quinta-feira, 18 de agosto de 2022

4854) A arte de perturbar o Universo (18.8.2022)



(imagem: telescópio James Webb)
 
Nos meus tempos de cantor independente, fui convidado a fazer um show voz-e-violão num Congresso de Físicos. Havia amigos meus na organização, e o congresso acontecia num hotel imenso e agatha-christiano de Caxambu (MG). Na tarde em que cheguei, passei algumas horas tomando cerveja com o prof. Roberto Ribas, os dois sentados a uma prudente distância da piscina, conversando sobre a arte de perturbar o Universo.
 
A década de 1980 já vai longe, mas lembro de ter insistido numa pergunta que ainda me aflige: Que distância um fóton é capaz de percorrer, Universo afora, depois de ter sido emitido pelo Big Bang, até chegar aos nossos telescópios? Um fóton perde energia? A luz cansa? Se sim, por quê? Se não, por quê? Ainda não achei uma resposta que eu entendesse.
 
Outro grão de dúvida que me ficou daquela longa conversa foi o modo como o Universo reage às nossas pequenas interferências.
 
Dei como exemplo a piscina, que se estendia deserta e plácida, diante de nós. Digamos que eu me aproximasse dela, enchesse uma caneca e levasse comigo aquela pequena quantidade de água. Claro que não ficaria um buraco na piscina. No instante em que eu erguesse a caneca, a água em torno preencheria aquele espaço. A piscina pareceria intacta; mas qualquer medição antes-e-depois acusaria essa diferença mínima.
 
(Digressão: Dizemos que “a Natureza abomina o vácuo”, mas acho que não é a Natureza, é a atmosfera.  Alguns artefatos (uma lâmpada doméstica, p. ex.) contêm o vácuo em seu interior. Se de repente fazemos uma abertura nele, as moléculas de ar invadem numa fração de segundo aquele espaço, preenchendo-o, como a água da piscina preenchia o buraco deixado pela caneca. O fluido mais denso tende a preencher o espaço ocupado por um fluido mais rarefeito.)
 
Minha questão era mais ou menos esta: A piscina inteira sabia o que estava acontecendo lá naquela extremidade, onde um rapaz cabeludo, de cócoras, enchia dágua alguma coisa e a levava consigo? Pode-se dizer que sim, porque o nível da água se reduzia por igual na piscina inteira, mesmo que numa fração de 0,0001 de milímetro. A água toda se re-arrumava para compensar aquela ausência.
 
Acho que o professor se saiu com alguma explicação de Mecânica dos Fluidos, numa linguagem acessível a um cabeludo que não concluiu sequer um curso de Humanas. Fiquei com uma certa impressão de que nossas perturbações no Universo obedecem à percepção newtoniana da “razão inversa do quadrado da distância”, ou seja, quanto mais longe do ponto de origem muuuuito menor a alteração.
 
(Digressão: visualizando a piscina com a forma retangular de um mapa-múndi, é como se uma canequinha de água retirada em “Campina Grande” produzisse um movimento nas moléculas de fluido localizadas em “Lagoa Seca”, “Queimadas”, “Riachão”, “Soledade”, etc., mas deixasse impassível e QUASE inalterada a posição dos fluidos do “Japão”, “China”, “Sibéria”, etc.)
 
Isto me veio à lembrança durante a leitura de um conto de terror de T. H. White, “The Troll” (1935).


(T. H. White)
 
Tudo acontece durante uma viagem do protagonista (pai do narrador, sempre designado como “meu pai”) à Lapônia. Nesse lugar gélido do extremo norte, o sujeito se hospeda num hotel e nessa mesma noite (uma noite clara, pois o sol não se põe nessa época do ano) sonha que há sangue entrando por baixo da porta que dá para o quarto vizinho.
 
Ele acorda (esse detalhe é importante – daqui por diante, tudo acontece rigorosamente no “mundo real”) vai até a porta, olha pela fechadura. E vê um Troll, um monstro de uns três metros de altura, devorando o corpo de uma mulher desmaiada. Quando termina, o Troll olha na direção da porta e seu olhar cruza com o olhar do homem que espreita pelo buraco.


(troll)
 
O homem se afasta dali, abalado, mas não tem coragem de contar o que viu. Pergunta na portaria, e lhe informam que o quarto ao lado do seu está ocupado por um casal de meia idade; um professor sueco e sua esposa.
 
Ele sai para caminhar na montanha, sobe, desce, atravessa um rio, molha-se todo, faz um lanche, vê paisagens deslumbrantes, que White descreve com uma prosa fluida, de imagens vívidas (trad. BT):
 
A vida é um inferno inexprimível, mas apenas porque de vez em quando é bela. Se ao menos pudéssemos ser miseráveis o tempo todo, se ao menos não existissem coisas como o amor, a beleza, a fé ou a esperança, se eu pudesse ter certeza absoluta de que o amor que eu sinto jamais seria correspondido... como a vida se tornaria simples! Poderíamos mourejar nas minas-de-sal siberianas durante todo o resto da nossa existência sem ligar para a felicidade. Infelizmente, a felicidade existe. Sempre existe uma chance (numa proporção de 850 para 1) de que outro coração irá se aproximar do meu. E eu não posso deixar de sentir esperança, de manter a fé, e de amar a beleza.
 
