terça-feira, 5 de abril de 2016

4094) As cartas de Cortázar (6.4.2016)



Em 1951, Julio Cortázar mudou-se de Buenos Aires para Paris. Aos 37 anos, já tinha publicado Bestiário (1951), um dos seus melhores livros, mas a pressão política do regime peronista era insuportável. Um médico, com quem se consultou devido a crises de alergia e cefaléia, disse: “Seu problema não é de doença, é de opinião. Vá embora daqui”. Na época, dois de seus melhores amigos eram o casal Eduardo e Maria Jonquières, com quem começou uma longa correspondência que durou até o fim da vida.

Cartas a los Jonquières (Buenos Aires, Alfaguara, 2010, 576 págs.) reúne 126 cartas que ele mandou ao casal. Eduardo era pintor e poeta, e grande parte da correspondência consta de discussões sobre arte, e relatos das viagens que JC fazia visitando museus, igrejas, galerias de arte. Mais velho que o amigo, Cortázar lhe dava conselhos estéticos, fazia piadas, comentava a vida dos amigos em comum. Essas cartas (diz um dos organizadores do livro, Carles Álvarez Garriga) equivalem a um diário dos seus primeiros anos em Paris.

“Ir embora não é nada,” diz Cortázar em 8.11.51, “o pior é dar-se conta de que existe uma mecânica de chiclete, de que a gente continua aderido e vai se esticando.”  Ele vai se embebendo da cultura local e da vivência. “Rimos dos turistas,” diz em 24.2.52, “mas te asseguro que quero ser até o final um turista em Paris. (...) O que é atroz em Buenos Aires é que se trata de algo muito mais intelectual do que estético, e acelera esse horrendo processo de cristalização de um homem. Por isso os argentinos são pessoas de tanto caráter (!), de tanta ‘personalidade’, repertórios de idéias definitivamente fixas, coaguladas, sem movimento possível. Todo mundo lá tem sua ‘opinião’ sobre as coisas, mas concordarás comigo que basta opinar sobre uma coisa para no mesmo instante deixar de vê-la. (...) Todo homem inteligente e sensato sabe que uma ‘prova’ é sempre outra coisa, que não toca em nada a realidade essencial daquilo de que se fala.”

Ao longo dos anos, ele oscila entre a alegria de estar no centro de uma cultura que admira e a preocupação pelos que ficaram, como a mãe, a avó e a irmã. “Sim, tens razão,” diz em 5.4.52, “fui embora na hora certa. Mas se achas que isso é um consolo te equivocas. Estar fora do incêndio não é um consolo, quando as pessoas que estão queimando te são queridas.”  As cartas documentam, indiretamente, o período em que ele produziu seus melhores contos, inventou os cronópios e os famas; curiosamente, há muito poucas alusões à criação de O Jogo da Amarelinha, seu romance principal. Mas existe aqui material suficiente para alegrar qualquer estudioso do escritor.




segunda-feira, 4 de abril de 2016

4093) Briga de cachorros (5.4.2016)



A Teoria dos Jogos é uma das partes mais interessantes da matemática, até porque em seu estágio básico é de fácil compreensão por qualquer pessoa capaz de entender as regras do par-ou-ímpar ou do xadrez. 

Ela consiste basicamente em examinar, no contexto de um jogo qualquer (uma ação recíproca, disputando objetivos antagônicos, com regras claras e fixas, dependendo de avaliações e decisões), quais as chances de (por exemplo) vitória de A, empate ou vitória de B. 

Daí parte-se, é claro, para um enorme barroquismo de hipóteses e cálculos cada vez mais complexos. Em todo caso, da guerra às especulações financeiras, dos esportes à política, me parece que as aplicações práticas são inúmeras e utilíssimas.

Existe toda uma formalização lógica para avaliar situações como conflito de interesses, alianças, relação custo/benefício em diferentes ações possíveis, gratificação, punição... A Teoria dos Jogos é de certa forma o folhetim de matemática, o melodrama da lógica, onde se parece lidar com emoções violentas o tempo inteiro.

