terça-feira, 19 de junho de 2012

2900) Harry Stephen Keeler (19.6.2012)



(esquema de uma "webwork" de Keeler)

Existem artistas que a gente admira mas não curte, e artistas que a gente curte mas não admira. Há grandes romancistas cuja prosa nos entra por um ouvido e sai pelo outro sem que o sismógrafo do cérebro sofra o menor estremeço. E há romancistas que reconhecemos serem menores, romancistas a quem obviamente faltam certos requisitos, mas que nos despertam um fascínio permanente.  

É o caso de um dos grandes excêntricos da literatura dos EUA, Harry Stephen Keeler (1890-1967), autor de uma obra gigantesca, disforme, muitas vezes canhestra, de vez em quando brilhante, com rasgos estilísticos que fariam encabular um ginasiano e com enredos de uma complexidade que faz Thomas Pynchon parecer um minimalista. Bem – comparar com Pynchon não adianta, porque Pynchon é um keeleriano sem os defeitos de Keeler.  Digamos: Balzac.

Keeler criou um processo, chamado de “webwork”, para compor seus enredos complicados, com dezenas de personagens, centenas de situações entrecruzadas, pistas falsas, confusões de identidade, coincidências e anti-coincidências (=quando algo que deveria acontecer não acontece). 

Escreveu quase 100 romances, e olha que o romance típico dele não tem menos de 400 páginas (muitos, por alguma razão, são traduzidos em Portugal). Mantinha um gigantesco arquivo de recortes de fatos estranhos, bizarros, inesperados, que usava em suas narrativas de crime e de FC. 

Sua homepage (http://bit.ly/bWvEZl) dá exemplos de sua prosa saborosa, inusitada, meio desconexa, em romances como O Enigma da Caveira Viajante, O Rosto do Homem de Saturno, O Caso dos 16 Feijões, O Mistério do Periquito de Madeira, O Homem que Mudou de Pele, etc. Sua volúpia fabulatória não tem paralelo, bem como seus extraordinários sistemas de criação de enredos.

Falei que não admiro Keeler? Falei mal. Poderia dizer, como o Conselheiro Acácio, que admiro suas qualidades mas não seus defeitos. E a verdade é que os defeitos (a prosa muitas vezes canhestra, as situações improváveis e forçadas, os personagens que não parecem pessoas mas meras funções para desencadear peripécias) só são considerados como tal num sistema de valores que visa à produção de uma prosa produzida noutro nível de realidade.  Criticamos Keeler com instrumentos feitos para medir Balzac (que aliás era combatido, em sua época, por críticos que usavam instrumentos pré-Balzac). 

A editora independente Ramble House imprime seus livros por demanda (http://bit.ly/9KpjZy); suas frases inimitáveis podem ser seguidas no Tweeter através de @HarrySKeeler. Era um homem obsessivo, trabalhador incansável, e fundou um império habitado por ele só.







domingo, 17 de junho de 2012

2899) Drummond: "Moça e Soldado" (17.6.2012)





Dizem os que conheceram Carlos Drummond que ele era um desses paqueradores meio tímidos, que ficam circulando pela rua, de olho nas moças que passam.  Não sei se isso é verdade ou se é uma auto-sugestão das testemunhas, influenciadas pelos inúmeros poemas em que o autor se descreve fazendo exatamente isto. Circular pelas avenidas cheias de gente, sempre de olho atento nos atributos das moças em volta, seguindo esta ou aquela no mesmo passo, é uma grande Arte; ainda mais quanto o poeta é mineiro, casado e não tem intenção de fazer assédio, de incomodar, de abordar moças na rua.  Ele não quer “nada além de uma ilusão”.

“Moça e Soldado” é um dos poemas do seu livro de estréia (Alguma Poesia, 1930) em que ele se dedica a esse esporte. “Meus olhos espiam / a rua que passa. / Passam mulheres, / passam soldados”.  O detalhe cinematográfico do poema é a angulação voltada para baixo, rumo às pernas dos passantes: “Meus olhos espiam / as pernas que passam. / Nem todas são grossas... / Meus olhos espiam. / Passam soldados. / ...mas todas são pernas.”  De olhos baixos, o poeta se livra de cruzar os olhos com as possíveis ofendidas, e aproveita para avaliar o torneado das pernocas.  No “Poema de 7 faces” que abre o livro, ele já se perguntava: “Pra que tanta perna, meu Deus?”.

