quinta-feira, 6 de outubro de 2022

4870) A arte da trilogia (6.10.2022)



O sucesso da trilogia fílmica O Senhor dos Anéis (2001-02-03 ) de Peter Jackson enfiou esse conceito trilógico no juízo das pessoas, como se fosse uma verruma. Ninguém fala mais: “Vou escrever um romance”. Romance é para os fracos. É só “vou escrever uma trilogia”.
 
Pra que tanta pressa? Custa nada escrever um livro, para confirmar que pode, e depois “alçar mais altos voos”, como diria o poeta? Uma coisa que sempre questionei foi o fato de que trilogia não é um conceito literário (como “romance” ou “conto”), mas editorial. É uma forma de publicar obras de ficção muito longas.
 
E as trilogias não surgiram com Tolkien – que se irritou muito com seus editores quando estes sugeriram publicar Lord of the Rings em três volumes. Ele queria um livro só, porque assim foi concebido. Os editores explicaram que o livro tinha cerca de 1.500 páginas, ficaria muito grande e muito caro. Por outro lado, a estrutura narrativa interna comportava uma divisão em três partes bastante nitidas. Tolkien concordou, com a condição de que os livros saíssem com uns seis meses de intervalo, o que aconteceu. Foi a decisão mais acertada.
 
Aliás, trilogia não é o único modelo, porque na literatura mainstream temos o “Quarteto de Alexandria” de Lawrence Durrell (Justine, 1957; Balthazar, 1958; Mountolive, 1968; Clea, 1960), e na FC temos a insuperável decalogia Missão: Terra (1985-1987, dez livros, com cerca de 4 mil páginas ao todo).


Robert J. Sawyer, um autor canadense talentoso e premiado, é meio que um especialista nessas séries caudalosas. E tem uma interpretação interessante a respeito, numa entrevista à Locus (#600, janeiro 2011).
 
Diz ele que existe a trilogia próxima ao caso de Tolkien, a que nasce de uma única história que acaba se estendendo demais, o que dificulta a publicação num só volume. No caso dele, Sawyer fornece como exemplo sua trilogia “WWW”, em que uma garota cega recebe implantes que lhe permitem “ver” por dentro a World Wide Web. Os três volumes são Wake (2009), Watch (2010) e Wonder (2011).


Diz Sawyer (trad. BT):
 
Vistos em conjunto, penso neles como um só romance. Lembro de tudo que acontece ali, mas é preciso um esforço real, de minha parte, para saber em que ponto específico, de qual livro, algum fato ocorre. Se o público teve alguma queixa a respeito de Wake, a reclamação mais frequente foi de que há linhas narrativas que não foram devidamente encerradas. Todas se encerraram no final de Wonder – e de uma maneira espetacular, eu acho!
 
Existe um segundo tipo, para Sawyer. São três livros diferentes, mas que formam uma espécie de tríptico, de conjunto que se complementa de forma harmoniosa. Ele dá como xemplo sua trilogia conhecida como “The Neanderthal Parallax”, onde ele narra o contato de um grupo de cientistas com uma realidade paralela onde os homens de Neanderthal se desenvolveram e criaram uma civilização análoga à nossa. Os três volumes são Hominids (2002), Humans (2003) e Hybrids (2003).
 
São narrativas que envolvem uma complexa comparação entre sistemas sociais parecidos e diferentes – duas humanidades evoluindo ao longo de linhas que divergem em alguns pontos e convergem em outros, suscitando questões antropológicas, filosóficas, biológicas, religiosas, etc.




Diz ele:
 
Num caso assim, você escreve um livro em que um habitante desse mundo vem até o nosso; depois um livro onde um de nós vai visitar o mundo dele, e por fim um livro em que uma co-existência entre os dois mundos se desenvolve de forma estável. Isto produz uma trilogia natural.
 
Não li nenhum destes romances, e estou me baseando apenas nas declarações do autor. Creio que para descrever de forma mais precisa essa idéia dele – a de um triptico, três histórias diferentes formando um conjunto temático – seria preciso haver diferenças significativas de livro para livro, para que a obra não se tornasse um mero “livrão” dividido em três pedaços. Três elencos distintos de personagens principais, por exemplo, ajudariam a dar a cada livro esse tipo de autonomia narrativa, mas não sei se é o caso.  


 
O terceiro tipo, segundo Sawyer, é uma espécie de trilogia involuntária. Diz ele:
 
Neste caso, você escreve um livro que faz muito sucesso. Aí, recebe a encomenda de uma continuação, que também faz um sucesso muito grande. Aí você escreve um terceiro livro e avisa: “Pra mim, chega”.
 
Sawyer cita, a este propósito, sua trilogia chamada “The Quintaglio Ascension”, composta pelos livros Far-Seer (1992), Fossil Hunter (1993) e Foreigner (1994). A premissa, bastante ousada, é de que em tempos remotos uma civilização alienígena transportou dinossauros terrestres para um planeta remoto com condições físicas semelhante à Terra, e ali os dinossauros desenvolveram inteligência, cultura, tecnologia e ciência – a série, inclusive cria equivalentes sáurios a Galileu Galilei, Isaac Newton e Sigmund Freud.
 
No caso da trilogia involuntária, há que considerar que no primeiro volume o autor teve que proceder a uma “construção de um mundo” cheia de detalhes, exigindo pesquisas, etc., e de certa forma, mesmo sem querer, isso deixava meio caminho andado para um volume dois e um volume três. O alicerce já estava assentado. Isto não é a mesma coisa, contudo, do que sentar e preparar três resumos longos e detalhados para os volumes 1, 2 e 3 de uma série – o que seria o segundo exemplo.
 
