sábado, 8 de março de 2008
0099) O centauro, a catedral e a televisão (16.7.2003)
(Catedral de Rouen, com projeção luminosa)
A Arte de Ver é mais recente do que parece. Os gregos, por exemplo, não tinham o hábito de usar cavalos como montaria. Quando começaram a ver tribos de nômades a cavalo, julgaram que o torso daqueles homens emergia diretamente do corpo do animal, e assim surgiu a lenda do centauro.
O que prova, pelo menos para mim, que é mais fácil inventar uma coisa impossível do que aceitar uma coisa com a qual não se está acostumado.
Algo parecido sucedeu na América. O cavalo era desconhecido em nosso continente, e os incas, astecas, etc. não entendiam por que motivo eles matavam metade daquele monstro e a outra metade se despregava da metade morta e continuava batalhando.
Não adiantaria de nada chegar para os incas e gritar: “Vocês estão cometendo um erro conceitual!” Eles só enxergavam o que estavam preparados para enxergar.
Há um conto policial em que o detetive vê na neve as pegadas de um homem e uma mulher indo até a beira de um rio, e depois as pegadas do homem voltando sozinho. A dedução imediata é de que a mulher foi embora de barco, ou nadando. O detetive, contudo, observa que na volta as pegadas do homem estão mais profundas do que na ida, e que portanto ele voltou carregando o corpo da mulher nos braços.
Bertrand Russell disse certa vez que durante milênios os seres humanos pensavam numa junta de bois e num par de dias sem perceber que a ambos se aplicava o conceito de “dois”.
Descobrir o conceito de número é uma coisa intelectualmente tão embriagante que tem gente que não pára nunca mais. Para alguns cérebros, transforma-se numa função exclusiva, atrofiando todo o resto. O “rain man” de Dustin Hoffman via uma caixa de fósforos ser derramada no chão e dizia de imediato: “Cinquenta e oito...” Ele via. Ele só via isso.
Às vezes enxergamos muitos sem perceber que estamos vendo apenas um. Foi o que sucedeu com Halley, que um dia se tocou que “aqueles cometas todos” que passavam era um só, voltando a intervalos regulares.
Em outros casos, só conseguimos descrever adequadamente uma coisa se a considerarmos como duas. É o caso da luz, que tanto pode ser formada de ondas quanto de partículas, duas descrições que se auto-excluem, mas que parecem ambas corretas.
Conta uma historieta que um camponês levou certa vez à cidade seu filho pequeno, que nunca tinha saído da roça. Lá, foram à catedral, uma daquelas gigantescas catedrais góticas: Reims, algo assim. Quando voltaram para casa, a família pediu ao menino que descrevesse a catedral que tinha visto. Ele hesitou, hesitou, e por fim pôs as mãos no chão, plantou uma bananeira, e ficou ali sem dizer uma palavra. Eu não conheço melhor descrição da experiência de entrar numa catedral gótica.
Outro matuto, lembrado por Guimarães Rosa, ouviu a avó pedir-lhe que explicasse como era a tão falada televisão, e saiu-se com esta: “Vó já viu uma máquina de costura? Pois bem: a televisão é completamente diferente!”
0098) Como recordar um sonho (15.7.2003)
A primeira coisa é não abrir os olhos, não fazer o menor movimento. No instante em que você perceber que acordou, tem que continuar imóvel. Qualquer alteração física irá cortar o processo que ocorre na sua mente.
Você já sabe que acordou, sabe em que posição está, ouve ao seu redor vozes, ruídos da rua, etc. Esqueça tudo e pense no sonho, que está se esvaindo. Um programa mental chamado Aqui-e-Agora acaba de ser ativado, e o sonho não se encaixa nele.
Esqueça quem é, e onde está. Repasse as imagens do sonho, sem tentar verbalizar, apertando o botão FF e verificando se está tudo ali. Tente fazer um balanço total do sonho.
Sonhos têm um caráter segmentado. Às vezes recuperamos dois ou três episódios, mas havia muito mais. Quando tiver pescado o máximo possível, dê uma repassada na versão total, devagar. Depois outra, agora já tentando verbalizar alguma sensação difusa (“Eu estava querendo ir para minha casa, e era na véspera de uma data importante”) ou registrar uma ambiguidade (“Eu estava na casa de Fulano, só que era um enorme salão cheio de móveis empoeirados”).
O importante neste momento é fazer com que a ascensão da mente, de 100% sonhando para 100% desperta, seja lenta e gradual, trazendo à tona o que foi possível salvar do sonho.
Convém ser lento ao sentar na cama, abrir os olhos, começar os gestos rotineiros. Já vi sonho dar um pipoco e sumir no vácuo só porque perdi alguns segundos procurando o chinelo. (Destino mais trágico é o dos que são guilhotinados pelo toque do telefone.)
