quarta-feira, 6 de junho de 2012

2889) O repórter robô (6.6.2012)


(ilustração: Mark Allen Miller)



Sempre me perguntam como consigo redigir um artigo por dia. Mal sabem que recorro aos serviços da Narrative Science, empresa de Chicago (http://www.narrativescience.com/) cujos softwares redigem matérias jornalísticas a partir de bancos de dados. Os programas da NS já conseguem produzir relatos sucintos e precisos de 10 ou 15 linhas sobre jogos de beisebol da Little League norte-americana (uma espécie de campeonato nacional de juniôres, como se diz aqui). Segundo a revista Wired de maio, na matéria “The Rise of the Robot Reporter” (http://bit.ly/JXNvKq), a história começou em 2009, com um software simples: “Eles colocaram os dados, o placar e um resumo minuto-a-minuto, e em 12 segundos o programa citou exemplos de 40 anos da Liga Profissional, redigiu uma sinopse da partida, escolheu a melhor foto e escreveu a legenda”. A equipe de 30 pessoas da NS conta com “meta-escritores” que produzem os templates de texto, ou seja, as frases a serem usadas para exprimir as ocorrências do jogo, depois dos dados serem interpretados.

Diz Steven Levy, autor da matéria, que softwares desse tipo podem extrair significado de quantidades gigantescas de dados; finanças e esportes são duas áreas especialmente propícias para isto. Há muito otimismo na empresa, para quem “qualquer pessoa que precise verbalizar e explicar grandes quantidades de dados pode se beneficiar deste serviço. (...) Há muita gente disposta a pagar para converter todas aquelas informações confusas em alguns parágrafos legíveis que ressaltem os pontos principais”. Outras empresas estão entrando neste ramo ainda recente, como a Automated Insights (ex-Stat Sheets) da Carolina do Norte.  O custo de produzir esse tipo de informação é tão baixo que torna-se rentável até mesmo redigir relatórios específicos para um único cliente.

A NS pensa em ampliar seus serviços até para áreas de lazer como os videogames, produzindo, p. ex., sinopses de sessões de World of Warcraft, cujos jogadores teriam acesso a um resumo detalhado do jogo, uma narrativa que soaria como se um jornalista os tivesse acompanhado ao longo da aventura. David Rosenblatt, na NS, diz: “A Internet gera mais estatísticas do que qualquer outra coisa que já tenhamos visto, e a nossa companhia se dedica a transformar estatísticas em palavras”. O artigo de Levy considera que algoritmos e repórteres poderão trabalhar lado a lado no futuro, seja com os computadores interpretando dados e pessoas redigindo os textos finais, seja com repórteres humanos entrevistando pessoas e formalizando os dados que depois serão transformados em textos pelos softwares. As possibilidades, como sempre, são infinitas.

terça-feira, 5 de junho de 2012

2888) "Game of Thrones 2" (5.6.2012)




A temporada 2 de Game of Thrones encerrou-se com dois episódios bem diferentes. O 9, “Blackwater”, mostrou o cerco de King’s Landing pela esquadra de Stannis Baratheon: a aproximação dos navios, a batalha em mar, a batalha em terra, o triunfo final dos defensores.  Obedecendo a uma unidade de tempo e de espaço que acho ser rara em séries desse tipo, o episódio se pareceu mais com um filme do que com uma série (e a gente diz isso como antigamente dizia: “nesse momento, o filme fica parecendo uma peça teatral”).  No episódio 10, “Valar Morghulis”, a ação voltou a se multiplicar pelas várias aventuras simultâneas. Gente caiu e gente subiu ao poder. Longe dali, pouca gente se importava.

Duas das histórias secundárias ganharam força, e acabam sendo duas investidas de dois gêneros diferentes contra um terceiro que está no poder.  Game of Thrones é uma fantasia heróica de configuração medieval, como as obras de Tolkien e tantas outras. É fantasia no sentido de que decorre num mundo imaginário onde não existem as nações da Terra, as religiões da Terra, as referências da Terra. Dentro dessa estrutura, deverão ganhar força na temporada do ano que vem duas “invasões genéricas”: a espada-e-feitiçaria através de Daenerys, a lourinha dos dragões; e o horror através dos Caminhantes Brancos, os zumbis de além-Muralha.

