quinta-feira, 1 de setembro de 2011

2650) O Poeta Vidente (1.9.2011)



O poeta Arthur Rimbaud escreveu em 1871 a Paul Demeny uma carta que tornou-se famosa como a “Carta do Vidente”, em que ele diz: 

“É preciso ser um vidente, tornar-se um vidente. O Poeta se faz vidente através de um longo, imenso e pesquisado desregramento de todos os sentidos”. 

Há toda uma escola de poesia baseada em imagens visuais, geradas através da concentração mental, da anulação dos estímulos exteriores (através do silêncio, escuridão, etc.) e uma cuidadosa evocação proposital de imagens aleatórias, a um ponto em que tais imagens começam a ser substituídas por imagens nas quais não tínhamos pensado, e que não sabemos de onde vêm. (Vêm do que chamamos de Inconsciente, claro.) 

Daí que o poeta escreve, em Uma Estação no Inferno

“Habituei-me às alucinações simples: via sem esforço uma mesquita em lugar de uma fábrica, uma escola de tambores formada só por anjos, diligências a rodar nas estradas do céu, um salão no fundo de um lago”.

A poesia visual é um cinema feito de texto, baseado no extremo poder evocativo da palavra como deflagrador de sensações visuais, táteis, auditivas. Um bom exemplo no próprio Rimbaud é o famoso soneto em que ele atribui cores às vogais: A negro, E branco, I vermelho, U verde, O azul (por alguma razão ele inverte a ordem destas últimas), associando-as a imagens visuais muito intensas. 

Rimbaud chamou um dos seus livros Les Illuminations, título que sugere por um lado a iluminação mística, a revelação súbita de uma verdade oculta, e por outro as iluminuras, as ilustrações coloridas dos livros medievais.

O Simbolismo poético é por muitas razões um Imagismo, uma tendência ao registro de impressões visuais inexplicáveis que parecem tomar de assalto o poeta e que ele registra com a estupefação de quem testemunha um fenômeno da natureza, algo que não lhe diz respeito e que lhe cabe apenas assistir e anotar. 

Daí que exista uma filiação de espírito entre o Simbolismo e o Surrealismo, porque o segundo é uma radicalização semi-científica de certos processos intuitivos do primeiro. O Surrealismo no conto ou no romance é inferior ao da poesia, porque se nesta última a imagética surrealista explode com toda força, na prosa ela se estilhaça em pequenos efeitos pela ausência de narrativa. 

Daí que um dos melhores caminhos encontrados para o Surrealismo narrativo seja o de Luís Buñuel: unir o melodrama e o folhetim às imagens surrealistas, que neutralizam a tendência desses gêneros à repetição e ao clichê. 

Daí que em nossa época a pulp fiction e as graphic novels sejam um terreno fértil para se plantar o Surrealismo, que as enriquece do ponto de vista de imagens, e em troca se beneficia de sua alta voltagem narrativa. 

O Surrealismo continua sendo a melhor vacina contra o clichê, principalmente em gêneros cuja vitalidade de enredo tem no lugar-comum seu ponto mais fraco. Existe uma linha evolutiva ligando Rimbaud, Fantomas, André Breton, Buñuel, David Lynch, Jodorowski e Moebius.






quarta-feira, 31 de agosto de 2011

2649) O líder que deixa liderar (31.8.2011)



(Garrincha, Didi e Pelé)

O designer Bruce Mau criou The Incomplete Manifesto, um conjunto de instruções para enfrentar situações em que a criatividade emperra. O texto (está completo aqui: http://tinyurl.com/yamtgvd) tem 43 itens, e aqui vai mais um, comentado por mim.

“10) Todo mundo é líder. O crescimento é algo que acontece. Quando acontecer, deixe que brote. Aprenda a segui-lo quando ele fizer sentido. Permita que qualquer um possa liderar”.

Estas poucas linhas me lembram episódios em que a liderança de um trabalho foi momentaneamente assumida por um subordinado, e o líder natural do grupo, ao invés de sentir-se ofendido ou ameaçado por isso, teve a lucidez de dar um passo de lado e ceder essa liderança a quem tinha uma proposta melhor que a sua.

