sexta-feira, 9 de setembro de 2022

4861) Baladas, terror e fantasia (9.9.2022)




No dia 4 de setembro passado foram entregues os Prêmios Hugo de Ficção Científica e Fantasia, numa cerimônia-e-festa realizada em Chicago.
 
Aqui, um link a respeito:
https://locusmag.com/2022/09/2022-hugo-astounding-and-lodestar-awards-winners/
 
De vez em quando, após uma premiação desse tipo, eu vasculho a web em busca de algum dos textos premiados, principalmente as noveletas e os contos curtos. Conto premiado é conto que já foi publicado, já rendeu uma graninha. Após uma premiação assim, muitos autores liberam a versão online do texto, para aumentar sua popularidade. Isso aumenta também a possibilidade de que ele seja incluído em alguma antologia (ou revista em outro país), trazendo mais alguns caraminguás para a conta do autor ou da autora.
 
Fui conferir o prêmio de “Best Short Story”, concedido ao conto “Where Oaken Hearts Do Gather” (Uncanny Magazine, online, #39), de uma autora que eu desconhecia, Sarah Pinsker.
 
Aqui o texto completo (em inglês):
https://www.uncannymagazine.com/article/where-oaken-hearts-do-gather/
 
O conto é excelente, por várias razões. Duas são principais. Primeiro: trata-se do exame minucioso e interpretativo de uma antiga balada inglesa. Segundo: isto acontece numa espécie de forum online, onde diferentes pessoas dão suas opiniões e aos poucos vão sugerindo e revelando um mistério meio tenebroso por trás daquilo tudo.
 
Os participantes do forum se identificam, claro, por “nicks” como Dynamum, BonnieLass67, BarrowBoy, HolyGreil, etc. Ou seja – não sabemos o gênero, a idade ou a origem social de nenhum deles. Parte da habilidade da autora está em fazer surgir a personalidade de cada um através de suas intervenções, questionamentos, críticas. E das ocasionais provocações mútuas entre um e outro.
 
Há um diálogo real nesses comentários que se sucedem, se superpõem. Isto tem sido um lado muito explorado na literatura atual: reproduzir na página impressa a dinâmica visual e temporal da página eletrônica.
 
Dois contos desse tipo de que gostei especialmente, nos últimos tempos, foram o conto de Jennifer Egan "Great Rock and Roll Pauses by Alison Blake" (no livro A Visit From The Goon Squad, 2010), em forma de apresentação de PowerPoint, e o de A. M. Homes “The National Cage Bird Show” (no livro Days of Awe, 2018), um forum de pessoas bem diferentes entre si que começam a trocar confidências.
 
Ou seja – se eu já vi esses todos, já deve haver milhares circulando por aí.
 
No conto de Sarah Pinsker, essa “balada inglesa tradicional” é estudada num forum  onde algumas pessoas, ao longo de meses, vão postando suas perguntas e respostas, comparando diferentes versões da letra, etc. 


A letra conta a história de um casal de jovens, Ellen e William. Eles marcam um encontro à noite, embaixo da ponte, no meio do bosque. E ali – a linguagem dessas baladas é meio elíptica, cheia de lacunas e de subentendidos – ela arranca o coração de William, oculta-o no oco de um carvalho, e põe dentro do peito dele uma “bolota” (semente) de carvalho. Depois, William se ergue e volta para o povoado, aparentemente semi-vivo. E ali as pessoas do vilarejo o enforcam, vão até o bosque e cortam todos os carvalhos. Daí surge uma tradição local de cortar árvores.
 
O Professor Mark Rydell, um estudioso das baladas tradicionais, viajou para a Inglaterra para pesquisar as possíveis origens históricas, factuais, dessa lenda poética. E ali desapareceu, ninguém mais teve informação dele. Um dos participantes do forum, HenryMartyn, decide fazer um documentário a respeito. Viaja, também. Desaparece, também.


Isto dá ao conto um clima parecido com o de A Bruxa de Blair (1999) – a história de jovens estudantes entusiasmados com uma lenda folclórica arrepiante, que decidem investigar por conta própria.
 
Acho interessante o fato de que este conto (muito bem trançado e resolvido, mesmo não tendo grandes surpresas) tenha ganho os prêmios Nebula e Hugo, que são prêmios destinados à ficção científica e à fantasia. (Não digo isto por mim, que estou-me nas tintas para essas classificações de gênero; estou pensando nos puristas a subir pelas paredes.) Não há nada de FC e só um pouco de Fantasia no conto. Ele poderia perfeitamente concorrer ao Prêmio Edgar (de histórias policiais e de crime) e ao Stoker (de histórias de terror).
 
Basicamente, trata-se de uma história do que chamam de folk horror – narrativas fantásticas aterrorizantes baseadas em tradições orais, geralmente da área rural e de lugares remotos. Além da Bruxa de Blair, o conto me evocou o filme The Wicker Man (1973), com Christopher Lee, em que um policial viaja para uma ilha remota para investigar crimes relacionados a um ritual antigo de fertilidade agrária.


Para mim, que sou leitor e admirador das antigas baladas de língua inglesa, o ponto mais interessante é a permanência desses rituais antigos (que muitas vezes envolvem sacrifícios humanos) em culturas milenares, e os seus ecos em baladas anônimas.
 
Sarah Pinsker cita um texto de Wendy Lesser, na ótima antologia The Rose and the Briar (New York: Norton, 2005), de Sean Wilentz e Greil Marcus:
 
Quando uma balada tradicional mostra lacunas em sua narrativa, é porque se presume que o público já conhece a história, e pode se encarregar de preencher os claros por conta própria. (trad. BT)


É exatamente o que se dá, entre nós, com o chamado Romanceiro Ibérico. Em muitos aspectos (métrica, rimas, formato de estrofe) os romances portugueses e espanhóis trazidos para o Brasil (e preservados oralmente) são diferentíssimos das baladas inglesas. Mas em ambos vemos fatos históricos ou semi-históricos sendo condensados em 30 ou 40 linhas, com descrições resumidíssimas, diálogos sem indicação de quem os profere, repetição encantatória de sonoridades, alusão a lugares ou pessoas pouco identificáveis, lirismo exagerado, violência brutal. Além do fato de que cada versão documentada é diferente de todas as outras numa miríade de detalhes.


