruzilhadas, deixava que o bendito asno escolhesse o caminho.  (...) Mas, somadas as léguas e deduzidos os desvios, vinham eles sempre para o sul, na direção das maitacas voadoras. (...)
– Não me importo! Aonde o jegue quiser me levar, nós vamos, porque estamos indo é com Deus!

E a esta altura um Deus está conduzindo Matraga, por linhas tortas, para sua hora e vez, para o encontro com seu destino. Esse Deus o leva de volta aos arredores do arraial do Murici, onde a história começou. E é um Deus diferente do Deus de todo mundo. Matraga transformou-se num ronin, um samurai errante, sem tropa e sem patrão. E o seu deus é um Deus guerreiro:

...num sonho bonito, no qual havia um Deus valentão, o mais solerte de todos os valentões, assim parecido com seu Joãozinho Bem-Bem, e que o mandava ir brigar, só para lhe experimentar a força, pois que ficava lá em-cima, sem descuido, garantindo tudo.

Reencontrando os jagunços, Nhô Augusto reata por minutos a amizade mas logo se pôe em confronto, para impedir que Joãozinho Bem-Bem, que quer vingar um capanga morto à traição, cometa uma crueldade contra uma família indefesa. Trava-se o combate, e o narrador onisciente já começa a transferir a história para o plano da lenda futura, ao usar o ponto de vista do povo que assiste tudo:

E aí o povo encheu a rua à distância, para ver. Porque não havia mais balas, e seu Joãozinho Bem-Bem mais o Homem do Jumento tinham rodado cá para fora da casa, só em sangue e em molambos de roupas pendentes.

E ele garante que a história seja bem contada, trazendo um figurante crucial, “o João Lomba, conhecido velho e meio parente”, que reconhece Nhô Augusto, ouve suas últimas palavras e garante que a identidade do herói seja corretamente atribuída.

“Matraga” tem sido descrito como uma parábola de redenção, uma jornada de transcendência. Eu o vejo às vezes como uma briga de um indivíduo com a violência em si mesmo, uma briga simbolizada no filme de Roberto Santos pela cena (ampliada a partir de uma ceninha de nada no livro) em que Nhô Augusto domestica um cavalo, um “poldro bravo” e rebelde.

Em momento algum ele deixa de ser violento. Quando está em desespero, sai embaixo de chuva para o mato, de machado em punho, e tome a derrubar troncos. Ele é um homem feito para a violência, e só na violência encontra sua redenção final. Só que desta vez uma violência com propósito; e com sacrifício, porque é o confronto com um amigo a quem admira.














terça-feira, 3 de julho de 2018

4363) Orlando Tejo 1935-2018 (3.7.2018)



Conheci Tejo em 1965, quando comecei a trabalhar na redação do “Diário da Borborema”, onde ele e Josusmá Viana se revezavam na secretaria. Era uma redação alegre pela presença dele, e onde pontificavam nomes como Fernando Lorenzo Maia na página de esportes, Paulo de Tarso na administração, William Tejo e Manoel Alexandrino Leite na página de política, Fernando Wallach na reportagem policial, Valdi Lira na fotografia, e tantos outros.

A veracidade aos fatos históricos me obriga a registrar que apesar desse panteão de nomes consagrados, o melhor momento do dia de trabalho era logo cedinho, sete da manhã, quando o jornal já estava na rua e o pessoal da oficina (Romão, Boní, etc.) começava a desmontar as páginas de ferro com as linhas de chumbo.

A redação (que ficava em cima, no primeiro andar) ainda estava vazia, e uma bola de papel-jornal fortemente amarrada com barbante servia para que eu, Mauro Ronaldo e Severino Brasil realizássemos ferozes campeonatos de barra-a-barra entre as mesas vazias e os arquivos de jornais que iam do piso ao teto.

Foi em meados dessa década que Orlando inventou de se candidatar a vereador, arranjou um jipe, e era visto chispando o dia inteiro ao volante, pelas ruas de Campina. a cabeleira ao vento. Não foi eleito, e continuou assinando ponto no Café São Braz, onde todo mundo até hoje passa o dia falando de três assuntos cruciais: política, futebol e a vida alheia.

Dessas conversas intermináveis surgiu o projeto do livro Zé Limeira, Poeta do Absurdo, que lhe deu fama nacional e alçou o repentista da Serra do Teixeira ao panteão mitológico do Nordeste, ao lado de Lampião, Padre Cícero e Luiz Gonzaga.

Durante os próximos séculos nossos netos e bisnetos continuarão discutindo se a maioria dos versos que aparecem naquele livro foram mesmo criados por Zé Limeira, ou se o foram por uma plêiade de poetas e boêmios que circulavam entre os poucos metros que separavam a Rádio Borborema, o Café São Braz e a Sorveteria Flórida.

Segundo meu pai (grande amigo de Orlando) o passatempo ali era inventar versos “zelimeirianos” para provocar gargalhadas, e muitas dessas inocentes contrafações foram se agregando à lenda e acabaram entrando no livro, como imigrantes ilegais. Não importa. Às vezes, mais que a verdade histórica, o que vale é o pulsar do espírito da lenda. Publique-se a lenda.