Na Copa do Mundo de 1958, o Brasil estreou vencendo a Áustria (3x0) e empatando com a Inglaterra (0x0). O time tinha na reserva o adolescente Pelé, com 17 anos, e o imprevisível Garrincha, com 24, considerado por alguns cartolas um irresponsável, porque jogava para se divertir. 

Na véspera do jogo com a Rússia, que decidiria nossa classificação, Feola foi procurado pelos jogadores mais experientes do time: Nilton Santos, Didi, Gilmar, etc. Os jogadores o convenceram de que com Pelé e Garrincha o time ficaria imbatível. 

Feola não usava terno Armani à beira do campo, não era truculento, não se achava o dono da verdade. Aceitou o conselho dos jogadores, “e o resto é História”.

Em 1980, a diretora Tizuka Yamasaki estava realizando seu primeiro filme, Gaijin – Os caminhos da liberdade, história da imigração japonesa no Brasil. O roteiro original (que contava em linhas gerais a vida da avó da diretora) terminava com a impossibilidade do casamento entre ela e um namorado brasileiro (como ocorreu na vida real). 

Perto do fim das filmagens, Tizuka foi abordada por atores e membros da equipe técnica. Eles queriam que o filme terminasse com o casamento da japonesa e do brasileiro. Tizuka argumentou que na vida real não fôra assim; eles contra-argumentaram que o filme era a favor da miscigenação e da união entre as duas culturas, e que neste caso a fidelidade à biografia de uma única pessoa era de importância menor. A diretora aceitou, mudou o fim do filme, e o filme ficou muito melhor.

Um amigo meu, engenheiro elétrico, estava coordenando a construção de um conjunto habitacional popular. A certa altura surgiu um problema com a distribuição das redes elétricas dos blocos. As soluções padrão, que ele e os outros tinham aprendido na faculdade, não se aplicavam ali. Um morador local, que era eletricista nas horas vagas, propôs uma solução pouco ortodoxa. Eles ficaram um tempão avaliando e resolveram tentar. 

Deu certo. “Era uma solução típica de quem não aprendeu as soluções mais óbvias”, disse ele. “Mas funcionou, e fim de papo. Nosso mérito foi apenas o de dizer: ‘Vamos tentar a solução do cara’, e esquecer que ele estava ali como mero ajudante.”







terça-feira, 30 de agosto de 2011

2648) "Boletim da Guerra no Recife" (30.8.2011)



Mauro Mota, cujo centenário de nascimento está sendo comemorado este ano (2011), tem muitos belos poemas. 

Um dos mais conhecidos e mais atuais dele é o “Boletim Sentimental da Guerra no Recife”, um longo poema no estilo do Romanceiro (redondilha maior, rimas toantes). 

O poema descreve e comenta (com ironia ferina, com carinho paternal, com melancolia) o destino das meninas recifenses que durante a II Guerra Mundial namoraram soldados norte-americanos aquartelados no Recife. 

Deixaram-se seduzir por promessas de ir morar na América do Norte, engravidaram, e no fim da Guerra ficaram a ver navios; e aviões. 

Um poema de meio século atrás mas que parece profetizar o turismo sexual de hoje: 

Éreis tão boas pequenas. 
Éreis pequenas tão boas! 
De várias nuanças morenas, 
ó filhas de Pernambuco, 
da Paraíba e Alagoas. 
Tínheis de quinze a vinte anos, 
tipos de colegiais, 
diante dos americanos, 
dos garbosos oficiais, 
do segundo time vasto 
dos fuzileiros navais 
prontos a entregar a vida 
para conseguir a paz, 
varrer da face do mundo 
regimes ditatoriais 
e democratizar todas 
as terras continentais 
a começar pelo sexo 
das meninas nacionais.

