sexta-feira, 18 de junho de 2021

4715) "Pantagruel e Gargântua" (18.6.2021)



A Editora 34 me enviou há pouco (obrigado Nina, Amanda) a nova edição de um dos clássicos mais divertidos da literatura, Pantagruel e Gargântua (1532-1534), de François Rabelais, com tradução, prefácio e notas (tudo excelente) de Guilherme Gontijo Flores.
 
Como se trata de um livro salpicado de alusões obscuras, fez muito bem o tradutor em botar todas as explicações numa longa nota na abertura de cada capítulo, situando de antemão o festival de nomes, citações, referências indiretas, etc. Lidas as notas, o capítulo flui que é uma beleza. Um exemplo a seguir.
 
Rabelais pertence àquela prateleira não-tão-grande-assim de “clássicos que a gente se diverte lendo”. A mesma prateleira do Dom Quixote de Cervantes, das Mil e Uma Noites orientais, de todos aqueles livros onde há elementos narrativos e pitorescos suficientes para recompensar tanto uma leitura desinformada (de um leitor adolescente, p. ex.) como também de um leitor erudito.
 
O gigante Pantagruel e seu pai Gargântua são personagens fantásticos, bizarros, exagerados, cordelescos, sem a menor pretensão de realismo, e a desproporção dos seus corpos gigantescos (e seus apetites insaciáveis) cria um contraste engraçado com os habitantes de Paris e de outras cidades por onde eles transitam seu tumulto.


(Ilustrações: Gustave Doré)
 
Ao longo da vida, François Rabelais (1483?-1553) foi padre, foi meio cientista, meteu-se com política, lia vários idiomas, e foi recolhendo esse saber de todas as fontes ao seu alcance, mas em vez de transformar isso em alguma “Summa Philosophica” cheia de pompa e erudição ele escreve as aventuras picarescas e extraordinárias de gigantes que comem e bebem desbragadamente, arrotam, peidam, cagam, metem-se em discussões filosóficas, metem-se em brigas, argumentam nos tribunais, aprontam na rua...
 
Os livros de Rabelais me fazem companhia há muitos anos; já tive a tradução de Davi Jardim Júnior para a Ed. Itatiaia, e li alguma outra na saudosa Biblioteca Pública dos Barris (em Salvador). A única que me acompanhou nesses anos de mudanças pelo Brasil afora foi a tradução portuguesa de Aníbal Fernandes (Ed. & Etc, Lisboa, 1975).
 
Já plagiei e imitei desbragadamente o impávido autor francês, especialmente nas peças que escrevi, desde Trupizupe, o Raio da Silibrina até as que fiz com Antonio Nóbrega, outro admirador das estrepolias rabelesianas (Brincante, Segundas Estórias). No meu recente livro Fanfic incluí o conto “A Demanda do Bosque Sombrio” onde o espírito do trêfego beneditino faz um backing-vocal discreto; e muitas das minhas canções e poemas (“Meu Nome é Trupizupe”, “Coco do Nascimento”, “Saara 2018”, etc.) recorrem ao mesmo arsenal de imagens estapafúrdias e neologismos arrevesados.
 
Porque o tema principal de Rabelais é a linguagem, a verbalização copiosa, excessiva, cachoeirística, irreprimível, de palavras polissilábicas recolhidas do direito, da filosofia, da sofística escolástica, da medicina, da botânica, do escambau e da caixa-prego, tudo isso distorcido com uma informalidade hip-hop pululante de severgonhices, solecismos propositais, barbarismos auto-gozosos, tortografias provocantes, latinidades tatibitates e greco-romanismos contaminados de DNA tupiniquim e sertanejo.
 
Este é o grande trunfo da tradução de Guilherme Gontijo Flores, cuja fidelidade ao original não questiono nem me interessa – vou eu agora catar lêndeas em quem traduz francês medieval?!! Ora bom-basta. Dane-se o francês medieval, e que bem repouse em seu sarcófago. A tradução de Rabelais para hoje tem que reproduzir essa vertigem verborrágica, essa diarréia dialética, e isso ele o faz abundantemente.



Com a vantagem adicional de jogar na correnteza turbilhonante as pedrinhas miúdas do português-BR  de hoje em dia, uma gíria aqui-acolá, um palavrãozinho num lugar que caiba, para nos lembrar que a linguagem do autor, na época do autor, cometia esses mesmos sacrilégios sacripantas; era um juridiquês-bebum destinado a sabotar por dentro o juridiquês pomposo dos rábulas espertalhões a soldo de reis semi-analfabetos.
 
São impagáveis os capítulos 11, 12 e 13, em que Pantagruel posa de juiz substituto para resolver uma pendenga indecifrável entre dois querelantes, os senhores Beijacu e Chuparrabo. Ele manda que Beijacu se explique primeiro, por ser o reclamante. E lá vem a explicação (um capítulo inteiro; darei aqui embaixo uma derramadinha como amostra):
 
(...) Durante a noite inteira, de mão ao pote, apenas despachamos bulas a pé e bulas a cavalo para reter os barcos, porque os alfaiates queriam fazer de retalhos uma zarabatana para cobrir o mar oceano, que então estava grávido de uma panelada de couve, segundo opinião dos palhoceiros; porém os médicos diziam que em sua urina não reconhecia um sinal evidente de que uma abetarda comesse machados com mostarda, a não ser o que senhores da corte dessem por bemol ordens à bexiga de nunca mais surrupiar bichos-da-seda, pois os palermas já tinham um bom começo para saçaricarem o estrindor no tom do diapasão, um pé no fogo e a cabeça no meio, como dizia o bom Ragot. (...)
 
Era essa argumentação que embasbacava os jurisconsultos locais. Pantagruel franze a testa e pede ao outro querelante, o senhor Chuparrabo, que explique seus argumentos E lá vem:
 
(...) E supondo que no cruzamento de cães corredores os pequerruchos tenham soado o corno antes de o notário entregar seu relatório por arte cabalística, não se segue (salvo melhor julgamento da corte) que seis arpentes de prado largamente medido forjem três tonéis de fina tinta sem soprar na bacia, considerando que nos funerais do Rei Carlos era possível comprar em pleno mercado o tosão por quatro mirréis – eu juro, lavro e dou fé – de lã. (...)
 