Duas antologias clássicas desse romanceiro são o Romanceiro Geral Português (1906; várias reedições) de Teófilo Braga, e Presença do Romanceiro (Civilização Brasileira, 1967) de Antonio Lopes. Sempre é bom lembrar que aqui no Brasil esse “romanceiro” não é a mesma coisa que a chamada “literatura de cordel” – são universos poéticos vizinhos, mas diferentes.
 
Sarah Pinsker faz uma série de alusões divertidas à permanência das baladas na cultura popular de língua inglesa. “Where Oaken Hearts Do Gather”, segundo ela, foi gravada por um grande número de artistas, desde os clássicos Kingston Trio e Joan Baez até a banda contemporânea The Decemberists (acho que é a primeira pessoa que eu vejo citar essa banda, que acho excelente).
 
Tudo ficção. A única versão gravada, claro, é a da própria autora (disfarçada sob o pseudônimo de “Moby K. Dick”):


(Sarah Pinsker)

A balada é bonita, o enredo é interessante, mas para mim a principal virtude do conto é o modo como ele superpõe a cultura oral de 500 anos atrás e a cultura digital da web contemporânea, e mostra como são parecidas. Perda de autoria individual, numa cachoeira incessante de produção anônima. Condensação factual a um ponto de distorção. Diálogos sem interlocutores claros. Repetição, paródia, pastiche, apropriação constante de formas alheias. Criação de um jargão próprio, quase indecifrável para quem é de fora. Citação abundante de lugares e pessoas reais e fictícios. Sentimentalismo exacerbado, misturado a uma chocante violência verbal.
 
Nada se parece tanto com a cultura oral de 500 anos atrás como a cultura digital de hoje em dia.
 
Há muitas coletâneas dessas baladas inglesas. Algumas delas já são baladas norte-americanas, porque os EUA fizeram com a cultura britânica o mesmo que fizemos nós com a lusitana. Alimentaram-se, e produziram uma síntese nova.
 
Dois dos melhores álbuns de Bob Dylan são inteiramente compostos de versões acústicas dessas baladas tradicionais: Good As I Been To You (1992) e World Gone Wrong (1993).


 
 









terça-feira, 6 de setembro de 2022

4860) Zazie no Metrô (6.9.2022)




Zazie Dans le Métro (1959) foi o livro de maior sucesso do romancista Raymond Queneau. Um sucesso meio improvável deste autor que foi tudo em sua vida literária, menos “previsível”, “regulamentar”, “mainstream” e “formulaico”.
 
Este último adjetivo até que se encaixa. Ninguém manipulou e pedicurou as fórmulas literárias tão habilmente quanto Queneau. Não para servir-se delas visando um bestsellerismo qualquer, mas para exibi-las, comentá-las, denunciá-las molequemente. Afinal, foi ele quem escreveu o hilário e santilário Exercícios de Estilo, contando os mesmos dois parágrafos de historiazinha  de acordo com 99 fórmulas diferentes.


 
Zazie parece ter batido no paladar do público francês por uma confluência de motivos. É a história de uma garota de 11 anos que mora no interior e vai passar o fim de semana em Paris, no apartamento do tio, enquanto a mãe vai folguedear com um namorado parisiense. Zazie é descolada, desbocada, despachada e desobediente. Fala palavrão pra caralho. Foge do apartamento para conhecer o metrô (mas este está em greve!), mete-se em grandes cafusões, mete os adultos em cafusões ainda maiores. É uma personagem meio inesperada e (para seguir a fórmula das resenhas da época) “conquistou com seus modos impudentes mas encantadores o coração de toda a velha França!... “



O segundo motivo é que Louis Malle lançou já no ano seguinte o filme homônimo, uma comédia pastelânica, amalucada, irmãosmarxista, que toma muitas liberdades com a história original, o que é ótimo. Fazer um filme de um romance é também traduzi-lo. Há mais coisas em comum do que se imagina. 
 
O terceiro motivo é que Queneau aproveitou essa moldura bem sessão-da-tarde para fazer do livro um campo de experimentação do que ele chamava de “néo-français”: uma adaptação fonética e descontraída da língua francesa, cheia de neologismos e coloquialismos, além de dar saltos imprevisíveis por diferentes registros de estilo de uma frase para outra.
 
O francês é considerado uma das línguas mais formais e mais rígidas do mundo, das menos afeitas à mudança. É como um bordado renascença. Se daquele jeito está bonito, é para continuar sendo feito assim por mais 200 anos, sem mexer em nada. Queneau regaçava as mangas e dizia: “Nada coisa nenhuma, vamos mexer sim senhor.”


Num dos seus melhores livros de ensaios, Bâtons, Chiffres et Lettres (Gallimard, na edição da 1965) ele inclui um longo texto sobre sua teoria do neo-francês, “Écrit en 1955”. Ele cita Voltaire (“A escrita é a pintura da voz; quanto mais parecida, melhor”) e Proust (“Nossa língua é apenas o resultado da pronúncia errada de línguas mais antigas”). Cita a experiência feita por um produtor de TV, que entrevistava escritores famosos e a certa altura dizia que a gravação tinha terminado – o intelectual começava então a falar numa língua natural, descontraída, conversacionista, um tomaladacá num tetatete entre gente de verdade.
 
Ele cita a observação do franco-cubano Alejo Carpentier (trad. BT):
 
Estou cada vez mais convencido de que o diálogo, tal como é escrito nos romances e nas peças de teatro, não corresponde nem um pouco à mecânica da verdadeira linguagem falada (não falo nem das palavras, mas do movimento, do ritmo, do modo real de discutir, de berrar, do modo como uma idéia se emenda ou não se emenda a outra). Aos poucos, depois dos primeiros romances do gênero “realista”, acabamos nos habituando a uma espécie de realismo mecânico, uma espécie de fixação convencional da fala, que não tem absolutamente nada a ver com a fala verdadeira. Existe em nossa linguagem falada algo muito mais vivo: mais desalinhado, mais arrebatado, com mais mudanças de movimento, uma sintaxe lógica que nunca foi verdadeiramente captada.


 


 
Eu tinha duas traduções de Zazie: a de Irène Monique Harlek Cubric (Rio: Rocco, 1985) e a portuguesa de Alexandre Rodrigues (Círculo de Leitores, via Portugália, 1974). E li agora a de Paulo Werneck para a Cosac Naify (2009).
 
