quinta-feira, 22 de setembro de 2011

2668) O preço do ingresso (22.9.2011)



(foto: Alexey Titarenko)

Num país do Leste Europeu, um governo corrupto foi derrubado por um golpe chefiado por militares nacionalistas. Rasgaram a Constituição e impuseram outra, prenderam dissidentes, o de sempre. Entre outras providências, resolveram interferir no mercado cinematográfico. Havia uma polêmica interminável ali sobre a invasão de filmes norteamericanos, que estava sufocando a criatividade dos realizadores locais. O Ministério das Artes Visuais, chefiado por um tenente-coronel com especialização em mísseis balísticos, chegou a uma curiosa conclusão. Argumentou ele que era uma injustiça muito grande que o cinema dos EUA, riquíssimo e poderoso, concorresse nas bilheterias em igualdade de condições com o cinema local, notoriamente amadorístico, pobre de recursos. Assim como (raciocinou o Governo) uma garrafa de vinho francês safra 1920 não custa o mesmo que um vinho banal, por causa dos insumos envolvidos em sua produção, o ingresso de uma superprodução norteamericana não pode custar o mesmo que o ingresso de um filme feito por meia dúzia de cabeludos que estão querendo mudar o mundo em uma hora e meia.

Vai daí, o Governo gerou um complicado mecanismo de avaliação de custos para os filmes, e enfiou goela abaixo dos distribuidores e exibidores a exigência de que o ingresso para ver um filme deveria custar cerca de 0,001% do orçamento total do filme (o exemplo do relise distribuído à imprensa era: “O ingresso para um filme que custou um milhão de dólares deveria custar dez dólares”). Falou-se em redistribuição de renda, em geração de empregos, em incentivo à produção local.

Isto provocou, é claro, um enorme mal-estar e uma saia muito justa com os distribuidores internacionais, que até então achavam muito natural que um filme de Indiana Jones cobrasse o mesmo preço de ingresso cobrado por um filme-de-arte como Seis tonalidades de bruma de Zbigniew Tornatolski. Como a essa altura a economia do país já estava totalmente dolarizada (um pão francês chegava a custar mais de 10 milhões de “vezlatys”, a moeda local), o mercado exibidor se deparava com filas gigantescas querendo ver filmes importados a custo quase zero (Andy Warhol, Julio Bressane, John Cassavetes), cuja entrada custava alguns centavos de dólar ao espectador. E no cinema ao lado, havia um engarrafamento de limusines, tapete vermelho, gambiarras de luzes e cronistas sociais para receber a burguesia local e o alto escalão do governo, gente capaz de pagar um ingresso de 2.370 dólares para assistir o Avatar de James Cameron (claro que todos recebiam dos cofres públicos uma ajuda de custo especial para isto, mas aí já é outra história).

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

2667) Bicicleta abandonada (21.9.2011)



(foto: Joe Schumacher)

A idéia é de Avram Davidson, em “Or all the Seas with Oysters” (que eu traduziria por “E os mares cobertos de ostras”). É uma teoria científica heterodoxa (os cientistas ortodoxos são incapazes de ter novas idéias sobre o Universo). O conto, ganhador do Prêmio Hugo de 1958, mostra o diálogo entre dois amigos: Ferd (que gosta de livros, LPs e conversas de alto nível) e Oscar (que gosta de cerveja, boliche e mulheres). Ferd se interessa por fenômenos biológicos: o mimetismo, que faz algumas criaturas vivas se disfarçarem como objetos (galhos, pedras, etc.) para atrair vítimas; e a regeneração, que faz um lagarto crescer um rabo novo depois de ter o rabo cortado.

E Ferd diz: já repararam como os alfinetes de segurança (ou “broches de fraldas”) parecem sumir quando a gente, com bebê em casa, mais precisa deles? Já repararam como os cabides de roupa (ou “ombreiras”) parecem se multiplicar nos armários – a gente deixa dois e no dia seguinte encontra cinco? Ferd descobre que o mundo está sendo invadido por uma espécie nova, uma raça de seres metálicos. Sua forma inicial é o alfinete de segurança. Daí ele evolui para a forma de cabide, que é a larva. E finalmente desabrocha na forma adulta, que é a bicicleta.