É uma peleja de Zé Limeira contra Eugene Ionesco e, visto isto, nosso bom Pantagruel pigarreia, coça o saco, e profere seu julgamento no mesmo idioma:
 
(...) Uma vez visto, ouvido e sopesado o diferendo entre os senhores de Beijacu e Chuparrabo, a corte declara que, considerando a horripilação do morcego ao declinar do solstício estival para cortejar baboseiras que sofreram mate de peão pela má vexação dos lucífugos presentes no clima trans-Roma de um maleiro encavalgado portando uma balestra nos rins, o querelante teve justa causa em calafetar o galeão que a governanta inflara, pé calçado e outro nu, reembolsando baixo e firme em sua consciência tantas asneiras quanto a pelagem de dezoito vacas, e basta quanto ao bordador. (...)
 
E assim, falando todos o mesmo dialeto surrealista, todos se entendem e os queixosos se abraçam e o povo dá hurras ao saber do grande Pantagruel.
 
Os livros de Rabelais têm sátira social, têm maledicência política à clef, têm heresias religiosas, têm escatologia gráfica e obscenidade explícita, mas acima de tudo têm a embriaguez da linguagem, da verborragia tonitruante de uma represa que explode e alaga metade dos Países Baixos.
 
Suas marcas estão por todo lado. João Ubaldo Ribeiro é um rabelesiano visível; Ariano Suassuna não poderia ter concebido Quaderna sem consultar essa apostila (o capítulo da “Filosofia do Penetral”, no Romance da Pedra do Reino, é Pantagruel puro); no Catatau de Paulo Leminski vemos pegadas nítidas do mestre; onde quer que haja um traço barroco e vociferante, um turpilóquio fescenino, o uso escrachado da pompa vocabular para mangar da pompa vocabular, aí estarão as indigitadas digitais do mestre gramático e anagramático Alcofribas Nasier.
 

 
O livro:
https://editora34.com.br/detalhe.asp?id=1093&busca=
 
 
 






terça-feira, 15 de junho de 2021

4714) Primeiras Estórias: "Fatalidade" (15.6.2021)



(Ilustração: Luís Jardim)
 
A obra de Guimarães Rosa, onde são tão frequentes os vaqueiros, os jagunços, os duelos, os combates equestres, roça de vez em quando por um imaginário de bravura pessoal e de violência que nos acostumamos a assimilar a partir do filme norte-americano de faroeste.
 
O nono conto de Primeiras Estórias (1962) é “Fatalidade”, um pequeno episódio faroesteiro. Ele não destoa de outros, que já comentei aqui, do mesmo volume: “Famigerado”, “Os irmãos Dagobé”... É aquela narrativa de poucas conversas e muitos exames de parte a parte, entre indivíduos durões de verdade, não os falastrões de saloon. Indivíduos que sabem usar uma arma, que só usam quando é preciso, e usam apenas uma vez.
 
São contos que derivam, direta ou indiretamente, das memórias sertanejas do autor, e em muitos deles, como neste aqui, há um narrador na 1ª. pessoa que veicula os acontecimentos para o leitor. O verdadeiro protagonista de “Fatalidade” é um tal de Meu Amigo. O Eu que narra a estória é um ser irrelevante. Caberia fazer-se uma antologiazinha só desses contos roseanos onde o narrador-Eu quase não faz nada senão assistir, escutar, testemunhar, tão ignorado e invisível quanto uma câmera cinematográfica.
 
Os parágrafos iniciais do conto lembram muito o início do Grande Sertão: Veredas:
 
(...) Na data e hora, estava-se em seu fundo de quintal, exercitando ao alvo, com carabinas e revólveres, revezadamente. Meu Amigo, a bom seguro que, no mundo, ninguém, jamais, atirou quanto ele tão bem – no agudo da pontaria e rapidez em sacar arma; gastava nisso, por dia, caixas de balas.
(“Fatalidade”)
 
Parece até o discurso do Riobaldo aposentado que abre o romance famoso:
 
Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade.
(GS:V)
 
Esse personagem tem muita coisa compatível com Riobaldo Tatarana:
 
Meu Amigo sendo de vasto saber e pensar, poeta, professor, ex-sargento de cavalaria e delegado de polícia.
(“Fatalidade”)
 
Por outro lado, ele lembra também outro personagem do romance, o meditativo e sábio “Compadre Meu Quelemém”. O Compadre é um personagem curioso do Grande Sertão, pois pelo que me lembro ele não surge em cena nem uma vez sequer, é sempre referido indiretamente por Riobaldo, que o considera um sábio, espírita da doutrina de “Cardéque”. Ele é um desses filósofos de rincão remoto, com leituras poucas e essenciais, e muita meditação. Quelemém certamente foi batizado como “Clemente”. Compadre Meu “Que Lê Mente”.
 
O Meu Amigo deste conto pertence à mesma estirpe samurai, de altas filosofias e derramamentos de sangue precisos e necessários. Ele decreta: “A vida de um ser humano, entre outros seres humanos, é impossível. O que vemos, é apenas milagre; salvo melhor raciocínio.”   Ele comenta: “Só quem entendia tudo eram os gregos. A vida tem poucas possibilidades”. Mais adiante finaliza: “Esta nossa terra é inabitada.”
 
O caso que se dá é que um homenzinho pequeno e tímido vem se aconselhar com o samurai sertanejo. É casado e pacífico, e sua esposa está sendo assediada por um valentão, Herculinão Socó, e toda vez que se mudam de vilarejo o catrapuz reaparece, assediando a moça. O queixoso, que se chama pelo apelido de Zé Centeralfe, vem pedir a Meu Amigo uma solução, de preferência ao abrigo da lei:
 
(...) Viajamos para cá e ele, nos rastros, lastimando a gente. É pêta. Não me perdeu de vistas. Adonde vou, o homem me atravessa... Tenho de tomar sentido, para não entestar com ele. (...) Terá o jus disso, o que passa das marcas? É réu? É para se citar? É um homem de trapaças, eu sei. Aqui é cidade, diz-se que um pode puxar pelos seus direitos. Sou pobre, no particular. Mas eu quero é a lei...
(“Fatalidade”)
 
Constrói-se assim uma situação que na minha terra só se resolve de um jeito. Alguém precisa remover Herculinão Socó do mapa-múndi. Meu Amigo não dá muitas respostas, mas durante a a lamúria do queixoso se levanta, ajeita a posição de uma carabina oblíqua na parede. Volta a sentar, o tempo todo olhando para as armas penduradas em amostra, e para Zé Centeralfe. Depois de muitos olhares, este entende o recado, pede licença e sai.
 
