sábado, 20 de abril de 2013

3165) O Samurai sem Sono (20.4.2013)



(by Gabriel Tavares)


Sua lâmina era capaz de passar pela asa de um beija-flor em pleno voo sem tocá-la.  Seus olhos eram capazes de dizer quantos grãos havia num punhado de sal. A chuva o fustigava sem enfraquecê-lo, o sol do deserto colidia com ele e recuava. Ao longo das Sete Ilhas, e das encostas do Monte Kuju até a baía de Wakaba, até as crianças reconheciam ao longe seu vulto magro e hirsuto, mas eram poucos os que sabiam o som da sua voz. Caminhava devagar como alguém que reduz o passo ao se aproximar do lugar para onde se dirige. Dizia-se dele que seus olhos brilhavam no escuro; que era capaz de passar um ano sem comer; que comandava as mulheres e os animais com o pensamento.

Uma crônica da Casa de Kenji relata um episódio provavelmente veraz de seu passado: que teria sido o causador (por arrogância e um erro de cálculo) da morte de alguém de sua família. Desde esse dia, jurou viver como um misto de mendigo e monge. Lutou por seis anos para o clã dos Hashikaya e aceitava como pagamento apenas um pão por dia. Data dessa época a lenda de que jamais dormia.  Pode ser um exagero causado pelo seu hábito de a qualquer hora do dia ou da noite estar em campo aberto, de espada em punho, treinando combinações complexas de aparas e de estocadas, ou postado imóvel sob uma árvore, aguardando a queda de alguma folha seca para seccioná-la no ar. “Ele não dorme”, diziam os guerreiros, e os velhos murmuravam (e as mulheres e crianças repetiam): “Quem não dorme é porque não morre”.

As crônicas do período Edo registram fatos como a batalha de Kan-Chi, em que ele sozinho bloqueou um exército no meio de uma ponte por uma manhã inteira, até a chegada de reforços.  Contam como ele travou duelos pessoais, em dias sucessivos, contra oito espadachins do clã Hinoruke, abatendo-os um a um; como, sem escudo no campo de batalha, sua espada veloz rebatia as flechas disparadas contra seu corpo. Durante os combates, não rugia nem blasfemava como a maioria dos soldados; executava seus gestos com a energia vibrante de quem dança, e com o olhar meio ausente de quem confere uma conta.

Sua morte, como sua vida, está soterrada por lendas. A mais recorrente delas o mostra encurralado por cem soldados que atearam fogo à choupana onde ele se refugiara, e depois espalharam as cinzas durante seu trajeto de volta, ao longo das quinze milhas, anunciando aos camponeses a morte do Samurai Sem Sono. Surgiu daí a versão de que essas cinzas são capazes de se recompor, brotando dos rios, da relva, dos bambuzais, um torvelinho de pó de onde surge, como um raio de prata, a lâmina vingadora de injustiças e de traições, a espada mais veloz das Sete Ilhas.


sexta-feira, 19 de abril de 2013

3164) TV e entrevistas (19.4.2013)





Tem coisas que só a vida ensina, e a primeira delas é a vida propriamente dita. Não temos manual de instruções para a maioria das coisas que nos acontecem. Algo que a gente rala muito para aprender, e nunca aprende, é dar entrevistas para a TV. Políticos, artistas, etc acabam aprendendo pela prática intensa, fazem isso quase todo dia. Mas o que dizer do cidadão comum a quem isso só ocorre, sei lá, uma vez por ano? Quando chega a próxima vez ele nem lembra mais o que fez na anterior.

Posso compartilhar algumas pequenas coisas que aprendi à força de fazer bobagem. Tempos atrás, quando alguém me entrevistava para um programa qualquer, eu começava expondo minhas premissas, em função da pergunta que me fôra feita, para chegar, triunfalmente, à conclusão. Em geral, isto me requeria 3 ou 4 minutos de resposta, o que em termos de televisão é uma eternidade. A consequência é que ainda durante as premissas eu era interrompido pelo repórter, que agradecia minha participação e chamava a central. Ou então fazia outra pergunta – e tudo recomeçava.