Zazie é uma dessas obras ao mesmo tempo impossíveis de traduzir e divertidas de tentar. Toda literatura baseada em trocadilhos, aliterações e assonâncias verte mal para outras línguas. Quem tentar manter o sentido perde os fonemas, e no caso desses efeitos os fonemas importam até mais que o sentido. É respirar fundo, tomar um gole e seguir em frente. Por outro lado, a proliferação de neologismos e invencionices verbais convida à dança. E o tradutor fica todo animado.
 
Impossível traduzir (ou ler) Zazie sem reconhecer o tempo todo que é um livro lúdico, um livro brincalhão, um livro livre e leve como um livro às vezes deve. 



A primeira (e famosa) palavra do original refere-se, enigmaticamente, ao mau cheiro de que um personagem reclama em voz alta, no meio da multidão suarenta de uma estação de trem. A frase francesa “normal” seria D'où (est-ce) qu'il pue donc tant?  Queneau recorre a toda hora a essas fonetizações, escrevendo o francês como os franceses o pronunciam, e que geralmente não tem muito a ver com a maneira como o escrevem. (Deve ser o idioma com mais letras mudas que há no mundo.) 
 
As traduções citadas acima, respectivamente como IMHC, AR e PW:
 
Doukipudonktan? (RQ)
Pômakifedô. (IMHC)
Donde parte este cheirete?  (AR)
Dondekevemtantofedô? (PW)
 
Como se vê, não há “a tradução certa”, e cada tradutor toma suas liberdades. Neste exemplo, o tradutor português desmanchou a palavra numa frase, num caso claro de tentar facilitar para o leitor. (E todo mundo faz isso, em algum momento.)
 
Algumas coisas são relativamente fáceis de traduzir, pois Queneau fonetiza em francês e é só fonetizar em português. Algumas soluções são tão óbvias que parecem consensuais: eu vi aqui a palavra “zatamente” (=exatamente), que eu uso de vez em quando, assim como “’pressionante” (=impressionante). É um jeito espontâneo da voz alta, mesmo que nem todo mundo fale assim.
 
PW traz a cada instante termos como tendi (=entendi), bojolé (=Beaujolais), rapibársdei tuiú (=apibeursdè touillou, no original), djins (=bloudjinnzes, no original)...
 
Como sempre, cada tradutor mexe onde lhe cabe. Na tradução de IMHC, o personagem Trouscaillon vira Bagalhães. A garçonete Mado Ptits-Pieds é mantida assim por PW, vira “Mada dos Pés Pequenos” em AR e “Madô-Pé-Miúdo” em IMHC. Eu, por exemplo, poderia traduzir por “Madô Pezinho”.
 
Essas notas apressadas falam apenas do vocabulário em si, mas o grande desafio de traduzir Queneau é que ele, neste livro mais que em outros, usa um variado repertório de “tons de voz”. Ele parodia a fala dos publicitários, a dos advogados, a dos locutores de TV, a dos conselheiros sentimentais, a de personagens literários... E insere esses pedaços de frases-feitas, frases-fritas, de linguagem fossilizada, facilizada, dentro do discurso normal, sem dar mais explicações, assim como o locutor que vos fala está fazendo agora, de maneira tão fluida que os linguistas futuros coçarão as carecas tatuadas para entender “que diabos querr dizerrr isto”.



Algum leitor pode meter os pés e dizer: “Deus me livre de ler um livro tão intelectual, onde é preciso ser PhD em literatura e linguística para entender!”. Pois apriore não entendeu nada, não capitou. Queneau é paródico, tal como Millôr Fernandes é paródico, como Luis Fernando Verissimo é paródico, como Paulo Leminski (o Leminski trocadilhesco e caricaturista de Catatau) é paródico. É um livro feito com a pena da gréia e a tinta da zuêra.
 
E afora isto tudo, ele conta a história de uma geração pós-guerra, forçada a crescer num mundo novo e sendo criada por gente velha. Zazie é apenas dois anos mais velha do que eu. Pertencia à geração do Antoine Doinel que Truffaut mostrou em Os Incompreendidos (“Les 400 Coups”, 1959), garotos que furtam uma máquina de escrever para comprar cigarros e gibis, e vão parar no reformatório.
 
Zazie conta, meio casualmente, que a mãe dela matou o pai dela a machadadas porque o pai abusava da filha. Daí que Zazie fica hospedada na casa do “tio Gabriel” e descobre que ele ganha a vida dançando de drag-queen numa boite gay, mas ele é casado com a misteriosa Marceline (ou será Marcel?) e se recusa a ser chamado, como ela o chama, de “hormossessual” (que ela não sabe direito o que é).
 
O clímax do livro é uma briga num bar-da-madruga (Les Nyctalopes), onde Zazie e sua turma dimaior enfrentam os mais rudes dos inimigos: garçons franceses!... Há um quebra-quebra-guabiraba generalizado, tropa de choque, mortes por metralhadora, fuga da polícia e tudo o mais. É um mundo novo – e Zazie com 11 anos parece estar mais à vontade nele do que todos os adúlteros que tentam protegê-la, enquanto reclamam que a pirralha fala muito palavrão. Palavrão o caralho.






sábado, 3 de setembro de 2022

4859) Sete doidos (3.9.2022)



1
Camutanga, 44 anos, doido em Ibimirim (Pernambuco). Gostava de dar voltas na praça contando os próprios passos e arengando com quem se atravessasse na frente, atrapalhando sua aritmética. Era muito querido pelos vendedores de cavaco-chinês, porque quando via um deles pedia a qualquer passante: “Brasileiro, me paga um cavaco!”. Muita gente pagava. Morreu de gripe por causa de uma chuva que pegou na calçada (chove pouco em Ibimirim, ele não sabia o que era aquilo). Tremia de febre quando o dono do açougue e um policial o botaram num carro para levá-lo ao Pronto Socorro. “Você vai ficar bom,” disse o açougueiro para tranquilizá-lo. Ele sorriu sem medo e disse: “Já tou ouvindo os anjos batendo as asas.”
 