O sonho ainda deve ser ruminado e fortalecido durante o lavar o rosto, o tomar café, o trocar as primeiras frases com a família. Depois, se achar que vale a pena. anote.
Muitos publicam livros contando o que sonharam: Jack Kerouac (Book of Dreams), George Perec (La boutique obscure), William Burroughs (My Education).
O mais conhecido dos poemas sonhados é o “Kublai Khan” de Coleridge, mas os exemplos literários são incontáveis. Stevenson sonhou o Médico e o Monstro, Mary Shelley o Frankenstein, Bram Stoker o Drácula. Talvez porque na época destes autores o principal analgésico era o láudano, que tem efeitos alucinógenos.
O que fazer com o sonho? Ninguém sabe, portanto cada um pode fazer dele o que lhe der na telha. O sonho é um jogo-de-Acaso. É como jogar búzios ou arcanos, só que os elementos manipulados pelo Acaso são pedaços de pensamentos nossos.
Há quem interprete sonhos, extraia deles todo tipo de presságio, de inspiração, de justificativa. Costumo anotar os meus, porque tenho facilidade para escrever.
Há pessoas que numa noite sonham décadas inteiras de outra vida. Há pessoas que quando dormem lembram-se de tudo sobre o mundo da vigília, e quando acordam esquecem do que sonharam. Há músicos que têm sonhos musicais, sonhos sem história, sem imagens, sem aquis, sem agoras, sonhos de harmonias que não têm limite e melodias que não têm fim.
0097) O jornalista (13.7.2003)
Os literatos esnobam os jornalistas. É natural. Um sujeito que se dá o luxo de só escrever quando está emocionado tem o direito de olhar com comiseração um pobre coitado que tem de encher uma página todo dia, inspirado ou não. Pescar no fim de semana todo mundo gosta; é um passatempo, que se pratica (explicam os fim-de-semanistas) “para desopilar”. Mas, e o camarada que se não pescar não janta?
O jornalista é um desses que têm de sair todo dia para pescar, chova ou faça sol, e não adianta desculpa se voltarem para casa de mãos vazias. Ninguém nunca viu um jornal sair com meia página em branco, tendo ao lado a explicação de que “as notícias hoje foram poucas”. Isso não existe.
Jornalista sai todo dia pra pescar, e oferecer para o jantar o que trouxer, mesmo que seja uma bota velha ou uma câmara-de-ar naufragada.
Em seu conto de ficção científica “Utopia de um homem que está cansado” (no Livro de Areia), Jorge Luís Borges faz seu protagonista visitar o futuro remoto, e descrever assim a nossa época:
“Em meu curioso ontem, prevalecia a superstição de que entre cada tarde e cada manhã ocorrem fatos que é uma vergonha ignorar. Tudo isto se lia para o esquecimento, porque em poucas horas o apagariam outras trivialidades.”
Imagino que muitas crianças, ao começar a entender o que é um jornal, terão se maravilhado com o fato de que todos os dias acontecem coisas na quantidade certa para encher aquele mesmo número de páginas. Uma prova de que a vida tem sentido.
O jornalismo como explicação do mundo pertence a uma época em que, diz Borges, “as pessoas eram ingênuas: acreditavam que uma mercadoria era boa porque assim o afirmava e repetia seu próprio fabricante.”
Luís Buñuel, alguns meses mais novo que Borges, compartilhava deste sentimento:
“A leitura dum jornal é a coisa mais angustiante do mundo. Se eu fosse um ditador, limitaria a imprensa a um único jornal diário e a uma única revista, sendo os dois rigorosamente censurados. A informação-espetáculo é uma vergonha.”
Buñuel e Borges são “gentlemen” idealistas, que recuam ao perceber o teor levemente prostitucional de toda atividade remunerada.
Não é assim, contudo, que eu vejo um jornal, ou melhor, sei que é assim, mas tem outro lado.
Eu vejo um jornal como se ele fosse feito por um cara que passa a noite acordado, à luz fluorescente de seu gabinete, cercado de livros, conectado com o mundo inteiro, todos os países, todas as cidades. Ele sabe tudo que está acontecendo, recebe e classifica todas as informações, trabalhando sem parar. Depois desce para o porão da casa, bota as rotativas para funcionar. Quando o dia amanhece, os passarinhos acordam e o sol clareia a rua, ele vem, trôpego de insônia, abre timidamente a porta da frente, olha a rua deserta... E deposita no batente aquele exemplar único e insubstituível, fecha a porta, e vai dormir, na esperança de que alguém se interesse pelas coisas que ele, bem ou mal, conseguiu pescar.
O jornalista é um desses que têm de sair todo dia para pescar, chova ou faça sol, e não adianta desculpa se voltarem para casa de mãos vazias. Ninguém nunca viu um jornal sair com meia página em branco, tendo ao lado a explicação de que “as notícias hoje foram poucas”. Isso não existe.
