quinta-feira, 24 de maio de 2012

2878) A Vida e os Tempos de Safira Cingalesa (24.5.2012)



Cap. 1 – De como certo dia nasceu em Junco do Seridó uma menina, filha de um frentista de posto e de uma cozinheira, e foi batizada como Maria Ceilândia.

Cap. 2 – De como aos 19 anos ela trabalhava de babá para a filha de Jacyelle, uma superstar de forró de Fortaleza, e viajou acompanhando a patroa numa excursão pela Europa. 

Cap. 3 – De como, para surpresa de todos, Maria Ceilândia sumiu do Hotel para sempre, deixando pregada no travesseiro uma folha de papel dizendo apenas: “Dei o leite e o remédio à meia-noite. Fui!!!”, assim, com três pontos de exclamação.  

Cap. 4 – De como o mundo nada mais soube durante dois anos e meio, entretido em fazer revoluções em torno do Sol. 

Cap. 5 – De como, no início de um verão aparentemente igual aos outros, multidões parisienses se acotovelavam em frente ao cabaré “Le Boeuf Noir”, no Pigalle, cujos néons anunciavam o show de estréia de Safira Cingalesa, a mais famosa dançarina-do-ventre do Sri Lanka. 

Cap. 6 – De como seu empresário, o misterioso dândi Victor Cohen, governava com mão-de-ferro seus feéricos shows, sua fortuna rapidamente adquirida, e as paixões tempestuosas que ela despertava mundo afora. 

Cap. 7 – De como Safira Cingalesa fez uma turnê devastadora pelas capitais da Europa, arrebatando platéias, seduzindo xeiques sauditas e playboys novaiorquinos, e mantendo seu voto de silêncio diante de uma mídia sequiosa por entrevistas.  

Cap. 8 – De como o Marquês de Dautrémont e o General L’Herbisier duelaram pelo amor da dançarina, ferindo-se mortalmente um ao outro numa gélida manhã enevoada no Bois de Boulogne. 

Cap. 9 – De como um belo dia Safira Cingalesa estava se apresentando em Lisboa e num restaurante de luxo cruzou com a cantora de forró Jacyelle, que a reconheceu imediatamente, gritou: “Maria Ceilândia! Ah, condenada dos infernos!”, passou-lhe uma descompostura e meteu-lhe a bolsa na cara, enquanto Safira, para espanto dos comensais e para o deleite e os flashes dos “paparazzi”, ajoelhava-se aos seus pés, chorando e dizendo: “Desculpe, Dona Jacyelle!  Eu tava só brincando!”.  

Cap. 10 – De como Jacyelle meteu igualmente a bolsa na cara de Victor Cohen (que tombou no tapete, desmaiado e falido) e recambiou Maria Ceilândia de volta ao Ceará, onde ela empregou-se como recepcionista em convenções empresariais, deu entrevistas na Globo, posou para a “Playboy”, candidatou-se a deputada estadual (teve 73 votos) e acabou se casando com Amintas Salgueiro, 52 anos, evangélico, dono de uma fábrica de bicicletas, e confidenciou às amigas: “Ai que bom, eu não aguentava mais aqueles homens no meu ouvido gemendo coisas que eu não entendia”.






quarta-feira, 23 de maio de 2012

2877) Arte experimental (23.5.2012)



("Cadavre exquis", desenho coletivo de Man Ray, Joan Miró, Max Morise e Yves Tanguy, cerca de 1927)



Para mim, vanguarda artística e arte experimental são coisas diferentes. Toda vanguarda envolve um conceito novo, uma “atitude” nova, que só tem razão de existir por ser nova, por ser – ou pretender-se – original.  

Daí a dificuldade de colocar todas num mesmo saco, e, principalmente, de encontrar um saco onde caibam as vanguardas literárias, cinematográficas, de artes plásticas, etc.  (Mesmo assim, é claro, os críticos continuarão tentando, e publicando os resultados.) 

Eu diria, no entanto, que toda vanguarda, mesmo que envolva um certo tatear às cegas, mesmo que envolva um andar às tontas, parte de alguma coisa definida, uma intenção, um ponto de vista radical, no mínimo a decisão consciente de quebrar com algum tipo de convenção ou de regra vigente na estética do seu tempo. 

