sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

4425) O pau-de-arara sem freio (18.1.2019)



O furto de um verso alheio é lugar-comum na história da cantoria. Todo cantador, na hora do aperto, recorre à memória, tal como um jogador de futebol recorre ao puxão na camisa do adversário.

Em grande número dos casos, contudo, as evidências concretas são poucas.  Alguém na platéia pensa: “eu acho que já ouvi esse verso.” Trata-se de acreditar na memória e na honestidade de "A" , ou então na de "B".  

O mais comum é o furto de uma idéia.  Uso a palavra "furto" aqui no sentido mais benevolente possível.  Furto, em poesia, é a apropriação não-prejudicial de algo que, nas circunstâncias, era mais necessário ao furtador do que ao furtado. 

Em literatura o que importa é o que se faz com o que se furta.  "Copiar o alheio, melhorando-o" poderia muito bem ser o lema de muitos grandes autores que furtaram cenas, ou enredos inteiros, a outros de menor talento, cujo nome só assim escapou da poeira do anonimato.

Veja-se um exemplo de idéia bem aproveitada, a sextilha atribuída por alguns autores a Severino Pinto, o "Pinto do Monteiro" (Francisco Linhares e Otacílio Batista a atribuem a Domingos Tomás na Antologia Ilustrada dos Cantadores, pag. 83):

Cantar com cantador ruim
é viajar pela pista
num pau-de-arara sem freio
com um chofer ruim de vista,
e mais um doido gritando:
"Atola o pé, motorista!"

Esta é uma sextilha da maior competência.  Veja-se o excelente uso da linguagem coloquial: "pista" é como se chama, no Nordeste, uma rodovia qualquer; “atola o pé!” equivale a “pé na tábua!”. 

Depois, a tragicômica verossimilhança desse caminhão e desse chofer, dos quais as estradas nordestinas vivem repletas, principalmente em dia de feira. 

E, por fim, o clímax de nonsense plausível, onde um doido grita a frase milhares de vezes ouvida nos ônibus urbanos nordestinos, apinhados, sacolejantes, quando fazem curvas e cantam pneus, por entre vaias, aplausos, apupos e gritos de incentivo da galera.

Ora, o cantador Manoel Francisco cantava em Patos com um colega, o qual terminou assim a sextilha:

(...)
Aqui em Patos eu gosto
de cantar com Zé Batista,
que na cidade está sendo
o maior radialista.

Vai ver que esta rima final trouxe à memória de Manoel Francisco a sextilha antiga, porque ele, improvisadamente ou não, saiu-se com esta:

Cantar com José Batista
é vir num carro de feira,
com o motorista bêbado
e o carro em toda carreira,
e mais uma doida em cima
cantando "Mulher Rendeira".

Excelente sextilha.  O Zé Batista virou José Batista por conveniência da métrica mas sem perda do sentido; e a sextilha é uma paráfrase rigorosa da outra.  O "pau-de-arara" vira "carro de feira", termo igualmente cotidiano.  O "chofer ruim de vista" vira "motorista bêbado", o caminhão "sem freio" vira, numa boa aliteração, um "carro a toda carreira", e os dois versos finais nos atiram para um nonsense que paga bem o verso de Pinto ou de Domingos.

Suponhamos (com a mesma liberdade imaginativa dos exegetas de Marcel Proust ou de James Joyce) que o primeiro poeta tirou sua sextilha do nada, e Manoel Francisco tentou imitar o que ele dissera. 

Pode-se estabelecer entre os dois uma hierarquia como repentistas, e estabelecer que o primeiro foi superior, porque fêz num instante o que o outro ficou matutando e construindo com vagar. 

Pode-se também dizer que Manoel Francisco apenas ilustrou com imagens diferentes uma idéia central que talvez não tivesse talento para criar.  Mas não se pode negar que, meramente transcritas, e colocadas anonimamente lado a lado, as duas sextilhas se equivalem.   É um desses casos em que a cópia é tão boa quanto o original, e a precedência cronológica é o único critério de desempate possível entre as duas.  E que Manoel Francisco poderia invocar para si a desculpa dada ao longo dos séculos por tantos artistas: “Não é imitação, é aperfeiçoamento...”

A verdade é que existem casos em que o fato de ser um "repente" transforma em obra-prima um verso que literariamente seria apenas banal;  mas pode-se dizer também que, por outro lado, a riqueza literária do produto final pode tornar irrelevantes as circunstâncias em que foi composto.













terça-feira, 15 de janeiro de 2019

4424) A Lenda do Barco Fugitivo (15.1.2019)




(ilustração: Vincent Ward)


Deve ser um desses itens pesquisados e classificados pelos antropólogos e pelos estudiosos de narrativas orais. É o que eu chamaria uma Figura de Narrativa (no sentido em que falamos de figuras de linguagem), e pode ser nomeada assim: Fuga da Prisão Mediante Desenho ou Objeto.

É quando, em tantos desenhos animados do Cartoon Network ou do Nickelodeon, o personagem pega um lápis ou pincel qualquer, desenha na parede branca uma porta, abre-a, e desaparece através dela. A fuga mediante um desenho que um prisioneiro faz na parede de sua cela, e que acaba abrindo um portal por onde ele pretende fugir. Ou mediante um objeto recebido ou feito por ele mesmo.

Como no conto “Histórias Fantásticas” de Marco Denevi (em Falsificaciones, Buenos Aires: Corregidor, 2007. Tradução BT):

HISTÓRIA FANTÁSTICA

Conta Frei Jerônimo de Zuñiga, capelão da prisão do Bom Socorro, em Toledo, que no dia 7 de junho de 1691 um marinheiro natural das Índias Ocidentais, de nome Pablillo Tonctón ou Tunctón, de raça negra, condenado ao auto-de-fé por bruxaria e outros crimes contra Deus, escapou do cárcere e de ser queimado vivo pedindo aos que o vigiavam, três dias antes de marchar para a fogueira, uma garrafa e os elementos necessários para construir um barco em miniatura e guardá-lo dentro da garrafa de vidro. Os vigilantes, mesmo sabendo que o tempo que restava ao réu era muito breve, não fizeram objeção. Ao cabo de três dias o diminuto navio estava terminado no interior do vidro. Na manhã marcada para a execução via auto-da-fé, quando os membros do Santo Ofício entraram na cela de Pablillo Tonctón, a encontraram vazia, assim como a garrafa. Outros condenados, que esperavam sua vez de morrer, afirmaram que na noite anterior haviam escutado um ruído como de velas, chapinhar de remos, vozes de comando.