A Teoria dos Jogos faz a análise lógica das situações de conflito. Anatol Rapoport, no entanto, faz esse comentário: 

“Inexistem considerações de ordem estratégica numa luta de cães. Este conflito pode ser melhor visualizado como uma sequência de eventos, cada um dos quais deflagra o seguinte.”  

Ou seja: quando um conflito humano está açulado a esse ponto, ele está sendo desencadeado por pessoas tão fanaticamente resolutas a não se deixar derrotar que qualquer interpretação lógica de suas ações vai ser em vão.

Ficam os analistas, em situações assim de pandemônio, tentando aferir o peso estratégico desta ou daquela ação, mas é como interpretar como intencional o trajeto errático de um avião recém-alvejado. Uma tarefa tão sem sentido quanto a de um locutor de futebol tentando transmitir, como se fosse um jogo, uma batalha campal entre os dois times.

A política em tempos de paz é um jogo, mas ela tem seus momentos em que ferve até virar luta. Diz Rapoport:

“A motivação de uma luta é a hostilidade. O objetivo é eliminar o oponente, que se afigura como um estímulo nocivo. (...) A inteligência, no sentido da capacidade de calcular, da previsão e comparação de cursos de ação alternativos, não tem a desempenhar, como geralmente não o faz, nenhum papel numa luta.”

Interessa a alguém fomentar lutas num contexto que desfavoreça a inteligência. Num contexto em que os estúpidos e bitolados se movimentem mais à vontade, onde a disputa deixa de ser um xadrez entre cavalheiros de diferentes persuasões ideológicas e se transforma no que tanto nos aterra e nos mesmeriza assistir: uma briga de cachorro grande.







sábado, 2 de abril de 2016

4092) "Sagarana" (3.4.2016)



Em abril de 1946 Guimarães Rosa publicou Sagarana pela Editora Universal, uma editora pequena, de vida curta, que produziu as duas primeiras edições do livro. A segunda saiu no mesmo ano (sem indicação do mês). 

Tenho exemplares das duas. Meu exemplar da primeira edição, com a capa (de autoria de Geraldo de Castro) bastante dilacerada, foi comprado por 1 real na calçada da Estação Carioca do metrô do Rio de Janeiro. Nela, lê-se a menção: 

“Do autor: MAGMA, Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, 1936 (A sair)”. 

Ledo engano: Magma só foi oficialmente publicado 51 anos depois, em 1997, pela Nova Fronteira. Magma também é comentado nas orelhas do livro (meu exemplar não tem a contracapa, portanto falta-lhe a 2a. orelha), com um trecho do parecer da Comissão Julgadora que lhe conferiu aquele prêmio.

No final destas duas edições da Ed. Universal, há um texto explicativo do autor que, pelo que me consta, foi suprimido nas edições subsequentes. Sob o título em caixa alta “RESSALVAS”, diz Rosa:

“SAGARANA foi escrito em 1937, na seguinte ordem: O Burrinho Pedrês; Sarapalha (Sezão); Minha Gente; A Volta do Marido Pródigo; Duelo; Conversa de Bois; Corpo Fechado; S. Marcos (Envultamento); A Hora e Vez de Augusto Matraga (A Oportunidade de Augusto Matraga). // As cantigas e os provérbios entre aspas foram ouvidos mesmo em Minas Gerais; a canção ‘De madrugada, quando a lua”, etc. ( Minha Gente) deve ser paraibana; o coro que serve de epígrafe à Conversa de Bois é uma variante deste, que figura no interessante livro ‘O GOROROBA’, de Lauro Palhano: “Lá vai!... Lá vai!... Lá vai, / -- Queremos ver. – Lá vai boi Pingo-Prata / Fazendo a Terra tremer!...” // Qualquer homonímia ou semelhança de caracteres, entre personagens e gente existente, será puro acaso e lamentável coincidência. // O Autor.”

Sagarana é a melhor porta de entrada para a obra rosiana. São contos longos, largos, de ritmo amplo, que criaram um novo regionalismo em nossa prosa. A paisagem convencional (mundo rural, gado, fazendas, matas, plantações, morros, rios) é vista de ângulos inusitados, é descrita por um olho sagaz e uma voz narrativa dotada de imensa informação cultural, usada de maneira fluida, descontraída, antipomposa. Mesmo quando erudito ou catalográfico, Rosa nunca é pomposo. 

