quinta-feira, 7 de maio de 2015

3808) O polvo (8.5.2015)



(foto: Sebastian Niedlich)

Um fato insólito ocorreu mês passado no Laboratório de Biologia Marinha da cidade de Devon, na Inglaterra. Uma assistente do laboratório, Diana Rubin, 28 anos, estranhou o fato de que, ao abrir a porta às 6 da manhã (ela era geralmente a primeira a chegar, para controlar os índices de um dos trabalhos que estava pesquisando) encontrou o chão molhado e percebeu a ausência de peixes ou crustáceos de um dos vários tanques de espécimens que ficavam numa extremidade do salão. As escrivaninhas, o material de escrita, os arquivos, tudo o mais estava intacto. Quando o fato se repetiu, câmeras de segurança foram instaladas, enquadrando inclusive as portas e janelas. A luz foi deixada acesa. Certo dia, checando as imagens ao chegar, Diana teve um susto.

Numa das laterais do laboratório havia um grande tanque, com um polvo dentro. O tanque era fechado por uma tampa circular metálica, de rosca. Mesmo à distância, foi possível perceber que a certa hora da madrugada, o polvo se aproximou da tampa, por dentro, aplicou as ventosas dos tentáculos à superfície interna da tampa, desenroscou-a, continuou a segurá-la com um tentáculo e esgueirou-se pela abertura de uns trinta centímetros de diâmetro, forçando para fora seu corpo esponjoso, borrachudo, cheio de cartilagens. Deslizou para o chão, deixando um rastro molhado, foi até um tanque aberto, recolheu alguns peixes, trouxe-os consigo, escalou o tanque, voltou para dentro dágua, voltou a enroscar a tampa pelo lado de dentro e fez sua refeição. Tudo não durou mais que dois ou três minutos.

Diana Rubin pediu providências. A direção do laboratório a ignorou. (Ela era uma bolsista recém-chegada do interior, não tinha amigos influentes.) Os colegas a quem denunciou o fato riram-se dela, recusaram-se a ver as gravações. Durante dois dias, Diana falou com meia dúzia de cientistas, e o único que concordou em ver as imagens disse que eram de má qualidade, que aquilo só seria aceitável se fosse filmado de perto, com uma câmara digital de boa definição. Brincando, sugeriu que se ela provasse o que dizia conseguiria uma promoção e um aumento.

Na manhã seguinte, pesquisadores chegaram ao laboratório e viram o corpo de Diana Rubin caído no chão, tendo ao lado uma câmara espatifada. Seu pescoço estava partido, cheio de marcas roxas. Poças de água no chão. O polvo estava em seu tanque, parecia adormecido. Ao lado do cadáver, via-se uma caneta e um bloco de anotações, todo molhado, onde era possível ler em garranchos:  “mim matei”, em letras de imprensa trêmulas, que pareciam de criança, pareciam de alguém que está começando a se auto-alfabetizar.


quarta-feira, 6 de maio de 2015

3807) Ler na cama (7.5.2015)



Pergunta-se muito às pessoas “qual é o seu livro de cabeceira”, supondo com isto que cada pessoa mantém um livro junto à cama para se aconselhar naquele aconchego de pré-dormida, ou durante as horas de insônia. 

Livro de cabeceira implica livro favorito, livro companheiro-de-todas-as-horas, mas que, como qualquer companhia de todas as horas, ganha uma importância especial nas horas em que tudo está bem, tudo está em paz, a família ressona, a cidade descansa, as contas estão pagas, “governo e oposição estão sem assunto” (como dizia Guilherme de Figueiredo), o mundo inteiro está adormecido... e para acontecer o “plin!” da perfeição a gente precisa apenas estender o braço, e apanhar o Livro de Cabeceira. Qual é o seu?

Eu não tenho, ou melhor, tenho junto da minha cama um movelzinho de madeira com duas fileiras de volumes. A última vez que contei, eram vinte e sete. 

Ali tem principalmente livros recentes que ainda estão sendo examinados pra ver se dão um caldo, livros de amigos, livros divididos em unidades menores (poesia, contos, artigos, variedades, fragmentos) que vou lendo ao ritmo de uma unidade por semana. 