A fuga urdida pelo personagem de Denevi utiliza uma garrafa, quase como uma metáfora para uma “bolha” de espaçotempo dentro de um continuum maior. Um caminho de fuga por onde o navio miniatura conseguiria sumir por completo.

Essa história sugere que o objeto artístico (ou de artesanato) pode ser também considerado um tipo de processo encantatório, capaz de produzir um esgarçamento da realidade para permitir acesso a outro plano.

Outra história parecida que encontrei foi no blog de Bárbara Lopes (São Paulo, 7-11-2017).
É uma adaptação de Francisco Serrano para a lenda da “Mulata de Córdoba”, no livro Contos de Assombração (Ática/co-edição latino-americana).

Diz a lenda que, há mais de dois séculos, viveu na cidade de Córdoba, no Estado de Vera Cruz, no México, uma bela mulher: uma jovem que nunca envelhecia, apesar dos anos.
Chamavam-na de Mulata. (...) As pessoas comentavam os poderes da Mulata e diziam que se tratava de uma bruxa, de uma feiticeira. Alguns garantiam tê-la visto voar pelos telhados e afirmavam que os seus olhos negros lançavam olhares satânicos enquanto ela sorria com aqueles lábios vermelhos e aqueles dentes alvíssimos. (...)

O fato é que, certo dia, levaram-na de Córdoba e prenderam-na nos sombrios cárceres do Tribunal da Inquisição, na Cidade do México, acusada de bruxaria e satanismo. Foi julgada e condenada à morte.

Na manhã do dia em que seria executada, o carcereiro entrou no calabouço da Mulata e ficou surpreso ao contemplar numa das paredes da cela o desenho do casco de um barco, feito a carvão pela feiticeira, a qual lhe perguntou sorrindo:
- Bom dia, carcereiro. Poderias tu me dizer o que falta a este barco? (...)
- Por que me perguntas? Falta-lhe o mastro. 
- Se é isso o que lhe falta, isso ele terá - respondeu ela misteriosamente.

A situação torna a se repetir, e a cada vez o carcereiro sugere algo que está faltando, e ela aperfeiçoa o desenho. No final, ela diz:

- O que falta ao meu barco?
- Infeliz! - respondeu o carcereiro. - Põe a tua alma nas mãos de Deus Nosso Senhor e arrepende-te dos teus pecados. Nada falta ao teu barco, a não ser navegar. É perfeito!
- Pois se assim quiseres, se nisso puseres empenho, ele navegará. E para muito longe...
- Como assim? Quero ver!
- Pois veja! - disse a Mulata e, rápida como o vento, pulou no barco. Este, devagar a princípio e depois rápido e a toda vela, desapareceu com a bela mulher por um dos cantos do calabouço.

Esta versão usa basicamente a mesma idéia de desfecho, mas em sua preparação há o detalhe de que é o carcereiro, voluntariamente ou não, que instrui a mulher na construção de seu instrumento de fuga. Parece até uma consultoria: “Falta o mastro... falta isto... falta aquilo...”

Há um poema de autor angolano em que a um navio em alto mar acontecem várias peripécias, ele afunda, os marinheiros ficam todos bracejando na água para se manter à tona, “e nesse instante o grumete / tira no bolso o navio / e põe-no outra vez na rota”.

Não é a mesma figura narrativa dos outros (um desenho que serve de portal) mas um choque repentino entre dimensões e proporções incompatíveis (o navio saindo do bolso), que serve como deus ex machina e também como aquilo que Kim Stanley Robinson primeiramente chamou de “slingshot ending”, o “final catapulta”, onde as últimas frases jogam a história para amplitudes e dimensões nunca imaginadas; e o livro acaba ali.

Reencontrei um pouco desse tema milenar (o prisioneiro que abre um caminho “simbólico” de fuga na parede da cela) no filme de John Carpenter O Enigma do Outro Mundo (“The Thing”), quando um dos cientistas (suspeito de ter sido absorvido pelo ser alienígena) é trancado num dos setores da base militar. Algum tempo depois os outros militares vão checar, e descobrem que ele cavou um túnel e abriu embaixo do aposento um enorme porão onde já está com uma pequena nave espacial quase pronta.

O arquétipo inconsciente por trás dessas imagens é que não adianta prender alguém, ele será capaz de dar um salto por cima das paredes e do teto, como um cavalo no xadrez, e aterrissar do lado de fora, mediante um curto trajeto em outra dimensão.

Por impossível que pareça, esse recurso revela um permanente temor (para os guardas) e uma tenaz esperança (para os prisioneiros). E lembra a frase de Octavio Paz: “Basta a um homem prisioneiro fechar os olhos para que tenha o poder de fazer explodir o mundo.”









sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

4423) A arte da astrologia (11.1.2019)



Uma vez, num programa de debates, alguém me perguntou por que eu não acreditava em Astrologia, e eu fui forçado a dizer que nem na Astronomia eu acredito muito. Aceito provisoriamente, como aceito qualquer teoria verossímil que me oferecem.

Até já escrevi em algum lugar: “Astrologia é a arte de adivinhar o futuro dos astros e estrelas da televisão”

Quando falei que não acredito na Astronomia não é porque questione suas premissas, é porque não perco nunca de vista certas limitações interpretativas de cada linguagem.

Meu pai tinha um livrinho atarracado, o Dicionário da Fábula, de Chompré, uma profusa descrição dos mitos greco-romanos. Me fascinava sempre o fato de cada deus daqueles ter duas encarnações, uma na Grécia e outra em Roma.

Zeus virava Júpiter, Ares virava Marte, Hera virava Juno e assim por diante.