Séries de romances oscilam entre esses três modelos sugeridos por Sawyer, que tem a seu favor a longa experiência prática.




Se pegarmos uma série famosa de FC, o “Book of the New Sun” de Gene Wolfe (quatro livros publicados entre 1980 e 1983), vemos aí o modelo tolkieniano perfeito, porque trata-se de uma única história, narrando o percurso de vida e amadurecimento de um personagem central, Severian, que evolui de aprendiz de torturador (no livro 1) até Autarca do Império (no volume 4). Não são livros que possam ser lidos fora de ordem, ou isoladamente. É uma história só, inteira, contínua.
 
Tentei pensar num exemplo de “tríptico”. Me ocorreu que o próprio Gene Wolfe tem uma obra modelar, se considerarmos “uma trilogia de noveletas”. The Fifth Head of Cerberus (1972) é um livro com três noveletas diferentíssimas, mas compartilhando o mesmo universo, e ao ler cada uma delas a gente tem revelações essenciais sobre o enredo e o significado das outras duas. Se alguém fizer isso com três romances...



É mais ou menos o que Jeff VanderMeer fez em sua trilogia “Comando Sul” (Southern Reach), que traduzi para a Ed. Intrínseca sob os títulos Aniquilação, Autoridade e Aceitação. Três histórias em torno de um mesmo fenômeno espantoso (uma visitação alienígena no litoral da Flórida), onde os personagens se repetem, mas há várias mudanças de ponto de vista, e cada livro esclarece coisas que estão ausentes dos demais.
 
Aliás, é interessante o viés editorial que faz os autores darem as mesmas letras iniciais para os diversos livros – uma estratégia de “recall”, fazendo o leitor associar com rapidez os volumes uns aos outros (e correr pra comprar o que falta).
 
William Gibson, o inventor do cyberpunk, já tem na estante umas três ou quatro trilogias com um perfil diferente. A primeira e mais famosa tem Neuromancer (1984), Count Zero (1986) e Mona Lisa Overdrive (1988), que pode, sim, ser considerada um tríptico, porque são três histórias cronologicamente sucessivas, onde alguns personagens se repetem, mas cada uma delas se conclui satisfatoriamente. Não é necessário ler o que vem depois – embora essa leitura, claro, acabe iluminando certos aspectos do que foi contado no livro anterior.



No Brasil, temos um exemplo de trilogia de FC talvez não planejada. Jorge Luiz Calife publicou em 1985 seu Padrões de Contato, depois que Arthur C. Clarkle lhe agradeceu publicamente por algumas idéias para escrever 2010, sequência de 2001, uma Odisséia no Espaço. Na época, Calife enfrentava três preconceitos, como ele mesmo relata com bom humor: era brasileiro, era desconhecido, e escrevia FC. Ou seja, não havia a menor garantia de que viesse a publicar um segundo livro, mas publicou (Horizonte de Eventos, 1986). As vendas devem ter sido o pinga-pinga habitual de todos nós da FC brasileira; mas anos depois ele fechou a trilogia com Linha Terminal (1991), pela Ed. GRD. A trilogia saiu completa num só volume, pela Devir (SP).
 
Em princípio, não há nenhum mérito ou demérito especial em conceber uma narrativa em três partes sucessivas (ou quantas forem) a serem publicadas independentemente. O problema surge apenas quando criação literária e projeto editorial entram em conflito, e isto pode ocorrer de mil maneiras.
 
No caso de uma “trilogia involuntária” pode ocorrer o caso de dois romances bem sucedidos, mas auto-suficientes, obrigarem um autor já sem novas idéias a esticar num terceiro livro uma narrativa que não tinha mais para onde ir.
 
Pode ocorrer também que uma trilogia planejada e anunciada publicamente no primeiro volume acabe se interrompendo porque o autor enveredou numa crise criativa, questionou a validade do projeto original e decidiu começar do zero um projeto novo. Foi o caso de Ariano Suassuna com o seu ciclo da “Pedra do Reino”.




segunda-feira, 3 de outubro de 2022

4869) A malbendita língua portuguesa (3.10.2022)


 
Na vitrine da livraria percebo a capa de um livro norte-americano de que sempre ouvi falar. 

É o famoso Elogiemos os Homens Ilustres (Cia. Das Letras), uma reportagem de James Agee feita nos anos 1930, em companhia do fotógrafo Walker Evans. A dupla registrou a vida dura dos norte-americanos pobres, na época da Grande Depressão.
 
O título, no entanto, é o que me fisga. O original é Let Us Now Praise Famous Men, o tradutor é o respeitável Caetano W. Galindo. Não discuto a opção do tradutor, que me parece corretíssima. Queria discutir um problema tradutório, desses que não têm nada a ver com a língua de origem, e sim com o funcionamento da língua alvo, o português-brasileiro.
 
Nossa língua é desajeitada em muitas coisas, entre elas conjugação de verbos. Tem certos tempos que o brasileiro médio não conjuga direito, e não me refiro aos seringueiros do Amazonas ou aos bóias-frias do Paraná, e sim ao brasileiro alfabetizado, que lê, que é capaz de comprar e ler um livro como o de James Agee.
 
O problema está no tempo imperativo do verbo, esse “elogiemos”. Eu sou mais ou menos um brasileiro culto e eu não falo assim. Verbo no imperativo, primeira pessoa do plural. Façamos uma experiência. Leiamos com cuidado, decoremos estas formas com precisão. Usemos isto durante algum tempo. Descontraiamo-nos; acostumemo-nos a esses escolopendros verbais.
 