Um poema que bem poderia ser impresso em panfletos de papel barato e distribuído nos fins de semana nas praias de Fortaleza, Natal, João Pessoa, Recife, Maceió... Onde quer que exista a convivência-de-risco entre a solidão pobre e a solidão rica, entre homens que só têm o dinheiro para oferecer e mulheres que só têm o corpo para dar. 

E como dizer às meninas que isso é um sonho, se todas conhecem a história da amiga da prima de uma vizinha, que saiu com um gringo cinquentão, apaixonaram-se, casaram, e ele montou para ela uma casa na Europa, tornou-se um marido carinhoso e um pai exemplar para o seu bebê? 

Basta que uma única pessoa tenha ganho essa Mega-Sena matrimonial (e quem pode negar que isso já aconteceu uma ou outra vez?) para que todas se julguem merecedoras do mesmo, e comecem a sonhar. 

Mesmo que o preâmbulo do sonho envolva estar de shortinho e bustiê, sentada na perna de um gringo num boteco da praia, fazendo-lhe carinhos promissores enquanto ele contempla palmo-em-cima seus atributos e faz comentários em língua estrangeira com os outros que bebem na mesma mesa.

Quando o gringo vai embora... Diz o poeta: 

Ingênuas meninas grávidas, 
o que é que fostes fazer? 
Apertai bem os vestidos 
pra família não saber. 
Que os indiscretos vizinhos 
vos percam também de vista. 
Saístes do pediatra 
para o ginecologista. 

Quando um exército invade um país, a posse sexual da população feminina local é um símbolo e uma confirmação desse triunfo. Mesmo que seja a invasão pacífica de um exército aquartelado numa nação amiga. 

Mesmo que seja a invasão pacífica do turismo, financiado pelos governos, estimulado pela propaganda, sacramentado pelo princípio básico do Capitalismo: “Tudo tem um preço. Faça seu preço, e alguém poderá pagar”.







domingo, 28 de agosto de 2011

2647) O insulto ao feiticeiro (28.8.2011)




(Samuel van Hoogstraten, Homem na Janela)

Argote de Molina é uma rua tortuosa que ziguezagueia em ângulos obtusos, conduzindo às proximidades da Torre da Giralda, em Sevilha. Há duzentos anos, quem passasse por ali sem muita pressa poderia avistar, ora agachado num portal, ora sentado à sombra de uma coluna, ora cambaleando sobre as pedras enlameadas, um homem encarquilhado de barbas brancas e sujas, amparado num ramo de árvore desbastado a faca. Seu nome era Agustín de Zayas, chamado de “Gustín” pelos peixeiros e padeiros que o alimentavam de esmolas.

Gustín foi soldado da guarda de Don León Lanure, fidalgo de Salamanca que para ali se transferiu a mando do rei. Diz-se que o encontro entre Gustín e o feiticeiro Zamora foi breve, à saída de uma taverna. Um esbarrão, uma troca de insultos, e Gustín, mais jovem, mais impetuoso, mandou que segurassem aquele homem gordinho e desajeitado e chicoteou-lhe o rosto várias vezes. O outro fugiu sangrando, balbuciando maldições. O taverneiro comentou, sombrio: “Não devia ter feito isso, senhor. Esse homem tem parte com as energias do Mal, e todos o temem”.

Gustín cuspiu na sarjeta o seu desprezo, mas desde então sua vida desandou. Surgiram feridas em seu corpo. Don León foi enforcado por conspirar contra o rei, e Gustín cumpriu dois anos de masmorra, onde as doenças e os maltratos o envelheceram vinte. A esposa o abandonou por um comcerciante rico e foi viver na França. Ao ser libertado, Gustín tornou-se mercenário a soldo de quem pagasse melhor; perdeu um olho e todos os dentes em combate. Passou a procurar Zamora por toda a Andaluzia. “Para quê?”, perguntavam-lhe. E ele: “Para chicoteá-lo até que desmanche seu feitiço”. Sua casa incendiou-se. Seu sono era incomodado por pesadelos, e rara era a noite em que não acordava gritando. Deixou de ser alistado nas tropas, porque dizia-se que dava azar.