O narrador e Meu Amigo o seguem.
 
Eis senão quando, trazido pela pena providencial do Roteirista do Mundo, surge no matagal o vulto de Herculinão. Um pré-cheiro de pólvora inunda o ar. Há um tiro-tiro rápido,
 
...e o falecido Herculinão, trapuz, já arriado lá, já com algo entre os próprios e infra-humanos olhos, lá nele – tapando o olho-da-rua. Não há como o curso de uma bala, e – como és bela e fugaz, vida! 
(“Fatalidade”)  
 
Eles constatam, no entanto, que Herculinão fora derrubado por dois tiros. A segunda bala o pegou no coração.
 
Uma situação dramática que evoca o duelo clássico de O Homem Que Matou o Facínora (“The Man Who Shot Liberty Valance”, 1962) de John Ford. Neste filme, o pacato e hesitante Ranse Stoddard (James Stewart) precisa da ajuda do calejado e ético pistoleiro Tom Doniphon (John Wayne) para abater o herculinão local, Liberty Valance (Lee Marvin).

  
Quando Stoddard e Valance se confrontam no meio da rua e sacam as armas, é Doniphon que, escondido, abate o bandoleiro, deixando que Stoddard, no meio da confusão, seja dado como o herói, iniciando aí uma carreira política que só trará benefícios para a cidade. É ele quem vira “o homem que matou o facínora”.
 
Durante algum tempo matutei se haveria alguma influência do filme de Ford sobre o conto de Rosa. Parecia que não, porque a grande maioria dos contos de Primeiras Estórias teve publicação prévia, principalmente no jornal O Globo, ao longo de 1961, portanto antes do filme, que foi lançado nos EUA em abril de 1962. (Não pude apurar a data de exibição do filme no Brasil.) 
 
Não é o caso, porém, de “Fatalidade”, que não é mencionado nessa lista de publicações (v. Em Memória de Guimarães Rosa, José Olympio, 1968, pags. 208-210). Haveria, portanto, uma estreita janela temporal para que Rosa, sabendo do argumento do filme pela imprensa ou por outras vias, compusesse sua estória a ponto de ser incluída no livro, pois a primeira edição de Primeiras Estórias foi impressa em agosto de 1962.
 
Não custa lembrar que o filme de John Ford se baseia num conto homônimo de Dorothy M. Johnson, publicado nos EUA em 1953.
 
Bem; isso são passatempos de nerd. O que importa no conto, mais do que influências ou inspirações, é sua mecânica sutil, sua ética rude, seu reconhecimento tácito de que com certas qualidades de brutalismo não há conversa possível. Herculinão merece morrer. (Contra-argumento possível, e bem fundamentado: Augusto Matraga era também um acaba-samba da mesma má qualidade, mas bastou uma surra bem aplicada para encaminhá-lo para o Céu, mesmo a porrete.)








sábado, 12 de junho de 2021

4713) O pantelho do detalhe (12.6.2021)




(foto: Mari Lezhawa)

A gente estava numa mesa de restaurante, eram pessoas amigas entre si, professores de uma Universidade, e eu estava lá meio de convidado. Entraram numa discussão qualquer, e esse cara começou a exclamar:
 
– Pessoal, por favor! La paz, la paz!
 
Houve uma gargalhada geral. O fato de ele dizer em espanhol não me chamou a atenção, era apenas um modo de dizer, né? Como quando alguém nos entrega um objeto e a gente diz: “Gracias!”. Um enfeite verbal pra dizer algo comum.
 
Depois eles me explicaram. Era uma gíria da turma deles, porque anos atrás eles tinham recebido ali na Universidade, para dar uma palestra, um professor latino-americano, com muitas homenagens e salamaleques. No dia seguinte o professor ia embora, rolou um almoço de despedida. Aquelas situações em que uma turma de admiradores “bebe cada palavra” do visitante ilustre. Imagine um grupo de psicanalistas recebendo Jacques Lacan.
 
Alguém fez uma pergunta importante e o ilustre começou a responder algo como:
 
– Esta é uma questão muito grave. Para mim, o fator decisivo disto, para Latinoamérica, encontra-se na Bolívia. Vocês conhecem a Bolívia?
 
– Já estive na capital – disse um professor. – Passei uma semana em La Paz.
 
– Perdão – disse outro professor. – A capital da Bolívia é Sucre.
 
– Como assim? – disse o primeiro. – Todo mundo sabe que é La Paz.
 
– La Paz é apenas a sede do governo – disse um terceiro.
 
– E então? – disse o primeiro. – A sede do governo é a capital. É La Paz, portanto.
 
– Não, é Sucre – disse um quarto. – Chama-se capital constitucional.
 
– O país tem duas capitais, então? – perguntou uma professora. – E como é que faz quando---
 
– De acordo com a Constituição, só tem uma – interrompeu o quarto professor. – Que é Sucre.
 
– Vá resolver alguma coisa com o governo de lá, e vão lhe mandar para La Paz – disse o primeiro, que já tinha visitado a cidade.
 
O resultado (me contaram) é que todos se engalfinharam na discussão desse ponto. O almoço acabou, o visitante ilustre teve que partir porque o carro veio buscá-lo, e ninguém ficou sabendo qual era o fator decisivo para Latinoamérica. Desde essa época, eles criaram a expressão “La Paz” para implorar: “Gente, está-se discutindo uma coisa mais importante, não é preciso esclarecer esse detalhe agora”.


O problema é que existem seres humanos, virginianos em sua maioria, que não permitem o menor erro ou imprecisão passar diante dos seus olhos. Tem que parar o desfile de 7 de setembro inteiro, fazem com que dez mil estudantes fiquem marcando passo à espera, enquanto um inspetor se insinua no meio de um pelotão para ajeitar uma trunfa que o vento assanhou. Proibido qualquer coisa fora do lugar! – eis a palavra de ordem.
 
É uma característica do espírito nerd essa obsessão pelo detalhe. O nerd é o resultado de uma mutação genética destinada a resolver importantíssimos problemas da Humanidade numa era de aceleração tecnológica onde mais e mais coisas atingem um nível inédito de complexidade, em virtude de especificações decididas num micro-nível por força do uso de computadores. Precisamos de mentes humanas capazes de distinguir essas nuances.
 
