domingo, 2 de junho de 2013

3202) A Vida e os Tempos de Karla Perestroika (2.6.2013)




Cap. 1 – De como a menina nasceu de oito meses, e os pais, pegados de surpresa, acabaram registrando-a com o primeiro nome que lhes veio à cabeça diante de uma TV ligada no Jornal Hoje.  

Cap. 2 – De como aos 12 anos a menina viu um balé na TV e decidiu que iria ser bailarina. 

Cap. 3 – De como logo na primeira aula de balé ela surrupiou o celular vistoso de uma amiguinha e, com medo de ser descoberta, pulou na carroceria de um caminhão que seguia para Recife e saltou em Caruaru.  

Cap. 4 – De como a menina foi recolhida pela esposa do dono da um posto de gasolina, comovida com o fato dos pais dela terem morrido num acidente de carro deixando-a sem documentos, com a roupa do corpo e um celular bloqueado.  

Cap. 5 – De como ela afirmou, entre outras coisas, chamar-se Maria de Lourdes da Silva, um nome poético com o qual sempre sonhara quando as coleguinhas da escola zonavam com seu nome verdadeiro.

Cap. 6 – De como Maria de Lourdes tornou-se garçonete, depois atendente de camioneiros no quarto dos fundos, depois esposa do dono do posto quando a primeira esposa morreu, depois dona do posto quando o marido morreu também. 

Cap. 7 – De como aos 26 anos ela resolveu que Maria de Lourdes era nome de empregada e resolveu se assumir como Karla Perestroika: “Quem não gostar, morda o cotovelo e roa!”. 

Cap. 8 – De como Karla Perestroika vendeu o posto por uma pequena fortuna, esquiou em Bariloche, acampou na Chapada dos Guimarães, cantou seresta em Olinda, nadou em Cancún, até que um oficial de justiça bateu na porta do motel e ela descobriu que tinha gasto o dobro do que lucrara. 

Cap. 9 – De como no caminho para a delegacia ela convenceu o oficial de justiça a voltar para o motel; e dos argumentos que empregou.

Cap. 10 – De como os dois se amigaram pra valer, fugiram para Londrina e montaram ali uma papelaria e um fliperama.  

Cap. 11 – De como constataram, no balanço do fim do ano, que o fliperama dava ainda menos grana do que a papelaria.  

Cap. 12 – De como Karla achou nas coisas de Jessé (o namorado) um livro de Sartre e descobriu o que era crise existencialista. 

Cap. 13 – De como ela raspou a cabeça (a de Jessé também), vendeu tudo que os dois tinham, doou o dinheiro ao Greenpeace, recolheu-se a um mosteiro carioca, praticou meditação transdimensional, alcançou o Nirvana, deixou-se embeber pela Serena Luz, fractalizou as vibrações do seu corpo etéreo e transcendeu o meramente físico, infelizmente sem a companhia de Jessé, que ficava a sacudi-la pelo ombro e a dizer que tinha um oficial de justiça tocando a campainha e cobrando os encargos trabalhistas atrasados da papelaria.


sábado, 1 de junho de 2013

3201) Títulos traduzidos (1.6.2013)





Anos atrás li uma entrevista com o funcionário de uma distribuidora de filmes, tipo Columbia ou Franco-Brasileira, argumentando sobre as escolhas de títulos brasileiros para os filmes que vêm de fora. Todo mundo se queixa da nossa infidelidade aos títulos nacionais, sempre achando que além da infidelidade há uma perda de qualidade. O tal funcionário defendia-se da melhor forma possível. Dizia ele que, título por título, ninguém sairia de casa para ver um filme chamado A linha fina, mas veria com interesse Uma vida em suspense (é o filme em que Anne Bancroft toma comprimidos para se matar e Sidney Poitier, no serviço de suporte psicológico, a mantém acordada ao telefone, enquanto a ambulância chega. A linha fina, The Slender Thread, é o fio do telefone). O objetivo do título não é descrever ou sintetizar o filme, é atrair o espectador.