2
Vera Pollák, 44 anos, de Budapeste, viúva, herdou casa humilde que foi dos pais, mora com a filha Nádia de 10 anos, recebe uma pensão pequena que lhe basta para sobreviver.  Vive num mundo mental de conexões aleatórias. Alimenta-se e organiza-se como um hamster amestrado. Coleciona vislumbres. Ensinou a filha a ler sozinha, usando o catálogo telefônico de 1953. Todas as noites,  após o jantar, as duas mudam as posições dos móveis da sala para esperar o dia seguinte. A mesinha de compensado vai para o lugar da poltrona esfiapada, que vai para o lugar do relógio-vovô, que vai para o lugar da mesa-de-centro de fórmica, que vai para o lugar do porta-garrafas... Ritual de arrastos, espanador em punho, que as duas executam às risadas, e que a mãe explica: “Se deixar tudo igual, o outro dia não vem”.
 
3
Marrafa Graúda, doida na cidade do Porto (Portugal). Circulava pelas ruas envolta em velhos vestidos rendados, roídos de traças, coberta de colares e de pulseiras, bijuterias, uma faixa de miss achada no lixão, aros de latas de cerveja enfiados nos dedos. Andava devagar, solenemente, seguida por um séquito invisível de mucamas, e cumprimentava todos formalmente, inclinando a cabeça. Seu adereço preferido era o enorme leque vermelho e dourado com que se abanava, escondia o rosto, e que fechava com um golpe seco, impaciente, quando o trânsito demorava a dar-lhe passagem. Morava nos fundos de um mafuá. Comia qualquer coisa que lhe dessem. Ninguém na cidade sabia sua origem.
 
4
Bala Bala, 20 anos, doido manso do bairro de Jacarepaguá (Rio de Janeiro). Sua mania eram os jogos de pelada, que ele gostava de irradiar nos campinhos de terra, como se fosse locutor de rádio. Falava com uma velocidade hilária, um vocabulário próprio e o jargão do rádio e da TV. Quando não conhecia os jogadores, inventava nomes alusivos, “Calçãozão”, “Boné”, “Dentinho”. Seu nome vinha de um dos seus bordões preferidos: “Arremesso cobrado pelo flanco direito, bala bala, avança Zuzé com a pelota dominada, corta o primeiro, bala bala, foge pela intermediária, disputa com Danoninho, bola espirra para Quengo que parte no contra ataque, bala bala, sofre o cerco de Josias...” Perguntado sobre o que significava aquela expressão, coçou a cabeça e disse: “É pra fazer o jogador correr mais depressa. Pra dar um gás.”
 
5
Zito Coroinha, 18 anos, de Milagres (Bahia). Desde pequeno manifestou intensa vocação religiosa, fazia promessas de orações uma atrás da outra, prometia 50 Ave-Marias para o ônibus chegar logo, 200 Credos para tirar nota boa na prova, 300 Pai-Nossos para não apanhar quando chegasse em casa. Aos 14 anos arranjou uma batina marrom de cordão puído, e desde então peregrina pela cidade absolvendo pessoas. Um frentista do posto: “Eu te absolvo pelos teus pensamentos pecaminosos.” A verdureira: “Eu te absolvo por teres passado tanto troco errado.” Um cambiteiro de cana: “Eu te absolvo pela primavera, verão, outono e inverno.” Uma menina de olhos arregalados: “Eu te absolvo pelo mal que trarás ao mundo.” Um casal que passa de Bíblia em punho: “Eu vos absolvo por aquilo da noite passada.”
 
6
Abner Abrahams, 61 anos, aposentado, de Palatine (Ohio). Recolhe jornais, sub-repticiamente, enquanto passeia por estações de trem, pelos cafés, pelas drugstores, com seus bigodes oitocentistas, seu chapéu fedora, sua bengala de castão de osso, sua pasta de couro volumosa que sai vazia e volta cheia, porque Abner recolhe jornais já lidos ou esquecidos, qualquer jornal, ele os dobra e guarda sob o olhar discreto de quem já lhe sabe as manias, e quando alguém o interroga ele explica: “É para eu ler quando ficar velho”, com a mente visualizando o monte de jornais que o espera em casa, com metro e meio de altura, onde no fim da tarde ele deposita com ar de triunfo sua recolha diária, e do qual a resignada família subtrai quantidade equivalente enquanto ele ressona; mas quando acorda e toma seu café matinal, antes de trocar de roupa, ele pousa a mão paternal sobre aquele monte de papel, cofia os bigodes e sente-se invadido por uma sensação oceânica de paz futura.
 
7
Madá Tantã, 58 anos, de Divinópolis (MG). Vive de bordar e vender lenços com enfeites de fuxicos, nas escadarias da igreja. De vez em quando dá-lhe uma veneta e ao ver surgir um homem sozinho ela se dirige a ele e diz: “Meu noivo! Meu noivo estava atrasado!  Vamos casar que o padre está esperando!” Todo mundo na cidade já a conhece, de modo que muitos indivíduos se prestam à fantasia inocente de entrar na igreja de braço-dado com ela, ir até o altar, fazer uma reverência, fazer uma mímica perfunctória de que estão trocando alianças, trocarem um beijo casto a meia distância, até que no fim deste ritual ela o empurra sorridente e diz: “Gostei de você não, como marido! Pode ir!...”  E volta para o degrau da igreja, para começar tudo de novo.
 
 
 
 
 






terça-feira, 30 de agosto de 2022

4858) "Nope", o horror nas alturas (30.8.2022)




Está em cartaz por aí o filme Não, Não Olhe (“Nope”, 2022) de Jordan Peele, uma mistura de horror e ficção científica, do mesmo diretor do ótimo Corra! (“Get Out”, 2017).
 
Corra! é aquela história do rapaz negro que começa a namorar uma garota branca. Ela é rica, linda, e parece muito apaixonada por ele. Convida-o então para aquele momento mais temível na carreira de um namorado: um fim de semana na casa dos pais dela, “para que vocês se conheçam melhor...”  O rapaz preferiria, talvez, ser esfolado vivo por lagostas gigantes, mas a garota é tão legal e tão bonitinha que ele vai.
 
Não vou me deter nesse filme aí, basta dizer que as lagostas teriam sido preferíveis.
 
O ótimo ator Daniel Kaluuya volta neste filme. Ele é “O. J.”, e faz parte de uma família de adestradores de cavalos. O pai morreu em circunstâncias charles-forteanas: uma moeda caiu do céu e perfurou-lhe o crânio. Esse fato inicial dá o tom do filme. Coisas improváveis acontecem. E não são improváveis na vida real, que derrapa no bizarro o tempo todo. São improváveis no cinema de Hollywood, a mais invulnerável das bolhas narrativas.