Não existe O Livro Especial, e muitos que ali estão são livros de releitura, volumes de contos ou de poemas que já li dez vezes, mas a última delas foi quinze anos atrás. Em verdade vos digo: a gente só pode dizer que conhece um livro quando o lê pelo menos duas vezes.

O “pobrema” de ler na cama não é mental nem bibliográfico, é físico. Primeiro, a posição. Tudo que a Inquisição Espanhola vem fazendo à minha coluna nos últimos vinte anos não se deve às minhas piadinhas de herege, e sim ao costume de ler deitado. 

Os médicos já insistiram: “Ponha travesseiros, sente em forma de L (tronco ereto, pernas esticadas). Não leia na horizontal com os travesseiros forçando seu pescoço para cima”. Disseram, mas não adiantou, foi como se eu telegrafasse hoje para John Lennon pedindo-lhe que não desse autógrafo a ninguém quando chegasse em casa tarde da noite.

E aqui pra nós, é uma coisa fisicamente absurda o camarada pretender ler deitado, com os dois braços tendo que manter o livro erguido no ar, com a luz do teto incidindo nos olhos e a página sendo mantida na sombra. Em casa a gente se vira, mas 99% dos hotéis brasileiros tratam seus hóspedes como indivíduos avessos à leitura: não há um mísero quebra-luz pra clarear o livro. 

Sem contar o maior problema de todos, resumido por Millôr Fernandes num versinho que trago decorado desde a infância: 

Ler na cama 
é uma difícil operação. 
Me viro e me reviro 
e não encontro posição. 
Mas, se afinal encontro um cômodo abandono... 
pego no sono.






terça-feira, 5 de maio de 2015

3806) Dicas anti-racismo (6.5.2015)



(foto: navio negreiro, por Marc Ferrez)

A revista eletrônica Salon perguntou a ativistas e escritores negros que atitudes podiam ser tomadas, por pessoas brancas, para combater o racismo nos EUA. Algumas respostas (http://tinyurl.com/pbhj8hd) indicam caminhos para isto, numa época de tanto conflito e de tanta violência, como vimos recentemente em Baltimore. (Sem falar no Brasil, claro.) Para Kali Holloway, que escreveu a matéria, “abordar o racismo e a desigualdade racial como um branco aliado é necessariamente desconfortável e difícil. Implica em pôr de lado defesas pessoais para reconhecer as maneiras como nós, brancos, consciente ou inconscientemente apoiamos a supremacia dos brancos. Significa desafiar a si mesmo a reconhecer a existência dos privilégios, e do fato de que nos beneficiamos deles, pessoalmente.”

Brittney Cooper, co-fundadora do Salon sugere que não basta a um simpatizante branco ir às comunidades negras para manifestar apoio, mas também proclamar sem medo esse apoio quando estiver cercado apenas de brancos, e usar seus privilégios para confrontar as injustiças raciais quando as presenciar, seja no mercadinho da esquina ou na sala de reuniões da diretoria. A escritora Daisy Hernández (A Cup of Water Under My Bed: a Memoir) aconselha o pessoal a prestar atenção na linguagem quando estiver lendo ou escrevendo. Quando a polícia atira em alguém na rua, o texto se refere a um “estudante” ou a um “jovem negro”? Falar e escrever significa fazer escolhas verbais que definem nossa atitude, e essas escolhas muitas vezes são herdadas inconscientemente.

Arthur Chu, colaborador de Salon, aconselha os brancos a lerem algum livro: “É mais barato do que pagar por uma aula, e infinitamente melhor do que tentar estudar o assunto com opiniões de terceira ou quarta mão fazendo perguntas via Twitter. Se você tem amigos negros ou asiáticos, é muito melhor perguntar qual o livro que eles lhe recomendam do que pedir a eles que lhe expliquem ali, na hora, a questão racial.” Rebecca Carroll, colaboradora do Guardian, levanta entre outras questões esta, muito simples, citando a atriz Amandla Stenberg, a Rue de Jogos Vorazes: “Que tal se a gente gostasse das pessoas negras tanto quanto gosta da cultura negra?”.