E o título tem uma poesia própria. Tiro meu chapéu para quem inventou, para filmes estrangeiros, expressões em português que se incorporaram a nossa linguagem, como Assim Caminha a Humanidade (Giant), Um Corpo que Cai (Vertigo), O Pecado Mora ao Lado (The Seven Year Itch), Suplício de uma Saudade (Love is a Many Splendored Thing), Os Brutos Também Amam (Shane), etc. Alguns títulos parecem meio ridículos até fazerem sucesso, como A Noviça Rebelde, e o fato é que um musical chamado O Som da Música não pareceria algo muito promissor. O mesmo vale para outro filme de Robert Wise, Amor Sublime Amor, porque História do Lado Oeste pareceria um documentário do canal NatGeo. Já o recorde de fidelidade, claro, é Down By Law de Jim Jarmusch, que em português virou Daunbailó.

Um título, dizem os funcionários de distribuidoras, tem que ser chamativo, e o que é chamativo numa cultura ou num idioma pode não ser no outro. Nas redações de jornal, geralmente é o editor, não o redator da matéria, quem dá o título. O redator pode até sugerir e a sugestão ser aceita; mas a decisão do título é tomada um nível acima. Por que? Porque é uma decisão estratégica, exige a visão do conjunto. O título (a manchete) tem que se adequar à matéria mas também à página onde a matéria vai aparecer. Na mesma página não pode haver dois títulos semelhantes. O título é uma isca e um anzol juntos. É ele quem determina se a matéria vai ser começada-a-ler; depois do primeiro parágrafo o texto tem que se defender sozinho. No caso do filme, é mais confortável. O título influencia a ida à bilheteria e a compra do ingresso. Depois disso... Nunca vi ninguém se levantar no meio da sessão e sair protestando: “Mas essa história não corresponde ao título do filme!”.


sexta-feira, 31 de maio de 2013

3200) O número Pi (31.5.2013)





Todo mundo estudou isso no 1º. ou no 2º. grau, mas não custa fazer uma breve revisão da matéria dada. 

Pi, em matemática, é o número que indica a relação entre a circunferência e o diâmetro de qualquer círculo. Circunferência é aquele traço que a gente faz com o lápis quando desenha um círculo. Diâmetro é qualquer linha reta que atravessa o círculo de um ponto a outro da circunferência, passando pelo centro. 

Os gregos achavam que quando se dividisse o valor numérico (a medida em milímetros, digamos) da circunferência pelo valor do círculo daria um número exato.

Os gregos eram muito racionais, eram uma espécie de contabilistas do Universo. Para eles, toda conta tinha que bater, sem deixar resto. Descobriram que essa divisão dava um número quebrado, um pouco maior que três. Isso lhes deu um calafrio de constatação da bagunça matemática que é o Universo.

Einstein defendeu uma vez a tese de que Deus não joga dados; os gregos que primeiro calcularam Pi descobriram que Deus surrupia centavos da caixa registradora. A conta não bate.

Pi é geralmente definido, para os cálculos banais, como 3,1416 (para alguns mais puristas, 3,14159). Na verdade, é um número provavelmente infinito, porque por mais que se prolongue a divisão cada cálculo sempre deixa um resto, obrigando a recomeçar indefinidamente o processo. 


A revista Wired de março publicou este espantoso e borgiano comentário:

“PI contém tudo. Seus algarismos não se repetem, e ao mesmo tempo os números de 0 a 9 parecem ocorrer em igual proporção. Se isto for verdade, qualquer série de dígitos pode ser encontrada a certa altura em Pi; já que ele é infinito, qualquer série aparecerá ali, por mera probabilidade. Se convertermos ‘O Senhor dos Anéis’ ou a série inteira dos ‘Simpsons’ em código e pegarmos essa série numérica, ela aparecerá em Pi, naquela ordem, em algum momento”.

Isto transforma Pi num equivalente digital-numérico da Biblioteca de Babel de Jorge Luís Borges, com seus infinitos hexágonos de livros, em cujas páginas estão registradas todas as combinações possíveis de letras, e, consequentemente, todas as obras literárias e todas as combinações de palavras pronunciadas ou não pela humanidade em todas as épocas possíveis. 