No prefácio à décima edição, o crítico português Óscar Lopes refere-se seguidamente ao lado bem-humorado do autor: “um humor que desconhecíamos...”, “esta versatilidade viva de humor...”,  “um humor humano muito especial que nos leva a sorrir”. Não é o humor da piada, e sim o da revelação, da redescoberta de algo que não sabíamos que sabíamos.







sexta-feira, 1 de abril de 2016

4091) O comissário Montalbano (2.4.2016)



Meu romance policial predileto é o romance detetivesco clássico, de mistérios intrincadíssimos e barrocos, à maneira de Ellery Queen, John Dickson Carr ou S. S. Van Dine. Nem por isso deixo de gostar do romance policial realista, centrado em ações e emoções humanas verossímeis. Comecei agora a ler as aventuras do Comissário Montalbano, escritas pelo italiano Andrea Camilleri ( A Forma de Água, 1994; A Paciência da Aranha, 2004), e ambientadas em Vigata, uma cidade imaginária da Sicília.

Montalbano não vive trocando socos como Philip Marlowe e outros. Nos dois romances que li ele não dispara um tiro, e acho que não briga uma vez sequer. Tem uma namorada que mora em outra cidade e o visita às vezes; vão para a cama, cozinham, bebem, brigam, fazem as pazes, como qualquer casal. Como Marlowe, ele é capaz de encontrar em sua cama uma mulher linda, nua, e mandar que ela se vista. Mora sozinho, tem uma criada que vai lá e dá uma geral de vez em quando. Gosta de cozinhar para si mesmo. Seu temperamento é brusco, emotivo mas contido, impaciente com a burrice ou a canalhice alheia. Trabalha bem em equipe com os outros policiais, mas tem um certo desdém pelos superiores.

Detetivescamente, Montalbano é observador, metódico, gosta de pegar o carro e sair checando pessoalmente cada detalhe dos casos que investiga. Um dado curioso é seu envolvimento emocional com o processo dedutivo. Faz muitas de suas descobertas analisando sua própria reação emocional ao se defrontar com as pistas ou interrogar os suspeitos. Certas coisas o inquietam sem que ele saiba por que; ficam remoendo em sua cabeça, até que por uma associação de idéias ou um fato fortuito tudo se encaixa e a explicação aparece. Seu método é o de checar pistas, conversar com todo mundo (ele tem uma percepção afiada da natureza humana e da mentalidade dos seus conterrâneos).

Camilleri escreve com agilidade, rapidez, ótimos diálogos. Pertence à escola não-rebuscada do romance policial. Os enredos são complexos mas verossímeis, e tanto a realização dos crimes quanto a investigação estão próximos do realismo cotidiano de Simenon. A narrativa é toda numa terceira pessoa limitada: temos acesso à maioria das reflexões do detetive, mas não a tudo. Camilleri usa o direito de omitir diálogos cruciais para não antecipar a solução. Seus romances são daqueles onde o mistério policial empurra a narrativa, mas o prazer vem das reflexões do protagonista a respeito do que vê e ouve; dos tipos humanos surpreendentes e verazes; e da descrição, cheia de humor, dos pequenos quiproquós cotidianos que nem um detetive está livre de encarar.





quinta-feira, 31 de março de 2016

4090) Os 50 idiotas (1.4.2016)



As tribos antigas tinham uma coisa chamada de Conselho dos Anciãos, a quem cabia deliberar sobre as questões mais graves do interesse de todos.  Os anciãos eram os sujeitos mais velhos, mais experientes, mais cheios de recursos.  Era provável que alguns já tivessem enfrentado situações semelhantes.  Tinham – no dizer de Camões – um “saber só de experiências feito”.  O engraçado é que hoje em dia, para coisas como filmes, programas de TV ou campanhas publicitárias, não temos Conselhos de Anciãos, temos o Conselho dos Idiotas.