Soube que Zamora estava morando na Provença, e partiu para lá. Já vestia somente andrajos, e a única coisa de valor que conduzia era o punhal com que pretendia degolar o bruxo. Sem conseguir falar a língua local, acostumou-se a viver de esmolas, e retornou anos depois a Sevilha, onde viveu da caridade de seus ex-companheiros. Ao receber um prato de comida, murmurava: “Deus te pague agora, e te pagarei em dobro quando ficar bom”. Quando alguém o reconhecia e lhe dirigia a palavra, dizia: “Estou coberto por um feitiço, mas quando encontrar Zamora ele me pedirá perdão e voltarei a ser quem sou”. Os anos se passaram. Falou-se que Zamora morrera de febre numa viagem a Constantinopla, mas Gustín recusou-se a crer. Aprendeu a ler com os padres da Catedral. Em cada livro da Bíblia lia sua própria história e julgava ver recados enviados pelo bruxo. No fim, quando lhe dirigiam a palavra, dizia: “Estou à procura do bruxo Zamora, se ainda vive, para pedir-lhe perdão”. Talvez o perdão tivesse sido concedido, porque os cães já não disputavam sua refeição, e as moscas não perturbaram sua última noite de insônia.






sábado, 27 de agosto de 2011

2646) Um caso para Perry Mason (27.8.2011)



Para quem nunca ouviu falar, Perry Mason é o advogado-detetive criado por Erle Stanley Gardner ao longo de dezenas de romances policiais (82, para ser exato) que deveriam ser leitura de lazer obrigatória para todo advogado que se preze. Na adolescência, sonhei em me formar em Direito e fazer o que Mason fazia: dar um banho de esperteza no promotor, libertar o cliente (acusado de um crime) e de lambuja entregar à polícia o verdadeiro criminoso. Os romances de Gardner (cujos títulos sempre começam com “O Caso do...”) seguem uma fórmula precisa e obrigatória, com as variações mais inesperadas dependendo do cliente, do crime cometido e das complicações colaterais. Agora mesmo está me dando uma vontade enorme de reler “O Caso da Lata Vazia”, “... das Garras de Veludo”, “... da Morena Emprestada”, “... da Loura de Olho Roxo”, “... dos Peixinhos Dourados”, “... do Gorila Sorridente”...

Um dos aspectos mais fascinantes do crime é o fato de ele ser algo minuciosamente descrito, previsto e catalogado pela estrutura jurídica. E um tema eterno da literatura policial é um tipo especial de crime perfeito, o crime que todo mundo sabe que Fulano cometeu mas nada pode fazer, porque a lei não prevê aquele crime. Na Inglaterra, antes de 1548, um júri só considerava assassinatos que tivessem sido cometidos no condado de sua jurisdição. E houve casos de assassinos que feriam a vítima num condado e a transportavam para que morresse no condado vizinho; dessa maneira os dois elementos do assassinato (a agressão e o falecimento) ficavam dissociados e a lei “travava”.

Li uma vez no Mistério Magazine de Ellery Queen um conto (não lembro o autor, o título era algo como “Um Caso para a ONU”) em que um homem matava outro a tiros num voo EUA-Europa, e provava por a+b que não podia ser preso, porque ele era de uma nacionalidade, a vítima de outra, a companhia aérea de outra, e o crime fôra cometido sobre águas internacionais. No fim, a polícia o prendia por conspiração (ou coisa parecida), porque o planejamento do crime tinha sido feito em território norte-americano.

