Bob Dylan chegou ao Greenwich Village em 1961 como “um
completo desconhecido”. Para ser mais preciso, chegou lá em dezembro de 1960,
mas 1961 foi o ano em que ele, dormindo numa longa fileira de sofás numa longa
fileira de apartamentos de novos amigos, começou a preparar o começo de sua
carreira musical.
Não poderia haver momento melhor. Em 1952, tinha sido
publicada a Anthology of American Folk
Music, editada por Harry Smith, um cineasta underground excêntrico, obsessivo, que, entre outras preciosidades,
tinha uma coleção de 10 mil discos em 78 rotações. Desse acervo Smith
selecionou 84 faixas para a Antologia: canções rurais, blues, números instrumentais, velhas baladas irlandesas e
escocesas, música gravadas obscuramente por artistas que àquela altura já
haviam sumido do mapa por completo.
Em Nova York já havia, e muito forte, no pós-guerra, um
movimento de jovens cantores e compositores resgatando a canção popular
norte-americana, fugindo aos lugares comuns da música fonográfica da época, às
músicas de sucesso das big bands e
dos crooners, bem como das cançonetas
pop que tocavam no rádio. A “Antologia” trouxe uma material colhido na fonte e
ajudou a municiar esses aristas, que por um lado se engajavam nos protestos
pelos Direitos Civis, e por outro reproduziam à sua maneira, no Village, o
estilo de vida dos boêmios existencialistas franceses em Saint Germain des Près
ou Montmartre.
Dylan chegou nesse ambiente já com algumas canções
prontas, entre elas a “Canção para Woody”, uma homenagem aos artistas obscuros
da América profunda, agora tornados os novos ídolos dos jovens cantores novaiorquinos:
Esta canção é para você, para Sonny, para Leadbelly,
e todo o pessoal que viajou ao seu lado.
Um brinde aos corações e às mãos desses homens
que chegam com a poeira e vão embora com o vento.
Esta é a primeira canção que Timothée Chalamet canta no
filme A Complete Unknown quando chega
a um hospital para visitar seu ídolo Woody Guthrie. Já em seus últimos anos de
vida, Guthrie era o grande nome dessa canção voz-e-violão que fazia a ponte
entre a população rural, um planeta tão remoto, e essa Nova York com fumaças de
locomotiva do mundo.
Um pouco da juventude e das canções de Guthrie está no
filme de Hal Ashby Esta Terra é Minha
Terra (“Bound for Glory”, 1976), onde o poeta andarilho é interpretado por
David Carradine.
O filme de James Mangold passa a acompanhar o jovem Dylan
na trajetória que ele cumpriu dali até 1965: três discos de canções folk em que (como disse um crítico na
época) ouvia-se um rapaz de pouco mais de 20 anos cantando com a voz roufenha e
os versos apocalípticos de um velho de 60. Depois, um álbum mais intimista, Another Side of Bob Dylan (1964), com 11
faixas gravadas todas no dia 9 de junho de 1964: voz, violão e gaita.
Começa nesse período a transição que enfureceu os
puristas da época, quando Dylan, recém-coroado como o novo Príncipe da Música
Folk ou coisa parecida, exaltado pelos jovens militantes de esquerda, autor de
canções já clássicas como “Blowin’ in the Wind”, “The Times They Are a-Changing”
e “A Hard Rain’s a-Gonna Fall”, fez-se acompanhar de uma banda de rock, aderiu
à guitarra elétrica, e mergulhou de cabeça numa produção espantosa de letras satíricas,
surreais, sem nenhuma mensagem social explícita. E isto provocou um verdadeiro
terremoto na música folk que o
acolhera quando ele chegou lá como “um completo desconhecido”.