Está errado usar assim? Não, eu acho que está certíssimo. O problema é que temos dois idiomas. Temos o idioma escrito, onde predomina a Norma Culta, que no meu entender deve ser respeitada, cultivada e mantida até o ano 3.000 pelo menos. E temos o idioma falado, onde cada um se vira como Garrincha se virava com as pernas que tinha.
 
O pequeno susto de estranheza que tive diante desse título (que, repito, está totalmente correto) deve ter me acontecido como reflexo de um susto, este sim, grande, abalador, que tive lá pelos meus 15 anos quando peguei na tradução de Manuel Bandeira para o Macbeth de Shakespeare.



A famosa cena inicial, das três bruxas no nevoeiro:
 
1ª. Bruxa
Irmãs, o Gato nos chama!
2ª. Bruxa
O sapo reclama!
3ª. Bruxa
Já vamos! Já vamos!
TODAS
O Bem, o Mal,
- É tudo igual.
Depressa, na névoa, no ar sujo sumamos!
 
Sumamos! Eu olhei para isso, e levei uns três segundos para entender, porque já aos 15 anos eu não falava assim. “Sumamos” era uma palavra estrangeira, uma palavra estranha. Lembrava o nome de alguma divindade sumeriana, talvez o Deus das Metempsicoses e das Abduções.
 
Por que isso tudo?  Porque nós temos duas maneiras de dizer isso, a maneira sintética (“sumamos!”) e a maneira analítica (“vamos sumir!”). O brasileiro médio (inclusive eu) prefere usar esta última, pondo na frente um verbo auxiliar, e depois o verbo principal no infinitivo. Tem muita gente que avisa em casa: “Olha, viajarei para São Paulo na semana que vem”, e está certo. Eu prefiro dizer: “Olha, vou viajar para São Paulo na semana que vem”, e também está certo.
 
Tudo na vida, como diz Maria do Rosário Caetano, depende de Nossa Senhora do Contexto. Acho natural que numa letra de bolero cantado por Nelson Gonçalves apareça: “Caminhemos... talvez nos vejamos depois...” Mas num reggae cantado por Gilberto Gil é igualmente adequado dizer: “Vamos fugir deste lugar, baby”.
 
Voltando ao livro de James Agee: o tradutor poderia tê-lo intitulado Vamos Elogiar os Homens Ilustres, ou mesmo Vamos Elogiar Agora os Homens Ilustres. Por que não o fez? Possivelmente porque achou, com razão, que o título ficaria mais longo que o necessário; e que o verbo na forma “elogiemos” ficaria mais de acordo com o tom grave e sentencioso da fonte de onde foi extraída a frase, que é um texto religioso judaico.
 
Por outro lado, veja-se que a língua inglesa usa com fluência e descontração essas formas com verbos auxiliares, tipo “Let us...”. “Let’s spend the night together!...” 

Agora imagina Mick Jagger dizendo para uma garota: “Passemos a noite juntos...”.
 
Qual é o problema, então? O problema é que certas formas de expressão, em português, podem ser gramaticalmente corretas mas contextualmente erradas, e neste caso é preciso ter um plano B. Você lê a frase em inglês, é uma frase tranquila, clara, sem nada de mais. Bota a frase em português, do jeito que a frase é... e o resultado é às vezes um mondrongo ilegível. Aquele caso tradicional do “ninguém fala assim”.
 
Me lembro dos meus tempos de banda de rock, quando a gente vivia tentando fazer versões dos clássicos do momento. A gente pegou “Try”, gravação de Janis Joplin, aquela que diz: “Try... just a little bit harder...”  E traduzimos: “Teeeente... um pouco mais arduamente...”



 
 
 
 
 





sexta-feira, 30 de setembro de 2022

4868) O Universo conspira a meu favor (30.9.2022)




É um truísmo muito antigo, e foi popularizado por Paulo Coelho em alguns dos seus livros místicos. O seu teor é mais ou menos este: “Quando você se envolve na busca de um objetivo, o Universo inteiro conspira a seu favor”.
 
É uma frase muito lembrada sempre que acontece uma coincidência favorável. Vou na barbearia, tem um cliente na minha frente, entro numa livraria para enrolar meia-hora e acho o livro raríssimo que procurava há anos, e está por dez reais. Alguém me encarrega de um trabalho e penso em recorrer a um cara cujo contato perdi há muito tempo; na volta para casa, encontro-o no metrô e o problema está resolvido.
 
Paulo Coelho popularizou essa expressão, mas nos últimos anos já a vejo sendo substituída por “o algoritmo de Deus”. “Rapaz, eu precisava saber urgentemente o autor de uma citação que vi na época da Faculdade, liguei para várias pessoas, aí resolvi relaxar, peguei um livro policial... e lá estava a informação, porque o algoritmo de Deus não perde tempo.”
 
Cabe aqui, portanto, a indagação séria: é possível que o Universo inteiro conspire a favor de uma pessoa, para que ela alcance os seus objetivos? Ou isso não passa apenas de mais uma cenoura de otimismo pendurada diante das ventas de burros-de-carga como eu, para que eu continue “buscando o meu objetivo”, “me esforçando para superar os obstáculos”, “acreditando no meu potencial”, “conquistando meu espaço no mercado de trabalho” e outras receitas da escravitude empreendedorista?
 
Acreditar nisso significaria acreditar que esse Universo Conspirador possui consciência, possui vontade, possui poder de ação localizado, e que ele se importa comigo. Com a minha insetóide presença nas suas entranhas.