Jornalista sai todo dia pra pescar, e oferecer para o jantar o que trouxer, mesmo que seja uma bota velha ou uma câmara-de-ar naufragada.
Em seu conto de ficção científica “Utopia de um homem que está cansado” (no Livro de Areia), Jorge Luís Borges faz seu protagonista visitar o futuro remoto, e descrever assim a nossa época:
“Em meu curioso ontem, prevalecia a superstição de que entre cada tarde e cada manhã ocorrem fatos que é uma vergonha ignorar. Tudo isto se lia para o esquecimento, porque em poucas horas o apagariam outras trivialidades.”
Imagino que muitas crianças, ao começar a entender o que é um jornal, terão se maravilhado com o fato de que todos os dias acontecem coisas na quantidade certa para encher aquele mesmo número de páginas. Uma prova de que a vida tem sentido.
O jornalismo como explicação do mundo pertence a uma época em que, diz Borges, “as pessoas eram ingênuas: acreditavam que uma mercadoria era boa porque assim o afirmava e repetia seu próprio fabricante.”
Luís Buñuel, alguns meses mais novo que Borges, compartilhava deste sentimento:
“A leitura dum jornal é a coisa mais angustiante do mundo. Se eu fosse um ditador, limitaria a imprensa a um único jornal diário e a uma única revista, sendo os dois rigorosamente censurados. A informação-espetáculo é uma vergonha.”
Buñuel e Borges são “gentlemen” idealistas, que recuam ao perceber o teor levemente prostitucional de toda atividade remunerada.
Não é assim, contudo, que eu vejo um jornal, ou melhor, sei que é assim, mas tem outro lado.
Eu vejo um jornal como se ele fosse feito por um cara que passa a noite acordado, à luz fluorescente de seu gabinete, cercado de livros, conectado com o mundo inteiro, todos os países, todas as cidades. Ele sabe tudo que está acontecendo, recebe e classifica todas as informações, trabalhando sem parar. Depois desce para o porão da casa, bota as rotativas para funcionar. Quando o dia amanhece, os passarinhos acordam e o sol clareia a rua, ele vem, trôpego de insônia, abre timidamente a porta da frente, olha a rua deserta... E deposita no batente aquele exemplar único e insubstituível, fecha a porta, e vai dormir, na esperança de que alguém se interesse pelas coisas que ele, bem ou mal, conseguiu pescar.
0096) O boêmio (12.7.2003)
("Night Shadows", Edward Hopper, 1921)
“Hoje que a noite está calma, e a minha alma esperava por ti...” Há noites em que o vento sopra mais morno, uma vibração de luzes perpassa pela cidade, e o ruído discordante dos motores e das buzinas parece regido por um maestro de bom coração. É o sinal para que o boêmio saia à rua, penetre em seu mundo além da jurisdição dos relógios e da moeda corrente no país. O boêmio: não o alcoólatra, não o glutão, não o meramente raparigueiro. Não o sujeito descontrolado que torra o salário-mínimo no botequim enquanto a família passa fome. Quem faz isto é um desajustado. O verdadeiro boêmio é um sujeito em harmonia com os dez mandamentos e a Constituição, e em paz consigo mesmo.
Boemia é uma arte de instaurar num trecho do espaço e do tempo um espaço fictício, que obedece a outras leis. O boêmio cumpre suas obrigações, atende a comunidade, respeita a lei sempre que pode, e considera-se um cara de bons costumes. Põe no seu mundo o que Deus pôs no seu Paraíso: o que achava bom. Bebida, jogo, música, mulheres, pândega, filosofia, romantismo, estripulias.. cada boêmio planeja e executa seu céu particular.
Ao longo dessa noite, só coisas boas deverão acontecer. Como o conceito de coisas boas jamais foi unânime, atribuem-se a todos os boêmios alguns desmantelos causados por eventuais boêmios valentões, ou insultuosos, ou maus pagadores. É uma injustiça, porque o verdadeiro espírito da boemia é de paz-e-amor, de convivência pacífica e de generosa honestidade. O boêmio quer ver todo mundo tranquilo e bem-humorado, para que ele possa continuar a fazer o que gosta: tocar violão, namorar, contar filme, recitar versos, receitar o Mundo, celebrar o passado, poetizar o presente, ficcionalizar o futuro.
Canções que louvam a boemia são incontáveis, desde os boleros de Adelino Moreira para Nelson Gonçalves até recriações mais modernizadas como “Olê, Olá” de Chico Buarque ou o “Mr. Tambourine Man” de Bob Dylan. Há uma percepção mágica de que de noite as amarras do mundo estão mais frouxas, o zumbido ensurdecedor de tantas mentes alheias se reduz a um sussurro quase inaudível – e o boêmio caminha leve, enxerga longe e pensa largo. Ele quer que aquela noite não acabe nunca, e é pelo poder encantatório da palavra e das libações que consegue retardar a marcha do Sol.
