quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

3090) A poesia e a ciência (23.1.2013)





(Martins Jr.)


Ainda com relação à palestra recente de Ariano Suassuna sobre Augusto dos Anjos, na Paraíba: Ariano fez uma menção à “Escola do Recife”, que teve um papel importante na formação do poeta do Eu. A Escola do Recife foi um movimento nacionalista e cientificista do final do século 19, concentrado na Faculdade de Direito do Recife, que reuniu intelectuais como Tobias Barreto, Joaquim Nabuco, Sílvio Romero e muitos outros. Entre os ativistas do movimento junto à Faculdade estava Martins Júnior (José Isidoro Martins Jr.), intelectual e poeta, grande leitor de ciência e de filosofia, que publicou em 1883 um ensaio intitulado A Poesia Científica. (Ver trechos aqui, em sua página na Academia Brasileira de Letras: http://bit.ly/UoGGcz).

Há influência de Martins Jr. (1860-1904) sobre a obra de Augusto. Os dois têm muito a ver em estilo, em assunto, em visão do mundo. Na sua palestra, Ariano fez uma distinção entre o talento e o gênio. Disse ele que as teorias poéticas de Martins Júnior eram brilhantes, mas que sua poesia era fraca, porque ele tinha apenas talento.  Já Augusto, segundo Ariano, tinha gênio; foi ele quem produziu a “poesia científica” que Martins Júnior teorizou e não foi capaz de criar.

R. Magalhães Jr., em sua Poesia e Vida de Augusto dos Anjos, comenta no capítulo 11 que a morte inesperada de Martins Jr., aos 44 anos, ocorreu em agosto de 1904, causando grande comoção no Recife e na Faculdade de Direito, onde Augusto já estudava. Ele registra a influência, em Martins Jr., “do evolucionismo spenceriano, do transformismo darwínico, do monismo haeckelista e do realismo científico materialista”. Ou seja, praticamente a base filosófica de onde decolava a poesia de Augusto. 

Magalhães transcreve uma estrofe de um poema de Martins Jr., onde se pode ver a tentativa de algo que Augusto, mesmo bem mais jovem, realizaria de maneira mais madura, logo a seguir: “Como coisas senis, fossilizadas, negras, / amontoam-se além as bolorentas regras / da Bíblia, do Alcorão, do Avesta e Rig-Veda. / Trôpegos, sem valor, curvos, de queda em queda, / fogem, na treva espessa, Adon, Moloque, Siva, / Ormud, Vichnu, Ahriman, Baalath...”  Augusto também evocaria muitos desses nomes místicos.

Martins Jr. defendia uma poesia que incluísse “desde a lei astronômica da atração até o evolucionismo biológico e social”. Dizendo-se discípulo de Baudelaire e de Guerra Junqueiro, criticava a poesia de sua época, a que chamava “poesia chorona”. E afirmava: “Denomino a poesia, a fórmula poética do futuro, como eu a compreendo e como eu a quero, deste modo – cientificismo filosófico, ou poesia científico-filosófica”.



terça-feira, 22 de janeiro de 2013

3089) O jeito brasileiro (22.1.2013)




(foto: Graça Graúna)


Já vi muitos depoimentos de estrangeiros sobre nosso povo, em entrevistas, pesquisas, enquetes, o escambau. As críticas que nos fazem são sempre muito parecidas, todas sobre coisas que a gente já sabe, e que em certa medida são verdadeiras: o brasileiro é acomodado, não se mobiliza socialmente para protestar, é excessivamente informal e despreza os instrumentos de controle (leis, Constituição, regulamentos, etc.). Examinar esses defeitos pode até ser interessante, mas hoje quero examinar algumas qualidades que nos atribuem.

Dizem, por exemplo, que o brasileiro é acolhedor, hospitaleiro. Será que esses povos europeus não o são? Talvez o sejam, mas de uma maneira diferente. O europeu em geral (olha que bruta generalização!) recebe super bem um desconhecido, desde que ele traga algum tipo de apresentação ou recomendação. Desde que ele tenha uma noção razoável de quem é aquela pessoa. Em todas as minhas experiências foi assim. O brasileiro, por outro lado, tende a acolher bem as pessoas com quem simpatiza, independentemente de saber quem são. Os índios são assim, não é mesmo?  Nove vezes em dez, recebem de braços abertos até aqueles sujeitos barbudos, feridentos, armados de escopetas.

