domingo, 6 de fevereiro de 2011

2473) Perdidos na Bienal (6.2.2011)




O estudo da Patologia Topológica vem enfrentando preconceitos dentro da comunidade científica internacional. Como toda ciência nova, ela lida mais com perguntas e incertezas do que com verdades chanceladas pelo uso e pela experimentação controlada. Daí ser considerada por uns uma pseudo-ciência e por outros um delírio paranóico. 

A Física contemporânea, por exemplo, estuda o que a literatura popular chama de fendas no espaço-tempo, fissuras no tecido no Universo. Sua existência em escala macro já foi comprovada – são os famosos “buracos de minhoca” nos quais uma partícula física entra, e sai, quase instantaneamente, noutro local, a milhares de quilômetros ou milhões de anos-luz. 

O que a Patologia Topológica estuda é a existência deste fenômeno na escala humana. Muitos desaparecimentos famosos, acidentes, fatos extraordinários, podem ser explicados pela ocorrência de fendas desse tipo. Passagens, portais, configurações tão extraordinárias que dentro do seu âmbito as leis que governam a matéria se comportam de forma diferente. 

Estuda-se, por exemplo, o caso da instalação pós-modernista “Klax”, do artista indiano Raman Sendjabi. Influenciado (segundo ele próprio) pelos parangolés do brasileiro Hélio Oiticica, Sendjabi criou um labirinto de placas de amianto e isopor, no qual os participantes eram convidados a entrar e experimentar, segundo ele, “sensações temporárias de perda da referencialidade espaçotemporal”. 

A obra foi exposta na Bienal da Lausanne em 2002 e causou escândalo pelo desaparecimento de seis pessoas, inclusive duas crianças, que entraram ali e não saíram; depois de horas de espera, e sob protestos do artista, a obra foi desmontada diante da polícia e dos curadores da exposição, mas sem sinal das pessoas. 

No ano seguinte, 2003, Sendjabi (processado pelas famílias dos desaparecidos) conseguiu uma liminar para remontar sua instalação na Bienal de Cracóvia. Qual não foi a surpresa de todos quando, no dia de abertura, emergiram da obra quatro dos desaparecidos, todos levemente desnutridos e anêmicos, mas em boas condições físicas. Foram incapazes de explicar e mesmo de entender o que se passara; com amnésia parcial, não faziam ideia de que tinham estado desaparecidos por cerca de um ano. 

Novo escândalo forçou a desmontagem da obra e novo processo movido contra Sendjabi. Em 2004, sob forte cobertura da imprensa, “Klax” foi remontada na Bienal de Osaka, e embora ninguém se atrevesse a penetrar em seu labirinto, logo emergiu dali a secretária suíça Michelle Lamproix, igualmente amnésica e desnorteada. Para ela, pouco mais de meia hora tinha transcorrido desde sua entrada no labirinto, dois anos antes. 

A última pessoa desaparecida era um taxista de Lausanne, de 22 anos, Jean-Marc Desmolieu. Na Bienal da São Paulo de 2010, quando “Klax” foi reexposta, ele não apareceu, mas jogou para fora do labirinto o manuscrito de um texto sobre arte pós-moderna, que está sendo decifrado pelos especialistas.







sábado, 5 de fevereiro de 2011

2472) Os polícias e os bandidos (5.2.2011)




O romance O Homem Duplo (“A Scanner Darkly”) de Philip K. Dick conta a história de Fred, um agente da polícia de Los Angeles, encarregado de vigiar um tal de Bob, dono de uma casa cheia de malucos que passam o dia tomando drogas alucinatórias. 

As drogas são tão pesadas que Bob não sabe que ele e Fred são a mesma pessoa. Toda vez que sai de casa, ele vai à polícia, veste uma roupa de camuflagem eletrônica (que projeta imagens falsas de seu rosto e de seu corpo) e volta àquele quarteirão, desta vez na pele do Agente Fred, para vigiar a própria casa onde mora – só que ele não sabe disso, porque agora é Fred, e pensa que Bob é outra pessoa.