 
No rancho que “O.J.” mora, com sua irmã Emerald (Keke Palmer), os cavalos começam a desaparecer. O mesmo parece estar acontecendo no rancho vizinho, onde são encenados espetáculos ao vivo de cowboys. O. J. e Emerald chegam à conclusão de que se trata de um OVNI que abduz os cavalos, e pedem auxílio a alguns malucos. Para destruir o OVNI e salvar a Humanidade? Não, apenas isto: filmá-lo e vender as imagens por uma grana interplanetária.
 
O filme tem um orçamento até respeitável (custou 68 milhões e rendeu o dobro, até agora), mas é um filme “B” em muitos sentidos, mas principalmente no fato de ligar um foda-se para as convenções de sucesso.
 
Procurarei não dar muitos spoilers, afinal o filme mal estreou. Prefiro falar sobre alguns temas que correm ao longo dele.
 
O filme tem um conceito interessante sobre os alienígenas. Começa com um mero disco voador, bem convencional, sendo avistado nos céus, mas evolui depois para uma forma orgânica e bem realizada, que em certos momentos lembra os seres submarinos de O Segredo do Abismo (1989) de James Cameron.
 
E tem um precedente ilustre: o conto de Conan Doyle, “O Horror nas Alturas” (“The Horror of the Heights”, 1922, em Tales of Terror and Mystery), onde ele postula a existência de monstros aéreos, gelatinosos e meio transparentes, que esvoaçam quase invisíveis nas camadas mais elevadas da atmosfera. O conto é das primeiras décadas da aviação, e Doyle, bom escritor de ficção científica, rapidamente se volta para esses novos campos inexplorados.


Diz ele a certa altura:
 
Um explorador pode descer em nosso planeta mil vezes seguidas e nunca avistar com um tigre. E contudo os tigres existem, e se ele se deparar com um deles na selva, pode ser devorado. Existem selvas na atmosfera superior, e elas são habitadas por criaturas piores que os tigres.


(Daniel Kaluuya, em "Corra!")
 
O racismo era o tema principal do filme Corra!, onde um rapaz negro, ao ser atraído para dentro de uma família de brancos, descobre que eles querem destruí-lo e metaforicamente “devorá-lo”. Ele reage com violência e consegue se safar, mediante uma verdadeira carnificina. Em Nope, o mesmo ator (Daniel Kaluuya) é ameaçado pela criatura alienígena, que tenta devorá-lo fisicamente; ele e seus amigos reagem com violência contra a criatura.
 
No primeiro filme, o tema racial está claramente colocado, o tempo inteiro. Em Nope, não: é como se os personagens fossem “pessoas”, apenas, pois o alienígena está à apenas procura de criaturas vivas – ele mostra aliás uma certa preferência pela carne dos cavalos. O monstro não distingue raças; aos olhos dele, somos todos iguais. Os negros (O. J. e Emerald) estão ali representando a raça humana.
 
Falei acima que é um “filme B”, e é preciso qualificar isto um pouco. No tempo em que os cinemas dos EUA tinham programação dupla, o filme “A” era aquele em cujo sucesso se apostava mais; o “B” era o contrapeso, o complemento da programação.
 
Nem sempre o filme “A” era o mais caro e o “B” mais barato. Era um pouco como o Lado A e o Lado B dos discos “compactos”, que traziam uma canção de cada lado. Nos discos, apostava-se no sucesso do Lado A e no Lado B colocava-se uma canção menor, guardando as melhores para o Lado A de novo disco a ser lançado no mês que vem.
 
Daí surgiu essa idéia – que me atrai – de que filme B, por esse conceito, é o filme que não se propõe a ser um enorme sucesso, que quer apenas se pagar e encaminhar o próximo. O filme A é aquele onde se espera ganhar bastante dinheiro, então se gasta mais grana; e já que se gasta mais grana a necessidade de retorno vai aumentando, em efeito cascata.
 
Expectativa de sucesso é uma desgraça, no cinema de Hollywood. Significa que todos os executivos num raio de quilômetros vão querer assistir as primeiras versões do filme pré-editado e dar palpite: “Muda a trilha sonora... Corta vinte minutos... Tira essa atriz e refilma as cenas dela... Bota uns números musicais pra alegrar...”  É o verdadeiro horror nas alturas.
 
Não, Não Olhe tem algo de Bacurau (Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, 2019), em sua ambientação meio desértica, remota, longe dos centros urbanos, com pessoas de poucos recursos tentando enfrentar uma ameaça externa que (um detalhe simbólico nos dois filmes) corta sua eletricidade e sua conexão, ou seja, começa por eliminar “virtualmente” as pessoas. Depois disso, elas se tornam apenas “carne viva” em fuga, tentando se esconder. Ou reagir.
 
Tem algo também de Repo Man (Alex Cox, 1984), com a presença de um alienígena misterioso fazendo estragos e da reação meio desorientada de um grupo de pessoas comuns. Os protagonistas não são os cientistas atômicos e os generais do Exército de tantos “filmes de monstros da FC”. São gente comum, jovem, que ouve rock, que tem algum conhecimento prático de tecnologia e algumas noções meio fantasiosas sobre vida extraterrestre, uma mistura de cultura de almanaque com teoria da conspiração.
 
O filme é sobre isso, não é uma simples exibição de efeitos especiais (que aliás são bastante razoáveis). A todo instante aparecem algumas situações bizarras que são típicas do cinema autoral, e que no caso de um “Filme A” teriam que ser submetidas as uma verdadeira bateria de interrogatórios de executivos de estúdio, que são, por definição, a espécie alienígena mais antropófaga e robotizada.
 
“O estranho, o bizarro, o inesperado” – esse era o mantra do seriado Acredite... Se Quiser, sucesso de muitos anos na TV, inclusive no Brasil. O Believe It Or Not de Robert L. Ripley surgiu nos jornais impressos em 1919, o mesmo ano do clássico The Book of the Damned de Charles Fort, que explorava este mesmo território.