Se PI de fato é infinito e não-periódico (seus trechos não se repetem) tudo está lá, transcodificado em números. 

Estão lá a obra completa de Borges e todos os meus artigos do Mundo Fantasmo, inclusive este, que estou digitando agora à 1:50 da madrugada sem saber que estou apenas repetindo, na minha doce ilusão de livre arbítrio, uma série numérica contida no círculo úmido deixado na mesa pela lata de cerveja que estou bebendo agora.








quinta-feira, 30 de maio de 2013

3199) Dicionário Aldebarã V (30.5.2013)




O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta, e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.

“Erconnys”: restaurantes onde os comensais sentam-se junto a outros escolhidos por sorteio à entrada, para que assim possam conhecer novas pessoas e fazer amizades. “Immerblum”: sistema de rodízio pelo qual as mães de uma rua se organizam para cuidar dos filhos das que estão trabalhando fora. “Amburil”: vegetal psicossensível que, num ambiente qualquer, indica pela coloração e viço de suas folhas se há energias negativas circulando entre as pessoas presentes. “Roudembol”: pessoa que concorda em acompanhar, durante algum tempo, alguém que segue pela estrada, apenas para fazer-lhe companhia e trocar idéias.

“Leiquim”: adesivos cor-da-pele com tatuagens simbólicas, usados por moças e rapazes durante as festas onde vão paquerar, e que sugerem suas preferências eróticas. “Eddanongys”: pessoas que com poucas horas de conversa descobrem terem tantas coisas em comum que não conseguem entender como ainda não se conheciam. “Lemmiant”: sistema de canaletas e cisternas que recolhe e filtra a água da chuva, reduzindo o alagamento das ruas durante os temporais. “Huydeswin”: estudantes não-regulares nas turmas das escolas; na verdade, qualquer pessoa que se interesse em ver aulas sem estar matriculada nos colégios.

“Orduwir”: a esperança entusiasmada que sentimos ao iniciar um trabalho cujo resultado final ainda não foi posto à prova. “Lattys”: cerâmica muito usada em pisos de residências, que muda de cor continuamente ao longo dos anos. “Andcondy”: a cerimônia de, após um sepultamento, a família escolher um certo número de objetos pessoais do morto para serem guardados e periodicamente expostos, quando cada um conta suas recordações relativas àquele objeto. “Kodras-min”: a sensação de cansaço de quem depois de muito esforço conseguiu concluir uma pesada tarefa. “Kodras-anan”: a sensação de cansaço de quem, durante de uma tarefa, percebe que já despendeu todas as suas forças e não vai poder continuar. “Sonverney”: a sensação, diante de uma porta fechada, de que há alguém de pé do outro lado dela, tentando escutar o ruído que fazemos. “Yank”: espada cujo cabo, com molas internas, cede e resiste à empunhadura, permitindo maior firmeza no manuseio. “Trells-tulls”: fósforos aromáticos que, depois de usados para acender o fogo, podem ser jogados nas chamas para perfumar o ambiente.


quarta-feira, 29 de maio de 2013

3198) O livro digital (29.5.2013)




Não vou voltar à lenga-lenga costumeira sobre a luta darwinista entre o livro digital e o livro de papel. Como gosto dos dois, tento me adaptar aos dois, mas também exijo que os dois se adaptem a mim, ou seja, ao leitor. Cada leitor tem suas manias e suas conveniências. Imagino que as minhas sejam suficientemente coletivas para que a indústria as considere. O que eu espero, então, do livro digital? (Não entendo como livro digital a simples obra literária, embora, por extensão, ele possa ser chamado assim. Entendo como o “leitor eletrônico”, seja Kindle, iPad, ebook, qualquer formato.)

1) Portabilidade. A possibilidade de levar na mochila três enciclopédias, as obras completas de 20 autores, dicionários, bancos de imagens, de músicas. O leitor eletrônico deveria poder armazenar todas essas coisas numa estrutura leve, prática. A portabilidade, aliás, inclui uma bateria que dure muitas horas. Ficar preso umbilicalmente a uma parede deve ser a exceção, não a regra. 2) Resistência. Me lembro da propaganda dos livros de bolso da TecnoPrint, lá por 1960, que dizia: “Você pode ler na cama, levar no bolso, jogar no chão: são resistentes e belos...”. O livro eletrônico está longe desse grau de resiliência. Não que eu vá jogar no chão, mas livro é algo que de vez em quando cai sozinho.

