Na vitrine da livraria percebo a capa de um livro
norte-americano de que sempre ouvi falar.
É o famoso Elogiemos os Homens Ilustres (Cia. Das Letras), uma reportagem de
James Agee feita nos anos 1930, em companhia do fotógrafo Walker Evans. A dupla
registrou a vida dura dos norte-americanos pobres, na época da Grande
Depressão.
O título, no entanto, é o que me fisga. O original é Let Us Now Praise Famous Men, o tradutor
é o respeitável Caetano W. Galindo. Não discuto a opção do tradutor, que me
parece corretíssima. Queria discutir um problema tradutório, desses que não têm
nada a ver com a língua de origem, e sim com o funcionamento da língua alvo, o
português-brasileiro.
Nossa língua é desajeitada em muitas coisas, entre elas
conjugação de verbos. Tem certos tempos que o brasileiro médio não conjuga
direito, e não me refiro aos seringueiros do Amazonas ou aos bóias-frias do
Paraná, e sim ao brasileiro alfabetizado, que lê, que é capaz de comprar e ler
um livro como o de James Agee.
O problema está no tempo imperativo do verbo, esse
“elogiemos”. Eu sou mais ou menos um brasileiro culto e eu não falo assim.
Verbo no imperativo, primeira pessoa do plural. Façamos uma experiência.
Leiamos com cuidado, decoremos estas formas com precisão. Usemos isto durante
algum tempo. Descontraiamo-nos; acostumemo-nos a esses escolopendros verbais.
Está errado usar assim? Não, eu acho que está certíssimo.
O problema é que temos dois idiomas. Temos o idioma escrito, onde predomina a
Norma Culta, que no meu entender deve ser respeitada, cultivada e mantida até o
ano 3.000 pelo menos. E temos o idioma falado, onde cada um se vira como
Garrincha se virava com as pernas que tinha.
O pequeno susto de estranheza que tive diante desse
título (que, repito, está totalmente correto) deve ter me acontecido como
reflexo de um susto, este sim, grande, abalador, que tive lá pelos meus 15 anos
quando peguei na tradução de Manuel Bandeira para o Macbeth de Shakespeare.
A famosa cena inicial, das três bruxas no nevoeiro:
1ª. Bruxa
Irmãs, o Gato nos chama!
2ª. Bruxa
O sapo reclama!
3ª. Bruxa
Já vamos! Já vamos!
TODAS
O Bem, o Mal,
- É tudo igual.
Depressa, na névoa, no ar sujo sumamos!
Sumamos! Eu olhei para isso, e levei uns três segundos
para entender, porque já aos 15 anos eu não falava assim. “Sumamos” era uma
palavra estrangeira, uma palavra estranha. Lembrava o nome de alguma divindade
sumeriana, talvez o Deus das Metempsicoses e das Abduções.
Por que isso tudo?
Porque nós temos duas maneiras de dizer isso, a maneira sintética
(“sumamos!”) e a maneira analítica (“vamos sumir!”). O brasileiro médio
(inclusive eu) prefere usar esta última, pondo na frente um verbo auxiliar, e depois
o verbo principal no infinitivo. Tem muita gente que avisa em casa: “Olha,
viajarei para São Paulo na semana que vem”, e está certo. Eu prefiro dizer:
“Olha, vou viajar para São Paulo na semana que vem”, e também está certo.
Tudo na vida, como diz Maria do Rosário Caetano, depende
de Nossa Senhora do Contexto. Acho natural que numa letra de bolero cantado por
Nelson Gonçalves apareça: “Caminhemos... talvez nos vejamos depois...” Mas num
reggae cantado por Gilberto Gil é igualmente adequado dizer: “Vamos fugir deste
lugar, baby”.
Voltando ao livro de James Agee: o tradutor poderia tê-lo
intitulado Vamos Elogiar os Homens
Ilustres, ou mesmo Vamos Elogiar
Agora os Homens Ilustres. Por que não o fez? Possivelmente porque achou,
com razão, que o título ficaria mais longo que o necessário; e que o verbo na
forma “elogiemos” ficaria mais de acordo com o tom grave e sentencioso da fonte
de onde foi extraída a frase, que é um texto religioso judaico.
Por outro lado, veja-se que a língua inglesa usa com
fluência e descontração essas formas com verbos auxiliares, tipo “Let us...”. “Let’s
spend the night together!...”
Agora imagina Mick Jagger dizendo para uma
garota: “Passemos a noite juntos...”.
Qual é o problema, então? O problema é que certas formas
de expressão, em português, podem ser gramaticalmente corretas mas
contextualmente erradas, e neste caso é preciso ter um plano B. Você lê a frase
em inglês, é uma frase tranquila, clara, sem nada de mais. Bota a frase em
português, do jeito que a frase é... e o resultado é às vezes um mondrongo
ilegível. Aquele caso tradicional do “ninguém fala assim”.
Me lembro dos meus tempos de banda de rock, quando a
gente vivia tentando fazer versões dos clássicos do momento. A gente pegou
“Try”, gravação de Janis Joplin, aquela que diz: “Try... just a little bit harder...” E traduzimos: “Teeeente... um pouco mais arduamente...”