Muitos boêmios acabam com a própria saúde, mas não é devido à boemia, e sim ao fato de que bebem mal, fumam mal, alimentam-se mal. Não fosse assim, descobririam que uma noite inteira de boemia conta apenas uma hora em termos de envelhecimento. Poderiam tornar-se, com sorte, Matusaléns em plena ativa. A boemia decerto envolve aventura (quem não se deleita com o risco de beber a noite inteira num lugar barra-pesada?), mas os riscos lhe pertencem como pertence a pimenta à moqueca, ou o soar de címbalos à sinfonia. Seu roteiro é de paz, e a filosofia que espalha é como a do Rubayat de Omar Khayam: a de que o Instante é mais real do que a Eternidade.
0095) Vamos conversar com os macacos (11.7.2003)
Se pegássemos o dinheiro que já investimos em Informática e o direcionássemos, digamos, para “Aprendizado da Linguagem dos Macacos”, já estaríamos conversando com eles tão fluentemente quanto conversamos com certos computadores, levando em conta as limitações de cada um.
Uma escritor ingênuo de Ficção Científica pode fantasiar que os macacos começariam a nos dar lições de filosofia e de humanismo, a nos revelar ângulos insuspeitados do nosso mundo. Duvido muito. Pode ser preconceito, mas acho que os macacos são ainda mais tapados do que nós.
Uma linguagem em comum, no entanto, abriria uma possibilidade fascinante. Poderíamos aplicar neles uma lavagem cerebral equivalente à que aplicamos em nós mesmos, e torná-los excelentes operários. Não precisaríamos recorrer à massificação ideológica, como no 1984 de Orwell, nem à manipulação biológica, como no Admirável Mundo Novo de Huxley. Teríamos apenas que criar um dicionário compartilhado de idéias e instruções.
De posse disto, poderíamos ensinar-lhes tarefas essenciais: pedreiro, carpinteiro, carregador, lavador de pratos, lavador de roupas, mecânico de automóveis, lixeiro, lavrador...
Teríamos de induzi-los à obediência, mas é justamente esta a especialidade de nossa civilização: produzir alucinações motivacionais nas pessoas. Uma parte da verba iria para o Departamento de Teleologia, onde marketólogos, filósofos e lingüistas trabalhariam juntos na criação de uma ideologia qualquer (religiosa, política, científica...) para traduzir o mundo em linguagem simiesca.
Ser-lhes-ia explicado por a+b que cabe aos humanos o terrível fardo de administrar o mundo, com todas as preocupações e responsabilidades que isto acarreta; e cabe aos símios a cômoda função de apenas obedecer ordens e executar instruções durante 8 horas por dia, e divertir-se no restante. Quanto quer de aposta como eles acabariam acreditando?
Macacos e tarefas, há de todo tipo. Dizem que o chimpanzé é o mais inteligente; poderíamos ensinar-lhe ofícios que exigissem iniciativa, desenvoltura, coordenação motora. Consta que os gorilas são um pouco mais broncos, mas poderiam virar segurança de buate, guarda-costas, estivador, etc.
Claro que usar tais ajudantes iria exigir também um aprendizado de nossa parte. Teríamos, talvez, que aprender algo como as linguagens de sinais usadas por surdos-mudos ou por operadores da Bolsa de Valores. Ou teríamos que decorar um vocabulário-base de 50 ou 100 grunhidos, para dizer coisas como “Kingkong, troca rapidinho esse pneu, enquanto eu tomo banho”, ou “Chita, varre a calçada.”
Uma nova Idade de Ouro se descortinaria diante da Humanidade. É só pegar no laço esses bilhões de desocupados, que não fazem outra coisa senão comer bananas ou saltar nos cipós, e ensinar-lhes a obediência, a higiene pessoal, o catecismo, a tabuada, o valor do trabalho e a importância da honradez. Pode ser que desta vez dê certo.
094) A vida de emboscada (10.7.2003)
No ato final da peça “Nossa cidade” de Thornton Wilder (que vi numa montagem inesquecível, no Teatro Municipal de Campina, nos idos dos anos 60), há uma cena comovente em que uma moça morta recebe a chance de voltar por alguns minutos e reviver um dia do seu passado. Ela escolhe o dia de seu aniversário de doze anos, mas não consegue revivê-lo por completo, tal a intensidade das lembranças. Retorna ao convívio dos mortos, e diz: “Será que nenhum ser humano é capaz de perceber o que é a vida, enquanto a vive, minuto a minuto?” E um dos mortos responde: “Estar vivo é isso: mover-se numa nuvem de ignorância, sair pisoteando os sentimentos alheios, gastar e desperdiçar seu tempo como se tivesse um milhão de anos pela frente.”