Sarah Sahim, escritora, adverte: “Fique de pé e proteste. Muitos estão impossibilitados de protestar, mas há opções. Crie alguma coisa: fanzines, arte, podcasts, artigos. Vocês são brancos. Usem o respeito incomparável que recebem como direito de nascença para reconhecer e corrigir esta situação”. O privilégio é uma moeda, uma arma, um poder; que a gente recebe sem pedir, quando nasce, e resolve como vai usar, quando cresce.



3805) Ruth Rendell 1930-2015 (5.5.2015)



Ela pertenceu à linhagem das grandes damas do romance policial britânico, com Agatha Christie, Dorothy Sayers, P. D. James e outras. Cada uma com seu estilo e suas histórias; cada uma com seus criminosos típicos e seu detetive preferido. Não li nenhum dos romances de Ruth Rendell onde aparece o Inspetor Wexford, sua criação mais famosa, mas nada está perdido. O único consolo que temos na morte de um escritor é que ele se vai mas os livros ficam. (Imaginei agora, durante ume terrível fração de segundo, um planeta distópico onde a morte de um escritor fazia desaparecer para sempre todos os seus livros impressos e todas as palavras escritas por ele ao longo da vida.)

O obituário da BBC registra um fato divertido: bem jovem, ela trabalhou como repórter num jornal de Essex, e acabou demitida devido à cobertura que fez de um jantar num clube esportivo local. Rendell não compareceu ao evento e fez o que muitos repórteres fizeram e farão até o fim dos tempos: escreveu a reportagem “no escuro”, uma vez que jantares desse tipo são sempre iguais. O que ela não contava é que o orador principal da noite teve morte súbita durante o discurso, e o jornal dela foi o único que ignorou o fato.

“Eunice Parchman matou a família Coverdale porque não sabia ler nem escrever.” A frase inicial de Um Julgamento em Pedra (1977) é um dos começos mais famosos da literatura policial, porque abre o livro revelando quem é o criminoso.  A série fatalista de circunstâncias que leva uma empregada (que esconde o fato de ser analfabeta) a chacinar os patrões foi filmada por Claude Chabrol (La cérémonie, 1995). Pedro Almodóvar filmou Carne Trêmula (1997) baseado em seu romance Live Flesh (1986). A obra de Rendell, felizmente, tem sido traduzida no Brasil: deve haver mais de vinte títulos à disposição do leitor, por várias editoras.

Traduzi apenas um dos contos magníficos dela: “O Duplo (Encontro no Parque)”, na minha antologia Contos Fantásticos de Amor e Sexo (Ímã, 2011), a história de um homem dividido entre duas mulheres iguais. “The New Girl Friend” (1984) conta a história da amizade entre uma mulher e seu vizinho que pratica “cross-dressing” quando está sozinho em casa.  “The Fallen Curtain” (1975) mostra a busca silenciosa de um homem para reconstituir um episódio obscuro em que se envolveu num parque com um adulto, quando era menino. “The Haunting of Shawley’s Rectory” (1979) fala de uma casa assombrada por visões de um crime. Sua prosa é límpida, implacável; sua percepção da alma humana chega a ser incômoda – ela parece saber sobre seus personagens mais do que a prudência recomenda.


sábado, 2 de maio de 2015

3804) Que fim levou? (3.5.2015)



(foto: John Stanmeyer)

Que fim levou Marquinho Honolulu, lá de Olinda, que estava em todas as festas, não cantava, não dançava, ficava só sentado fumando e olhando as meninas, volta e meia se apaixonava pela namorada de alguém e entrava num processo etílico que durava meses, e a quem eu tentei inutilmente explicar como era o sistema correto, 4-4-3-3, de fazer sonetos?

Que fim levou Dona Terta, que todo dia pegava uma cadeira de palhinha, levava até embaixo de uma árvore frondosa em frente à oficina mecânica onde trabalhava seu filho único, Rondismar, e ficava ali fazendo crochê e ouvindo música no radinho de pilha, assim como quem não quer nada, e ai dos colegas de oficina se por causa disso mangassem de Rondismar, que tinha dois metros e cem quilos?