Já tive copiados à mão sonetos fesceninos de Orlando, que não reproduzo aqui porque não sei onde estão, e talvez para não chocar o espírito politicamente correto que governa com mão de ferro os costumes de hoje.

Mas a lenda de Orlando é mais polpuda de versos do que a de Zé Limeira. Há anos digo que algumas de suas improvisações poéticas deveriam ser reunidas em livro. Estão espalhadas por aí, pela internet e pela memória alheia. Um livro não garante a imortalidade, mas um Poemas Reunidos de Orlando Tejo seria pretexto para muitas noitadas de coquetéis e lembranças boas.

Como a dos versos que ele, apologista das cantorias de viola, dedicou a Lourival Batista, o Louro do Pajeú (1915-1992), e a seu parceiro Severino Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990).

Os dois repentistas foram amigos de coração e antagonistas da viola por mais de meio século de embates memoráveis. No Nordeste inteiro, em bares, feiras, residências, fazendas, terraços, as pessoas se juntavam para vê-los disputando quem fazia o verso mais inspirado e quem dava alfinetadas mais agudas no outro.

No Instituto Lourival Batista, em São José do Egito (PE), há uma parede onde está imortalizado o poema de Orlando Tejo sobre essa dupla de gênio:

Grande saudade hoje sinto
das cantorias-tesouro
do gigante que foi Pinto,
do uirapuru que foi Louro.

Era uma graça, um estouro
ouvir em qualquer recinto
os trocadilhos de Louro
os desconcertos de Pinto.

Tal qual no Bar do Faminto,
do Pátio do Matadouro,
quando Louro aceitou Pinto
e Pinto abençoou Louro.

Mas no Bar Rosa de Ouro
houve um encontro distinto
Pinto elogiando Louro,
Louro chaleirando Pinto.

Jamais ficará extinto
o meu prazer de ouvir Louro
querendo derrubar Pinto,
Pinto brincando com Louro.

No Bar Casaca-de-Couro
vi o maior labirinto:
Pinto depenando Louro
e Louro esganando Pinto. (...)

O poema inteiro, que é muito longo, pode ser lido aqui, no blog Cantigas e Cantos, de Gilberto Lopes:


Outra história orlandiana impagável é contada pelos seus amigos de Brasília, onde ele foi funcionário da Câmara Federal. Apertado de grana, precisou com urgência urgentíssima de um dinheiro emprestado. Alguém lhe disse que procurasse um tal de Canindé, que poderia adiantar-lhe os trinta mil cruzeiros de que precisava para cobrir alguns cheques.

Orlando passou o dia esperando uma resposta de Canindé, que na verdade era apenas o contato com os agiotas. Em desespero, sentou-se à mesa do seu amigo, o escritor Luiz Berto (autor do igualmente lendário Romance da Besta Fubana) e produziu oito décimas implacáveis de ofensas e doestos contra o indefeso ausente:

(...) O cabra fuma e não traga
faz do crime o seu idílio!
Onde está Flávio Marcílio
que não demite esta praga?
Ao menos dava-se a vaga
pra um sujeito de fé,
já que esse indivíduo é
um tratante e delinqüente!
Haja chumbo grosso e quente
no rabo de Canindé!

Por capricho do destino
de Satanás ou Deus Brama,
o bicho também se chama
coisa e tal e Tolentino;
doido, avarento e mofino,
não conhece a Santa Sé,
faz da cola o seu rapé,
vive da desgraça alheia,
devia estar na cadeia
esse tal de Canindé! (...)

Eis senão quando toca o telefone. É Canindé, com o dinheiro liberado, pronto para ser entregue! Comemorações, abraços efusivos, e Orlando senta-se de novo à mesa, pega pena e papel, e produz mais oito estrofes neste novo teor:

Um sujeito despeitado,
desses de baixa maré,
inventou que Canindé
é um canalha safado.
Eu fiquei preocupado
com a informação até,
porém não perdi a fé
em quem merece louvores…
E haja palmas e haja flores
na fronte de Canindé.

Tenho dito e sustentado
(todo mundo sabe disso)
que na Câmara, esse cortiço,
há um cidadão honrado,
pai de família extremado,
homem de bem e de fé!
O Papa já disse até
que há no torrão brasileiro
Padre Cícero em Juazeiro
e em Brasília, Canindé.

Sei que o Papa tem razão,
mas ninguém quer saber disto.
Se já falaram de Cristo,
que se dirá de um cristão?
Porém a fofoca não
atinge um homem de fé.
e se eu descobrir quem é,
meto a mão no pé do ouvido
do sem-vergonha enxerido
que falar de Canindé! (...)

A crônica de Luiz Berto, e o texto completo das duas séries de estrofes, estão aqui, no blog da União Brasileira de Escritores / RN:

É a poesia. Muita gente lê um poema e se pergunta: Isto é verdade? Isto é mentira? O poeta é um fingidor? O leitor é um hipócrita? Que valor pode ter um texto assim cru, direto, concreto, vazado em meras palavras?

Os dois poemas de Orlando sobre Canindé mostram a verdade do poeta, qualquer poeta, que só tem a obrigação de ser fiel àquilo que no momento da escrita lhe arrebata o espírito. O poeta olha para dentro de si ou para o mundo à sua volta e relata o que vê, o que sente, o que o encandeia com sua força. O que ele escreve não é verdadeiro nem mentiroso: é apenas real.