Surgiu agora um fato jurídico interessante nos EUA. O Parque Nacional de Yellowstone fica no Distrito de Wyoming, mas partes dele estão nos Estados vizinhos de Montana e Idaho. Se alguém cometer um crime nessa faixa, terá que ser submetido a júri popular e os jurados terão que ser convocados entre a população da região do Parque no Estado de Idaho, e essa população é zero. Um advogado esperto conseguiria anular todo o processo e libertar o criminoso. Quem chamou a atenção para isto foi Brian C. Kalt, professor de Direito em Michigan. Ele admite que seria possível, como no exemplo acima, alegar que o planejamento do crime havia sido feito noutra parte do país. (Uma discussão de todos os detalhes pode ser lida aqui: http://bit.ly/ppWJAG). Até agora, o único crime cometido dessa forma foi a morte de um alce, mas o sistema jurídico dos EUA está se mexendo antes que isto chegue aos ouvidos dos sucessores de Osama Bin Laden.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

2645) A poética da cadência (26.8.2011)



(Edward Thomas e Robert Frost)

Um artigo de Matthew Hollis em The Guardian comenta a amizade literária entre o norte-americano Robert Frost e o galês Edward Thomas, iniciada em 1912, quando Thomas, então um crítico literário influente em Londres, comentou com entusiasmo um livro (North of Boston) daquele poeta desconhecido, recém-chegado dos EUA. 

Os dois tornaram-se amigos e se corresponderam até a morte de Thomas na I Guerra Mundial, em 1917. Nunca li nada de Thomas (que depois da amizade com Frost tornou-se também poeta), mas esse livro tem dois dos poemas mais conhecidos de Frost: “The Road not Taken”, que fala das opções que temos de fazer constantemente ao longo da vida, e “Mending the wall”, em que dois vizinhos, meio cabreiros, trabalham juntos para refazer um muro de pedras que separa as duas propriedades. 

Frost é um desses poetas sem muitas firulas, com uma linguagem simples, concentrada, que pode ser apreciada por um leitor estrangeiro (a maioria dos poetas em inglês eu não entendo nem com dicionário no colo).

Um parágrafo de Hollis (que é autor também de uma biografia de Thomas, Now all roads lead to France, 2011) merece atenção por exprimir uma idéia de poesia que nem sempre é bem compreendida. Diz ele: 

“Para esses dois homens [Frost e Thomas], a máquina que move a poesia não é a rima nem sequer a forma, mas o ritmo, e o órgão pelo qual ela se comunica é o ouvido que escuta, mais do que o olho que lê. Para Thomas e Frost isso acarretava uma fidelidade mais à frase do que à contagem métrica, aos ritmos da fala mais do que às convenções poéticas; uma fidelidade àquilo que Frost chamava de ‘cadência’. Se você já ouviu pessoas conversando por trás de portas fechadas, raciocinava Frost, você já deve ter reparado que é possível entender o sentido geral de uma conversação mesmo quando as palavras propriamente ditas são indistintas. Isto é porque as entonações e as sentenças com que falamos estão carregadas de sentido, formando um ‘significado sonoro’. É sobre esse significado, desencadeado pelo ritmo da voz que fala, que a poesia se comunica de maneira mais profunda. Thomas escreveu certa vez: ‘Um homem não pode escrever melhor do que ele fala quando alguma coisa o emocionou profundamente’”.

Acho que tudo isto deve ser considerado a sério quando falamos que a poesia tem influência oral, da fala, etc. Muita gente pensa que isto indica apenas que a poesia deve ser sempre coloquial, informal, descontraída, parecida com o modo desconexo e descuidado como falamos. Não é bem isso.

A poesia deve se aproximar da fala em todos os registros da fala, em todas as maneiras com que somos capazes de imprimir à fala (entre outras coisas) gravidade, tensão, emotividade, arrebatamento. Como se tivéssemos um telefonema de quinze segundos para comunicar algo muito importante a alguém, mas em compensação pudéssemos preparar o que dizer nesses 15 segundos durante o tempo que fosse necessário.






quinta-feira, 25 de agosto de 2011

2644) O Cão de Mauro Mota (25.8.2011)



Os leitores de poesia estão comemorando os cem anos de nascimento do poeta pernambucano Mauro Mota, falecido em 1984. MM foi um desses muitos talentos literários que conseguem uma consagração razoável em sua própria terra, virando inclusive referência obrigatória para as gerações futuras, mas nunca conseguem se tornar poetas de aceitação nacional, e anos depois de seu falecimento começam a ser meio esquecidos, o que é uma grande injustiça. São muitos casos assim: o mineiro Dantas Motta (Elegias do País das Gerais), o goiano José Godoy Garcia (Araguaia Mansidão), o carioca Moacyr Félix (Um Poeta na Cidade e no Tempo), e outros que, quando os li, pareciam-me pertencer ao primeiro time da poesia brasileira (um time bem amplo, por suposto). E hoje parece que ninguém sabe quem foram.