A lição que aprendi foi: quando a TV fizer uma pergunta, responda direto com a conclusão. De maneira direta, concisa, e por mais que a conclusão pareça gratuita sem ter sido preparada pelas premissas. Quanto mais inesperada ou surpreendente ela for, melhor, porque o repórter vai ficar intrigado com uma resposta tão curta e direta, e vai perguntar: “Por quê”, ou “Como assim?” – e aí vai lhe dar todo o tempo necessário para você apresentar suas premissas.

Do mesmo jeito, se pedirem para você tocar uma música, ataque direto no primeiro verso. Não invente de tocar a introdução instrumental, se não corre o risco de ver os créditos do programa subirem na tela antes mesmo de você poder cantar “Ouviram do Ipiranga as margens plááácidas...” ou seja lá qual for o verso inicial da sua música.

A TV só tem tempo para pílulas, comprimidos, conclusões bem sintéticas com começo e fim (de preferência sem “meio”). Responder perguntas da TV é uma arte que eu não domino até hoje, e olha que já dei centenas de entrevistas, desde as de 30 segundos até as de um programa inteiro. O raciocínio mais curto de que sou capaz é do tamanho de um destes artigos, o que me inviabiliza para a filosofia eletrônica. Na TV, a gente tem que ir direto à parte principal. Nada de ordem cronológica dos fatos, por exemplo. Craques do futebol brasileiro? Vá direto a Neymar. Se der tempo, lembre Pelé e Garrincha.  Se pedirem mais, aí sim, fique livre para ir de Leônidas e Zizinho até Zico e Ronaldo.

Fale do aqui e agora. TV é como Twitter: depois de um certo ponto, nada do que você disser sobreviverá à edição.



quinta-feira, 18 de abril de 2013

3163) 32 razões (18.4.2013)





(by Lauren Simonutti)



Porque nem sempre o que é planejado acontece conforme o plano, pois planejar é uma atividade autônoma que se desprega da realidade à medida que avança. 

Porque foi cientificamente provado que existe uma relação entre o zumbir das abelhas e o abrir das corolas. 

Porque qualquer teoria pode ser filosoficamente provada desde que inclua termos como “a menos que” ou “quase sempre”. 

Porque esqueci.

Porque o arquivo que continha o texto foi dado como “corrompido” e eu tive que fazer outro usando o mesmo título. 

Porque é algo assim, tipo, feijoada vegetariana, ou cerveja sem álcool, ou café descafeinado. 

Porque toda cidade é uma cicatriz na natureza. 

Porque cada um ficou esperando que o outro fizesse e quando se tocaram acabou sendo feito por um terceiro. 

Porque tem gente que escolhe o cavalinho onde vai pular antes mesmo de ver o carrossel dar uma volta inteira. 

Porque tinha muita gente esperando e achei melhor começar logo.

Porque choveu de novo. 

Porque pensei que ia ser às 4 da tarde, deixa que era às 14 horas. 

Porque apareceu uma tartaruga parada na porta do meu quarto e estou há três dias com medo de tropeçar nela. 

Porque faltou água na barbearia. 

Porque disseram que tem um míssil pronto para cair lá no momento em que eu aparecer. 

Porque só fiquei sabendo  quando já era possível dizer que só fiquei sabendo quando não dava mais tempo.  

Porque ninguém nunca parou para pensar sobre a quantidade de acidentes mortais de que a gente escapa a cada minuto.

Porque eu espero tanto pelos outros, por que alguém não pode esperar por mim? 

Porque joguei dois dados e deu 13. 

Porque é mais fácil ressuscitar um morto do que recompor um vidro quebrado. 

Porque os interesses do país têm que prevalecer sobre os nossos, principalmente quando vêm ao encontro dos nossos interesses. 

Porque é melhor o cansaço da missão cumprida do que o nervosismo do tomara-que-alguém-resolva. 

Porque ninguém precisa ficar sabendo.

Porque não importa a idéia que você esteja defendendo, sempre vai haver um trecho da Bíblia que parece apoiá-la. 

Porque eu não nasci pra cortar jaca nem pra descascar abacaxi. 

Porque se eu for me preocupar com isso a cerveja esquenta e o café esfria.