Era assim Orlando, boêmio que largou a bebida mas não as noitadas, poeta que nunca largou a poesia, e que dias atrás decolou para o Outro Mundo e não nos largou, não nos largará em tempo algum. Concretizou agora os versos de seu alter ego Zé Limeira:

Se um dia eu fosse chamado
pra cantar no Céu, eu ia.










segunda-feira, 2 de julho de 2018

4362) "La Casa de Papel" (2.7.2018)



Acabei agora de ver a primeira temporada desta série espanhola, em exibição no Netflix.

A premissa da história é muito simples, pode ser anunciada sem spoilers: um grupo de assaltantes planeja cuidadosamente durante meses uma invasão à Casa da Moeda, em Madri, onde se imprime o dinheiro da Espanha.

Seu objetivo não é roubar as notas que já estão impressas. É trancar-se lá dentro em segurança, com reféns que lhes servem de escudo, e imprimir a maior quantidade possível de euros antes de fugir.

O filme de assalto é um subgênero do filme policial onde é possível mexer à vontade na receita. Pode haver aventura, ação, romance, violência, comédia, tiroteio, o escambau. Um elemento no entanto é indispensável: o planejamento.

Filmes de assalto (“heist movies”) são sempre filmes enxadrísticos, onde tudo é planejado com antecedência, executado com treinamento e frieza... mas na hora H aparece um imprevisto e manda todo o planejamento pro espaço.

Os meus clássicos mais queridos são Gangsters de Casaca de Henri Verneuil (“Mélodie en sous-sol”, França, 1963), Topkapi de Jules Dassin (“Topkapi”, EUA, 1964), Sete Homens de Ouro de Marco Vicario (“Sette uomini d’oro”, Itália, 1965), Como Roubar um Milhão de Dólares de William Wyler (“How to Steal a Million”, EUA, 1966), O Golpe de John Anderson de Sidney Lumet (“The Anderson Tapes”, EUA, 1971) e mais alguns.

Títulos mais recentes que gostei bastante são Onze Homens e um Segredo de Steven Soderbergh (“Ocean’s Eleven”, EUA, 2001) e A Cartada Final de Frank Oz (“The Score”, EUA, 2001).


A coisa mais fascinante desses filmes é o duelo de inteligências entre as pessoas que conceberam o sistema de segurança (do Banco, do castelo, da mansão, etc.) e os assaltantes. Uns têm a obrigação de prever TUDO. Os outros, de imaginar algo que a segurança não previu.

É um xadrez minucioso... mas xadrez talvez não seja o termo adequado. O xadrez é jogado com jogo aberto, no tabuleiro, com  lances alternados, cada um vê exatamente o que o outro está fazendo.

O filme de assalto exige: 1) uma imensa previsão de ataques possíveis, feita pelo jogador “A”, a segurança do prédio; 2) uma minuciosa pesquisa, e preparação do golpe, feita pelo jogador “B”, a quadrilha; 3) um contragolpe eficaz do jogador “A”, evitando o roubo durante o seu transcurso ou perseguindo os ladrões quando estes conseguem se safar.

La Casa de Papel tem uma premissa original e uma execução eficiente, porque trata-se de um roubo que não pretende passar despercebido, pelo contrário – assim que a situação é exposta, o país inteiro toma conhecimento (isso interessa aos assaltantes).

As cenas do assalto e do cerco subsequente pela polícia são intercaladas com flash-backs da preparação da quadrilha, onde cada pessoa tem um topônimo como codinome (“Tóquio”, “Oslo”, “Rio”, “Denver", “Nairobi”, etc.). E o cabeça de todos, o “Professor”, que fica do lado de fora, em contato permanente com o grupo e com a polícia, com a qual negocia.

É uma situação ideal para um roteirista que pode assim trabalhar vários núcleos: diferentes ambientes dentro do prédio, envolvendo sequestradores e reféns; o quartel-general da polícia, numa tenda diante do prédio; a casa da delegada Raquel; o esconderijo do “Professor”; os flash-backs do treinamento da quadrilha.

A série tem as tensões necessárias, conflitos internos da gang, conflitos deles com os reféns, etc., mas aos poucos se desenha uma linha básica: tudo que acontece havia sido previsto pelo Professor, que planejou aquilo durante anos. E para cada “imprevisto” ou cada cartada da polícia durante o cerco, ele tem um “plano B” de sobreaviso.

Ou não.



Filmes de assalto tão minuciosos assim servem para nos lembrar que “o diabo está nos detalhes”. O ônibus Challenger explodiu porque uma juntura de peças tornou-se quebradiça quando subiu ao frio do espaço e permitiu um vazamento. Em alguns filmes citados acima, tudo se perde porque um passarinho entrou por uma janela deixada aberta, ou porque uma porta que era para estar aberta permaneceu fechada.

La Casa de Papel tem uma história bem urdida e personagens imprevisíveis o bastante para nos surpreender. Tem também os clichês do gênero, e em muitos casos não sei se chame isso se clichê ou de figura de linguagem.