De volta ao hotel, ele ouve rumores de que a esposa do professor do quarto vizinho desapareceu. No refeitório, vê o professor à distância: parece um homenzinho miúdo, pacato, mas a certa altura os olhos dos dois se cruzam.
 
Sabe aqueles instantes de reconhecimento instantâneo, olho no olho, quando duas pessoas olham profundamente nas pupilas uma da outra, e penetram em sua alma? Geralmente acontecem antes que surja o amor. Eu me refiro ao reconhecimento claro, profundo, de olhos baços, que foi expresso pelo poeta Donne. Os olhares dos dois se encontraram e se envolveram numa trança dupla. Meu pai reconheceu que o professor era um Troll, e o professor percebeu que havia sido reconhecido.
 
Esse clima alucinatório persiste, principalmente pelas reiteradas afirmações (do pai do narrador) de que estava o tempo todo desperto, acordado, em plena posse de suas faculdades mentais. O Troll era real, diz ele. 

Era tão sólido quanto um guarda-roupa. A gente não tem que acreditar na existência dos guarda-roupas. Eles estão aqui, e têm quinas.
 
O contato com o Fantástico, no entanto, é doloroso demais, desconcertante demais. E ele diz a certa altura:
 
Teria sido muito simples para uma criança, que está ainda estabelecendo sua coordenação com o mundo, lidar com a presença do Troll; mas para o meu pai não era. Ele continuava tentando encaixá-lo de alguma forma, sem perturbar o universo.
 
E aqui deixamos o conto de T. H. White e voltamos para a estrada principal. O Universo, aqui, é o universo perceptivo, o que enxergamos, vemos, tocamos, somos capazes de conceber de maneira aceitável – mesmo admitindo que nele existe o desconhecido, o inesperado, o incoerente, o indefinível.  Mas... um Troll?! 


(O jovem T. S. Eliot)
 
 
O que significa perturbar o Universo? Em última análise, significa existir, tocar nele, produzir uma alteração por mínima que seja, deixar nele um grão de poeira, uma pegada, uma impressão digital, uma lembrança.
 
Quando o Fantástico irrompe em nosso universo e o perturba, é como uma pedra caída num lago tranquilo, uma mosca caída no leite ou (no símile famoso de Raymond Chandler) uma tarântula numa fatia de manjar-branco. O Universo aparenta ser uma ordem racional, harmônica, equilibrada, e de repente brota ali um cisco-no-olho, um fator de desequilíbrio.
 
E o que é esse elemento fantástico, esse Troll? Eu diria que é o próprio autor, o Ser Humano. É ele quem perturba o Universo com sua própria existência, com essa indisciplina de bicho-bruto, indisciplina que é ao mesmo tempo sua glória de existir e seu impulso para a destruição.
 
O contrário do Troll é J. Alfred Prufrock, o pudibundo herói do poema de T. S. Eliot (“The Love Song of J. Alfred Prufrock”, 1915), um daqueles jovens que hoje estariam de camisa polo e sapatênis, meio de mãos postas, deferente, solícito, a dizer: “Por favor... será que eu poderia comer um pêssego? Ou será que isso não significaria perturbar o Universo?...”


Prufrock é o indivíduo sem poesia (retratado justamente num dos melhores poemas do seu criador), um sensaborão, um “J. Pinto Fernandes” que entra aos tropeções, por acaso, na quadrilha amorosa alheia. Perturbar o Universo é sinônimo de existir, de ser gente, de fazer merda de vez em quando, ser politicamente incorreto, ser politicamente correto, fazer barulho, interromper uma coisa, desarrumar outra. Prufrock hesita antes de comer um pêssego porque no fundo ele, o reprimidão, é um Troll desejando arrancar com os dentes a cabeça de uma mulher desmaiada em seus braços. (Falo metaforicamente, é bom que se diga.)
 
O Homem é o Troll da natureza. A civilização produz uma realidade rígida, formalizada, pragmática, extrativa e destruidora (representada no conto de White por um tecnocratíssimo turista americano que ele conhece no hotel). E no meio dessa civilização, surge seu oposto simétrico, o Reprimido que retorna: o instinto animal primitivo, representado pelo Troll. O instinto animal do homem destruirá essa própria civilização com que ele está em vias de destruir o mundo.
 
Nós somos a perturbação do Universo, como (para encerrar) proclamou Paul Valéry no seu “Cemitério Marinho”:
 
Eu sou em ti a mudança secreta... Não tens senão a mim para conter teus medos! Meus arrependimentos, minhas dúvidas, minhas limitações, são o defeito de teu imenso diamante. (trad. José Paulo Paes)





segunda-feira, 15 de agosto de 2022

4853) Drummond: "Elegia do Rei do Sião" (15.8.2022)



(Drummond, por Drummond)

 
Carlos Drummond de Andrade utilizou em vários poemas um dos variados efeitos de “distanciamento” que seu contemporâneo Bertolt Brecht preconizava no teatro. No caso, consiste em projetar uma situação humana qualquer num ambiente exótico e distante, muito afastado da realidade imediata do público, para que este não se distraia na comparação de detalhes, na busca de verossimilhanças superficiais.
 
Para que a fábula se revele e se imponha com seu conteúdo cru de fábula.
 