Este é um resumo do filme, que sofre com a
superficialidade e a compressão de toda cine-biografia (e até de biografias em
livros de 700 páginas) quando é preciso descrever e reproduzir um complexo
ambiente cultural e as discussões que fervilham dentro dele – e fazer isso em
poucos minutos, sem muita teorização ou discursos explicativos, e tendo em
mente que a grande maioria do público conhece aqueles fatos por alto (quando muito)
e está mais interessada no toma-lá-dá-cá das relações humanas (“com qual das
duas namoradas ele vai ficar”, “a qual dos amigos ele vai ceder?”) do que nos
retratos de época.
De minha parte, gostei bastante das cenas do Festival de
Newport (onde Dylan, em anos sucessivos, tinha se tornado a grande surpresa e a
grande atração), inclusive a explosiva apresentação final, quando ele foi
vaiado ao se apresentar com guitarras elétricas.
Tudo um resumo apressado, é claro. Para reproduzir a
complexidade de conflitos emotivos, políticos, sentimentais, mercadológicos e
simbólicos envolvidos num Festival como aquele, era preciso que o filme inteiro
fosse dedicado a ele.
(Bob Dylan e Pete Seeger, em Newport)
(Edward Norton e Timothée Chalamet)
Pete Seeger, numa ótima interpretação de Edward Norton, era um
sofrido árbitro nesse conflito, pela amizade paternal com Dylan e pela
fidelidade para com a folk music tradicional.
Falou-se muito, depois do episódio, que Seeger teria ficado tão furioso com a
presença das guitarras elétricas que foi buscar um machado para cortar os cabos
da aparelhagem de som.
Mais recentemente, divulgou-se na Internet uma carta que
ele teria escrito a Dylan depois, esclarecendo o incidente e desculpando-se.
Bob! Alguém me disse que você também acha que eu não gostei do fato de
você usar guitarra elétrica em 1965. Já desmenti isto muitas vezes. Eu estava
furioso era com o som distorcido – ninguém conseguia escutar os versos de
“Maggie’s Farm” – e corri para a mesa de som que controlava o PA. Eles
disseram: “Está do jeito que eles pediram”. Eu gritei: “Pois se eu tivesse um
machado, eu cortava esse cabo!”, e acho que foi essa frase que ficaram citando.
Meu maior erro foi não ter subido ao palco para confrontar os que vaiavam você.
Eu devia ter dito: “Howlin’ Wolf usa guitarra elétrica, por que Bob não pode
usar?” Em todo caso, vida que segue. Abração. Pete.
(trad. BT)
A versão “se eu tivesse um machado” é bem plausível –
afinal, Seeger é o autor de “If I Had a Hammer”, que minha geração conheceu na
voz de Rita Pavone como “Datemi un Martello”.
O filme A Complete
Unknown tem limitações inevitáveis, mas serve, principalmente para o
público jovem, como um flash de um tempo pré-digital, pré-internet, pré-celular,
pré-tudo, um tempo em que sucesso artístico e sucesso comercial criavam seus
caminhos de uma maneira que a cada década vai ficando menos óbvia e menos
eficaz.
A reconstituição visual de época é uma das melhores
coisas do filme, juntamente com a performance de Timothée Chalamet, que ensaiou
(dizem) cinco anos para fazer esse papel. É um ator jovem, energético, que
merece atenção; mas é principalmente como cantor que ele se destaca. Não é
fácil cantar o repertório de Dylan, em que o fraseado é único, os cortes para
respiração são imprevisíveis, e o canto vale menos pela afinação musical das
notas do que na ênfase poderosa que Dylan impõe nos seus versos.
Chalamet consegue a proeza de cantar parecido com Dylan
sem imitar a voz rouca e nasal de Dylan. Não é pouco. Nas cenas de palco e de
canto, o ator cresce, perde o ar de menino mimado, chama para si um pouco do
magnetismo que tinha a presença física de Dylan nesse período.
Nesta segunda-feira, 3 de março, fiz uma “live” para o
Encontro da Nova Consciência, de Campina Grande, com o título “A Verdadeira
História de Bob Dylan”. Um papo ao vivo em que desenvolvi mais longamente os
temas acima, e que pode ser acessado no YouTube por aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=500oHQNzRi4&t=2040s