Mauro Mota tem uma série de sonetos (no livro Elegias) inspirados, ao que se diz, pela morte da esposa ainda jovem. São de uma extrema delicadeza de observação e de sentimento. Lembram poemas semelhantes de Alphonsus de Guimaraens ou de Cruz e Souza, registro impressionista de emoções profundas que se exteriorizam em minúsculos aspectos físicos. Uma feição, um gesto, um pedaço de vestimenta, uma atitude, tudo cercado pela fragilidade do corpo e pela inevitabilidade da morte. Mota foi também um poeta de extrema visualidade, a visualidade que percebe pequenos detalhes e faz surpreendentes associações de idéias. Lembro seu poema sobre o guarda-chuva como uma “grande rosa negra” que desabrocha nos dias de chuva, ou o poema sobre a bengala como uma árvore que é arrancada de novo toda vez que toca no chão.

Meu poema preferido de MM é “O Cão”, que já na adolescência me impressionava pelo terror apocalíptico que era capaz de inspirar, o cão mítico que era o Cérbero da mitologia, o Cão dos Baskervilles que perseguiu Sherlock Holmes, o mastim infernal que farejava a trilha de Robert Johnson. Diz o poeta: “É um cão negro. É talvez o próprio Cão / assombrado e fazendo assombração. / Estraçalha o silêncio com seus uivos. / A espada ígnea do olhar na escuridão / separa a noite, abre um canal no escuro.” Um molosso infernal, místico, de dimensão ameaçadoramente noturna e subterrânea. Ele prossegue: “Cão da Constelação do Grande Cão, / tombado no quintal, espreita o pulo: / duendes, fantasmas de ladrão no muro.” Versos que me lembram aquele “soneto irritado” de Drummond: “Ninguém o lembrará: tiro no muro, / cão mijando no caos...”

O Cão de Mauro Mota é o cão da estrela Sirius da constelação do Cão Maior, um cão gigantesco que se ergue no céu e ocupa o espaço de horizonte a horizonte: “O latido ancestral liberta a fome / de tempo, e o cão, presa do faro, come / o medo e a treva. Agita-se, devora / sua ração de cor. Pois, louco e uivante, / lambe os pontos cardeais, morde o levante / e bebe o sangue matinal da aurora.” Um poema simbolista, surrealista, emblemático, alquímico? Não, sei, mas pra mim é poesia pura.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

2643) Meus gols de placa (24.8.2011)





(detalhe de foto de Gustavo Moura)

A convivência de uma vida inteira com o mundo do futebol (e a prática intensa de uma versão informal deste esporte, a famosa “pelada”, entre os 11 e os 16 anos) desenvolveu em mim o senso estético do jogo e o talento planejador. Sou autor de uma porção de gols de placa que nas horas vagas me deleito em repassar na memória. (Se bem que “memória” é um termo dúbio para designar algo que, mesmo tendo acontecido milhares de vezes, só aconteceu no meu modesto “teatro mental”).

Um dos meus favoritos é um gol em que estou na posição de centroavante, próximo à meia-lua da área e de costas para o gol. O zagueiro me acossa por trás, impedindo minha movimentação, e meu time vem em contra-ataque veloz. O armador lança a bola na minha direção. Quando ela chega aos meus pés, viro o corpo para a direita como se fosse rodear o zagueiro por aquele lado; e ao mesmo tempo desvio a bola para a esquerda, tirando-a do alcance dele. O zagueiro hesita, bloqueado por essa mensagem contraditória, sem saber se barra minha passagem por um lado ou se intercepta a bola pelo outro. É tudo que preciso para rodeá-lo por completo, apanhar a bola que o rodeou pelo lado oposto, romper de área adentro, e desviá-la do goleiro até o fundo das redes.