O seriado tem personagens que na tela, mesmo talvez não tão bem esmiuçados quanto no livro, parecem plausíveis e às vezes surpreendentes, pela malícia do seu pensamento e pela ocasional nobreza de suas ações. A intriga cortesã e todo o xadrez das traições políticas são bem armados, embora alguns personagens ainda sejam muito de-uma-nota-só.  O anão Thyrion perdeu poder mas ganhou respeito entre as tropas, o que nas histórias de conspirações militares sempre ajuda. Robb Stark, o imperador do Norte, tinha provado ser melhor general do que se esperava, e agora vai ter que provar que é marido. A guerreira Brienne está conduzindo Jaime Lannister, numa situação meio sargento-getúlio, rumo a um destino ignorado, porque antes disso pode um matar o outro, ou podem acabar se casando. Os dragões de Daenerys virão aquecer uma possível situação de calmaria, assim que Lannisters, Greyjoys, Starks etc. consigam um naco suficiente do que estão querendo; aí, sai a parafernália Tolkien e entra a de Anne McCaffrey.  A menina Arya viverá mais aventuras dickensianas nas senzalas dos castelos, antes de empunhar a espada e abrir caminho até o rei Joffrey.  E vem por aí uma ameaça de além da Muralha, que vai mostrar um problema de verdade e a enorme infantilidade e irrelevância do jogo dos tronos e do choque dos reis.

domingo, 3 de junho de 2012

2887) Uma xícara de café (3.6.2012)




Sempre que alguém me pergunta coisas positivas (“Como você se mantém tão jovem?”, “Como você consegue escrever um artigo por dia?”, etc.) dou sempre a mesma resposta: “Café”.  É bem verdade que respondo o mesmo quando me perguntam se sou viciado em alguma droga, porque de todas as drogas que já experimentei o café é a única que preciso tomar diariamente para não me transformar num bagaço de ser humano, desorientado e trêmulo.  Meio litro por dia, no mínimo; às vezes um litro inteiro.  Faz bem.  Tonifica, energiza, dá um upgrade nos neurônios e uma sacudidela no sistema neuro-vegetativo.  Com algumas ressalvas.  O café não pode ser muito forte: um “espresso” pequeno, desses que a gente toma no balcão, equivale a uma xícara grande das que faço em casa.  Para ser tomado quantitativamente, o dia inteiro, o café precisa ser um pouco diluído.  Se eu tomar 2 ou 3 espressos ao longo de uma hora, a sensação é de gastura e sobrecarga.

Tudo isto me vem à mente quando descubro, através do inestimável saite BoingBoing, um estudo (http://bit.ly/JkGKav) publicado neste mês de maio no “New England Journal of Medicine”, assinado por cinco cientistas, sendo quatro deles PhDs. (Como o leitor sabe, artigo científico é como samba-enredo de Escola, nunca tem menos de quatro autores). O artigo se intitula “Association of Coffee Drinking with Total and Cause-Specific Mortality”.  Trocado em miúdos, ele informa que foram estudados entre 1995 e 2008, nos Institutos Nacionais de Saúde (imagino que seja algo como o INSS de lá) um total de 229.119 homens e 173.141 mulheres na faixa etária de 50 a 71 anos, sendo excluídos do exame pacientes que já tivessem doenças mais graves como câncer, doenças cardíacas e derrames cerebrais.

Os pesquisadores estabeleceram critérios para avaliar riscos de mortalidade (por exemplo, pacientes mais velhos, ou que fumavam, foram classificados como de maior risco).  E descobriram uma relação inversa entre o consumo de café e a mortalidade, tanto a mortalidade por causas específicas (cardíacas, respiratórias, ferimentos e acidentes, diabetes e infecções, menos por câncer) quanto a mortalidade em geral, incluindo todas as causas.  Os cientistas concluem: “O consumo do café apresentou uma relação inversa com a mortalidade total e a mortalidade por causas específicas.  Se isto é uma relação causa-e-efeito ou apenas de ordem associacional, não pôde ser determinado pelos nossos dados”.  Com tantas más notícias que a TV vive nos dando, mostrando que tudo faz mal, não custa nada comemorar esta, não é mesmo?  Adivinha o que eu vou fazer agora.