Ferd explica ao boquiaberto Oscar que essas criaturas vivem de elementos que captam do ar; e que evoluem, mudando de forma, apenas quando não são vistas por ninguém. Uma grande parte das bicicletas que vemos na rua (acorrentadas aos postes e às grades, abandonadas nos parques, etc.) não foram feitas numa fábrica. São formas mutantes que esses seres metálicos adotaram por mimetismo, para passar despercebidos.

O fotógrafo Joe Schumacher, que mora no Harlem (Nova York) tem um websaite onde fotografa de tudo, inclusive bicicletas abandonadas. Uma das suas fotos mostra um desenvolvimento insuspeitado da teoria de Davidson. (http://bit.ly/qZTVjj) Num daqueles mourões de metal usados para “ancorar” bicicletas nas ruas, ele registrou a presença de três dessas criaturas, acorrentadas juntas. Uma delas é um carrinho de supermercado – esse nosso carrinho comum, de trepidantes varetas metálicas. A segunda é uma bicicleta normal e a terceira é uma dessas bicicletas de entrega, com uma caixa plástica de colocar garrafas de leite. Um casal com seu filhote? Um sambaqui onde jazem três estágios sucessivos da evolução de um alienígena, uma forma de vida baseada no alumínio e agora, darwinianamente, incorporando o plástico? Ah, amigos, a ciência oficial não se pronuncia a respeito, está ocupada projetando cíclotrons que não servem para nada, e inventando antidepressivos para a indústria farmacêutica.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

2666) Tudo já foi dito? (20.9.2011)




Por que alguém ainda se dá o trabalho de escrever livros? Tudo já foi dito, tudo já foi feito, todas as histórias já foram contadas. Não existe nada na literatura de hoje cuja raiz dramatúrgica não esteja num épico indiano do século X ou numa fábula grega. 

Os escritores de hoje querem ganhar a vida honestamente, e ninguém pode negar esse seu direito. Mas se querem dizer uma frase nova, contar uma história inédita, trazer alguma idéia original, vão perder a viagem: podem ir tirando o cavalinho da chuva, alojando-o no estábulo e acomodando-se na cama para passar a noite.

John Barth é um desses escritores doidos para dizer algo de novo e constatando, com uma espécie de euforia horrorizada, que tudo já foi dito. Num artigo no The Atlantic (http://bit.ly/r2sswu), ele cita um texto egípcio de 2.000 a. C., em que o escriba Khakheperresenb comenta, com nostalgia: 

“Ah, se eu tivesse frases que não fossem conhecidas, numa linguagem nova que jamais foi usada, sem uma só frase que tivesse perdido o viço e que já tivesse sido dita pelos homens de antigamente!”. 

Barth, um deus-pequenino do Pós-Modernismo, é um desses escritores que, vendo a impossibilidade de contar uma história que ainda não foi contada, mexem o tempo inteiro no software da contação de histórias. Como a maioria dos escritores oriundos do meio acadêmico, ele dá a impressão de que leu 50 romances e 500 livros sobre Teoria do Romance. Ou, como disse certa vez uma amiga minha: “Ler um romance escrito por um professor de Literatura é como fazer sexo com um ginecologista”.

É típico não do escritor, mas do professor de Literatura, pensar se aquilo que está dizendo já foi dito antes, e dito melhor. O professor de Literatura compara o livro que está escrevendo com os livros que já foram escritos; o escritor compara o tumulto da página com o tumulto que está na sua cabeça e esquece o resto. 

Se um indivíduo escreve tendo em mente o propósito de acrescentar algo de novo à Literatura Universal (ou mesmo à Literatura Paraibana, se suas ambições forem mais modestas) vai se ver num beco sem saída, porque há milhões de direções em que essa brava literatura pode ser expandida com proveito. Faria melhor se considerasse que o livro que pretende escrever não pertence nem à Paraíba nem à Humanidade, mas a si mesmo. 