Gostaram? Tem mais. Tem um em que estou de frente para o gol, fora da área, e a bola vem quicando na minha direção. Quando o zagueiro fecha sobre mim, ao invés de tentar receber a bola com o pé eu a faço repicar novamente no chão, batendo e subindo; o corte dele passa direto, e quando a bola desce eu puxo para o lado limpando o lance e mando um petardo no ângulo, indefensável.

Outro dos que mais gosto é um em que estou dentro da pequena área, numa daquelas confusões pós-escanteio, de costas para o gol. O goleiro está às minhas costas, quase embaixo do travessão, e um atacante do meu time chuta rasteiro, na minha direção. Quando a bola vem chegando abro as pernas como que para deixá-la passar, mas no instante em que ela passa eu uso a face interna de um dos pés para dar um levíssimo toque, o bastante para 1) desviar a trajetória da bola, e 2) garantir que o nome que vai para a súmula é o meu.

Não multiplicarei exemplos. Hora de teorizar um pouco. Grande parte dos planos-para-o-futuro que a gente faz está no mesmo limbo espiritual destes meus gols, tão caprichados. Antes de chegar na primeira ponte a gente está ensaiando como atravessar a décima. Estou com uma porção de golaços prontinhos, e ninguém me chama para entrar em campo! Gols roteirizados, sextilhas decoradas, piadas prontas, trocadilhos relâmpago... de nada adianta atulhar a memória com essas coisas se não mergulharmos no “Agora Bora Ver” do jogo, da cantoria, da vida real enfim. Algo me sussurra que meus golzinhos platônicos nunca serão registrados por nenhum garoto do placar, assim como nunca proferirei diante de uma platéia meu discurso de aceitação do Prêmio Nobel, que modéstia à parte ficou uma beleza.


terça-feira, 23 de agosto de 2011

2542) O atoleiro do realismo (23.8.2011)



Numa discussão recente no websaite Metafilter, a propósito de um filme de Luís Buñuel, alguns leitores se queixavam de que o filme não fazia sentido, era inexplicável, etc. (O filme era Simão do Deserto, e querer encontrar a explicação dele é como querer fotografar o assunto da Terceira Sinfonia de Beethoven). Um leitor sob o pseudônimo de Kozad deu a seguinte contribuição ao debate: 

“Tenho uma teoria a respeito. Já ministrei aulas de apreciação cinematográfica e percebi que as pessoas têm dificuldade de apreciar uma narrativa que não esteja de acordo com um tipo determinado de ‘realismo’. Meus alunos gostavam de Psicose de Hitchcock, por exemplo, mas tiveram problemas com quase todos os outros filmes, por causa de uma certa teatralidade na interpretação dos atores e um certo tipo de convenções emocionais usadas por Hitchcock. Eles não eram capazes de fazer vista grossa a isso. Estavam demasiado habituados a uma maneira de ver filmes que implica em buscar deficiências e erros no modo como a ‘realidade’ é apresentada, e assim nunca se permitem fruir descontraidamente o filme do jeito que ele é. A mesma coisa ocorre quando as pessoas veem filmes feitos antes de 1970”.

O cinema de hoje, com sua obsessiva evolução técnica, produziu uma espécie de hiperrealismo epidérmico, que condiciona o espectador a um tipo de estímulo puramente sensorial. Os filmes de ação de hoje têm som Dolby Stereo, imagem digital de fenomenal nitidez, cortes bruscos, decupagem sequencial em que tudo se encaixa a-b-c-d-e... 

Esta linguagem é uma conquista importantíssima, mas assumiu uma tal hegemonia que deixa o espectador atrofiado em outros aspectos. O espectador é perfeitamente capacitado para assistir e assimilar um filme dos X-Men ou do Homem Aranha, mas não consegue assistir um filme de... Não, amigos, não direi um filme de Luís Buñuel ou de Jean-Luc Godard, não chego a tanto. O espectador do Homem Aranha não consegue assistir um filme de Charles Chaplin.