Existe na vida humana uma contradição básica entre o fato de sabermos que podemos morrer a qualquer instante e o fato de que a vida só tem sentido se fizermos planos para o futuro, seja este a curto, médio ou longo prazo. Sabemos que não temos um milhão de anos para viver, mas mesmo um sujeito com cem anos de idade tem o direito de pensar consigo mesmo: “Ora que diabo, já vivi cem, posso aguentar mais uns vinte ou trinta...” Mesmo um sujeito no cadafalso pensa, quando lhe colocam o laço no pescoço: “Quanto é a aposta que essa corda vai se torar?...” Esperança é fogo. Edgar Poe já dizia: “Era a esperança que fazia assim tremerem os meus nervos, que assim me dava calafrios ao corpo. Era a esperança... a esperança que triunfa, mesmo sobre o cavalete de tortura, a esperança que sussurra aos ouvidos do condenado à morte, até mesmo nas masmorras da Inquisição!”
Isso não nos proíbe de desfrutar o valor e o sabor de cada momento. O roqueiro Warren Zevon está com câncer inoperável há vários meses, e todos os dias vai ao estúdio deixar material gravado. Vem recebendo homenagens pré-póstumas de todo o mundo do rock; Bob Dylan tem cantado músicas dele em seus shows mais recentes, e David Letterman o levou ao “Late Show”, onde lhe perguntou se tinha aprendido algo importante. Zevon respondeu: “Aprendi a dar valor a cada sanduíche que como.” Mais bem-de-saúde do que Zevon estava John Lennon, mas isto não impediu que um maluco o abatesse a tiros na porta de casa, semanas depois do lançamento de um disco onde, na bela faixa “Beautiful Boy”, ele diz profeticamente: “A vida é o que lhe acontece quando você está ocupado planejando outras coisas.”
Morte não manda recado, nem carta, nem telegrama. Pode ser uma bala perdida numa praça carioca, ou uma batida de carro besta numa rua de Campina. Jovens saudáveis vão-se embora aos vinte anos, enquanto alguns velhinhos, já de testamento feito, ficam anos à espera de que a indesejada das gentes venha fazer toc-toc à sua porta. Ninguém tem um milhão de anos pela frente. Tudo pode estar por um segundo. Mas faz parte do espírito humano esta certeza inabalável de que vai conseguir, de que tudo vai dar certo, de que vai dar tempo, sim, acho que vai dar.
Existe na vida humana uma contradição básica entre o fato de sabermos que podemos morrer a qualquer instante e o fato de que a vida só tem sentido se fizermos planos para o futuro, seja este a curto, médio ou longo prazo. Sabemos que não temos um milhão de anos para viver, mas mesmo um sujeito com cem anos de idade tem o direito de pensar consigo mesmo: “Ora que diabo, já vivi cem, posso aguentar mais uns vinte ou trinta...” Mesmo um sujeito no cadafalso pensa, quando lhe colocam o laço no pescoço: “Quanto é a aposta que essa corda vai se torar?...” Esperança é fogo. Edgar Poe já dizia: “Era a esperança que fazia assim tremerem os meus nervos, que assim me dava calafrios ao corpo. Era a esperança... a esperança que triunfa, mesmo sobre o cavalete de tortura, a esperança que sussurra aos ouvidos do condenado à morte, até mesmo nas masmorras da Inquisição!”
Isso não nos proíbe de desfrutar o valor e o sabor de cada momento. O roqueiro Warren Zevon está com câncer inoperável há vários meses, e todos os dias vai ao estúdio deixar material gravado. Vem recebendo homenagens pré-póstumas de todo o mundo do rock; Bob Dylan tem cantado músicas dele em seus shows mais recentes, e David Letterman o levou ao “Late Show”, onde lhe perguntou se tinha aprendido algo importante. Zevon respondeu: “Aprendi a dar valor a cada sanduíche que como.” Mais bem-de-saúde do que Zevon estava John Lennon, mas isto não impediu que um maluco o abatesse a tiros na porta de casa, semanas depois do lançamento de um disco onde, na bela faixa “Beautiful Boy”, ele diz profeticamente: “A vida é o que lhe acontece quando você está ocupado planejando outras coisas.”
Morte não manda recado, nem carta, nem telegrama. Pode ser uma bala perdida numa praça carioca, ou uma batida de carro besta numa rua de Campina. Jovens saudáveis vão-se embora aos vinte anos, enquanto alguns velhinhos, já de testamento feito, ficam anos à espera de que a indesejada das gentes venha fazer toc-toc à sua porta. Ninguém tem um milhão de anos pela frente. Tudo pode estar por um segundo. Mas faz parte do espírito humano esta certeza inabalável de que vai conseguir, de que tudo vai dar certo, de que vai dar tempo, sim, acho que vai dar.