Se algo já foi dito e já foi escutado, nada nos impede de dizer e escutar de novo, porque nenhuma pedra é arremessada duas vezes à água do mesmo rio. As histórias pedem para serem contadas de novo, porque sempre haverá quem ainda não as escutou, e é um privilégio contá-las pela milésima vez a alguém que as está escutando pela primeira.









domingo, 18 de setembro de 2011

2665) Um cão achado na rua (18.9.2011)



Meia-noite de um daqueles domingos intermináveis em que o Tempo corre devagar, cedendo ao desejo de bilhões de pessoas que abominam ou temem as manhãs de segunda-feira. O domingo é um monstro que se recusa a morrer. Mesmo fuzilado, eletrocutado, envenenado, decapitado e incinerado, ainda mostra estremeções na ponta da cauda que não foi reduzida a cinzas. Você volta para casa a contragosto, porque os companheiros de mesa entregaram os pontos, pediram a conta, recusaram a saideira. Você vai pela Rua do Catete, de volta ao apartamento abafado onde ressona a família. Uma vez você batizou esse apartamento de “A Jangada da Medusa”, porque a única coisa que o prende àquelas pessoas é o fato de estarem conseguindo sobreviver juntos até agora.

Um cão remexe o lixo e ergue os olhos. Procurando um pretexto para retardar a entrada em casa, você pergunta: “E aí, achou o que comer?”. Uma das leis ocultas do Universo é que os cães são incapazes de falar, a menos que alguém lhes faça uma pergunta a sério. Frasezinhas carinhosas não contam. O cão larga dos dentes um naco corroído e diz: “Achei, mas será que na tua casa não tem alguma coisa melhor?”. Algumas coisas são tão improváveis que quando acontecem a gente reage da maneira mais prosaica possível. Você diz: “Gosta de presunto? Bora”.

Todos dormem. Na cozinha exígua, o cão se sacia de presunto. Depois percorre com você o apartamento. Ele é um cão meio psicólogo. “Essa é tua mulher? Rapaz, tu não pode reclamar. Sim, não é capa da Playboy. E daí? E tu, já te olhasse no espelho? Bota as mãos pro céu. A madame aqui dá um caldo.” Segundo quarto. “Esse teu filho tem asma. E essa tua menina vai ficar dentuça, tira esse dedo da boca dela. Pô, tu é um pai relapso, hem?”. Na bicama da sala, a sogra. “Parece gente boa. Implica contigo? Claro que implica. Ela achava que a filha ia casar com o Príncipe de Mônaco. E se ela tivesse casado com ele, ia reclamar do desodorante que ele usa. Mãe é mãe.”

Você oferece dormida, ele abana as orelhas. “Deus me livre, aqui tem muito gás carbônico, prefiro dormir na rua. Vou te dar uma dica. Vi tua casa, tuas estantes, teus CDs... Vai na Rádio Lux, fala com Domício Pereira. Ele vive atrás de um diretor de programação, e eu acho que você entende do assunto. Ele me serviu um hamburger uma vez. Gente fina, mas fuma pra caramba”. Você o leva até a porta, os dois se despedem. Este encontro mudará sua vida, mas nem mesmo Domício, seu futuro patrão, iria acreditar, embora diga às vezes: “Rapaz, uma vez eu levei um cachorro lá em casa, dei um hamburger, o bicho comeu como se fosse um menino de dez anos...”

sábado, 17 de setembro de 2011

2664) Café não costuma faiá (17.9.2011)



Pegar a garrafa térmica, lavá-la em água corrente, deixá-la na pia, perto do fogão. Pegar a chaleira e enchê-la até um ponto que o olho já sabe. Acender o fogo, colocar a chaleira, colocar o suporte e o porta-filtro sobre a boca da garrafa. Pegar o vidro com o pó, pôr no filtro a quantidade certa, também sabida “de olho”, impossível de quantificar. Quando outra pessoa vai fazer e pergunta: “quantas colheres?”, não há resposta possível. É no olho, ponto final.