Lembro disto porque numa festa de São Pedro em Campina, anos atrás, estávamos em turma tomando alguma coisa ao redor de uma fogueira. Um amigo meu (chamemo-lo Rogério) estava mergulhado na sua tese de doutorado, as dificuldades de pesquisa, as necessidades de consultas bibliográficas. A certa altura, falou que conhecera por acaso, numa parada para abastecer o carro, alguém que tinha um documento científico obscuro do qual ele precisava; e saiu-se, bem satisfeito, com essa bendita frase sobre o Universo.
 
Eu tinha tomado algumas doses de Matuta e resolvi cortar o trunfo dele. Acendi um cigarro e perguntei:
 
– Tu acredita mesmo que o Universo, um departamento tão ocupado, larga as suas tarefas mais urgentes só pra ajudar na tua pesquisa?
 
– Não é assim que funciona – replicou Rogério, que não é bobo. – O que estou dizendo é que nas ações humanas existe um sistema invisível de correspondências, uma espécie de convergência estatística. A nossa percepção individual aprende isso de forma empírica e não-verbalizada ao longo da vida.
 
– Converse mais que eu pago seu lanche – disse alguém.
 
– Vocês são uns fariseus do conhecimento – rebateu ele. – Só acreditam no que diz no Manual. Pois eu digo a vocês que o Universo percebe, sim, o que nós precisamos, e age de acordo.
 
– Ele manda botar um livro numa prateleira dum sebo só porque viu que você dobrou aquela esquina e vai passar na frente?
 
– Não é assim tão simples. Há linhas de convergência. Enquanto minha mente consciente se preocupa com a necessidade da informação, há camadas mais profundas avaliando: Onde pode haver esse dado? Que tipo de livro? Que tipo de local acessível? Como estimular a Mente Consciente dele, essa senhora tão pedante e egocêntrica, a procurar a informação no lugar mais provável?
 
– E se a informação estiver num açougue, numa sapataria ou numa lanchonete?
 
– Não está, é claro. O Universo não é caótico. Há linhas de convergência.
 
– Eu já passei semanas numa biblioteca atrás de um dado qualquer e não achei – disse alguém. – O Universo estava de mal comigo?
 
– Eu poderia dizer que é porque você não estava suficientemente focado no seu objetivo – disse Rogério, – mas prefiro ser diplomático e dizer: Nem tudo na vida dá certo sempre. Por que teria de ser assim? São processos instáveis, sujeitos à influência de muitas variáveis. Às vezes você até pegou o livro certo, onde estava o tal dado; mas se interessou pelo título de outro capítulo e foi noutra direção... coisas assim.



– Mas por que motivo o Universo simpatizaria com um ser humano? – questionei. – Muito paternalista esse seu Universo. Muito bonachão... um universo querendo ajudar os jovens... Isso é coisa de quem já estudou em Seminário.
 
Toquei no calcanhar-de-Aquiles dele, que abespinhou-se.
 
– Existe uma energia subjacente, que permeia tudo – afirmou. – Nós somos sensíveis a ela, e ela a nós.
 
– Por que essa energia não salvou Saulinho? – disse alguém. Saulinho era um amigo nosso que tinha sido atropelado na véspera e estava no hospital, enclausurado em gesso.
 
– Excelente exemplo – tornou Rogério. – As sociedades humanas se organizam de um modo muito semelhante à dinâmica dos fluxos da energia natural. O trânsito precisa fluir, certo? Fluxos convergentes precisam parar de vez em quando para dar vez ao outro, e depois retomar seu curso. Saulinho é um abestado, vinha pensando na namorada e entrou no fluxo errado.
 
– E aí o Universo conspirou contra ele.
 
– Não “conspirou”, criatura. Isso é terminologia de filme de James Bond. As energias do universo circulam de acordo com lei do menor esforço, lei da economia energética... Quando estiver num avião, olhe a trajetória de um rio. O que é aquilo? Água solta, sendo atraída para o “centro virtual da Terra”, e procurando caminho ao longo de um terreno acidentado. A energia invisível é a mesma coisa. A gente larga uma balsa no rio e o rio vai levando, sem precisar de vela, de remos, de nada. Isso seria um exemplo do “conspirar a favor”, mas na verdade o que ocorre? A gente entende como aquela água está se comportando, e usa a nosso favor. Apenas isso.
 
– São as leis na Natureza – disse alguém que finalmente achou um meio de entrar na conversa.
 
– Chamar isso de leis é o mesmo que chamar de conspiração. Não são “leis”. São constantes, padrões de regularidade da matéria. A matéria se comporta de modo coerente. Temperatura, pressão, movimento, aceleração, ciclos biológicos, tudo isso se comporta de maneira constante, e a gente estuda isso há 10 mil anos.
 
– Mais – disse eu.
 
Ele fez um gesto de olímpico desdém, e prosseguiu:
 
– São detalhes. O homem usou o ímã, o magnetismo metálico, durante milênios, sem saber por que acontecia aquilo, mas entendendo como, e pronto. O conhecimento vai galgando degraus, de um em um.



Eu voltei à carga:
 
– Certo. Mas esse fato que você contou. O carro da UFCG parou para abastecer no Riachão. Vocês aproveitaram para tomar um café. Ficaram conversando, aproximou-se um cara que reconheceu você de uma palestra anos atrás. Puxou um assunto, depois outro, você descobriu que ele tinha a cópia de uma pesquisa de um professor dele, de “xis” anos atrás...
 