0093) As máquinas voadoras (9.7.2003)
Em 17 de dezembro próximo, os EUA comemoram o centenário do dia em que os irmãos Wilbur e Orville Wright fizeram um vôo de 12 segundos ao longo de 40 metros, na localidade de Kitty Hawk, escolhida por eles para trabalhar longe dos curiosos e da imprensa (e também pelas suas areias fofas, muito úteis para aeronautas principiantes). Voaram outras vezes no mesmo dia, tendo o último vôo durado 59 segundos. Sempre achei que esse número 59 foi escolhido para dar plausibilidade científica ao fato. Se dissessem ter voado durante um minuto redondo, ia parecer coisa inventada.
Santos Dumont só é inventor do avião aqui e na França, que testemunhou suas façanhas, tornando-se cúmplice e parceira delas. Paris inteira ia ver os vôos de Santos Dumont com seus balões, e depois com suas aeronaves; era uma atração turística da época. Em sua autobiografia, Agatha Christie recorda tê-lo visto voar quando era uma adolescente em passeio na França. O Brasileiro Voador tinha os cientistas e a imprensa da Europa como testemunhas. Os Wright tinham apenas as próprias fotos e documentos dos vôos experimentais que vinham fazendo desde 1900, até que conseguiram, em 1903 (três anos antes de Dumont com seu “14-Bis”), fazer voar uma máquina auto-propulsora, mais pesada que o ar, comandada por um piloto.
Érico Veríssimo, num de seus relatos de viagem da série “Gato Preto”, conta ter entrado num Museu da Aviação norte-americano que mostrava desde um milenar papagaio-de-papel-de-seda chinês até um bombardeiro B-52; sobre Santos Dumont, nem uma plaqueta com o nome. Nosso brio nacional não perdoa um lobby tão desalmado. Se um dia o Brasil fôr no mundo o que os EUA são hoje, periga a História ser reescrita e o nome dos rapazes de Ohio ser deletado para sempre. Será a vez da América curvar-se ante o Brasil.
Não somos os únicos. Os ingleses, ou pelo menos alguns deles, situam a primeira aeronave em 1853, construída por Sir George Cayley, e tripulada pelo seu aterrorizado cocheiro. Sir George, cientista respeitado, e considerado o fundador da ciência da Aerodinâmica, tinha 80 anos nessa época. O cocheiro só obedeceu à ordem porque não acreditou que a geringonça decolasse. O que desqualifica este vôo diante dos irmãos Wright e de Dumont é o fato de que se tratava de um planador, sem um motor para propulsão independente.
Invenções complexas não têm um dono. Ninguém inventou sozinho o avião. Não se comemora “a data da invenção”, mas a data desta ou daquela façanha, porque a invenção é um processo. Sir Cayley concebeu o desenho básico do que seria o avião: asas fixas, fuselagem, uma cauda com leme e cauda estabilizadora. Os irmãos Wright introduziram um motor de quatro cilindros. O avião de Dumont, era semelhante ao aos Wright, mas taxiava no solo limpo, enquanto o deles usava um trilho. Dezenas de problemas técnicos são solucionados de maneiras diferentes por cada pessoa. O avião ainda não parou de ser inventado.
0092) As três falácias do Real (8.7.2003)
Nelson Rodrigues chamava de “idiotas da objetividade” aquele caras que só enxergam o “óbvio ululante”, como por exemplo o fato de que o Sol gira em torno da Terra.
O problema com esses caras é que a grande maioria das coisas que eles defendem são verdadeiras. Claro! Quem disse que eles têm coragem de defender algo que nunca foi provado? Com esse cacife, eles se entrincheiram no óbvio e passam a bombardear tudo que seja duvidoso. Estão presentes em todas as comunidades científicas do mundo, e são responsáveis pelo que chamo de “as falácias do Real”, maneiras distorcidas de definir o que é o Universo e a Realidade.
A primeira falácia é: “Só é Real o que é material”.
Na linguagem cotidiana, isso se traduz no velho “só acredito no que eu posso ver, cheirar, apalpar.” É o primeiro argumento dos materialistas para negar, por exemplo, a existência da alma e a existência de Deus. Um argumento totalmente anti-materialista, diga-se de passagem. Há inúmeros fenômenos materiais que são reais mas que ninguém toca. Ninguém pode apalpar um elétron; ele só pode ser manipulado de maneira indireta. Ninguém vê ou cheira um campo magnético; sabemos que ele existe pelas perturbações que causa nos objetos metálicos. A maioria dos processos da matéria só podem ser deduzidos através de observações indiretas.
A segunda falácia é: “Só é Real o que é quantificável”, o que pode ser observado, medido e reproduzido.
Este é o maior argumento contra os fenômenos paranormais. O experimentalismo de laboratório deu um grande avanço à Ciência entre os séculos 17 e 19, mas daí a dizer que é uma condição sine-qua-non para definir o Real vai uma grande distância. Testes, medições e cálculos são suficientes para descrever alguns fenômenos, mas nem tudo no Universo tem que ser necessariamente redutível a essa linguagem. A Física sub-atômica, por exemplo, teve que abrir mão de muitos conceitos que valem em nosso mundo cotidiano mas não se aplicam ao mundinho “lá de baixo”.