O poema faz o paralelo constante entre as “moças bonitas feitas para namorar” e os “soldados barbudos feitos pra brigar”.  A época era de conflagração política, e aquelas ruas deviam ser de vez em quando invadidas por soldados, ora desfilando, ora de folga. E o poeta compara as pernas que passam marchando ao som de “tambores e clarins”, e as pernas que simplesmente passam.  Passam para brigar, e passam para namorar; e Drummond conclui com sua melancolia recorrente: “Só eu não brigo. / Só eu não namoro”.  Essas duas provas de masculinidade lhe são vedadas; ele inveja os soldados, deseja as moças, mas pressente que os dois existem num mundo mais saudavelmente animal do que o dele.

Este espírito de paquerador peripatético seria mais bem descrito por Drummond em seu livro seguinte, Brejo das Almas, no poema “O procurador do amor”, onde ele diz: “Meu olhar desnuda as passantes. / Às vezes um bico de seio / vale mais que o melhor Baedeker”.  Baedeker eram os famosos guias turísticos do começo do século, publicados na Alemanha, muito ricos em informação. Ele diz: “O andar, a curva de um joelho, / vinco de seda no quadril / (não sabia quanto eras pura), / faço a polícia dos ‘dessous’”. O termo francês tanto se refere à parte de baixo quanto às roupas íntimas femininas. Que o poeta flâneur não perdia de vista nem de imaginação.

sábado, 16 de junho de 2012

2898) Manipulando textos (16.6.2012)



Vejam só que episódio mais pulga-atrás-da-orelha. Philip Howard é um blogueiro que mora na ilha de Ocracoke, na Carolina do Norte. Talvez eu esteja comprando gato por lebre, e ele seja apenas mais uma farsa ou pegadinha internética; mas dessa suspeita nenhum de nós, que somos de carne e osso, escapa. Então, suponhamos que ele existe mesmo e que no seu blog relatou uma estranha descoberta (http://bit.ly/L5d9wk).

Philip estava lendo Guerra e Paz de Tolstoi, livro que pode ter mais de mil páginas, dependendo da edição. Para a mão não cansar, Philip comprou um e-reader Nook, fornecido pela cadeia de livrarias Barnes & Noble. A certa altura ele leu uma frase com um verbo estranho. A frase era: “"It was as if a light had been Nookd in a carved and painted lantern...." Mais ou menos: “Era como se uma luz tivesse sido ????? numa lanterna entalhada e com pinturas...”. Ele não entendeu essa palavra “Nookd”, mas aquilo se repetiu outra vez, e outra. A repetição confirmou sua suspeita inicial: em todo o texto daquela tradução a palavra “kindle” (que por acaso é a marca do e-book da Amazon, maior rival da B&N) havia sido substituída por “Nook”, a marca do seu próprio leitor eletrônico. Isto é mais ou menos como você abrir um e-book de História do Brasil e ver que todas as vezes que o nome de Vasco da Gama aparece ele está substituído por Flamengo da Gama.

Philip comenta: “Alguém na B&N – um funcionário de 20 anos? o Diretor Geral? – tinha programado essa substituição”. Certamente (digo eu), sem dar atenção a incidências inesperadas (e mudanças indesejadas) de outras palavras. Deve-se ter sempre cuidado com a melíflua sugestão informática: “Substituir tudo”. Metade dos meus cabelos brancos com revisão de textos devem-se a ofertas deste tipo. O problema maior, no entanto, diz Philip, é não sabermos até que ponto o texto pode ter sido manipulado.  Se eu nunca li o livro, se eu não conheço a obra de Tolstoi, não sei ler em russo...  Que tipo de segurança, de confiança, posso ter a respeito da autenticidade daquilo que estou lendo?

