domingo, 13 de janeiro de 2013

3082) Ruínas (13.1.2013)




(Ian Ference)


Ruínas urbanas mostram como o metabolismo da civilização parece com o do corpo humano. Morte e nascimento o tempo inteiro. Não apenas a destruição violenta das guerras, terremotos, catástrofes; mas a do abandono político, do descarte imobiliário, da obsolescência física por desmando ou falta de planejamento. Construções que perdem a função e não são demolidas, apenas deixadas de lado para que a Natureza reabsorva suas matérias primas.

Hospitais caindo aos pedaços ou indústrias tomadas pelo matagal bravio são contrapartidas concretas, visíveis, para todos os outros tipos de estagnação e desmoronamento. Grandes grupos financeiros que quebram, afundam e são canibalizados pelos Bancos maiores. Partidos políticos cujas lideranças debandam após a primeira grande crise, deixando atrás de si apenas uma legenda baldia a ser ocupada pela matilha anônima de oportunistas e aproveitadores. Sobrenomes aristocráticos cuja liquidez financeira se esvai, na lenta sangria que faz definhar uma geração após a outra; e que tentam manter-se à tona do anonimato mediante colunas sociais e matrimônios políticos. Empresas que floresceram e incharam, primeiro graças ao protecionismo, depois ao monopólio, mas cuja espinha é quebrada por uma reviravolta tecnológica e sobrevivem vendendo as partes não-vitais de sua estrutura, até se desfazerem num farelo de ações sem valor.

Por toda parte percebemos essas lentas implosões sociais; às vezes levam um século para chegar ao fim. Estruturas vazias de vida, ou vazias da energia necessária para mantê-las vivas; estádios de arquibancadas derruídas cercando um enorme atoleiro; colégios desabando sob tetos apodrecidos de chuva; fábricas habitadas somente por lagartixas e lacraus. A pressa com que a arquitetura e a engenharia põem de pé essas estruturas arrogantes é inversamente proporcional ao tempo que a Natureza dedica a varrê-las do mapa com o vento suave da passagem dos anos. As ruínas célebres do mundo (pirâmides, coliseu) funcionam como um relógio em contagem regressiva, rumando para o oblívio mas parecendo nos dizer que seu terrível recado ainda não foi escutado por todos.

Um prédio em decomposição é a derrota da aparência para a funcionalidade. Como se aquela estrutura fosse uma obra de arte cujo impulso inicial foi dado pela Razão. Ela o criou com sua auto-suficiência e seu entusiasmo às cegas, mas após esse gozo precoce retirou-se, deixando o corpo, indefeso, entregue às forças lentas do Inconsciente, da Natureza e do Acaso.  Uma ruína é cega e julga-se invisível, mas está sempre brotando na paisagem como um dente podre no sorriso de um candidato ou “o câncer que nasce nos lábios da miss”.


sábado, 12 de janeiro de 2013

3081) O texto e o resto (12.1.2013)





Quando a Jovem Guarda tomou conta do Brasil de 1965 em diante (mais ou menos), e Roberto Carlos fazia estremecer a Tradicional Família Brasileira berrando seu slogan punk-satânico “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno”, a Igreja Católica começou a constatar uma enorme evasão dos jovens, que antes eram obrigados pelos pais a assistir a missa todo domingo. A missa estava agora às moscas, porque a galera só queria saber dos carangos, das garotas papo-firme, das botinhas sem meia. Deve ter havido algum serão no Vaticano, e eles tomaram uma sábia decisão: toda missa agora teria um conjunto de iê-iê-iê (o termo “banda de rock” não existia ainda) tocando as músicas do momento, para atrair os jovens de volta. Dito e feito. Os jovens afluíam à catedral para ver os conjuntos; mas assim que o conjunto parava de tocar ia todo mundo embora e o padre ficava pregando no deserto.

