sexta-feira, 12 de abril de 2024

5051) "O Problema dos 3 Corpos" (12.4.2024)




Acabei de ver as duas adaptações, para série de TV, deste romance de Cixin Liu, muito elogiado e premiado por aí, certamente o primeiro livro de ficção científica chinesa a produzir um impacto tão grande no Ocidente. 
 
A tradução em inglês, feita por Ken Liu, ganhou o Prêmio Hugo de Melhor Romance, em 2015, e também foi indicada para o Prêmio Nebula (que acabaria sendo concedido nesse ano a Aniquilação, de Jeff Vandermeer). 
 
A série chinesa foi lançada em 2023, com 30 capítulos (pode ser vista no YouTube, com legendas em inglês). A série norte-americana foi lançada este ano, com 8 capítulos na primeira temporada. Ambas as adaptações são competentes, com grandes momentos, e ambas têm coisas que não estão muito bem resolvidas, como qualquer série de TV. 
 
Vale a pena vê-las? Sem dúvida. Qual das duas? Difícil responder, porque são dois resultados “fílmicos” muito diferentes. 




A série chinesa (dirigida por Lei Yang) tem um desenvolvimento mais arrastado. Alguns temas (como o das “contagens regressivas” implantadas nos olhos dos personagens) são esticados longamente, enquanto na série norte-americana isto é resolvido num vapt-vupt. 
 
Do mesmo modo, a série chinesa explora com muitas ramificações as atividades dos os grupos de “devotos” dos alienígenas (“Fronteiras da Ciência”, os Adventistas, os Redencionistas, os Sobreviventes...) e suas brigas internas, o que produz vários subplots de espionagem, assassinatos, etc. 



(Yu Hewei)


O elenco chinês é em geral muito bom: o detetive meio fanfarrão mas esperto (Yu Hewei) é um dos melhores. A exceção é a “Sala de Guerra” cheia de canastrões ocidentais usando farda e condecorações; nenhum presta. As expressões são forçadas, os diálogos ocos. 



(Liam Cunningham e Benedict Wong)
 

O elenco norte-americano oscila bastante, porque tem momentos um tanto novela-das-sete, mas eu gosto do detetive de Benedict Wong, da cientista Jess Hong (“Jin”) e do cientista Jovan Adepo (“Saul Durand”). Encontrei velhos conhecidos de Game of Thrones (outro projeto de Benioff & Weiss): Liam Cunningham (o “Mestre Davos”, voltando agora como o implacável comandante Wade) e John Bradley (“Samwell Tarly”, aqui como o milionário Jack Rooney). 
 
O ponto em que a série chinesa dá de goleada na norte-americana, contudo, é justamente na criação da personagem Ye Wanjie (interpretada por Ziwen Wang, na juventude, e Jin Chen, idosa) a cientista cujo pai é morto pela Guarda Vermelha maoísta, mas depois é aproveitada, pelo seu talento, na Base da Costa Vermelha. Ali ela irá trabalhar na antena emissora e, mais tarde, lançar o chamado para os alienígenas. Existe nesta versão da história uma sensação real de tempo passado por ela na Red Coast Base. Acompanhamos sua subida na carreira profissional, sua relação com os chefes imediatos, o acesso aos aparelhos, a mensagem, a decisão final de deixar oculta a resposta dos extraterrestres. 



(Jin Chen, como “Ye Wanjie”)


Ye Wanjie é o personagem central dessa narrativa, um personagem complexo que me deu vontade de ler o livro. (Não que o livro não tenha, certamente, outras qualidades.) Não é uma vilã convencional; suas motivações são complexas, e a imensa tensão emocional e intelectual da personagem é bem explorada com muitos pequenos episódios esclarecedores. Isto fica faltando na série norte-americana, onde ela não passa de uma personagem secundária, mesmo sendo a deflagradora da trama. 
 
Em geral, ambas as séries fazem escolhas com o pensamento no público que pretendem atingir. Os jovens cientistas chineses são contidos, travados, e quando destravam endoidecem. 
 
(Ambas as séries, aliás, recorrem ao batido clichê do “cientista pirado” que se dá o trabalho de cobrir todas as paredes e o chão com rabiscos matemáticos; isto virou no cinema de hoje um equivalente ao “laboratório gótico” dos velhos filmes de terror, com tubos de ensaio espumando e retortas soltando vapor.) 




Os jovens cientistas ocidentais têm todos os cacoetes dos personagens jovens da TV. Os namoros instáveis, as amizades à base de rompimentos e reaproximações, as piscadelas humorísticas na direção da platéia. Esse tipo de personagem compõe o que a gente poderia chamar de “realismo estatístico”. Cacoete de Hollywood? Nem tanto; tem até alguma herança do “realismo socialista”, com sua busca de personagens típicos vivendo situações típicas e tomando decisões típicas.  
 
As duas séries tratam de modo parecido e diferente um dos episódios mas vigorosos, em termos de dramaticidade e de efeitos especiais: a emboscada no Canal do Panamá. 
 
Na adaptação chinesa, o procedimento de ataque ao navio é antes longamente discutido, explicado, exemplificado, e o suspense que experimentamos resulta da expectativa em ver se um plano tão mirabolante vai dar certo. 
 
Na adaptação Netflix, sabemos que o navio vai ser atacado, mas o roteiro não revela como vai ser exatamente. Cada detalhe que surge é uma surpresa, e aos poucos entendemos a tecnologia usada pelos atacantes. 
 
Uma solução é certa, a outra é errada? Acho que não. Como tantas vezes acontece, tanto o suspense quanto a surpresa têm seu valor dramático, mas dependem acima de tudo da eficiência narrativa de quem dirige. E nos dois casos, são cenas bem sucedidas. 
 
Outro aspecto cientificamente simpático do enredo é a larguíssima janela de espera pela chegada de uma frota estelar alienígena. Soa mais realista do que aquelas histórias em que tudo acontece num piscar de olhos. “Naves foram construídas, e anos depois os humanos desembarcavam no planeta Zargon-14...” 
 
A longa viagem da frota bélica dos Tri-Solarianos (ou “Santi”) na direção da Terra me trouxe à lembrança a Guerra das Malvinas nos anos 1980, quando após a invasão argentina às ilhas a Primeira-Ministra Margareth Thatcher despachou uma “força tarefa” que viajou pelo Atlântico durante semanas, com o mundo na maior expectativa, até entrar em choque com as tropas argentinas. Uma guerra não acontece de repente; precisa de um vasto deslocamento de forças, tropas, veículos... Antes do primeiro tiro, a guerra já começou. 
 
É imensa a estante de obras de FC em que alienígenas ultra-poderosos são vistos como deuses. Arthur C. Clarke dizia que toda tecnologia suficientemente avançada fica indistinguível da mágica. De certo modo, o que adoramos religiosamente se confunde com o que não somos capazes de explicar de maneira racional. 



("Tatiana Haas")
 
Um dos melhores personagens da série Netflix é “Tatiana Haas” (Marlo Kelly), a jovem seguidora da seita dos “adoradores dos alienígenas”, uma matadora que tem o olhar vidrado e o sorriso fixo dos verdadeiros fanáticos. Sua equivalente, na série chinesa, é a mocinha de boné branco (cujo nome não consegui localizar) que destronca o pescoço de um assassino profissional com a facilidade de quem abre uma cerveja long-neck. 
 