Até parece que foi o livro eletrônico que inventou esse tipo de insegurança, mas devem ter sido a Arte da Cópia, primeiro, a Arte da Tradução, depois, e a Imprensa, por fim. Como podemos confiar na honestidade moral e intelectual (para não falar na competência técnica) de milhões a quem coube entender, traduzir, examinar, copiar?  Cada vez que uma informação passa por uma mente humana ela é refratada, como a luz passando através da água. O livro eletrônico e seu “substituir tudo” são apenas a ampliação desse risco antigo, e a introdução de novos dilemas cruciais de ordem técnica.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

2897) Primeiríssimas Estórias (15.6.2012)








Antes de estrear em livro com Sagarana, em 1946, Guimarães Rosa já tinha escrito outras obras que depois não quis publicar.  Uma delas foi o volume de poemas Magma, de 1936, com o qual chegou a ganhar um concurso, e que só foi oficialmente publicado em 1997. Estes 61 anos são um intervalo longo demais para um livro aparecer? Pois prestem atenção neste outro, que saiu no ano passado pela Nova Fronteira: Antes das Primeiras Estórias, organizado por Janaína Senna, reunindo contos publicados entre 1929 e 1930, ou seja, um intervalo de 82-83 anos entre publicação em periódico e publicação em livro.

Em meu livro A Pulp Fiction de Guimarães Rosa (Ed. Marca de Fantasia, João Pessoa, 2008) analiso estes contos que Rosa publicou, quando tinha 21-22 anos, em O Jornal e na revista O Cruzeiro. Minha primeira informação sobre eles veio de um artigo publicado por Ivan Teixeira no Estado de São Paulo (26.9.1992). Na Biblioteca Nacional, no Rio, consultei os originais, copiando longos trechos com lápis de grafite, para poder escrever o meu comentário. Agora os quatro contos saíram na íntegra pela Nova Fronteira, com um prefácio elogioso de Mia Couto.

Qualquer leitor de Guimarães Rosa e qualquer admirador da literatura fantástica sairá enriquecido da leitura destes “contos de aprendiz”, que mostram o escritor mineiro, ainda verde, vivendo aquele momento quântico em que um rapaz inteligente e devorador de livros pode se transformar tanto num imitador da literatura alheia quanto num autor capaz de reinventar a literatura.  Rosa era um sujeito vaidoso. Todo mundo que escreve é vaidoso, mas alguns têm a vaidade dos perfeccionistas, para quem nada do que produzem está à altura de sua genialidade, e acham que precisam retrabalhar ainda mais o texto. São sinais evidentes disto o fato de que ele rejeitou Magma (um bom livro de poemas) e estes contos, onde passa do gótico (“O mistério de Highmore Hall”) para o “weird” (“Tempo e Fatalidade”), e da fantasia heróica ("Makiné”) para o regionalismo exótico (“Caçadores de Camurças”). Sem falar que passou cerca de oito anos retrabalhando os contos de Sagarana até achar que mereciam publicação. Os contos experimentais de Rosa talvez desagradem àqueles que têm em mente um Guimarães Rosa monolítico, categorizado, decifrado por fim. Eu gosto deles porque suas influências juvenis modificam e enriquecem a obra posterior, revelam camadas de sensibilidade e de prosa que, em retrospecto, vemos estarem presentes nos sertões futuros. O passado pode ser modificado quando uma nova descoberta nos traz novas revelações, e Guimarães Rosa ainda não disse tudo que veio dizer.


quinta-feira, 14 de junho de 2012

2896) Três contos de FC (14.6.2012)



(escultura: Jeremy Mayer)


O escritor Luiz Bras, no jornal Rascunho (Curitiba) promoveu uma enquete informal entre leitores de ficção científica, pedindo que votassem nos três melhores contos da FC brasileira. Fui um dos consultados, mas o pedido veio num momento caótico do meu cotidiano.  Quando me toquei, vi que não tinha respondido à pergunta de Luiz. O conto mais votado foi “A escuridão” (1963) de André Carneiro, um dos grandes textos de nossa FC (eu o incluí na minha antologia Páginas de Sombra, de 2003).  Em todo caso, mesmo com atraso, aqui vão os contos que eu havia anotado e esqueci de enviar para a enquete.