O dilema esquizofrênico entre o Bem e o Mal, a Lei e o Crime, o Sistema e a Revolução, etc., é um subtema constante na literatura do nosso tempo, porque sabemos que não faz muita diferença pertencer a um ou a outra. 

Lembro de um conto de pacto-com-o-Diabo: um sujeito recebe de noite a visita de Lúcifer, que lhe oferece a vida eterna em troca de sua alma. O sujeito, que nunca tinha ligado a mínima para religião, se apavora, manda o Diabo pro inferno e corre até a igreja mais próxima para se aconselhar. 

O padre ouve a história dele e propõe batizá-lo e dar-lhe a comunhão. “Para que?”, pergunta ele. “Ora,” diz o padre, “porque, desse modo, quando você morrer sua alma vai para o Céu e viverá lá eternamente, junto de Deus”. O cara protesta: “Muito bonito! Então todos dois estão me propondo o mesmo negócio?!”

Sim. O Bem e o Mal, a Lei e o Crime, etc etc., são a mão direita e a mão esquerda do charlatão cósmico que nos propõe um só negócio: ser o nosso dono. 

Quem leu o 1984 de Orwell deve lembrar que o protagonista, Winston, é recrutado para agir numa célula subversiva coordenada por um tal de O’Brien. Quando ele se entrega totalmente a essa atividade libertária, fica sabendo que O’Brien era um agente do governo cuja função era atrair gente insatisfeita para falsas células subversivas, e prendê-los todos de uma vez só.

Não é muito diferente da situação básica de outro clássico do humor negro britânico, O Homem que era Quinta-Feira de G. K. Chesterton, em que o personagem é um policial disfarçado que se filia a uma organização subversiva, com a intenção de desmascarar e prender todos os participantes, e com o passar do tempo começa a perceber que todos os outros são policiais infiltrados, como ele. Nenhum é subversivo.

Chesterton publicou esse livro em 1908. Nessa mesma época, segundo Marshall Berman (Tudo que é Sólido Desmancha no Ar) havia na Rússia grupos terroristas que eram, sem o saber, controlados pelo Ministério do Interior. O chefe de um desses bandos, Evni Azev, acabou coordenando o assassinato do seu próprio empregador, o Ministro do Interior, Viacheslav von Plehve. 

Chesterton, Dick e Orwell não eram profetas nem visionários. Eram apenas sujeitos que conheciam a tendência do Charlatão Cósmico para o humor negro.






sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

2471) O mistério Krapotkin (4.2.2011)



“A semelhança eufônica com o nome do famoso anarquista poderia explicar, em parte, o relativo ostracismo a que o escritor russo-brasileiro Krapotkin foi estranhamente relegado", comentou o crítico J. Silveira sobre o fato de que até o Google localiza com dificuldade as (poucas) páginas dedicadas ao excêntrico romancista. Criador de uma Oulipo “avant la lettre”, e várias vezes comparado a Borges (cuja obra aparentava desconhecer ou desdenhar), ele não tem relação com Piotr Kropotkin (1842-1921), reverenciado por anarquistas e libertários do mundo inteiro, principalmente entre os jovens (ainda hoje, em manifestações contra o G-8, em Davos ou em qualquer parte, veem-se jovens “punk” com cabelo moicano azul empunhando posters do barbudo e atarracado pensador russo). Já o escritor, Nikolai Krapotkin (1916-1995), teve a possível má sorte de emigrar em 1945 para o Brasil, onde produziu sua obra e onde se enterrou para sempre no âmbar translúcido da nossa língua, que se tornou para ele, como para tantos outros, “esplendor e sepultura”.