Outra coisa: o brasileiro tem fé, acredita que as coisas, por piores que estejam, vão melhorar. Amigos europeus já me disseram do seu espanto diante disso. Por quê?, pergunto. Quando vocês têm um problema acham que o mundo vai acabar? Eles dizem: "Não, quando nós temos um problema temos medo de que aquela situação não dê certo e tudo comece a piorar a partir dali". Já os brasileiros dizem “deixa como está pra ver como é que fica” – e vão pensar noutra coisa.

Para muitos, isto é surpreendente, considerando-se que grande parte das pessoas que se comportam assim vivem em condições econômicas e físicas que deixariam um europeu no pior dos desesperos.  Alguém diria que o brasileiro suporta isto com otimismo por ser estóico, mas o termo “estóico” me traz à mente a imagem de um sujeito durão, de dentes trincados, suportando uma dor física aguda, ou um prolongado sofrimento mental. O brasileiro é o contrário. Ele dá a impressão de dizer: “Eu estou vendo os problemas, mas eles não fazem parte de mim. Eles são reais mas eles não são eu, e não vejo motivo para martirizar minha mente e meu corpo porque há um milhão de problemas a serem resolvidos. Se eu estiver bem, íntegro e forte em minha mente e meu corpo, encaro qualquer problema. Não vou me acabrunhar, nem me abater, nem passar o dia com todos os músculos contraídos só porque existe um problema na minha vida. Vou ficar bem.” Ficar bem já é meio caminho andado para resolver o problema.




domingo, 20 de janeiro de 2013

3088) Qualidade artística (20.1.2013)






("Resta uma questãozinha fútil", Edward Gorey)


O que mede a qualidade de um livro? Como autor, tenho o hábito maquinal de ver as coisas do ponto de vista do autor. Para a maioria de nós, a perspectiva de ter um livro lido e gostado por multidões de pessoas é uma sugestão sem nenhum defeito. Eu sou um destes, de modo que preciso de vez em quando lembrar que antes de ser autor, e depois de deixar de sê-lo, eu fui, e espero ainda ser, um leitor. Ser autor tem suas vantagens óbvias, mas ser leitor tem inclusive certas liberdades que o autor nem sempre pode ter. Um grande autor, em muitos casos, é um prisioneiro do universo que criou: Tolkien, Lovecraft, todos os outros. Já um leitor pode viver em tantos universos quantos encontre.

Como podemos quantificar o quanto o público gosta, por exemplo, de “O Morro dos Ventos Uivantes”? É um melodrama vitoriano com meia dúzia de relâmpagos góticos, e não mais que isto, mas as pessoas teimosamente mantêm esse livro em catálogo. Recentemente, Jane Austen, autora que nunca foi muito editada no Brasil, teve uma verdadeira explosão, devida em grande parte ao cinema. Pois Emily Bronte era tão famosa quanto Jane Austen hoje.

Quantificar através das edições, da venda da exemplares? É o mais cru e menos artístico dos critérios. Através de prêmios, de honrarias? Através da presença da obra (livro, filme, ópera, quadro, etc.) nas listas dos melhores, consistentemente, ao longo das décadas? Quantificar importância em função da fortuna crítica, das quantidade de obras escritas a respeito? Um olhar imparcial perceberia a persistência daquela canção ou daquele conto, dentro da memória coletiva de milhões de pessoas, ao longo de centenas de anos. Que melhor cacife literário do que ter escrito os “Sete anos de pastor Jacó servia”, a Divina Comédia, “A Pata do Macaco”?