Me lembro disso quando vejo o mercado editorial discutindo certas vantagens do livro eletrônico, principalmente quando se fala no livro eletrônico infantil. A vantagem do livro eletrônico, por exemplo, é que além das ilustrações coloridas ele tem ilustrações animadas e sonoras. Não mostra apenas um patinho cor-de-laranja na lagoa azul: o patinho consegue nadar de um lado para o outro, a água se espalha em ondas, e apertando um botão ouve-se o “quac, quac” inconfundível. E assim por diante.

Minha questão: o uso de animações, sons, imagens em movimento nos livros infantis não iria justamente afastá-los do mais importante, o hábito de ler um texto?  Quando os padres católicos começaram a chamar os conjuntos de Jovem Guarda queriam atrair os jovens para ver a missa, mas de nada adiantou – os jovens só se interessavam pela Jovem Guarda que eles ofereciam. No caso dos livros, a infância é um momento crucial para a criança, em fase de alfabetização, descobrir o prazer de ler o texto, de sair soletrando letrinha por letrinha, formando o som das palavras e evocando através delas as idéias correspondentes. Um livro de literatura deve privilegiar o texto, não o resto.

Reconheço inclusive o importantíssimo papel das ilustrações nos próprios livros de papel: sei de livros infantis meus que venderiam muitíssimo menos se fossem apenas o texto nu, o preto no branco da folha. Mas a melhor maneira de tirar os guris da frente da TV e atraí-los para o livro não é transformando o livro numa sucursal da TV. Os textos, as palavras escritas, são o objetivo do livro. São um desafio e uma recompensa que é impossível obter de outra forma. Se não fizermos uma pessoa começar a amar o texto na infância, que chance haverá de que ela o ame no futuro?



sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

3080) Alegria de pobre (11.1.2013)






Tempos atrás, durante um trabalho que fiz para TV, vi dezenas de entrevistas com estrangeiros que vivem no Brasil ou que conhecem bem nosso país.  Perguntava-se a eles por que motivo gostavam do Brasil, dos brasileiros, o que achavam que havia de especial em nossa terra.  Algumas respostas repetiam-se, com insistência.  Uma delas era que os brasileiros são geralmente alegres, “inclusive os pobres”, diziam eles com espanto.

O que faz pessoas muito pobres serem alegres? E a questão não é apenas serem pobres, é estarem mergulhados em outros problemas, resultantes ou não da pobreza: doença, violência, etc. Ainda assim, uma grande parte dessas pessoas (claro que não são todas) consegue, no meio dos problemas, rir, brincar, dizer piadas ao longo do dia, reunir-se para cantar, dançar, etc.  Visitantes que vêm de países mais ricos e mais soturnos ficam perplexos diante dessa aparente alienação. Já ouvi comentários tipo “se não passassem o domingo tocando violão e bebendo cachaça, talvez já estivessem numa situação financeira muito melhor!”. Pra vocês verem o quanto gente rica pode ser obtusa.

Acho que esses pobres descobriram uma coisa elementar: o nosso estado de espírito (alegria ou tristeza) resulta em grande parte de uma decisão nossa. É decisão nossa ficar alegre ou ficar triste. Como quem diz: “Já que estou lascado, pelo menos vou ficar alegre durante algum tempo, pra desgraça não ser completa”. E ficam de fato alegres, mas não devido ao violão e à cachaça. Ficam porque escolheram. Por outro lado, um sujeito mais “bem de vida”, com casa própria, com poupança, bem de saúde, etc., pode perder o emprego e ficar em depressão, mesmo sem problemas urgentes batendo à sua porta. A depressão é também uma decisão sua, mesmo que seja uma decisão meio inconsciente. Ele está mergulhado numa ética meio calvinista, de que “o trabalho enobrece”, de que nossa existência se define pelo trabalho que executamos. E quando o cara está sem trabalho sente-se inferiorizado, amputado, impotente. E para ele a reação moralmente correta é entristecer-se com isso. No Japão, p.ex., acontece muito.