Eu conheci primeiro os planetas, depois a mitologia. A palavra Júpiter não me lembra um homem barbudo sentado num trono: me lembra uma massa de gás turbilhonante de encontro a um vácuo estrelado.

Uma vez comecei a imaginar um universo alternativo onde os planetas do Sistema Solar são os mesmos, mas em sua versão grega. Em vez de Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão, seriam, pela ordem: Hermes, Afrodite, Gaia, Ares, Zeus, Cronos, Urano, Poseidon e Hades.

(Ao que parece, Urano tem o mesmo nome nas duas culturas.)

A Astrologia pega esse universo de coisas bem concretas e palpáveis, como um planeta, e os transforma em símbolos fugidios de uma fatalidade misteriosa e indecifrável. Influências boas e más, transições bruscas ou administráveis, todo um repertório de dramas e de almas e de destinos e de livres arbítrios.

Cada um de nós poderia criar uma astrologia própria, interpretando de alguma outra forma os dados crus da Astronomia. Pesquisando para a listagem acima, acabei sendo informado de que o trecho central do nosso Sistema Solar serve como uma espécie de árvore genealógica dos deuses: Marte é filho de Júpiter, que por sua vez é filho de Saturno, o qual é filho de Urano. Ao que parece, os nomes foram postos nesta ordem, com esta intenção.

Os signos têm essa simetria de doze que é uma coisa hipnótica. Dizem que o que há de mágico com o número 12 é o fato de ele se decompor e recompor com facilidade, em grupos de 2, de 3, de 4 ou de 6.  Qualquer estrutura ele se encaixa. Foi pensando nisso que escrevi muitos anos atrás um poema intitulado “Navegador”, que faz menção à “décima-terceira janela hexagonal do Universo”.

Os signos do Zodíaco têm a mesma função das cartas do Tarô ou das linhas do I-Ching. Eles não determinam nossa vida. Nada do que é nosso está “escrito nas estrelas”, nem nas cartas, nem nos búzios, ou seja lá no que for. São projeções: símbolos em aberto onde projetamos nossas interpretações num dado momento.

Um horóscopo é mais parecido com uma carta de Rorschach dos testes psicológicos do que com um mapa planetário. Vemos ali o que está dentro de nós, não o que está lá fora.

Dizer que Fulano de Tal é assim ou assado porque é virginiano ou aquariano é o mesmo que dizer que a pessoa é assim porque é de Oxóssi ou de Iansã. Existem arquétipos, e nós, porque somos humanos e crescemos dentro das culturas humanas, acabamos desenvolvendo características que correspondem a determinada faixa de uma lista de arquétipos que pode ser o Zodíaco, o Candomblé, o Tarô, etc.

Os signos não são realidade concretas, são projeções nossas. Tal como as constelações – que na verdade não existem, o que existe é um certo número de estrelas isoladas e distantes, sem nenhuma relação entre si, mas que o ponto de vista da Terra enxerga de maneira agrupada. E acaba vendo nelas uma cruz, um escorpião, um caçador...

O que existe de fato (e existe culturalmente, não fisicamente) são situações de vida e perfis de pessoa. Povos diferentes percebem esses tipos recorrentes e lhes dão nomes, personificações, e acabam criando mitologias inteiras, épicos entrecruzados que são uma das formas mais interessantes de literatura.

Achar que um astrólogo é necessariamente um charlatão é tão errado quanto pensar que ele está enunciando verdades científicas, concretas, que independem da consciência de quem interpreta e de quem ouve a interpretação.

A mitologia é uma literatura fantástica coletiva, cuja eficácia e poder atrator repousa no fato de que lida com tipos e situações presentes na vida real. Os signos não influem na minha vida, mas as interpretações que eu e um astrólogo podemos extrair deles, quando dialogamos, influi, sim, e muito.

Como diz a sabedoria popular, “feitiço bom é aquele que pega em quem não acredita”. Tudo depende do acreditar, do incorporar à própria consciência a fabulação criada por um “interpretador” a partir de uma carta de baralho ou da proximidade aleatória de algumas estrelas.











segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

4422) A máscara do tradutor (7.1.2019)



Diz-se que um romancista usa máscaras, uma coleção delas. A cada personagem que ele chama à ação, na narrativa, ele está botando uma máscara diferente.

O tradutor faz algo parecido, só que antes de botar as máscaras dos personagens a primeira que ele bota é a máscara do autor. Ele finge ser o autor para poder traduzi-lo, assim como um ator faz o mesmo se tiver que recriá-lo num palco ou numa tela.

O que o tradutor faz é psicografar o autor original. E fará isso tanto melhor quanto melhor se impregne desse autor, seja através da leitura de entrevistas, de biografias, de outras obras, de descrições. Porque em última análise o que um tradutor ambiciona é ser capaz de adivinhar o que o autor pensou para escrever o que escreveu. E ele faz isso mais ou menos uma vez por minuto.

Claro que não se está falando de telepatia nem de mediunidade. É algo simples, que fazemos em mil outras circunstâncias, na vida pessoal, vida profissional: mas na tradução literária isso fica muito mais visível.

Conhecendo um pouco a vida e a cabeça desse autor, o tradutor pode ter certeza de que tal frase é irônica, embora muita gente a leve ao pé da letra.

Ele pode entender que um adjetivo bizarro usado pelo personagem está substituindo um palavrão que ele tinha motivos para reprimir.

Pode ser capaz de, só no faro, reconstituir mentalmente o percurso rubegoldberguiano de um trocadilho infame. (E ser capaz de recriá-lo.)

O grande prodígio de arte de traduzir é que a um escritor basta ser ele mesmo, mas um tradutor tem que dizer como Mário de Andrade: “eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta”. Porque num momento ele está traduzindo uma peça de Shakespeare, noutro um romance policial de Cormac MacCarthy, depois uma história romântica de Jane Austen e em seguida um volume de contos humorísticos de James Thurber.

São as máscaras que ele precisa pôr no cérebro para captar o modo de pensar e de escrever de pessoas tão diferentes.

A arte do tradutor se parece, portanto, com a arte daqueles atores que imitam com perfeição a voz de qualquer pessoa, seja um parente, seja uma celebridade qualquer.