O foco não é numérico, é descritivo. Avaliar qualidade é tentar descrever o impacto daquela obra dentro da cultura. Se foi respeitada, se foi imitada, se foi parodiada, se foi polemizada... “Se foi premiada” ou se “ficou entre as dez melhores” é interessante, mas o foco não é nisso. O foco é no impacto total na sociedade, não apenas sobre a crítica. Muitas vezes o crítico é apanhado de surpresa por uma onda artística, e isso é normal, se a onda tem mérito sabe ser convincente, sabe suportar a rejeição inicial e ir se impondo aos poucos.

O mercado de arte e o conceito de qualidade artística se parecem com um mercado de ações. Vale zero hoje, pode valer milhões amanhã, se as apostas certas forem feitas no momento certo; e vice-versa. A arte é aquele objeto, e é a fantasia fabulatória que ele extrai de nós que o explicamos. Sem nós ele não existiria.



sábado, 19 de janeiro de 2013

3087) Histórias felizes (19.1.2013)





Por que motivo a vida tranquila de pessoas felizes nunca rende uma boa história? Os manuais de roteiro norte-americanos dizem que toda história se baseia em conflito. Ótimo pretexto para que  os roteiristas façam a festa, com brigas de socos, carros explodindo, massacres com serra elétrica e sexo não-consentido. 

Em seu texto mais recente na coluna “Strokes” (http://bit.ly/ZydOmY), John Clute comenta: 

“Nós simplesmente não queremos ouvir, e poucos entre nós leem, embora alguns de nós gostem de recitar, histórias sobre pessoas boas e agradáveis que vivem vidas pacíficas, que resolvem pacificamente seus conflitos, que dão aos filhos liberdade para crescer e para participar sorridentes de estruturas poliamorosas; repelimos histórias desse tipo, embora talvez gostássemos de vivê-las, porque histórias ambientadas em mundos harmoniosos não passam de narrativas congratulatórias, elas exigem a conivência do leitor, que é obrigado a dizer que foi um luau magnífico, ficamos felizes por ter comparecido; o que significa que não se trata de histórias mas de mantras; um mundo verdadeiramente harmonioso seria um mundo desistorizado”.

Mesmo os romances utópicos trazem conflitos embutidos, em geral o conflito entre o Mundo Perfeito e a mentalidade do Visitante a quem esse mundo é mostrado. 

Na literatura utópica, o mundo feliz é um mundo onde nada acontece, a não ser diferentes formas de reiteração dessa felicidade. O conflito em geral não se dá dentro da narrativa, mas na leitura. (Caberia um estudo de como o cinema espírita, por exemplo, imagina o que é a vida no Paraíso.)

Acho que nem sempre foi assim. Talvez em culturas antigas os escritores competissem entre si para ver quem escrevia histórias mais placidamente felizes; e os leitores consumissem isto com deleite. Mas o romance moderno, de 200 anos pra cá, já foi descrito como “a saga do herói problemático”. O romance é um problema que virou história. 

Arregimentando todos os recursos verbais que tinham à mão – a narrativa, o diálogo, a digressão, a descrição, a citação/transcrição de outros gêneros, etc. – o romance tornou-se o gênero que melhor corresponde aos conflitos da sociedade burguesa. Onde a liberdade, a riqueza, a justiça e a felicidade nunca foram tão reais, mas somente pra quem pode. 

As histórias felizes não nos satisfazem porque sabemos serem intrinsecamente falsas; e a literatura popularesca descobriu a fórmula mágica – o romance problemático com um final falsamente feliz.  Com este placebo açucarado vem anestesiando a dor coletiva de bilhões de pessoas mergulhadas em conflito e frustração desde a certidão de nascimento ao atestado de óbito.








sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

3086) "O Reino de Kiato" (18.1.2013)





(capa da 1a. edição)



Entre os romances utópicos que a literatura brasileira produziu no começo do século 20, O Reino de Kiato (No país da verdade) de Rodolfo Teófilo (1853-18921932), publicado em 1922, não traz nenhuma novidade ao gênero (repete a fórmula com zelo de principiante e deslumbramento de recém-chegado), mas pode suscitar boas discussões sobre que tipo de utopia os nossos escritores enxergavam para o país. 

Teófilo foi um sanitarista que realizou em Fortaleza campanhas de vacinação contra a varíola, durante uma das mais mortais epidemias dessa doença, a partir de 1900. 