É algo que o público já espera, e que os criadores se sentem na obrigação de fornecer: o escape no último segundo, a coincidência inesperada que precipita uma crise, a coincidência mais inesperada ainda que a resolve, os riscos desnecessários que um personagem assume (mas se não o fizesse, “nada acontecia”), e assim por diante.

Há uma confortável diferença visual entre os flash-backs dos assaltantes ensaiando o roubo na mansão onde se ocultaram antes de tudo (cores quentes, detalhes, figurinos, comportamento) e o ambiente asséptico do interior da Casa da Moeda, corredores, metal, vidros, uniformes. Em termos de ambientação, é um “respiro” sempre útil.

La Casa de Papel é uma série cuja primeira temporada se encerra com uma crise de grandes proporções. É uma série na qual sabemos que a situação central pode ser prolongada por mais de uma temporada, mas necessariamente precisa de um final. Como em Breaking Bad e outras séries policiais, mostra uma situação que não pode durar para sempre.








quarta-feira, 27 de junho de 2018

4361) Sagarana: A hora e vez de Augusto Matraga (27.6.2018)






“A Hora e Vez de Augusto Matraga” é o derradeiro (e para muitos o melhor) conto do livro Sagarana (1946), o primeiro e possivelmente o mais acessível dos livros do autor.

Tenho falado nestes meus comentários sobre Sagarana que um dos temas gerais do livro, expresso numa epígrafe na sua abertura, é o da “ida e volta”. Está na epígrafe que diz “for a walk and back again”. Que exprime, de certo modo, o retorno mental de Rosa ao seu sertão de origem, mesmo morando longe.

O conto “Matraga” conta a história da “morte” simbólica de um valentão e sua “ressurreição” como herói. É a história de um homem que é uma coisa, transforma-se em outra, e no fim volta a ser o que era, mas valorizado por essa transformação.

Se algum professor precisar de um exemplo literário para explicar o conceito de “tese / antítese / síntese”, este conto serve como um dedo numa luva.

Já na primeira fase do conto (tese), ficamos sabendo que Matraga (que na verdade chama-se “nhô” Augusto Esteves) é menino mimado, agroboy que cresceu mandando e desmandando, mas hoje tem a vida em pandarecos:

Fora assim desde menino, uma meninice à louca e à larga, de filho único de pai pancrácio. (...) Agora, com a morte do Coronel Afonsão, tudo piorara, ainda mais. Nem pensar. Mais estúrdio, estouvado e sem regra, estava ficando Nhô Augusto. E com dívidas enormes, política do lado que perde, falta de crédito, as terras no desmando, as fazendas escritas por paga, e tudo de fazer ânsia por diante, sem portas, como parede branca.



Este balanço ocorre na mente de D. Dionóra, a esposa em vias de separação, por não aguentar mais as brutalidades dele. Ela vai morar com um pretendente, e no mesmo dia os capangas de Nhô Augusto se passam para o lado do Major Consilva, velho inimigo da família. E a quem cabe ordenar a surra homérica, e o castigo final:

“Arrastem pra longe, para fora das minhas terras... Marquem a ferro, depois matem.”

Assim é feito, e Nhô Augusto, os ossos todos partidos a pauladas, recebe o ferro em brasa “...com a marca de gado do Major – que soía ser um triângulo dentro de uma circunferência – e imprimiram-na, com chiado, chamusco e fumaça, na polpa glútea direita de Nhô Augusto”.

Dado por morto após rolar numa ribanceira, ele é recolhido por um casal de pretos num casebre ali perto.

Nhô Augusto, dias depois, quando voltou a ter noção das coisas, viu que tinha as pernas metidas em toscas talas de taboca e acomodadas em regos de telhas, porque a esquerda estava partida em dois lugares, e a direita num só, mas com ferida aberta. As moscas esvoaçavam e pousavam, e o corpo todo lhe doía, com costelas também partidas, e mais um braço, e um sofrimento de machucaduras e cortes, e a queimadura da marca do ferro, como se o seu pobre corpo tivesse ficado imenso.

Começa então a convalescença física e a purificação moral. Depois de desmoralizado o valentão e derrotado o brabo, ficou somente o Nhô Augusto de dentro, fraco e infeliz. O processo dura “muitos meses, porque os ossos tomavam tempo para se ajuntar, e a fratura exposta criara bicheira.”

E essa reconstrução íntima, essa antítese, se dá após uma depressão profunda em que Nhô Augusto chora, lamenta, se abate, se envergonha de tudo que fez. E volta a rezar. Volta, porque, como dizia um tio velho de sua esposa, “quem criou Nhô Augusto foi  a avó... Queria o menino pra padre... Rezar, rezar, o tempo todo, santimônia e ladainha”.

Nhô Augusto, já sarado, resolve pegar o casal de pretos velhos e ir morar com eles num ranchozinho que tinha num lugar distante, onde ninguém o conhecia.

E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma história inventada, e não é um caso acontecido, não senhor.
(...)
E, pois, foi por aí, dias depois, que aconteceu uma coisa até então jamais vista, e até hoje mui lembrada pelo povinho do Tombador.