Fanatismo político, fanatismo religioso, e fanatismo científico são colorações diferentes de uma mesma psicose. (Eu ia incluir também o fanatismo futebolístico, o fanatismo literário, etc., etc., mas por enquanto não é preciso.) Durante milênios a Humanidade olhou para o céu, fazendo perguntas e esperando respostas. Acho que foi Blaise Pascal quem disse: “O silêncio eterno desses espaços infinitos me dá medo.” As religiões são um conjunto de possíveis respostas. A busca por alienígenas, também. Ninguém quer aceitar a responsabilidade de ser a única inteligência do Universo. 




A obra de Cixin Liu é uma trilogia. O título em inglês, Remembrance of Earth’s Past, alude a Marcel Proust, e pode ser traduzido como Em Busca da Terra Perdida. Os três volumes são The Three Body Problem (2006), The Dark Forest (2008) e Death’s End (2010). Enquanto a série chinesa se detém no primeiro volume, trechos importantes do segundo e do terceiro foram transpostos para a série Netflix, que pode ser considerada mais representativa da trilogia como um todo. 
 
Pelo que as duas séries apresentaram, creio que vale a leitura dos livros, até por exprimir uma visão “chinesa” dos grandes problemas do gênero. A literatura é sempre uma expressão individual, mas também-sempre contaminada por ambiente social, leituras, interações, nosso inevitável mergulho no coletivo. Assim como existe em toda sociedade um “espírito do Tempo” (Zeitgeist) existe também um “espírito do Espaço” (Raumgeist?...) – que deve ser o que se chama por aí de nacionalismo. 
 
Às vezes me perguntam como escrever ficção científica “brasileira”. Respondo que a melhor maneira é ser pessoal como escritor. Não é ser “narcisista”, nem “autobiográfico”; é projetar-se por inteiro em tudo que lhe interessa: como escritor, como leitor, como pessoa. O resultado, mesmo que a ação transcorra em Betelgueuse ou no Século 2222, terá algo de brasileiro, que nem o próprio escritor estava percebendo. 
 
 





terça-feira, 9 de abril de 2024

5050) Seis portais (9.4.2024)




Os pesquisadores do Sistema de Portais Aleatórios divulgaram há poucos dias em seu website alguns achados do ano de 2023, mantendo, como sempre, uma margem de segredo para evitar a interferência de curiosos. 
 
1
Um provador de roupas na loja de departamentos Griggs em Atlanta (Georgia) foi descoberto como portal, quando certos tipos de roupas são experimentados ali. O pesquisador Alex Allen, ao se olhar no espelho experimentando um casaco de frio, viu abrir-se à sua frente o portal, que o conduziu para uma esquina nevada, de madrugada, numa cidade deserta, onde as únicas luzes acesas eram as dos postes de iluminação pública. No dia seguinte, levou várias roupas ao provador, e ao experimentar uma camisa de seda colorida o portal se abriu para um boliche quase vazio, onde um homem idoso arremessava bolas uma atrás da outra, sem conseguir grande resultado. Em ambos os casos o pesquisador sentiu o portal muito instável e percebeu que agarrar com força o tecido da roupa o mantinha aberto tempo suficiente para poder voltar. 
 
2
Uma descoberta curiosa foi feita por um casal de pesquisadores de Belém do Pará. Num edifício semi-abandonado no centro da cidade, mas ainda parcialmente em atividade, um elevador de cargas aciona em certas ocasiões (mas sempre, pontualmente, ao meio-dia) um portal que leva os passageiros da cabine, instantaneamente, do andar térreo para (sempre) o vigésimo-primeiro andar, onde funcionou até poucos anos atrás um laboratório de artefatos eletrônicos. Os pesquisadores veem alguma possível correlação entre os dois fatos. O portal só se manifesta na subida, e na volta é preciso descer todos os andares, ou então usar o elevador social, ainda em funcionamento, utilizado pelos funcionários de algumas empresas que estão se preparando para mudar de endereço ou fechar as portas. 
 
3
Um  parque municipal em Toulouse (sul da França) exibe em seu setor norte uma gruta artificial, montada com rochas de verdade e rochas “cenográficas”. A gruta se abre em algumas galerias por onde é possível caminhar (geralmente passeando com crianças) ao longo de corredores de pedra. Um pesquisador percebeu a vibração de um portal numa reentrância das rochas de papel-machê, e ao penetrar nele percebeu que ele conduzia a uma gruta idêntica, com poucas diferenças de detalhe, numa região selvagem e aparentemente desabitada, que ele julgou estar na África, observando a trajetória do sol e das estrelas. De volta à cidade, ele descobriu com surpresa que o arquiteto responsável pela gruta artificial a construiu baseando-se apenas em sua imaginação, sem consultar pesquisas ou imagens de qualquer gruta real. 
 
4
No banheiro da estação rodoviária de uma cidade do interior do Nordeste brasileiro, na terceira privada à esquerda de quem entra, está encalhado um portal-transiente que (de acordo com o relato do técnico local) “bruxuleia algumas vezes por dia, durante um ou dois minutos, e é quando a passagem fica aberta”. A descoberta foi feita inteiramente por acaso por um pesquisador amador de dezoito anos. Ao ser atravessado, o portal conduz a uma cidade de aspecto europeu, com arquitetura antiga, clima enevoado, frio intenso, e sempre à noite. O pesquisador atravessou o portal por quatro vezes, ao longo de um mês, mas não conseguiu identificar o país, ou o idioma local. Como de hábito, celulares não funcionam após o portal ser cruzado. O pesquisador não se afastou muito, com medo do portal se apagar e ele ficar preso nessa cidade. O ponto de saída se situa numa espécie de arena romana ou concha acústica em ruínas. Nenhuma pessoa à vista. 
 
5
Tem sido alternadamente elogiada e contestada a descoberta feita por Enrico Gambarotti, de Firenze, que em maio de 2023 informou à Central haver descoberto um portal em plena Ponte Vecchio, entre duas tendas (uma de roupas, outra de presentes e souvenirs). O portal conduzia a um edifício de escritórios, abandonado, num país que não se pôde identificar. O aspecto desconcertante na descoberta é que o edifício parecia estar às avessas, e ao emergir do portal o Pesquisador alega ter caminhado no teto o tempo inteiro, sendo que o piso, invertido, ficava sobre sua cabeça, com móveis, cadeiras, estantes, etc., tudo "de pernas para o ar".  Um objeto apanhado e depois solto no ar caía para cima, na direção do piso, mas no corpo do observador a força da gravidade parecia se exercer normalmente, como se ele estivesse em seu ambiente costumeiro. A descoberta de Gambarotti foi questionada pela própria Divisão Itália, quando se divulgou que a descoberta do portal foi feita por suas filhas gêmeas de 11 anos, Claudia e Chiara, que conseguiram surrupiar o Codificador, numa distração do pai, e voltaram contando essa história. Membros da Divisão Itália alegam que Gambarotti não cruzou pessoalmente o portal, e está apenas divulgando o que suas filhas lhe contaram, assustadíssimas. 
 