Que fim levou Vânder de Souza, que estudou comigo no Estadual da Prata, bem católico, bem certinho, e o único cara que eu já vi fazer um problema de palavras-cruzadas sem olhar o desenho, apenas ouvindo a gente dizer o enunciado e o número de letras, mantendo na memória cada letra de cada casa já preenchida?

Que fim levou Sônia Lima, a flor do meu bairro, musa unânime dos adolescentes locais, que desfilava inatingível do alto de seus três anos a mais do que eu, loura, nórdica, simpática, que se formou em enfermagem, e, dizem os invejosos, acabou casando com o primeiro doente a quem atendeu?

Que fim levou Dona Amarílis, doceira, quituteira, mãe de cinco filhos, esposa exemplar, que aos cinquenta anos ganhou numa loteria qualquer (e nem foi essas fortunas todas, porque acabou em menos de dois anos), largou tudo e foi viver com um primo em Caruaru?

Que fim levou Dandinho, que morava perto da bodega de Seu Anísio, trabalhava numa oficina, e um dia apareceu de cabeça raspada e disse que estava fazendo um treinamento ninja secreto para entrar na Polícia Federal, mas antes do fim da semana a irmã dele revelou que era piolho?

Que fim levou Seu Sueldo, aquele velho que vivia se balançando numa cadeira no terraço, com um caderninho na mão, anotando coisas, não se sabe o que, porque não era jornalista nem policial, era um ferroviário aposentado, e talvez por isso mesmo vigiasse tanto a rua, antes do filho ser transferido para uma agência bancária em Conselheiro Lafaiete e levá-lo consigo?

Que fim levou Valdir Bamba, amigo de um primo meu, que trabalhava no Zoológico de Dois Irmãos do Recife, e um dia tomou umas caebas, chegou triscado no trabalho, teve um bate-boca com um supervisor que quase resulta em tiro ou peixeirada, mas resultou apenas em Valdir Bamba sair abrindo tudo quanto foi gaiola e jaula, e promovendo um pandemônio que levou dias para ser corrigido?




3803) Livros interferidos (2.5.2015)



(ilustração: Ekaterina Panikanova)

Artes plásticas e literatura são primos distantes que de vez em quando passam férias na casa um do outro. Já falei aqui do artista Tom Philips, cujo livro-obra A Humument (1970) é famoso. Philips pegou um romance vitoriano achado num sebo e interferiu no texto com aquarela, nanquim, lápis de cor, etc., deixando intactas algumas frases e palavras, que, lidas no novo contexto, acabam contando uma nova história. O próprio título já é uma mutilação do título original, A Human Document. O livro, de W. H. Mallock (1892), é uma obra em domínio público. Cada página pintada por Philips sobre o texto original é uma pequena obra de arte em si. Fui agora dar uma olhada no saite (http://www.tomphillips.co.uk/humument) e vi que já existem cinco edições de A Humument, cada uma delas com novas páginas recriadas.

A russa Ekaterina Panikanova faz algo um pouco diferente. Ela pega uma certa quantidade de livros, abre-os em uma página qualquer e os arruma, abertos, em filas e colunas, como quadrados do xadrez. E usa isso como se fosse uma tela, pintando (aplicando colagens, desenhando, etc.) quadros bem amplos, com cada um dos livros abertos recebendo apenas um detalhe da pintura geral. Alguém pode lamentar que os livros sejam inviabilizados para a leitura, mas a verdade é que ela inutiliza apenas um exemplar de cada um, o que não é nada diante dos milhões de livros que vão direto para o lixo todo dia. E o trabalho é uma beleza, como pode ser visto aqui: http://tinyurl.com/mp8qqxl.