São idéias fantasiosas, lúdicas, que não pretendem convencer ninguém, e nesse aspecto essencial diferem das atuais teorias terraplanistas, sempre evangelizadoras em benefício próprio. A fascinação pelo que é bizarro e inexplicável nada tem de ciência: é narrativa em estado puro, narrativa imaginativa popularesca. O caldo nutriente de onde surgiu a ficção científica de cem anos atrás.



sábado, 27 de agosto de 2022

4857) O Rio das antigas (27.8.2022)



(Rio 1890, por Marc Ferrez)
 
Terminei recentemente a vagarosa leitura de Memórias da Cidade do Rio de Janeiro (Ed. José Olympio, 1955), de Vivaldo Coaracy. Foi grande a vontade de voltar de imediato à página 1 e começar tudo-tudo de novo, porque são milhares de fatos, explicações, relatos, transcrições e comentários sobre ruas, becos, avenidas, igrejas, praças e logradouros desta cidade. Tudo no estilo engravatado mas saboroso do historiador.
 
Eu nunca teria sido historiador, porque me faltam a paciência rastreadora e o rigor comparativo; mas sou um bom leitor de romances históricos, porque mantenho até hoje a curiosidade, e uma certa capacidade de mimetismo-mental, oriunda da literatura, que me permite visualizar com relativa facilidade um ambiente social bem descrito.
 
Isto me traz à literatura, porque defendo sempre a importância dos livros que, sem serem uma grande obra de arte literária, conseguem essa rara façanha de “retratar uma época” com certa vivacidade de espírito e empatia sensorial. O enredo pode ser pobre, os personagens de papelão, o diálogo pode ser clichê... mas alguns autores, fracos nesses departamentos, conseguem ser eloquentes no âmbito da descrição. São cronistas, retratistas, “descritores” – mesmo que não sejam contistas ou romancistas. São importantes e necessários, ao seu modo. É importante distinguir.


Em todo caso, larguei “V. Cy” e peguei Coelho Neto, um dos meus romances de formação (era um dos preferidos de meu pai): A Conquista, de 1899, que tenho na segunda edição (Lello & Irmão, Porto), de 1913. Para mim é o melhor livro do autor maranhense, de quem li vários na adolescência (lá em casa tinha uns 15). A conquista é a Abolição da Escravatura, que ele narra do ponto de vista de um grupo de poetas e jornalistas, jovens idealistas, farristas, sem dinheiro e cheios de ideais.
 
É quase um roman à clef, porque é fácil perceber quem é quem: José do Patrocínio aparece sob o próprio nome, mas “Otávio Bivar” é Olavo Bilac, “Paulo Neiva” é Paula Nei, “Anselmo Ribas” e “Ruy Vaz” eram pseudônimos usados pelo próprio Coelho Netto, que se divide nesses dois protagonistas, um de dezoito anos, o outro mais velho e mais rodado.
 
Mas acima de tudo é o retrato do Rio dos anos 1880, que ele reconstitui com um envolvimento que me entusiasma de novo (eu não relia este romance há mais de 40 anos). Eis um trecho da saída dos poetas, tarde da noite, na região dos teatro e restaurantes:
 
Pararam hesitantes no meio do largo. Tílburis moviam-se lentamente; de quando em quando um partia à disparada. A ronda passava vagarosa; os animais caminhavam como sonâmbulos, maquinalmente, a cabeça baixa e os soldados, derreados, iam como embebidos na luz magnífica que o astro branco vertia. O “Stadt Coblenz”, a “Maison Moderne”, o “Caboclo” regurgitavam iluminados; às portas, grupos discutiam aos berros, agitando bengalas e, mais adiante, o “Príncipe Imperial” transbordava. O povo enchia o saguão e despejava-se amontoadamente espraiando-se em direções diferentes, e as luzes do frontão do teatro extinguiram-se subitamente ficando a rua em treva. Rodavam carros abertos, bondes enchiam-se e, de longe, vozes diferentes anunciavam com furor “empadinhas de camarão”.

 

(...) A cidade dormia. Começavam a varrer as ruas. Uma nuvem densa de poeira empanava o brilho dos lampiões e, dentro dessa bruma espessa, dum tom alourado, moviam-se homens cantando e atirando vassouradas: carroças rodavam parando de quando em quando. Raras mulheres, debruçadas às janelas, cochilavam; tílburis passavam à disparada e os dois, em passos apressados, seguiam cosidos aos muros, com os lenços à boca. Apitos trilaram ao longe e, com estrépito sonoro, os soldados da ronda passaram a toda a brida através da poeira como dois cavaleiros fantásticos. Vinham rapazes cantando num vozeirão atroador. (Cap. 1)
 
Coelho Netto é vituperado hoje em dia por seu estilo churrigueresco, ou seja, ele nunca escrevia uma palavra comum se pudesse botar ali um termo alambicado, idiossincrático, abstruso. E, como todo autor que escrevia para preencher espaços, só largava um assunto quando não lhe ocorria mais nada para dizer. Há verdade nisso, mas o fato é que era um escritor sólido, bom segurador de histórias extensas, bom rabiscador de histórias rápidas. Produziu em excesso, talvez; mas sempre sabia o que estava fazendo.
 
A Conquista deve ser seu livro mais solto, mais coloquial, mais cheio de humor, ao descrever um grupo de poetas e jornalistas jovens, namorando atrizes, alugando a pena às ambições deste ou daquele; uma versão mais leve das Ilusões Perdidas (1843) de Balzac.  Lembra também os poetas mexicanos da primeira parte de Os Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño (o diário do jovem García Madero): seus namoros, seus trocadilhos, seus pequenos golpes de sobrevivência, sua fascinação ingênua pelos grandes poetas do Hemisfério Norte.
 
É o Rio de Machado de Assis, mas Machado, lâmina de outro gume, não o reproduziu com essa riqueza de imagens, essa percepção dos “figurantes” como gente viva, essa vivência de ponta de rua e de lampião da esquina.
 