sábado, 2 de junho de 2012

2886) "Zero History" (2.6.2012)



(foto: hdesbois)

Nos últimos dez anos recrudesceu a discussão sobre a posição dos romances recentes de William Gibson dentro da ficção científica.  Depois de duas trilogias futuristas, Gibson mergulhou num mundo que é visivelmente equivalente ao nosso, sem futurismo, sem elementos fantásticos, sem nada que viole as leis da natureza ou que nos transporte para um mundo diferente.  Isto é FC, se a definirmos como “a literatura que enfoca as mudanças produzidas em nossa vida pela ciência e pela tecnologia”. Uma definição incompleta, claro, mas que serviu para muitos autores clássicos e deve servir também para o “poeta noir do ciberespaço”. O qual, meio a sério, meio brincando, já disse que seus livros eram FC porque a ação transcorria “cinco minutos no futuro”.

Se é assim, “Zero History” (2010) deve ser o primeiro livro na história da FC que tem como tema central a fabricação de jeans. Só que não é um jeans comum.  Os personagens do livro vivem caçando uma marca “cult” de jeans, “Gabriel Hounds”. São calças, casacos, etc., fabricados não se sabe por quem, comercializados de maneira artesanal, sem divulgação, usando táticas quase de guerrilha. Neste sentido, assemelha-se ao “McGuffin” usado por Gibson em “Reconhecimento de Padrões” (2003): um filme misterioso feito não se sabe por quem e distribuído de forma anônima e clandestina pela Internet.

O que torna especiais os Gabriel Hounds?  Além do fato de serem tecnicamente impecáveis, eles são algo que têm personalidade própria pelo simples fato de não estarem carregados de personalidade alheia, de não parecerem com nada.  Diz alguém: “É uma questão de atemporalidade.  Uma questão de pular fora da industrialização da novidade.  Algo que vai num código mais profundo”.  Essa novidade às avessas, esse paradoxo zen, se assemelha a “The Footage”, o filme “cult” do outro romance, que fascina a protagonista Cayce Pollard porque é algo que não tem marca, não tem logo, não tem ferro em brasa marcando, não tem assinatura, não tem local, não tem data.  O contrário da moda e da publicidade.

OK, não há alienígenas nem espaçonaves, mas o que Gibson faz é uma ciência do presente, uma ciência da cultura, da percepção, dos universos simbólicos que criamos e que nos manipulam de volta. Dentro da Mídia Ambiente que nos impede de ter idéias próprias (podemos apenas reagir às idéias dela), os Gabriel Hounds e a Footage são o inominável, um produto da cultura (ambos exibem técnica impecável) mas que não foi apropriado pela Hidra de Dez Milhões de Cabeças.  Eles exprimem não só uma possibilidade de linguagem pré-Babel, mas de uma literatura que não tenha gênero, rótulo, griffe, etiqueta costurada.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

2885) A cela solitária (1.6.2012)



(foto: James Nizam)


Minha cela mede menos de dez metros quadrados. É tão pequena que a conheço de cor; é tão grande que a cada dia que passa conheço-a um pouco mais.  

Dentro dela existe apenas o bloco retangular de cimento em que durmo, um bloco maciço, sem espaços ocos onde eu possa guardar... o que?  Veneno?  Um rádio transmissor?  Uma metralhadora? Uma caneta, um caderno?  O que imaginam eles que um homem trancafiado pelo resto da vida é capaz de guardar, se lhe derem um lugar onde fazê-lo?

O colchonete de espuma é trocado quase diariamente (quase: não são tão organizados quanto imaginam ser), não para meu conforto, mas para evitar que eu... que eu o quê? Arranque pedaços dele, coma-os para me suicidar por engasgamento?  Que eu escreva nele uma mensagem com tinta invisível?  

Sou um homem de 77 anos, de mãos vazias e pés descalços.  Eles não sabem o que sou capaz de fazer, e trocam os colchonetes.