Tanto alegria quanto tristeza podem estar embutidas em nossa cultura coletiva, podem ser consideradas reações normais numa cultura e moralmente condenáveis em outra. Num indivíduo, claro, podem ser influenciadas por fatores genéticos, pelos distúrbios da química interna de cada um. Mas em grande parte derivam do fato de que certas culturas consideram a alegria uma resposta legítima a uma situação difícil e impossível de resolver pela própria pessoa; e outras culturas louvam a tristeza como uma resposta mais honrosa, mais moralmente nobre.



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

3079) Leitura e diversão (10.1.2013)




(ilustração: Valentine Rekunenko)


Qual seria o motivo sério que poderíamos opor ao da leitura por diversão, por entretenimento? Estudo, pesquisa? Aprimoramento espiritual? Elevação intelectual? Isso pode até ocorrer, mas não é em função disso que eu leio, e acho que o mesmo ocorre a muita gente. 

Quando leio autores ditos difíceis estou disposto a investir um certo esforço em busca de uma experiência mental que eu não teria de outra forma. Quando leio para me divertir, procuro um livro que não vai me exigir muito esforço e que provavelmente vai me dar uma experiência não-problemática, relaxante. 

Claro que de pessoa para pessoa essas receitas variam. Ler Guimarães Rosa (a cujo estilo estou habituado) para mim é uma diversão, mais do que ler certos autores jovens de hoje, nos quais preciso passar meia hora em cada página, porque eles usam uma organização de prosa com que não tenho familiaridade.

A literatura nos propõe uma “experiência recompensadora”. Lemos livros para viver indiretamente experiências alheias, projetadas nos personagens e situações que imaginamos a partir dos textos. Essas experiências são recompensadoras de vários modos, dando-nos acesso a uma percepção da vida humana mais intensa do que a da vida real, porque é uma experiência distanciada. 

Uma experiência maleável: podemos voltar atrás e reler um capítulo inteiro, aprofundando e enriquecendo a primeira leitura. 

Experiência virtual: o caráter não concreto da experiência nos permite vivenciar situações que não ousaríamos vivenciar na vida real, ou que, se vivenciadas, nos trariam mais ansiedade do que prazer (histórias de terror ou de violência, p. ex.). 

Experiência impermeável: com exceção dos efeitos psicológicos, nada do livro passa para a vida do leitor, nada contamina seu corpo, nada o atinge fisicamente.

O que nos diverte, afinal, lendo um criador de situações torturadas como Dostoiévski? Em casos assim, a diversão não nasce das situações em si (elas são muitas vezes penosas) mas do fato de que podemos vivenciá-las sem compromisso, sem nenhum grau de envolvimento que não dependa unicamente de nossa decisão. 

A angústia dostoievskiana é só dele, e podemos até usá-la como um recurso que nos faz retornar mais relaxados para uma vida real em que tragédias íntimas daquela dimensão raramente acontecem. 

Por outro lado, se o livro nos propõe uma “realidade projetada” que gostaríamos de experimentar sem reservas (uma história de amor feliz, uma história, engraçada, etc.), basta-nos reduzir o foco de distanciamento e mergulhar de cabeça no mundo da narrativa; esta é a experiência proposta pela ficção dita escapista ou de mera diversão.



quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

3078) Checkpoints (9.1.2013)





O conceito de checkpoint é típico da informática e pode ser decisivo para a trans-humanidade do futuro, quando formos capazes de transferir nossas mentes para um suporte eletrônico (“copiar meu cérebro inteiro num pen-draive”). Nos games de ação, o checkpoint é aquele ponto ao qual você retorna toda vez que morre.

Digamos que é um jogo de II Guerra Mundial. Você está oculto no mato, numa colina, vendo lá embaixo uma ponte que precisa atravessar. Na cabeça de cá da ponte há uma pequena casamata de proteção, ocupada por inimigos. Você desce a colina atirando granadas, disparando a metralhadora. Os soldados da casamata respondem ao seu fogo. Ao chegar perto, você é atingido e morre. Black-out. Quando você recomeça, está de volta ao checkpoint, que é no mato, sobre a colina.

