Há um gênero de narrativa que não é propriamente de
terror, e se situa mais no campo do Insólito, mas é capaz de provocar um
calafrio quando o leitor começa a mergulhar nela. É um terror sem monstros,
digamos; um terror sem violência ou sadismo, um terror sem criaturas que
ameaçam. Um terror baseado não no medo da morte ou do sofrimento – mas na Estranheza.
É um conceito de espaço, não no sentido da Física e da
Astronomia, mas no sentido do espaço social, um lugar físico que foi ocupado
pela presença humana, contaminado pela presença humana através de construções,
edificações, modificações no ambiente (uma cerca, uma ponte, um poço, etc.).
Qualquer foto de uma cidade nos dá uma imagem confortável, até aconchegante,
desse espaço social. Um lugar cheio de gente, ruas, prédios, vida humana. E
sentimo-nos em casa.
Existem espaços, contudo, que nos dão essa sensação de
forma oblíqua, incompleta. Como se a presença ali fosse insuficientemente
humana. Como se aquele espaço não
tivesse sido domesticado de todo. Como se no meio do matagal houvesse uma casa,
mas entrando pela porta da frente víssemos que dentro da casa o matagal
prosseguia intacto.
Não precisamos entrar no domínio do Fantástico ou do
Terror ou do Realismo Mágico para nos depararmos com esse tipo de ambiente, mas
ele está presente em todo tipo de narrativa – da ficção científica à fantasia,
etc.
J. G. Ballard é um dos principais autores que exploram
esses “espaços liminares” (“liminal spaces”), espaços que ficam no limiar entre
o humano e o não-humano, entre a civilização e a selvageria, entre a
indiferença e a ameaça. Diz ele, em suas memórias, falando sobre um cassino
abandonado que via na infância:
Mas havia um significado mais profundo para mim – a sensação de que a
própria realidade era um cenário que podia ser desmontado a qualquer momento e
que, por mais magnífico que algo parecesse, podia ser varrido a qualquer
momento e atirado na lata de lixo do passado.
(Milagres da Vida, trad. Isa Mara Lando, p. 58-59)
Existe hoje em dia um verdadeiro culto aos “espaços
abandonados”, edifícios que deixaram de ser úteis mas não foram demolidos e
hoje estão tomados pelo mato e pela ferrugem.
O primeiro fotógrafo nesse gênero que acompanhei pela
Internet foi o piloto de avião comercial Henk van Rensbergen. Seu trabalho o
leva a viajar pelo mundo inteiro, e suas horas de folga são dedicadas a fotografar
lugares abandonados. Escrevi sobre ele aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2008/03/0018-lugares-abandonados-1242003.html
Porém não são apenas os lugares abandonados que nos
produzem estranheza, mas também os lugares novos, impecáveis, artificiais,
impessoais, meio deslocados de função. A percepção dessa estranheza produziu a
subcultura do que o pessoal chama de “backrooms”, que pode significar aposento
dos fundos, bastidores, salas secretas. Espaços
que parecem realistas, mas de uma realidade imaginada e construída não por seres
humanos, e sim por uma Inteligência Artificial eficiente, mecânica, sem imaginação, sem compreensão do que está fazendo.
Surgiu um trelelê recente na web a respeito de uma foto
que para muita gente era uma foto “icônica” desses backrooms ou espaços liminares. A foto circulava há muitos anos nos
grupos dedicados a esse assunto, e ao que parece somente agora no fim de maio
foi descoberta a sua origem. A foto é esta:
Por variadas razões ela se tornou um parâmetro dessa
estranheza espacial. Os espaços liminares já vêm sendo explorados na pintura,
principalmente a pintura surrealista:
(Giorgio de
Chirico, “Piazza”, 1913)
(Paul Delvaux,
“Solitude”, 1956)
Espaços destinados à presença humana, mas esvaziados,
quase totalmente, da presença humana.
De acordo com o canal da Farrell McGuire no YouTube, foi
preciso seguir muitas pistas e contar com várias descobertas isoladas para
chegar até a provável origem da foto.