Minha refeição é enfiada pela portinhola rente ao chão: um prato e uma caneca sem asas, ambos de alumínio, sem talheres.  

Tenho que comer com as mãos (que limpo depois na roupa – trocada duas vezes por semana). Quando há galinha, vem desossada.  Para que eu não degole com a simples lasca de um osso as duplas de carcereiros que se revezam à porta de ferro?  Quem sabe?

Escrevo.  Como escreviam os poetas de milênios atrás: escrevo mentalmente, contando-me histórias, reconstituindo minha vida e as batalhas que travei, celebrando a pele e o perfume das mulheres sequiosas que me amaram.  

Aperfeiçoo o passado e celebro o futuro.  Concebo e aplico novos esquemas métricos, novas simetrias da rima.  Componho epopéias com tamanha intensidade que algum espírito (não duvido) sonhará com elas um dia e, sem as entender, as confiará finalmente ao papel.

Cuido do planeta como uma mulher cuida de sua própria casa: tentando entender suas necessidades e desejos.  

Ao longo dos anos, um paralelogramo de luz, projetado pela janela gradeada e inacessível, se desloca e se deforma ao percorrer as paredes.  Fui marcando os seus pontos mais altos e mais baixos, o extremo a que chega no fim de cada solstício, antes de retroceder rumo ao extremo oposto. 

Fiz isto com marcas de unhas, sutis, que parecem pequenos pedaços descascados na tinta, por acaso.  Só eu enxergo e reconheço a área por eles delimitada. Se meus carcereiros percebessem o que quer dizer, apagariam tudo, raspariam a tinta, pintariam de novo, mesmo sem saber o significado daquilo.  

“Por precaução”, diriam eles. Eu afirmo que o fazem por medo, esse enorme medo que nasce da ignorância e da insegurança de qualquer milhão de homens quando enfrentam um único homem que são incapazes de compreender.






quinta-feira, 31 de maio de 2012

2884) O primeiro filme (31.5.2012)



O nosso mestre João Batista de Brito relembra, em sua coluna no Contraponto, o primeiro filme que viu na vida - na verdade, um episódio do seriado A mulher tigre. E pergunta aos leitores: Qual o seu primeiro filme?  

Difícil responder. Não lembro “um” filme.  Tenho uma meia dúzia de títulos que guardo na memória como “experiências fundadoras”, como diz o pessoal da psicanálise. 

Um dos mais antigos é O Mundo em Perigo (“Them!”) de Gordon Douglas, história de formigas gigantes que raptam duas crianças. Me identifiquei com elas, e lembro ainda hoje a sensação de repulsa ao vê-las escondidas no meio das larvas do formigueiro.



Houve também o King Kong original, que vi no Cine Avenida, levado por Maria de Severina, que era uma espécie de governanta, cozinheira e faz-tudo lá em casa.  O gorila e os dinossauros me impressionaram, mas não tanto quanto a primeira imagem da ilha, na chegada do barco, quando vemos aquela muralha imensa, e o capitão comenta que ninguém sabe quem a construiu, ou o que existe por trás dela.  



Teve também O Ladrão de Bagdá com Sabu (dirigido por Alexander Korda), cujos efeitos especiais ainda hoje são notáveis; apropriei-me de algumas de suas imagens para o meu romance árabe, A Máquina Voadora

Outro que nunca esqueci foi O escudo negro, com Robert Taylor, filme ambientado na Guerra dos Cem Anos e que durante muito tempo me fez ser fã dos ingleses e detestar os franceses.  Havia também os seriados, e o mais antigo que me lembro era A Sombra do Escorpião, uma daquelas séries escuras e fragmentadas de estúdios como a Republic.  E os onipresentes faroestes. 



Mais do que filmes específicos, no entanto, o que continua latente em minha memória é o conjunto de impressões sensoriais dos filmes daquele tempo. Zapeando na TV, vejo um faroeste besta dos anos 1950: paro, fico assistindo durante 10 minutos só para saborear aquele granulado de imagem P&B ou aquelas cores meio pintadas. A música, sempre uma orquestra que parece estar tocando no estúdio ao lado, meio distante, meio abafada mesmo quando estridente. Barulho de porta, barulho de tiro, motor de foguete, zumbido de raio desintegrador... tudo é diferente. 