Mas digamos que você desce atirando, mata os inimigos e se refugia dentro da casamata. Você conquistou este ponto, e ele é agora o seu checkpoint. Sua tarefa passa s ser cruzar a ponte sob fogo inimigo e chegar ao lado oposto, onde há um jipe abandonado que pode ser útil para fugir. Você corre pela ponte, atirando. Se for atingido e morrer, você já não volta para o mato, na colina; volta para a casamata, um checkpoint mais avançado. Desse modo, cada posição conquistada faz com que você não precise recomeçar o jogo do zero, e assim você vai avançando.

Quem usa computador, quando precisa dar uma mexida mais profunda, dispõe de um recurso de salvar as configurações do sistema no momento atual, antes de começar a fazer alterações. Se der uma zebra, é para esses estado de coisas que você volta, quando botar ele para funcionar de novo. O mesmo quando a gente aperta “Ctrl + B” para salvar um arquivo. Se o computador apagar de repente, está tudo salvo até aquele ponto.

Uma utilização clássica desse conceito na FC é uma série de contos de John Varley, dos quais o mais famoso é “The Phantom of Kansas” (1976), em que a memória humana é salva em bancos e transferida para um novo corpo, quando a pessoa morre. Digamos que o cara salvou sua memória em 1 de janeiro pela última vez; se ele morrer no dia 15, ao despertar está de volta ao estágio anterior, e só perde o que lhe aconteceu nestes últimos quinze dias. A solução seria salvar de minuto em minuto – o que seria impraticável. Essa diferença (memórias recentes não recuperáveis) dá origem a tramas policiais, de mistério, etc., porque o personagem é capaz de “ressuscitar” mas está com “amnésia” quanto aos dias mais recentes. Ele só lembra o que lhe aconteceu até o checkpoint, ou seja, a última vez em que salvou sua própria personalidade no Banco. É um retrato literariamente plausível de um cenário futuro.



terça-feira, 8 de janeiro de 2013

3077) "Estrela Distante" (8.1.2013)






Este romance curto de Roberto Bolaño (1996) saiu pela Companhia das Letras e depois (a edição que tenho) na coleção da Folha de S. Paulo de capa dura, vendida nas bancas. O autor explica, numa nota inicial, que é uma expansão do último capítulo de seu A Literatura Nazista na América, coletânea de contos sobre escritores imaginários, um exercício meio borgiano em que Bolaño imagina toda uma fauna de nazistas, fascistas e simpatizantes da direita em geral, produzindo poesia, romance e até mesmo ficção científica no continente americano. O autor dedicou-se a expandir a história daquele último personagem, transformado aqui em Carlos Wieder, tenente da força aérea chilena, torturador, serial killer, que se infiltra como espião em grupos de poesia de vanguarda.

Essas biografias fictícias são o espaço ideal para Bolaño desenvolver sua prosa, jornalística no que este termo tem de melhor. Descrições breves e vívidas, com mergulhos ocasionais e surpreendentes na subjetividade do narrador, que na maior parte do tempo está apenas reconstituindo e comparando suas próprias lembranças e as lembranças alheias. Como em Os Detetives Selvagens (http://bit.ly/WnNhCq), Bolaño monta o mosaico do personagem de fora para dentro; não temos acesso à consciência de Wieder, e na verdade pouquíssimas falas suas são reproduzidas. Vemos o monstro pelo lado de fora, pelos relatos de como ele cruzou na vida de numerosas pessoas. Se bem que o narrador de Bolaño ousa descrever (sob o pretexto de estar supondo, estar imaginando como as coisas aconteceram) até mesmo um dos mais arrepiantes crimes do chileno.