Eu votaria em “Ma-Hôre” (1961) de Rachel de Queiroz, que incluí na antologia Páginas do Futuro (2011). É a história de um pequeno ser anfíbio em cujo planeta desembarca uma nave terrestre. Ele dá um jeito de entrar na nave, aprende a se comunicar mais ou menos com os astronautas, e ao subir com eles ao espaço começa a tramar um jeito de escapar. É um conto na linha tradicional da FC em que criaturas mais simples e mais primitivas conseguem, por sua engenhosidade, iludir membros de uma civilização mais tecnológica.

Votaria em “61 Cygni” (1960) de Fausto Cunha, que também incluí na antologia Contos Fantásticos de Amor e Sexo (Ímã Editorial, 2011). É a história assustadora de uma prostituta que, de madrugada, num beco escuro, se depara com um cliente muito fácil de satisfazer, porque sempre se satisfaz. É um conto cruel à maneira de Villiers de l’Isle Adam, e tem um final “slingshot” que projeta toda a história num outro nível de realidade. E votaria em “Dea mayor sperientiae”(1965) de Nilson Martello, disfarçado de crônica do século 14, relatando o encontro de um rei português com uma criatura extraterrestre, com direito a uma saborosa reconstituição/contrafação do português falado na época. Foi republicado por Roberto Causo em sua antologia Estranhos Contatos (Caioá Editora, 1998).

Escolhidos estes contos, percebi que eram todos de uma mesma época, e que eu não havia incluído nenhum conto contemporâneo, embora haja muitos deles de boa qualidade.  O que ocorre é que em enquetes assim nunca buscamos a surpresa, e sim o óbvio; buscamos textos que nos parecem tão bons ou tão importantes que ninguém ousaria discordar.  Um pequeno cânone em forma de pílula. São importantes para mim (não só estes, claro) porque os li antes dos 16 anos.  Eles me mostraram, a mim que lia de Ray Bradbury a Richard-Bessière, o que uma FC brasileira poderia fazer dentro do universo da nossa língua e da nossa intuição fabulatória. Eles me ajudaram a ter da FC brasileira uma alta expectativa literária, desde o começo.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

2895) Longe muitas léguas (13.6.2012)


A vida de um migrante sofre uma fratura que nunca mais desaparece. É como um vidro trincado: pode não ter perdido nenhum pedaço, mas aquela rachadura vai ficar visível para sempre. A tragédia dele começa pelo fato de que vai embora a contragosto: falta de trabalho, falta de oportunidades, guerra, catástrofes naturais (a seca, etc.)...  Vejam que estou excluindo dessa lista o sujeito que simplesmente decide ir embora do lugar onde nasceu, pelo simples prazer de conhecer lugares diferentes, ter novas experiências. Esse não é propriamente um migrante – é um viajante, um aventureiro, um cara que foi tentar a vida noutro país ou cidade. O migrante é o que migra a contragosto, o cara que, pela sua vontade, nunca sairia daquele lugar.

Na terra alheia, começa o processo de endeusamento e mitificação do lugar que foi abandonado. Ele pensa: “Nada do que eu vejo se compara ao que eu já vi”. O migrante sonha com uma Era de Ouro que é geográfica, em vez de histórica.  Uma Era de Ouro situada no espaço e não no tempo, na distância e não no passado.  Teoricamente, uma Era de Ouro à qual ele pode voltar um dia – basta ver o açodamento e a euforia com que voltam tantos.  Porém, toda viagem no espaço é também uma viagem no tempo, e quando o migrante retorna percebe que seu lugar de origem mudou, que seu pé de serra sofreu interferências, que sua Era de Ouro está toda azinhavrada.

Este é o motivo pelo qual tantos migrantes preferem não voltar.  Não querem passar pela decepção do protagonista de “Viagem aos Seios de Duília” de Aníbal Machado, um sujeito de meia idade que retorna à cidade natal para rever os seios de sua namorada adolescente, o que resulta num desfecho pra lá de previsível.  Nenhum par de seios resiste à ausência de quem os avistou uma vez, e nenhuma terra natal se preserva intacta e disponível, eternamente, à espera do migrante que a abandonou por motivos de força maior.