O nerd é um filtro de exatidão. É como um browser que recusa uma senha ou uma URL de 150 dígitos se um deles estiver errado. A gente não pode convencer o browser de que “é praticamente a mesma coisa”. O browser foi programado por um nerd e lhe dirá: “Na verdade, é teoricamente a mesma coisa, mas na prática há a diferença de um dígito, e isto invalida o comando.”
 
Não duvido de que ainda veremos mesas-redondas em eventos científicos com três ou quatro nerds comparando diante da platéia suas versões conflitantes da dízima de “Pi” ou do algoritmo de frequência dos números primos. O rapaz da mesa de som poderá se perguntar qual é a serventia disso para a espécie humana, mas ele está errando o alvo. A espécie humana surgiu para ser capaz de um dia (século vinte, vinte e um, por aí) produzir esses indivíduos capazes de negar o Oscar a um filme porque na cena tal aparece a sombra de um microfone.


Deus está nos detalhes, diz um velho provérbio, e o Diabo está na percepção deles. Esses indivíduos catadores-de-lêndeas são capazes de perceber o que é invisível a todos. Quando incomodam, não o fazem por mal. Você mostra a um deles a foto de sua mãe vestida de noiva e ele diz: “A manga do vestido está desfiada”. Não é culpa dele. Está em seu DNA.
 
Não esqueço uma discussão que vi a respeito de um filme de faroeste. Chamamos o filme de faroeste, e foi o quanto bastou para que um debatedor erguesse o dedo e nos lembrasse que a história era ambientada num Estado qualquer, que já não lembro, mas que ficava na Costa Leste dos EUA.
 
“Sim,” disse alguém, “mas trata-se da história de bandidos que assaltam uma diligência e se refugiam numa fazenda, sequestrando a família do fazendeiro, até que os vaqueiros vêm em socorro do patrão e o libertam. Fazenda, gado, vaqueiros, revólveres, tiroteios, cavalos: é um faroeste”. “Mas, como, se a história se passa no Leste?” insistia o rapaz. Isso foi há uns 40 anos, e provavelmente ainda estão lá, as barbas brancas arrastando no chão sobre as teias de aranha, e não chegaram a um acordo.


Eles são sensíveis à minima incoerência. São como o canário que os trabalhadores nas minas de carvão levam consigo para dentro do poço. O canário é excessivamente sensível a qualquer emanação de gás, e quando um deles cai duro é sinal de que está na hora de evacuar a mina, antes que o gás comece a afetar os seres humanos.
 
Os indivíduos detalhistas são assim: eles são sensíveis a defeitos, erros, incoerências, imperfeições, inexatidões de todo tipo, e antes que essas coisas cheguem a um ponto de incomodar os seres humanos, eles acusam o golpe, ficam pálidos, com sudorese, apontando a página de um livro: “Faltou a crase, faltou a crase!”.
 
Por isso, quando a gente escreve ou quando fala em público, precisa estar sempre na defensiva. Pode haver um deles na platéia. Qualquer afirmação generalizante, tipo “como sabemos, o brasileiro gosta muito de música”, fará erguer-se um braço no auditório e com ele o brado: “eu não gosto!”. Para prevenir ressalvas desse tipo foram criadas expressões atenuantes como “em geral”, “na maioria dos casos”, “em grande parte dos casos”, “normalmente”, “cerca de “, “aproximadamente”... Servem para exorcizar esses indivíduos prontos a brandir uma exceção toda vez que a gente enunciar impensadamente uma regra.
 
E então o jeito é dizer “La Paz!...” – e ir em frente.
 






quarta-feira, 9 de junho de 2021

4712) Cinco cinéfilos (9.6.2021)


1
O pessoal conta que, no tempo em que Campina Grande tinha cinemas de rua, havia um tal de Dr. Gregório, advogado, que morava na Desembargador Trindade. Ele trabalhava a manhã toda no escritório que dividia com dois sócios, no centro. Voltava para almoçar em casa, dormia a sesta, e por volta das 3 da tarde trocava de roupa e subia devagar a Rua Irineu Joffily, rumo ao centro, o que o faria passar obrigatoriamente pelos dois cinemas locais, o Cine Babilônia e depois o Cine Capitólio. O costume dele era comprar ingresso num dos dois (as sessões da tarde eram às 15:30), entrar e assistir o começo da sessão, o cinejornal, os trailers, em pé junto à cortina da entrada. Depois, assistia cinco minutos do filme. Se o filme fosse interessante ele avançava e ia sentar lá na frente. Se achasse o filme chato saía, subia até o Calçadão e passava a tarde tomando café pequeno no São Braz e falando da vida alheia.
 
2
Trudi Haasse, veterana crítica teatral de Durban, confessou numa entrevista ao programa Nesta Hora, da TV local, que sua paixão pelo teatro começou, curiosamente, na infância. Trudi tinha uma irmã de dezoito anos; a família, muito conservadora, só permitia que o namorado dessa irmã mais velha a levasse ao cinema se levassem Trudi consigo. O casal de jovens ia ao cinema quase todos os dias, apenas para namorar em paz. A garota, a partir dos oito anos, foi submetida a uma dieta constante de filmes de todos os tipos: dramas, comédias, faroestes, policiais, terror, desenhos animados, crítica social... Quando chegou à adolescência, entrou para um grupo de teatro, tornou-se atriz, iluminadora, diretora, autora, e por fim exerceu a crítica teatral, em alto nível, por mais de quatro décadas. Quando um entrevistador lhe perguntou certa vez por que optou pelo teatro, ela confessou: “Não suporto cinema.”
 
3
Quando o Cine Pathé, ali perto da Savassi, funcionava como Cinema de Arte para as platéias belorizontinas, havia um casal que sempre ia nas sessões da tarde. Ele era baixinho mas muito empertigado, vestido sempre de terno preto, chapéu, cavanhaque, uma figura meio anacrônica. Era cego e tinha sempre ao lado a esposa, que o conduzia pelo braço. Ela dirigia o carro, ajudava-o a descer, comprava os ingressos. Uma vez eu estava sentado perto do casal e a ouvi contando o filme a ele. O filme era Tempo de Guerra, de Godard, um filme em preto-e-branco, tela pequena, produção quase artesanal. Ela descrevia paisagens coloridas, em Cinemascope, heroísmos de baioneta em punho, mocinhas tímidas encolhendo-se de susto diante de soldados barbudos, e dava um jeito de encaixar a narrativa com aqueles sons e aqueles diálogos lacônicos em francês. Virei-me disfarçadamente. Ele sorria, de olhos fechados, e a mulher não tirava os olhos da tela, enquanto dizia: “Centenas de soldados marchando num campo nevado... Ah, que céu azul tão belo... agora uma chuva da paraquedas cor-de-laranja...”
 