Porque os únicos números verdadeiros, inteiriços, são os números primos; os demais são pecinhas de Lego encaixadas. 

Porque as surpresas acontecem quando menos se espera. 

Porque passei do ponto e o ônibus não parou. 

Porque as estatísticas indicavam outro resultado, e eu mais uma vez acreditei. 

Porque não existe "Guerra Santa", visto que toda guerra, mesmo para combater o Mal, é uma aliança com ele. 

Porque chega de dizer “chega” quando a gente sabe muito bem que vai ter que suportar muito mais. 








quarta-feira, 17 de abril de 2013

3162) Livros clandestinos (17.4.2013)




Meu nome é Sonntag, e sou bombeiro. Meu pai o foi também, e queimou muitos livros. Quando começou a salvá-los às escondidas, foi descoberto e morto pelas forças de segurança. 

Cresci ouvindo este exemplo ameaçador. Tornei-me bombeiro para conhecer essas obras proibidas, mesmo correndo o risco de ser executado. Enganava-me. Hoje em dia o Sistema balança, racha-se em fendas; a corrupção impera. Encontram-se livros à venda nos mercados negros de armas, de próteses, de venenos. 

Minhas leituras fervorosas e às escondidas são alimentadas por essa rede escusa de delinquentes, que fervilha nas favelas, nas ruínas ocupadas, nos casebres de beira-rio. Não se consegue saber de onde extraem esses tesouros.

Há boatos sobre bibliotecas soterradas, mas a verdade é que livros já não são impressos há mais de dois séculos. O papel é descartável, perecível. Cada exemplar merece ser preservado, porque tudo que está impresso é precioso. O que foi confiado ao papel constitui o esqueleto, a estrutura da existência humana; os pixels coloridos da TV são mera distração ou adorno. 

Daí que cada folha impressa valha uma pequena fortuna: trechos de romances dos quais não sabemos título nem autoria, mas que por isso mesmo tornam-se mais cheios de mistério e de valor. Não direi que entendo tudo que leio, mas nesses momentos sinto-me compartilhando um ritual místico de transcendência, ainda que numa língua que me é desconhecida.

Muito ouvi falar em Shakespeare; para mim, são onze páginas arrancadas não sei de onde e costuradas umas às outras, pelas quais paguei uma pequena fortuna, no meu tempo de estudante. 

Tornei-me bombeiro e aumentei meu capital. Em menos de dois meses na corporação reuni exemplares completos de obras como “Meu Nome é uma Bala”, “Férias de Amor”, “Apólogos Edificantes”, “As Libertinas”, “Anais da Câmara de Vereadores”. Tornei-me capitão, e entrei para um grupo de jovens oficiais progressistas que lutam discretamente pelo fim do banimento.

Visados pelo Governo, temos que dobrar nossas precauções para que não encontrem nossos tesouros. Compro tudo que me aparece pela frente. Somente nesta semana um traficante vendeu-me vinte páginas de um livro do célebre Nabokov, a história marítima da caça a uma baleia; outro, um conto de Baudelaire intitulado “O poço e o pêndulo”; de um terceiro adquiri sonetos de Homero. 

Nomes que evocam memórias de um tempo mítico em que a cultura era acessível a todos. Tesouros que guardo num cofre por trás de uma parede secreta, feliz em saber que por mais que as ditaduras massacrem a cultura e o saber não há como destruir as grandes obras do pensamento humano.





segunda-feira, 15 de abril de 2013

3161) Executivos zumbis (16.4.2013)





Um título assim é muito sugestivo para uma comédia de terror, mas a história por trás dele, além de real, é muito pouco cômica. “Zombie Executives” é o termo que está sendo adotado nos EUA para designar CEOs, diretores, etc. de empresas que, mesmo quando a empresa vai mal, não podem ser demitidos.

Numa empresa que tem acionistas, estes votam periodicamente para os cargos de direção e, se o desempenho dos atuais diretores é considerado insatisfatório, eles são substituídos. Afinal, é o dinheiro dos acionistas que eles estão administrando. Ou seja: as empresas funcionam mais ou menos como as repúblicas democráticas dizem funcionar. Votamos em prefeitos, governadores, presidentes, etc., e quando achamos que uma determinada equipe não está cuidando bem das coisas, votamos em seus adversários.