Segundo ele, ela foi feita nas instalações atualmente
ocupadas por uma loja da rede Hobby Town, na cidade de Oshkosh (Wisconsin). Aparentemente,
era um espaço criado ali por uma loja ocupante anterior, a Rohner’s; antes de
ser reformado, alguém resolveu tirar fotos daquele local, sem imaginar que
estava criando um símbolo de toda uma subcultura internética.
Quem quiser mais detalhes dê uma olhada aqui na
sensacional descoberta de McGuire (ele fala em inglês, mas há a opção de
acompanhar uma transcrição do lado direito da tela).
https://www.youtube.com/watch?v=-1EKIIM3ShI
O websaite Metafilter, onde tomei conhecimento desta
descoberta, tem uma discussão interessante, com muitos exemplos de “espaços
liminares”:
https://www.metafilter.com/203949/disquieting-images-that-just-feel-off
A mitologia urbana dos backrooms tem a ver com o espírito descartável da nossa
civilização, como observou J. G. Ballard naquele trecho que citei no início. É
uma civilização que não foi feita para a pessoa humana, que parece ter sido
desenhada por uma Inteligência Artificial sem alma, sem espírito, sem
entendimento, visando apenas o cumprimento de uma tarefa dentro de
especificações dadas.
Tais ambientes produzem em nós essa sensação de “não
pertencimento”, de alienação, de que aquele espaço é menos humano do que
deveria. É um efeito parecido com outro conceito um tanto recente, o do
“Uncanny Valley”, ou “o Vale da Estranheza” – a sensação que temos diante de
bonecos, manequins ou andróides quase perfeitamente humanos mas guardando
alguma característica indefinível que nos provoca repulsa, medo, inquietação.
Sigmund Freud estudou isso no seu ensaio O Estranho (1919), referindo-se à “dificuldade
em distinguir entre criaturas artificiais (estátuas de cera, bonecas,
autômatos, etc.) e pessoas de verdade.” Uma pessoa que parece demais um boneco
ou um boneco que parece demais uma pessoa nos provocam a mesma rejeição
instintiva.
Algo parecido se dá com os “espaços liminares”, que nos
inquietam sem que haja ali a presença de monstros, de criminosos, de criaturas
repugnantes ou ameaçadoras. E os artistas contemporâneos têm sabido explorar
esse efeito, que está presente no cinema de David Lynch, Andrei Tarkovsky e
Stanley Kubrick, na literatura de Ballard ou de Philip K. Dick.
Um conto de Thomas M. Disch, “Descending” (em Under Compulsion), 1968), é o símbolo
perfeito dessa disjunção, ao mostrar um homem que depois de fazer compras numa
loja de departamentos começa a descer escadas rolantes na direção da garagem, e
nunca mais consegue sair desse labirinto. A partir de certa altura, há apenas
escadas descendo, nenhuma pessoa em volta, e ele não tem resistência física
para subir de volta no sentido contrário ao das escadas. Seu universo se
transforma num corredor estreito, iluminado por lâmpadas fluorescentes, unindo
duas escadas rolantes, a que vem de cima e a que o leva para baixo, sempre para
baixo.
O insólito dessas narrativas não sugere uma presença do
sobrenatural, antes indica um ruído naquilo que nos acostumamos a considerar o
Real, ou o Normal, que para algumas pessoas é a mesma coisa. Quem acredita na
prevalência do Normal confia na existência de valores absolutos. Acredita que o
mundo é, em última análise, um conjunto organizado e harmônico de elementos,
numa ordem que faz sentido.
Esse otimismo ontológico foi posto
à prova e questionado ao longo do século 20 pelo Surrealismo, pelo
Expressionismo, pelo Teatro do Absurdo, pela literatura de Horror Cósmico, por
todos os movimentos artísticos que viram no mundo “um vácuo atormentado, um
sistema de erros” (como dizia Carlos Drummond).