“Há um poço subterrâneo, de trajeto caligráfico, ligando Rússia e Brasil”, escreveu Krapotkin num artigo publicado em 1961 na Revista do Livro, “uma corrente de energia psíquica entre territórios tão apartados e distintos; ela produz a mesma crispação cósmica arrebatando o intelecto, a mesma fascinação com a clareza da álgebra e com as sombras do incognoscível”. Krapotkin publicou aqui Ouroboros (1965), Mardi Gras (1972), O Livro dos Jogos (1978) e o póstumo (inacabado) O Livro das Superstições (2011). Seu roteiro de ficção científica O Livro Invisível (não filmado, publicado em 1990) só pode ser chamado de FC, segundo um crítico, “no sentido em que Alice in Wonderland pode ser chamado de literatura infantil”.

Krapotkin era um escritor fora-de-esquadro (a seu respeito, ver: http://tinyurl.com/4nf5f28). Com notória facilidade para idiomas (escrevia nas principais línguas européias), utilizava de modo surpreendente o português, desconcertando e divertindo o leitor. Contudo, sua principal força não é no nível estilístico, mas no estrutural. Assim como Italo Calvino, Harry Stephen Keeler ou Milorad Pavich, sua originalidade estava principalmente na estrutura interna da narrativa e no modo como organizava a sucessão de peripécias. Seu uso de cartões perfurados, como os dos antigos programas de computador, foi visto por alguns críticos como uma influência de Nabokov; mas essa semelhança superficial foi desmentida por Antonio Biely num artigo da saudosa revista Nicolau, de Curitiba.

Um grupo de abnegados está exumando a obra de Krapotkin, grande parte da qual (como sua volumosa correspondência literária, meticulosamente preservada em cópias carbono) continua inédita. Especula-se também sobre sua utilização de pseudônimos, pois mais de uma vez queixou-se de que seu verdadeiro nome era visto com desconfiança pelo leitor brasileiro.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

2470) Jekyll Estripador (3.2.2011)



(gravura de Barry Moser)

O trocadilho infame deste título poderá ser perdoado por alguns leitores, se eu os convencer da importância do intercâmbio entre literatura e vida, ou, no presente caso, entre literatura de crime e crime de verdade. O Dr. Jekyll é o personagem do livro de R. L. Stevenson conhecido no Brasil como O Médico e o Monstro. É um médico respeitado que, ao tomar uma poção que ele mesmo inventou, transforma-se em Mr. Hyde, um sujeito sádico, violento, que age no submundo e pratica atrocidades. O livro de Stevenson foi publicado em janeiro de 1886 e em junho já vendera 40 mil cópias em Londres. Teve enorme impacto junto ao público e à imprensa, e diz-se que a própria Rainha Vitória o leu.

Dois anos depois os palcos de Londres já exibiam as primeiras adaptações teatrais da obra de Stevenson, quando, entre agosto e novembro de 1888, aconteceram os cinco assassinatos atribuídos a “Jack o Estripador”. Até hoje não se sabe quem foi ele. Assassinou e desfigurou cinco prostitutas, demonstrando razoável conhecimento de anatomia. Entre os inúmeros indivíduos que foram suspeitos dos crimes estavam vários médicos famosos, inclusive Sir William Gull, médico da Rainha. De um momento para outro, portanto, um médico londrino viveu em carne e osso a transformação de Dr. Jekyll em Mr. Hyde, praticou crimes ainda mais sádicos do que os de Hyde, e conseguiu escapar. Ficcionalmente, escapou até de Sherlock Holmes, que nesse ano de 1888 o ignorou, pois estava às voltas com os casos do “Intérprete Grego” e do Signo dos Quatro.

Historiadores perguntam se o sucesso da noveleta de Stevenson teria incentivado algum médico esquizóide a liberar sua porção criminosa. A verdade é que a criminalidade no submundo londrino desse tempo já era muito grande. Os crimes de Jack se sobressaíram apenas por causa da meticulosa violência, da sua serialidade, e da incapacidade da polícia em descobrir a identidade do assassino. Hoje, serial killers são quase um lugar comum. Na época, era algo em que ninguém tinha pensado, e essa ameaça pendente (“ele está solto, ele vai atacar de novo, ele vai fazer aquilo com qualquer pessoa”) alvoroçou a opinião pública.