3) Busca. Seria bom termos não apenas a busca por palavra ou frase no livro que está aberto na tela, mas, se necessário, no material armazenado no próprio leitor eletrônico, ou no pendraive que estamos acessando. Já tem? Que bom.  4) Aparência visual. Alguns amigos meus discordam, mas eu gosto que o texto eletrônico reproduza (se quisermos) a aparência visual da folha de papel de um livro, levemente amarelecida, com uma mancha gráfica semelhante, diagramação, pequenos detalhes (posição do número de página, etc.). Não acho que seja pedir muito.  5) Mudança de visual. Uma das maiores conquistas do texto eletrônico é a possibilidade de mudar a letra (a fonte) de tamanho, de cor, etc.; de explorar o contraste entre a cor da fonte e a cor da página; etc. Isso descansa a vista (pelo menos pra mim) e renova o interesse.

6) Acesso à Web. Eu gostaria de, no meio da leitura de um livro, poder acessar um Google ou Wikipédia para conferir um detalhe. Alguns leitores eletrônicos já proporcionam isto. Para mim, é um ponto importantíssimo. 7) Interatividade. O direito de sublinhar, anotar, fazer vínculos entre algo que há na página 25 com outro trecho da página 310. Para quem lê estudando, isto é essencial. O livro deveria ter um caderno de notas superposto, meio invisível, revelado e pronto apenas quando nos convenha.


terça-feira, 28 de maio de 2013

3197) Os Tronos do Sertão (28.5.2013)






A série Game of Thrones (canal HBO) exprime uma tendência atual da Fantasia Heróica de língua inglesa, que surgiu como uma resposta moderna às Novelas de Cavalaria que mostram heróis imaculados e vilões sórdidos, e a luta metafísica entre um Bem idealizado e um Mal pouco sedutor. 

Aos poucos, a Fantasia foi absorvendo o realismo psicológico do Romance Histórico. Um gênero menos moralista e mais pragmático, onde os personagens não têm ideais e sim interesses, e onde tanto um herói quanto um vilão são, no dizer de Olavo Bilac, “capazes de horrores e de ações sublimes”.

O paralelismo com a política moderna emerge a cada passo. Quando Tyrion Lannister examina as contas dos Sete Reinos e descobre o seu gigantesco endividamento, ele se queixa da imprudência do ex-chefe da Casa da Moeda, Lord Baelish: “O ouro dos Lannister vem das nossas minas, mas o ouro dos Reinos é criado por ele simplesmente estalando os dedos”. 

Quem escreveu isto sabe que a bolha financeira, muito maior que o planeta Terra, em cuja superfície estamos construindo nossa economia de superconsumo e superdesperdício, foi criada exatamente assim.

Em sua trama para tornar-se rainha, Margaery Tyrell promove “trabalhos assistenciais” junto aos descamisados de King’s Landing, alimentando os pobres. 

Na cena magnífica em que ela convence seu noivo, o Rei Joffrey (odiado e desprezado por todos) a chegar à sacada, o Rei fica desnorteado ao receber uma gigantesca ovação, e mais ainda ao perceber que a ovação não é para ele, é para ela, que a multidão adora. “Don’t cry for me, King’s Landing”: faz tempo que eu não vejo a história de Evita Perón sintetizada com tanta nitidez.

Quem é heróico ali? Ninguém. Todos são como nós. Os personagens mais éticos (Ned e Robb Stark, p. ex.) são forçados pelas circunstâncias a atitudes suicidamente ingênuas ou a decisões cruéis. Os mais divertidos e cheios de recursos, como Tyrion, estão mais próximos da crueldade de Cancão de Fogo do que da pureza de Sir Galahad. 