4
Um amigo meu tinha uma tia idosa, em Cajazeiras, que ia religiosamente ao cinema uma vez por ano. O advérbio se justifica, porque ela era muito católica, e toda Semana Santa ia ver A Paixão de Cristo.  O filme que ela via era uma cópia de propriedade do cinema, e era sempre o mesmo, bem antigo, aquele filme preto-e-branco, granulado, a imagem meio aceleradazinha. Mas o mundo se moderniza, e teve um ano em que o dono do cinema resolveu inovar, e na Sexta-feira Santa exibiu O Rei dos Reis, filmão cinemascope, colorido, com Jeffrey Hunter no papel de Cristo. Dona Fulaninha foi ao cinema meio no piloto automático, comprou o ingresso sem prestar atenção, mas com cinco minutos de filme retirou-se da sala de projeção e saiu bufando de raiva. Chegou em casa indócil, reclamando da heresia. A família quis acalmá-la: “Mas titia, que que tem que eles resolvam mudar de filme?” E ela, escandalizada: “Que que tem? Botaram um filme de mentira, americano, com um ator fingindo que é Jesus! Eu quero ver é o filme de verdade, o do Calvário, com o Jesus verdadeiro!”  Ninguém teve coragem de contar.
 
5
Nos velhos tempos, os cinemas principais de Campina Grande tinham três sessões por dia. A matinê, sempre às 15:30; e duas sessões à noite, sempre às 19:00 e às 21:00, a não ser nos casos daqueles filmes que extrapolavam, como E o Vento Levou. Nesse tempo, também, não havia o costume ditatorial de esvaziar a sala após uma sessão. Terminava o filme, acendia-se a luz, e quem quisesse continuar assistindo podia ficar, ir no banheiro, comprar balas na sala de espera, e depois voltava lá para dentro. Muitas vezes fiz isso apenas por causa do futebol: via a primeira sessão completa, esperava para ver de novo o Canal 100 na segunda, e depois ia embora.
 
Nos tempos de cineclube, não foram poucas as vezes que eu via o filme à tarde, saía do cinema às 17:30, corria para casa, jantava, voltava correndo, via o filme de novo às 19 e às 21. Fiz isso com O Anjo Exterminador, O Homem do Prego, Help, Mickey One, O Ente Querido... A gente sabia que depois daquele dia (as sessões de “Cinema de Arte” eram um dia apenas) nunca mais teria chance de rever o filme.
 
E aqui entra o caso de um conhecido meu, vamos chamá-lo Nestor. Ele trabalhava de balconista no comércio, era casado, tinha filhos pequenos. E gostava de cinema. Só tinha um problema: de tarde não podia ver filme, porque estava trabalhando. A loja fechava sempre por volta de 7, 7 e meia, porque era preciso conferir contas, material, sei lá o que. O fato é que ele só ficava liberado por volta das 8 da noite. E não queria ver a sessão das 9, porque terminava às 11 e ele gostava de botar os filhos pra dormir.
 
Nestor criou um hábito. Fosse qual fosse o filme, ele saía da loja direto pro cinema, comprava ingresso e assistia a segunda metade do filme. Esperava no intervalo, continuava lá na segunda sessão, e via o filme até a parte em que tinha chegado. Aí saía – era sempre por volta de 10 horas, 10 e pouco. Ele ainda chegava em casa (na 4 de Outubro) e pegava as crianças acordadas. E desenvolveu uma ciência da leitura fílmica. Dizia ele:
 
– Rapaz, é só ir pegando as pistas, sacando a história, vendo quem são os personagens, prestando atenção ao fim. No intervalo eu repasso tudo na memória. Quando começa a segunda sessão, é uma beleza, o filme vai começando e cai uma ficha atrás da outra, tudo se explica, tudo se encaixa, tudo é “ah, então era por isso”, “logo vi que tinha sido assim”, “puxa, quem diria”... O cinema é uma grande arte, a toda hora tem um mistério que não se acaba, uma surpresa que ninguém espera.
 





domingo, 6 de junho de 2021

4711) O que é "fansplaining" (6.6.2021)



Os dicionários urbanos dos anos mais recentes registraram uma palavra de origem inglesa que logo se fixou no uso geral: mansplaining. É formada por “man” (homem) e “explain” (explicar).
 
Refere-se ao hábito (irritante, de fato) dos homens que se sentem no dever de explicar um assunto difícil a uma mulher, mesmo quando ela notoriamente entende daquilo tão bem quanto eles, ou melhor.
 
Não importa se a mulher tem 55 anos e é doutora em teatro elisabetano, e o homem tem 30 e acabou de ler uma peça de Shakespeare pela primeira vez. O simples fato de ela ter mencionado o dramaturgo no meio de um bate-papo no jantar da casa de alguém é o bastante para o cidadão passar a explicar a ela que nem tudo que se atribui a Shakespeare deve ser levado ao pé da letra, porque é bem provável que um tal de Francis Bacon tenha escrito aquelas peças, porque sobre Bacon sabe-se muita coisa, enquanto que Shakespeare era um sujeito anônimo, com poucas referências biográficas, então a lógica nos leva a admitir que ele deve ter servido de testa-de-ferro para que os textos de Bacon fossem encenados, porque---
 
E por aí vai, até ele recitar de memória um artigo que leu na Superinteressante.
 
Todo homem (inclusive eu) já incorreu nesse tipo de descortesia, cuja raiz está na suposição de que os homens sabem de tudo e as mulheres não sabem de nada. O mansplaining é um tipo específico de paternalismo. Pode se dar de forma agressiva, humilhante, mas muitas vezes se dá com trajes de boa vontade, de solicitude, uma atitude meio paternal por parte de um intelectual grisalho e estabelecido, que se dispõe a contradizer e esclarecer uma senhorita mais jovem, mostrar os pontos onde ela está errada, ensinar-lhe o caminho certo, a realidade das coisas.
 
Só não faça como aquele sujeito que depois de uma sessão como essa, sobre um tema científico qualquer, aconselhou a jovem: “Para entender melhor, leia o livro da Doutora Fulana de Tal”, e ela respondeu: “Eu sou a Doutora Fulana de Tal”.
 