A própria literatura interfere fisicamente no livro impresso. O romancista Jonathan Safran Foer pegou em 2010 o livro do alemão Bruno Schulz, A Rua dos Crocodilos (segundo ele, o seu livro favorito) e, onde Tom Philips usou técnicas da pintura, ele as usou da escultura. As páginas do exemplar original foram recortadas, com trechos inteiros retirados (com gilete e estilete, imagino), fazendo com que pelas aberturas aparecessem frases de páginas mais adiante misturando-se às da página aberta. Este pequeno clip do YouTube (http://tinyurl.com/mwtenoq) dá uma idéia do resultado final.

Um livro (dizia Borges) não é uma explicação do universo, é apenas um objeto a mais adicionado a ele. O fato do livro de papel resultar num objeto o transforma de produto em matéria-prima. Vira material de recriação para quem tiver imaginação e paciência não só para criar, mas também para fruir a obra resultante. Obras desse tipo são uma contribuição interessante ao debate sobre livro eletrônico e livro de papel, mostrando que este último, mesmo passivamente, pode ser interativo de muitas maneiras, basta ter uma boa idéia e técnica para executá-la.


quinta-feira, 30 de abril de 2015

3802) "Twin Peaks" (1.5.2015)



Completam-se 25 anos do lançamento da série de TV Twin Peaks, criada por David Lynch. Há uma continuação em projeto, se bem que o diretor, como toda estrela que se preza, esteja fazendo um certo foi-não-foi a respeito de orçamento. Estou aproveitando para dar uma olhada geral na série, pois na época vi vários episódios fora de ordem, tive que ler na imprensa o enredo, portanto não considero que tive a experiência estética verdadeira de quem vê a história por ordem cronológica desde o começo. Estou tendo agora, quando revi em alguns dias a primeira temporada inteira.

Twin Peaks é uma cunha do “uncanny” enfiada na fórmula-padrão do seriado de TV norte-americano. É um Dallas refilmado pelo Buñuel do México, com paisagens do Maine de Stephen King. Menos inquietante / espantoso / perturbador / violento / surreal do que filmes como Eraserhead (1976), O Homem Elefante (1980), Veludo Azul (1986) ou Coração Selvagem (1990), que ele àquela altura já tinha feito, no cinema. Lynch desembarcou na TV com o cacife desses filmes demolidores, e se apropriou do formato de narrativas tipo Peyton Place, sobre as mazelas ocultas por baixo do esmalte, xampu e batom de uma cidade perfeita nos moldes norte-americanos. Só que Peyton Place, Dallas e outros descascam apenas a casca de fora dessas feridas. Lynch afunda o bisturi e puxa lá de dentro alguma coisa que não vemos porque até a câmara se afasta, para mostrar a paisagem através da vidraça partida.

A música de Angelo Badalamenti produz um clima de ansiedade crescente, que vai surgindo, vai cercando, vai envolvendo.  Lynch sabe dar um clima ominoso a uma cena banal, como duas pessoas conversando, apenas com o uso de uma massa sonora subliminar que parece um tsunami de ameaça prestes a arrastar aquelas pessoas para longe.  Sua trilha lembra Philip Glass, pelo uso recorrente de pequenas frases musicais aparentemente simples, assobiáveis, células melódicas que grudam na memória; e lembra Sérgio Leone pelo “crescendo” épico que arrebata tudo e todos, uma música de melodrama sem constrangimento, talvez porque se trate de um melodrama existencial e metafísico e as possibilidades de sentimentalismo água-com-açúcar estejam canceladas desde o primeiro acorde.

Uma das maneiras de usar o melodrama na narrativa de hoje é não se curvar a ele, não lhe dar as rédeas, mostrar desde logo ao público que o lado melodramático daquela história é apenas um elemento a mais, mas que o diapasão está sendo fornecido por outro conjunto de intenções. O melodrama é a cobertura do bolo, mas o que há por baixo dela é outra coisa, que só será descoberta na hora da mordida.




quarta-feira, 29 de abril de 2015

3801) Pequenos personagens (30.4.2015)



O pequeno personagem é aquele que aparece pouco, em segundo plano, mas nem por isso tem que ser um personagem menor ou sem importância. Às vezes aparece em apenas uma cena, mas é bastante para se tornar inesquecível. 