A terceira falácia é: “Só é Real o que é inteligível”.
É a mais absurda de todas, mas ao mesmo tempo é a mais compreensível e a mais desculpável. Nossa mente se recusa a aceitar a existência de algo que não compreende. E a compreensão só se dá dentro dos limites do que já sabemos. Quando não entendemos uma coisa, o mais normal é que não sejamos sequer capazes de enxergá-la. Durante milênios os homens das cavernas viam a barriga das mulheres inchar e depois expelir um novo ser humano. As mulheres eram consideradas seres mágicos. Jamais ocorreu àqueles trogloditas que o milagre tinha relação com uma safadezazinha que eles tinham praticado juntos, muito tempo atrás.
Diante do que nossa inteligência não explica, o mais fácil é negar. Como o matuto que foi assistir uma demonstração do Simca Tufão, aquele que andava em apenas duas rodas, e ao ver o carro andando inclinado exclamou: “Eita mentira da bixiga!...”
0091) O bacurau (6.7.2003)
(Rua Maciel Pinheiro, foto BT)
Não aconselho aos jovens, porque dizem que as madrugadas de Campina Grande estão cada vez mais violentas. Mas houve um tempo em que eram tranqüilas como as madrugadas de Praga ou de Budapeste, e era possível caminhar sem pressa por aquelas ruas, vendo as lojas com as portas abaixadas, os letreiros luminosos apagados, os prédios às escuras. O silêncio era tal que quem estivesse parado diante do Cine Capitólio ouvia ao longe a conversa dos taxistas na esquina da Petrópolis.
“Bacurau” é o encontro de um pequeno grupo de rapazes para conversar noite afora, madrugada adentro, de pé numa esquina, ou numa praça, ou então caminhando a esmo em torno do H formado pela Marquês do Herval e a Maciel Pinheiro, unidas pela Cardoso Vieira. Éramos em geral uns cinco ou seis, mas lembro de bacuraus mais concorridos que tinham o dobro disto. O bacurau do Capitólio era um prolongamento natural da “segunda sessão”, a última sessão noturna que acabava às 11 e pouco. As discussões sobre o filme às vezes incluíam uma ida rápida a uma lanchonete, mas o traço distintivo do bacurau é que ele prescinde de bares ou coisa parecida. O bacurau é praticado ao ar livre, de pé, e quem cansar que sente no batente da loja.
Outro ponto para bacuraus era a esquina de Olacanti, com os atrativos adicionais dos ônibus corujões que chegavam e partiam da Rodoviária e da feirinha de frutas ali perto, escala obrigatória. Outro ponto que durou anos foi a esquina do Museu de Arte, no tempo em que este ficava no prédio que completa o quadrilátero com a Prefeitura, a Câmara de Vereadores e a Associação Comercial. Conversava-se tudo no bacurau. Cinema, política, piadas, música, vida alheia, filosofia, sacanagem, sexo, drogas e rock-and-roll. Era o tempo da ditadura militar (meu período áureo de bacuraus foi entre 1968 e 1973), mas nunca conversei com tanta liberdade.
O bacurau não é uma invenção de Campina Grande. Quando fui morar em Belo Horizonte, nosso ponto preferido era na Praça Afonso Arinos, em frente ao Hotel Del Rey, e quem ler o livro O Encontro Marcado de Fernando Sabino ou escutar a canção “Clube da Esquina” de Milton Nascimento, Lô & Márcio Borges, pode captar um pouco desse espírito.
Quem matou o bacurau foi o bar. Os caras vão crescendo, se empregando, casando, e de repente não é bom negócio passar a madrugada inteira em pé numa esquina. Ademais, precisa ter a resistência de um cara de 20 e poucos anos para ficar conversando em pé das 11 da noite às 4 da manhã, sem beber, sem usar drogas, e fazendo apenas um lanchinho de vez em quando.
O bacurau é um trecho fictício da vida real, aquele em que fingimos que o mundo opressivo das horas ensolaradas e ruidosas deixou de existir. A cidade é como uma mulher adormecida, deixando-se observar em sua nudez e seu silêncio. Naqueles momentos, os governos estão dormindo, as polícias estão de folga, os bancos estão desligados; e o mundo pertence a nós, que velamos por ele como se o sol nunca mais fosse nascer.
sexta-feira, 7 de março de 2008
0090) A Solução Herodes (5.7.2003)
Conta-se que na antiga China, um caso grave foi levado ao Imperador. Num acampamento onde havia seis soldados, um amanheceu morto, e o criminoso só podia ser um dos outros cinco. O que fazer? O monarca cofiou as pontas dos bigodes e disse: “Executem os cinco. Assim teremos certeza de que a justiça foi feita.” Um ministro advertiu: “Mas, Majestade! E os quatro inocentes?” E ele: “A morte deles pesará também sobre o assassino, por não ter confessado. Assim, torturem todos antes de matá-los, para termos certeza de que ele recebeu a punição merecida.”