Nos últimos tempos surgiu um termo derivado: fansplaining. É quando um fã de uma coisa qualquer (banda de rock, série de TV, gênero literário, etc.) julga-se o grande conhecedor de todos os meandros e todos os detalhes daquele assunto, mas movido por um espírito de generosidade se dispõe a dar explicações de 45 minutos sobre qualquer detalhe que por acaso alguém mencione erradamente no meio da conversa.


– Pois é... Existe uma mania de dizer que a obra dos Beatles é apolítica, que só fala de amor e de bobagens psicodélicas. Eles esquecem uma música como “Revolution”, onde Lennon dizia claramente que ---
 
– Sim, mas a qual “Revolution” você se refere? Não deve ser “Revolution 9”, que é uma colagem de sons.
 
– Não, é a outra, o lado B do compacto de “Hey Jude”.
 
– Sim, mas é esta gravação do compacto, ou a que foi chamada “Revolution 1” e saiu no “Álbum Branco”?
 
– É a mesma música.
 
– Perdão, não é. São gravações diferentes de uma mesma idéia, com diferentes mixagens, alterações na letra... Uma foi gravada entre maio e junho de 1968, e a outra em julho.
 
O fã é uma mistura de aluno CDF e de concorrente a programas como O Céu é o Limite. Decora vorazmente livros e mais livros sobre um assunto, na esperança de que alguém pergunte de repente no meio de uma conversa: “Quem foi mesmo o ator que fez o papel de Calígula em O Manto Sagrado, alguém sabe?...”  e ele vai pigarrear discretamente e dizer em tom casual: “Ora, ora, não terá sido Jay Robinson?...”


Demonstrar conhecimento factual é mais importante para o verdadeiro nerd do que defender uma opinião subjetiva, mas ele não recua diante desta outra possibilidade. Como ele sabe milhares de fichas técnicas de cor, acha que isso o capacita a ter poder de veto sobre as opiniões alheias. Mesmo sobre as do artista cuja obra está em discussão.


O escritor Neil Gaiman está agora às voltas com esse problema, porque sua série de quadrinhos The Sandman está para ser adaptada numa série de TV, e ele está aguentando o fansplaining de alguns admiradores sobre o que a série pode e não pode fazer, sobre as características raciais ou de gênero dos personagens que ele próprio criou, sobre o desenvolvimento dos argumentos, etc. e tal.
 
Gaiman se dá o trabalho de passar parte do dia nas redes sociais explicando que quis dizer isso e não aquilo quando escreveu as histórias, que criou os personagens deste ou daquele jeito... No fundo, ele sabe que é impossível criar uma obra, vê-la sendo lida por centenas de milhares de pessoas, e esperar que essas leituras sejam todas parecidas com a dele. Não é assim que funciona.
 
O autor não pode impor uma leitura única sobre a obra que escreveu, mas se ele que é o autor não pode, por que um fã poderia?
 
A função da obra é produzir (voluntariamente ou não) uma multiplicidade de leituras divergentes, convergentes, discordantes, contraditórias, complementares, mutuamente reveladoras... É assim que a criação literária (e artística em geral) se impregna na cultura de seu tempo e permanece viva.
 
Para isso ela precisa de leitores, de críticos e de fãs. Críticos e fãs são dois conjuntos que hoje em dia se interseccionam cada vez mais, numa época em que milhões de fãs produzem blogs (como é o meu caso com o Mundo Fantasmo), podcasts, canais do YouTube, etc., para divulgar suas opiniões.
 
Uma obra sobre a qual todo mundo esteja de acordo é uma obra que nunca será checada, relida, reavaliada, discutida, questionada, atacada, defendida, mantida viva e acesa na memória das pessoas, 100 ou 200 anos depois de aparecer.
 
O autor desencadeia esse processo. Ele tem todo o direito de discordar de algumas interpretações do seu texto, mas não pode sonhar em ter todas elas sob controle.
 
Por isso eu admiro a cara de pau, a singeleza e a tranquilidade de Gabriel Garcia Márquez quando se refere às discussões dos críticos de Cem Anos de Solidão:
 
Todo bom romance é uma adivinhação do mundo. Os críticos assumiram, por sua conta e risco, a grave responsabilidade de decifrá-los, e é preciso esperar que o façam. Não me refiro, é claro, às incontáveis alusões de caráter privado que há no meu livro, e que somente meus amigos íntimos podem descobrir: que cada data corresponde ao aniversário de alguém, que uma personagem tem o mesmo temperamento da minha mulher, que os nomes que alguém pretende pôr nos filhos são os nomes dos meus filhos... e mais mil coisas que é impossível descobrir pela simples leitura do romance. O que me alarma, por outro lado, é que ninguém tenha assinalado uma só das 42 contradições que eu mesmo descobri depois de publicar o livro, nem os seis erros graves que me foram indicados pelo tradutor italiano, e que não vou corrigir nas futuras edições, nem nas outras traduções, porque não seria uma atitude honesta.
 
(entrevista a Armando Durán, Revista Nacional de Cultura, Caracas, setembro de 1968)
 


 




quinta-feira, 3 de junho de 2021

4710) Minhas canções: "Alpinista Social" (3.6.2021)



Algumas músicas dão um trabalho danado pra fazer. A gente mexe nelas durante meses, às vezes durante anos, até achar que ficaram com jeito. Outras não: parece até que chegaram prontas.
 
Esta aqui surgiu numa tarde meio ociosa, o telefone tocou e era Lenine, com uma idéia e uma proposta. Ele vinha tentando entrar na rinha disputadíssima de músicas para trilha sonora de novelas da TV Globo. Além de render alguns caraminguás em direitos autorais, isso servia como uma boa vitrine para compositores e intérpretes.
 
Corria o ano de 1990, pelo que calculo. Tínhamos acabado de compor um samba, “Virou Areia”, que ganhara um dos prêmios no Festival de Avaré, a FAMPOP. A esta altura já tínhamos composto alguns sambas de sucesso para os blocos da Zona Sul (Suvaco do Cristo, Simpatia é Quase Amor). Que tal emplacar um samba numa novela? A novela da vez era Lua Cheia de Amor, que a Globo estava gravando e estrearia em breve. Ele pegou o carro e foi lá em casa, no Catete.