Toda vanguarda é vanguarda contra alguma coisa.  Toda vanguarda é luta e polêmica, mesmo que seja a luta desigual entre um artista intuitivo e pouco articulado contra todo o panteão intelectual do seu tempo, o Conselho dos Mil Anciãos que dizem o que é arte boa e arte ruim, que determinam o que os novos artistas podem ou não podem fazer. No simples ato de fazer uma arte vista como ruim, o artista de vanguarda já diz a que veio, mesmo que não consiga dizê-lo verbalmente com a verve dos grandes argumentadores.

Arte experimental é outra coisa, e francamente não vejo nenhuma arte não-experimental que não tenha tido origem em algum tipo de experimento. “Experimento”, no caso, tem menos de experiência científica em laboratório (onde em geral se testa algo já com uma idéia do que pode resultar) e um pouco mais do experimento lúdico de uma criança diante de um material desconhecido, uma engenhoca nova, uma situação inesperada, um objeto que ela não sabe para que serve.  

O experimento lúdico não se faz “contra” um conceito ou um ponto de vista alheio, e não se faz “na direção de” um objetivo imaginado pelo experimentador.  A arte experimental não tem passado nem futuro, é apenas o momento presente, o aqui e agora de quem está se fascinando por uma novidade, ou quebrando a cabeça para desenganchar uma coisa que não dá certo, ou apenas se divertindo. 

A arte experimental nasce das histórias que um pai conta ao filho antes do sono, dos rabiscos que se faz num papel durante um telefonema, das melodias que saem quando a gente muda a afinação do violão e arpeja pra ver no que dá, dos improvisos cênicos de atores brincando de brincar. Arte experimental é forma pela forma, e esta é sua interface com as vanguardas, que muitas vezes, em busca de oxigênio criativo, recorrem a esse prazer da forma para tentar abrir uma janela onde só existiam paredes.





2876) A violência no México (22.5.2012)




O tráfico de drogas e a escalada do combate militar aos traficantes está produzindo uma tal situação no México que dias atrás, no “Jornal Nacional”, a apresentadora Patrícia Poeta afirmou tratar-se de “uma guerra violentississsíssima” (sic). (O que me lembra o famoso verso de Drummond, dirigindo-se ao Deus da Comunicação: “Eis-me prostrado a vossos peses, / que sendo tantos todo plural é pouco”).  Toda ênfase é pouca para qualificar a hecatombe mexicana, uma inebriação pela violência que parece corresponder a um software embutido no DNA daquele bravo povo, capaz de fazer do Dia dos Mortos um carnaval.

Dois livros recentes têm como ambientação essa guerra insensata dos “narcos” como são chamados lá os traficantes.  Uma é Onde os Fracos Não Têm Vez de Cormac MacCarthy (filmado pelos irmãos Coen), que começa com um ligeiro desentendimento entre bandidos durante uma transação de drogas no meio do deserto, que resulta na morte de todos os envolvidos.  Uma maleta com 2 milhões de dólares vai parar na mão de um veterano da Guerra do Golfo, e daí em diante ocorre um banho de sangue, promovido por criminosos que querem tomar-lhe o diabo da maleta. É uma dessas histórias sobre um objeto maldito do qual todo mundo quer se apossar, e que causa a morte e a desgraça de todo mundo.

Outro livro é 2666 de Roberto Bolaño, que não é bem sobre drogas, mas relata dezenas de mortes violentas e misteriosas ocorridas no distrito de Santa Teresa.  O México parece estar passando por uma situação de pré-caos social, mais ou menos como ocorreu com a Colômbia alguns anos atrás. (Não que a Colômbia seja agora um paraíso, mas ao que parece a crise baixou um pouco a fervura.)  Bolaño era chileno, morou muitos anos no México; este seu último romance exprime um pouco desse inferno social, em que todo mundo está à mercê de uma brutalidade inexplicável, de um momento para outro.  E que vigora também em algumas áreas do Brasil.