Wieder é um criminoso que incomoda até os fascistas. O capítulo 6 narra o episódio em que ele cai em desgraça dentro do regime Pinochet, pela sua ousadia, crueldade e morbidez desafiadora. Lembra o nazista culto do conto “Deutsches Requiem” de Borges; lembra por outro lado o personagem de Dirk Bogarde no filme O Porteiro da Noite de Liliana Cavani. Tem a serenidade dos psicopatas movidos a certeza: “dominante, seguro, os olhos como que separados do corpo, como se olhassem a partir de outro planeta”. O narrador do livro (um possível Bolaño que jamais diz o próprio nome) cita um oficial de Pinochet para quem Wieder “não fez mais do que aquilo que todos os chilenos tiveram de fazer, deveriam ter feito ou quiseram mas não puderam fazer”. Na terrível reta final, o narrador diz: “Esta é a minha última transmissão a partir do planeta dos monstros. Não mergulharei nunca mais no mar de merda da literatura. De agora em diante, escreverei meus poemas com humildade e trabalharei para não morrer de fome e não tentarei publicar nada”.



domingo, 6 de janeiro de 2013

3076) A base da música (6.1.2013)





A música se compõe de ritmo, melodia e harmonia. Não sei se está assim nos compêndios musicais, mas é assim que está no meu ouvido e no meu entendimento. O ritmo é a sucessão de batidas fortes e fracas (acentuadas e não-acentuadas), a ordem que elas criam e as aparentes desordens que logo se revelam (idealmente) como ordens mais complexas e menos previsíveis, mas que a gente percebe depois de algum tempo. Ritmo é a parte mais básica da música. É algo que pode ser criado batendo com a mão na mesa ou o pé no chão, estalando ou tamborilando com os dedos... É a camada mais primal. Bebês incapazes de acompanhar uma melodia são sensíveis ao ritmo. O ritmo na música popular consiste basicamente na repetição das mesmas sequências de acentos fortes e fracos.

Uma melodia é uma sucessão de notas musicais no tempo, quando elas parecem estar contando uma historinha abstrata de tensões e relaxamentos, ascensões e quedas, avanços e recuos, percursos em linha reta e desvios inesperados. Cada cultura tem seu idioma melódico próprio; basta ouvir um CD de música folclórica chinesa ou indiana. Há pessoas com sensibilidade e imaginação melódica que são capazes de criar melodias mentalmente, cantarolando, sem saber tocar o mais simples instrumento. (Rosil Cavalcanti era assim.) Outros têm, como a gente diz, o “ouvido duro”, tapado, que só às custas de muito esforço consegue perceber as sutilezas melódicas. De um modo geral, não há ouvido tão duro que não possa ser educado até certo ponto. Meu ouvido é duro, e eu o eduquei na marra.

Ritmo e melodia são as coisas que mais chamam a atenção e mais “pegam” no ouvido das pessoas, e é nesses dois aspectos que se baseia a canção popular mais direta, mais simples: marchinha de carnaval, rock, forró, samba, etc.  Já a harmonia é uma conquista conceitual mais complexa – é o efeito estético produzido por duas ou mais notas soando juntas. A harmonia tem também uma “melodia” própria, porque uma sucessão de acordes bem concatenados pode causar um efeito estético equivalente ao de uma sucessão de notas. Dentro de uma sucessão harmônica é possível encaixar inúmeras melodias. Sambistas, bluesmen, etc. são especialistas nisso. É possível pegar a harmonia de “Garota de Ipanema”, acorde por acorde, e compor uma melodia nova que só vai guardar uma distante semelhança com a melodia original. Muitas acusações apressadas de plágio são feitas porque uma canção usa a mesma harmonia de outra já existente, mas cria uma melodia diversa em cima dela, ou seja, usa a mesma base para compor uma nova obra. O ouvinte percebe a semelhança, sem entender inteiramente o porquê, e fala em “plágio”.




sábado, 5 de janeiro de 2013

3075) O corpo (5.1.2013)






Tudo que a gente deseja é a certeza de que está vivo. Porque somos bichos, somos criaturas de carne, osso e sangue. Só se tem essa certeza através do corpo, pois a mente engana muito. 

Gente que come demais, que faz sexo demais, gente que malha demais, que corre, que sua... Todos fazem isto porque naquele instante privilegiado têm a certeza de que estão vivos, de uma maneira que um sujeito mais mental não tem. O corpo não mente.