Mas no mundo corporativo norte-americano o bicho está pegando. Numa matéria no “NY Times” (http://nyti.ms/1102n32) James B. Stewart diz conhecer pelo menos 41 casos em que os diretores perderam direito ao cargo por ter recebido menos de 50% dos votos de confiança dos acionistas, mas que mesmo, assim continuam a exercê-los, baseados em firulas legais. Uma delas é o uso do chamado “sistema de pluralidade”, em que os diretores concorrem sem oposição e basta terem um voto para serem eleitos. Em outros casos, como na Iris International (empresa da área médica, na Califórnia) os acionistas rejeitaram todos os 9 diretores numa votação em maio de 2011. Os diretores renunciaram coletivamente aos seus cargos e ao mesmo tempo rejeitaram essa renúncia; e continuaram à frente da empresa.

Stewart dá nomes a muitas delas: Loral Space & Communications, Mentor Graphics, Boston Beer Company, Vornado Realty Trust, Chesapeake Energy, Oklahoma State University, Union Pacific… Em alguns casos os CEOs tiveram 70% de rejeição, mas os acionistas – teoricamente os donos da empresa – não conseguem mandá-los embora.

Filmes comentados aqui (Trabalho Interno, Margin Call), etc., mostram a ilimitada arrogância, ambição e desonestidade com que muitos indivíduos em cargos desse tipo afundaram a economia dos EUA, e por tabela a do mundo, no abismo em que estamos atualmente. (Acha que a crise passou, caro leitor? Pergunte aos seus netos daqui a uns tempos.) Quando alguém chega ao Poder, a primeira coisa que faz é mexer em estatutos, regimentos, etc. preparando uma brecha para se perpetuar legalmente no cargo. Os norte-americanos estão cada vez mais reféns de uma geração de Zumbis de Terno Armani, que sabem que serão a última geração de bilionários do planeta, e que por isso mesmo pretende fazer a banda tocar até este Titanic desaparecer no plâncton.



domingo, 14 de abril de 2013

3160) A ética de Bombaim (14.4.2013)




Estou lendo aos poucos, sem pressa de terminar, o enorme Bombaim: Cidade Máxima de Suketu Mehta (Companhia das Letras, 2011, 583 pags.). Você acha que o Brasil tem problemas, caro leitor? Não direi que não tem, mas peço que imagine os problemas da Índia, que em alguns aspectos parece muito com nosso país, só que tem 1,2 bilhão de pessoas amontoadas num território com menos da metade do nosso. 

Suketu Mehta foi criado em Bombaim, morou em Nova York, e voltou para sua cidade natal, agora chamada de Mumbai, para escrever sobre a Bombaim que tinha conhecido. O livro é uma reportagem panorâmica sobre favelas, terroristas, políticos, travestis; sobre o trânsito, a moradia, o crime, a arte, o transporte. Bombaim, com 20 milhões de habitantes, tem uma das maiores densidades populacionais do mundo.

Mehta voltou a sua cidade e se assustou com o que lhe acontecera em apenas 21 anos. As filas são gigantescas e estão por toda parte. Ninguém respeita o espaço alheio, o direito alheio. Para conseguir o serviço mais banal ou o direito mais elementar é preciso ser amigo de alguém, ou subornar um funcionário. Diz ele: 

“Um homem que ganhou dinheiro de modo desonesto é mais respeitado do que um que ganhou dinheiro trabalhando, porque a ética de Bombaim é a da ascensão rápida e a fraude é um atalho. Uma fraude demonstra bom senso comercial e agilidade mental. Qualquer um é capaz de trabalhar duro e ganhar dinheiro. O que há de admirável nisso? Mas uma fraude bem executada, isso, sim, é uma beleza”.

Nos EUA, Mehta absorveu o estilo norte-americano, que oscila entre o sossegadamente-pacato e o politicamente-correto. Ao voltar para sua cidade, sentiu-se (e foi tratado) como um estrangeiro. 