Brecht fez críticas ferozes à Alemanha de seu tempo ambientando peças na China, em Nova York, ou em cidades imaginárias. Fazendo isso, ele dilui toda a “cor local” que tantas vezes interfere em nossa leitura de um livro ou um filme.
 
Drummond fala, em seu primeiro livro, do Czar búlgaro que caçava borboletas, fala de variados ambientes de capa-e-espada em “Balada do Amor Através das Idades” – e comenta com certa ironia a vida deste reizinho do Sião, que morreu porque não conseguiu fazer um filho homem.
 
Ele diz:
 
Pobre rei de Sião que morreu de desgosto
por não ter um filho varão.
Pobre rei de Bangkok educado em Oxford,
pequenino, bonito, decorativo,
que morreu especialmente para nos comover.
 
Há um tom de simpatia, de paternalismo, mas ao mesmo tempo um leve escárnio, como se fosse fácil, ou mesmo obrigatório, mangar dessa masculinidade incompleta. O que talvez fosse uma preocupação do próprio Drummond, que dois anos antes do livro tinha sido pai de Maria Julieta, a única filha que teve. Seria uma prefiguração do seu próprio destino? Drummond viria a escrever depois: “O filho que não fiz / hoje seria homem.” Um poema melancólico e resignado (“Ser”, Claro Enigma, 1948-1951).
 
O filho que desejava, a Ásia não deu,
e seu desejo de um filho era maior que a Ásia.
Pobre rei de Sião que Camões não cantou.


Por que Camões? Por causa do nome “Sião”, que no poema de Drummond se aplica ao país hoje conhecido como Tailândia, mas que Camões usou como sinônimo de “Zion”, ou Israel:

Sôbolos rios que vão
por Babilónia, m'achei,
onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e tudo bem comparado,
Babilônia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.
(Camões, “Redondilhas”, 1595)
 
É o pranto dos israelitas escravizados na Babilônia e lembrando com ardor da pátria perdida, conforme está no livro dos Salmos. Literariamente os “rios da Babilônia” se consagraram como um local de lamentações de um paraíso-terrestre perdido, das canções de exílio de um povo escorraçado. Chegou até à ficção científica, num conto clássico de mundo pós-nuclear, “By the Waters of Babylon” (Stephen Vincent Benet, 1937).
 
Mas o Sião que compete ao poeta mineiro é o Sião tailandês, é o dele, não o de Camões. E o dele nada tem a ver com a pátria destruída, e sim com um reino exótico do Oriente, que por vias transversas acaba cutucando na memória do poeta a lembrança do Rei Salomão e seu harém de concubinas:
 
Amou três mulheres em vez de dez mil
e nenhuma lhe deu um filho varão.
De sua costela real nasceu uma pequenina siamesa.
Ao vê-la, o rei caiu para trás como um europeu,
adoeceu, bebeu um veneno terrível e morreu.
 
Creio que “veneno terrível” é melodrama inventado pelo poeta, mas o resto é verdadeiro. O rei a que ele se refere é o rei Vajiravudh (1891-1925), que governou sob o nome de Rama VI. O jovem rei passou em branco ao longo de três casamentos, e acabou sendo pai de uma filhinha, a princesa Bejaratana. Ela nasceu em 24 de novembro de 1925, e ele morreu no dia 26, aos 44 anos.


(Vajiravudh, ou Rama VI)

Vajiravudh, educado em Oxford, foi um “rei intelectual”. Seus opositores o acusavam de “ocidentalismo” e de dedicar muito tempo à leitura dos clássicos e pouco à administração do reino – o que parece ser uma injustiça, dada a longa lista de modernizações que promoveu no país. Era uma espécie de D. Pedro II: fundou a primeira universidade do Sião, escreveu poemas, peças de teatro e romances. Traduziu Shakespeare e Agatha Christie, e ajudou a introduzir a literatura de detetive na Tailândia, tendo inclusive criado um personagem inspirado em Hercule Poirot, o detetive Nai-Thong-In.
 
Mesmo um currículo tão simpático parece não ter sido suficiente para reduzir a crueldade com que Drummond descreve seus últimos dias:
 
Seu coração enegreceu de repente,
o corpo ficou todo fofo.
Depois queimaram o corpo fofo e o coração preto numa fogueira esplêndida
e a alma do rei de Sião fugiu entre os canais.
Pobre reizinho de Sião.
 
É uma mistura de piedade e desdém. Ou, quem sabe, o problema sou eu, com minha leitura de quase um século depois, mexendo nas coisas. Literatura é um fenômeno quântico: cada vez que a gente examina a mesma operação, dá um resultado diferente. Poesia, então, nem se fala.
 