É um Rio surpreendente, por onde o mundo rural irrompe inesperadamente em plena noite, pegando o leitor de surpresa:
 
Vozes atroaram o silêncio e uma célere trepidação de rebanho em marcha fez com que os rapazes parassem colando-se à parede e logo dois campeiros surgiram, a cavalo, estalando chicotes, cantarolando e, em seguida, uma boiada a trote, os animais muito juntos, em bolo, silenciosos. Os grandes chifres entrebatiam-se e homens atiravam os cavalos à calçada ou passavam por entre os mansos animais, bradando, como nos campos: “Ehôoo!... toca!  Junta... êeh!...”  E a manada seguia e perdeu-se na poeira dourada donde apenas vinham os gritos dos guieiros.
– É o bife.
– Para onde vai isso?
– Para Niterói, creio eu.
Um bêbado resmungava cambaleando, às guinadas. Ouviram tinidos de campainhas e uma tropa de burros desfilou, sacolejando ceirões, a caminho do mercado.
“Vou-me embora... Vou-me embora!
É mentira, não vou não...
Se eu vou m’embora, faceira,
Deixo aqui meu coração”,
cantava languidamente o tropeiro escarranchado na bestinha viajeira, puxando a récua.
– Pleno sertão.
– É verdade.   (Cap. 1)
 
Sertão, cidade, cafés elegantes, pardieiros e cortiços, tudo se mistura nesse Rio de Janeiro que crescia aceleradamente, e que entre 1872 e 1890 praticamente dobrou de população, ultrapassando os 500 mil habitantes. 

A Conquista é um romance histórico, levemente histórico, porque a Abolição ocorre em segundo plano. Mais do que histórico é um romance de costumes, um romance que se volta para o modo como as pessoas vivem, seus valores, suas expectativas, seus objetivos, suas regras de relacionamento, etc. Para mim, além do sabor da escrita, é importante porque retrata uma certa intelectualidade literária urbana (que Machado também retratou em inúmeros contos) num momento crucial de transição.


 (Coelho Netto)


 
 
 






quarta-feira, 24 de agosto de 2022

4856) O papel do líder (24.8.2022)



(Moisés, por John Hembree)


Existe uma figura humana central, mais importante do que todos. É o Herói, é o Rei, é o Sumo-Sacerdote, é o General-em-Chefe, é o C.E.O., é o Presidente, é o Imperador, é o Líder...
 
Temos mentalidade monarquista. Precisamos de UM indivíduo onde focar nossas expectativas, nossa confiança, nossa obediência cega.  E, quando ele não corresponde, nossas expedições punitivas, com foices erguidas e archotes acesos.
 
Existem exemplos de líderes que se tornam arquétipos, alegorias da experiência humana.
 
Por exemplo: Moisés. Poucas figuras terão uma história pessoal tão cheia de episódios extraordinários, mas Moisés é sempre o símbolo evocado quando a gente quer falar de um Líder que não vive para presenciar a própria conquista. “Fulano de Tal foi uma espécie de Moisés, que conduziu o povo hebreu à Terra Prometida, mas morreu quando ela estava à vista, lá no horizonte...”
 
É o general ou presidente que morre antes do fim da guerra que ajudou a ganhar, como Franklin Roosevelt. É o craque da seleção que se machuca antes da decisão da Copa. É o líder oposicionista que segura o tombo durante os anos negros e morre às vésperas da redemocratização. Os exemplos são muitos e evocam uma imagem de tragédia por um lado (“Que pena! A pessoa que mais merecia, e o Destino negou!...”) e por outra uma imagem de desprendimento – como se ele soubesse desde o início que aquela conquista não era para ele, e sim para uma coletividade.
 
Um exemplo diferente é o do Líder egoísta, que quer a glória maior para si, porque afinal de contas ele é o Líder, e os seus vassalos que se virem.


("Balboa Avista o Pacífico", por  Tancredi Scarpelli)


A expedição de Vasco Nuñez de Balboa, atravessando horizontalmente a América do Sul, foi a primeira a avistar o Oceano Pacífico (eles tinham desembarcado, é claro, na margem do Atlântico).  Quando os índios locais garantiram que daquele morro ali adiante se avistava o mar, Balboa mandou que suas tropas se detivessem e escalou o morro sozinho – para ter a glória de ter sido o primeiro a avistar o outro oceano.
 
Comentei aqui este tipo de Líder:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2011/12/2742-epifania-do-lider-17122011.html
 
É o Líder que trabalha em função da sua própria imagem, como o cantor popular que diz aos músicos: “Quem tem que aparecer aqui sou eu!”.


(Ulisses e as sereias, por Robert Wallace)

 
Muito parecido com a lenda clássica de Ulisses e as sereias. O canto das sereias tinha a fama de ser belíssimo – mas enlouquecedor. Era como uma droga alucinógena: os marujos ficavam encantados com tanta beleza e perdiam o controle dos remos, do leme, das velas, e os navios se despedaçavam nos rochedos.
 
O que fez Ulisses? Chegando perto do local, mandou que seus remadores tapassem os ouvidos com cera e o amarrassem ao mastro. Para que todos continuassem surdos, obedientes, robotizados, tocando o barco para a frente. E ele, somente ele, pudesse receber a carga psicodélica da música das sereias.
 
É aquele líder que conhecemos tão bem, o líder muitas vezes bonachão, paternal, que trata os súditos ou os eleitores como crianças, crianças que não precisam saber de tudo, não precisam ser informadas sobre tudo, para que possam apenas trabalhar, cumprir seu papel e serem felizes. Gente simples, que não precisa "compartilhar as sofridas responsabilidades do Poder".
 
Exemplos não faltam, na história humana.


E um outro tipo pode ser comparado a estes todos. Michael Dirda, em seu leve e informativo Classics for Pleasure (Orlando: Harcourt, 2007), dedica um capítulo à obra de Plutarco, o grande historiador e biógrafo de vultos gregos e romanos.
 
A certa altura, ele cita a referência de Plutarco ao rei espartano Sous, que estava em combate contra os Clitorianos (sic):
 
E há também a história do rei Sous, que, cercado pelos clitorianos numa área seca e pedregosa, sem acesso a água, foi forçado a negociar com eles um acordo: devolveria a eles todas as terras que havia conquistado, sob a condição de que ele e seus homens pudessem matar a sede na fonte mais próxima. Depois dos juramentos e ratificações de praxe, ele reuniu seu soldados, e declarou que se algum deles abrisse mão da água receberia seu reino como recompensa; e quando nenhum deles foi capaz de aceitar, e depois que todos eles foram de um em um matar a sede, Sous caminhou por último até a fonte, lavou o rosto sem engolir uma só gota, diante da tropa inimiga, e recusou-se a entregar-lhes as terras conquistadas, uma vez que, de acordo com os termos do acordo, “ele e seus homens” não haviam matado a sede. (trad. BT)
 
Existem líderes e líderes.
 