“Brigamos para conseguir descontos que não têm valor algum para nós: dez rupias são apenas 40 cents. Se perdermos 40 cents em Nova York, jamais perceberemos; aqui é uma questão de princípio. Isso porque, quando somos roubados em dez rupias, os outros tiram suas conclusões: não somos daqui, não somos indianos, por isso merecemos ser roubados, pagar mais do que eles. Portanto, levantamos a voz e exigimos que nos cobrem o preço correto, o que está no taxímetro, pois não agir assim equivale a aceitar a condição de estrangeiros. Somos indianos e vamos pagar preços indianos!”.

Toda sociedade dividida é assim; o que dizer da Índia, suas castas, suas centenas de etnias e/ou religiões? O pesadelo de abundância e de miséria existente na Índia parece um Brasil elevado ao quadrado. A Bombaim/Mumbai deste livro dá arrepios, ao pensarmos que estamos lendo a história de nossas metrópoles dentro de mais uma década.






sábado, 13 de abril de 2013

3159) "Privilégio" (13.4.2013)





Na filmografia sobre rock, este filme de Peter Watkins (Privilege, 1967) é um título obscuro, um desses filmes que eu às vezes imagino ser a única pessoa que assistiu. Consegui agora uma cópia; e lamento que ele não seja mais conhecido, porque é um momento importante numa linhagem de filmes que exploram o potencial fascista, controlador, orwelliano do rock-and-roll. Em meu livro O Rasgão no Real (Ed. Marca de Fantasia, João Pessoa, 2005) coloquei-o numa lista que incluía Tommy de Ken Russell (1975), Pink Floyd – The Wall de Alan Parker (1982) e This is Spinal Tap de Rob Reiner (1984). Filmes que fazem com o rock o que os livros de Richard Dawkins fazem com a religião. Precisa ter muita fé pra continuar gostando.

Watkins ficou famoso com seu filme The War Game (1965), chamado de “docudrama” pelo seu estilo semijornalístico de contar uma história. “Privilégio” também utiliza esse artifício, mostrando-se como uma reportagem de TV sobre o roqueiro Steven Shorter, entrevistando seus empresários, assessores, etc., e cobrindo jornalisticamente tanto os seus shows quanto as reuniões do seu “staff”, coquetéis, entrevistas coletivas, etc.

Shorter, interpretado pelo cantor Paul Jones, tem, curiosamente, aquele misto de fragilidade, obstinação e angústia que transparecia muitas vezes em Ayrton Senna, com quem se parece fisicamente. Existe algo de caricatural na expressão continuamente sofrida do ator, mas a verdade é que ela corresponde de perto a sua “persona” no palco (que envolve encenações masoquistas, com ele sendo preso, algemado, espancado pela polícia, etc.).

Há uma cena hilária em que ele aparece num comercial de TV (na verdade uma propaganda do Ministério da Agricultura) incentivando a população a comer maçãs. É um troço extremamente kitsch, mas não muito diferente de várias coisas que os Beatles estavam sendo obrigados a gravar na mesma época. O melhor do filme são as sequências em que Shorter se torna garoto propaganda da Igreja, numa campanha conjunta com o Governo, para induzir os jovens ao conformismo político, com cenas que (li em alguma parte) são minuciosamente copiadas de O Triunfo da Vontade de Leni Riefenstahl. Alguns críticos viram nele uma premonição da Inglaterra de Margaret Thatcher.

Há poucos filmes críticos sobre o show business roqueiro. Este é um dos melhores, mesmo com um ritmo narrativo meio lento e interpretações nem sempre firmes dos atores. Ele mostra, no auge do rock britânico, as manipulações de bastidores, o comportamento cego-em-tiroteio do popstar, e a terrível elite de múmias-de-rapina que veste batina ou terno e fatura em cima da histeria das mocinhas adolescentes.



sexta-feira, 12 de abril de 2013

3158) A Voz e a Eletricidade (12.4.2013)




A literatura e a poesia sempre dependeram da voz, com exceção dos breves 500 anos após a invenção da imprensa. 

Antes da imprensa, quando os livros eram escritos à mão, palavra falada e palavra escrita pelo menos lutavam pau-a-pau pelo poder. 