Sento e fico olhando a chaleira esquentar. Café é uma droga? Espero que a “Food and Drugs Administration” norte-americana nunca chegue a esse veredito. É um estimulante artificial; produz um estado de euforia mental durante algum tempo; produz insônia, nervosismo e outros efeitos colaterais (em gente fraca, é claro); e vicia. Será que vicia mesmo? Não sei porque nunca parei de tomar. Nos últimos 50 anos certamente não se passaram dez dias seguidos sem que eu tomasse uma xícara de café. E a quantidade normal do meu dia é pelo menos um litro.

O café produz em mim o que o uísque produzia em Humphrey Bogart (“Todo mundo está três doses abaixo do normal”) ou em Paulo Francis (“Bebo para tornar as outras pessoas mais interessantes”). Ele produz uma argamassa neuronial que une a paisagem na janela, a data no calendário, a imagem no espelho, as tarefas na agenda, as mensagens no monitor, o milhão de versos incompletos perpetuamente esvoaçando no meu espaço mental como mariposas em torno de um poste aceso. O café é um diapasão energético que deixa tudo vibrando no mesmo mantra. Deixa nossa mente vibrando em uníssono com o cosmo, dizendo a si mesma e ao cosmos: Yes, we can! Qual é o cosmos que resiste a uma cantada dessas?!

A água chia; depois, borbulha. Dizem os experts que a água não deve ferver, pois queima o pó e altera o gosto. Uma vida inteira de hábitos rústicos me acostumou a esse gosto alterado, portanto sempre exijo que a água esteja fervendo quando a derramo no centro do pó, num fio contínuo, fazendo movimentos circulares para que o pó inteiro fique umedecido por igual (movimento que os experts também desaconselham, eita povinho desmancha-prazeres). O aroma sobe. Lembro a frase de um amigo: “O melhor momento do café é o cheiro antes do primeiro gole, assim como o momento mais bonito da mulher é quando ela se despe enquanto a esperamos na cama”. O cheiro do café é a prelibação, o antegozo. O estímulo que anuncia o prazer anuncia sempre o prazer total e sem condições, o prazer perfeito e platônico. A realidade fica sempre aquém, mas não importa. Todo café é perfeito, na trajetória da chaleira à xícara, e da xícara à boca.

2663) Como escrever depressa (16.9.2011)




(Tom Gauld)

Escrever depressa, produzir tantas mil palavras de texto por dia... É engraçado como se falava pouco nisso na História da Literatura Brasileira. A mentalidade nos 200 anos de nossa prosa de ficção é a da criação de obras de arte, não a da produção profissional de laudas de texto. 

O literato brasileiro vê com admiração e simpatia a frase atribuída a Oscar Wilde: “Levei a manhã inteira para tirar uma vírgula, e a tarde toda para colocá-la de volta”. 

E vê com certo constrangimento (é o meu caso, pelo menos) a afirmação de Isaac Asimov de que datilografava um conto inteiro do começo ao fim, e depois, sem sequer fazer correções à mão, botava num envelope e mandava para todas as revistas conhecidas até que alguma o aceitasse para publicação.

São o Artista e o Profissional: o que quer escrever muito bem e o que quer escrever bem muito. 

Ambas as mentalidades podem produzir grandes livros e livros medíocres. Um artigo de Michael Agger na revista eletrônica Slate usa uma maneira diferente de classificar esses dois tipos. Diz ele: 

“Alguns escritores são beethovenianos, que desprezam os resumos prévios e as anotações, e ao invés disso compõem rascunhos de imediato, para descobrir o que querem dizer, enquanto outros são mozartianos, cujo costume é adiar indefinidamente a hora de escrever, enquanto se dedicam a longa planificação e planejamento”. 

Não é exatamente a mesma coisa, mas reforça a idéia de que existem pelo menos duas abordagens básicas para o ato da escrita. E muitos pretendentes a escritor perdem um tempo danado em oficinas literárias onde professores (bem intencionados, claro) tentam convencê-los a escrever de um jeito que não é o seu jeito natural de pensar e de produzir esforço intelectual.

Agger cita Chenoweth & Hayes (The Cambridge Handbook of Expertise and Expert Performance), para quem as frases da prosa são produzidas numa estrutura do tipo rajada-pausa-avaliação, rajada-pausa-avaliação, sendo que quanto mais experiente o autor mais longas são as rajadas de texto que ele produz a cada vez. 

