Faleceu há poucos meses o escritor John Le Carré
(1931-2020), um dos grandes da literatura de espionagem, e isso me motivou a
ver ou rever alguns filmes baseados em seus argumentos.
Revi assim o excelente O Espião Que Veio Do Frio (“The Spy who Came In from the Cold”, 1965)
de Martin Ritt, um dos grandes momentos de Richard Burton como ator, num filme
árido e cruel.
Revi Chamada Para Um Morto
(“The Deadly Affair”, 1967) de Sidney Lumet, um exercício de suspense e de
enigma com as habituais reviravoltas de enredo e que termina deixando o habitual
gosto amargo na boca.
E vi pela primeira vez a série da BBC Smiley’s People (1982), onde Alec
Guiness interpreta o agente Smiley, personagem recorrente na obra de Carré, e
que foi recriado magnificamente por Gary Oldman em Tinker, Tailor, Soldier, Spy de Tomas Alfredson (2011).
Entre os subgêneros da ficção policial, o romance de
espionagem lida de modo muito particular com conceitos como falsidade,
fingimento, disfarce, mentira, traição. O espião é sempre alguém que finge ser
o que não é para enganar pessoas e extrair informações que essas pessoas não
lhe dariam se soubessem para que vão servir.
Por alguma deformação psicológica minha, o romance de
espionagem me parece um tipo de literatura britânica por excelência, tanto
quanto para outras pessoas, com clichês levemente distintos dos meus, a ficção
científica é um tipo de literatura dos Estados Unidos. Paciência.
Certamente foram minhas leituras escassas, mas demasiado precoces, de
autores como Graham Greene, Ian Fleming, Somerset Maugham e o próprio Le Carré,
de quem devorei a primeira edição do Espião
Que Saiu do Frio.
A espionagem me parece até hoje uma atividade britânica,
cheia de sobretudos, becos enevoados, homens soturnos que falam por elipses,
intrigas à sorrelfa onde o leitor nunca sabe ao certo quem é quem, quem está
contra ou a favor do quê, quem traiu quem, quem está armando o quê para
explodir quando.
Jorge Luís Borges dizia que as amizades inglesas “começam
evitando a confidência, e em breve omitem o diálogo”. Se as amizades são assim,
o que dizer das tramas do Serviço Secreto?
Parece ser uma atividade não apenas tipicamente
britânica, mas tipicamente exercida por homens refinados, educados em Oxford, talvez
sem a testosterona de Sean Connery ou a elegância sartorial de Michael Caine,
mas articulados, cultos, dissimuladores, um tanto cruéis, um tanto sem remorsos.
Se não fosse por suas preferências políticas, alguns autores britânicos que
admiro, como Anthony Burgess, George Orwell, Geoff Dyer ou Bruce Chatwin,
teriam sido excelentes espiões a serviço de Sua Majestade Britânica. Se é que
não o foram.
O mundo dos espiões é uma ficção coletiva onde os agentes
usam nomes falsos, documentos falsos, biografias falsas, e às vezes, quando são
agente reais de segundo ou terceiro escalão, ficam durante anos num país
estrangeiro, ganhando um salário mediano para interpretar o papel de
escriturário ou arquivista, à espera de que um dia essa identidade postiça mas
reafirmada ao longo do tempo possa ser útil a alguma manobra planejada pelos
seus chefes.
É o que chamam de “sleepers”, “dormant agents” – agentes “adormecidos”,
com tudo pronto para exercerem seu trabalho no momento em que alguém os sacudir
pelo ombro e disse: “Levanta, chegou a hora.”
Na série Smiley’s
People (1982), Alec Guinness, aos 68 anos, faz um espião aposentado,
calejado, ainda ressentido de algumas derrotas, que vê no deflagrar de um caso
recente uma oportunidade de vingança, de acerto de contas pendentes há muito
tempo. Velho e cansado, ele se desvencilha das perguntas com um sorriso
benevolente e entediado; seu alheamento é tal que em mais de um momento pode
ser confundido com aquele personagem de Peter Sellers em Muito Além do Jardim.
Smiley, nesse momento da vida, está como um carro com a gasolina na reserva. Poupa ao máximo as energias, e isso o torna ainda mais
lacônico na hora das explicações e mais objetivo na hora de dar ordens. O que
se passa em sua mente só ele sabe, porque os espiões, como os atores, são
capazes de contemplar com o mesmo rosto um prato de comida, uma criança
brincando ou uma pessoa morta.
É voz corrente no mundo da espionagem que todo agente é
instável e tende a se transformar em agende duplo, precisando apenas do
estímulo certo (medo, cobiça, vingança, etc.) no momento certo.
O sujeito é um inglês que mora na Rússia e manda informações
secretas russas para a Inglaterra. Em tese, basta uma abordagem adequada para
que ele passe a mandar para a Inglaterra informações falsas, cuidadosamente
preparadas pelos seus novos patrões, os russos. E em tese basta outro estímulo
na direção oposta para que ele conte tudo aos ingleses e passe a trabalhar de
volta para eles, levando-lhes as informações falsas dos russos e alguma
informação verdadeira; torna-se um agente triplo.
No mundo ético da espionagem, o patriotismo sincero pode
ser cancelado pela fidelidade ideológica, que pode ser cancelada pela cobiça
financeira, que pode ser cancelada por um arrebatamento emocional (ódio, paixão
sexual, etc.), que pode ser cancelado por algum outro fator – cabe ao
romancista inventar tudo isso de forma plausível.
Na série Smiley’s
People, Smiley é aquele velho chato, substituído por uma nova e
insuportável geração de agentes secretos (brilhantemente representada na série
pelos personagens de Barry Foster e Bill Paterson). Smiley é movido por dois
impulsos, nessa história cheia de mortes e traições: vingar um velho general
ucraniano exilado, que ele considera “um homem com princípios”, e ajustar
contas com um agente russo que muito anos atrás deu-lhe uma “volta” e o fez de
bobo.
A maioria dos agentes secretos são movidos por coisas
assim (e mais dinheiro, sexo, etc.), e o patriotismo é algo bem no fim da fila.