6
O pesquisador Vinicius Schroeder, de Bagé (Rio Grande do Sul) descobriu em sua cidade um portal precariamente situado na garagem de um edifício comercial, num trecho onde ninguém circula, um “espaço morto” entre as vagas de estacionamento e a subida da rampa. O portal só se tornou visível por emitir reflexos azulados de maneira aleatória. Penetrando por ele às 8 da manhã de um sábado, Schroeder se viu na área de serviço de um apartamento pequeno e abafado, habitado por uma família oriental que não se assustou com sua presença, e continuou entregue aos seus afazeres. Ele percorreu o apartamento inteiro, verificando que era pessoas de classe média baixa, pai, mãe, três filhos adolescentes, todos conversando entre si o tempo inteiro, sem demonstrar preocupação. Avistando na parede do quarto dos filhos (dois rapazes e uma moça, dormindo em beliches) um mapa da Malásia, concluiu que era ali a localização da moradia. A família pôs mais uma cadeira e mais um prato na mesa e o convidou para jantar (lá, já era noite), e ele tomou uma sopa de lentilhas acompanhada por chá preto e pão caseiro. 
 
 






sábado, 6 de abril de 2024

5049) A arte do conto policial (6.4.2024)



 
Tive uma idéia excelente para um conto policial. Eu sou, aliás, o rei das idéias.  Se fosse menos preguiçoso, poderia até ter chegado a ser o rei dos contos policiais, mas escrever, escrever mesmo, concretamente, é um trabalho braçal desnecessário. Muito mais agradável é ter uma idéia atrás da outra, sempre colocando uma pedra em cima da folha para que o vento não a leve, e seguindo adiante. Cada idéia da gente é uma folha. Basta abrir um arquivo, resumir a idéia, jogar um título, dar uma salvada rápida... A vida não foi feita para se perder tempo, nem o tempo foi feito para passar. A vida tem mais é que ser pra sempre. O tempo tem mais é que descansar.
 
A idéia é que um sujeito é encontrado morto em seu escritório. Um homem de certo poder político ou econômico, e tudo indica se tratar de um suicídio. Ele escreveu um bilhete e explodiu a cabeça com um tiro. A arma ainda está presa entre seus dedos imobilizados pela rigidez cadavérica. O detetive examina o bilhete, que diz algo como: “Lamento por todos, mas é o jeito”. 
 
Curiosamente, o bilhete do suicida está datilografado. Estranho, não? Se tem uma coisa em que um suicida geralmente capricha é esse recado final, que deve ser de autoria indiscutível. É aí que o contista precisa driblar as circunstâncias que ele mesmo preparou. 
 
O bilhete tem que ser datilografado, senão não tem história. Suponhamos então que o falecido era idoso, tinha um princípio de Parkinson ou equivalente, a mão tremia muito, e toda sua comunicação por escrito era feita à máquina. O leitor sagaz fareja aí uma preparação qualquer, mas leitores lebres precisam ter paciência com autores tartarugas. 



O detalhe é que a história se passa num mundo pré-computador, num mundo em que um sujeito com alguma grana teria ao seu dispor uma máquina de escrever elétrica. E ele tem uma, justamente por causa do Parkinson (o teclado é mais sensível – não precisa percutir a tecla, basta encostar). 
 
Essas máquinas elétricas tinham dois tipos de fita: a de algodão (mais barata) e a de polietileno. A de algodão rendia mais. Tal como as fitas das velhas máquinas mecânicas, a “Olivetti”, a “Remington”, era um algodão embebido em tinta que admitia várias “passadas”, observando que a cada passada a tinta diminuiria. 



(Fita de polietileno para máquina-de-escrever elétrica)


Já a fita de polietileno, acondicionada num cartucho, era uma faixa negra e estreita, em direção única, onde o martelinho de cada letra cortava o formato exato, colando aquela letrinha negra no papel, e voltava ao repouso enquanto a fita se movia meio milímetro de lado e aguardava a próxima martelada. 
 
Acho que não é preciso mais. Este conto devia ter sido escrito quando essas coisas eram novas. Tudo tem que ser escrito enquanto as coisas são novas. Quando a gente se dá conta, as coisas envelheceram mais rápido do que nós. A gente planeja, e fica tão orgulhoso de finalmente ter planejado alguma idéia engenhosa, mas aí tudo começa a se afundar no oceano pastoso das Coisas Que Não São Mais Assim. Afundam, e se nos apegarmos a elas, afundaremos junto. Uma injustiça com as coisas que eram reais quando nós éramos jovens. 
 
Agora, não, há uma proliferação injusta e afrontosa de novas coisas e nova gente nos empurrando para o fundo do palco, assumindo as luzes, tratando gente como nós como se fôssemos teias-de-aranha. E perguntando, com a arrogância dos desinformados: “O que é máquina-de-escrever elétrica? O que é liquid-paper? O que é orelhão? O que é telex? O que é laquê? O que é combinação? O que é rirri? O que é cabriolé?  O que é lábaro? O que é roscofe?”. 





Voltemos ao mundo das idéias, paraíso onde tudo brilha e nada perece. 
 
A idéia era que extraindo o cartucho de fita de polietileno, onde cada letra percute uma vez apenas, seria possível reconstituir em ordem reversa todas as palavras que tinham sido datilografadas naquela máquina. E assim o detetive descobre que dois bilhetes de suicida haviam sido escritos: o verdadeiro (que foi destruído), e o falso, que foi encontrado junto ao corpo. Não houve assassinato. Foi suicídio mesmo. O que houve foi que alguém descobriu o corpo, leu o bilhete (que o denunciava, ou o prejudicava de alguma forma, não importa, invento depois), e resolveu destruí-lo e escrever o outro, anódino, insípido, não comprometedor, que foi descoberto. 




O detetive faz os malabarismos retóricos de costume, exibe a fita de polietileno, soletra de trás para diante o bilhete que foi encontrado, último texto escrito naquela máquina, e num lance teatral, faz o mesmo com o penúltimo, o bilhete autêntico que foi destruído. E aí é só inventar quem era a família, quais as brigas internas (toda família de milionário tem brigas internas), os dramas da raça humana. Com um parágrafo final arrasador, digno de acompanhamento orquestral. 
 
É aí que o leitor moderno ergue a cabeça da página e pergunta, amuado: “Mas o que é polietileno?”. 
 
Mas agora sim!... E se a solução de um mistério detetivesco dependesse do criminoso (e o detetive, e o leitor, por tabela) entenderem a estrutura e o funcionamento de um candeeiro de querosene, ou de um alambique, ou de um moinho dágua? Quantas pessoas no mundo sabem como essas coisas funcionam? 



 
– Portanto, – diz o detetive, enquanto o falsificador, cabisbaixo, é levado em algemas para a gendarmeria local, – aproveitem o momento. Carpe diem. Escrevam sobre as coisas de hoje, antes que chegue o vendaval do Amanhã. O crime de vocês precisa de um pen-drive? Escrevam hoje – amanhã teremos o chip telepático. Escrevam hoje as suas histórias sobre essas novidades que nos parecem eternas: o tik-tok, o açaí com granola, o air-fryer, o podcast, a tatuagem, a dupla sertaneja. Parecem que vão ficar entre nós para todo o sempre? Tenho uma boa-má notícia: não vão. 
 