 
O conceito – música de novela tem que ter um conceito – era simples. A personagem se chamava Kika Jordão, e ia ser interpretada por Arlete Salles. Era uma mulher de classe média fascinada pelas colunas sociais, pela vida das socialites, e querendo se enturmar no meio delas. Uma mulher sem muita classe, querendo bancar a “phyna” e batendo na trave o tempo todo. O marido trabalha com algo relativo a roupas, tecidos, etc.
 
Em inglês a expressão para esse tipo de gente é “social climber”, alpinista social. Foi esse o ponto de partida. Lenine fez uma levada inicial, cantarolada na base do tã-rã-rã, do lá-rá-rá, e os versos foram surgindo.
 
Apesar da idade ela nunca se cansa
de entrar nessa dança e sair no jornal...
E tem sempre um plano
por debaixo do pano:
ela é alpinista social...


(Arlete Salles, como "Kika Jordão")
 
“Por debaixo do pano” é uma alusão talvez pouco sutil à profissão têxtil do marido. Tínhamos que falar um pouco nas pessoas que querem “falar estrangeiro” ou citar nomes de gente famosa, e esta foi talvez a estrofe mais divertida de fazer:
 
Vira a noite no drink a pensar no overnight
no hi-fi do society ela rodou...
 
O “overnight”, de triste memória, era a aplicação financeira que os bancos faziam diariamente para manter o poder de compra dos correntistas. Numa época em que havia inflação de até 2 ou 3% ao dia, na virada-da-noite era preciso recuperar essa perda.
 
Pensamos então em falar em gente famosa, porque Kika Jordão teria o cacoete habitual de dizer que “era assim com” A, B, ou C.  Na época, o comandante Jacques Cousteau vinha ao Brasil com frequência, não seria impossível alguém no Rio dizer que já tomara algum “champã” com ele. E veio o verso:
 
Plástica no nome, pra não dar vexame;
de francês só conhece Jacques Cousteau.
 
O problema é que não encaixava na métrica! O nome do cara tem quatro sílabas, não havia como encaixá-lo naquelas três notas. Precisávamos de um nome igualmente francês de três sílabas – e o que nos ocorreu foi Belmondo, o famoso Jean-Paul Belmondo de Acossado, que, trinta anos atrás, era mais lembrado do que agora. E ficou: “De francês só conhece Belmondo...”
 
(No YouTube, quem transcreveu a letra não conhecia o ator, e teve que se virar com “Belle Mondeau”, que não deixa de ser uma saída interessante.)


(Jacques Cousteau + Belmondo)
 
Mas os compositores eram (são) teimosos que só um par de mulas, e nenhum dos dois queria abrir mão do nome do bravo oceanógrafo. E assim saíram-se com esta preciosidade, iniciando a estrofe seguinte:
 
E já que custou
tanto a chegar        
no sopé da montanha principal...
 
Com este, garantimos nosso lugar de honra entre os “20 Trocadilhos Mais Infames da MPB”.
 
Lenine gravou a música, com um ótimo arranjo e uma orquestração arrasante. Arlete Salles deu um baile com a personagem. E durante meses chega dava gosto ver as presepadas cênicas depois das quais ela dava uma rabissaca e saía de rua afora, com um sobe-som da música:
 
Lá vai ela, nas pegadas da moda...
 
Pense numa música feita em duas ou três horas, à base de café e bolacha Maria!  Fiquei muito satisfeito, e durante os meses seguintes pensava com meus botões: “Olha aí, como foi simples... Em uma tarde, abri para mim um caminho profissional novo: compositor de trilhas sonoras de novelas!  Vou emplacar muitas outras músicas nas novelas da Globo!”.
 
Ledo engano. Pra mim, foi a primeira... e única.
 
 
*******
 
A gravação de Lenine:
ALPINISTA SOCIAL
(Lenine / BT)
 
Apesar da idade ela nunca se cansa
de entrar nessa dança e sair no jornal...
E tem sempre um plano
por debaixo do pano:
ela é alpinista social...
 
Vira a noite no drink a pensar no overnight
no hi-fi do society ela rodou...
Plástica no nome, pra não dar vexame;
de francês só conhece Belmondo.
 
E já que custou tanto a chegar
no sopé da montanha principal,
ela se preza, ajoelha e reza
para ser alpinista social.
 
Lá vai ela, nas pegadas da moda,
na alta roda, quer passar sem pedigri...
Defasada, mas é boa aluna,
topa qualquer uma, nessa pressa de subir...
 
Lá vai ela... no hi-fi do society
Lá vai ela... quer sair no jornal
Lá vai ela... por debaixo do pano
Lá vai ela... alpinista social
Lá vai ela... sem pedigri
Lá vai ela... nessa pressa de subir
Lá vai ela...
 
 
 




 





segunda-feira, 31 de maio de 2021

4709) O beijo radioativo da morte (31.5.2021)



 
Kiss me Deadly (1955), dirigido por Robert Aldrich, teve no Brasil o título de O Beijo da Morte. É um desses filmes que “estouram a costura” dos gêneros cinematográficos, unindo elementos disparatados, contraditórios. Toda vez que o filme vai se encaminhando na direção de um clichê previsível, escorrega e vai noutro rumo.
 
Começa pelo protagonista. Mike Hammer é o detetive particular criado por Mickey Spillane, apologista do machismo e da violência. Acho que li um ou dois romances de Spillane, que de fato tem esse viés meio sadístico, com longas cenas de espancamento e de violência física descritas com visível prazer. Se os leitores dele compraram ingresso para ver isso, quebraram a cara. A única cena “spillanesca” no filme é quando Hammer fecha uma gaveta nos dedos do médico gordinho que se recusa a entregar-lhe um objeto-chave para a solução do mistério.
 
E Hammer não aparece como nenhum brucutu. Interpretado por Ralph Meeker, ele está até bastante “meek”, embora sempre carrancudo quando se confronta com a polícia. E também dá uma de indiferente quando recebe os afagos de sua secretária-amante Velda (Maxine Cooper), aquela típica assistente devota sem a qual o detetive não conseguiria juntar as pistas. Os dois têm boas cenas, e alguns diálogos memoráveis (Ele: “Você nunca está por perto quando eu preciso de você.” Ela: “Você nunca precisa de mim quando eu estou por perto.”).


É um filme “noir” pelo estilo visual, pela fotografia de Ernest Lazslo, cheia de ângulos caprichados e iluminação em alto contraste. E pela sensação de perigo desconhecido e iminente. Nem o público nem o detetive fazem a menor idéia do que está acontecendo, e de por que tanta gente aparece morta de uma hora para outra.
 