Numa resenha ao livro de Bolaño, “Slouching towards Santa Teresa”, Adam Kirsch cita o poema “A Segunda Vinda” de Yeats (“que bruta fera, agora que soou sua hora, rasteja rumo a Belém para por fim nascer?”) e comenta que Bolaño parece ver nessa violência insensata e gratuita que assola o México (e o mundo) o sinal de um realinhamento cósmico.  Ele lembra a frase casual de uma personagem do livro: “Ninguém dá atenção a esses crimes, mas o segredo do mundo está oculto neles”. Provavelmente está, e, como acontece com todos os segredos, não os enxergamos por serem grandes demais, evidentes demais.  Caminhamos sobre eles como se pisássemos um mapa gigante com palavras que não conseguimos enxergar por completo.

domingo, 20 de maio de 2012

2875) Maurice Sendak (20.5.2012)




Faleceu dias atrás este famoso escritor e ilustrador de livros infantis.  O canal Max Prime exibiu um documentário sobre ele, co-dirigido por Spike Jonze.  Nunca li nada de Sendak; dele só conhecia o nome e o traço, inconfundível, além da fama do seu principal livro (que agora estou me coçando pra ler) Onde os Monstros Estão (“Where the Wild Things Are”, 1962).  No documentário, realizado nos seus anos de velhice, Sendak é um homem triste, atormentado, cheio de angústias. Ele fala do seu enorme desajustamento com o mundo, da dificuldade em admitir que era gay (os pais morreram sem saber), das perseguições da censura porque seus livros infantis não eram muito politicamente corretos.  E narra duas histórias que me ficaram na mente.

Diz ele que na infância causou involuntariamente a morte de um amiguinho.  Os dois estavam jogando bola, Maurice arremessou a bola longe demais, o outro garoto saiu correndo para ir buscá-la, sem olhar para os lados. “No momento seguinte, eu o vi voando pelos ares”.  O menino morreu atropelado, e Maurice passou dias trancado no quarto, com medo da vingança da família do outro.  O medo não diminuiu nem mesmo quando os pais do garoto foram à casa dele consolá-lo e dizer-lhe que ele não tinha culpa.

Sendak, nascido em junho de 1928, acompanhou na infância o crime mais famoso da época, o rapto do bebê de Charles Lindbergh (o aviador que tinha atravessado sozinho o Atlântico, e virou herói nacional nos EUA). O bebê, de 18 meses, foi raptado por alguém que queria resgate, e no país inteiro não se falava noutra coisa.  Sendak viu um dia, numa banca de jornais, a foto do corpo do bebê, que acabava de ser encontrado morto num arvoredo.  Nos dias seguintes, todo mundo negava a existência dessa foto. Anos depois, já grande, Sendak conheceu um pesquisador do caso que lhe mostrou a foto, em que o cadáver do bebê aparecia de perfil, indicado por uma seta.  A foto saiu apenas na primeira tiragem do Daily News no dia do achado, mas a pedido da família foi omitida nas impressões seguintes. Isto foi em maio de 1932; Sendak tinha quase quatro anos. “A foto nunca saiu da minha mente”, diz ele, “porque eu achava que se o filho de um homem rico e famoso podia ser morto, o que dizer de mim?”.  Traumas de infância podem não determinar que alguém vai virar escritor, mas em geral colorem de maneira irremediável o que esse indivíduo vai ser.  Morte, violência e medo estão diluídos, sublimados e “negociados” nas histórias de Sendak, que nunca perdeu o senso de humor.  No documentário, ele pergunta ao camera-man: “E você, acha alegria nas coisas?” O câmera: “Sim”.  E ele: “Como se atreve?!”

sábado, 19 de maio de 2012

2874) Contracapa de SMS (19.5.2012)




(foto: tempestade solar, NASA)