“Tudo passa. Só quem não passa, pelo que vejo, é a Seita dos Talibãs do Presente. Hoje em dia a gente não pode dizer, descuidadamente, “vou pegar um táxi” sem que algum espertinho erga o dedo bem satisfeito e corrija: “Um Uber!...”. 
 
São as mesmas pessoas que no meio de uma noitada ouvem a gente dizer: “Nos vemos amanhã”, e corrigem: “Amanhã, não – hoje!!! Já passou de meia-noite!!!”  E ainda apontam para o pulso, orgulhosas. 
 
“É um orgulho que até se justifica, porque essas pessoas vêm com o vendaval, com a folharada. São aquelas que têm a Engenhoca.16 mas a trocam imediatamente pela Engenhoca.17 mal ela desponta no mercado. E para elas, as dezessetes, tudo que for dezesseis é superado, anacrônico, desprezível. 
 
“Vieram com o vendaval, e (sejamos otimistas!) com o vendaval irão embora.” 
 







quarta-feira, 3 de abril de 2024

5048) O Banquete dos Mendigos (3.4.2024)




 
A imprensa tem comentado um filme russo recente, O Mestre e Margarida, que está fazendo grande sucesso popular, e inquietando os censores do governo de Vladimir Putin. 
 
É mais uma adaptação cinematográfica (há várias) do famoso romance de Mikhail Bulgakov, que se não me engano já tem mais de uma tradução no Brasil.
 
Nunca o li. É um romance fantástico, muito elogiado, e está naquela lista de “500 Livros Que Preciso Ler, Nem Que Seja Depois De Morrer”. 
 
Houve uma sincronicidade interessante porque vi o anúncio desse filme mais ou menos ao mesmo tempo em que estava começando a rabiscar umas notas sobre o disco Beggars Banquet (“O Banquete dos Mendigos”, 1968) dos Rolling Stones, um dos meus preferidos na extensa obra da banda. 
 
O Banquete dos Mendigos (“Beggars Banquet”, 1968) foi um disco-porrada que os Stones lançaram na segunda metade da década de 1960, quando essa hidra-de-70-cabeças chamada “rock” brotava por toda parte. 
 
Para mim, é um dos melhores discos deles, junto com Between the Buttons, Let It Bleed, Exile on Main Street, Flowers, Some Girls e certamente mais algum título inesquecível que estou esquecendo agora. 




Os Stones sempre foram mais identificados com rockão pesado do que os Beatles, por exemplo. Eram metal-quente, e parede estremecendo. Junto deles, os Beatles eram o Trio Esperança, e o que os “salvava” era a riqueza melódica, a harmonia vocal, o imenso repertório de estilos musicais (graças principalmente a MacCartney, que cresceu ao lado de um pai músico, escutando tudo). E as letras, de Rubber Soul em diante; e o carisma sorridente
 
O lado “musicalmente beatle” dos Stones ficava por conta do multi-instrumentista Brian Jones, que morreu cedo; uma perda tão grande para o rock quanto as de Jimi Hendrix e Jim Morrison.
 
Lembro que o primeiro choque que Beggars Banquet produziu em mim e na minha turma na Paraíba foi que não era tão “rockão pesado” assim, se descontarmos “Street Fightin’ Man”. Era um cardápio variado de ritmos e sonoridades, que fazia a gente escutar de cenho franzido, pensando: “Que troço estranho. Isso é rock? Onde foram achar isso? Que troço legal.” 
 
A começar, é evidente, pela faixa que abre o disco, “Sympathy for the Devil”. Reza a lenda que as primeiras “levadas” da música surgiram quando os Stones vieram pegar uma areia ensolarada em Arembepe e outros lugarejos baianos, e de vez em quando tiravam um som com os moradores locais. 
 
O famoso e hipnótico “Uh-uuh!...”, que pontua a canção do começo ao fim, não foi trazido da Bahia, como pensei por muito tempo; foi meio que improvisado pelo produtor Jimmy Miller durante a gravação, e incorporado pela banda. Todo mundo entrou no balanço.  Não duvido que Mick Jagger e Keith Richards tenham explicado, muito convictos, aos técnicos de som: “É samba”. 
 
“Sympathy for the Devil” junta-se à capa interna do disco para explicar o diapasão mental que afinava o rock daquele tempo: luxo, decadência, esbanjamento e devassidão. O Diabo, que se apresenta nos versos, é “um homem de posses e de bom gosto”, um aristocrata. E ao mesmo tempo um conspirador dos salões e dos gabinetes, um instigador de conflitos. Ele se vangloria de estar por trás da Revolução Russa, da Blitzkrieg nazista, da morte dos Kennedys... 
 
E é aí que entra a sincronicidade com O Mestre e Margarida, o livro de Bulgakov, porque Mick Jagger sempre afirmou que “Sympathy for the Devil” tinha se inspirado nesse livro, escrito por Bulgakov entre 1928 e o ano de sua morte, 1940. A tradução inglesa, lançada em 1967 pela Grove Press, e em seguida por outras editoras, teve uma influência direta na canção dos Stones, cuja letra fala em nome do Diabo: 
 
Estou rondando por aqui há muitos anos
roubei a alma e a fé de muitos homens.
Estava por perto quando Jesus Cristo
teve o seu momento de dor e de dúvida;
e me certifiquei de que Pilatos
lavasse as mãos e selasse o seu destino.
 
O confronto entre Pilatos e Cristo é uma das linhas narrativas de O Mestre e Margarida, e Jagger o transpôs diretamente para a canção.
 
Jagger e os Stones nunca foram propriamente satanistas, ao que eu saiba. Pegaram um pouco de fama por causa dessa música. Quem teve pela vida toda um flerte com o Ocultismo e os seres-de-umbral foi gente como Jimmy Page, morador numa mansão que foi de Aleister Crowley. Os Stones intitularam um disco Their Satanic Majesties Request, mas o disco lembra mais um passeio no Mundo Imaginário do Dr. Parnassus do que uma visita ao Hades.



(Their Satanic Majesties Request)


O Diabo (dizia Guimarães Rosa) não existe: existe é o homem humano. O homem de posses e de bom gosto, apreciador de uma boa debaucheria, e que é o próprio Mick Jagger e seus ajudantes. E o disco ganhou um dos melhores títulos e uma das melhores capas internas da história do rock. 



Nessa capa interna e na faixa de abertura está concentrado o espírito de dissipação e auto-indulgência do rock daquela época. Uma farra meio surrealista promovida por alguns jovens milionários: o mais velho dos Stones, o baixista Bill Wyman, tinha 32 anos, mas os demais estavam na faixa de 25-27 anos. 



(Viridiana


O fotógrafo do disco, Michael Joseph, comenta que a idéia da foto do banquete foi do diretor de arte Mike Peters, e que este teria sido influenciado pela famosa foto do “banquete dos mendigos” de Viridiana (1961) de Luís Buñuel, numa versão satírica da Última Ceia de Leonardo da Vinci. 
 