A experiência cinematográfica ideal deveria ser a exposição do espectador a diferentes estilos, ao modo de narrar de diferentes épocas, diferentes países. Modos de enquadrar, de contar histórias, modos de compor o ritmo narrativo, que em cada cultura evolui de modo ligeiramente diverso. 

Deveríamos cultivar a “filmo-diversidade”, a proliferação saudável de mil maneiras de usar a câmara, o roteiro, a mesa de montagem (ou ilha de edição). 

Se eu vivesse num país onde só passassem filmes de Godard, sairia pela rua em passeata com um cartaz “Queremos Homem Aranha!”. Porque precisamos de olhares diferentes para compor o nosso olhar. 

Os estudantes citados acima não querem a experiência cinematográfica em si, querem comparar o que estão vendo com o que lhes ensinaram que é o jeito certo de fazer. Que coisa terrível fizemos com a arte cinematográfica! Estamos criando um mundo cujo público consiste em alguns bilhões de críticos acadêmicos.








domingo, 21 de agosto de 2011

2641) Contracapa de mouse (21.8.2011)



& escravas brancas negociadas no câmbio negro & aquilo ali é um caso claro de motor possante e parafusos frouxos & tem casos em que a culpa é toda da vítima, o criminoso foi mero instrumento & um urso polar e um pinguim se olhando com desconfiança e pasmo & ainda vamos ver esportistas radicais surfando em lava de vulcão & ah se a cabeça da gente tivesse um antivírus de bloquear besteira & ainda não sei por que é que homem usa guarda-chuva e mulher usa guarda-sol & lutar contra o Destino é confirmá-lo; não lutar, também & passar do canibalismo à escravocracia é também uma maneira de evoluir & belo como o encontro fortuito entre um paraquedas e uma guitarra elétrica em cima de uma ilha de edição & a Contracultura faz com a Cultura o que o uísque faz com o gelo & só durmo com colete salvavidas, nunca se sabe & aos quinze anos fui abduzido por um grupo de alienígenas iguaizinhas a Barbarella & as mulheres supersticiosas não dispensam um pinguim na geladeira, um gnomo no jardim e um marido no sofá & a Terra não passa de uma moeda que levou um piparote de Deus e virou esfera & o destino de todo ser complexo é evoluir até tornar-se um ponto geométrico & um livro impresso é túmulo e sobrevida, é lápide de si mesmo e trampolim de megapossibilidades & a primeira máscara foi a careta, a segunda o sorriso & um rio tentando empurrar o oceano para trás & uma tribo habitando uma piscina vazia & as represas nada mais são do que um cofre de guardar correntezas & quanto mais o princípio é principesco, mais grotesco é o final & troquei minha bolsa de estudos por uma mochila & já bebi tanto café na vida que depois de morrer ainda vou passar uns dez anos acordado & uma lâmpada com uma vela acesa dentro & as folhinhas do calendário estão passando rápidas como fotogramas & quando o Governo começa a usar isqueiro para acender fósforo tem alguma coisa errada & ele é violão mas pensa que é guitarra & idéias e emoções são analógicas, linguagem é digital & um mágico tão seguro de si que usava como assistente uma sexagenária gorda & a água se evapora, se condensa, chove, se evapora, lavando a si mesma & só existe o demais porque existe o limite & é possível saber algo sobre um texto eliminando todas as palavras e deixando apenas a pontuação & canção para ninar robôs & ando me sentindo tão fantasmagórico que ontem caí através da cama & se eu fosse contar tudo ia ser um livro mais grosso do que alto & o eclipse do relâmpago & é típico das civilizações que sua autodestruição coincida com seu melhor momento & um anão subindo nos ombros de um gigante e contando a ele o que há por trás do muro & seria tão bom se já vendessem os chapéus com um cérebro dentro & escrever é construir uma ponte enquanto se avança por ela & dentro da gente existe algo que é uma mistura de monstro, motor e bomba-relógio & seja bailarina e eu serei tablado &