Parece-se também com os músicos capazes de numa mesma noitada de baile fazerem um cover impecável de um rock do Queen e de uma balada de Djavan.

O tradutor precisa perceber intuitivamente como alguma coisa é feita, e refazê-la de modo convincente. Ele não precisa ter a mesma capacidade do autor original na criação de enredos e da psicologia dos personagens, mas precisa sempre entender de que maneira o autor faz o que faz.

Reproduzir em português os pensamentos e as falas dos personagens de Henry James não é o mesmo de reproduzir os pensamentos e as falas de personagens de William Burroughs. São sistemas mentais distintos que ele precisa ser capaz de emular de forma satisfatória.

Voltando à questão da máscara: qual é o rosto verdadeiro de um tradutor? A resposta mais lógica é que não é nenhum, um tradutor só tem a máscara que está usando no momento. Seu talento não é o de criar a partir do Simples, e sim o de recriar a partir do Complexo. Num certo sentido, isso é tão difícil quanto ser um autor.

Nem todo grande autor, mesmo que domine com proficiência um ou mais idiomas estrangeiros, pode ser um bom tradutor. Talvez acabe lhe faltando esse talento para a despersonalização que o tradutor precisa ter. O talento de apagar seu Ego em proveito da obra alheia. Nem todo autor consegue isso.












quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

4421) Algumas leituras de 2018 - III de 3 (3.1.2019)




(conclusão)
PROSA CONTEMPORÂNEA

Memorial de Maria Moura (BestBolso) de Rachel de Queiroz foi talvez o romance que mais me impressionou este ano. Maria Moura é uma capitã de jagunços, uma espécie de Diadorim vestindo calças e montando a cavalo, mas sem ambigüidade sexual. O livro conta a criação, ao longo de muitos anos, de um valhacouto de assaltantes nas faldas da Serra do Padre. Os conhecimentos da autora sobre a História do Ceará dão solidez à narrativa, que é precisa e vai no osso. E a prosa é das melhores que o Brasil já deu. Límpida, forte, cheia de sutilezas inesperadas.

A árvore que falava aramaico e Cavalos de Cronos (ambos da Ed. Zouk, Porto Alegre) de José Francisco Botelho, são dois livros de contos onde o mainstream se alterna com o fantástico, e no segundo a prosa se alterna com a poesia narrativa. Botelho (que traduziu para o português obras de Shakespeare e de Conan Doyle, além dos Contos de Canterbury de Chaucer) é um narrador de prosa segura, rica de observação. Seus contos fantásticos exibem um sentimento ominoso que brota ao mesmo tempo da paisagem física e das memórias familiares. Há um pouco de Borges e de Kafka, mas nos melhores momentos ele evoca também os pesadelos ancestrais de Arthur Machen e Algernon Blackwood.

Days of Awe de A. M. Homes foi um volume de contos que traduzi para a Companhia das Letras. A autora tem uma prosa rápida, cortante, excelentes diálogos, e descreve um ambiente californiano meio surreal de tão específico; lembra os quadrinhos de Daniel Clowes. Aquelas histórias de classe média urbana onde uma coisa bizarra e surreal pode acontecer a qualquer instante.

A Colônia de Férias (Alfaguara) de Emmanuel Carrère. Publicado num volume conjunto com O Bigode, é a história de um menino amedrontadiço e fantasiador que se vê ilhado entre gente estranha, sendo que crimes hediondos ocorrem à sua volta. Carrère explora aquela linha romanesca bem francesa de descrever com minúcias todas as alternativas e contra-alternativas de pensamento de uma pessoa apavorada, arrastada por desejos que não compreende e aos quais tenta dar justificações pueris.



LIVROS SOBRE LIVROS

A Barca de Gleyre é um clássico, dois volumes das cartas de Monteiro Lobato para seu grande amigo, o tradutor e escritor Godofredo Rangel. São extensas discussões sobre mil assuntos mas principalmente literatura. Lobato, escrevendo para uma platéia de um só, era mais Lobato do que nunca. Poucos livros são capazes de revelar a este ponto, sem pose, no calor do momento, a paixão pela literatura.

A Marca do Z (Jorge Zahar Editor) de Paulo Roberto Pires conta a história da Editora Zahar, uma das editoras que fizeram a cabeça da minha geração, talvez a melhor editora de ciências sociais para o grande público. Cada capa de livro lido dá vontade de ler de novo. Um livro-homenagem cheio de revelações sobre as idas e vindas do mercado editorial antes, durante e depois dos anos da ditadura militar. E o retrato de um homem que amava os livros.

Em Memória de João Guimarães Rosa (Ed. José Olympio, obra coletiva) e Joãozito (Ed. José Olympio) de Vicente Guimarães são duas obras importantes sobre o escritor mineiro. O primeiro registra as numerosas homenagens logo após sua morte em 1967, inclusive os discursos na Academia Brasileira de Letras, e traz um ótimo material adicional sobre sua vida e obra. O segundo são as memórias de seu tio materno Vicente, que pela proximidade etária foi quase que um primo do escritor. Ambos são essenciais para conhecer o reflexo de sua personalidade e de sua obra sobre seus contemporâneos.

Autobiografia Poética (Ed. Autêntica) de Ferreira Gullar é um balanço comedido e frequentemente autocrítico do grande poeta sobre suas aspirações, paixões, desencantos e guinadas conceituais. Inclui alguns textos de prosa crítica sobre poesia, lúcidos e bem argumentados, como tudo que Gullar produziu.

A Arte do Romance (Companhia das Letras) de Milan Kundera é uma coletânea de artigos sobre a escrita. Algumas opiniões idiossincráticas, boas reavaliações da obra de seu conterrâneo Franz Kafka, de Jacques Diderot, e em geral um conjunto de reflexões que vale a pena ler e considerar.

O flâneur das duas margens (José Olympio) de Guillaume Apollinaire é uma coletânea de artigos do poeta surrealista sobre ambientes e personagens obscuros da Paris dos anos 1910. Poetas, donos de bar, sebistas, vagabundos, todos são retratados com riqueza de detalhes e de observação. Um mundo de cem anos atrás, mas que parece ainda vivo e a cores.