Quase toda a comida que aparece na foto é artificial, com exceção de algumas bandejas com frutas. O local da sessão foi no norte de Londres, na mansão de Sarum Chase, em Hampstead. O supervisor da casa perguntou se na foto apareceriam mulheres nuas. “Não,” disse o fotógrafo, “vai ser somente a banda. Por que?”  E ele: “Se a foto incluir mulheres nuas, cobramos 10 libras a mais.” 
 
Ao ler isto, lembrei de um amigo meu, em Campina, olhando a capa do Banquete: “Tem bebida pra caramba, tem comida, tem porco, galinha, marreco... e não tem mulher nua. Isso é lá farra!” O que não nos impedia de correr o olho pela foto, catando detalhes; ou pela reprodução feita em Campina Grande pelo saudoso Roberto Coura, então com 16 anos, reproduzindo essa foto do banquete em nanquim sobre cartolina, em 1 metro x 2,5, e que foi parar na sala de Jakson e Marcos Agra. 
 
O banquete era uma síntese entre a vulgaridade e a sujeira dos mendigos de Buñuel, e (aqui é uma conjetura minha) a famosa capa do Bringin’ It All Back Home (1965) de Bob Dylan. Capa cuja intenção, nesta foto montada, era conferir a Dylan (que tinha uma origem rústica, de Minnesota, origem de cantor folk) a imagem sofisticada de cantor agora novaiorquino. 





A foto de Daniel Kaufman o mostra numa sala, diante de uma lareira, com um gato no colo, por entre objetos descuidadamente/cuidadosamente jogados em torno: uma revista Time, um disco de Robert Johnson, uma placa de “abrigo nuclear”... e uma mulher, vestida, mas linda, em pose relaxada e promissora (é a ex-modelo Sally Grossman, a esposa do empresário de Dylan). 
 
Tenho a mais tranquila certeza de que os Stones, além de ouvirem muito esse disco, examinaram muito essa capa, e três anos depois tiveram a chance de dar a resposta. A resposta não era a Dylan, na verdade, era ao jet-set londrino que no começo os esnobou tanto quanto o jet-set de Nova York esnobou Dylan; mas o sucesso doura qualquer pílula, e ambas as capas parecem estar dizendo: Fodam-se, nós agora somos ricos também. 
 
Nem tudo eram banquetes: o fotógrafo dos Stones lembra que na noite anterior à sessão de fotos a casa de Brian Jones tinha sido invadida pela polícia, em busca de drogas (não acharam nada), e ele, sempre o mais emocionalmente instável da banda, estava ainda abalado. 




O repertório do disco, curiosamente, não fica batendo na tecla da ostentação. Há várias canções quase totalmente acústicas, fugindo às muralhas de som do heavy-metal nascente. 
 
“Factory Girl” é uma homenagem às garotas que trabalham em fábricas, cantada pelo sujeito que a espera do lado de fora (quase um “Três Apitos” de Noel Rosa), uma garota “com joelhos gordinhos, com um lenço em vez de chapéu, e uma roupa com um zíper quebrado atrás”. 
 
“Salt of the Earth” é outra canção proletária, se se pode dizer isto. A banda ergue um brinde “aos humildes de berço... aos que trabalham duro... ao soldado raso que se mata de trabalhar, à sua esposa e filhos que acendem fogos e aram a terra... vamos beber a esses milhões de pessoas que precisam de líderes, mas só lhes chegam especuladores...” Aqui, os ecos se propagam até “Working Class Hero”, da carreira solo de John Lennon. 
 
Ou seja: por mais que fossem milionários recentes os Stones não cortavam seu cordão umbilical de classe, das origens não-milionárias de cada um. E mesmo quando decolavam num dos seus rocks mais pesados e rebeldes dessa fase, “Street Fighting Man”, eles perguntam: 
 
Mas afinal, o que pode um rapaz pobre fazer
a não ser cantar numa banda de rock?
Porque nesta sonolenta cidade de Londres
não há lugar para guerreiros de rua.
 
E depois, em versos que parecem pedidos-emprestados a “Sympathy for the Devil”:
 
Então... o meu nome é Distúrbio,
eu vou gritar e ulular
eu vou matar o rei
e passar o rodo nos seus servidores.
 
Keith Richard comenta que a rapaziada inglesa de então (lembrem-se, o ano era 1968) via com certa inveja as agitações estudantis francesas que fecharam a Sorbonne e pararam Paris no mês de maio. Richard lembra que as frases iniciais desta música (“Ev’rywhere I hear the sound of marching charging feet, boy..”) se baseia na sirene de duas-notas dos carros de polícia franceses. Uma inspiração semelhante à que teve John Lennon ao compor “I Am The Walrus” (“Mister-City-p’liceman-sittin’-pretty-little-p’liceman-in a row...”). 
 
Comparada à Paris de Daniel Cohn-Bendit e de Jean-Luc Godard, Londres devia parecer uma grande Boston. Talvez por isso mesmo a banda tenha convidado Godard para filmar a gravação de “Sympathy for the Devil” no estúdio – parafraseando Chico Buarque e dizendo: “pra ver se o fogo deles, guardado em ti, nos contagia um pouco”.
















sábado, 30 de março de 2024

5047) A autob/i/ografia de Solha (30.3.2024)




Estou há meses com a autobiografia de W. J. Solha aqui em cima da mesa-de-centro da minha sala, que é uma espécie de sala-de-espera de Estação Rodoviária. Ali se aglomeram momentaneamente os tipos mais variados. Uns partem (=são lidos) logo, outros se demoram mais, por terem mais páginas, ou por precisarem de maior silêncio e concentração... Enfim. 
 
O livro de Solha tem se demorado por uma razão curiosa. É grande? Até que pode ser, em suas 346 páginas bem diagramadas pelas múltiplas e cuidadosas mãos da Editora Arribaçã. Quando o recebi, porém, achei pequeno. Talvez pequeno quando comparado ao tamanho Cinemascope da obra de Solha como escritor, poeta, artista plástico, ator... Se viesse um livro três ou quatro vezes maior, eu não me espantaria. 
 
Por outro lado, venho lendo esse livro há anos, porque Solha é um escrevedor compulsivo, como eu mesmo. Aquele indivíduo que pode até ser meio normal, mas vive com uma opressão no peito e só respira com alívio quando começa a digitar. Escrever é uma neurose benigna; alivia o peso da existência e realça o que dela se aproveita. 
 
Nos últimos anos, Solha tem publicado nas redes sociais (no Facebook, principalmente, onde o acompanho) inúmeros fragmentos desse livro, de tal modo que não é exagero dizer que todos os dias eu leio pelo menos uma página escrita por ele. E muitas dessas páginas (corri o polegar pelas folhas e constatei) estão distribuídas por esse livro. 
 
Para ficar no jargão moderno posso dizer então que é um “livro quântico”, ao mesmo tempo lido e não-lido. Leio com atenção no Facebook porque ali Solha (que é um devoto do texto e um devoto da imagem) ilustra com fartura os episódios que está narrando: com fotos do álbum pessoal, pinturas clássicas, cenas de filme, fotos de seus trabalhos, dos amigos, das pessoas citadas... 