Seus romances regionalistas (que não li) parecem ter adotado a veia naturalista de descrição minuciosa de fatos desagradáveis (a doença, etc.). Em Kiato, ele vai na direção contrária. 

Seu protagonista é o cientista norte-americano John King Paterson, que mais uma vez confirma a falta de jeito dos escritores brasileiros para criar nomes em inglês, os quais nunca soam plausíveis. 

Ao viajar para a Europa a fim de divulgar um remédio que inventara para curar as neuroses, Paterson vai aportar acidentalmente numa ilha, o Reino de Kiato, onde encontra um país que resolveu todos os seus problemas, principalmente os três que Teófilo considera “fatores da degeneração do gênero humano”: o álcool, a sífilis e o tabaco.

O Brasil daquela virada de século devia mesmo ser um país insalubre, porque esses romances utópicos insistem sem parar na importância da limpeza, da higiene, da ausência de vícios. Insistem também na eugenia, no que eles chamam “o aprimoramento físico e mental da raça”. 

Os habitantes de Kiato têm mais de dois metros de altura, trabalham com alegria nas tarefas da roça, e vivem num mundo absolutamente organizado, onde as mulheres se dedicam somente às tarefas do lar, os impostos são pagos com alegria nas repartições do governo, a população obedece feliz ao toque de recolher às dez horas da noite.

É típico de certas utopias começarem, lá pelo meio do livro, a parecer distopias. 

A ânsia civilizatória de Rodolfo Teófilo o faz imaginar uma nação feliz que mais parece um pesadelo, um país onde não existe polícia porque todos os cidadãos obedecem alegremente a tudo que o Rei Pantaleão III determina. 

Por ingenuidade sociológica, os autores que imaginam sociedades perfeitas sempre criam projetos totalitários, eugênicos, higienistas e repressores. Durante o tempo que vive em Kiato, Paterson não conversa com nenhum habitante local, apenas com seu hoteleiro, William Robert, inglês como ele. É como se aqueles cidadãos felizes fossem robôs inacessíveis, ou a Utopia não passasse de um museu holográfico com o qual não fosse possível interagir.








quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

3085) O scroll e o códice (17.1.2013)




“Mestre Além tinha setenta anos mas sabia ler desde os nove, quando começou a ajudar o padrasto a conferir as entradas e saídas em sua modesta tenda, da qual dependia o pão e o futuro de cada pessoa naquela casa. 

"Das faturas e recibos passou às Escrituras Sagradas e destas à literatura. Descobriu que ler era uma maneira rápida de acumular conhecimentos e depois, numa discussão, soterrar com eles a maioria dos adversários. Não era preciso que os conhecimentos tivessem alguma importância. O diálogo humano não era vencido pelo significado das palavras, mas pelo poder encantatório de uma voz, suas cadências e ressonâncias, seus longos floreios de frases dando uma volta sobre si mesmas e laçando um nó perfeito.

“Um livro era um rio, era um fluxo, era uma fita de papel gravado que daria a volta à noite em oitenta dias. Um scroll: dois rolos giratórios, um largando, o outro colhendo, e no relâmpago de cada instante essa fita ia sendo mostrada aos olhos e depois levada para sempre. Um texto era uma linha, um cordão, um cordel, um fio de letras sem fim.  Do alfa ao ômega sem uma sutura sequer.

“E então sucedeu o inesperado. 

"Começaram-se a fazer uns livros em formas de caixa, retangulares, e lá dentro uma aberração, um livro assassinamente fatiado. Como uma pilha de retalhos que um felino raivoso rasgou. 

"Ele segurava aquelas contrafações, erguia a tampa de madeira-com-couro-ou-com-veludo e era instruído a tomar nas pontas dos dedos um canto geométrico qualquer e erguê-lo, com um movimento sempre numa mesma direção. No início esse cacos, todos parecidos, revelavam-se como que empilhados com um mínimo de senso, pois, se o que se lia em algum deles se interrompia, por uma abençoada fortuna recomeçava milagrosamente no fragmento imediatamente abaixo, e em alguns casos no verso do próprio quadrado já lido. 