A polícia de Londres recolheu na época 128 cartas (remetidas para ela própria, para a imprensa ou para outros destinatários) de pessoas que diziam ser Jack. Fala-se que cerca de 40 delas poderiam ser do criminoso. A grande quantidade de cartas com falsas ameaças e falsas confissões demonstra o impacto dos crimes junto à opinião pública. O crime, principalmente o crime brutal, cruel, psicótico, é uma ruptura do Ego da sociedade, por assim dizer. É aquele momento em que as barreiras de controle se rompem e o animal bruto emerge. A literatura de crime é uma forma de liberar essa pressão e de chamar a atenção para a existência dela, sem que o crime ocorra. Se Mr. Hyde foi um pesadelo de Stevenson que virou livro, Jack the Ripper foi um pesadelo de Londres, e virou crime.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

2469) Apanhados nas redes sociais (2.2.2011)



Uma piada na Internet mostra duas fotos. Na primeira, Julian Assange, o sujeito do WikiLeaks, diz: “Eu forneço informações privadas das corporações para as pessoas, de graça. E sou um vilão”. Na outra, Mark Zuckerberg, criador do Facebook, diz: “Eu forneço informações privadas das pessoas às corporações, por dinheiro. E sou O Homem do Ano”. Há exagero, como em toda piada, mas nos faz pensar um pouco. Zuckerberg diz que não criou o Facebook (como sugerem livros e filmes) para ficar famoso e conseguir ganhar gatinhas. Diz ele que queria “descobrir uma maneira de aproximar pessoas” e que estava obcecado em “realizar algo”. Este último motivo me parece plausível. Nerds como Zuckerberg gostam de resolver problemas técnicos e intelectuais (problemas que eles próprios criam do nada), e não pensam muito em ficar ricos, comprar ternos Armani, andar de BMW, etc. O filme A Rede Social faz um contraste interessante entre ele e Sean Parker (Justin Timberlake), o criador do Napster, que é uma curiosa mistura de nerd e yuppie, preocupado com roupas, ostentação, etc. Já Bill Gates pertence a um terceiro tipo. Não há dois nerds iguais, a não ser os medíocres.

Um nerd disse certa vez que gostava mais de computadores do que de garotas porque os computadores davam respostas mais rápidas e que faziam sentido. Quem é taquipsíquico (gente que pensa mais depressa do que o normal), dificilmente vai encontrar num ser humano normal a mesma velocidade de resposta. Por outro lado, nerds são lentos para se adaptar a ambientes estranhos. Sua dificuldade de conviver com outras pessoas (e de arranjar namoradas) não é bem por causa das pessoas em si, é pela obrigação de tomar banho, vestir uma roupa diferente da habitual, sair de casa, chegar num local cheio de gente desconhecida, submeter-se a rituais meio ridículos, ser forçado a conversar (além da pessoa que lhe interessa) com gente a que não dá a mínima, ouvir uma música que não lhe agrada... Quem é assim é nerd? Então eu sou nerd.

As redes sociais (Facebook, Orkut, etc.) oferecem para esses sujeitos (que pouco estão ligando para aparência pessoal, roupas, etc.) a oportunidade de conversar com gente interessante (= gente que se interessa pelos mesmos assuntos que eles, seja Star Wars, xadrez, folk rock, magia céltica, música barroca, o escambau), e poder conversar em seu próprio quarto, de calção, comendo biscoitos, sem gastar o dinheiro da mesada. E com a opção de, com um só clique, desligar aquilo tudo e ir para a sala, ler um livro, escutar um som, ou apagar a luz e adormecer do jeito que está. Esses caras não são nocivos, não são violentos, não são destrutivos. São apenas diferentes. As redes sociais permitem, aos caras que gostam de ir direto ao assunto, ir somente aos assuntos que lhes interessam, sem precisar fazer um teatrinho social para agradar a ninguém. Se isso não é um progresso nas relações humanas, favor parar o planeta que eu quero descer.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

2468) "Pierrô" (1.2.2011)




Este conto de Guy de Maupassant, que li há meio século, me volta à mente quando esbarro com uma dessas situações propensas à alegoria. Porque, diante das grandes catástrofes, precisamos reduzi-las ao tamanho das pequenas tragédias, para termos a sensação de que estamos entendendo aquilo.

