terça-feira, 22 de janeiro de 2013

3089) O jeito brasileiro (22.1.2013)




(foto: Graça Graúna)


Já vi muitos depoimentos de estrangeiros sobre nosso povo, em entrevistas, pesquisas, enquetes, o escambau. As críticas que nos fazem são sempre muito parecidas, todas sobre coisas que a gente já sabe, e que em certa medida são verdadeiras: o brasileiro é acomodado, não se mobiliza socialmente para protestar, é excessivamente informal e despreza os instrumentos de controle (leis, Constituição, regulamentos, etc.). Examinar esses defeitos pode até ser interessante, mas hoje quero examinar algumas qualidades que nos atribuem.

Dizem, por exemplo, que o brasileiro é acolhedor, hospitaleiro. Será que esses povos europeus não o são? Talvez o sejam, mas de uma maneira diferente. O europeu em geral (olha que bruta generalização!) recebe super bem um desconhecido, desde que ele traga algum tipo de apresentação ou recomendação. Desde que ele tenha uma noção razoável de quem é aquela pessoa. Em todas as minhas experiências foi assim. O brasileiro, por outro lado, tende a acolher bem as pessoas com quem simpatiza, independentemente de saber quem são. Os índios são assim, não é mesmo?  Nove vezes em dez, recebem de braços abertos até aqueles sujeitos barbudos, feridentos, armados de escopetas.

Outra coisa: o brasileiro tem fé, acredita que as coisas, por piores que estejam, vão melhorar. Amigos europeus já me disseram do seu espanto diante disso. Por quê?, pergunto. Quando vocês têm um problema acham que o mundo vai acabar? Eles dizem: "Não, quando nós temos um problema temos medo de que aquela situação não dê certo e tudo comece a piorar a partir dali". Já os brasileiros dizem “deixa como está pra ver como é que fica” – e vão pensar noutra coisa.

Para muitos, isto é surpreendente, considerando-se que grande parte das pessoas que se comportam assim vivem em condições econômicas e físicas que deixariam um europeu no pior dos desesperos.  Alguém diria que o brasileiro suporta isto com otimismo por ser estóico, mas o termo “estóico” me traz à mente a imagem de um sujeito durão, de dentes trincados, suportando uma dor física aguda, ou um prolongado sofrimento mental. O brasileiro é o contrário. Ele dá a impressão de dizer: “Eu estou vendo os problemas, mas eles não fazem parte de mim. Eles são reais mas eles não são eu, e não vejo motivo para martirizar minha mente e meu corpo porque há um milhão de problemas a serem resolvidos. Se eu estiver bem, íntegro e forte em minha mente e meu corpo, encaro qualquer problema. Não vou me acabrunhar, nem me abater, nem passar o dia com todos os músculos contraídos só porque existe um problema na minha vida. Vou ficar bem.” Ficar bem já é meio caminho andado para resolver o problema.




3 comentários:

Kadu Mauad disse...

Bom dia, BT,

Interessante pensar-se enquanto cidadão suscetível a direitos e deveres. Via de regra, o brasileiro tem ojeriza à igualdade quando está em ambiente público. O antropólogo Roberto DaMatta, missionário da causa, diz coisas do tipo em seus livros, especialmente no "Fé em Deus e Pé na Tábua", bordão este proferido pelo motorista do ônibus de minha terra São João Nepomuceno, onde o Roberto passou parte da infância e da adolescência. Naquela época, em que eu nem sonhava existir, e meu pai talvez ainda nem ouvisse vitrolinha na janela da casa dos pais dele, o sujeito, antes de pegar a estrada de terra entre São João e Juiz de Fora, soltava a frase que, muito bem observado, é a transliteralização fidedígna - perdoe-me a redundância - do espírito de borracha deste povo brasileiro teimoso da moléstia!

ode aos deuses disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eduardo Macedo disse...

Penso que o brasileiro aceita as dificuldades, não as supera, uma vez que, após passar pelo problema, para supera-lo ele deveria atacar sua causa, suplantando-a. Aceitar é algo um tanto mais ingênuo e inconsciente, como a "fé" citada.