É uma história de clãs sertanejos, de famílias em luta pela terra, de alianças e rompimentos, de ódios que se incendeiam ao som de um sobrenome. Uma história de “potentes chefias”, como dizia Guimarães Rosa, e que tem uma ressonância especial a quem leu ou folheou uma obra como o colossal estudo de Linda Lewin, Política e Parentela na Paraíba (Ed. Record, 1993). 

Porque nosso belo e sofrido Estado tem sido criado e destruído, sucessivamente, pelas guerras ancestrais, pelas alianças traiçoeiras e os matrimônios turbulentos entre os Lannister, os Stark, os Targaryen, os Greyjoy, os Baratheon, os Tyrell, os Frey, os Tully...






domingo, 26 de maio de 2013

3196) Escrever às cegas (26.5.2013)






Não se deve tentar fazer literatura utilizando apenas a metade racional do cérebro. (O cérebro tem uma metade racional?  Tô maluco. Pode abater pra 20%.)  

Eu me acho um sujeito razoavelmente racional, tudo meu é pensado, é planejado antes de ser colocado no papel.  Muitas vezes, redigindo um artigo ou escrevendo um conto, eu penso: “Aqui, tenho que botar mais tarde um adjetivo, ou um verbo, mas tem que ter 3 sílabas”. Quem pensa que contagem de sílabas só existe em poesia não sabe da missa um terço. 

Alguns contos meus foram “escaletados” (situação básica + personagens + ambiente + evolução até o desfecho) e depois foram ruminados durante 10 ou 12 anos, até que pensei: “Chega, vou escrever logo isso antes que comece a se desmanchar”.  Porque muitos, muitos mesmos, a grande maioria, se desmancharam antes de chegar ao papel.

O que não impede que no mesmo escritor, eu ou qualquer outro, convivam técnicas diferentes para textos específicos. 

Escrever é um pouco como jogar futebol. Por mais que você planeje, a maioria das coisas vai ter que ser improvisada, porque do lado oposto há um Adversário com quem é impossível combinar as coisas com antecedência. (Lembrem-se de Garrincha, antes de Brasil x Rússia, perguntando ao técnico que explicou como a Seleção iria jogar: “Mas já combinaram com os russos?”).  

No caso da escrita, o Jogador Adversário é o Inconsciente, a mente que é ativada pelo ato físico de escrever, de imaginar ativamente falas, gestos, ações, cenas inteiras. Por isso é bom planejar. Porque planejar é criar as regras do jogo, mesmo que seja para desobedecê-las. 

E ninguém desobedece o tempo todo; uma grande parte do que se planeja acaba acontecendo. Não se pode determinar tudo com antecedência; e também não se pode esperar que o engalfinhamento improvisado com o inconsciente resolva todos os problemas, produza todos os efeitos.

Keith Ridgway, que não sei quem é, comentou, num artigo no The New Yorker: http://nyr.kr/RqA8sO): 

“Todas as decisões que eu aparentemente tomei, sobre enredo, personagens, onde começar, onde parar, na verdade não foram decisões. Foram soluções conciliatórias. Um livro é algo esculpido num bloco de esperança, e quando começo a cortar meus dedos eu o afasto para longe, para tentar descobrir como é que os outros o veem. E espero, com terror, o julgamento dos outros, julgamento que me parece injusto, seja positivo ou negativo, porque estão julgando algo que na realidade eu não fiz. Estão julgando algo que me aconteceu. É como sair me arrastando de dentro do carro após um acidente na estrada e ser saudado por um corpo de jurados erguendo painéis com suas notas de avaliação.”







sábado, 25 de maio de 2013

3195) O nome da cidade (25.5.2013)



(Bombaim)


Volta e meia estão mudando o nome de alguma coisa. Nomear é tomar posse, dizem as doutrinas cabalísticas. Então, existe um frenesi constante, por parte de quaisquer poderes, para dar um novo nome a algo que já existia. Quando a Revolução Francesa triunfou, mudou os nomes dos meses do ano, que passaram a se chamar: Brumário, Floreal, Germinal, Termidor... A população ficou atarantada com isso, e os legisladores danaram-se a promulgar o que bem entendiam.