Shakespeare & Co (Casa da Palavra) de Sylvia Beach, é o volume de memórias, também do princípio do século 20, da livreira que se tornou a primeira editora do Ulisses de James Joyce. Como qualquer livro desse tipo, é um desfile de episódios pitorescos vividos por grandes escritores e artistas, suas excentricidades, suas polêmicas, seus pequenos gestos de generosidade ou de mesquinhez.









quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

4420) Algumas leituras de 2018 - II (2.1.2019)




(continuação)


FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA

Foi um ano em que também li pouca FC, por variadas razões, mas teve muita coisa boa.

A Trilogia de Terramar, de Ursula LeGuin (A Wizard of Earthsea, The Tombs of Atuan e The Farthest Shore) era uma leitura que eu vinha procrastinando há anos. Iniciada em 1968, a trilogia foi uma contribuição essencial de LeGuin à formação da literatura de fantasia nos EUA, registrando três fases sucessivas da vida do mago Ged. Uma das contribuições principais de LeGuin foi cristalizar a noção da magia como uma espécie de energia, onde nada se cria, tudo se transforma, cada prodígio tem um custo, e os riscos são proporcionais aos prêmios. Sem falar na prosa da escritora, um inglês límpido e clássico que evita os excessos retóricos de outros bons fantasistas.

Where Late the Sweet Birds Sang, de Kate Wilhelm. A morte de minha ex-professora na Clarion Workshop me levou a pegar de novo e desta vez ler até o fim este romance que já foi chamado, na época, de “o melhor livro sobre clones”. Num cenário pós-apocalipse, Kate imagina uma fazenda de uma família com dinheiro, tecnologia e coragem, onde os humanos-como-nós vão sendo substituídos por clones de si mesmos, a quem cabe viajar para longe do seu vale de origem e examinar o que restou da civilização. Um romance onde se contrapõem, em novas circunstâncias, a Sociedade Racional Antiemotiva e o Selvagem Instintivo-Individualista.

Mnemomáquina de Ronaldo Bressane (São Paulo, Ed. Demônio Negro). Bressane usa a prosa eletrificada, pop e intensa de autores como Thomas Pynchon e D. F. Wallace para falar de uma São Paulo pós-apocalipse, cibernética, delirante, numa cachoeira de pequenos detalhes que vão desde o surrealismo da FC new-wave até o hiperrealismo dos quadrinhos contemporâneos. Aquilo que os críticos chamam de trapézio sem rede, num ritmo de entontecer.

The Magic Toyshop de Angela Carter é o tipo de história que só essa autora seria capaz de levar a cabo: o rito de passagem de uma adolescente que a morte dos pais obriga a viver na loja de artigos mágicos de um tio tirânico e brutal, na companhia de primos que ele acha ameaçadores e fascinantes. Uma mistura de Charles Dickens com Neil Gaiman, com um ponto de vista feminino.

Nova de Samuel R. Delany. Uma space-opera com narrativa intrincada mas coerente, idéias ousadas de física e de astronáutica, prosa brilhante. É o que toda space-opera deveria ser, com personagens “maiores que a vida” mas verossímeis, lances teatrais, perseguições e vinganças ferozes, civilização galáctica bem imaginada. Um romance da mesma estatura de Duna de Frank Herbert ou de The Stars My Destination de Alfred Bester.

Piquenique na Estrada (Ed. Aleph, São Paulo) de Arkády e Bóris Strugátski. Um romance muito bom e que me pareceu uma fanfic de Stalker, de Andrei Tarkóvski, porque compartilha o ambiente e a premissa, mas se prende a outros episódios. (O livro, é claro, é bem anterior ao filme.) Alguns lugares da Terra receberam uma visita breve de alienígenas que nem se deram conta da presença da humanidade e foram logo embora, deixando atrás de si as Zonas, que são verdadeiros campos minados onde acontecem alterações bizarras da realidade.

peixes coloridos de alto-mar (Ed. Kafka, Curitiba) de Paulo Sandrini, é outro romance pós-apocalíptico, num vago Brasil futuro corroído pela chuva ácida e vítima de mutações bizarras. Um pai tenta criar a filha num ambiente brutal e decadente, em meio ao escambo constante de produtos essenciais, ao saque e à sujeira.

Clans of the Alphane Moon de Philip K. Dick é mais um que traduzi para a Suma de Letras. É a história de uma colônia manicomial terrestre, numa lua distante, onde os clãs se dividem pela doença mental de cada um: os esquizofrênicos, os paranóicos, os maníacos obsessivos, etc. As habituais quebras de realidade de Dick aparecem a todo instante, bem como sua mistura da filosofia existencial e a pulp fiction mais escancarada: boa parte das reflexões filosóficas vem de um “lodo viscoso de Ganimede”, uma gosma amarela que se esgueira por baixo das portas e se comunica por telepatia.


AUTORES PARAIBANOS

Se eu fosse botar aqui os cordéis que tenho lido ou relido, ia faltar espaço. Deixando os cordéis de lado, registro estes três títulos, para quem se interessar:

Memórias tristes do Rói-Couro de Pombal, de Jerdivan Nóbrega de Araújo. São as memórias de um freqüentador da zona boêmia de Pombal, contadas na velhice. Tem um viés nostálgico, mas sem embelezamento, e sem condenações morais. A vida de puteiro rememorada com carinho e dor por quem freqüentou puteiros sem culpa. O autor se inspirou em Garcia Márquez e suas Memórias de Minhas Putas Tristes.

Viajantes do Purgatório de Eilzo Matos. Uma cidadezinha do interior, suas fofocas, seu “muído” permanente de sexo e dinheiro, brigas por terras. Um cotidiano bem vivido, bem observado e bem descrito, cheio de detalhes verossímeis e observação de ambientes concretos. Alguém já disse que certas cidades interioranas são como um avião que roda, roda, e não levanta vôo. O mundo descrito por Eilzo Matos é exatamente isso.