"Isso lhe causou no início um pouco de medo. O livro não era mais algo contínuo que fluía como uma onda, parecia-se mais a uma justaposição de partículas, ou de padrões estáveis de energia.

“Alguns desses livros saltavam raivosos e fechavam-se sozinhos quando eram largados; outros deixavam-se abrir mansamente, e relaxavam abertos sobre a mesa, sem exigir nenhum esforço adicional.  

"Era estranho ver uma história escrita e perceber que essa história escrita não dependia de estar fluindo, se desenrolando, para acontecer. Acontecia; mesmo retalhada em quadros, em datilogramas, e mesmo que o mundo ondulado e íntegro por onde ela antes escorria já não existisse mais, aqueles recortes quadrados diziam a mesma coisa, e faziam dançar e ondular a fita luminosa de memórias que brotava num murmúrio em Mestre Além.”





quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

3084) Os monstros de Augusto (16.1.2013)






Numa palestra recente na Paraíba, num prolongamento das comemorações do centenário do Eu de Augusto dos Anjos, Ariano Suassuna comentou a obra e o estilo do poeta. Lembrou que o professor de escola pública eleito como “O Paraibano do Século” morreu com apenas 30 anos, e que foi esnobado em vida por muita gente importante, inclusive Olavo Bilac, que ao ouvir falar de sua morte e ler um dos seus sonetos teria proferido a frase fatal: “Não se perdeu grande coisa”. Observou Ariano que desde então a fama de Bilac só fez cair e a de Augusto só fez crescer. Parece até que o urubu que pousara na sorte do defunto se transferiu o poeta do “Caçador de Esmeraldas”.

Ariano fez uma comparação muito perceptiva entre Augusto dos Anjos e Garcia Lorca, talvez um dos últimos poetas com quem alguém compararia Augusto. Lorca era de um vitalismo, uma exuberância, uma alegria de viver, uma sensualidade e uma extroversão que nada têm a ver com o poema do tamarindo.  Mas Ariano observou que ambos são poetas muito mais da imagem do que do conceito. Embora a poesia de Augusto abra muito espaço para o conceito (as reflexões científicas, metafísicas, etc.), ele é tão visual quanto Lorca. Igualmente hábil na conjuração de imagens inesperadas, vívidas, desconcertantes e inesquecíveis. Ariano se referiu ao famoso verso: “Somente a ingratidão, esta pantera, foi tua companheira inseparável...” e disse brincando que plagiou essa pantera de Augusto a vida inteira.

Ele citou também a quadra famosa de “Queixas Noturnas”: “Quem foi que viu a minha Dor chorando? / Saio. Minh’alma sai agoniada. / Andam monstros sombrios pela estrada / e pela estrada, entre estes monstros, ando!”. Ariano usou este verso num dos sonetos (“A Estrada”) do seu ciclo de “iluminogravuras”. Estes versos me lembram um poema dramático de Guerra Junqueiro em que um peregrino caminha pelo mundo rodeado de monstros. Cada vez que ele reza, os monstros tornam-se mais diáfanos, menos materiais, e cada vez que sua fé fraqueja os monstros se revigoram. (Não encontrei este texto na Internet – vou ter que procurar numa biblioteca de verdade.)

O verso de Augusto me sugere tanto o poema de Junqueiro quanto alguma HQ desenhada por H. R. Giger, ou um quadro de Dali. Este é o poder do poema “imagético”: evocar uma imagem sem descrevê-la. Assinalar a presença do monstro, para que o leitor caminhe entre os monstros que ele terá que evocar do seu repertório de referências. Os monstros sombrios existem na memória e na imaginação de cada um, e mesmo que os monstros que eu vejo sejam desconhecidos de Augusto, foram evocados por ele, graças à faísca de sua frase.



terça-feira, 15 de janeiro de 2013

3083) Que calor é esse (15.1.2013)