Pois bem: a viúva Lefèvre mora numa aldeiazinha da Normandia, em companhia de sua criada, Rose. A velha é sovina como um cacto, e certa noite descobre, alarmada, que um ladrão pulou o muro e roubou algumas besteiras da horta. Ela fica insegura e resolve arranjar um cachorro. Oferecem-lhe vários, mas ela sempre acha o preço extorsivo.

Até que um vizinho traz um filhote horroroso: “um estranho animalzinho, todo amarelo, quase sem pernas, corpo de crocodilo, cabeça de raposa e cauda em forma de trombeta, verdadeiro penacho do tamanho do corpo”. Apesar da descrição é mesmo um cachorro, e ela lhe dá o nome de Pierrô.

Pierrô cresce, e, coitado, se revela um desastre como guarda. Não late para nenhuma visita, faz festas a qualquer estranho; só late quando tem fome, e late com força. As duas, apesar de secas e empertigadas, se afeiçoam ao bicho.

Até que lhes cobram um imposto sobre a posse de animais domésticos: oito francos! A viúva se escandaliza e a criada também (é avara com os vinténs da patroa, por temer que venham a lhe faltar um dia). Resolvem fazer o que se faz na aldeia: jogá-lo num poço onde morrerá de fome.

Jogam-no, mas dias depois, tomadas de remorsos e pesadelos, as duas se arrependem. Agora é tarde para tirar Pierrô dali! Elas levam pão com manteiga, atiram os pedaços no poço, e choram diante dos latidos alegres de Pierrô.

Isso dura alguns dias, até que certa manhã, ao atirar o pão, elas ouvem um latido mais forte. Alguém jogou outro cão, um cão dos grandes, no poço! Cada pedaço de pão que atiram provoca um alarido lá embaixo, e ganidos de dor que elas reconhecem. Gritam: “É para você, Pierrô!”, mas de nada adianta.

E por fim a viúva diz, em tom ácido: “ – Absolutamente não posso alimentar todos os cachorros que forem jogados aí dentro. Temos de desistir. – E, indignada ante a idéia de uma porção de cachorros vivendo à sua custa, ela se retirou, levando consigo o resto do pão, que comeu, enquanto caminhava”.

C’est la vie! As autoridades não detestam os pobres; pelo contrário, têm boas intenções para com eles, e, se pudessem, fariam de tudo para ajudá-los. O problema é que pobre dá muita despesa e pouco lucro, então é melhor empurrar a todos para o fundo de um poço, a encosta de um barranco, a periferia de um subúrbio.

Quando os sentimentos humanitários botam a cabeça de fora, as autoridades começam a enviar dinheiro para os pobres, mas no meio do caminho aparece um cachorro grande, insaciável, que devora tudo. Por mais que as autoridades gritem: “É para vocês, pobres!”, o cachorro grande se atravessa. E elas nada podem fazer, porque quem botou o cachorro grande ali foi, sem dúvida, outra autoridade.







domingo, 30 de janeiro de 2011

2467) A pornografia e a Internet (30.1.2011)




Segundo um artigo de Cezary Jan Strusiewicz no saite Cracked.com (http://bit.ly/f1kbvp) a indústria pornográfica é um ótimo ambiente para testar novas tecnologias e novas formas de comercialização. A razão para isto é que o consumidor da Pornografia não é muito exigente em perfeição técnica, em conteúdo artístico, etc. Desde que o material (livro, filme, fotos, etc.) contenha o que ele está querendo ver, de forma reconhecível, vai haver sempre quem o adquira. 