Os cinqüenta idiotas (era assim que Raymond Chandler os chamava) são aqueles indivíduos que os estúdios de Hollywood arregimentam para uma sessão exclusiva do filme que está quase pronto, e que as agências de publicidade contratam para examinar seus projetos. Eles exprimem a opinião média da população. São pessoas meio que pegadas na rua – o cara que vende hot-dog, o office-boy, a recepcionista, umas donas-de-casa, uns pais-de-família...   Gente sem muita informação sobre os aspectos técnicos e ideológicos de uma arte, qualquer arte. Gente que representa um segmento importantíssimo do mercado: a Maioria.

A indústria cultural vive da maioria.  É como o sistema republicano, onde não ganha o candidato mais honesto e mais capaz de administrar, ganha o candidato que tiver mais votos. Nas eleições, como não se pode saber por antecipação em quem todas as pessoas vão votar, o Ibope faz uma amostragem por região geográfica, classe social, etc., e manda seus pesquisadores.  Eles entrevistam duas mil ou três mil pessoas, e com essa pequena amostra acertam (em geral) em quem vão votar 120 milhões. 

Os estúdios de cinema fazem a mesma coisa, só que de uma maneira menos científica.  Eles escolhem “no olho” uma porção de pessoas, levam para uma cabine, dão um lanche, exibem o novo filme de Martin Scorsese ou Quentin Tarantino, e depois perguntam o que o grupo achou do filme. Ninguém os chama de idiotas, a não ser o autor de O Sono Eterno. Eles não estão ali por serem idiotas, claro, mas por serem representativos. Se o país tivesse 300 milhões de intelectuais, os estúdios escolheriam 50 intelectuais. 

O teste vale? Geralmente sim. A verdade é que essas pessoas que teoricamente nada entendem de cinema acabam entendendo de si mesmas, refletem sem complicações seu próprio gosto, seu próprio nível de entendimento. Chandler não tinha razão em chamá-los de idiotas, mas tinha razão em não querer que uma obra sua fosse submetida a esse tipo de filtro. Nem todo livro ou filme é dirigido a um público tão informe, tão indiferenciado, tão nivelado por uma média aleatória de informação e gosto.





quarta-feira, 30 de março de 2016

4089) Sete planetas (31.3.2016)



Hillyer 9. A enorme distorção gravitacional causada pela maciça estrela que o ilumina faz com que os dias nesse planeta sempre se repitam três ou quatro vezes seguidas como se fossem ecos. São variantes cada vez mais tênues, mas ainda vulneráveis à ação humana. Há sempre duas ou três chances de mudarmos de ideia e agirmos de forma diferente, e é nossa última ação que fica valendo daí em diante.

Xonquyr 10. Planeta aquático onde os únicos trechos de terra firme são na verdade os dorsos de gigantescos cetáceos que levam cerca de meio século para afundar na água e emergir de novo, o que favorece aos ilhéus nômades a construção de seus efêmeros vilarejos que nunca se repetem, de geração em geração.

Estilyon 2. O planeta revoluteia cercado por quatro sóis e é chamado pelos colonos de Vem-Ó-Noite, porque há milênios que cada polegada de sua superfície é permanentemente banhada por algum sol. Os colonos vivem em subterrâneos, onde fabricam escuridão, estrelas, penumbra; fabricam com seus próprios recursos a chuva, a  brisa, todas as seis estações do ano terrestre que guardam nas suas lendas.

Vambalag 21. Planeta minúsculo que gira sobre si mesmo com tal velocidade que as estrelas no céu são vistas como linhas luminosas, círculos permanentes que ondeiam num ir-e-vir semelhante ao das marés do oceano. Toda sua ciência se funda na tentativa de descobrir de que são feitos esses anéis. 

Mundaw 3. Pelas análises espectroscópicas o elemento predominante nele é o nióbio, que se manifesta de forma sólida, líquida, gasosa e plasmática. Sua capacidade de meta-combinação é tal que os rádio-astrônomos admitem a existência de continentes de nióbio, mares de nióbio, cidades de nióbio, animais de nióbio, vegetação de nióbio, poemas de nióbio, sonhos de nióbio, metafísica de nióbio.