&  invadir um país para matar uma mosca  &  o registro fóssil das últimas gotas de chuva em um milhão de anos  &  as mentiras da religião combatendo as mentiras da publicidade  &  uma deusa grega cuja mãe tomou Talidomida  &  para quem faz a pergunta errada, nem a resposta certa adianta  &  qualquer coisa pode ser traduzida em números, mas depois não pode ser retraduzida de volta  &  caminharei por entre as áspides e os basiliscos, e eles que estremeçam à minha passagem  &   o zagueirão visou a bola, mas não avisou o adversário  &  Deus não recebe encomendas nem aceita devoluções  &  certos filmes parecem uma demonstração pelo absurdo de como atingir as fronteiras do indizível  &  Síndrome de Down é uma condição genética que leva um recém-nascido a abrir os olhos para nós e dizer: “Don’t let me down”  &  toda fuga é subindo uma pirâmide  &  me interessa o que sobra no fim da festa dos abutres  &  tem gente que prefere dar o pescoço a cortar do que dar o braço a torcer  &  se todo chinês tem mil anos, todo brasileiro tem oito  &  no dia em que ser honesto for mais lucrativo do que roubar, cabou-se o problema  &  um confessionário na sala de embarque de cada aeroporto  &  o que me salva até agora é a capacidade de trazer sempre um playground no bolso  &  choveu tanto sobre a planta de plástico que ela fulorou  &  aí, qualquer dia desses, Deus resolve pegar a Terra e dar uma ajeitada no Photoshop  &  uma daquelas tardes nubladas e friinhas, cheias de poças dágua, gatas de botas e umbrelas  &  quem melhor corta isso é uma navalha, que não foi feita para cortar isso  &  ainda somos todos caçadores de cabeças, basta ver essa galera tirando fotos com o celular  &  viver é passar 100 anos rastejando por uma manilha estreita e ficar com medo que ela um dia acabe  &  uma pista de pouso e decolagem, sempre acesa, chamada Coração  &  I am three blind mice trying to get together through the maze of meaning  &  eu trouxe na mão direita um buquê de fogos de artifício e nem assim ela se abalou  &  todo gênesis traz em si uma nêmesis  &  viajei por quinze capitais e não arranjei um trabalho  &  não muda nada, é um polícia federal com cabelo moicano prendendo um político corrupto todo tatuado  &  chegaremos a um tempo em que ver ópera será sinal de transgressão e rebeldia  &  tecnicamente falando, uma guerra só termina quando os povos envolvidos deixam de existir  &  fiel como um cão, infiel como uma cadela  &  difícil mesmo é conseguir agradar os experts e ser entendido pelo populacho  &  a vingança é um prato que se joga bem na cara do feladaputa  &  um fantasma mendigando platéia num castelo repleto de agnósticos  &  





sexta-feira, 18 de maio de 2012

2873) Óculos-câmara (18.5.2012)



(foto: Sebastian Thrun)

Circulou na Internet uma foto tirada por Sebastian Thrun, um dos tuxaus do Google.  Na foto, ele está num gramado, num dia de sol, segurando as mãos do seu filho pequeno e girando em círculo, fazendo o guri rodar suspenso sem tocar o chão, bem depressa.  Quem já brincou com crianças sabe o quanto elas gostam disso. (Uma das piores coisas de ficar adulto é não dispor de gigantes com o dobro do nosso tamanho pra fazer essas brincadeiras com a gente.) O que diferencia esta foto de tantas outras é que não foi tirada à distância por uma terceira pessoa (a mãe, p. ex.), mas pelo próprio Sebastian enquanto brincava com o garoto.  Vemos as duas mãos dele segurando as mãos do menino, e o rosto deste, tendo o gramado ao fundo. Thrun estava usando a nova tecnologia que eles chamam de Google Glass, um par de óculos especiais que funcionam também como câmara. Se Sebastian estivesse usando uma câmara normal, ele só poderia captar o riso feliz do garoto segurando-o com apenas uma mão, porque precisaria da outra para apertar o botão da câmara. (Pra mim ainda não ficou claro de que modo o disparador da câmara é acionado, embora haja menções ao aplicativo Siri usado nos smartphones Android, em que o comando é dado pela voz.)

Óculos que fotografam são uma possibilidade interessante para um futuro próximo. A questão reside apenas em transferir para as lentes (com o hardware embutido na armação) uma porção dessas funções atualmente contidas num smartphone.  Neste artigo (http://on.io9.com/KtQo8Y) já se discutem aspectos polêmicos deste uso: espionagem, invasão de privacidade, terrorismo (fotos de lugares estratégicos tiradas às escondidas, etc.).  Situações assim geram dois problemas: o uso mal intencionado, e a repressão a pessoas bem intencionadas que estão simplesmente usando seus óculos sem intenção de prejudicar ninguém, assim como quem leva seu canivetezinho numa viagem aérea sem pretender sequestrar o avião.