Diz Strusiewicz: 

“Durante o tempo das vacas magras na Internet, os saites pornô eram os únicos que cobravam por acesso online. A Pornografia na Web criou e aperfeiçoou os sistemas de acesso ao conteúdo através de assinaturas pagas, de verificação online de cartões de crédito e sistemas de cobrança via Web. Hoje, tudo isto é usado regularmente por multinacionais como Amazon, E-Bay e iTunes. E porque o sexo mais procurado é o sexo em movimento, os consumidores logo exigiram acesso a algo mais que fotos. Assim a Pornografia foi um dos primeiros e raros ramos de negócios a oferecer vídeos em “streaming” (o que você vê na tela mas não pode baixar), ajudando a popularizar esta prática, e até mesmo alavancando o desenvolvimento da tecnologia de Flash”.

Strusiewicz acha também que a Pornografia (que é amoral, não-ideológica, e tem um espírito meramente comercial e pragmático) pode ajudar a “limpar” a Internet, porque ela, também, é vítima de vários tipos de pirataria online e desenvolve seus mecanismos de defesa; a indústria do “X-Rated” é hoje um dos principais pesquisadores de software anti-pirataria.

Por que motivo a Pornografia está sempre à frente no que diz respeito à vanguarda hi-tech? Diz Strusiewicz: 

“Assim como uma garota reprimida que vai morar num campus universitário, a indústria pornô está não só disposta, mas sequiosa, por novas experiências. A maioria das empresas convencionais tem uma estratégia financeira planejada cuidadosamente para a próxima década. Elas não podem se dar o luxo de se desviar desse plano, e fica-lhes difícil fazer experiências e testar novas posições no mercado. O Pornô adora novas experiências e novas posições! Muitos executivos do mundo Pornô são jovens, ansiosos para experimentar maneiras diferentes de atingir os consumidores”.

Já se fala em pornografia 3-D e em aplicativos pornô em video-streaming pro sujeito assistir no iPad (anunciados no mesmo dia em que a Apple lançou o iPad). Há investimentos em pesquisas sobre Inteligência Artificial sendo financiados pela indústria pornográfica, segundo Ilan Bunimowitz, executivo do Private Media Group. 

Ela ajuda a criar novos mercados com a intenção de ocupá-los antes dos concorrentes, o que sempre acontece porque os concorrentes precisam convencer seus acionistas e obter os alvarás ou coisa parecida nos corredores do Governo. A economia informal não precisa disso. Quando a Lei vai pros cajus, os fora-da-lei já estão vindo das castanhas.






sábado, 29 de janeiro de 2011

2466) A banda de um homem só (29.1.2011)





Já devo ter falado aqui sobre o saite UbuWeb, que se auto-denomina, com bom humor, “o YouTube da vanguarda”. É exatamente isto: um enorme arquivo de sons e imagens, mas ao invés de cenas do BBB-11 e de clips de Cláudia Leitte o saite oferece entrevistas com William Burroughs, documentários sobre Picasso e Man Ray, curtas underground dos anos 1950. 

Ou, no presente caso, o documentário The One Man Band, sobre os projetos inacabados de Orson Welles. 

As últimas décadas na vida de Welles foram um triste anticlímax para o sujeito que dirigiu Cidadão Kane, várias vezes eleito como o maior filme da história do cinema. Depois de brigar com Hollywood, Welles se refugiou na Europa (com a qual, vamos e venhamos, tem muito mais a ver), onde realizou alguns filmes magníficos, mas ao mesmo tempo teve uma sucessão de naufrágios em projetos que poderiam ter resultado (quem pode afirmar que não?) em obras tão notáveis quanto O Processo ou Falstaff.

O documentário (ver aqui: http://www.ubu.com/film/welles_oneman.html) acompanha alguns desses naufrágios, e foi co-dirigido por Oja Kodar, a longilínea e misteriosa companheira de Welles no final da vida, aquela mesma que aparece com destaque em F for Fake (“Verdades e mentiras de Orson Welles”), seu último grande filme. 