Já Kellogg, na mesma obra, afirma que escrever a sério é ao mesmo tempo uma questão de pensamento, de linguagem e de memória, e pode se comparar ao esforço mental de um jogo de xadrez profissional ou de uma performance musical de alto nível. 

A mente do escritor está manejando três coisas: o texto que escreve, as coisas que pretende dizer em seguida, e, de modo crucial, teorias de como os seus possíveis leitores irão interpretar o que foi escrito. 

Talento, experiência e estado mental adequado podem fazer com que alguém escreva dessa forma durante um tempo bem longo, e com razoável rapidez.





quinta-feira, 15 de setembro de 2011

2662) O Livro Fantástico (15.9.2011)




Um tema que se alastra cada vez mais na literatura fantástica é o que poderíamos chamar, correndo o risco de uma certa redundância, de O Livro Fantástico. 

Uma grande influência nesse tipo de literatura é a obra de Jorge Luís Borges, que escreveu sobre uma biblioteca infinita (“A Biblioteca de Babel”), um livro infinito (“O Livro de Areia”), um livro que era um labirinto (“O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam”), uma enciclopédia de outro mundo que invade este (“Tlon, Uqbar, Orbis Tertius”) e assim por diante. 

No andar térreo dessa literatura está H. P. Lovecraft com o seu “Necronomicon”, o livro que codifica terrores indizíveis de uma época em que nosso mundo era governados por potestades cósmicas malignas. A Encyclopedia of Fantasy de John Clute & John Grant tem um longo verbete (escrito por Clute, Dave Langford e Brian Stableford) listando esses livros transcendentais, que são personagens por conta própria, núcleos de significação em torno dos quais gravitam os personagens humanos das histórias.

http://sf-encyclopedia.uk/fe.php?nm=books

Há agora toda uma literatura sobre livros míticos, livros mágicos, livros miraculosos, livros que interferem na realidade, livros que manipulam o leitor. 

Livros dados como perdidos e que surgem em nosso mundo para provocar crimes e desastres, como em O Nome da Rosa de Umberto Eco. Livros que são portais para outros mundos, como em A História Sem Fim de Michael Ende. Livros construídos em parceria pelos seus leitores, que podem inclusive modificar o universo em que viveu o autor, como em “The Least Trumps” de Elizabeth Hand. 

Esses livros não são meros objetos passivos, são atores, protagonistas; interferem na realidade, mudam tudo à sua volta, e não apenas pelos modos tradicionais (modificando idéias e opiniões de quem os lê), mas interferindo no mundo físico e se comportando como uma criatura viva, dotada de inteligência, vontade e capacidade de agir. Uma criatura capaz de evoluir; um livro que é outro a cada leitura.

Talvez isso seja uma contraofensiva da palavra escrita que se sente encurralada pela imagem; ou da palavra impressa sentindo-se encurralada pela palavra eletrônica. O livro de papel, desdenhado por ser algo inerte, debate-se, agita-se, procura ganhar vida. Procura ser (olha a palavra crucial) interativo. 

Os livros mágicos da literatura fantástica desempenham papéis que só um livro eletrônico, um CD-Rom ou um video-game interativo são capazes de desempenhar. A literatura fantástica está escrevendo uma metáfora do futuro do próprio livro. Depois de mais de meio século imaginando livros fantásticos, começamos a ver o surgimento desses livros vivos, modificáveis e modificadores.





quarta-feira, 14 de setembro de 2011

2661) O mundo não me deve nada (14.9.2011)



Morreu nos últimos dias de agosto de 2011 o bluesman David “Honeyboy” Edwards, aos 96, tido como o último sobrevivente da geração dos chamados “Delta Blues Singers”, os músicos do delta do Mississipi que praticamente criaram as raízes do blues que conhecemos hoje. 

Honeyboy teria sido, inclusive, a última pessoa ainda viva entre as que conviveram com o lendário Robert Johnson, cuja bola já enchi bastante, de modo que vamos direto ao mito do momento. 