Na Antiguidade e na Idade Média livros eram coisas muito caras. Somente quem tinha uma certa grana podia comprar a cópia de um livro para tê-lo em casa, ou podia pagar um escriba para copiá-lo. Poemas e textos circulavam, sob forma escrita, mas sua circulação oral era certamente grande.

A invenção da imprensa abarrotou o mundo de livros de papel, mesmo que em seus primeiros anos os livros impressos também fossem um luxo de quem podia pagar. Mas não importa; a palavra escrita tornou-se sinônimo de cultura. E ainda hoje vivemos isto. 

Se alguém tem uma sala cheia de livros, achamos que é um intelectual, mesmo que ao falar ele revele ser uma besta quadrada. E se alguém nos diz que não sabe ler nem escrever, pensamos de imediato que é um sujeito burro, quando às vezes é mais inteligente e bem informado do que nós (e sabe mais poemas de cor).

Quem resgatou a Poesia da Voz foi a eletricidade, a partir do século 20, com três invenções decisivas: o rádio, o disco e a televisão. 

Com a ajuda desses meios a palavra falada ultrapassou a palavra escrita em importância, inclusive pelo fato de que isso coincidiu com a explosão das populações. Em muitos países, como no Brasil, milhões de pessoas passaram a ter acesso a esses três canais de comunicação sem nunca terem lido um livro. 

Do ponto de vista poético, o século 20 foi o Século da Canção. Nunca essa forma de arte foi tão cultivada, tão disseminada e teve um papel tão grande (maior que o romance, o conto, o poema escrito, etc.) na formação das pessoas, no seu lazer, na sua convivência, no seu entendimento do mundo.

O que ocorre agora com a Cultura Digital Eletrônica é uma mistura desses acontecimentos cruciais, a popularização da palavra escrita pela imprensa e a massificação da palavra falada pelos meios elétricos. 

Na Cultura Digital, a palavra escrita se multiplica de forma incontrolável, e o mais interessante é que agora uma só tecnologia está beneficiando ambas, a escrita e a falada. 

A Voz não lucrou nada com a imprensa, a Palavra Escrita lucrou pouco com rádio, etc.; mas as tecnologias digitais, com essa espantosa flexibilidade que têm, são capazes de beneficiar igualmente a Palavra Falada e a Palavra Escrita. (Para não falar na Imagem!) 

Não é o Fim do Mundo nem é a aurora de uma Idade de Ouro, mas é um momento raro de redefinição dos alicerces da comunicação. Temos sorte de viver um momento tão cheio de novidades.









quinta-feira, 11 de abril de 2013

3157) L. Ron Hubbard (11.4.2013)







Lafayette Ronald Hubbard nasceu em 1911 e durante anos foi um dos colaboradores mais entusiastas e mais prolíficos de revistas de pulp fiction como “Unknown”, “Astounding Science Fiction”, etc. Atribui-se a ele uma das frases mais famosas da FC: “Estou cansado de escrever FC pra ganhar uma merreca. Vou fundar uma religião e ficar milionário”. Foi o que aconteceu a partir de 1950, quando ele criou a famigerada Dianética, uma mistura de psicanálise e auto-ajuda. Suas promessas de saúde mental e quem sabe até superpoderes psicológicos arrebataram um grande número de pessoas, inclusive escritores como A. E. Van Vogt, John W. Campbell, etc. Hubbard ficou mesmo milionário, mas brigas internas entre os administradores do grupo o fizeram trocar em 1952 o termo Dianética por Cientologia, uma igreja paracientífica ainda hoje em plena atividade.

A melhor coisa que já li de Hubbard é a noveleta “Fear” (1940), uma arrepiante história de horror sobre um professor universitário que constata, de repente, um buraco na própria memória: quatro horas seguidas onde ele não lembra onde estava nem o que fez. Suas alucinações “dickianas”, sua progressiva destruição psicológica, e a presença constante (diálogos que o leitor lê mas o personagem não percebe) de entidades misteriosas – tudo isto faz do livro uma curta e compacta obra-prima do gênero.