A mente mente, pois basta-me ler Dostoiévski para me imaginar em Moscou, basta sonhar para estar noutro mundo, e nada me prova que não sou um mero avatar, um “carinha” manipulado por um jogador ultradimensional que neste instante deve estar dando uma boa gargalhada ao ler esta frase que digitei. 

A mente engana porque se recria muito bem, é capaz de superpor à realidade física uma realidade subjetiva, projetada.  E aliás é pra isso que a mente serve, não é mesmo? Se fosse só para enxergar o que temos diante do nariz, nem precisava.

Já o corpo, é uma coisa só, o tempo todo, sem esbarrar, apenas sentindo seus calores e frios, suas fomes e empanturramentos, sua dor e seus deleites. O corpo é apenas ele mesmo, bruto, concreto, descomedido. O corpo não sonha.  Para ele existe apenas o aqui-e-agora.

A tragédia de quem vive em coma profundo é ter-se tornado mente, somente.  É estar preso na própria mente sem sentir o próprio corpo, sem o contato com a vida que só se tem através do corpo. 

É por isso que a idéia Trans-humanista de que um dia poderemos fazer “upload” de nossas consciências para um Hiper-Ultra HD me parece fascinante mas impraticável. Supondo que eu pudesse tirar uma cópia instantânea, agora mesmo, de tudo que guardo nos meus vários níveis de (in)consciência e depois cremar meu corpo, como essa minha mente existiria a partir de então?  Como, sem esse espantoso instrumento de input sensorial que é o corpo? 

Pensem na nossa pele, nos milhões de nervos, nos sistemas nervosos autônomos, nos processos circulatórios, digestivos, respiratórios e musculares que ocorrem o tempo todo e que nossa mente monitora o tempo todo, só nos deixando lembrar dessas coisas quando uma delas começa a doer ou dá um piripaque. 

Mente digital sem corpo? Duvido. Ela se dissolveria em entropia de signos, de memórias desenraizadas, de imaginações sem bússola, uma ventania de pensamentos em todas as direções, sem a vida pulsando no corpo para lhes dar lastro, presença, um centro de gravidade.  

Sem corpo nossa mente se dispersaria em sub-rotinas cíclicas em círculo vicioso. O corpo é nossa interface com o mundo, e sem ele nossa mente seria a lixeira da biblioteca de Babel, sem função e sem sentido.









sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

3074) Didáticos eletrônicos (4.1.2013)





Nas discussões sobre o livro eletrônico (os Kindles, e-books e assim por diante) tem havido uma ênfase muito grande sobre o modo como essa nova mídia vai afetar a Literatura. Fala-se, p. ex., no perigo da disseminação rápida e incontrolável de versões não-revisadas (ou cheias de erros) de clássicos literários. O erro não é privilégio do texto eletrônico: eu tenho antologias-de-papel de Drummond e de Augusto dos Anjos, lançadas por editoras respeitáveis, com erros de revisão, versos fora do lugar, etc.  Fala-se, pelo lado positivo, na possibilidade de versões em hipertexto (edições críticas, p. ex.) desses mesmos clássicos, pois o livro eletrônico permite encher um texto de notas, observações, variantes, links informativos, etc., e esconder isso tudo com um simples toque numa tecla. Quando o leitor quiser ter acesso a isto, outro toque e o material crítico reaparece. Pra mim, isso é uma maravilha.

Existe outro departamento, contudo, onde o livro eletrônico tem tudo para crescer: é o livro didático.  Pensem em livros de Matemática, Biologia, Física, História, Geografia, Química, em que seja possível ramificar e ampliar indefinidamente a discussão de cada assunto. Pensem na possibilidade de livros didáticos que se tornem mini-enciclopédias em processamento constante, atualizando conteúdos (principalmente nas ciências humanas – História, Geografia, etc.). Pensem em livros eletrônicos de Matemática ou Física em que os problemas possam ser organizados de diferentes maneiras – por grau de complexidade, por tema, etc. Pensem na possibilidade de estudar Química ou Geometria com pequenas (e baratíssimas!) animações através de Flash ou de imagens Gif.