Há muitos bons livros sobre a música e os músicos do blues; Edwards tem uma autobiografia (The World Don’t Owe Me Nothing, Chicago Review Press, 1997), escrita com o auxílio de jornalistas, em que ele conta de maneira cândida, descritiva, a sua versão da infância que teve, e de como se tornou músico. É um relato em primeira mão que não deve ser descartado, mesmo levando-se em conta que depois que alguém fica velho seu passado fica mais enfeitado do que burra de cigano. Cada ano que passa o ancião inventa uma lembrança nova. 

Não importa. O que me interessa em livros desse tipo não é o dado factual, aquele que faz tremer o medidor do IBGE. Interessa-me a fábula, o sentimento, a verdade humana, à qual tanto se chega pela memória verdadeira quanto pela falsa. 

O livro de Honeyboy tem um título incapaz de ser melhorado: O Mundo Não Me Deve Nada. Isso é de uma nobreza admirável, de um alto-astral espantoso, vindo de um sujeito negro, pobre, cuja vida foi uma gincana de desafios. Mas Honeyboy tira tudo de letra, com um enorme sorriso cheio de dentes de ouro, que em mais de uma foto me lembrou o saudoso Zé Vicente da Paraíba, seu parente cósmico. 

Diz ele: “Eu era jovem, com boa aparência, e tinha a boca cheia de ouro. Mandei botar ouro nos dentes da frente, para chamar a atenção e mostrar estilo.” É o fraco! 

Honeyboy é aquele típico crioulo cheio de chinfra, um malandro do bem. Conta mil histórias dos bastidores do blues: 

“Todo mundo pegava músicas uns dos outros e as modificava. É assim que as canções surgem. Você senta, pega um verso de uma música, um verso de outra. É a única maneira de fazer uma coisa nova! Ou pega dois ou três versos e põe outra melodia”. 

Edwards levava escorpiões secos num saquinho, num bolso, simpatia para dar sorte; pendurava o violão na parede, sobre a cabeceira da cama, mandinga para não esquecer as coisas que aprendera naquele dia. Cresceu, viveu e morreu no caldeirão inesgotável e mutante do blues. Era um músico de rua, da cultura oral que uma dúzia de folcloristas heróicos descobriu e preservou a partir dos anos 1930. 

Ele diz: 

“Eu já devia estar morto há mais de cinquenta anos, mas Deus ainda não estava pronto para me receber”.







terça-feira, 13 de setembro de 2011

2660) Onze de setembro (13.9.2011)



(manuscrito do séc. XIII)
 

Naquele dia, meu filho Gabriel, que na época tinha nove anos, mudou de canal, do Cartoon Network para a Globo, para assistir Dragonball Z no programa da Xuxa. Acordei não tanto com o volume da TV, mas como o tom angustiado e nervoso na voz do locutor; e já estava diante da tela quando o segundo avião explodiu de encontro à segunda torre. 

Fiquei colado ali, e perplexo como todo mundo. Antes do meio-dia, atendi telefonemas (sabe Deus como conseguiram meu número) da Rádio Jovem Pan e da Folha de São Paulo, ambas com a mesma pergunta: A ficção científica previra algo assim? 

Falei que a FC propriamente dita não, mas escritores de techno-thrillers como Tom Clancy tinham chegado perto. E comentei, com certa imodéstia, que meu conto “Jogo Rápido” (em A Espinha Dorsal da Memória, 1989) também postulava um ataque a um “cartão postal” – neste caso, um grupo terrorista que arrancava e roubava a cabeça do Cristo Redentor. (Não eram terroristas políticos, eram terroristas estéticos, um grupo de milionários que colecionava cabeças de estátuas famosas do mundo inteiro). 

Fantasioso, eu? De jeito nenhum, pensei, diante da TV onde as torres desmoronavam coreografadamente. Nos dias seguintes, li o depoimento do compositor Stockhausen, dizendo (e causando um tremendo escândalo junto à imprensa): “Aquilo foi a maior obra de arte que já existiu. Pessoas passam dez anos se preparando para um ‘concerto’, e no momento da execução morrem”. 