(Solha em O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho) 

 
Ele lamentou não poder encher o livro de fotos, e aí dou razão aos editores: o livro ficaria imenso, e proibitivamente caro. 
 
Solha tem uma memória persistente, implacável, a memória dos que tentam tudo ver, tudo entender, tudo registrar, tudo explicar, tudo preservar para sempre. Esses impulsos utópicos de quem precisa conviver intimamente com a certeza da própria efemeridade física, e com a visão de um mundo tão cheio (apesar de tudo) de coisas que valem a pena. 
 
E, como dizia Julio Cortázar em O Jogo da Amarelinha: “A nostalgia de uma vida tão curta para tantas bibliotecas”. 
 
A lembrança de Cortázar não é gratuita, porque quando peguei o livro de Solha, em dezembro passado, tinha uma vaga idéia de uma narrativa linear que sei mais ou menos, por alto: o menino nascido em 1941 em Sorocaba; a infância e adolescência povoada de livros, filmes e desenhos; o concurso do Banco do Brasil; a vinda para Pombal, no sertão da Paraíba; o alumbramento de descobrir que o mundo é múltiplo e o Brasil é imprevisível; o mergulho no teatro e no cinema; a ida para João Pessoa... Enfim, algo como aquelas 3 ou 4 páginas de Cronologia que a gente sempre encontra nas obras dos escritores importantes. 


 
Era nesse tapete que eu estava pisando ao abrir o livro, e que foi puxado de sob os meus pés quando comecei a folhear as páginas. Na pág. 113, o autor está “no começo dos anos 1970”. Na página 44, ele está em 2009. Pulo para a pág. 275 e ele está em 1979. Na página 304, estamos em 1970. Na pág. 83, pulamos para 2020. 
 
Essa descoberta foi reveladora, porque eu raciocinei: “Aqui estão 100 ou 200 fragmentos de texto dos quais eu acho que já li metade, em ordem aleatória. Desse modo, não preciso ler o livro de A a Z, da primeira à última página, porque ele próprio me liberou da obrigação cronológica. É um livro não-linear, de acesso randômico.  Pode começar a ser lido do último fragmento para o primeiro, se eu entender assim.” 
 
Ou seja, tinha algo, sim, do Jogo da Amarelinha de Cortázar, romance construído como espinha-de-peixe, com uma avenida narrativa bem larga e bem central, cheia de transversais à direita e à esquerda, que podemos percorrer também, de acordo com a nossa veneta. Tinha algo de um dos meus preferidos, o Lugar Público (1968) de José Agrippino de Paula, que dizia textualmente: “A ordem do texto não me importa, posso começar um livro tanto pela primeira quanto pela última página, tanto faz”. 



(Solha em A Canga, de Marcus Vilar) 
 
O livro se intitula, oficialmente: Autob/i/ografia de Solha (Cajazeiras: Arribaçã, 2023). Acho que já vi umas linhas dele explicando essa grafia. Se está no livro, acabarei achando. Se foi no Facebook, babau-tia-chica, porque o Facebook é como o “Livro de Areia” de Jorge Luís Borges, se a gente perder de vista um trecho nunca mais encontra. 
 
No meu arquivo mnemônico interno, passei a lembrar do livro como: A/u/t/o/b/i/o/g/r/a/f/i/a de Solha, resgatando esse caráter fragmentário que acaba fazendo sentido. Ou talvez a intenção seja destacar o “I”, o Eu, no meio da palavra, porque Solha é paraibano, sim, e dentro de cada um de nós existe um Augusto dos Anjos e seus demônios. 
 
Já comentei aqui no Mundo Fantasmo vários livros anteriores de Solha; corro o risco de me repetir, mas me vem à memória o conselho de um amigo mais velho e mais experiente: “Não tenha pudor de repetir. O povo só escuta o que a gente repete.” Ler-de-novo é assoprar brasas. Me atrevo a afirmar: “Só entende um parágrafo quem o relê de vez em quando”. 
 
Estou avançando na leitura e saltando como bola de ping-pong entre a criação dos murais quase megalomaníacos que Solha pintou na Parahyba (mas todo mural não é megalomaníaco? todo filme? todo romance?) e as agruras do ator-produtor para pagar as dívidas do filme O Salário da Morte, rodado em Pombal; entre suas leituras juvenis de enciclopédias e coleções de fascículos, e suas emoções ao ver pela primeira vez, na Europa, em carne e osso, os quadros que o fascinaram quando garoto. 
 
Histórias de episódios cômicos, de polêmicas, de brigas políticas, de truculências sertanejas ou fidalguias literárias, episódios comoventes da vida familiar, as furiosas leituras religiosas de alguém que pensa em Deus o tempo todo (pensar o tempo todo é uma forma de acreditar?)... E acima de tudo esse desenho da memória que ricocheteia em todas as direções, como no famoso “movimento browniano” das moléculas de um gás num espaço fechado. As lembranças são como bolas de sinuca em movimento constante: a bola que a gente dispara sai batendo nas outras, que por sua vez batem nas mais próximas, que vão bater nas mais distantes... e não se avista o fim. 
 
E não se avista o fim. A mente-lembrança é um falso moto-contínuo, um mecanismo que nunca pára e que dá a impressão de produzir sua própria energia, mas na verdade esse mecanismo, a Mente, é alimentado por esta caldeira, o Corpo, que quanto mais velho fica mais energia parece ter. 



 
Eu estava abrindo o livro de Solha como se fosse um I-Ching, em página aleatória, e lendo aquilo em que o Acaso me fez tropeçar. É um bom método. Nunca falha com meus livros preferidos, que abro sem olhar, leio um trecho, guardo o livro na estante e vou viver meu dia, matutando. O que Solha escreve traz consigo essa intensidade de visão, de quem procura colocar em cada fragmento a totalidade do ser, a totalidade do vivido e do sentido e do imaginado. Cada episódio daqueles está pulsando, zumbindo; basta tocá-los com o olho. 
 
No entanto, resolvi mudar de método. Se o livro é feito de pedaços aleatórios, o fato de ler cada um deles aleatoriamente, ao invés de destacar esse aspecto, acaba por diluí-lo. Duas aleatoriedades se equilibram e de certo modo se anulam. A verdadeira experiência da aleatoriedade só pode ser percebida por quem a experimenta transversalmente, seguindo uma ordem “de-ferro” e submetendo-se ao ping-pong atemporal. 
 
E aqui vou eu, como no filme Je t’aime, je t’aime (1968, Alain Resnais) ou no seriado O Túnel do Tempo (1966-67, Irwin Allen), em que no fim de cada ação a máquina-do-tempo desarranjada nos projeta “em algum lugar do passado”, sem aviso prévio, sem conexão aparente. E ao experimentar esse zigue-zague, ao romper com a linha fatalista-de-tragédia-grega da cronologia, temos a sensação de estar fugindo ao arco-narrativo que termina sempre... daquele jeito.  
 
Viver (ou reviver) uma narrativa com cronologia estlhaçada nos dá a sensação de existir de verdade. Cada minuto tem a surpresa da vida real. Ser imortal numa existência cronológica seria um suplício; ser imortal numa existência de momentos aleatórios talvez fosse suportável. 
 
E lá vou eu voltar a ler o livro para poder resenhá-lo. 