– Sim. Desculpe ter falado em conspiração-a-favor. Na verdade, foi uma convergência. Se eu faço uma palestra sobre um tema científico para 200 pessoas do ramo, estou lançando 200 anzóis com isca, sabendo da possibilidade de que mais cedo ou mais tarde algum dos 200 pegue num documento precioso e pense: “Ih rapaz, professor Rogério da UFCG mexe com isso... será que ele se interessa?...”  Convergências.
 
– E quem fez o carro parar para abastecer justamente ali, naquela hora?
 
– O Acaso. Um lance de dados jamais abolirá o Acaso.
 
– Então basta só esperar pelo Acaso.
 
– O Acaso funciona muito pouco com quem está esperando. Estar parado é fechar janelas de possibilidade. Estar em atividade constante é abrir, multiplicar janelas. Se eu não tivesse encontrado o cara lá no Riachão, talvez batesse com ele uma semana depois, um mês...
 
– Ou talvez depois de ter publicado a tese com um buraco no meio.
 
– E daí? Toda tese tem mais buracos do que a defesa da Seleção Brasileira. E a gente precisa ajudar o Acaso. Precisa ser como aquele atacante que estava de costas para o gol, numa confusão dentro da área, a bola bateu na trave, bateu nas costas dele e entrou. Se ele não estivesse ali, o gol não acontecia.
 
– Coitado de Saulinho! – disse alguém. E bebemos à saúde dele.
 
 





terça-feira, 27 de setembro de 2022

4867) "As Trevas" - de Lord Byron a Castro Alves (27.9.2022)


 

(Lord Byron e Castro Alves)

Já comentei aqui a possibilidade de uma Antologia da Poesia Fantástica Brasileira, não por ser ela rica e abundante, mas por ser como aquelas jazidas de algum material radioativo que se decompõe com facilidade, e é mister recolhê-lo, analisá-lo, antes que se transforme em chumbo inerte.
 
Quando eu era pequeno ainda não tinha aparecido ninguém para me explicar que poesia e prosa eram países vizinhos mas levemente hostis. E que para passar de um para o outro era preciso passaporte, visto, autorização, certificado de vacina e uma declaração detalhada do que pretendia o viajante fazer além-fronteiras. Eu não sabia. Adolescente, tinha na minha estante o Poesia e Prosa de Edgar Allan Poe, os Pequenos Poemas em Prosa de Charles Baudelaire, assim como as Poesias Completas de Machado de Assis – então estava tudo em casa.
 
É curioso que algumas das minhas primeiras experiências de “poesia fantástica” (Augusto dos Anjos à parte) tenham se dado através de poemas estrangeiros traduzidos por alguns dos nossos grandes poetas. Preciso lembrar, também, que estou usando o termo “fantástico” no sentido mais amplo possível, e não no sentido de estudiosos como Todorov, Louis Vax, John Clute, e outros. O acadêmico procura passar na literatura o pente mais fino possível, para deixar de fora tudo que não tenha o puro DNA de um gênero; esta é a função do acadêmico. O poeta recolhe todo o cascalho que lhe cai nas mãos e extrai o resíduo mais tênue do que procura; esta é a função do poeta.
 
É bom lembrar a influência avassaladora do chamado Romantismo do século 19, que tomou conta do Brasil com variadas colorações. Nossos poetas liam Victor Hugo, Chateaubriand, Alfred de Musset, Baudelaire... Rótulos à parte (não vou começar a catação-de-lêndeas do “Mas isso é Romantismo... ou Simbolismo?”), cada um lia o que lhe caía nas mãos, assimilava o que entendia, reproduzia o de que era capaz. E la nave va.
 
Castro Alves (1847-1871) era um romântico “condoreiro”. Não é exagero dizer que sua maior influência foi Victor Hugo (hélas!), principalmente no arroubo imagético e na impulsividade política. No tempo dele, todo mundo que escrevia era capaz de ler algo em francês, de modo que ainda hoje acho excepcional que ele tenha traduzido um poema tão longo – do inglês. Mas Byron é Byron. O Lorde (1788-1824) foi o Bob Dylan do seu tempo.
 
“Darkness” é um poema apocalíptico, um poema de fim do mundo e de extinção da Humanidade. Li a tradução do baiano com 10 ou 11 anos. Meu pai tinha o volume das Poesias Completas – um volume não tão grande assim, afinal Castro Alves morreu com 24 anos. É a imagem de um mundo onde inexplicavelmente o sol não brilha mais, os incêndios devastam cidades e florestas, e a espécie humana regride à bestialidade.
 
Sei que não estou exagerando quando vejo ecos dessa visão apocalíptica em obras subsequentes, como os contos “Demônios” (1893) de Aluísio Azevedo e “A Escuridão” (1963) de André Carneiro, que incluí na minha antologia Páginas de Sombra (2003).  E um pouco também no meu poema-ilustrado Na Torre da Lua Cheia, em parceria com o desenhista Cavani Rosas (Recife: CEPE, 2022).
 
A tradução de Castro Alves é dedicada ao dr. Franco Meirelles, médico baiano, professor de inglês e também tradutor de Byron. O poeta manteve o formato essencial do original inglês, decassílabos sucessivos em versos brancos (=sem rima). Não há partição em estrofes regulares, é um “bife” inteiro do começo ao fim. Nas transcrições modernas, alguns editores quebram esse formato, muito pesado.
 
O verso usado por Byron é a cadência muito frequente em inglês chamada “pentâmetro iâmbico”: di-DUM, di-DUM, di-DUM, di-DUM, di-DUM. O decassílabo do baiano é mais solto ritmicamente, variando de cadência conforme as necessidades de acomodação do vocabulário. Aos ouvidos nordestinos, não passarão despercebidos, de vez em quando, os sons do martelo agalopado, como esse verso arrepiante que anuncia a visão: “Tive um sonho que em tudo não foi sonho!...”
 