No cinema, isso fica muitas vezes por conta do ator. O ator Ned Beatty fez um papel secundário em Rede de Intrigas (“Network”, 1976) de Sidney Lumet, aparecendo em apenas uma cena do filme, e concorreu ao Oscar de Melhor Coadjuvante. (Não que eu ache um Oscar uma grande coisa, mas eles lá acham.) Dizia ele: “Nunca recuse um trabalho, por menor que pareça. Trabalhei neste filme um dia apenas, e fui indicado ao Oscar”.

A literatura parece mais propensa a valorizar os personagens menores. No livro de R. L. Stevenson O Médico e o Monstro, o Dr. Jekyll tem uma casa cheia de criados que pouco aparecem; mas o romance Mary Reilly (1990) de Valerie Martin, usa como protagonista uma dessas empregadas, e reconta o drama do ponto de vista dela. 

Algo parecido foi feito recentemente no romance francês Meursault, contre-enquête (2013) de Kamel Daoud, cujo foco é no irmão do árabe assassinado na praia pelo narrador de O Estrangeiro (1942) de Albert Camus.

No prefácio de seu romance O Mundo de Rocannon (1966), Ursula LeGuin explica seu protagonista lembrando que ele aparecia rapidamente no conto “O Colar de Semley” (1964), como um etnólogo que a heroína encontra noutro planeta. Depois (diz ela) ele começou a surgir na sua mente, dizendo: “Ei, eu sou Rocannon! Conte minha história!”, e ela o fez. Muitos personagens hoje famosos fizeram sua primeira aparição em circunstâncias parecidas.

Um personagem shakespeariano inesquecível é Falstaff, que aparece nas duas partes de Henry IV (1597?, 1599?) e As alegres comadres de Windsor (1602). Em 1966, Orson Welles lhe deu o papel de protagonista do filme Chimes at Midnight, aproveitando cenas das peças e trazendo o personagem para o foco principal. 

Algo parecido fez o dramaturgo Tom Stoppard quando dedicou uma peça inteira a dois personagens bem secundários de Hamlet, em Rosencrantz and Guildenstern are Dead (1966). São dois amigos do príncipe Hamlet que fazem breves aparições na peça, e no texto escrito por Stoppard eles se tornam o ponto de vista através do qual a história do Reino da Dinamarca é contada. 

Desenvolver um personagem secundário de uma obra conhecida poderia ser um bom exercício de oficina literária, para mostrar como uma mudança de ponto de vista, sem alterar os fatos concretos, pode determinar uma reviravolta no significado da história original. Nenhuma história é a mesma quando os fatos são narrados por outro ponto de vista.





terça-feira, 28 de abril de 2015

3800) Traduzir FC na China (29.4.2015)



Um manuseado trocadilho italiano diz: “Traduttore, tradittore”. Tradutor: traidor. Vi recentemente uma versão em espanhol dizendo que este estóico profissional “no es um traidor, sino um traedor”. Um trazedor: alguém que traz para nosso alcance algo que estava lá do outro lado do mundo. Gostei mais desta. Ambos os epítetos, aliás, dão certinho com o que tradutores chineses andam fazendo com livros de ficção científica ocidentais.

Dizem que a China tem um público de um bilhão de leitores. Lá, a FC tem historicamente um perfil didático, educativo, voltado para a divulgação da ciência entre os jovens. Ambiente mais que propício, por exemplo, para se traduzir Jules Verne. A tradução, contudo, enfrenta problemas, principalmente de ordem cultural – o leitor sabe pouco a respeito do Ocidente. Uma matéria de Ken Liu no saite io9 (aqui: http://tinyurl.com/ljshjas) mostra a verdadeira paráfrase realizada no primeiro parágrafo de Da Terra à Lua de Jules Verne (1865).