 Para mim, o uso jornalístico e documentarista dessa engenhoca seria o mais importante.  Uma câmara nos óculos, acionada por uma sílaba-senha dita em voz alta, pode ser de grande utilidade em momentos de urgência.  (Como se sabe, nenhum disco voador espera que você retire a câmara guardada na mochila.)  Poderia haver até mesmo uma câmara de filmar, remetendo em tempo real para o meu blog, por wi-fi, a manifestação pública de que participo, a festa onde estou me divertindo, um jogo de futebol que estou vendo, uma pessoa a quem entrevisto. A quantidade de imagens gerada no mundo continuará a crescer exponencialmente.  Imagens invisíveis, porque não haverá gente bastante, tempo bastante para que alguém as veja.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

2872) “Dona Guidinha do Poço” (17.5.2012)



Este romance de Oliveira Paiva (1861-1892) cumpriu uma trajetória curiosa.  Escrito em 1892, foi publicado parcialmente na Revista Brasileira de José Veríssimo, mas a revista fechou, os originais se perderam, e somente em 1952 Lúcia Miguel Pereira conseguiu publicar o texto completo, com um prefácio elogioso.  

É um obra naquela encruzilhada entre o Romantismo, o Naturalismo e o Realismo do romance brasileiro. No seu texto se alternam discursos e idéias que os historiadores classificam como típicas destes três períodos, mas escritores, em geral, não estão muito interessados em pertencer a período nenhum.  Escrevem na medida do seu gosto, que é heterogêneo. 

Querem reproduzir efeitos que os emocionaram como leitores em diferentes momentos da vida, e com isso ficam fazendo esse ping-pong, que nada tem de ideológico ou programático. É a mera oscilação estética de um instinto verbal ainda crivado de influências contraditórias.

Um dos grandes momentos do livro de Paiva é o capítulo 3 do Livro II, onde acontece uma festa na fazenda do Major Damião, pretexto para um tipo de festa que por diversas vezes no livro é chamado de “um samba”, ou “um pagode”, ou seja, uma festa onde se recitam “décimas e brejeirices”, se canta e se dança “ao som de rabeca e viola”. 

Paiva, apesar de jovem, é um autor meticuloso em seu retrato do interior cearense. O romance é baseado nos autos (que ele pesquisou em Quixeramobim) de um crime real ocorrido em 1853: um fazendeiro foi assassinado a mando de sua esposa, que estava tendo um caso com um amigo da família.

O livro pode ser considerado, com as ressalvas habituais numa obra literária, um retrato aproximado dos costumes da época.  E retrata um momento histórico em que a Cantoria de Viola era ainda agregada aos batuques e “pagodes” dessas ocasiões. Dançava-se, cantava-se coletivamente, e os violeiros tiravam seus versos a desafio no meio dessa balbúrdia. 

Há os “tocadores” e “os cantadores”. Ao pinicar das violas, forma-se um círculo, os homens entram dançando, “castanholando os dedos”, e “atiram” (fazem o convite) numa mulher, que por sua vez entra na roda e dança. Os cantadores entram no desafio por entre o canto geral, fazendo um personagem reclamar: “Nesse fordunço a cantoria se perde quase toda!”. 

Os repentistas trocam sextilhas perfeitas, quadras e décimas; alguém volta a reclamar: “Mas é uma zoada de seiscentos, muita coisa se perde!”.  

Foi nesse tempo (teoria minha) que a Cantoria se desligou dos batuques, sambas e pagodes. Tornou-se espetáculo autônomo para quem não queria “perder os versos”. Dois poetas no pé de uma parede, as violas, o verso, e nada mais.








quarta-feira, 16 de maio de 2012

2871) Os Zumbis de “Caras” (16.5.2012)


Fugimos do incêndio do shopping num carro, rodeamos o Açude Velho. A metralhadora está com Serginho, eu tenho a pistola e Vavá dois revólveres.  Nosso problema é a pouca munição. Temos que cruzar o centro da cidade, mas a gasolina acaba, à vista de um grupo dos zumbis, e eles nos cercam, rosnando. Abatemos a tiros os mais próximos e corremos, abrindo caminho a socos e coronhadas. Subimos a rua Miguel Couto deixando-os para trás, mas na Praça Coronel Antonio Pessoa outro grupo emerge das ruínas, desta vez são mais de quarenta, os homens de black-tie, as mulheres com vestidos longo em seda ou lamê, com os dentes matraqueando sem parar, o rosto em decomposição. Serginho concentra a rajada de fogo no meio do grupo e derruba vários, mas eles andam rápido, mesmo com algumas das mulheres ainda usando salto alto. Abrimos caminho até a 4 de outubro. Ali nos entrincheiramos atrás de um caminhão tombado. Recarregamos.