 
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AS TREVAS
(Traduzido de Lord Byron)
A meu amigo, o dr. Franco Meireles, inspirado
tradutor das Melodias Hebraicas

Tive um sonho que em tudo não foi sonho!...
O sol brilhante se apagara: e os astros,
do eterno espaço na penumbra escura,
sem raios, e sem trilhos, vagueavam.
A terra fria balouçava cega
e tétrica no espaço ermo de lua.
A manhã ia, vinha... e regressava...
Mas não trazia o dia! Os homens pasmos
esqueciam no horror dessas ruínas
suas paixões. E as almas conglobadas
gelavam-se num grito de egoísmo
que demandava "luz". Junto às fogueiras
abrigavam-se... e os tronos e os palácios,
os palácios dos reis, o albergue e a choça
ardiam por fanais. Tinham nas chamas
as cidades morrido. Em torno às brasas
dos seus lares os homens se grupavam,
pra à vez extrema se fitarem juntos.
Feliz de quem vivia junto às lavas
dos vulcões sob a tocha alcantilada!
Hórrida esp'rança acalentava o mundo!
As florestas ardiam!... de hora em hora
caindo se apagavam; crepitando,
lascado o trono desabava em cinzas.
e tudo... tudo as trevas envolviam.
As frontes ao clarão da luz doente
tinham do inferno o aspecto... Quando às vezes
as faíscas das chamas borrifavam-nas.
Uns, de bruços no chão, tapando os olhos
choravam. Sobre as mãos cruzadas — outros —
firmando a barba, desvairados riam.
Outros correndo à toa procuravam
o ardente pasto pra funéreas piras.
Inquietos, no esgar do desvario,
os olhos levantavam pra o céu torvo,
vasto sudário do universo — espectro —,
e após em terra se atirando em raivas,
rangendo os dentes, blasfemos, uivavam!
Lúgubre grito os pássaros selvagens
soltavam, revoando espavoridos
num vôo tonto co’as inúteis asas!
As feras ’stavam mansas e medrosas!
As víboras rojando s’enroscavam
pelos membros dos homens, sibilantes,
mas sem veneno... a fome lhes matavam!
E a guerra, que um momento s’extinguira,
de novo se fartava. Só com sangue
comprava-se o alimento, e após à parte
cada um se sentava taciturno,
pra fartar-se nas trevas infinitas!
Já não havia amor!... O mundo inteiro
era um só pensamento, e o pensamento
era a morte sem glória e sem detença!
O estertor da fome apascentava-se
nas entranhas... Ossada ou carne pútrida
ressupino, insepulto era o cadáver.
Mordiam-se entre si os moribundos:
mesmo os cães se atiravam sobre os donos,
todo exceto um só... que defendia
o cadáver do seu, contra os ataques
dos pássaros, das feras e dos homens,
até que a fome os extinguisse, ou fossem
os dentes frouxos saciar algures!
Ele mesmo alimento não buscava...
Mas, gemendo num uivo longo e triste
morreu lambendo a mão, que inanimada
já não podia lhe pagar o afeto.
Faminta a multidão morrera aos poucos.
Escaparam dous homens tão-somente
de uma grande cidade. E se odiavam.
... Foi junto dos tições quase apagados
de um altar, sobre o qual se amontoaram
sacros objetos pra um profano uso,
que encontraram-se os dous... e, as cinzas mornas
reunindo nas mãos frias dos espectros,
de seus sopros exaustos ao bafejo
uma chama irrisória produziram!...
Ao clarão que tremia sobre as cinzas
olharam-se e morreram dando um grito.
mesmo da própria hediondez morreram,
desconhecendo aquele em cuja fronte
traçara a fome o nome de Duende!
O mundo fez-se um vácuo. A terra esplêndida,
populosa tornou-se numa massa
sem estações, sem árvores, sem erva,
sem verdura, sem homens e sem vida,
caos de morte, inanimada argila!
Calaram-se o oceano, o rio, os lagos!
Nada turbava a solidão profunda!
Os navios no mar apodreciam
sem marujos! Os mastros desabando
dormiam sobre o abismo, sem que ao menos
uma vaga na queda alevantassem.
Tinham morrido as vagas! e jaziam
as marés no seu túmulo... antes delas
a lua que as guiava era já morta!
No estagnado céu murchara o vento;
esvaíram-se as nuvens. E nas trevas
era só trevas o universo inteiro.
 
 
 
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Darkness
(George Gordon, Lord Byron)
 