Vajiravudh (que era neto do Rei do Sião retratado no musical hollywoodiano O Rei e Eu, com Yul Brynner e Deborah Kerr) é um personagem que merecia uma elegia melhor. Um monarca do tipo “ponto fora da curva”. Ameaçado de assassinato em 1912 numa tentativa de golpe de vários oficiais do exército, perdoou os golpistas, dizendo que estavam lutando pelo bem do país. Em sua obra literária defendia o antigo código de honra da cavalaria: “Minha alma é de Deus, minha vida é do Rei, meu coração é das damas, minha honra é minha.”
 






sexta-feira, 12 de agosto de 2022

4852) Contracapa de Pix (12.8.2022)



&  tudo indica que o próximo Dilúvio será de água sanitária
 
&  quando a Censura proibir os vagalumes, soltem pirilampos
 
&  a gente se vicia em celular porque celular nos obedece instantaneamente
 
&  escrever bons versos nunca avalizou o caráter de ninguém
 
&  tudo que eu como, depois da Covid, está em preto-e-branco
 
&  queria ter a calma de um tigre, capaz de furar um sinal vermelho sem diminuir o passo
 
&  a possibilidade de um dicionário trilingue continua à espera de um exame objetivo
 
&  meu preço nem é muito alto, mas só me vendo a quem adivinhar, com exatidão de dígitos
 
&  coração de leão pode ser uma boa coisa, mas eu preferiria pernas de guepardo
 
&  é aquele tipo de jogador que prefere sofrer um pênalti do que fazer um gol
 
&  certos poetas têm a atitude do portador de uma mensagem em código, da qual conhecem a urgência, mas não o significado
 
&  a mente é um castelo sem corredores mas cheio de passagens secretas
 
&  não sei se aprendo clarineta ou se compro um telescópio
 
&  o negócio agora é afinar o coro dos descontentes
 
&  tem certas mulheres que são dotadas daquele olhar de cartão vermelho
 
&  não há felicidade espiritual que resista a uma dor de dente
 
&  mesmo um jornal velho que está embrulhando peixe tem alguma informação que a gente não sabia
 
&  é interessante como as pessoas sem caráter geralmente sabem que são assim, e se sentem muito bem, obrigado
 
&  o que se vê é o conflito entre a Vetusta Ciência de Formalizar o Espírito das Leis contra a Nobre Arte de Ludibriar a Arbitragem
 
&  acompanhar a Política pela imprensa é como acompanhar futebol pelo rádio
 
&  a Verdade, sem beleza, é utilitária e rude; a Beleza, sem verdade, é frívola e desnecessária
 
&  como é que uma imagem do tamanho de um selo é capaz de encher uma sala?
 
&  o impulso de Tânatos não é o de desejar a morte, mas de não dar importância a ela
 
& a verdade é que quando as pessoas que se preparam para o pior começam a ficar impacientes porque o pior demora a acontecer
 
&  quem tem dinheiro nem lembra que ele existe, e quem não tem não pensa noutra coisa
 
&  o segredo da vida é saber entrar e saber sair, saber falar e saber ouvir, saber subir e saber descer
 
&  não quero parecer pessimista, mas a verdade é que nós ainda somos felizes, e não sabemos
 
&  ninguém é obrigado a ler o que não gosta, o que não aprova, o que não entende; cada um só lê o que consegue ler
 
&  ninguém me tira da cabeça que “C.E.O.” é apenas uma maneira esnobe de dizer “sinhô”
 
& tu te tornas eternamente responsável pelo que os teus orientandos publicam
 
&  qualquer coisa neste mundo pode ser provada com o auxílio de um único exemplo
 
&  a gente só deixa de tratar os filhos como bebês indefesos quando eles começam a nos tratar como velhinhos defasados
 
 
 
 
 
 
 




terça-feira, 9 de agosto de 2022

4851) As mortes em Veneza (9.8.2022)

 
 
Dizem que Veneza é a cidade mais bonita do mundo (dizem isso de outras, também; é um esporte inofensivo). E eu reflito que talvez seja também a mais perigosa, dada a quantidade de histórias tenebrosas e cruéis que acontecem ali. (Não me refiro à cidade real, que não conheço, mas à cidade “dramatúrgica”, vítima da fantasia dos escritores.)
 
Por que Veneza? Veneza é talvez a alegoria da Beleza clássica cujo destino é se afundar na lama da Modernidade e do Futuro. Um ser que atinge o auge de sua beleza no mesmo instante em que lhe é comunicada sua morte inevitável.  É uma cidade moribunda, uma cidade saturada de História e de beleza artística, mas que “afunda um milímetro a cada gole”, como na canção de Lenine e Lula Queiroga.
 
“Venice Drowned”, de Kim Stanley Robinson (1981; está em Planeta Sobre a Mesa, Ed. Caminho, Lisboa) é um conto clássico da ficção científica, e imagina um futuro em que milhares de turistas continuam visitando as catedrais, os museus e os palácios dos doges – usando aqualungs, e tendo mergulhadores como guias.


Talvez o texto mais célebre sobre a morte da cidade seja Morte em Veneza (1912) de Thomas Mann, brilhantemente filmado em 1971 por Luchino Visconti. Nele, um escritor de certa idade (um compositor, no filme) se apaixona platonicamente por um rapazinho de rara beleza. Thomas Mann era um daqueles intelectuais europeus para quem a Grécia era a fonte de tudo; não apenas de conceitos universalizantes como Beleza e Verdade, mas também de uma mitologia exuberante, feita de deuses “humanos, demasiado humanos”.
 