Eu já havia escrito os parágrafos acima quando, pouco antes da meia-noite entre sábado e domingo passados (de 10 para 11 de setembro) terminei a leitura da coletânea de contos Saffron and Brimstone de Elizabeth Hand, e me surpreendi ao ver no fim do livro uma “Afterword” datada de 11 de setembro de 2006. 

Hand fala que alguns contos do livro foram inspirados por um amigo que ela julgou ter perdido no atentado ao WTC. O último conto do livro, “The Saffron Gatherers”, mostra San Francisco sendo destruída por um terremoto no momento em que o avião da protagonista decola (ela vê tudo lá de cima). 

Diz Hand que a história desse amigo se tornou “a personificação das minhas ansiedades: desejo e perda; a ameaça do apocalipse; o poder e a vulnerabilidade do artista; meu fracasso constante em criar alguma coisa a partir da tristeza e do desespero”. 

Foi só mais uma sincronicidade (me ocorre com frequência ler por acaso um livro em que surge a mesma data em que o estou lendo), mas acho que exprime o que os atentados de 2001 passaram a significar para muitos escritores e artistas em geral. A necessidade, e a impossibilidade, de fazer literatura e arte sobre uma catástrofe tão esmagadora.






domingo, 11 de setembro de 2011

2659) A ilha ao meio (11.9.2011)




O helicóptero desce num ratatá de hélices e rotores, e pousa na mandala do heliporto. Desço acompanhado do tenente que me trouxe. Um coronel está no hangar para me receber. Numa sala com ar condicionado, há um bufê de café e salgadinhos. Ele me faz uma descrição detalhada, mostra desenhos, pranchas, fotografias antigas e recentes. A ilha tem alguns quilômetros de comprimento, algumas centenas de metros de largura. Ele mostra a maquete, indica onde fica a Base onde estamos. Examino uma foto enorme mostrando o Serrote circular que cortou a ilha ao meio: um semicírculo de metal emergindo do chão, com dezenas de metros de altura, alguns centímetros de espessura, dentes de liga de titânio com mais de um palmo.

Um carrinho elétrico nos conduz à Fronteira. Dia nublado, mas numa das encostas avisto o mar, onde ao longe bate sol. Elevações vulcânicas no meio de um terreno arenoso, quebradiço. Descemos a pé um barranco, por uma trilha de lajes horizontais fincadas na terra. Lá embaixo se estende uma planície, e a cem metros, já do Outro Lado, ergue-se uma escarpa de rocha escura, com manchas de vegetação. Caminhamos ao longo de uma espécie de istmo que liga as duas partes, tendo à esquerda e à direita dois horizontes azuis de mar. Chegamos por fim à Fronteira, uma linha reta, a meio caminho entre o barranco de onde descemos e a escarpa do lado oposto.

Agacho-me. A Fronteira é uma fenda de alguns centímetros de largura, com bordas revestidas de metal. Inclinando-me, vejo que, de cada lado da fenda, paredes de metal descem terra adentro, e percebo, lá no fundo, um reflexo na água do mar. Fico novamente de pé. Durante a viagem, tinha imaginado o que me sucederia se desse um passo por cima da fenda. Agora sei que isto é tão impossível quanto abrir os braços e me elevar rumo ao céu.

Não há diferença entre o solo de um lado e do outro, mas a ilha foi serrada ao meio, de maneira cirúrgica, implacável, e a um custo financeiro espantoso. Lembro as fotos: duas frotas simétricas de rebocadores firmando os cabos e a engrenagens por onde o Serrote se deslocou cortando o istmo. 

Olho para o Outro Lado, tão próximo e tão inacessível. “Há alguém lá?”, pergunto, “Há pessoas como nós, há construções, estradas, atividade humana?”. “É provável”, diz o oficial; “talvez agora mesmo estejam aí, diante de nós, mas evidentemente não podemos vê-los. O corte foi definitivo”. O sol bate do nosso lado, e bate lá no mesmo ângulo, mas a verdade é que ilumina dois mundos diferentes, dois mundos que um dia foram um só. Agora, mesmo visível, aquela metade da ilha está mais distante do que um planeta que não se vê no céu.