Nos anos 1980 Hubbard lançou uma “decalogia” intitulada “Missão: Terra”, dez volumes dos quais traduzi os dois primeiros (“O Plano dos Invasores”, “Gênesis Negra”). É uma mixórdia indescritível de pulp fiction dos anos 1930, prosa auto-indulgente repleta de encheção de lingüiça, e um humorismo adolescente que faz o “Mochileiro das Galáxias” soar como FC existencialista francesa. Os méritos que tem são do gênero, não do autor: aquele divertido vale-tudo imaginativo que arrasta o leitor consigo pela mera sucessão vertiginosa de peripécias, situações absurdas, reviravoltas incessantes. Os ziguezagues constantes do enredo (infelizmente travado o tempo todo por diálogos longuíssimos e descartáveis) nem nos dão tempo de questionar a burrice obrigatória dos vilões e a cascata de coincidências que não cessa de favorecer o mocinho.

A melhor herança deixada por ele foram o misto de concurso e oficina “Writers of the Future”, que selecionou e revelou dezenas de bons jovens escritores (entre eles David Zindell, Karen Joy Fowler, Robert Reed), e editou várias antologias de boa qualidade. Sua memória é preservada pela Igreja da Cientologia, uma corporação articulada e poderosa que adquiriu vida própria na zona indistinta entre religião, política e auto-ajuda.



quarta-feira, 10 de abril de 2013

3156) O último quadro (10.4.2013)






No dia em que a Revolução Descalça tomou a capital do país, Henryk  Rhysdael amaldiçoou-se pelo otimismo que o impedira de fugir. A família estava em segurança em Londres, com a promessa de que voltaria para casa quando o governo controlasse os rebeldes. Agora, por entre os vidros à prova de balas do terraço do seu bunker de banqueiro, ele via o tsunami de torsos negros superlotando as ruas, os móveis sendo arremessados das janelas, os incêndios se alastrando. Um ratatá ensurdecedor vindo do alto disse-lhe que os selvagens, além de armamento, contavam com helicópteros estrangeiros. Colado à porta blindada,  acompanhou o tiroteio no corredor. Vestiu a roupa suja de operário que guardava para uma emergência, lançou o último olhar para o duplex de 900 m2 onde fôra feliz, e desceu pelo alçapão para o apartamento de baixo, que sabia desocupado, dali para a escada de serviço, e dali, em meio à turba que saqueava tudo, para as ruas, a fronteira e o exílio.

Voltou ao país dez anos depois, numa missão humanitária para investigar denúncias de torturas por parte do governo revolucionário. Pela janela da limusine viu que os prédios ainda guardavam marcas de fogo e buracos de balas. Durante os debates, ficou amigo de um capitão do exército cujo pai lhe devia favores. Na véspera da partida, fez o pedido: queria visitar seu antigo endereço. Soube que o edifício era agora um alojamento para migrantes fugindo das epidemias do campo.

O prédio estava cercado de barracas de fruta e de peixe. No hall, eles abriram caminho por entre filas de pessoas com mochilas às costas e sacos na cabeça. Subiram pela escada; o elevador estava quebrado há dois anos. Crianças fugiram ao vê-los, escondendo-se nos apartamentos e espiando pela fresta da porta. Alguns andares tinham pintura recente, outros estavam cobertos de grafittis e de frases numa língua que ele não reconheceu.

Chegaram à cobertura. O salão estava cheio de redes armadas de parede a parede. As vidraças tinham sido arrancadas. A pérgola era agora um cercado onde cacarejavam galinhas. Cumprimentando, pedindo licença, ele percorreu os aposentos. Um quarto estava cheio de arroz até quase o teto; a porta mal abria. A suite principal era um berçário onde mulheres de seios pendidos o olharam com indiferença e cansaço. Nada restava da mobília, dos tapetes, dos quadros, mas em outra suite ele viu o milagre impossível: intacta, cobrindo toda a parede, sua reprodução (encomendada) da “Entrada de Cristo em Bruxelas”, de James Ensor. Percebendo sua emoção, um homem de uma perna só ergueu-se, apoiado em muletas, e veio ao seu encontro. “Esse aí ninguém queima”, explicou. “É bonito”.