Na Paraíba existe um movimento permanente para trocar o nome da capital João Pessoa por outro, que para alguns seria o antigo nome de Parahyba, inclusive grafado assim. (Se a Bahia pode manter seu “h”, por que não podemos recuperar nosso “hy”, que inclusive remete ao mito atlântico de Hy-Brasil?). Drummond ironizou, em seu livro Brejo das Almas, os que queriam mudar o nome dessa cidade, alegando que nada significava (conseguiram: o lugar chama-se hoje Francisco Sá). Muitas dessas mudanças se pretendem modernizadoras (trocar um nome cafona por uma denominação ligada ao “mundo de hoje”) ou restauradoras (trazer de volta um nome tradicional).

Vale anotar as reflexões de Suketu Mehta em seu livro Bombaim, cidade máxima (Cia. Das Letras, 2011), a respeito da mudança (de natureza política) de Bombaim para Mumbai, em 1995:

“A mudança de nome está em voga em toda a Índia: Madras chama-se Chennai; Calcutá, essa cidade construída pelos britânicos, mudou de nome para Kolkata. Um parlamentar do BIP exigiu que o nome da Índia seja trocado para Bharat. É um processo não apenas de descolonização, mas de desislamização. (...) Um nome tem tal natureza que, se crescemos com ele, a ele nos apegamos, seja qual for sua origem. Fui criado em Nepean Sea Road, atualmente Lady Laxmibai Jagmohandas Marg. Não tenho idéia de quem foi Sir Ernest Nepean, assim como não sei quem foi Lady Laxmibai Jagmohandas, mas me apeguei ao nome original, e não entendo a razão da mudança. O nome adquirira uma ressonância, com o passar do tempo, distinto de sua origem. (...) Acostumei-me ao som do nome. Está incorporado no meu endereço, na minha vida sonhada”.

Independente da justeza ou não das homenagens, os nomes se tornam referenciais da história pessoal de cada um. É preciso uma razão muito forte, e coletiva, para a mudança de um nome comunitário. “Vila Nova da Rainha” pode ser (eu acho que é) mais bonito e mais poético do que “Campina Grande”, mas eu cresci dentro deste nome e a ele me afeiçoei. Só admitiria a volta ao nome antigo se se tratasse de uma necessidade coletiva, que viesse a fortificar nossa unidade, nosso sentido de compartilhamento de uma História que pertence a todos.



sexta-feira, 24 de maio de 2013

3194) Troféu Gonzagão (24.5.2012)



(Antonio Barros & Cecéu)


Estive em Campina para assistir a cerimônia do V Troféu Gonzagão, que o pessoal chama “o Oscar do forró”. Os homenageados principais deste ano foram Sivuca (in memoriam), Genival Lacerda e a dupla Antonio Barros & Cecéu. Houve também a entrega de troféus para o cineasta Breno Silveira (Gonzaga – de pai pra filho), Chico César, Assis Ângelo, Fred Ozanam e Onaldo Rocha (autor de Baião em Crônicas). Durante mais de quatro horas, passaram pelo palco (acompanhados por uma firmíssima banda de apoio, com o maestro Adelson Viana) cantores como Alcimar Monteiro, Pinto do Acordeon, Fagner, Cezinha, Flávio José, Biliu de Campina, Josildo Sá, Trio Nordestino, Ton Oliveira, Capilé, Elba Ramalho... Lamento, a lista completa iria preencher sozinha esta coluna. O prêmio é uma iniciativa de Ajalmar Maia e Rilávia Cardoso, realização do Centro de Ortodontia Integrado e FIEP/SESI, com apoio dos governos estadual e municipal, UEPB, Sandálias Havaianas e Duraplast.

Essa ficha técnica aí em cima é importante para dar uma medida não apenas do evento em si, mas da força e vitalidade do forró pé-de-serra, cujo “estado terminal” vive sendo anunciado há muitos anos, tanto pelo pessimismo de alguns dos seus defensores quanto pelo otimismo de seus inimigos. Cada vez que o mundo dá uma volta aparecem manchetes dizendo que o forró está morrendo, mas na volta seguinte o forró aparece de novo, vivinho da silva. Me lembra a situação do cordel, descrita uma vez por Ariano Suassuna: “Aqui no Recife tinha um sujeito que dizia o tempo todo que o cordel tinha morrido. Quando ele morreu, escreveram um cordel em homenagem a ele”.