O texto original diz: “Durante a Guerra da Secessão dos Estados Unidos, um novo clube, muito influente, foi criado na cidade de Baltimore, em plena Maryland”. Uma tradução chinesa, feita via japonês, diz: “Quem já estudou a geografia e a história do mundo conhece um lugar chamado América. Quanto à Guerra da Independência americana, qualquer criança sabe que foi um acontecimento que fez o mundo estremecer, um feito que deve ser frequentemente relembrado e nunca esquecido. Bem: entre todos aqueles Estados que participaram da guerra, um deles se chamava Maryland, cuja capital, Baltimore, era uma famosa cidade fervilhante de multidões e com um intenso tráfego de cavalos e carruagens. Nessa cidade havia um clube, de magnífica aparência, e quando alguém via a bandeira americana hasteada e tremulando ao vento, experimentava um sentimento de admiração e reverência”.

O único erro factual é confundir a Guerra da Secessão com a Guerra da Independência; mas a necessidade de fornecer contexto a adolescentes chineses leva o tradutor a uma completa reescrita do texto original. Muitas vezes um tradutor insere duas ou três palavrinhas inócuas para esclarecer um detalhe no próprio texto, de maneira fluente, evitando as notas de pé de página, que muitos editores e leitores detestam. Essas interferências devem ser guiadas pelo bom senso e pelo desconfiômetro. Verne é um dos autores mais mutilados da história. Muitas edições “para jovens” suprimem por inteiro as explicações químicas ou físicas que ele queria transmitir aos jovens de seu tempo. Edições assim estão ainda no estado selvagem da tradução literária.



segunda-feira, 27 de abril de 2015

3799) Game of Thrones 2015 (28.4.2015)



A série Game of Thrones (HBO) começou sua quinta temporada há três fins de semana. Há quem ache a série inferior aos livros, mas da minha parte tenho feito desde o início o caminho inverso. Vejo a série primeiro, e depois leio os capítulos correspondentes aos trechos que mais me interessam, em busca de maior riqueza, textura, espessura, as armas imbatíveis do texto literário.

GoT está para a Fantasia Heróica tradicional tipo O Senhor dos Anéis um pouco como o bang-bang italiano estava para o faroeste clássico dos EUA, onde havia uma divisão mais clara entre os bons e os maus, os certos e os errados. Os westerns spaghettis trouxeram maior cinismo, maior sujeira (o western clássico era limpinho demais, feito-em-estúdio demais) e maior realismo ao gênero. Na fantasia, somos forçados a constatar que a política do mundo moderno não parece muito com as epopéias alegóricas de Tolkien: parece, sim, com o jogo de sacanagens, traições, vinganças, crueldades e covardias que vemos entre as “elites brancas” de Westeros.

A lenta progressão da história induz (em nós) expectativas de vitórias ou de desgraças que não se confirmam. Essas guinadas ressaltam o modo imprevisível como o entrechoque de variáveis faz mudar as regras do jogo no transcorrer da partida. Na luta pelo poder em Westeros, cada aparente triunfo pessoal (Snow eleito comandante da Guarda, Arya refugiando-se em Braavos) cobra um sacrifício que não foi previsto. Sansa é levada de volta ao antigo castelo de sua família, mas o preço é casar-se com Ramsay Bolton, um dos psicopatas mais sádicos da série (há vários). E os autores não desdenham um clichê: se um personagem está fugindo incógnito e pede para ir disfarçado a um lugar público, a probabilidade de que seja descoberto paga 1 por 1 na Bolsa de Apostas.

O formato de série parece dar aos diretores mais folga para desenvolver efeitos dramáticos que precisam de tempo: suspense, expectativa, surpresa, reviravolta de caráter dos personagens. Nem sempre acontece. Um filme de duas horas em geral fecha seu foco num número menor de pessoas, e alonga os minutos sempre que necessário, mas uma série assim é um mural, e num mural não existem close-ups. Isso nos dá o paradoxo de numa temporada de dez episódios de 1 hora vermos cenas com excelente potencial dramático serem resolvidas às pressas pela necessidade de passar logo para a próxima linha narrativa, porque são muitas. Não importa. Para mim, a série fornece o impacto visual dos cenários e dos rostos, o carisma dos atores, o arrebatamento rítmico dos episódios bem construídos. Depois, vai-se ao livro pela substância, pela essência; a Coisa em Si.