Vavá garante que a loja de munição da Rua João Suassuna deve estar fechada e intacta. Vale a pena tentar; mas sem atravessar a Praça da Bandeira, que a esta altura sabemos estar tomada por uma multidão. Fugimos pela Solon de Lucena, rodeando, subimos correndo a Rui Barbosa sem ser incomodados, mas quando desembocamos perto do Teatro temos mais uma vez que abrir caminho a tiros. Do Parque do Povo eles sobem às centenas, vestindo “dinner jacket” ou blazers de griffe. Alguns ainda empunham taças, as mulheres com bolsas cravejadas de jóias, os homens murmuram receitas de “dry martini” ou cotações da bolsa, por entre os lábios arroxeados e os dentes cheios de fragmentos de cérebro. Tentamos uma surtida para chegar à Getúlio Vargas mas Serginho tropeça, e os zumbis avançam sobre ele como cães sobre a queda de um osso.  Seus gritos se perdem lá atrás, corremos atirando às cegas, fugimos para a Índios Cariris. Ali é a vez de Vavá, subjugado por três deles, em trajes de equitação, que lhe desfazem o rosto a dentadas. 

Fujo, retrocedo para o Teatro, há uma porta lateral aberta, e minha única opção é subir, subir, tropeçando em cadáveres e em zumbis semi-soterrados por um desmoronamento. Chego ao topo. Uma pequena escada é o único acesso. Vão subir de um em um. Estou a dois metros de distância para abatê-los.  Meu Deus, parece um pesadelo, não sabia que já eram tantos, nunca imaginei que já tivessem chegado aqui.  Restam-me 18 balas. Fuzilarei os primeiros 18 que subirem.  Olho para minha roupa, suja de sangue e fumaça. Quando minha t-shirt e meus jeans começarem a se transformar em smoking, quando a gravatinha borboleta brotar em meu pescoço, quando meus dentes se arreganharem... eu pulo no abismo e acabou.  

terça-feira, 15 de maio de 2012

2870) A mulher vital (15.5.2012)




A história da Narrativa (cinema, literatura, etc.) é cheia de arquétipos e estereótipos que a gente identifica sem problemas. (A distinção entre estes dois conceitos, aliás, daria um bom tema para outra coluna – ou para uma tese de mestrado.)  Eles vão desde os mais simples e universais (o Herói, o Vilão, a Mocinha Indefesa, o Monstro, o Cientista Louco, etc.) até outros mais específicos, como O Matador Aposentado Que Aceita Uma Derradeira Missão, O Frio Executivo Que Será Vítima da Própria Ambição e Indiferença, A Mocinha Honesta Que Derrotará As Amigas Interesseiras e Casará Com O Príncipe Encantado, O Jovem Mimado A Quem A Vida Se Encarregará De Dar Umas Boas Lições – e por aí vai. 

Um desses tipos é A Mulher Fatal, aquela hipnótica deusa do sexo aos pés de quem os homens mais fortes se arrojam sem pensar duas vezes, e que os destrói como quem risca fósforos pelo simples prazer de ficar olhando para uma chama.  Pense Marlene Dietrich, Rita Hayworth, Greta Garbo, Sharon Stone, Bette Davis…

É engraçado que nenhum livro sobre cinema se detenha num arquétipo oposto e igualmente poderoso, ao qual eu chamaria, por simetria, A Mulher Vital.  É aquela mulher que consegue arrancar do abismo um homem semi-destruído, insuflar-lhe auto-estima, injetar-lhe energias, reerguê-lo diante do mundo, tirá-lo da sarjeta e colocá-lo num lugar a que ele sempre tivera direito.  São mulheres redentoras cheias de um espírito de auto-sacrifício que não tem sinais de fraqueza, pelo contrário, são sintomas de uma força interna tão vulcânica, tão tectônica quanto o poder destrutivo das “devoradoras de homens”. 

