(Luiz Gonzaga)
Uma imagem poética parece ter uma plasticidade
infinita. Pode ser utilizada de mil
maneiras, e cada contexto lhe dá uma significação nova. Podemos dizer inclusive que a poesia é o
triunfo absoluto do contexto sobre o sentido original das palavras, a palavra
“em estado de dicionário”, como disse Drummond.
Uma palavra num texto poético (e aqui incluo tanto os
poemas escritos quanto as letras de canções) existe e significa para o contexto
em que está sendo usada. Tirada dali,
seu sentido é zerado novamente.
Veja-se, por exemplo, um tema antiquíssimo na poesia: o
contraste entre o sol e a chuva. Em
contextos poéticos diferentes, os dois recebem tratamentos diferentes. No Nordeste, por exemplo, o sol é um mal
necessário. Sem ele seria impossível a
vida no planeta, mas também não precisava exagerar . No Cancioneiro Nordestino, o sol provoca
medo, ou um respeito misturado com repulsa, uma mágoa que não tem perdão que
cure. Como cantava Marinês:
No Nordeste imenso, quando o sol calcina a terra
não se vê uma folha verde na baixa ou na serra...”
(“Aquarela Nordestina”, Rosil Cavalcanti).
O sol é sempre visto como o sol da seca, o sol da morte,
do calor insuportável. Como dizia Guimarães Rosa, no Grande Sertão: Veredas:
“a luz assassinava demais”.
O poeta nordestino vê o sol como uma ameaça, como mostram
os versos de “Súplica Cearense”, de Gordurinha:
Meu Deus, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
pedi pra chover, mas chover de mansinho
pra ver se nascia uma planta no chão.
O sol é uma ameaça permanente, uma ameaça que não pode
ser exorcizada com súplicas ou com preces.
Sua presença nas canções sertanejas é sempre ominosa, massacrante,
transformando a paisagem num inferno.
Que braseiro, que fornalha,
nem um pé de plantação...
(“Asa Branca”, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)
Quando o sol tostou as folhas
e bebeu o riachão
fui inté o Juazeiro
pra fazer minha oração...
(“Légua Tirana”, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)
Por outro lado, a chuva é vista pelo poeta nordestino
como uma bênção. Um dia chuvoso é uma
festa transbordante de alegria.
Rios correndo, as cachoeiras estão zoando,
terra molhada, mato verde, que riqueza!
e a asa branca à tarde canta, que beleza,
ai ai, o povo alegre, mais alegre a Natureza!
(“A Volta da Asa Branca”, Luiz Gonzaga e Zé Dantas)
Uma tarde de inverno no sertão
é um grande espetáculo pra quem passa
serra envolta nos tufos de fumaça
água forte rolando pelo chão;
o estrondo da máquina do trovão
entre as nuvens do céu arroxeado;
o raio caindo assombra o gado
atolado por entre as lamas pretas.
rosna o vento fazendo piruetas
nas espigas de milho do roçado.
(“Inverno no Sertão”, Ivanildo Vila Nova e Geraldo
Amâncio).
(Cartola)
Muito diferente é o modo de ver o sol e a chuva no Rio de
Janeiro. Para um poeta carioca, sol é
sinônimo de alegria, chuva é um fenômeno melancólico com o qual é preciso se
conformar. A indagação mais ansiosamente
murmurada pelos cariocas, dia após dia, ano após ano, é: “Será que vai dar
praia?...” – enquanto os olhos súplices se voltam para o céu, buscando o sol
com a mesma ansiedade com que os sertanejos buscam as nuvens grossas e
cinzentas que podem salvar sua vida.
O Cancioneiro Carioca reflete esse estilo de vida, desde
o samba até o rock e a bossa-nova. Desta
vez é a chuva que é um mal necessário, mas todos rezam para que passe logo.
Finda a tempestade, o sol nascerá,
finda esta saudade, hei de ter outro alguém para
amar...
(“O Sol Nascerá”, Cartola e Elton Medeiros)
Chove chuva, chove sem parar...
Mas eu vou fazer uma prece
pra Deus, nosso Senhor,
pra chuva parar de molhar o meu divino amor...
(“Chove chuva”, Jorge Benjor)
Me dê a mão, vamos sair pra ver o sol...
(“Estrada do Sol”, Tom Jobim e Dolores Duran)
"Vamos sair pra ver o sol!"
Que sertanejo diria isto à sua amada?
Mas mesmo o amor ao sol pode ganhar contextos
diferentes. Uma coisa é amar o sol no
Rio de Janeiro; outra coisa é amá-lo num país frio e nublado como é a
Inglaterra na maior parte do tempo. Daí
que as letras dos Beatles, por exemplo, estejam cheias de referências ao sol,
como símbolo da alegria:
Veja, querida,
o sorriso retornando aos seus rostos.
Veja, querida,
parece que faz anos desde que ele esteve aqui.
Lá vem o sol...
E eu digo que está tudo bem.
(“Here
Comes the Sun”, George Harrison)
Um dia você vai olhar e ver que eu parti;
pois amanhã pode chover, então... eu seguirei o sol.
(“I’ll
follow the sun”, Lennon & McCartney)
Eu preciso rir, e quando o sol aparece
eu tenho um motivo para rir... Bom dia, luz do sol!...
(“Good
Day, Sunshine”, Lennon & McCartney)
Aí vem o rei sol, aí vem o rei sol
Todos estão rindo, todos estão felizes
(“Sun King”, Lennon & McCartney)
Em termos de simbolismo poético nunca se tem uma relação
única entre imagem e sentido, ou mesmo uma solução sim-ou-não. As soluções poéticas são múltiplas, e mesmo
quando coincidem, pode ser por motivos diferentes. Tanto cariocas quanto londrinos amam o sol e
abominam a chuva – mas os dois vivem em cidades de clima totalmente oposto. Em Londres, o normal é o dia nublado e chuvoso,
e o dia de sol é uma festa da Natureza.
No Rio, o sol é um direito civil, um piso mínimo de liberdade e alegria
a que todos têm direito, e um dia sem ele é como um dia passado na cadeia.
Não há soluções poéticas óbvias, ou, pelo menos, sempre é
possível fugir ao óbvio, desviar-se do clichê, recusar a enganadora facilidade
do que já foi dito e repetido. Razão,
como sempre, tinha John Lennon, quando dizia:
Sento num jardim inglês, esperando o sol,
e se o sol não vier
eu me bronzearei na chuva inglesa.
(“I
Am the Walrus”, Lennon & McCartney)
(Este artigo foi
originalmente publicado da revista Língua Portuguesa, Editora Segmento (São
Paulo), número especial, novembro 2010)