Este trecho é outra virada-de-esquina decisiva no conto, e o autor a anuncia com a devida pompa. Porque nos parágrafos seguintes ele descreve como aquele vilarejozinho esquecido onde Nhô Augusto vivia encafuado chega de passagem um bando de jagunços armados, tendo à frente

...o arranca-toco, o treme-terra, o come-brasa, o pega-à-unha, o fecha-treta, o tira-prosa, o parte-ferro, o rompe-racha, o rompe-e-arrasa: Seu Joãozinho Bem-Bem.

O encontro com esse chefe jagunço (que tem algo do encontro entre Riobaldo e Zé Bebelo no Grande Sertão) vai soprar na alma de Nhô Augusto as brasas dormidas do fogo guerreiro. Ele convida os jagunços à casa modesta onde vive com os pretos velhos, serve comida, obsequia, e entre uma conversa e outro Joãozinho Bem-Bem descobre só de olhar que quem está ali na frente é um dos seus.


É nesse trecho da história que surge a famosa “Cantiga Brava”, musicada por Geraldo Vandré:

O terreiro lá de casa
não se varre com vassoura:
varre com ponta de sabre
bala de metralhadora...

Despedem-se, e partem.

E com isto começa a surgir das ruínas de Nhô Augusto Esteves o novo Augusto Matraga. Este sobrenome, aliás, abre e fecha o conto como um par de parênteses: só aparece na primeira frase do conto, e depois no final.

O nome matraga é geralmente comparado com o substantivo matraca, que é aquela peça de madeira ruidosa e sacolejante com que se faz barulho em certas procissões; é também um pássaro. Como pássaro, acaba me lembrando as maitacas, ave migratória e barulhenta que, revoando por cima da cabeça de Nhô Augusto numa manhã linda, anos depois de sua provação e ordálio, parecem dizer-lhe: “Isto aqui terminou, agora é preciso partir”.


É um momento de epifania do conto, um momento de anunciação e ruptura.

Mas afinal as chuvas cessaram, e deu uma manhã em que Nhô Augusto saiu para o terreiro e desconheceu o mundo: um sol, talqualzinho a bola de enxofre do fundo do pote, marinhava céu acima, num azul de água sem praias, com luz jogada de um para o outro lado, e um desperdício de verdes cá embaixo – a manhã mais bonita que ele já pudera ver.

Ele sente o chamado do mundo, despede-se do casal de velhos, prepara um jumentinho e se faz na estrada. Como em tantas histórias de Rosa, seguem-se encontros rápidos, passageiros, pitorescos. Até que Nhô Augusto chega ao arraial do Rala-Coco, e descobre que quem está arranchado ali é Joãozinho Bem-Bem com seu bando.

Acontece o reencontro, amistoso, respeitoso. E mais na frente, minutos depois, o confronto, quando Joãozinho Bem-Bem, para vingar a morte de um dos seus homens, autoriza morte e estupro contra uma família local. E Nhô Augusto:

 — Pois então, meu amigo seu Joãozinho Bem-Bem, é fácil... Mas tem que passar primeiro por riba de eu defunto...

Este conto é um dos grandes momentos épicos da obra de Guimarães Rosa, pela simplicidade de meios e pela vagarosa maturação do caráter do personagem principal. Um processo de superposição de camadas de experiências, de pensamentos, de situações, que somente o formato da noveleta proporciona. Não se conta uma história como esta no formato que o autor viria a usar depois em Tutaméia.



(As imagens são do filme A hora e vez de Augusto Matraga, Roberto Santos, 1966)



  









domingo, 24 de junho de 2018

4360) O conto e o romance (24.6.2018)



(ilustração: pintura de Mike Stilkey)

Uma discussão recente da Internet trouxe à baila (eu estava ansioso para usar esta expressão) a questão da diferença entre o conto e o romance.

Muita gente pensa que a diferença entre conto e romance é uma diferença de tamanho, como a diferença entre duas matrioskas.

(Para efeito dos comentários abaixo, é bom deixar logo clara uma distinção: cada obra literária tem seu próprio formato, seja conto ou romance. Somente por aproximação estatística podemos dizer que, p. ex., dois contos de Sherlock Holmes se baseiam na mesma estrutura, ou que dois romances de José de Alencar se baseiam na mesma estrutura.)

A diferença entre o conto e o romance é uma diferença que só num certo sentido tem a ver com tamanho.

É como, por exemplo, a diferença entre um apartamento e um castelo medieval. O apartamento tem sala, dois quartos, cozinha, banheiro, área de serviço, e está cercado (lateralmente, e em cima, e embaixo) por estruturas idênticas.

Um castelo medieval não é isso aí “só que em tamanho maior”. É um conjunto de outras estruturas que são só suas; semi-independentes, interligadas, funcionando mais ou menos em conjunto.

Um poeta simbolista com laivos científicos diria talvez que a diferença entre o romance e o conto é a diferença entre o carvão e o diamante. O elemento é o mesmo, mas a estrutura é diferente.

Edgar Allan Poe, um dos criadores do conto moderno, propôs duas regras: 1) o conto deveria ser medido pela intensidade do efeito que produz, e tudo que há nele deve contribuir para esse efeito; 2) sua leitura deve ser ininterrupta, e para isso sua extensão ideal deve proporcionar uma leitura contínua de meia hora a duas horas de duração.