No livro, Gustav von Aschenbach está em Munique, na famosa crise da meia idade, e um dia, esperando o bonde diante de um cemitério, vê inscrições como “Eles entraram na morada do Senhor”, “A luz da eternidade brilha sobre eles” e é agarrado pela consciência súbita da própria morte. Vê um indivíduo ruivo que o encara à distância, numa pose arrogante, e isto o inquieta, desperta nele a vontade de recuperar a vida num lugar exótico e distante:
 
Sua imaginação, ainda em plena fermentação devido a horas e horas de trabalho, passou a prefigurar todos os terrores e maravilhas de um mundo múltiplo e variado que sua mente, de súbito, tentava conceber; (...) por entre uma densa e emaranhada floresta de bambus, ele entreviu a cintilação dos olhos de um tigre agachado, e sentiu seu coração pulsar de medo, e de misteriosos desejos.  (Cap. I; trad. BT)
 
Estou traduzindo da versão em inglês de Kenneth Burke (1925), que dizem ser a melhor, e de fato nem parece texto traduzido, parece algo que já foi escrito tendo a melodia inglesa em mente (claro que não posso opinar quanto à fidelidade ao original).


Aschenbach parte para Veneza, numa viagem atarantada, cheia de contratempos devido a seu temperamento hesitante, irritadiço. Lá, ele avista à distância o jovem Tadzio, de uma família nobre polonesa. Fica stalkeando o pobre do rapaz à distância, respeitosamente, e a certa altura é informado de que Veneza está sob uma epidemia de cólera. Ele decide ficar, enquanto a família do rapaz não for embora.
 
Como o típico europeu de sua classe e de sua época, ele é pomposo, meticuloso, mãos às costas, cioso de sua aparência e do “von” de seu nome, uma honraria recente. Passa horas ao espelho se aprontando para o jantar no hotel, e nisso lembra um pouco o protagonista do conto de Machado, “O espelho”, que só consegue se ver refletido quando veste a farda de alferes.
 
No filme de Visconti, o diretor reforça com delicadeza esse zelo pela imagem, quando faz Aschenbach, pronto para descer ao restaurante, beijar as fotos da filhinha e da esposa, já falecidas. Uma família virtual, pictórica.
 
As praias estão cheias de mulheres, crianças e babás, mas Veneza é uma cidade condenada: a epidemia do cólera se alastra por baixo do pano, enchendo as estações e esvaziando hotéis, mesmo sendo negada com ansiosa veemência pelos que vivem do turismo. (O filme pertence ao gênero “Catástrofes Negacionistas”, ao lado de Tubarão, Inferno na Torre e muitos outros.)
 
Um episódio-chave da história é no meio da narrativa, quando Aschenbach resolve ir embora, despede-se (à distância, e mudamente) de Tadzio, mas na estação de trem é surpreendido pelo extravio de sua bagagem. “A contragosto” (pois é tudo que ele deseja), perde o trem e precisa voltar para o hotel.
 
Ora, eis aqui uma aventura, maravilhosa, desconcertante, com a comicidade de um sonho, quase inacreditável: eram lugares aos quais ele acabara de dizer adeus para sempre, mergulhado do mais abjeto dos desalentos , e no entanto tinha dado meia volta e retornava agora pela mão do destino, e voltava a vê-los menos de uma hora depois! (...) [Aschenbach] ocultava o nervosismo e a exaltação de um garoto malandro, por sob a máscara de uma fúria resignada. (Cap. III)
 
No filme, estas últimas linhas são encenadas com perfeição por Dirk Bogarde, exibindo uma expressão de contentamento chapliniano ao entender que terá de voltar ao hotel.


A ventania das tragédias gregas percorre obras como a de Thomas Mann, com suas fatalidades, seus personagens que caminham conscientemente para a exaltação e a morte. Aschenbach sabe que a epidemia está matando gente em plena calçada, e permite, freudianamente, que seus próprios equívocos e tropeções o conduzam no rumo da desgraça que procura.
 
Luchino Visconti filma gente rica como ninguém, revelando aquele misto de decoro e tensão, de pessoas lindas e opulentas que parecem o tempo todo estar posando para daguerreótipos. Os ricos de Fellini, por exemplo, são sempre meio debochadões, meio caricatos; os de Visconti (Violência e Paixão, Senso, O Leopardo, Morte em Veneza etc.) parecem versões oficiais de si mesmos.
 
E Aschenbach é um bom representante dessa classe empertigada, como um dos seus amigos o descreve no livro:
 
“Veja bem, Aschenbach viveu a vida toda assim,” e ele contraiu os dedos da mão esquerda, cerrando o punho, “e nunca assim”, e deixou a mão aberta tombar descuidadamente sobre o braço da cadeira. (Cap. II)
 
Aschenbach pode parecer “o protótipo do intelectual europeu caretão”, mas no livro é descrito claramente como um sujeito híbrido, que lutou a vida inteira para fazer prevalecer em si o lado “respeitável”, de “homem-de-bem”.
 
Seus antepassados tinham sido oficiais, magistrados, funcionários do governo, homens que viveram vidas severas, sólidas, a serviço do seu Rei e do seu Estado. Um veio mais profundo de espiritualidade chegara a se manifestar entre eles, na pessoa de um pregador; e a geração imediatamente anterior à do escritor havia injetado na família um sangue mais ardente, mais sensual, através de sua mãe, filha de um maestro da Boêmia. Os traços estrangeiros de suas feições provinham dela. O matrimônio entre uma consciência sóbria e meticulosa, de um lado, e os impulsos de uma natureza mais sombria e ardente, do outro, tinha produzido um artista, este artista em particular.   
(Cap. II)


(Thomas Mann)
 
Não há como não ver aí mais um dos inúmeros traços autobiográficos do livro, quando lembramos que a mãe de Thomas Mann era brasileira. Aschenbach e Tadzio (este último um símbolo da Beleza inalcançável do ideal clássico, grego, cultivado pelos europeus) não são polos opostos, assim como o Dr. Jekyll e o Mr. Hyde, de Stevenson, também não o são. Jekyll e Aschenbach são balanças que levam a vida pública num perigoso equilíbrio. Hyde e Tadzio são o grão de areia que faz esse equilíbrio desandar.
 