Não é muito diferente da solução encontrada por Herodes, no Evangelho Segundo Mateus. Não podendo identificar quem seria o rei dos judeus recém-nascido, mandou matar todos os bebês com menos de dois anos. A “Solução Herodes” é um tipo de solução a que muitas vezes recorremos na vida prática, quando, incapazes de identificar a alternativa que soluciona um problema, experimentamos cegamente todas as possibilidades até esbarrar na resposta certa. Na decifração de códigos, por exemplo, isto é conhecido como o método da “força bruta”: usar todas as substituições. O aparente absurdo desta estratégia foi atenuado com a evolução de computadores que executam bilhões de cálculos num curto espaço de tempo.
O filme Enigma (2001) de Michael Apted mostra como os ingleses “quebravam” os códigos nazistas na II Guerra. Cabia a um grupo de gênios matemáticos ter intuições que reduziam o número de combinações a serem testadas, para que os computadores mecânicos da época (numa fascinante reconstituição técnica) usassem a força bruta apenas na área delimitada por eles. Força bruta, sozinha, não resolve, como qualquer jogador de xadrez sabe desde a infância. Seria impossível hoje matar todos os bebês de um país para evitar o nascimento do Messias. Arnold Schwarzenegger, no primeiro filme da série O Exterminador do Futuro, vem a nossa época com a incumbência de matar “Sarah Connor”, a mãe do futuro líder rebelde. Como uma máquina que se preza, a solução que ele encontra é sair matando todas as “Sarahs Connor” que encontra na lista telefônica. São apenas três, mas o roteiro vem em socorro da mulher certa antes que ele a execute.
Na ficção científica, a “Solução Herodes” surge em contos como “Os Nove Bilhões de Nomes de Deus” de Arthur C. Clarke, onde um computador combina todos os nomes possíveis de Deus, e deleta o Universo. Sua inspiração original é a velha frase (que já resultou em muitas histórias): “Se déssemos máquinas de escrever a seis macacos, depois de um milhão de anos teclando ao acaso eles escreveriam todos os livros do Museu Britânico.” Jorge Luís Borges (em “O imortal”) dizia que Homero compôs a Odisséia, mas, postulando um prazo infinito, seria impossível alguém não compor a Odisséia. O Universo em que vivemos pode ser uma tentativa de Deus de dizer alguma coisa que faça sentido, usando o método da força bruta.
Não é muito diferente da solução encontrada por Herodes, no Evangelho Segundo Mateus. Não podendo identificar quem seria o rei dos judeus recém-nascido, mandou matar todos os bebês com menos de dois anos. A “Solução Herodes” é um tipo de solução a que muitas vezes recorremos na vida prática, quando, incapazes de identificar a alternativa que soluciona um problema, experimentamos cegamente todas as possibilidades até esbarrar na resposta certa. Na decifração de códigos, por exemplo, isto é conhecido como o método da “força bruta”: usar todas as substituições. O aparente absurdo desta estratégia foi atenuado com a evolução de computadores que executam bilhões de cálculos num curto espaço de tempo.
O filme Enigma (2001) de Michael Apted mostra como os ingleses “quebravam” os códigos nazistas na II Guerra. Cabia a um grupo de gênios matemáticos ter intuições que reduziam o número de combinações a serem testadas, para que os computadores mecânicos da época (numa fascinante reconstituição técnica) usassem a força bruta apenas na área delimitada por eles. Força bruta, sozinha, não resolve, como qualquer jogador de xadrez sabe desde a infância. Seria impossível hoje matar todos os bebês de um país para evitar o nascimento do Messias. Arnold Schwarzenegger, no primeiro filme da série O Exterminador do Futuro, vem a nossa época com a incumbência de matar “Sarah Connor”, a mãe do futuro líder rebelde. Como uma máquina que se preza, a solução que ele encontra é sair matando todas as “Sarahs Connor” que encontra na lista telefônica. São apenas três, mas o roteiro vem em socorro da mulher certa antes que ele a execute.
Na ficção científica, a “Solução Herodes” surge em contos como “Os Nove Bilhões de Nomes de Deus” de Arthur C. Clarke, onde um computador combina todos os nomes possíveis de Deus, e deleta o Universo. Sua inspiração original é a velha frase (que já resultou em muitas histórias): “Se déssemos máquinas de escrever a seis macacos, depois de um milhão de anos teclando ao acaso eles escreveriam todos os livros do Museu Britânico.” Jorge Luís Borges (em “O imortal”) dizia que Homero compôs a Odisséia, mas, postulando um prazo infinito, seria impossível alguém não compor a Odisséia. O Universo em que vivemos pode ser uma tentativa de Deus de dizer alguma coisa que faça sentido, usando o método da força bruta.
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