Um conto, por essa teoria, deve ser um mergulho. O leitor mergulha na primeira frase, e emerge ao final da última frase.

Um romance, é claro, não pode ser assim. Se o conto vale pela intensidade do efeito, o romance deve valer pela amplitude e profundidade dos efeitos que produz. Efeitos em níveis simultâneos, que o leitor percebe, depois se assenhoreia deles, e vai curtindo ao longo da leitura: linguagem, enredo, personagens, ambiente, etc.

Um conto é como um concerto de piano: há apenas um instrumento nos dizendo alguma coisa, nossa atenção se concentra dele, num único canal, e o segue do começo ao fim. Um romance é como uma peça orquestral, onde (idealmente) percebemos os efeitos produzidos pelo naipe de metais, pelo naipe de cordas, pelas percussões, pelo pianista que sola, pelo coral, etc.  Ou seja: acontecem muitas coisas simultaneamente, em “canais” paralelos, e temos que acompanhar todas elas.

A relação do leitor com o conto (esse conto sonhado por Poe) é uma espécie de investida, assalto, mergulho.  Já a sua relação com o romance é o de uma convivência, uma escavação vagarosa num sítio arqueológico onde a enormidade do monumento que se exuma não nos deixa cegos ao lavor de cada detalhe.

Se precisamos de uma relação visual entre o conto e o romance, mais do que a diferença de tamanhos eu diria que há uma diferença de espessura, onde o conto só tem uma camada e o romance tem várias, superpostas.

Ou melhor: uma camada é meio sem sentido, porque o conto tem sua partiturazinha orquestral, tem personagem, linguagem, atmosfera, voz narrativa. São coisas muito próximas, mas são independentes. Tem autor (entre os grandes, os mestres) que é excelente para ação e descrição, mas o vocabulário é meio descolorido. Ou então o diálogo é brilhante, mas os personagens parecem ecos de histórias relidas muitas vezes, ou descrições de personalidades não concebidas por inteiro.

Melhor dizer que quanto menos “camadas” nesse sentido houver num texto, “mais conto” vai ter ali. Ele se aproxima do polimento milenar das lendas, das fábulas, dos mitos e das anedotas de mesa de bar. A história em si, mola retesada, no mais aerodinâmico de sua energia, personalizada, única. A história valendo por tudo.

E quanto mais camadas houvesse, oscilaríamos para “mais romance”: personagens às dezenas, cada qual trazendo sua afinação ou sua dissonância ao conjunto. Enredo, no sentido de história pura. Muitas camadas.

É possível um autor acertar totalmente em algumas camadas e errar em outras. Todo gênio tem limitações. Borges recuava diante do romance (e podemos imaginar que ele criou toda uma estética em torno disso). Garcia Márquez não gostava de escrever diálogos. Kafka não acabava coisa nenhuma.

Voltando ao conto: com seu minimalismo de mola comprimida, o conto é algo que quer disparar dentro da mente do leitor. São assim os contos admirados e praticados por Borges, Poe, Cortázar, etc.: “A Pata do Macaco”, “August Heat”, “A Profecia”, “Casa Tomada”, “O Jardim das Veredas Que Se Bifurcam”, “O Gato Preto”...

O romance quer levar o leitor numa viagem, literalmente, por ambientes diferenciados, núcleos mais ou menos autônomos de personagens com sua própria narrativa interna. Diferentes tempos, diferentes ambientes, cada um deles requerendo uma partitura própria. O romance é uma convivência. Suas histórias envolvem dezenas de personagens. A prosa deve ser clara, fluida, energética, mas o que prende muito leitor-de-romance é essa descortinação vagarosa de uma tapeçaria vasta e plural.

É claro que a cada geração aparecem autores querendo questionar a regra, desmentir a regra.  Curiosos com a possibilidade de produzir um romance com 200 páginas e uma só camada, ou um conto de três folhas com mais camadas do que Tróia.

Não importa o que seja a literatura, coexistirão os escritores que como Truman Burbank querem tocar com a mão no limite do universo conhecido. E existem os que querem apenas contar uma história e ter a platéia na mão.

Os manuais de roteiro de linha meio hollywoodiana falam muito que “história é conflito”.

Digamos que seja. Se o romancista lida com décadas e multidões, ocasiões plausíveis para conflito não lhe faltam. No conto, o conflito é nesse formato de mola comprimida e disparada: a projeção de um elemento de encontro a um outro, e o choque resultante. Ou então disparado com a intenção de cumprir uma trajetória prevista, mesmo sem compreendê-la. Ou (como nos contos citados acima) aquela sensação de uma instauração inevitável de uma simetria ameaçadora e a impossibilidade de furtar-se a ela, mesmo sem compreendê-la.