I had a dream, which was not all a dream.
The bright sun was extinguish'd, and the stars
Did wander darkling in the eternal space,
Rayless, and pathless, and the icy earth
Swung blind and blackening in the moonless air;
Morn came and went—and came, and brought no day,
And men forgot their passions in the dread
Of this their desolation; and all hearts
Were chill'd into a selfish prayer for light:
And they did live by watchfires—and the thrones,
The palaces of crowned kings—the huts,
The habitations of all things which dwell,
Were burnt for beacons; cities were consum'd,
And men were gather'd round their blazing homes
To look once more into each other's face;
Happy were those who dwelt within the eye
Of the volcanos, and their mountain-torch:
A fearful hope was all the world contain'd;
Forests were set on fire—but hour by hour
They fell and faded—and the crackling trunks
Extinguish'd with a crash—and all was black.
The brows of men by the despairing light
Wore an unearthly aspect, as by fits
The flashes fell upon them; some lay down
And hid their eyes and wept; and some did rest
Their chins upon their clenched hands, and smil'd;
And others hurried to and fro, and fed
Their funeral piles with fuel, and look'd up
With mad disquietude on the dull sky,
The pall of a past world; and then again
With curses cast them down upon the dust,
And gnash'd their teeth and howl'd: the wild birds shriek'd
And, terrified, did flutter on the ground,
And flap their useless wings; the wildest brutes
Came tame and tremulous; and vipers crawl'd
And twin'd themselves among the multitude,
Hissing, but stingless—they were slain for food.
And War, which for a moment was no more,
Did glut himself again: a meal was bought
With blood, and each sate sullenly apart
Gorging himself in gloom: no love was left;
All earth was but one thought—and that was death
Immediate and inglorious; and the pang
Of famine fed upon all entrails—men
Died, and their bones were tombless as their flesh;
The meagre by the meagre were devour'd,
Even dogs assail'd their masters, all save one,
And he was faithful to a corse, and kept
The birds and beasts and famish'd men at bay,
Till hunger clung them, or the dropping dead
Lur'd their lank jaws; himself sought out no food,
But with a piteous and perpetual moan,
And a quick desolate cry, licking the hand
Which answer'd not with a caress—he died.
The crowd was famish'd by degrees; but two
Of an enormous city did survive,
And they were enemies: they met beside
The dying embers of an altar-place
Where had been heap'd a mass of holy things
For an unholy usage; they rak'd up,
And shivering scrap'd with their cold skeleton hands
The feeble ashes, and their feeble breath
Blew for a little life, and made a flame
Which was a mockery; then they lifted up
Their eyes as it grew lighter, and beheld
Each other's aspects—saw, and shriek'd, and died—
Even of their mutual hideousness they died,
Unknowing who he was upon whose brow
Famine had written Fiend. The world was void,
The populous and the powerful was a lump,
Seasonless, herbless, treeless, manless, lifeless—
A lump of death—a chaos of hard clay.
The rivers, lakes and ocean all stood still,
And nothing stirr'd within their silent depths;
Ships sailorless lay rotting on the sea,
And their masts fell down piecemeal: as they dropp'd
They slept on the abyss without a surge—
The waves were dead; the tides were in their grave,
The moon, their mistress, had expir'd before;
The winds were wither'd in the stagnant air,
And the clouds perish'd; Darkness had no need
Of aid from them—She was the Universe.
 
 
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sábado, 24 de setembro de 2022

4866) É verdade esse bilete (24.9.2022)


O professor Douglas R. Hofstadter, um dos meus cientistas favoritos, propôs em seus livros (principalmente em Gödel, Escher, Bach: an Eternal Golden Braid, 1979) o conceito de “strange loop”, que pode ser traduzido aproximadamente por “laço estranho”. Um loop é algum processo cujo fim se engata no começo, como uma serpente mordendo a ponta da própria cauda. Usa-se muito em música eletrônica – um loop musical é em geral um trecho de alguns segundos que se repete, ciclicamente. Toda vez que chega ao fim, começa outra vez.
 
O “laço estranho” proposto por Hofstadter é mais complexo. Na definição dele, ocorre quando movemos através de níveis superpostos, em que cada um é hierarquicamente superior ao que lhe está por baixo, e quando subimos ou descemos um nível percebemos inesperadamente que estamos de volta no ponto de onde partimos.
 
Aliás, essa sensação desconcertante de estar de volta, sem querer, ao ponto de partida, é muito explorada em filmes de terror por exemplo – pessoas que querem fugir de uma cidade mas todas as ruas levam de volta ao lugar ameaçador do qual querem se distanciar, por exemplo.
 
É uma situação uncanny, e digo isto porque Freud, em seu ensaio O Estranho (“The Uncanny”, 1919) relata uma vez, numa cidade da Itália, em que ele estava andando à toa, e percebeu que tinha entrado na zona do baixo meretrício local. Toda vez que ele pegava uma rua para se afastar dali, a rua fazia uma curva e o trazia de volta. Freud explica?...
 
O problema sugerido por Hofstadter, como falei, é mais complexo. Freud estava vagando num mesmo nível hierárquico, ou seja, num mesmo plano de realidade (a cidade italiana). Mas imaginemos dois planos diferentes. A gravura de M. C. Escher “Print Gallery” mostra um bom exemplo. Um homem, numa galeria de arte, contempla a gravura de uma cidade; em cada área do quadro os objetos são vistos num grau maior de aumento, de forma que o edifício mostrado na gravura exibe uma galeria onde um homem (ele próprio) contempla uma galeria análoga.


A gravura mostrada no quadro contém a cidade, o prédio e a própria galeria onde a gravura está exposta. Isto é um “laço estranho”. Nós retornamos, sem haver nenhuma quebra de continuidade aparente, ao ponto onde estávamos. Hofstadter chama isso de “tangled hierarchies”, hierarquias entrelaçadas – quando em tese deveriam ser isoladas uma da outra, gravura é gravura, realidade é realidade.
 
Um exemplo dos mais divertidos é o filme de Woody Allen A Rosa Púrpura do Cairo, em que se misturam duas hierarquias: o filme que passa na tela, os espectadores na platéia. Atores descem da tela para a sala, batem boca com os que continuam lá em cima, num sincronismo perfeito e sem a menor dificuldade de compreensão para o espectador.


Vou usar de modo um tanto livre esse conceito aplicado a textos. Os exemplos na ficção são inúmeros – livros onde de certa forma a “realidade interna” do livro é quebrada e o mundo do leitor se insinua lá para dentro (ou vice-versa – os personagens “vazam” aqui para fora.)  Mas vou usar alguns memes que aparecem recorrentemente nas redes sociais, alguns devem ser inventados, outros autênticos, não importa: importa que sugerem variantes ao conceito de “hierarquias entrelaçadas”.