Melhor não voltar, e deixar que a memória fique tirando fotos de si mesma. Melhor deixar que essa memória seja contaminada pela imaginação, o que é mais embelezador do que contaminá-la de realidade. Na memória só muda o que nosso desejo ordena.  Todo migrante faz do lugar de onde partiu a sua nova “terra do sonho distante”; torna-se um migrante ao contrário, que todos os dias abandona o presente e foge na direção de um passado onde tudo acontece de acordo com seu desejo e nostalgia. E todo migrante é feliz porque a Era de Ouro de sua memória nunca foge, nunca se perde, nunca se deteriora. Pelo contrário: todos os dias é aperfeiçoada, burilada por esse retorno incessante de quem criou uma miragem maior e mais duradoura do que os desertos.

terça-feira, 12 de junho de 2012

2894) Budista Tibetano 234 (12.6.2012)






Procurei o meu Mestre logo após o trimestre das Cerejeiras, e o encontrei lavando folhas de chá. “Olá, Kagyu. Ouvi dizer que teu pai havia sido preso”. Ainda ofegante pela subida da encosta, respondi: “Por dois dias apenas, mestre, e logo foi solto.  Houve um equívoco”.  “Um equívoco?!” disse ele. “A prisão ou a soltura?”. Expliquei: “Confundiram-no com alguém que tinha agredido uma família, mas ele foi solto assim que um dos agredidos concordou em fazer o reconhecimento”.  “O que poderia ter acontecido dois dias antes”, observou ele. “Claro, mas quem somos nós para discutir com a lei”, disse eu.  Pobre só tem razão quando pede desculpas.

O mestre perguntou a razão da minha vinda. Expliquei que decidira tornar-me um contador de histórias, não um sacerdote. “Bastaria essa frase para comprovar que tens pelo menos metade da razão”, disse ele, “porque nenhum homem com vocação de sacerdote diria o que acabas de dizer. Se serás contador-não-sei-das-quantas é problema teu, mas sacerdote não tens a menor condição de ser”.  Acolhi com resignação aquelas palavras que já esperava e beijei-lhe a mão. “Mestre”, continuei, “deves lembrar que ainda me deves uma resposta”. “Sem dúvida, disse ele, “porque dei-te a nona resposta no Mês do Vento passado, era algo que dizia respeito a um silogismo, não?” Ele virou-se meio impaciente e saiu andando.  Acompanhei-o na direção do pequeno pavilhão onde ele tinha sua oficina manual. “Sim, mestre”, insisti, “mas quero saber só mais uma coisa”.  Segurei-o pelo braço, mesmo vendo-o apressado.  Mas eu tinha que perguntar aquilo. “Como se conta uma história?”.

Ele parou, olhou em volta, apontou uma pedra no jardim. “Estás vendo aquela pedra, que parece tão pesada, tão sólida?” “Sim”, respondi. “Achas que posso fazê-la levitar?” Encolhi os ombros: “Mestre, como posso saber?”. “Então, olha”, disse ele.  Fiquei olhando para a pedra. Em algum momento me pareceu que ela estremecera, que se movera um pouquinho de nada, mas fiquei o tempo todo atribuindo aquilo à auto-sugestão. “Chega”, disse ele, relaxando os ombros, e me conduzindo-me pelo braço encosta acima. “Por quanto tempo olhaste a pedra?”, perguntou. “Não sei, uns dois minutos talvez”, respondi. “De que cor era ela?”, perguntou ele. Meu estômago se fez silêncio e minha mente se fez um branco. “Cor?”, perguntei. “Desculpa”, disse ele, “esqueci de avisar antes qual a pergunta que iria fazer”.  Deu-me um tapa no ombro que me fez balançar. “E agora que encerramos a nossa atividade docente, vamos almoçar. Minha sacerdotisa pessoal preparou ninhos de andorinha à mongol, um prato especial para quem conhece sua origem”.

domingo, 10 de junho de 2012

2893) Arte personalizada (10.6.2012)