As Conchambranças de Quaderna (Ed. Nova Fronteira, “Teatro Completo”) de Ariano Suassuna. A última peça de Ariano reúne três aventuras do anti-herói do Romance da Pedra do Reino, onde Quaderna deixa de lado sua face mística e cósmica e age como um autêntico trambiqueiro, enganador, costurador de intrigas, mentiroso, sedutor de moças entediadas... Mais uma vez é o cotidiano mesquinho e sem horizontes das cidades regidas com mão de ferro pela política, o poder e a corrupção.



(continua)








terça-feira, 1 de janeiro de 2019

4419) Algumas leituras de 2018 - I (1.1.2019)




Aqui vão algumas das minhas leituras de 2018. Podem valer como indicação para quem se interessa pelos mesmos assuntos. Muito do que leio são leituras de trabalho, apenas para informação. Algumas acabam se destacando. Também só comentarei abaixo os livros que li do começo ao fim. Minha leitura é fragmentária: de cada dez romances que começo, só termino um. E não é que os outros nove sejam maus livros; em geral é somente porque naquele momento não estou com vontade de ler aquele tipo de livro. O que leio, leio por prazer. Ninguém me paga e ninguém me cobra.



CULTURA POPULAR

Minhas pesquisas recentes sobre cordel e poesia popular passaram por títulos que recomendo com gosto.

O roteiro do verso popular, do português A. A. Freire, faz um breve apanhado das ligações entre a poesia popular brasileira e portuguesa, dando destaque a alguns personagens pouco conhecidos.  Deveríamos ler mais os registros portugueses sobre esse tipo de poesia. É sempre bom ver o que temos em comum com eles, e o que temos de irreprimivelmente nosso.

História da Literatura de Cordel, de Carlos Dantas, é uma pesquisa detalhada e bem documentada sobre as primeiras décadas de nossa poesia, e os primeiros pioneiros como Leandro, Chagas Batista e Athayde. Surgida de uma tese de doutorado, levanta com bastante rigor nomes, datas, locais, depoimentos e versos. Há pouca coisa escrita sobre esse período de cem anos atrás, e livros com este nível de dedicação são sempre bem vindos.

Uma História do Samba: as Origens, vol. 1 (Cia. Das Letras) de Lira Neto. O que foi dito acima vale também para o samba, embora a bibliografia neste caso seja muito maior. Lira Neto reconstitui episódios cruciais na transição musical do maxixe e outros ritmos para o que chamamos samba, destacando a origem social e os traços de personalidade dos grandes sambistas.

Água da Mesma Onda (Fortaleza: Editora Íria, 2011), de Francisca Pereira dos Santos, reproduz e comenta a correspondência, em prosa e em verso, entre Patativa do Assaré e a poetisa Bastinha. Mostra não apenas a presença meio obscura e discreta das mulheres no universo basicamente masculino da poesia do Sertão, como também o hábito, até hoje pouco analisado pelos estudos acadêmicos, de escrever cartas em versos, o que mostra a disseminação da dicção poética numa população de leitores de poesia que não se atrevem a se apresentar publicamente como poetas.

Almanaque de Brasilidades (Rio, Ed. Bazar do Tempo) , de Luiz Antonio Simas. Título auto-descritivo para um enorme apanhados de nomes, fatos, anedotas, definições, listas, registros cronológicos e históricos. Simas é um grande conhecedor de cultura popular, principalmente do samba e das religiões de matriz africana. Seu almanaque é para ser lido ao acaso, abrindo e colhendo o que se oferecer. (Embora eu o tenha lido do começo ao fim sem queixas.)



ROMANCE POLICIAL

Em matéria de livro policial, li pouco este ano.

O ano novo de Montalbano (Ed. Record) de Andrea Camilleri é mais um título das aventuras do Comissário Montalbano, de uma cidadezinha da Sicília. Desta vez é uma coletânea de contos, com algumas pequenas tramas engenhosamente concebidas, e principalmente os retratos inesperados e verossímeis de personagens miúdos. Já comentei outros livros da série aqui no blog.

Fogo na Carne (“Fire in the Flesh”), Edições de Ouro, de David Goodis, é um romance noir desse autor pouco convencional, que tinha leitores fiéis nos EUA dos anos 1940-50, e na França mereceu biografia e estudos críticos. A narrativa acompanha as conseqüências de um incêndio proposital com vítimas, no submundo de Filadélfia. É uma dessas histórias que decorrem praticamente ao longo de uma noite insone, com perseguições, violência, traições, personagens marginais escapando por pouco à polícia e à própria tendência autodestrutiva.

He Who Whispers de John Dickson Carr é justamente o contrário: um mistério detetivesco à moda clássica, na Londres pós-guerra, com um crime insolúvel do passado sendo deslindado no presente pelo detetive Dr. Gideon Fell e desestruturando as vidas de uma porção de pessoas. Como nos outros mistérios de Carr, muita engenhosidade, prestidigitação narrativa, uma certa concessão à coincidência e a alguma improbabilidade psicológica... Mas, como sempre, uma história de eventos inexplicáveis cuja explicação final nos deixa sem o que dizer.


POESIA BRASILEIRA

À Cidade (Fortaleza, Expressão Gráfica e Editora) de Mailson Furtado, ganhador do Prêmio Jabuti, é um livro-poema esmiuçando os minutos e os anos da vida numa cidadezinha do sertão nordestino, num ritmo recursivo cheio de sutilezas. Um livro promissor de um poeta jovem.

Sertão Japão (Ed. Casa de Irene) de Xico Sá e Grãos de Esperança (300 haikais) (Ed. Chiado) de Wilson Guerreiro Pinheiro são uma parelha de livros sobre a qual ainda pretendo escrever com mais vagar. Os dois poetas usam o haikai para comentar a natureza, as pessoas e a psicologia do Sertão. Xico com mais liberdade formal, Guerreiro com fidelidade estrita ao “modelo guilherme-de-almeidiano” do hai-kai. Ambos com flashes memoráveis de observação e delicadeza.