Ela abre a casa onde viveram, e mostra, além de um quarto atulhado de latas de filme 35mm, os “cases” que Welles levava em suas viagens. Para onde fosse, ele levava consigo uma moviola portátil para editar filme 16mm, câmara, etc. Financiava seus projetos pessoais cobrando cachês extorsivos para trabalhar de ator em qualquer filme vagabundo. Pagavam-lhe, porque seu nome no cartaz abria muitas portas. Com o dinheiro, e com a amizade de incontáveis atores e técnicos, ele ia filmando e montando devagarinho os quebra-cabeças que resultavam em filme como Macbeth ou Otelo.

Entre os projetos inacabados está The Other Side of the Wind, que tinha como atores John Huston e Peter Bogdanovich, além de Oja Kodar (que aparece numa impressionante cena de sexo com um rapaz, na boléia de uma camionete, numa estrada, à noite, enquanto o motorista ao lado dirige como se nada estivesse acontecendo). 

Outro projeto foi The Deep, uma história de suspense e violência filmada em alto-mar, que se inviabilizou após a morte do ator Laurence Harvey. 

The Dreamers foi uma tentativa de adaptar um conto de Isak Dinesen (Karen Blixen), a escritora dinamarquesa que Welles admirava muito.

Além desses, o documentário mostra pequenos esquetes cômicos. Welles como um desconcertado cliente de dois alfaiates ingleses metidos a engraçadinhos; Welles de jornalista entrevistando Welles de nobre britânico falido; Welles como banda-de-um-homem-só tocando na rua e sendo assistido por ele mesmo em diferentes trajes (inclusive de mulher). É um material inédito e fascinante, do tipo que a UbuWeb, o YouTube da vanguarda, tem aos milhares.





sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

2465) Drummond: "Poema que Aconteceu" (28.1.2011)


(M. C. Escher, "Mãos")

Alguém devia editar uma antologia de Carlos Drummond sob o título de Poemas de Aceitação, e essa recolha nos revelaria um lado importante e profundo do poeta. 

Drummond tem um estoicismo que pende mais para o zen do que para o masoquista, e não envolve uma resignação passiva da realidade, mas um gesto filosoficamente assertivo, conquistador, de aceitar a realidade dominando-a, subjugando-a através de um abracadabra filosófico que se exprime em palavras poéticas. 

Temos a sensação de que se alguém despejasse sobre Drummond todos os blocos da Pirâmide do Egito ele seria capaz de (se lhe dessem alguns minutos) descobrir uma fórmula verbal de aceitar sua enxurrada e manter-se intacto na base do entulho. 

A aceitação tem sete faces, como tudo que CDA compôs, porque um poema não é uma bula de remédio, fórmula exata e definitiva do produto que acompanha. Um poema é o registro sismográfico das inquietações intelectuais e emocionais de um sujeito, e sua tentativa de dar um nó de tinta em volta de cada problema. 

Um problema sério do jornalismo cultural de hoje em dia (não me atrevo a chamar isso de “crítica literária”) é uma profunda incompreensão do que é a criação literária. Há sujeitos capazes de, num perfeito jargão acadêmico, criticarem um autor por “contraditório” simplesmente porque dois poemas dele, num mesmo livro, exprimem idéias opostas. 

Quem chega à poesia pelas fórmulas didáticas, e não pelos poemas, nunca vai saber o que é poesia. (E me refiro aos poemas no cru, sem anestesia, sem assinatura, sem comentário, sem preparação, o poema caído de uma fenda no céu no colo do leitor). 

Em Alguma Poesia, cujos 80 anos foram comemorados ano passado, surge o singelo “Poema que Aconteceu”, uma dessas pequenas epifanias não-poéticas, não-conceituais, não-estéticas que os poetas tantas vezes procuram. Escrever algo que representa a vida, mas a vida sem enfeites, a vida sem beleza ou drama, a vida sem profundas palavras ou nobres conceitos, a vida que lateja nos animais e nas plantas. “Life, and life only” como disse Bob Dylan. Uma tentativa de auto-despojamento que Alberto “Fernando Pessoa” Caeiro conseguiu por outros meios e caminhos. 

Nenhum desejo neste domingo 
nenhum problema nesta vida 
o mundo parou de repente 
os homens ficaram calados 
domingo sem fim nem começo. 