 








quarta-feira, 27 de março de 2024

5046) Curso: "As propostas de Ítalo Calvino" (27.3.2024)




Para quem se interessa por cursos de literatura online: estarei realizando mais um, entre 4 de abril e 9 de maio (nas quintas-feiras), através da plataforma Zoom, para o Instituto Estação das Letras (RJ). 
 
Serão seis aulas, das 19 às 21:00, abordando as propostas feitas por Ítalo Calvino sobre a literatura do próximo milênio – este em que estamos agora. 
 
Em 1985, quando morreu, Calvino estava preparando seis conferências que iria proferir na universidade de Harvard (EUA), no projeto conhecido como “Norton Poetry Lectures”. Um ótimo projeto, inclusive do nosso ponto de vista de leitores distantes. Não assistimos as palestras, mas tempos depois chega às nossas mãos um livrinho com esses textos, como This Craft of Verse de Jorge Luís Borges, Seis Passeios pelo Bosque da Ficção de Umberto Eco, Os Filhos do Barro de Octavio Paz, e este precioso volume de Calvino. 
 
As “Norton Lectures” são sempre seis conferências. Cinco de Calvino chegaram a ser escritas, mas ele morreu antes de redigir a última, da qual só nos restou o título. 



(Seis Propostas Para o Próximo Milênio, Companhia das Letras,1990, trad. Ivo Barroso)
 
 
O nosso curso de seis aulas vai dedicar cada uma delas a um dos temas propostos pelo escritor de Se Um Viajante Numa Noite De Inverno, de Cidades Invisíveis e de As Cosmicômicas. 
 
Calvino foi um dos escritores mais populares e mais experimentalistas de seu tempo. O experimentalismo literário costuma produzir obras difíceis de ler, ou pouco entusiasmantes. Não é o caso dele: Calvino tem um temperamento parecido com o de Julio Cortázar, cujas experimentações narrativas estavam sempre envolvidas em histórias capazes de atrair o leitor e prender sua atenção até o final. Ele consegue contar uma história envolvente enquanto reflete “em voz alta” sobre os mecanismos da contação de histórias.  Seu livro de maior sucesso de vendas, Se Um Viajante Numa Noite de Inverno (1979) é exatamente isto. 




Pensando no terceiro milênio ainda distante, Calvino enumerou seis idéias que ele queria discutir. Sua análise é muito ampla, recolhendo exemplos e modelos de diferentes formas artísticas. Logo na introdução ele explica: 
 
É típico da literatura italiana compreender num único contexto cultural todas as atividades artísticas, e é portanto perfeitamente para nós que, na definição das “Norton Poetry Lectures”, o termo “poetry” seja entendido num sentido amplo, que abrange também a música e as artes plásticas; da mesma forma, é perfeitamente natural que eu, escritor de fiction, inclua no mesmo discurso poesia em versos e romance, porque em nossa cultura literária a separação e especialização entre as duas formas de expressão e entre as respectivas reflexões críticas é menos evidente que em outras culturas. (p. 9) 
 
É uma advertência necessária, num contexto acadêmico onde a especialização e o foco excessivo são talvez superestimados. Calvino avisa logo que não vai falar somente do romance, a arte que praticou com mais constância: vai puxar exemplos da pintura, da poesia, dos quadrinhos, de onde ele possa obter uma referência ou uma influência, e criar uma interface com outra forma de expressão que (como todos sabemos) se reflete na literatura. Escritor bebe de todas as águas. 
 
E vamos aos temas.



1) Leveza
 
Calvino explica que existem “duas vocações opostas” na literatura:
 
Uma tende a fazer da linguagem um elemento sem peso, flutuando sobre as coisas como uma nuvem, ou melhor, como uma tênue pulverulência, ou, melhor ainda, como um campo de impulsos magnéticos; a outra tende a comunicar peso à linguagem, dar-lhe a espessura, a concreção das coisas, dos corpos, das sensações. (p. 27) 
 
Essa comparação entre dois impulsos opostos lembra uma comparação semelhante feita por Isaac Asimov num artigo famoso, “O Vitral e a Vidraça” (“The Mosaic and the Plateglass”). Para Asimov, existem duas linguagens: uma que é como um vitral de igreja, uma obra bonita em si mesma, que só exibe e só revela a si mesma; e existe uma linguagem que é como a vidraça: invisível, discreta, que serve somente de veículo para mostrar o que está acontecendo na história. 
 
A formulação de Asimov é compreensível, mas simplória – ele esquece que por mais “invisível” que pareça ser a linguagem ela não “mostra” a história. A história é criada por ela, e ela parece invisível somente porque é convencional, familiar, já devidamente assimilada pelo público-alvo. A gente lê “sem perceber que está lendo”. 
 
Calvino busca imagens da leveza que vão para além da linguagem em si. Ele lembra que Perseu, que usa sandálias aladas (presente de Hermes, o deus “Mercúrio”), é o único herói que consegue matar a Medusa (que tudo petrifica). Comenta que em A Insustentável Leveza do Ser o autor Milan Kundera está realmente falando sobre “O Inelutável Peso do Viver”. Avisa que o mundo de hoje, o mundo da Informática, “repousa sobre entidades sutilíssimas”: tudo é muito leve, muito fluido, e o peso do hardware é controlado pela leveza do software
 
E ele faz uma recomendação, citando Paul Valéry, que acho preciosa: “É preciso ser leve como o pássaro, não como a pluma.” 



2) Rapidez
 
Do ponto de vista físico, a leveza parece quase a mesma coisa que a rapidez, mas vamos pensar nesta frase de Valéry aí em cima. A pluma é leve mas é vagarosa, “precisa que haja vento sem parar” (como dizia Vinicius de Moraes); o pássaro tem impulso próprio, por isto é rápido. 
 
Calvino (organizador de uma excelente coletânea de Fábulas Italianas) usa lendas e contos populares para mostrar a importância das narrativas baseadas em “uma rápida sucessão de fatos”, uma prosa vapt-vupt, concreta, nítida: 
 
O segredo está na economia da narrativa em que os acontecimentos, independentemente de sua duração, se tornam punctiformes, interligados por segmentos retilíneos, num desenho em ziguezagues que corresponde a um movimento ininterrupto. (p. 48)
 
Toda narrativa é uma compressão temporal dos fatos. Toda narrativa é resumo. Mesmo a mais preguiçosa das narrativas, a mais tediosa, a mais baseada em encheção-de-linguiça, é mais rápida do que os fatos que narra. O tempo é sempre comprimido pela literatura. E o tempo literário é uma sanfona, é preciso saber distendê-lo e depois comprimi-lo.
 