Já fiz parte de equipe de uma enciclopédia, e lembro que quando começou a tal da Internet nossos olhos brilhavam ao imaginar que finalmente o que fazíamos não estaria desatualizado e superado pelos fatos dentro de poucos meses. Além disso, todo mundo que tem filhos na escola reclama do alto preço do livro didático. É talvez o mercado mais disputado do mundo editorial, briga de cachorro grande. Esses big-dogs bem que poderiam se eletronizar, se agilizar, começar a investir na criação de webs paralelas em que o material de estudo fosse adquirido por assinaturas anuais. Conteúdos interativos, permanentemente atualizados, com enormes bancos-de-dados com exercícios, testes, problemas, links externos e tudo o mais para quem quisesse aprofundar as questões.  Ao invés daquelas mochilas cheias de livros pesadíssimos, vergando a espinha dos adolescentes, pequenos tablets com milhões de informações ao alcance de um toque. As possibilidades, como sempre, são infinitas.



quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

3073) Ser brasileiro (3.1.2013)




(Tarsila do Amaral)


Manuel Schneider é um alemão que mora em Curitiba e tem um blog (em inglês) sobre assuntos variados (aqui: http://bit.ly/X5SsHF). Numa postagem recente, ele enumerou 100 características dos brasileiros que lhe chamam a atenção, e na grande maioria ele acerta na mosca. Muitos são os clichês de sempre – a paixão dos brasileiros pelo futebol, pela caipirinha, pela praia, pela música. Mas é sempre útil a gente saber como alguém nos vê de fora. Sempre com a ressalva, é claro, de que dizer “os brasileiros” é uma espantosa generalização. O próprio autor percebe isso indiretamente quando diz, em seus itens numerados: “45. Os brasileiros parecem achar que os alemães bebem cerveja morna e comem salsicha (e chucrute) todos os dias. 46. Os brasileiros acham que os franceses jamais tomam banho”.

Ele diz: “22. É uma prática comum dos brasileiros cancelar encontros na última hora. Por sorte, ninguém nunca fica aborrecido com isto”.  Parece com aquela antiga máxima (que eu aprendi na própria Bahia) de que a maneira mais fácil de se esconder de um baiano é marcar um encontro com ele e comparecer. Dizer que ninguém se chateia é generalização (eu me chateio, e muito), mas eu diria que a gente sempre está preparado para essa eventualidade, e em geral já tem um “plano B”. O europeu não imagina que isso aconteça, e é pego de surpresa.

Outra que achei curiosa: “38. Brasileiros adoram compartilhar pizza. Nunca vi ninguém aqui comendo uma pizza sozinho”. Isto bate exatamente com a minha experiência pelo sentido oposto, porque sempre considerei a pizza um prato coletivo. Uma pessoa sentada sozinha num restaurante comendo uma pizza me chamaria a atenção.

Diz Schneider: “64. Já encontrei uma quantidade inacreditável de brasileiros que trabalham com enorme eficiência durante longas horas e estudam à noite ou nos fins de semana”. Eu concordo, e acho injusto quando nos comparam com coreanos ou japoneses que estudam/trabalham 16 horas por dia ou sei lá quanto. O mito de que o brasileiro não gosta de estudar nem de trabalhar é uma idiotice.

Mais um: “74. Os brasileiros são um povo muito flexível; eles tendem a mudar de emprego de 6 em 6 meses”.  O número em si é uma mera abstração, mas já vi muitos amigos estrangeiros impressionados com o modo como mudamos de vida sem muito problema e estamos sempre prontos para zerar tudo e recomeçar. O brasileiro adora ser freelancer, ser autônomo, fazer de tudo. Melhor do que isso só ser funcionário público com um belo salário (o que ele reconhece no item 69). E finalmente uma que achei divertida: “53. Nem todas as mulheres brasileiras são extremamente ‘quentes’. Algumas são apenas ‘quentes’”.