 
O primeiro deles é o mais famoso, que usei no título. O garoto, ao que parece, escreveu de forma canhestra e infantil um bilhete para os pais. (Vamos supor, por hipótese de trabalho, que tudo ocorreu assim.)


SENHORES PAES. AMANHÃ NÃO VAI TER AULA POORQUE [sic] PODE SER FERIADO

ASSINADO: TIA. PAULINHA

É VERDADE ESSE BILETE

 

Existe aí uma tentativa ingênua de falsificar um comunicado oficial do colégio. Que já desmorona no aspecto material: o papelucho rasgado, a caligrafia denunciadora, etc. O garoto terá feito isto a sério? Ele chegou a acreditar que os pais acreditariam? Parece que quando chegou A Hora Da Verdade – a temível hora de botar no papel as nossas Grandes Idéias – a rebordosa da realidade bateu com força e ele foi percebendo a enrascada em que se metera.


O problema aumentou quando ele assinou o nome da professora do único jeito que sabia: “Tia Paulinha”. E em desespero de causa ele adicionou a frase que hoje é famosa: “É verdade esse bilete”.
 
Existe aí um “laço estranho” misturando várias hierarquias: o bilhete pretensamente real; os “furos”, evidentes até para o falsificador; a frase em-desespero-de-causa; e por último um fator extra-texto mas não menos importante – o bilhete (ao que parece), foi entregue, mesmo em plena auto-decomposição semiótica.
 
O segundo exemplo é outro que sempre me provoca uma risada de primeira-vez quando o reencontro nas redes sociais.
 
Também escrito num pedaço rasgado de um caderno escolar, o recado diz apenas:
 


Mamãe, a chave está debaixo do tapete.

Ladrão, vai à merda.

Claudete

 

Quem nunca deixou a chave de casa embaixo do tapete “Bem Vindo” à porta? Ou no vaso de planta do terraço? Ou no quadro-de-luz? Ou em cima da soleira da porta? As possibilidades, como sempre, são infinitas. (Eu preciso usar esta frase como meu epitáfio.)
 
Claudete começou a escrever o bilhete pensando em deixá-lo na porta, provavelmente, mas no próprio ato de rabiscar percebeu que não tinha muita diferença entre deixar a chave à mostra e deixar um bilhete revelando onde ela estava escondida.
 
A primeira frase do bilhete é uma informação que se auto-invalida no momento em que é recebida pela pessoa errada. Claudete se aperreou. Como revelar o local da chave à mãe, mas não ao possível ladrão? Ela deixou lá, e desabafou: “Ladrão, vai à merda”.
 
É um “laço estranho”, porque o bilhete se dirigia a duas pessoas, na certeza de que qualquer uma das duas que lesse impediria a outra de fazer o mesmo. E o fato de que o bilhete foi deixado no local (presumo isto, como hipótese de trabalho) é um “gesto informativo” a mais. Ela confiou que a possibilidade do bilhete ir parar nas mãos do ladrão era confortavelmente menor do que de ir para nas mãos da mãe. Deixou o bilhete, e mandou o ladrão à merda. (No que fez muito bem.)
 
O terceiro exemplo é também muito gozado, mas aqui não se trata de um recado, e sim de um diálogo via WhatsApp.
 


Ciço, acho que tô buchuda.

 

Watsapp informa: nosso cliente

não utiliza mais esse serviço móvel

para troca de mensagens instantâneas.

 

Deixa de ser ridículo! Eu sei

que é você! Você escreveu

Whatsapp errado seu imbecil!

Seja um Homem!

 

Informamos também que estamos

apresentando erros hortográficos

em nossa plataforma de mensagens.

 
Este é um diálogo literariamente sofisticado, no sentido de que as palavras dizem uma coisa mas ao mesmo tempo deixam transparecer de maneira cristalina o que está de verdade acontecendo entre as duas pessoas. A moça que inicia a conversa, Francisca, é uma pessoa pé-no-chão e nem um pouco boba, porque logo na primeira resposta ela percebe um erro e entende a manobra de “Ciço”.
 
Ela reclama, bota o cara no canto da parede. E aí percebemos a cara de pau de Ciço, que não se dá por achado, não dá o braço a torcer, e recorre ao “laço estranho” de fingir que é um sistema de respostas automáticas capaz de entender a acusação que lhe é feita por escrito. E quando ele recorre à mais improvável das comprovações (“hortográficos”), percebemos que na verdade Ciço não está querendo convencer a moça de que é o WhatsApp. Está apenas tirando o corpo fora da situação, com uma manobra metalinguística, mas deixando sua intenção muito clara.
 
Estes três exemplos mostram mensagens que se detonam a si mesmas, denunciando as próprias contradições ao entrelaçar diferentes hierarquias: diferentes vozes, diferentes origens do discurso ou diferentes destinatários.
 
Para encerrar, vai aqui um exemplo ilustre, que não sei se é verdadeiro porque o texto é atribuído ao escritor Marcel Proust, mas vem em inglês, e não em francês, como seria de se esperar. Mas enfim – tudo é literatura.

Minha Cara Senhora

Acabo de perceber que esqueci minha bengala

em sua casa, ontem. Por favor, tenha a gentileza

de entregá-la ao portador deste bilhete.

P.S. – Peço perdão por incomodá-la; acabo de

encontrar minha bengala.

Marcel Proust