Kackilin 8. Planeta mergulhado numa nuvem de matéria-escura cósmica, a tal ponto que ela flutua como poeira entre as pessoas, as casas, produzindo trechos de invisibilidade que fazem parte da percepção natural dos seus habitantes. Em Kackilin 8 às pessoas não basta olhar, elas têm que rodear esses redemoinhos de matéria invisível e tocar nas coisas.

Abercrombie 18. Pode ser considerado um planeta, apesar de ter excessivos dois anos-luz de diâmetro. Mas orbita (embora num trajeto longuíssimo, onde desde que foi criado não completou uma volta sequer) em torno de uma estrela distante, K-77. É feito de redes largas de fios de plasma, sensível às emissões eletromagnéticas. Dependendo da posição em que uma nave se aproxima, poderá estar ampliando num globo desmesurado, tipo telão cósmico, alguma emissão aleatória enviada pela TV terrestre séculos atrás.





terça-feira, 29 de março de 2016

4088) 40 anos do punk (30.3.2016)





Me lembro de uma frase de José Teles dizendo que um dia as cinematecas ainda iriam fazer retrospectivas da pornochanchada. Já aconteceu, claro. Cinemateca faz retrospectiva de qualquer coisa que, independente de sua qualidade estética, tenha produzido uma influência cultural, tenha afetado nossa maneira de ver a arte e o mundo, tenha trazido para a linha de frente idéias e conceitos que andavam meio jururus, escondidos lá na rabeira da fila.

A British Library está realizando neste mês de março uma exposição que marca os 40 anos do movimento punk na Inglaterra. O ano de 1976 foi escolhido como o do pontapé inicial do movimento, e este artigo no The Guardian (http://tinyurl.com/zalkqrj) dá um balanço no material exposto: filmes, discos, roupas, panfletos, filipetas de show, fanzines, instrumentos, clips de rádio e TV. Andy Linehan, o curador de música popular da biblioteca, explica que a instituição “sempre colecionou tanto a cultura quanto a contracultura”, e que o punk, pelo impacto que produziu nas artes e no comportamento, deixou um legado dos mais importantes.

“As pessoas veem o movimento como algo negativo e niilista,” diz Linehan, “mas o punk foi algo positivo em vários aspectos. Ele assinalou, por exemplo, o início da música independente.” A estética e a economia do DIY (“Do It Yourself”, faça você mesmo) era uma tapa na cara do sistema de produção capitalista onde é preciso ter muita grana para conseguir ganhar seu primeiro centavo. O punk, com seus discos mal produzidos, seus shows ofensivos e caóticos, suas roupas maltrapilhas, seus adereços chocantes, chutou o pau da barraca de um sistema musical milionário.  Ele surgiu numa época onde o rock perdia a rebeldia original e transbordava em efemérides babilônicas, operísticas, envolvendo megaprodução, orquestras, limusines, aviões carregados de equipamentos e tietes.

Imagino que muitos punks radicais se revoltarão contra essa “honraria”, assim como muitos poetas marginais serão capazes de fazer piquetes ofensivos diante da Academia de Letras no dia em que um ex-colega aceitar tomar posse. Acho que não importa. Quando o sistema homenageia seus próprios contestadores, certamente tem a intenção de com isto neutralizar sua virulência, ou pelo menos atenuá-la. O Sistema sempre tentará digerir e assimilar – de que outro modo sobreviveria? – tudo que o ameaça e que ele não pode simplesmente destruir. A repulsa inicial, o medo inicial, o horror inicial irão sendo pouco a pouco substituídos pela aceitação resignada do fato de que aquele animal selvagem resistiu a todas as tentativas de extermínio, e que agora faz parte do mundo como o conhecemos.









segunda-feira, 28 de março de 2016

4087) A corrupção (29.3.2016)




A corrupção é uma ruptura precedida por uma corrosão. 

É um avanço gradual onde o cara nem percebe alguma coisa acontecendo. Cada dia, avança-se um fio de cabelo. Ninguém repara. 