 


 







domingo, 21 de agosto de 2022

4855) "Sandman", a série (21.8.2022)




Estou assistindo a série de TV Sandman, no Netflix. Comentarei agora os episódios de 1 a 6 desta primeira temporada, que correspondem mais ou menos ao primeiro volume dos quadrinhos, Prelúdios e Noturnos.  Comentarei os episódios 7 a 10 (e tem um extra, o 11) depois que reler o volume correspondente, Casa de Bonecas.
 
A série é extremamente bem realizada como obra autônoma e como adaptação de uma obra já existente, no sentido de que amplia e enriquece muitos elementos da obra original, permanecendo fiel ao seu espírito. Claro que diferentes leitores terão diferentes expectativas. Eu sou apenas um leitor casual. Não li nem a metade dos dez volumes da graphic novel. Leio porque gosto, não porque sou fã.
 
Acho bom lembrar que quem faz uma série assim não está se dirigindo apenas aos especialistas que conhecem cada detalhe e aos fãs que já leram 50 vezes cada história. Está se dirigindo a gente como eu, que conhece de longe a obra do autor, gosta, quer conhecer melhor, mas vê com olhos de espectador, não de crítico.
 
De todos os “Perpétuos”, os seres sobrenaturais que administram as vidas humanas, Morpheus (o Sonho, o “Homem da Areia”) é o mais interessante. É uma figura trágica, não porque um final terrível o aguarde, mas porque está preso a um papel, como a maioria dos “heróis” ou semideuses. Heróis não são livres: eles têm uma função a desempenhar e às vezes invejam nos humanos a nossa desorientação, nossa ignorância, nossa disponibilidade, nossa bagunça, nossa ausência de um roteiro cósmico a cumprir.
 
Morpheus, na tela, exibe o fatalismo de um gótico e a impassibilidade de um vulcano. Ele é menos humano do que o corvo que o acompanha, o previsível sidekick atrapalhado, tagarela, útil, presente em tantos desenhos animados para servir de efeito de contraste a um herói insondável e lacônico.



Assistindo a série não consegui deixar de ver por toda parte a paleta de Dave McKean, o capista que fez muito para “dar o tom” da série escrita. Ele pode não ter feito parte da equipe, mas serviu de parâmetro, de referência de implantes visuais. Cenas do sobrenatural em ação, sonhos, paisagens bizarras e de universo-fora-dos-gonzos estão cobertas por aquelas cores de um fogo enferrujado, borrifos espalhando-se sobre lâminas flexíveis, vultos e rostos deformados através dos quais se avista um bosque, uma carta de arcano ou um músculo dissecado. Xeroxes coloridas raspadas com lixa de madeira, colagens enxertadas sobre guaches pegajosas, tudo em movimento digital, como num fundo-do-mar por onde os personagens se deslocam.
 
Não faço restrições ao casting, à escolha dos atores. Personagens são máscaras. Já vi Macbeth interpretado por Denzel Washington e por Orson Welles, mas na minha memória afetiva seu rosto será sempre o do Jon Finch do filme de Polanski. Há uma enorme latitude de interpretação, mas também de risco, ao se mexer com personagens que o público acha que já conhece (e tem razões para isso). A questão principal é se o público entende o que o personagem significa, ou se apenas se acostumou com um tipo de ator. De minha parte, acho que só não poderia mesmo aceitar um Sherlock Holmes gordo ou um Nero Wolfe magro.


(David Thewlis, como John Dee)

A série é um enriquecimento da obra original, e penso assim porque alguns dos meus episódios preferidos nos livros (Caim e Abel, John Dee pegando carona ao fugir do hospício, as pessoas presas na lanchonete, o duelo no Inferno, a conversa entre Morpheus e a Morte) estão mais densos, menos extravagantes, mais carregados de uma maturidade onde dá para ver o Neil Gaiman de 60 anos conversando com o Neil Gaiman de 30.


(Neil Gaiman)

Tenho observado que uma boa parte do cinema/TV que se baseiam em temas de FC/fantástico precisam, por causa do assunto e da ambientação, recorrer a cenários impressionantes, extravagantes, rebuscados, surrealistas... Há a necessidade de propor um universo que o público nunca imaginou, e propô-lo visualmente, já que o meio é visual.
 
Muitas vezes o peso visual do ambiente toma conta da imagem e pressiona a ação. O exotismo do cenário, seja ele de paisagens sobrenaturais ou de arquitetura futurista, acaba virando um retentor da ação dramática, como se de repente a história inteira se visse enclausurada numa sucessão de aquários luminosos.


E então essas narrativas perdem a leveza que é a vantagem da câmera cinematográfica (esse Mercúrio com asinhas nos pés). E perdem o espaçotempo picotado pela montagem (=”edição”) e tornam-se, inesperadamente, uma espécie de teatro filmado. Uma sucessão de cenas estáticas, dialogadas, com um mínimo de movimentação e de marcações para os atores, o que se justificaria um pouco mais se os diálogos fossem (como no teatro filmado) de nível bem alto. Se a narrativa é assim, paradona, cheia de tablôs e de retórica, melhor assistir Shakespeare filmado por Kenneth Branagh.
 
Foi essa a armadilha em que caiu, por exemplo, a recente adaptação da série Fundação, de Isaac Asimov, que teve um bom primeiro episódio, inclusive com ousadias de enredo, propondo cenas (a explosão do elevador espacial) ausentes no original; mas depois desandou numa sucessão de reuniões políticas, com diálogos aliás bem pedestres, em cenários cuja escala monumental drenava toda a dramaticidade da ação, ao invés de conferir-lhe força.
 
Sandman tem escapado à maioria dessas arapucas, talvez pelo ritmo HQ da história de origem – em cada prancha/página uma ou duas reviravoltas na ação. É uma narrativa onde cenas de ação rápida e violência brutal ficam engastadas num arco de avanço mais lento, um tanto inexorável (a busca de Morpheus pelos três objetos roubados) que puxa a história para um “andar de cima” onde vigora o tempo dos Perpétuos.
 
Um tempo que em relação ao nosso é como o nosso (do mundo real) em relação ao tempo de um filme, onde tudo ocorre às pressas, em blocos sucessivos de ação retalhada por elipses. Personagens têm direito apenas a essas poucas horas de som e fúria sobre um palco, essas fatiazinhas de vida, entrecortadas, efêmeras. Quando saímos da sala de projeção, estamos de volta ao nosso tempo esférico, imutável, que não acelera nem retarda. Pobres personagens de filme: nós somos os Perpétuos deles.