Meu amigo! Que calor é esse. A esquadria de alumínio derreteu e colou, ainda bem que a janela estava aberta. O calor tá tão grande que eu deixei uma xícara de café em cima da mesa e meia hora depois ela tinha esquentado. A água fria do chuveiro vem mais do que morna. E quando a gente sai e se enxuga, quando vê já está enxugando o suor. Se ligar o ar condicionado, é melhor vedar a porta com fita crepe. Na rua, nem é bom falar; a gente sua no sol e seca na sombra, ou o contrário, e perde meio litro dágua a cada cem metros. Vi gente com bolsa de soro fisiológico presa nas costas tipo mochila. Sentei na janela do ônibus e quando desci tinha bronzeado o lado esquerdo do rosto. Nos relógios digitais da calçada a temperatura aumenta mais depressa do que a minutagem. Meu amigo! Isso é calor ou o test-drive do fim do mundo? O único gole gelado da cerveja é o primeiro. Tem gente procurando gordo na calçada pra poder andar na sombra. Saí ontem de tarde e precisei entrar em dezessete Bancos pra dar uma aliviada. Recuperei palavras em desuso: canícula, soalheira, rechinar, ignívomo. O pior é que tem hora que não é só o sol em si, é que parece que alguém só de sacanagem cobriu a cidade com uma redoma. Não sopra uma brisa, não corre um ventinho sequer, o mormaço nos envolve como um casulo invisível e pegajoso. É preciso fazer força pra respirar; o ar se faz de difícil, só entra à custa de muito assédio, muita coerção, quando não de ameaça pura e simples. O ventilador está ligado mas nem com a mão à frente dele a gente sente alguma coisa. O ar quente não sobe mais, fica depositado no chão, sem forças. Você anda na rua forçando a passagem através desse aluvião de moléculas exaustas. Meu amigo! Pense num contêiner de metal largado no Saara. E o Sol? Perderam o controle sobre esse cidadão, ou então a órbita da Terra está se aproximando. O danado queima com força, parece ter intenções malévolas, parece ser algo de ordem pessoal. Sem falar que o dia diminuiu, mal escurece no oeste já começa a clarear do outro lado, e recomeça o tempo de fritura e ebulição. Ontem fiz um pedido no disk-japa; quando chegou, o sashimi estava assado. Meu amigo! Aqui em casa os quadros estão suando tinta. Em cada lugar que eu paro deixo uma poça de mim. Essa noite sonhei que era Joana d’Arc, pode uma coisa dessa? Entrei na sala e tinha uma planta se abanando com as próprias folhas. É engano meu ou as paredes estão se envergando? Me distraí parado e o sapato grudou no piso, só saí porque me descalcei. Mas tudo bem. Fui na janela agora e lá vem um paredão de nuvens de chumbo, crescendo por cima dos prédios. Acho que agora as coisas vão melhorar.


domingo, 13 de janeiro de 2013

3082) Ruínas (13.1.2013)




(Ian Ference)


Ruínas urbanas mostram como o metabolismo da civilização parece com o do corpo humano. Morte e nascimento o tempo inteiro. Não apenas a destruição violenta das guerras, terremotos, catástrofes; mas a do abandono político, do descarte imobiliário, da obsolescência física por desmando ou falta de planejamento. Construções que perdem a função e não são demolidas, apenas deixadas de lado para que a Natureza reabsorva suas matérias primas.

Hospitais caindo aos pedaços ou indústrias tomadas pelo matagal bravio são contrapartidas concretas, visíveis, para todos os outros tipos de estagnação e desmoronamento. Grandes grupos financeiros que quebram, afundam e são canibalizados pelos Bancos maiores. Partidos políticos cujas lideranças debandam após a primeira grande crise, deixando atrás de si apenas uma legenda baldia a ser ocupada pela matilha anônima de oportunistas e aproveitadores. Sobrenomes aristocráticos cuja liquidez financeira se esvai, na lenta sangria que faz definhar uma geração após a outra; e que tentam manter-se à tona do anonimato mediante colunas sociais e matrimônios políticos. Empresas que floresceram e incharam, primeiro graças ao protecionismo, depois ao monopólio, mas cuja espinha é quebrada por uma reviravolta tecnológica e sobrevivem vendendo as partes não-vitais de sua estrutura, até se desfazerem num farelo de ações sem valor.