Não é apenas a letargia dos nossos domingos urbanos e modernos; é a polaróide de um instante sem desejos, sem problemas, sem movimento, sem palavras, sem espaço nem tempo. A vida em Modo Sleep, a vida latente mas com o intelecto desligado. O corpo apenas, vivendo um segundo de cada vez. E ele conclui: 

A mão que escreve este poema 
não sabe que está escrevendo 
mas é possível que se soubesse 
nem ligasse. 

A mão sem Eu, a mão sem mente, a mão mediúnica, a mão-desenhando-a-mão de M. C. Escher, a mão que produz a poesia sem que o dono precise pensar. (Claro que, como Escher, Drummond sabe que está sugerindo algo impossível).





quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

2464) A pornografia e o progresso (27.1.2011)





A economia informal (aquela que se dá do lado de fora das leis e da fiscalização do Poder Público) é uma grandiosa cordilheira de montanhas, cada uma delas parecendo mais alta do que as outras, dependendo do ponto de vista. 

O Tráfico de Drogas, por exemplo, tem crescido exponencialmente nas últimas décadas. 

A Pirataria Digital evolui com tal rapidez que se fosse mesmo uma montanha e tentássemos fotografá-la a foto provavelmente sairia borrada, porque ela cresce a olhos vistos. 

A Pornografia provavelmente é a mais antiga das três, mas nem por isso perdeu impulso. Pelo contrário; no saite Cracked.com (http://bit.ly/f1kbvp) surge um argumentativo texto de Cezary Jan Strusiewicz sob o título: “Cinco aspectos em que a pornografia criou o mundo moderno”.

O primeiro, segundo ele, são as tecnologias de vídeo doméstico, que começam com o VHS. Strusiewicz observa que a idéia de podermos gravar e ver nossos próprios vídeos quando quiséssemos era praticamente inexistente antes do VHS. Diz ele: “Até o final da década de 1970, filmes de sacanagem correspondiam a metade de todas as vendas de fitas de vídeo nos EUA. Na Grã-Bretanha e na Alemanha esse número chegava a 80%."  

A razão disto é que, antes do VHS, a única maneira de ver filmes de sexo era comprar ingresso num cinema pornô, que não é, convenhamos, um lugar onde todo mundo se sente à vontade.

Segundo: a pornografia tornou possível a existência de sua câmara digital. Um dos grandes incentivos para a popularização deste formato foi quando as pessoas perceberam que, pela primeira vez, as fotos que elas tirassem na intimidade dos seus lares não teriam que ser reveladas num laboratório de uma loja, cujos funcionários, é claro, iriam copiar para si próprios as fotos mais picantes do casal. 

O artigo reproduz comerciais de revista, na época, em que essa associação entre foto digital e privacidade erótica é claramente sugerida. O VHS e a foto digital se conjugaram para permitir que qualquer pessoa gravasse e exibisse imagens por conta própria, na hora que quisesse, sem que elas tivessem que passar pela mão de ninguém.

Terceiro: Gutenberg inventou a imprensa; a pornografia a alavancou. Strusiewicz dá um pulo para séculos atrás e mostra algo parecido ocorrendo no começo da imprensa. Diz ele: 

“Gutenberg e sua Bíblia deram o pontapé inicial, mas durante séculos um dos autores mais lidos na Europa foi Pietro Aretino, hoje considerado um dos pais da literatura erótica, com seu livro de 1524 I Modi (As Maneiras), com gravuras de Giulio Romano”. 

Uma espécie de Kama Sutra italiano enumerando posições e técnicas. Ainda hoje, os Sonetos Luxuriosos de Aretino são traduzidos e lidos no Brasil. 

A tese de Strusiewicz é que sempre há compradores para a obra erótico-pornográfica, independentemente de seu acabamento técnico ou valor artístico. Isto faz desta indústria um excelente campo de testes para novas tecnologias e para novos experimentos de transações comerciais.


Continua aqui:

https://mundofantasmo.blogspot.com/2011/01/2467-pornografia-e-internet-3012011.html