Anamnese (Ed. Lacre) de Alexei Bueno é mais um livro que me recupera a fé na poesia de forma fixa, as estrofes rimadas e metrificadas, que predominam aqui. Uma forma da qual Alexei é um executor da maior competência, num começo de século cada vez mais entregue às estrofes curtas de versos livres com rima eventual.

Lendário Livro (Editora Rubra) é uma antologia de que participei ao lado dos amigos Toinho Castro, Numa Ciro, Nonato Gurgel, Aderaldo Luciano e Otto. Dicções diferentes de uma trupe com diferentes focos, diferentes repertórios, e muita coisa em comum.

Quero morrer na caatinga (Ed. Areia Dourada) de Aderaldo Luciano é talvez o melhor livro de poemas do bardo de Areia. Um olhar sem ilusões e sem medo diante de um mundo em turvação, vazado em dísticos implacáveis como pancadas de enxada em terra dura.

(continua amanhã)










domingo, 30 de dezembro de 2018

4418) Resoluções para 2019 (30.12.2018)





Fazer como Lionel Messi, que toda vez que é derrubado se levanta e continua a arrancada rumo ao gol.

Fazer como Darcy Ribeiro, que estava brincando de roleta-russa com um amigo, girou o tambor do revólver, encostou na testa, e de repente virou na direção da parede, e abriu um rombo nela com um estrondo ensurdecedor.

Fazer como as mendigas cegas que cantam, não para atrair moedas, mas para mostrar que não são inferiores a quem lhes paga.

Fazer como Homero, que pode até nem ter existido, mas escreveu dois livros DESSE tamanho.

Fazer como Bobby Fischer, para quem o xadrez chegou a um ponto repetitivo demais, e sugeriu mudar a posição de todas as peças.

Fazer como Shelley Winters, que se trancava no camarim escutando as divas da ópera, e só saía quando o diretor estava pronto para rodar a cena.

Fazer como aquele bêbo anônimo que vinha passando de madrugada, um guarda pediu a ele os documentos, ele meteu a mão no bolso e puxou a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Fazer como o Bacharel de Cananéia, aquele português que quando Pedro Álvares Cabral chegou aqui ele já morava em São Paulo, com um harém de índias.

Fazer como Nara Leão, que cansou de ter discos nas paradas de sucesso e fazer shows lotados, e foi estudar na PUC.

Fazer como Erik Satie, que morava num subúrbio distante em Paris, voltava da farra a pé, e quando chegava em casa já estava na hora de sair de novo.

Fazer como Ishmael, que viveu para contar a história.

Fazer como Fritz Lang, a quem o Ministro Goebbels ofereceu a coordenação do cinema nazista, ele aceitou, marcou reunião para a semana seguinte, e saiu dali direto para a estação de trem mais próxima.

Fazer como aquela colhedora de algodão em Serra Branca, que interrompeu o trabalho, pariu um menino embaixo dum juazeiro, entregou para a sobrinha, e voltou a arrancar capuchos.

Fazer como aquele padre do interior que confessava os próprios pecados para as beatas, e a fila dobrava o quarteirão.

Fazer como Luís Carlos Prestes, que passou um ano preso na cela solitária e todo dia vestia terno e gravata, para não perder o moral.

Fazer como minha mãe, que nas horas de aperreio tomava um banho de tonel para esfriar a cabeça, e uma dose de uísque para esquentar o coração.

Fazer como a chuva, que cai em pé e corre deitada.

Fazer como Tim Berners-Lee, que inventou a World Wide Web e se recusou a requerer patente, royalties etc., porque não precisava – já tinha uma casa, tinha automóvel, economias no banco etc.

Fazer como aquela quenga da Unidade Moreninha que um dia explicou ao coronel: “o que o senhor está comprando é o seu prazer, não a minha liberdade”.

Fazer como Ulisses, que disse que não era ninguém; como Álvaro de Campos, que disse que não era nada; como John Lennon, que disse que não era de lugar nenhum.

Fazer como a octogenária Erundina, que todo dia agôa uma arvorezinha da qual não sentirá a sombra.

Fazer como aqueles livros fabricados tempos atrás, que uma vez abertos e largados sobre a mesa não voltavam a se fechar: deixavam-se ler, deixavam-se tratar como livros.

Fazer como aqueles soldados das histórias antigas, que recebiam a incumbência de levar um recém-nascido para o bosque e matá-lo, e desobedeciam, permitindo que uma obscura lenda se produzisse a partir daquele gesto.

Fazer como Audrey Hepburn, que quando o produtor ameaçou cortar do filme a cena onde ela canta “Moon River” respondeu: “só se for passando por cima do meu cadáver.”

Fazer como Salvador Dali, que ia para o aeroporto e emburacava no avião sem passagem, dizendo: “sou um gênio, a humanidade me deve isto”.

Fazer como o Cego Aderaldo, que percorria o sertão com um projetor 16mm., exibindo filmes que não podia ver.

Fazer como a abelha, que ferroa e morre, mas não deixa de ferroar.

Fazer como o Word, que tem o comando Ctrl+Z para voltar atrás quando faz besteira.












quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

4417) Onde fica o meio do mundo (26.12.2018)




São vários os contos populares onde esta cena aparece. Eu me refiro àquele confronto que geralmente se dá entre o herói, que é um cara apenas esperto, e o poderoso Rei. O Rei faz uma série de perguntas, e o esperto as rebate com um negaceio diferente de cada vez.

Aí, o Rei pergunta:

– Onde fica o meio do mundo?

E aí “Camões”, ou “Cancão de Fogo” ou qualquer outro diz:

– Exatamente ali, perto daquela coluna do palácio.

– Como é que você sabe?

– Pode mandar medir.

O Rei não tem como mandar medir, e talvez nem soubesse explicar o que era pra ser medido. Ele pergunta:

– Quantos cestos de terra tem naquela montanha? – aponta a janela escancarada.

O esperto diz:

– Um milhão, duzentos mil, e vinte e seis.

Se o Rei fosse esperto, os dois se engatariam nesse ponto, gerando um impasse absoluto, como um empate por exaustão no xadrez. Mas o Rei é um mero personagem, e precisa fazer a terceira pergunta, a frase fatal para que o vírus da História seja passado adiante:

– O que é que eu estou pensando?