Um conto (esse conto sonhado por Edgar Poe, e que ele soube exemplificar tão bem na prática) é como um salto de bungee-jump. O romance é a longo prazo, é um jardim cheio de canteiros cujo crescimento a gente acompanha, é um painel imenso que surge saindo de dentro de si mesmo.













quinta-feira, 21 de junho de 2018

4359) Oito ilusões (21.6.2018)




(ilustração: Ahnet Richard)

1
Betinho Vilaverde, 21 anos, estudante, menino-prodígio musical, meio nerd, meio tímido, na noite do seu aniversário de maioridade foi convidado por um grupo de colegas do curso de Direito para um jantar comemorativo no melhor restaurante da cidade, onde depois de vinhos e discursos elogiosos ele, ainda eufórico diante daquela primeira incursão na vida noturna, acabou se vendo, madrugada adentro, num terraço discreto onde batia o luar, numa mesa com quatro casais atracados aos beijos enquanto ele, de violão em punho, desfiava seu repertório, desde “Samba em Prelúdio” até “Here, there and everywhere”.

2
Lindaura Dias da Costa, 41 anos, dona de casa em Uberlândia (MG), tem uma tia idosa que mora em Belo Horizonte numa casa com dez cachorros e quatro criadas. A tia vive de uma pensão de montepio que data da Era Vargas, e mal se mantém, mas Lindaura crê firmemente que quando Dona Eulália (pois este é o seu nome) passar desta para melhor deixará para ela, Lindaura, a casa, a mobília, e todo o dinheiro que hipoteticamente está entesourado em algum colchão ou cofre-forte. Esse dinheiro inexiste; a velha mal sustenta o próprio canil, mas esse sonho dá a Lindaura forças para persistir na batalha, ainda mais num tempo como o de hoje.

3
Valtemir Ferreira dos Santos, 28 anos, auxiliar de escritório, voltava para casa num domingo à noite, no Grajaú, quando ao pegar uma rua lateral viu dois caras empurrando um carro enguiçado, ia até passar direto, mas um deles disse, “ajuda aí, campeão!”, e ele que estava há dois meses numa academia, julgou ser este o momento adequado para demonstrar seus recentes superpoderes, e aplicou os bíceps à traseira do veículo, para daí a menos de um minuto ver uma viatura da PM dobrar a esquina cantando pneu, parar junto com uma freiada e com o grito “todo mundo encostado no muro!” e ele abrir seu sorriso mais amarelo para dizer: “olha, eu tava só empurrando, viu?”.

4
José Carlos Belarmino Padilha, 61 anos, dono da cadeia de lojas Girassol, presidente da Associação Comercial do município, um belo dia (uma bela noite), numa mesa discreta na boate Feelings, tomou coragem depois do quinto uísque e segredou, à beldade de bustiê, minissaia e botinhas que pousara na cadeira ao lado, alguma ânsia secreta que lhe palpitava no peito desde a adolescência, e experimentou a epifania de vê-la afastar a orelha do seu bigode grisalho, sorrir, passar de leve pelo rosto dele as unhas cobertas de esmalte fúcsia, e dizer com sorriso maternal: “Não tem problema, bem, eu também adoro.”

5
Vivi da Cunha Silveira, 9 anos, estudante, recebeu da mãe uma nota de 50 reais e a incumbência de trazer da farmácia algo anotado num papel, mas logo depois da esquina viu um belo rapaz de olhos azuis chorando e aproximou-se compadecida, sabendo então que era um príncipe europeu cujo trono fora invadido por um cruel país beligerante, e agora estava precisando de dinheiro para comprar a passagem de ônibus de volta à capital onde tentaria recuperar a Presidência da República, uma história que a deixou de lágrimas nos olhos e a mãe de olhos fuzilantes e mãos nos quadris dizendo: “diga logo que perdeu, você acha mesmo que eu sou assim tão besta?!”.

6
Paulo Roberto Barbosa Lemos, 61 anos, professor no curso de Letras da USP, certa vez fez uma viagem na ponte aérea SP-Rio ao lado do escritor Rubem Fonseca, tendo os dois conversado sobre assuntos gerais, entre eles o uso de armas brancas para a prática de assassinatos; um ano depois deu-se a publicação do romance “A Grande Arte”, cuja leitura proporcionou a Paulo o deslumbramento revelatório, que dura até hoje, de ter dado ao grande ficcionista o tema de sua obra-prima, mal sabendo ele que na época daquele voo o livro já estava praticamente concluído.

7
Maura dos Santos Villarim, 61 anos, professora aposentada em Blumenau, grande leitora de Agatha Christie e de Jane Austen, escreve há décadas um volumoso diário íntimo com reflexões e revelações que jamais teria coragem de publicar em vida, mas imagina que após sua morte os filhos descobrirão tudo aquilo, maravilhar-se-ão, e providenciarão o lançamento que irá catapultar para a fama póstuma a tímida professora; mal sabe ela que quando morrer, em 6 de novembro de 2027, os herdeiros jogarão aquela tralha toda na lixeira, e a Natureza se encarregará do resto.

8
Suyung N-Kat-48, habitante de Bgront-bg, planeta arquipélago no sistema das Plêiades, passou mais de doze wytungs à espera de que aparecesse algum randomjob capaz de assegurar sua sobrevivência e a de quatro garynths, dois markumbellis, três e meio sempawqs e uma vrimbuliana que eram seus dependentes; coube-lhe, contudo, a dúbia honra de ser o único de sua categoria numérica a morrer de fome nos últimos trinta e três foltaimes desde a Revolução do Prego Envenenado.











segunda-feira, 18 de junho de 2018

4358) Ariano Suassuna e os cossacos de Kuban (18.6.2018)




Ariano Suassuna era muito escrupuloso em suas declarações, por mais mirabolantes que fossem. E tinha com a mentira uma relação muito curiosa. Dizia: “É um erro muito grave mentir para prejudicar outras pessoas ou para ganhar benefícios para si mesmo. A gente só deve mentir por amor à arte”.