Já escrevi (http://bit.ly/M3DkJI) sobre mulheres que amam um homem com uma afeição tão pura que aceitam como verdade qualquer delírio ou fantasia rebuscada que eles lhes contem; em torno de mulheres assim giram filmes como A Hora do Lobo de Bergman ou Janela Indiscreta de Hitchcock.  O cinema francês da época da “nouvelle-vague” nos mostrou a Jeanne capaz de lentamente conquistar a confiança e o amor do batedor de carteiras em Pickpocket de Robert Bresson (1959). Em Atirem no pianista de Truffaut (1960), a mulher que acompanha a queda gradual do protagonista (Charles Aznavour) é uma mulher vital que não consegue salvá-lo.  Muitas vezes, esse arquétipo feminino aparece na narrativa como uma força secundária, pois a história está centrada na auto-destruição do protagonista masculino.  Ela surge como uma hipótese de salvação que não se confirma, como se o autor dissesse: “Vejam só a tragédia desse sujeito: nem mesmo uma mulher dedicada como esta conseguiu tirá-lo do abismo”.

domingo, 13 de maio de 2012

2869) O professor e a bruxa (13.5.2012)



Um capítulo crucial sobre a história da mente humana está cristalizado para sempre no trágico episódio que teve início no IX Colóquio de Ultra-Ciência em Estocolmo, quando o Prof. Georges Landsfeld fez uma palestra com um corrosivo ataque às ciências ocultas, em especial à bruxaria, que ele descartou sarcasticamente como “uma subcultura de fantasias eróticas para mulheres feias”.  Aberta a palavra ao público, ergueu-se uma dama da platéia que verberou energicamente o palestrante, qualificando-o de “machista”, “carente de bibliografia” e “impostor” (questionando a legitimidade do doutorado obtido por Landsfeld em Oxford). Pessoas presentes a reconheceram como uma tal Mme. Gauthier, de Paris, cultivadora das ciências ocultas e da magia ritual.  Seguiu-se um acalorado debate entre os dois, que logo degenerou em ofensas pessoais por parte do professor, sendo a conferência encerrada sob certo tumulto. Mme. Gauthier retirou-se (segundo testemunhas) dizendo que “aquilo não iria ficar assim”.

Meses depois, começaram a circular nos fóruns da web notícias de que Landsfeld estava sofrendo de uma rara doença neurológica, de evolução muito rápida. Tratamentos de urgência conseguiram retardar o avanço do mal.  Após semanas de insuportável tensão, a família e os colegas de Landsfeld o aconselharam timidamente a desculpar-se junto a Mme. Gauthier. Ele recusou-se, afirmando: “Esta doença nada tem a ver com as ameaças dela”. Procurada em segredo por colegas do professor, Mme. Gauthier minimizou o episódio, dizendo com sarcasmo: “Se ele diz que a culpa não é minha, quem sou eu para discutir com um PhD”. 

O estado de saúde de Landsfeld agravou-se. Seus editores assinaram um vultoso contrato de publicação para quatro manuscritos inéditos de Mme. Gauthier, na tentativa de apaziguá-la. Ela continuou a negar qualquer envolvimento com o caso. Num jantar discretamente arranjado em Londres, com a esposa e o filho do professor, ela afirmou: “Feitiços desse porte só funcionam se a vítima pretendida acreditar em sua eficácia.  Não é o caso do Prof. Landsfeld, visivelmente.  Tudo indica que ele está sofrendo de um mal a que qualquer um de nós está sujeito. Mas, se for feitiço e ele admitir que acredita, a pessoa que lhe causou este mal talvez possa, com a ajuda dele, reverter os efeitos”. Limpando os lábios com um guardanapo imaculadamente branco, ela sorriu: “Mas eu conheço os intelectuais como seu marido, Mrs. Landsfeld. Eles preferem morrer a confessar que estavam errados”. Landsfeld morreu quinze dias depois, dizendo: “Que ignorância, que absurdo, bruxaria não existe! Tenho dois tios e uma prima que morreram dessa mesma doença!...”