E “Arlequim”, ou “Pedro Malazarte” responde:

– Está pensando que eu sou [a falsa identidade sob a qual ele se apresentou ao rei], mas não sou, eu sou [Arlequim, Malazarte].

E o conto se desenlaça. O que há de interessante nessas cenas é que pertencem ao conto de fadas, à literatura de cordel, ao esquete de humor, à arte da pergunta acachapante e da resposta relâmpago. São de circo, são de almanaque medieval, são das madrugadas radiofônicas. Um antropólogo talvez dissesse que ela cumpre um pouco a função de cortar nós-górdios filosóficos reduzindo tudo a uma cambalhota simples.

O interessante é que pode-se manter essa ceninha, vamos chamá-la “O Interrogatório” ou “As Três Perguntas do Rei”, entre os quadros de uma história, mas mudando-se, como convier, quais as perguntas feitas, as respostas dadas. É um bloco que pode ser trocado por diálogos novos, mas sempre mantendo essa função: o esperto “come o rei com farinha”.

Dando uma geral nas literaturas antigas do Ocidente e do Oriente a gente vê o quanto é comum esse conceito da cena que pode ser infindavelmente mudada e ainda assim continuar a mesma. Ela precisa cumprir sempre a mesma função: fazer o esperto revelar sua identidade ao rei, após derrotá-lo. A perguntas e as piadas podem ser mil vezes refeitas por quem encenar esse conto.

São centenas as aventuras de cordel em que um coronel ou rei ou fazendeiro põe a filha no balcão matrimonial, com a condição de que o pretendente responda três perguntas, ou formule três perguntas próprias, ou pratique alguma façanha, para merecer a mão da noiva em disputa. É a aliança estratégica entre o Poder (o rei) e o Saber (o esperto).

É claro que todas essas histórias são contos inventados, e é muito fácil imaginar um improviso de fração de segundo quando se está escrevendo e revisando em toda comodidade. Mas o “repente relâmpago” também existe na vida real, aquela resposta ideal imaginada, formulada e dita em voz alta ao longo de alguns segundos.

Diz-se que Bocage usava, em alguns círculos poéticos, o pseudônimo anagramático de Elmano, a partir de seu nome verdadeiro, Manoel Bocage.

Um dia vem ele por Lisboa quando cruza com outro poeta, que, vendo-o cabisbaixo, pergunta em verso:

– Elmano, a lira divina / por que razão emudece?

Bocage, que estava meio sorumbático, ripostou:

– Porque mais cala no mundo / quem mais o mundo conhece.

O amigo tornou, em cima da bucha:

– E o que tens visto no mundo / que tanto assombro te faça?

E “Elmano Sadino” fechou a estrofe:

– Um poeta com ventura, / um toleirão com desgraça.

Bocage era da linhagem de poetas malditos, como Gregório de Matos, o “Boca do Inferno”.  Na vida de cada um deles vê-se a presença do improviso leve e solto, parte de uma cultura, que pode chegar a encenar grandes disputas de arquibancada cheia; mas no geral é para uso cotidiano, em mesa de bar.











segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

4416) Natal 2018 (23.12.2018)




(ilustração: Ralph Steadman)



... e um ano transcorreu num só segundo
como um flash, um relâmpago, um raio,
e eu aqui, tropeçante, e eu, cambaio,
cultivando as derrotas, como plantas;
não importa se feias, pois são tantas
que formando fileiras, curvas, retas,
traçam formas: mandalas incompletas
arabescos que algum valor terão...
Acabei de encontrar minha missão
no planeta dos cactos e das rosas.

Como Augusto, o das letras tenebrosas,
quero que o solo coma os meus resíduos
como sempre tem feito aos indivíduos
que recolhem do mundo os elementos
com que compor seus corpos suarentos...
A alma é um pião que na poeira
gira, gira; e o corpo é a ponteira
encravada no chão do mundo tosco
tirando chispas do terreno fosco
onde um dia seus ossos dormirão...

Que seja a Glória ter pisado o chão,
ter sido gente, bicho, fruta e flor,
ter sentido o prazer, quase uma dor,
da água fria escorrendo pelo rosto...
O prazer de escrever. De ter composto
um fio de melodia original
que deu prazer a quem, num dia tal,
num subúrbio distante, num distrito,
ouviu um som e disse; "que bonito,
isso aí que no rádio está tocando,,,"

"E eu pela estrada, entre estes monstros, ando"
dando o dedo ao destino que me aguarda,
e peço a Deus, esta eminência parda,
que me dê no relógio alguns acréscimos.
Convenhamos: os tempos estão péssimos,
mas mesmo assim insisto em desfrutá-los;
escrevo à noite enquanto espero os galos
e em dueto a difusa passarada
que gorjeia: "Aproveita, camarada,
vai fazer um café, não dorme agora!”.

Troco minhalma por mais uma aurora.
Troco o que fui pelo que não serei,
os futuros que nunca alcançarei,
a imensidão do que haverá sem mim...
Mas a vida não quer que seja assim
e me obriga a bebê-la de um só gole.
Quer saber?! Sanfoneiro,  puxe o fole,
faça o povo rodar, rode também!
Quanto mais vida vai, mais vida vem:
eis a única lei deste Universo.

Vale a pena (pergunto) mais um verso
celebrando o Natal e os jingobells?
Onde quer que eu me vire vejo os céus
piscando essas luzinhas de néon;
cada shopping um vírus do Leblon
se alastrando na taba brasileira...
Cem mães gritam, regendo a brincadeira
dos guris na piscina de bolinhas,
pula-pula, boliche e argolinhas,
nas descidas do escorregador...

E o Natal musical e multicor
volta a chiar na chapa do verão
e esta dor que voltou me dá razão
para pensar de noite, olhando a treva...
E o rio-tempo em seu passar me leva
e eu canto o tempo, e reinvento o rio,
e esta caneta desenrola um fio
de palavras que valem por meu rosto...
É dezembro, é abril ou é agosto
esse Natal que não melhora o mundo?...