Há um conto de Daphne Du Maurier, “Ganymede”, que resume em poucas páginas (e de maneira mais moderna, mais cruel, mais desdenhosa) a tragédia desse homem civilizado que vai a Veneza apenas para se perder pelo rosto bonito de um rapaz. Outro conto dela, “Don’t Look Now” (1971; filmado por Nicholas Roeg em 1973) mostra um casal que visita Veneza e se depara com aparições aparentemente sobrenaturais, e um assassino serial. Há um romance de Ian McEwan, The Comfort of Strangers (1981; filmado por Paul Schrader em 1990) em que um casal jovem deixa-se atrair, em Veneza, por um casal estranho que os arrasta para uma aventura sexual com final sangrento.



 
A destruição de Aschenbach e da população de Veneza tem paralelo no brutal sonho erótico que ele tem numa de suas últimas noites – sonho que Visconti, prudentemente, omitiu de seu filme. No sonho, Aschenbach participa, na mata, de uma espécie de sabá-suruba violentamente dionisíaco, que o perturba profundamente.
 
Sua repugnância, seu medo, eram intensos; de modo honroso ele se preparou para se defender daqueles bárbaros, daqueles inimigos de sua postura intelectual e sua dignidade. Mas os barulhos, os uivos, se multiplicavam por entre os contrafortes das colinas, e se elevavam, e predominavam, cresciam a uma intensidade de êxtase. Odores oprimiam seus sentidos, o cheiro pungente dos bodes, o aroma dos corpos úmidos, e um bafio de água estagnada, misturados a outro cheiro familiar, o cheiro de feridas e de doenças sem controle. Às batidas do tambor seu coração teve um vacilo, sua cabeça começou a rodar, ele foi arrebatado por um frenesi, por uma lascívia cegante, ensurdecedora – e ele ansiou para juntar-se à horda daquele deus. O símbolo obsceno, gigantesco, de madeira, foi descoberto e erguido; e eles uivaram a palavra mágica com uma entrega ainda maior. (Cap. V)

Sexo, doença, magia, sujeira, luxúria, primitivismo... na cabeça de alguém que viveu a vida de Aschenbach tudo isso se mistura, trazendo-lhe por fim “o medo e os misteriosos desejos” que foram o objetivo daquela sua viagem de férias, e que ele intuiu ser capaz de encontrar – logo onde! – em Veneza.


(Veneza, 2015)





sábado, 6 de agosto de 2022

4850) O sol e a chuva (6.8.2022)



(Luiz Gonzaga)

Uma imagem poética parece ter uma plasticidade infinita.  Pode ser utilizada de mil maneiras, e cada contexto lhe dá uma significação nova.  Podemos dizer inclusive que a poesia é o triunfo absoluto do contexto sobre o sentido original das palavras, a palavra “em estado de dicionário”, como disse Drummond. 

 

Uma palavra num texto poético (e aqui incluo tanto os poemas escritos quanto as letras de canções) existe e significa para o contexto em que está sendo usada.  Tirada dali, seu sentido é zerado novamente.

 

Veja-se, por exemplo, um tema antiquíssimo na poesia: o contraste entre o sol e a chuva.  Em contextos poéticos diferentes, os dois recebem tratamentos diferentes.  No Nordeste, por exemplo, o sol é um mal necessário.  Sem ele seria impossível a vida no planeta, mas também não precisava exagerar .  No Cancioneiro Nordestino, o sol provoca medo, ou um respeito misturado com repulsa, uma mágoa que não tem perdão que cure.  Como cantava Marinês: 

 

No Nordeste imenso, quando o sol calcina a terra

não se vê uma folha verde na baixa ou na serra...”

(“Aquarela Nordestina”, Rosil Cavalcanti). 

 

O sol é sempre visto como o sol da seca, o sol da morte, do calor insuportável. Como dizia Guimarães Rosa, no Grande Sertão: Veredas: “a luz assassinava demais”.

 

O poeta nordestino vê o sol como uma ameaça, como mostram os versos de “Súplica Cearense”, de Gordurinha: 

 

Meu Deus, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho

pedi pra chover, mas chover de mansinho

pra ver se nascia uma planta no chão.

 

O sol é uma ameaça permanente, uma ameaça que não pode ser exorcizada com súplicas ou com preces.  Sua presença nas canções sertanejas é sempre ominosa, massacrante, transformando a paisagem num inferno.

 

Que braseiro, que fornalha,

nem um pé de plantação...

(“Asa Branca”, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

 

Quando o sol tostou as folhas

e bebeu o riachão

fui inté o Juazeiro

pra fazer minha oração...

(“Légua Tirana”, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

 

Por outro lado, a chuva é vista pelo poeta nordestino como uma bênção.  Um dia chuvoso é uma festa transbordante de alegria.