Jorge Luís Borges fala de um palácio onde a cada cem passos havia uma coluna; aos olhos suas cores eram idênticas, mas as colunas eram tão numerosas e as gradações tão sutis que a primeira delas era amarela e a última escarlate. Transições assim passam despercebidas, ocorrem sem sacolejos, sem catabis que chamem a atenção.


A corrupção não é uma oferta súbita de dinheiro. Dinheiro só aparece lá adiante, porque é o coroamento de um processo, é o carimbo, a rubrica, o Rubicão, o ponto de não-retorno. 

Antes disso deve ocorrer uma aproximação gradual, uma preparação de terreno. Corruptores não dão ponto sem nó, não arrombam portas, não pulam na piscina sem testar a temperatura da água, não fazem uma pergunta se não já confiarem na resposta. 

Antes dessa proposta ser insinuada (sugerida, assim como quem não quer nada, num contexto inocente, sem alusão, sem compromisso), há todo um balé de aproximações. Gestos e atenções aparentemente desprovidos de interesse. Gentilezas que plantam no agraciado um vago desejo de retribuir de alguma forma, no futuro.


A corrosão começa pela aferição meticulosa de como o indivíduo-alvo se comporta em cada tarefa da gincana diária. Avalia-se a distância entre o que ele afirma em público e o que confirma em particular. Avalia-se o modo como ele encara os próprios deveres e os direitos dos outros. Avalia-se sua atitude depois que começa a ter acesso a privilégios, tratamentos vip, atenções diferenciadas. 

Tudo isso é um enorme filtro onde muitos não se encaixam e ficam retidos, e muitos se esgueiram moralmente e vão passando, vão subindo, vão sendo admitidos à concordância muda sobre tais ou tais critérios.


Ela não se resume a um ato grosseiro de suborno, em que a pessoa-alvo é encurralada e coagida a vender a alma em troca de um saco plástico cheio de notas empacotadas. É uma lenta deterioração das defesas e dos princípios, possibilitando a impregnação final da medula.  E a vítima, muitas vezes, é quem se antecipa aos pedidos e faz ela mesma o oferecimento, na linha do “Sendo assim, que tal se...?”


O cara nunca sabe em que ponto desse processo está. Olhando em torno, as pilastras são todas da mesma cor. 

Ele não tem memória do processo porque nunca teve consciência do que acontecia. Ele pensa que está onde sempre esteve, mas a verdade é que deixou-se levar, e quando os olhos se abrem ele percebe que transpôs um limite que não era um traço nítido no chão, o limite era o próprio trajeto.



















sábado, 26 de março de 2016

4086) Gifmakers (27.3.2016)





A Internet e as redes sociais parecem, tanto em tempo de calmaria quanto de tempestade, uma agência de publicidade em momento de entressafra. Aquela sala tranquila, cheia de gente semidesocupada com o rabo do olho nas telinhas, esperando um assunto, um tema, uma deixa. Quando aparece, caem todos sobre aquilo como abutres famintos sobre um búfalo em decomposição. Não, esta metáfora é meio negativa. Digamos que os “meme makers” caem sobre um bom factóide como uma dupla de repentistas cai em cima de um mote bom. Um grupo de cartunistas, de piadistas stand-up, etc. 

Uma bobagem viraliza, independente de ser ou não bobagem. O que a viraliza é uma mecânica muito rápida que faz centenas ou milhares de palpiteiros visuais responderem, cada qual com sua respectiva panchlaine, cada um com seu aprouche. Aí começa a pipocar o comentário do comentário, e o comentário do comentário do comentário. Uma deixa é postada num mural de altíssima visibilidade às 9 da manhã de Londres, e às nove da noite em São Paulo o mundo já foi percorrido por ondas sucessivas de flashes, réplicas, tréplicas, inversões, metacomentários, recontextualizações, releituras, paródias.