Por toda parte percebemos essas lentas implosões sociais; às vezes levam um século para chegar ao fim. Estruturas vazias de vida, ou vazias da energia necessária para mantê-las vivas; estádios de arquibancadas derruídas cercando um enorme atoleiro; colégios desabando sob tetos apodrecidos de chuva; fábricas habitadas somente por lagartixas e lacraus. A pressa com que a arquitetura e a engenharia põem de pé essas estruturas arrogantes é inversamente proporcional ao tempo que a Natureza dedica a varrê-las do mapa com o vento suave da passagem dos anos. As ruínas célebres do mundo (pirâmides, coliseu) funcionam como um relógio em contagem regressiva, rumando para o oblívio mas parecendo nos dizer que seu terrível recado ainda não foi escutado por todos.

Um prédio em decomposição é a derrota da aparência para a funcionalidade. Como se aquela estrutura fosse uma obra de arte cujo impulso inicial foi dado pela Razão. Ela o criou com sua auto-suficiência e seu entusiasmo às cegas, mas após esse gozo precoce retirou-se, deixando o corpo, indefeso, entregue às forças lentas do Inconsciente, da Natureza e do Acaso.  Uma ruína é cega e julga-se invisível, mas está sempre brotando na paisagem como um dente podre no sorriso de um candidato ou “o câncer que nasce nos lábios da miss”.


sábado, 12 de janeiro de 2013

3081) O texto e o resto (12.1.2013)





Quando a Jovem Guarda tomou conta do Brasil de 1965 em diante (mais ou menos), e Roberto Carlos fazia estremecer a Tradicional Família Brasileira berrando seu slogan punk-satânico “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno”, a Igreja Católica começou a constatar uma enorme evasão dos jovens, que antes eram obrigados pelos pais a assistir a missa todo domingo. A missa estava agora às moscas, porque a galera só queria saber dos carangos, das garotas papo-firme, das botinhas sem meia. Deve ter havido algum serão no Vaticano, e eles tomaram uma sábia decisão: toda missa agora teria um conjunto de iê-iê-iê (o termo “banda de rock” não existia ainda) tocando as músicas do momento, para atrair os jovens de volta. Dito e feito. Os jovens afluíam à catedral para ver os conjuntos; mas assim que o conjunto parava de tocar ia todo mundo embora e o padre ficava pregando no deserto.

Me lembro disso quando vejo o mercado editorial discutindo certas vantagens do livro eletrônico, principalmente quando se fala no livro eletrônico infantil. A vantagem do livro eletrônico, por exemplo, é que além das ilustrações coloridas ele tem ilustrações animadas e sonoras. Não mostra apenas um patinho cor-de-laranja na lagoa azul: o patinho consegue nadar de um lado para o outro, a água se espalha em ondas, e apertando um botão ouve-se o “quac, quac” inconfundível. E assim por diante.

Minha questão: o uso de animações, sons, imagens em movimento nos livros infantis não iria justamente afastá-los do mais importante, o hábito de ler um texto?  Quando os padres católicos começaram a chamar os conjuntos de Jovem Guarda queriam atrair os jovens para ver a missa, mas de nada adiantou – os jovens só se interessavam pela Jovem Guarda que eles ofereciam. No caso dos livros, a infância é um momento crucial para a criança, em fase de alfabetização, descobrir o prazer de ler o texto, de sair soletrando letrinha por letrinha, formando o som das palavras e evocando através delas as idéias correspondentes. Um livro de literatura deve privilegiar o texto, não o resto.

Reconheço inclusive o importantíssimo papel das ilustrações nos próprios livros de papel: sei de livros infantis meus que venderiam muitíssimo menos se fossem apenas o texto nu, o preto no branco da folha. Mas a melhor maneira de tirar os guris da frente da TV e atraí-los para o livro não é transformando o livro numa sucursal da TV. Os textos, as palavras escritas, são o objetivo do livro. São um desafio e uma recompensa que é impossível obter de outra forma. Se não fizermos uma pessoa começar a amar o texto na infância, que chance haverá de que ela o ame no futuro?