 

Rios correndo, as cachoeiras estão zoando,

terra molhada, mato verde, que riqueza!

e a asa branca à tarde canta, que beleza,

ai ai, o povo alegre, mais alegre a Natureza!

(“A Volta da Asa Branca”, Luiz Gonzaga e Zé Dantas)

 

Uma tarde de inverno no sertão

é um grande espetáculo pra quem passa

serra envolta nos tufos de fumaça

água forte rolando pelo chão;

o estrondo da máquina do trovão

entre as nuvens do céu arroxeado;

o raio caindo assombra o gado

atolado por entre as lamas pretas.

rosna o vento fazendo piruetas

nas espigas de milho do roçado.

(“Inverno no Sertão”, Ivanildo Vila Nova e Geraldo Amâncio).

 


(Cartola)

Muito diferente é o modo de ver o sol e a chuva no Rio de Janeiro.  Para um poeta carioca, sol é sinônimo de alegria, chuva é um fenômeno melancólico com o qual é preciso se conformar.  A indagação mais ansiosamente murmurada pelos cariocas, dia após dia, ano após ano, é: “Será que vai dar praia?...” – enquanto os olhos súplices se voltam para o céu, buscando o sol com a mesma ansiedade com que os sertanejos buscam as nuvens grossas e cinzentas que podem salvar sua vida.  

 

O Cancioneiro Carioca reflete esse estilo de vida, desde o samba até o rock e a bossa-nova.  Desta vez é a chuva que é um mal necessário, mas todos rezam para que passe logo.

 

Finda a tempestade, o sol nascerá,

finda esta saudade, hei de ter outro alguém para amar...

(“O Sol Nascerá”, Cartola e Elton Medeiros)

 

Chove chuva, chove sem parar...

Mas eu vou fazer uma prece

pra Deus, nosso Senhor,

pra chuva parar de molhar o meu divino amor...

(“Chove chuva”, Jorge Benjor)

 

Me dê a mão, vamos sair pra ver o sol...

(“Estrada do Sol”, Tom Jobim e Dolores Duran)

 

"Vamos sair pra ver o sol!"  Que sertanejo diria isto à sua amada? 



Mas mesmo o amor ao sol pode ganhar contextos diferentes.  Uma coisa é amar o sol no Rio de Janeiro; outra coisa é amá-lo num país frio e nublado como é a Inglaterra na maior parte do tempo.  Daí que as letras dos Beatles, por exemplo, estejam cheias de referências ao sol, como símbolo da alegria:

 

Veja, querida,

o sorriso retornando aos seus rostos.

Veja, querida,

parece que faz anos desde que ele esteve aqui.

Lá vem o sol...

E eu digo que está tudo bem.

(“Here Comes the Sun”, George Harrison)

 

Um dia você vai olhar e ver que eu parti;

pois amanhã pode chover, então... eu seguirei o sol.

(“I’ll follow the sun”, Lennon & McCartney)

 

Eu preciso rir, e quando o sol aparece

eu tenho um motivo para rir...  Bom dia, luz do sol!...

(“Good Day, Sunshine”, Lennon & McCartney)

 

Aí vem o rei sol, aí vem o rei sol

Todos estão rindo, todos estão felizes

(“Sun King”, Lennon & McCartney)

 

Em termos de simbolismo poético nunca se tem uma relação única entre imagem e sentido, ou mesmo uma solução sim-ou-não.  As soluções poéticas são múltiplas, e mesmo quando coincidem, pode ser por motivos diferentes.  Tanto cariocas quanto londrinos amam o sol e abominam a chuva – mas os dois vivem em cidades de clima totalmente oposto.  Em Londres, o normal é o dia nublado e chuvoso, e o dia de sol é uma festa da Natureza.  No Rio, o sol é um direito civil, um piso mínimo de liberdade e alegria a que todos têm direito, e um dia sem ele é como um dia passado na cadeia. 

 

Não há soluções poéticas óbvias, ou, pelo menos, sempre é possível fugir ao óbvio, desviar-se do clichê, recusar a enganadora facilidade do que já foi dito e repetido.  Razão, como sempre, tinha John Lennon, quando dizia:

 

Sento num jardim inglês, esperando o sol,

e se o sol não vier

eu me bronzearei na chuva inglesa.

(“I Am the Walrus”, Lennon & McCartney)

 

(Este artigo foi originalmente publicado da revista Língua Portuguesa, Editora Segmento (São Paulo), número especial, novembro 2010)

 

 

 

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

4849) Bob Dylan via computador (3.8.2022)



A evolução acelerada das pesquisas de Inteligência Artificial fazem deste nosso período uma espécie de Terra de Ninguém experimentalista, onde cada pesquisador avança na direção que bem entende, usando os instrumentos de que dispõe, e sem uma idéia muito clara do que vai acontecer pela frente.

Anotem: é em períodos assim que surgem as descobertas mais inesperadas e os grandes upgrades conceituais. Aquilo que os historiadores, com a vantagem da visão retrospectiva, dirão em tom pomposo: “Era uma invenção madura, pronta para acontecer...” Tudo é previsível depois que acontece.