Existe uma fronteira pouco nítida entre o policial “noir” e o policial “hardboiled”. Em geral, usam-se esses dois termos com a mesma função, tanto na literatura quanto no cinema. Há uma distinção, contudo, se quisermos ser mais precisos.
 
O “noir” é geralmente uma história de indivíduos meio fracassados, atormentados, metidos em crimes, ameaças, situações-limite, lutando contra tudo. São homens e mulheres anônimos, civis comuns, perdidos na selva urbana e entrando em choque com as feras, metendo-se em situações de crime sem saber ao certo por quê.
 
O “hardboiled” é o romance ou filme sobre indivíduos durões, resolutos, às vezes violentos, mas sempre implacáveis, que enfrentam forças superiores à sua. Frequentemente é um detetive particular que bate de frente com a polícia, com os bandidos, com a imprensa, com a Justiça. São sujeitos cínicos, calejados, às vezes sedutores, inteligentes o bastante para fazerem deduções detetivescas, e impacientes o bastante para descer a porrada quando precisam resolver logo uma pendência.




O Beijo da Morte é uma mistura dos dois, porque no cinema o filme “hardboiled” não me parece ter criado uma estética visual específica, e o “noir” sim. Alguns grandes filmes com a estética “noir” (fotografia, iluminação, cenários) são A Marca da Maldade (1958) de Orson Welles, O Terceiro Homem (1949) de Carol Reed, Pacto de Sangue (1944) de Billy Wilder... Filmes com influência do Expressionismo Alemão e com aqueles ângulos extravagantes, um claro-escuro violento, efeitos de iluminação móvel (faróis de carro que passam, lâmpada que balança, lanternas elétricas nas mãos, etc.). Cenários às vezes bizarros, às vezes filmados em ângulos ameaçadores.
 
E ao mesmo tempo o roteiro de A. I. Bezzerides desenvolve uma situação típica de filme hardboiled, onde o detetive, a polícia e os bandidos formam um triângulo de ameaças mútuas numa correlação de forças que se altera a cada cena, a cada nova morte, a cada nova surpresa, mas o detetive durão assume sempre aquela atitude de quem “não abre nem prum trem”.


Aí entramos em outra reviravolta. Mike Hammer se meteu nesse mistério porque resolveu dar uma carona a uma mulher misteriosa, vestida apenas numa capa, que vinha correndo à noite pela rodovia. Os dois são presos por bandidos, a mulher é torturada e morta, e Hammer decide que vai, se não propriamente vingá-la, pelo menos entender por que ela representava uma ameaça para alguém.
 
Kiss Me Deadly dá algumas triscadas de leve na ficção científica ou pelo menos no policial high-tech que viria a se consagrar no futuro em filmes como A Conversação (1974) de Francis Coppola. Ele nos mostra na casa/escritório de Hammer uma secretária eletrônica que utiliza um gravador-de-rolo daqueles antigos. Engenhocas assim já existiam em 1955, mas o que tento imaginar hoje é o impacto que a visão desse aparelho, na casa de um detetive, produziria na platéia.

 
E o filme tem um dos “McGuffins” mais intrigantes na história do cinema. “McGuffin” é uma expressão atribuída a Alfred Hitchcock para designar o objeto que todo mundo (detetive, bandidos, polícia) luta para obter. Pode ser dinheiro, jóias, drogas, documentos, planos secretos de um submarino atômico... No fim não importa, dizia Hitchcock; ele está ali somente para botar em movimento o mecanismo das mortes e das perseguições.
 
O primeiro McGuffin da história é uma mensagem que a mulher da cena inicial deixa para Hammer. No momento em que ele lhe dá carona no carro, ela diz que se chama Christina, em homenagem à poetisa Christina Rossetti. O detetive dá a essa informação a carga de irrelevância que seria de se esperar da parte de um detetive de Mickey Spillane. Mais tarde, porém, ele descobre no apartamento da mulher um livro da poetisa, leva-o consigo, e mediante uma dedução consideravelmente facilitada pelo roteirista do filme, acaba chegando ao segundo McGuffin.
 
Que é uma caixa misteriosa, guardada num armário de um clube. Quando Hammer encontra a caixa, comenta em voz alta que ela parece muito quente. Ao entreabri-la, escapa-se dali uma luz de calor intenso, que acaba queimando sua mão. E no clímax da narrativa outra pessoa abre de vez a caixa e ela se transforma, como um personagem advertira pouco antes, na Caixa de Pandora. A caixa capaz de libertar todos os males do mundo.


Subentende-se que a caixa continha alguma coisa radioativa (é bom lembrar que o filme surgiu apenas dez anos depois de Hiroshima), se bem que cientificamente isso suscita mais desconfiança do que respostas. Não importa: é a guinada final de um filme que era ao mesmo tempo um policial “noir” e um “hardboiled”, e que na sua reta final vira a esquina bruscamente rumo à ficção científica, mas a FC de filmes muito pouco científicos como Tarantula (1955) de Jack Arnold ou O Mundo em Perigo (1954) de Gordon Douglas.
 
Essas pequenas heresias genéricas acabaram tornando Kiss Me Deadly um filme memorável no meio de tantos outros, cinematograficamente superiores, mas que mantêm do começo ao fim a coerência de gênero – como O Falcão Maltês (1941) de John Huston ou The Big Sleep (1946) de Howard Hawks.
 
E a “caixa da morte luminosa” deixou uma impressão duradoura no cinema dos EUA. Dois ou três exemplos me vieram logo à memória, e uma pequena busca no Internet Movie Data Base me trouxe outros. A abertura da Arca da Aliança no final de Os Caçadores da Arca Perdida (1981) de Spielberg, derretendo todo mundo com sua luz mortífera. O misterioso alienígena escondido na mala do carro-em-fuga do subclássico Repo Man, a Onda Punk (1984) de Alex Cox. A bola luminosa que concentra em si toda a maldade do mundo, no desenho-antologia Heavy Metal, Universo em Fantasia (1981) de Gerald Potteron. E mais, e mais...
 
Como diria alguma divindade cínica, tatuada e sob o efeito de um poderoso psicotrópico: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos derreterá”.


(O filme pode ser visto por quem se associar, e o preço é bem compensador, ao saite de streaming Belas Artes À La Carte, que recomendo.)