Ele gostava de contar uma recordação de seu tempo de menino, em Taperoá. Estava ele andando por um descampado quando ouviu um tropel de cavalos se aproximando. Quando o grupo de cavaleiros chegou, levantando poeira, e entrou na rua principal, ele não acreditou no que estava vendo.

Era um bando de cavaleiros cossacos, vestindo aquelas roupas tradicionais dos cossacos russos. Ele pensou a princípio que fossem atores fantasiados. Os cavaleiros pararam, e foram cercados pela população. Ele correu pra perto pra ver o que era.

Eram russos de verdade!  Falavam uma mistura de russo e português, e Ariano ficou sabendo que era um grupo chamado “Os Cossacos de Kúban”, ex-soldados russos fugidos da Guerra Civil que varreu o país depois da Revolução Soviética. (Não dou muito tempo para que apareça na Internet alguma versão de que Ariano dizia ter conhecido “cossacos cubanos” em Taperoá.)

Tendo fugido pela Europa e depois pelo mundo, acabaram chegando ao Brasil. Apresentavam-se fazendo aqueles números de acrobacias equestres em que os cavaleiros, em pleno galope, saltam da sela sem largar as rédeas, batem com os pés no chão, pulam de volta para a sela, depois pulam para o lado oposto e assim por diante.

Ariano lembra que o chefe do grupo chamava-se General Ormanov e mancava de uma perna, porque na Guerra Civil fora ferido numa batalha do Exército Branco (contra-revolucionário) contra o Exército Vermelho, comandado por Leon Trotsky.

Esse encontro marcou Ariano para sempre, e é um exemplo daqueles casos em que a realidade é mais estranha do que a ficção, porque a ficção tem uma certa obrigação de ser plausível, e a realidade não, a realidade apenas acontece.

Se alguém escrevesse um romance regional paraibano dizendo que encontrou na rua um grupo de cossacos russos, seria acusado de “falta de autenticidade”. Como o encontro aconteceu de fato, Ariano anos depois o usou para evocar a Estranha Cavalgada do Rapaz do Cavalo Branco, o episódio de abertura da primeira parte do Romance da Pedra do Reino.

Eu passei muitos anos tendo conhecimento dessa história, e não tenho motivos para pensar que fosse invenção dele. Recentemente, encontrei por vias indiretas uma confirmação.

O livro Em Memória de João Guimarães Rosa (Rio: José Olympio, 1968, 256 págs.) é uma publicação organizada logo após a morte do escritor mineiro. Contém seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, uma porção de depoimentos e textos em sua homenagem (Graciliano Ramos, Carlos Drummond, Gulherme de Almeida, etc.) e os discursos da “Sessão da Saudade” com que a ABL o homenageou em 23 de novembro de 1967, poucos dias após seu falecimento.



É um livro precioso, com muitas fotos, fac-símiles de textos e manuscritos, ilustrações de Poty e Aldemir Martins.  A Academia bem poderia promover uma reedição.

Nele, Renard Perez contribui com um “Perfil” do autor mineiro, reconstituindo em traços gerais sua biografia.

Em 1934, Rosa presta concurso para a Força Pública, e fica estacionado em Barbacena (MG), como oficial médico do 9º. Batalhão de Infantaria. Pratica a medicina, e lê muito. E ali se dedica a aprender idiomas estrangeiros, um dos seus estudos preferidos.

Diz Renard Perez:

E através de um russo branco que se encontrava meio perdido por aquelas bandas, como soldado da polícia militar de Minas, pôde confrontar pela primeira vez a sua pronúncia. Depois, por intermédio de cadetes e de antigos oficiais do exército czarista, aparecidos em Barbacena como componentes do Coro dos Cossacos do Juban e do Don, pôde aperfeiçoar seus estudos. (pág. 29)

Ora, em 1934 Ariano tinha 7 anos de idade, e sua família tinha se fixado em Taperoá em 1933. Foi justamente essa a época em que teria acontecido seu encontro em Taperoá com o grupo de Cossacos, que viajava pelo país como uma “trupe andarilha”.

De “Juban” para “Kuban” a diferença reside apenas num detalhe de alfabeto e pronúncia. O Coro dos Cossacos de Kuban foi criado em 1811, e sobre o povo propriamente dito (uma das etnias absorvidas pelo Império Russo e depois pela URSS) há esse descritivo verbete da Wikipedia:


E aqui uma apresentação contemporânea do Coro:


São muitos os laços pessoais e literários entre Ariano Suassuna e Guimarães Rosa, e este episódio ensolarado e cavalariano não é o menor deles.

Quando nós estivermos na guerra
voarei ao encontro das balas no meu cavalo preto;
mas aparentemente a morte não é para mim,
e de novo o meu cavalo preto me traz de volta do fogo.
(Coro dos Cossacos de Kuban)


(Os Cossacos de Kuban, em foto de 1937)