Vejam o caso dos algoritmos que produzem texto, por exemplo. A análise estatística do estilo de textos literários é uma coisa antiga. Quando usei computador pela primeira vez, em 1991, o programa com que “estreei” nesta nobre arte era o  WordStar. E o notebook que um amigo me emprestou tinha entre os seus recursos um analisador de estilo.

Eu escrevia um parágrafo, ou copiava um parágrafo (em inglês) de um conto já escrito, e depois de alguns segundos o programa me dizia: Você está usando 23% mais adjetivos do que Ernest Hemingway, e suas frases são 35% mais longas do que as frases dele.

Ou seja: o programa tinha, arquivadas em suas memórias, uma planilha enorme de estatísticas de todos (ou muitos) textos de autores famosos – Hemingway, Fitzgerald, Melville, Shakespeare, não lembro mais quem. Essas características de estilo (extensão de palavras, extensão de frases, estruturas de frase mais frequentes, sinônimos preferidos) eram coisas relativamente fáceis de calcular via computador, que é uma máquina de procurar, com rapidez, coisas devidamente codificadas.

Vejam bem, esses comentários que me faziam erguer o sobrolho são de trinta anos atrás.


Não há dúvida de que desde então os pesquisadores descobriram como catalogar, organizar e codificar outras características de estilo. O tipo de metáforas preferidas pelo autor. Suas aliterações mais usuais, seu vocabulário característico, seus temas, sua forma de organizar o diálogo ou o monólogo interior... Narrativas na 1ª. ou na 3ª. pessoa, preferências por nomes próprios... E por aí vai.

Já comentei aqui a existência de um software que “escreve poemas no estilo de Dylan Thomas”:


Não posso negar que existe um certo sabor do bardo galês, mesmo que sintético, em versos como:

I slept heartily

By the goosefield of the truant boy

Laughing mildly on the invisible leaves

On thoughts of tides

Where bones lie proudly

And all the patchwork birds burn and walk.



Thomas provavelmente tombaria vítima de um ataque apoplético se visse esses versos sendo-lhe atribuídos, mas não importa. Para um leigo, como eu, acaba colando.

É como o famoso Parnaso de Além-Túmulo, uma antologia poética espírita que minha mãe tinha em casa, cheia de sonetos de Cruz e Sousa, Olavo Bilac, Raimundo Correia, Castro Alves, Augusto dos Anjos... Eu menino perguntava a respeito e ela explicava: “São os poemas que eles escreveram depois de mortos, e transmitiram através dos médiuns”.  Nunca duvidei, pelo menos até a época em que eu próprio comecei a fazer meus pastiches de Augusto dos Anjos, crente que estava abafando.

É fácil estudar os cacoetes e as preferências de um poeta e imitá-las. É como aquelas pessoas que imitam a voz de qualquer um, o jeitão de qualquer um (Chico Anysio, por exemplo). É um talento, e pronto.
 
Talento tão real que agora é demonstrado por algoritmos.



Bob Bjarke, da Califórnia, criou um algoritmo capaz de “escrever uma letra de música no estilo de Bob Dylan”. (O fã dylaniano mais cabreiro pode alfinetar logo: “Mas é o Dylan de Blonde on Blonde, o de Shot of Love ou o de Under the Red Sky?...)
 
Com a palavra este outro Bob (@bobarke):

Uma das maneiras mais acessíveis de fazer experiências com Inteligência Artificial é através da geração de textos. Há muitas ferramentas de I.A. que podemos usar para gerar rapidamente uma grande massa de texto, a baixo custo, usando dados colhidos em fontes da web. (...) Usei um software chamado GPT-2, que os cientistas alimentaram com o texto de 8 milhões de páginas da web, e é agora capaz de imitar a escrita humana. (...) O catálogo de canções de Dylan inclui mais de 600 letras. (...) Ao criar o “letrista artificial” a quem dei o nome de “Bob Dylain”, o GPT-2 produziu milhares de letras de músicas, que variavam de um nonsense ininteligível até regurgitações literais de letras já existentes. Entre estes dois extremos, o programa compôs letras que a gente poderia considerar Dylanescas, demonstrando um uso hábil de metáforas e de crítica social, e muitas vezes recorrendo à experiência do Oeste americano. (trad. BT)

Eis um bom exemplo de letra gerada pelo software:

I had a long talk with your aunt      

In the churchyard, in the alley

She told me all about your death

I lay in bed and talked to myself

 

But I didn’t know what to do

Three bodies lyin’ there was nothin’ I could do to stop it

Memory is like a rolling cloud

Where the ancient light never fades

 

I had a long talk with your uncle

In the county jail

He sat in a rocking chair

He talked about the golden age

 

When men, women, and children went free

He said the darkest hour was still ahead

When men, women, and children went free

I had a right to be saved by love, I had a right to be

 

I had a long talk with your grandmother

In the home of the living

She talked about the trials and the tribulations

She said you had a right to know

 

What she knew about disease

and about how it was to be killed

How many people died from it, and what was left?

How many more would be left to rot?

 

   When you died, your body was buried in the rocks

   In the gutter like a boiled fish

   I never saw my heart begin to bleed

   I never saw my whole being disappear

 

I had a long talk with my brother

In the cold dark of night

He spoke of the great final struggle

When all is lost and all is made of stone

 

You and me we had completeness

I gave you all of what you wanted I did it my way

You followed your own fancy I had a right to be

Saved by love, I had a right to be