Um gif é um cartum móvel. Uma coisa já corriqueira neste inesgotável Facebook em que eu (pelo menos) passo o dia enfiado, mas quem sabe um dia veremos gifs animados substituindo as fotos nos jornais de papel. Não me falem de anacronismo. Jornal de papel é como copo dágua, nada o substitui. Nada no cânone da FC nos impede de imaginar um mundo onde jornais de papel possam funcionar. Os “Vitorianos” futuristas de Neal Stephenson em The Diamond Age (1995) folheiam jornais, estudam em livros. Diferentes, claro. A tecnologia já existe, e até o nome (“smart paper”, no sentido em que dizemos “edifício inteligente”). Um certo fetiche da corporeidade sempre permanece, e teremos papel capaz de suportar pixels eletrônicos produzindo ilusão de movimento.

Gifs animados substituirão as fotos coloridas das revistas e jornais. Incrustaremos em nossos textos jornalísticos essas pequenas bolhas de espaço e de tempo, esses micro-momentos preservados num loop infindável. Na capa da revista o político estará sério mas em alguns segundos abrirá um sorriso paternal de Grande Irmão. A atriz linda estará meio de perfil em outra capa, mas quando tocarmos no papel o gif será ativado e ela voltará o rosto e os olhos para nós. Na revista de futebol o gol de placa estará rodando sem parar. Na revista de notícias reveremos em cada página a explosão do atentado, a queda do Boeing num desabrochar de chamas, o beijo dos noivos célebres, todas essas pequenas mortes que nos dão ilusão de eternidade.







sexta-feira, 25 de março de 2016

4085) Garcia Márquez na URSS (26.3.2016)





Winston Churchill disse certa vez que a URSS era “uma adivinhação embrulhada num mistério e guardada dentro de um enigma”. A URSS e a China foram as duas maiores megaexperiências sociais do século 20, numa escala ciclópica de autoritarismo, de frenesi industrializante, de exploração do trabalho, de condicionamento ideológico. Nós aqui do Ocidente podemos apenas imaginar pelos relatos (a favor e contra) que chegaram até nós. Vi neste saite (http://tinyurl.com/zkn78na) algumas impressões de Gabriel Garcia Márquez quando visitou o país dos sovietes, em 1957, e que retratam tanto o país quanto o olho humanista e esperto do jornalista e escritor.

Diz Gabo: “Parece que estamos viajando rumo a um horizonte inatingível num mundo bem peculiar, onde o tamanho de tudo excede as proporções humanas, e precisamos mudar toda a nossa percepção da normalidade para tentar entender este país. (...) O alfabeto russo tem um aspecto tal que as letras das placas parecem estar se desmanchando em pedaços, o que nos dá uma impressão de ruína. (...) Este é um povo que parece precisar desesperadamente de fazer amigos. (...)  Dá para entender a velha piada americana de que os soviéticos acham que inventaram tudo, desde o garfo até o telefone. Enquanto o mundo ocidental acelerava rumo ao progresso tecnológico, eles estavam aqui tendo que criar o básico. Se um turista em Moscou encontrar um sujeito nervoso que diz ter inventado o refrigerador, não pense que ele é maluco. É bem possível que ele tenha precisado inventar algo que já existia no Ocidente. (...) O povo russo não toma café, e encerra as refeições com chá. Eles tomam chá a qualquer hora. Os melhores hotéis de Moscou nos servem um chá chinês de tal qualidade poética, de um aroma tão sutil que a vontade que a gente tem é de derramá-lo na cabeça.
“Os soviéticos exprimem seus sentimentos da maneira mais exaltada. Demonstram sua felicidade como se estivessem dançando uma dança cossaca. Estão prontos a dar a alguém a única camisa que possuem, e quando se despedem de um amigo choram lágrimas verdadeiras. Mas tornam-se discretos e furtivos quando a conversa descamba para a política. (...)  Quem vê fotos das vitrines das lojas, todas vazias, tem dificuldade em crer que os soviéticos tenham armas nucleares. Mas a vitrine vazia confirma a veracidade desse fato. As armas nucleares, os foguetes espaciais, a agricultura mecanizada, as usinas elétricas e os esforços titânicos para transformar um deserto em terra cultivável têm como resultado o fato de que para isto o povo soviético tem usado sapatos ruins e roupas mal cosidas, e tem passado por grandes necessidades nos últimos 50 anos.”