Não faltam talentos ao forró: milhares de músicos, compositores e cantores vivem dele. Não lhe faltam história nem tradição. Sua principal concorrente, a Lambada, se auto-intitula “forró eletrônico” – um duplo equívoco, pois nem é forró nem explora a fundo os recursos eletrônicos (que, aliás, qualquer gênero musical usa hoje em dia, com exceção talvez do Canto Gregoriano). Quais as maiores qualidades desse adversário? A Lambada é uma música alegre, sensual, boa de dançar? Pois o forró é tudo isso e muito mais.

O forró tem diante de si um grande futuro, pelo fato de ter um grande passado. Por mais que as tempestades do mercado fustiguem seus galhos e seu tronco, ele tem raízes  profundas que o fazem renascer depois de cada seca ou cada enchente. Hoje, no Nordeste, brotam fábricas de sanfona, escolas de fole-de-8-baixos, novos cantores e novas bandas rejuvenescendo o cancioneiro clássico e trazendo um repertório novo e atual. O mundo dá muitas voltas, e não tem verão tão longo que não desemboque num inverno.



quinta-feira, 23 de maio de 2013

3193) O normal literário (23.5.2013)





Certas discussões parecem aqueles intermináveis bate-bocas de bêbado em mesa de bar em que, quinze minutos depois, todo mundo passa de novo pelo mesmo assunto e ninguém se lembra de que tudo aquilo acabou de ser falado.  É o que acontece com o debate entre literatura de gênero e literatura “mainstream”. Gênero a maioria das pessoas entende o que é: é o romance policial, de terror, de faroeste, de capa-e-espada, de ficção científica... Mas o que é literatura “mainstream”?

Me vem à mente aquele camelô de DVDs na Rua da Carioca, que anunciava sua variedade de produtos: “Tem erótico, ação, suspense e normal!...”. Ou então aquelas duas donas de casa no supermercado, à minha frente, uma delas mexendo nos detergentes e dizendo à outra: “Tem esse aqui que é limão, esse outro é maçã, e esse aqui é normal”. Percebi que por “normal” ela queria dizer “neutro”, ou seja, aquele Limpol translúcido, sem um perfume artificial específico.

Quando classificamos os gêneros, o que chamamos de “mainstream” acaba sendo aquele tipo de literatura neutra, sem nenhuma característica especial, sem nada de muito específico: isso é o normal. Não haveria nenhum problema, talvez, se num mundo tão controlador como o nosso a palavra “anormal” não tivesse uma conotação tão criminalizante, tão ameaçadora. “Que tipo de literatura você faz?” “Faço literatura anormal”. A primeira coisa que o entrevistador pensa é que você escreve sobre deformações psíquicas ou sobre monstruosidades morais.

“Normal”, em nossa língua (ou pelo menos na língua da imprensa, na qual vivo mergulhado) é uma coisa cujo gráfico é uma linha horizontal sem grandes sobressaltos. Algo que não se afasta muito da medianidade, da mediocridade. Sem nenhum atributo que chame a atenção. Uma média aritmética, sem pontos muito altos e sem pontos muito baixos, sem defeitos que a prejudiquem e sem qualidades que incomodem os demais. Ser normal, na literatura, é ser incolor, inodoro e insípido como um copo dágua.

De 100 em 100 anos esse conceito muda. Em 1880 ser normal na literatura brasileira era ser melodramático, sentimental e romântico; hoje é escrever romances urbanos violentos ou introspectivos. Herdamos de outras literaturas esse modelo do romance realista, e qualquer desvio dessa receita é considerado uma anormalidade. Os novos escritores enveredam todos nessa raia, porque o “normal” equivale à Série A do campeonato literário; é aquela onde jogam ou jogaram os grandes campeões. (Notem que não falo dos “best-sellers”, que criam suas próprias regras, e sim da literatura valorizada pela crítica e pela academia. São elas que definem os parâmetros do que é normal.)