Falei algum tempo atrás na nova arte literária que consiste em pegar romances clássicos e misturá-los, de maneira irreverente, com histórias de terror.  O exemplo mais conhecido é Orgulho e Preconceito e Zumbis (2007), onde o romance de Jane Austen foi interferido por uma narrativa macabra de Seth Grahame-Smith. Aqui no Brasil a moda está pegando, e aí está meu comparsa Lucio Manfredi que não me deixa mentir, com seu Dom Casmurro e os Discos Voadores (2010).  Como isso se dá apenas com obras que estão em domínio público, não há nenhum problema jurídico.  O problema, se houver, é estético, pois muitos leitores têm uma certa noção da intocabilidade da obra, e se assustam com essas interferências. Eu não vejo nada de mais, pois elas não prejudicam nem Jane Austen nem Machado de Assis.  Isso me lembra a história daquele roteirista que adaptou para o cinema um romance famoso. Após o lançamento do filme alguém o acusou: “Você mutilou o livro de Fulano!”, ao que ele respondeu: “Não mutilei nada. Pode ir na livraria ou na biblioteca, o livro dele continua intacto”.  Pois é.  “Pobrema” era se a cada paródia ou a cada adaptação a obra original fosse modificada irremediavelmente.  Não é o caso.

Existe uma nova moda, agora. A editora U Star aceita encomendas para fazer pequenas tiragens de livros clássicos trocando os nomes dos personagens originais pelos nomes indicados pelo cliente. (Ver aqui: http://bit.ly/HSgvrd). Olha que presentão para o Dia dos Namorados: uma edição do Romeu e Julieta de Shakespeare em que os nomes dos protagonistas serão trocados pelos do encomendador e de sua namorada, passando a peça a intitular-se, por exemplo, Wandergleysson e Tábatha Semyramis.  O regulamento diz: “Após escolher o livro desejado, você deve indicar sua capa preferida e dedicar 5 minutos ao preenchimento de um formulário, fornecendo os detalhes para a personalização do livro, o qual será impresso exatamente de acordo com as informações que você prestou, com exatamente a mesma grafia. Recomendamos que examine este aspecto, inclusive as letras maiúsculas dos nomes e dos lugares. Não devolveremos o dinheiro em caso de erros de grafia”.

Aparecer com seu nome no lugar do nome de um personagem não é muito diferente de ir a um parque de diversões, ou a um restaurante como o Mangai, e tirar um retrato botando o seu rosto naquela abertura circular no rosto de um boneco. Uma brincadeira ingênua, como muitas outras que hoje podem ser feitas em 5 minutos no Photoshop. Mas algo me diz que a maioria das encomendas vai ser de gente querendo puxar o saco do patrão, dando-lhe livros em que ele se torna seu personagem preferido. 

sábado, 9 de junho de 2012

2892) Santuário (9.6.2012)


Matei três deles em combate leal, mas minha arma se partiu e o último conseguiu me derrubar, já exausto.  Quando voltei a mim estava com os braços amarrados às costas, enquanto ele me  puxava por uma corda, encosta acima, até a cratera. “Não quis ofender ninguém”, falei, mais uma vez, achando que não entendiam meu modo de pronunciar sua língua. “Não sabia que era um Santuário”.  Ele parou, recolheu a corda com rapidez, fazendo-me cambalear na sua direção, e me esbofeteou várias vezes. Era um homem enorme, e apesar de idoso devia ser muito mais forte do que eu. 

Continuamos subindo. Eu sabia onde estava. Tinha a idade em que a curiosidade satisfeita produz um intenso prazer, como se o simples fato de ter previsto uma coisa e ela de fato acontecer me transformasse numa espécie de Deus.  “Ouvi dizer que são eternos, que nunca morrem”, falei. “Não”, disse ele, e continuou, num tom de quem aceita algo sem compreendê-lo: “São como nós, só que seu arco de existência é muito mais amplo. Sua infância é longa, e sua velhice também. Assim como durante alguns anos nós precisamos ser protegidos de tudo, eles precisam de proteção durante alguns séculos, até se tornarem o que são.” 