E uma advertência meio dolorosa tanto para os principiantes quanto para muitos autores de “alta literatura”:
 
Todos conhecemos a desagradável sensação que se prova quando alguém pretende contar uma anedota sem ter jeito para isso, confundindo os efeitos, principalmente a concatenação e o ritmo. (p. 51)
 
Um comentário específico de Calvino nos lembra um aspecto crucial do Repente, da Cantoria de Viola, do verso improvisado em geral, o verso feito em tempo real, em cima da hora:
 
“A velocidade mental vale por si mesma, pelo prazer que proporciona àqueles que são sensíveis a esse prazer, e não pela utilidade prática que se possa extrair dela.  Um raciocínio rápido não é necessariamente superior a um raciocínio ponderado, ao contrário; mas comunica algo de especial que está precisamente nessa ligeireza.” (p. 58)



(Ivanildo Vila Nova)
 
 
3) Exatidão
 
Calvino define este aspecto com clareza:
 
Para mim, exatidão quer dizer principalmente três coisas: 
1)      Um projeto de obra bem definido e calculado; 
2)      A evocação de imagens visuais nítidas, incisivas, memoráveis; temos em italiano um adjetivo que não existe em inglês, icástico (...); 
3)      Uma linguagem que seja a mais precisa possível como léxico e em sua capacidade de traduzir as nuanças do pensamento e da imaginação. (p. 71-72) 




Ele faz em seguida uma análise de um trecho de Leopardi, o grande poeta italiano que dizia: “A linguagem será tanto mais poética quanto mais vaga e imprecisa for”. Ele transcreve um belo trecho em prosa em que Leopardi louva a beleza do luar quando não é visto diretamente, e sim em seus reflexos nos objetos, ou por entre obstáculos parciais (um canavial, uma floresta). No fim, Calvino comenta: 
 
Para podermos apreciar a beleza do vago e do indeterminado (...), para se alcançar a imprecisão desejada, é necessário a atenção extremamente precisa e meticulosa que ele aplica na composição de cada imagem. (p. 73)
 
Nesse capítulo Calvino fala da influência, em sua obra, de linguagens como a Matemática e a Geometria, onde convivem a precisão e a indefinição, onde os processos de análise acabam nos conduzindo ao conceito de infinito, de dízimas periódicas, de contas que sempre deixam resto (como o número Pi), como que nos dizendo que a exatidão absoluta é impossível de obter. 
 
E ele contrapõe duas imagens desse conceito: o cristal, uma forma estática, e a chama, uma forma imprecisa, móvel, mas igualmente clara e contida em si mesma – nítida e exata, à sua maneira. 




4) Visibilidade
 
Este capítulo começa com uma citação de Dante, na Divina Comédia: “Poi piovve dentro a l’alta fantasia” (“Chove dentro da alta fantasia”, Purgatório, Canto XVII). Calvino acha que a fantasia, o sonho, a imaginação, a alta poesia, a ficção, são espaços onde as imagens “chovem”. 
 
Ser capaz de imaginar visualmente é a marca de muitos grandes escritores. Talvez não todos; mas o escritor que é capaz de fazer projetar “um filminho” na cabeça do leitor tem meio caminho andado para conquistá-lo. 
 
Calvino observa dois processos criativos distintos: “o que parte da palavra para chegar à imagem visiva e o que parte da imagem visiva para chegar à expressão verbal”. Ele comenta o caráter atemorizante da imagem e o fato de que em muitas religiões é proibida a representação visual de Deus (ou até mesmo da Natureza física). A imagem tem algo de sagrado e inacessível ao verbo, à razão. 
 
Calvino confessa pertencer ao time dos que usam uma imagem visual (às vezes absurda, bizarra, inusitada) como ponto de partida para um conto ou um romance inteiro. Assim surgiu, por exemplo, sua trilogia Nossos Ancestrais: um homem cortado verticalmente em duas metades, um homem trepado em árvores recusando-se a pisar no chão, uma armadura que anda e fala sem ter ninguém dentro. 
 
Neste Capítulo ele rende homenagem às histórias em quadrinhos, à pintura e à literatura fantástica, que tenta “capturar a alma do mundo numa única figura”



(M. C. Escher, "Print Gallery") 
 
 
5) Multiplicidade
 
Calvino era um erudito que quando ia escrever deixava a erudição no bolso do paletó. Lia literatura de todo tipo. Escreveu uma ficção científica (As Cosmicômicas; Tau Zero) que não tem similar em lugar algum; talvez alguns textos de Stanislaw Lem, Robert Sheckley ou R. A. Lafferty. Tinha a volúpia da leitura e a da escrita. 
 
Ele diz:
 
O tema desta minha conferência (...) é o romance contemporâneo como enciclopédia, como método de conhecimento, e principalmente como rede de conexões entre os fatos, entre as pessoas, entre as coisas do mundo. (p. 121) 
 
Sempre recorrendo a exemplos italianos, ele comenta a obra de Carlos Emilio Gadda, onde “cada objeto mínimo é visto como o centro de uma rede de relações de que o escritor não consegue se esquivar, multiplicando os detalhes a ponto de suas descrições e divagações se tornarem infinitas”. 
 
Há toda uma tendência na literatura contemporânea desse romances em que deve caber tudo. Thomas Pynchon, Neal Stephenson, David Foster Wallace – escritores de real talento e razoável sucesso popular -- são alguns exemplos dessa literatura cujo objetivo não parece ser apenas o de descrever a realidade, mas de fagocitá-la por inteiro. 




Por outro lado, quando Calvino se refere a “romance enciclopédico” não quer dizer necessariamente que o autor deva despejar tudo que sabe dentro do livro que está escrevendo, produzindo esses monstrengos de 1.200 ou 1.500 páginas que a gente vê por aí. Mesmo num livrinho mais fino, de meras 150 páginas – como o seu Cidades Invisíveis –  ele deve ser capaz, a qualquer momento, de puxar, de qualquer área do saber humano ou da arte humana, aquela imagem de que precisa, a referência que esclarece, o mito que re-emerge, a peripécia que puxa o tapete. 
 
O romance não tem obrigação de conter tudo, mas tem licença para receber qualquer coisa. Sem limitação de “gênero literário”, de convenção de época, de modismo da imprensa ou da academia. 
 
O autor simpatiza com esse ímpeto gargantuesco: 
 
A literatura só pode viver se se propõe a objetivos desmesurados, até mesmo para além de suas possibilidades de realização. Só se poetas e escritores se lançarem a empresas que ninguém mais ousaria imaginar é que a literatura continuará a ter uma função. (p. 127) 
 


(Ítalo e Esther Calvino)


6) Consistência
 
Em 6 de setembro de 1985, Ítalo Calvino foi internado no Hospital Santa Maria Della Scala, em Siena, onde morreu na noite de 18 para 19, com uma hemorragia cerebral, aos 61 anos. Não chegou a escrever a última conferência, a que dera o título de “Consistência”. Sua esposa Esther Calvino afirma que ele dissera apenas que deveria fazer uma referência ao Bartleby, o Escrivão (1853) de Herman Melville.
 
O que teria dito Calvino a respeito? Podemos apenas conjeturar, e acho que é um prazer fazer conjeturas – sem nenhuma ambição de “bater o martelo” – no contexto da obra e do pensamento de alguém com tanto gosto pela literatura.
 
 
O Curso:
“As seis propostas de Ítalo Calvino”
Braulio Tavares
Seis aulas, online (via Zoom), das 19:00 às 21:00
Sempre às 5as.feiras, de 4 de abril a 9 de maio.
(Perdendo a aula ao vivo, o aluno inscrito tem acesso, depois, a uma gravação.)
Informações:
Instituto Estação das Letras (Rio de Janeiro)
(21) 99127-4088