Uma criatura com infância interminável, exposta, sujeita a ataques.  Isso não tornaria inteligente qualquer espécie?  Não é de admirar que quando ficam prontos nos pareçam onipotentes, avassaladores.  Uma criatura capaz de avaliar situações corretamente, prevenir-se, proteger-se.  Mas quando infantes não podem se proteger dos que além de inteligentes são curiosos, e além de curiosos são cruéis.  Eu não estava ali para constatar sua existência, que já era sabida.  Estava ali para matar um deles e levá-lo comigo, para provar que eram mortais como nós, que podiam ser observados, compreendidos, combatidos, derrotados.  Para mostrar que nenhum inimigo é um Deus.

O homem finalmente se deteve.  Sentou numa pedra à beira de um barranco e me puxou. Parei ao seu lado. A pedra da montanha se lascava bruscamente e descia, centenas de passos, numa face lisa e abrupta. Olhei para a cratera e vi aquela massa pulsante. A cavidade era feita de um calcário amarelado, e as formas pegajosas se aglomeravam em alguns pontos dela, como caroços numa romã. Arrastavam-se tateando, fugindo ao sol que reluzia em suas mucosas expostas, aninhavam-se uns aos outros para se proteger, cegos sob aquela luz.  Não eram dragões. Eram as criaturas vistas pelos primeiros que usaram essa palavra. Meu captor arrastou-me até um trecho, creio que a sudoeste. Abaixo, um manancial que escorria da rocha produzia um lodo espesso onde umas cem criaturas flutuavam. Ali ele me atirou.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

2891) Ray Bradbury 1920-2012 (8.6.2012)




(ilustração: John Sherffius)

Ray Bradbury escrevia bonito, e muitos leitores (e críticos) da FC dos anos 1950 se impacientavam ao perceber que ao invés de avançarem rapidamente pelo livro, virando página por página, estavam se detendo para reler e saborear um parágrafo especialmente rico em nuances de significado, inversões sintáticas, visualizações inesperadas, forte apelo sensorial.  Ele foi um dos primeiros estilistas da FC nos anos 1950, juntamente com Theodore Sturgeon, Cordwainer Smith e outros que não tiveram medo de escrever FC numa linguagem “poética”, esse terrível adjetivo que para muito escritor é o “beijo da morte”.

O estilo poético proporcionou a Bradbury, que começara sua carreira nas revistas mais baratas de “pulp fiction”, a chance de publicar nas revistas chiques dos EUA, revistas que pagavam bem e serviam como vitrine diante da “intelligentzia” literária.  Com isto ele abriu duas frentes de leitores, simultâneas – os intelectuais que liam “Collier’s” ou “The Saturday Evening Post”, e a rapaziada da FC que lia pulp magazines como “Planet Stories” e “Astounding Science Fiction”.  Manter e unir esses dois públicos foi uma das muitas façanhas desse autor que sempre soube assegurar a ampliação e manutenção do seu contingente de leitores: foi roteirista de Hollywood (“Moby Dick”, de John Huston), teve dezenas de histórias adaptadas para a TV e os quadrinhos, e escreveu numerosas peças de teatro.

Quando Mikhail Gorbachev visitou os EUA e foi recebido por Reagan na Casa Branca, os únicos convidados cujo nome ele indicou pessoalmente foram Ray Bradbury e Isaac Asimov, com a explicação: “São os autores norte-americanos mais conhecidos e mais amados na URSS, e os favoritos da minha filha”.  A FC tem esse espírito eliminador de fronteiras geográficas e políticas. 

Assim como Asimov, Bradbury não dirigia automóvel e tinha medo de avião. Melhor para nós, porque cada vez que ele ficava em casa escrevia um conto como “O pedestre”, “Um som de trovão”, “Encontro noturno”, “O anão”, “A terceira expedição”...  Como escritor de FC, Bradbury sempre teve uma atitude crítica contra a tecnologia, a mecanização, a cultura de massas. Seu romance mais famoso, “Fahrenheit 451”, é um terrível panfleto contra uma sociedade dominada pela propaganda e por “reality shows”. “As crônicas marcianas” não são a história de um triunfo, mas de uma colonização brutal, em que os terrestres destroem impiedosamente a civilização marciana.  Seu temperamento sentia-se talvez mais à vontade na fantasia tenebrosa (“dark fantasy”) onde ele foi o mestre de uma mistura peculiar entre o lirismo, o fantástico, o terror e o humor.