São coisas muito específicas e que não existem mais, e toda vez que as escuto ou enxergo elas fazem ressurgir o menino intacto dentro de mim. Cada instante que vivemos pode ser evocado integralmente e se impor ao presente, desde que a gente produza os estímulos certos, forneça as senhas. O passado é uma janela que não se fechou, foi apenas minimizada e precisa somente de um clique para se abrir de novo, em sua glória rudimentar, com uma voz gritando “aiô, Silver!”.






quarta-feira, 30 de maio de 2012

2883) A lei de Yog (30.5.2012)


 

A lei de Yog foi formulada por James D. MacDonald, e obteve seu nome a partir de Yog-Sothoth, um dos mais terrificantes e ominosos seres do panteão de Divindades Diabólicas criado por H. P. Lovecraft.  A Lei de Yog consiste em apenas uma premissa: “O dinheiro flui na direção do escritor”.  E é de uma grande importância num contexto em que alguns editores e agentes “espertos” faturam grana às custas de escritores inéditos e ansiosos, para quem seria um presente do céu ver seu nome na capa de um livro de verdade ou seu conto numa antologia. (Eu sou macaco velho, publico há 40 anos, e garanto que essa emoção nunca se esgota.)

Existe uma expressão em inglês para a qual não temos equivalente: “vanity press”, que seria algo como Edições Vaidade.  É quando um sujeito tem tanta vontade de ser escritor (ou melhor: de ser considerado escritor) que acaba publicando às suas próprias custas as coisas que escreve.  Muita gente faz isso, e não há nada desonroso nessa prática. Os grandes poetas brasileiros, por exemplo (Manuel Bandeira, Drummond, etc.), publicaram seus primeiros livros pelas Edições Vaidade, em tiragens de 200 ou 300 exemplares que eram quase totalmente distribuídas entre parentes, amigos e colegas de repartição. Acontece que há gente que descobre esse filão e resolve ganhar dinheiro com ele. Talvez o melhor retrato literário desse tipo de golpe seja o de Umberto Eco em O Pêndulo de Foucault, em que uns espertalhões enchem o bolso de grana às custas daqueles nobres italianos doidos para posar de literatos, que gastam tudo que têm para publicar seus volumes de poemas ou suas crônicas de família.  

Onde entra a lei de Yog?  Ela diz que isto está errado, e que a atividade editorial honesta é uma em que o editor entra com a grana e o autor com o texto; e o dinheiro (a percentagem previamente combinada, em geral 10% do preço de capa) flui na direção do autor. Qualquer esquema que exija desembolso de grana por parte do autor (diz ele) tem alguma coisa errada. Há pessoas que cobram para avaliar originais, cobram para sugerir mudanças, cobram para levar o livro a uma editora... Há também a figura do agente literário, que recebe uma percentagem dos direitos do autor para representá-lo.  Como em tudo no mundo, há os bons e os maus agentes. Há agentes que praticamente criam uma carreira profissional para um autor, e agentes que sanguessugam seu dinheiro, fazendo promessas intermináveis que nunca são cumpridas.  Quem se comporta assim está indo de encontro à Lei de Yog, e automaticamente se candidata a uma visita noturna de Yog-Sothoth, que o conduzirá à caverna submarina onde há choro e ranger de dentes.

terça-feira, 29 de maio de 2012

2882) Games e literatura (29.5.2012)



Discussão constante no universo dos games: conciliar a estrutura fixa de um romance preexistente e a estrutura aberta de um game (cujo desfecho é uma consequência das ações do jogador).  

Num universo que tem cada vez mais adaptado obras literárias (Agatha Christie, Conan Doyle, até Dante Alighieri já foram transpostos para videogames) essa questão é crucial.  E ela se parece com uma das questões filosóficas mais sérias do mundo real: Existe o Destino? Nossas vidas são programadas de antemão, ou são nossas ações que determinam o futuro?  

Ontem mesmo vi o Fluminense ser eliminado da Libertadores com um gol no último minuto; um jogador afirmou, desconsolado: “Hoje era o dia deles”. Claro que ele se matou em campo tentando ganhar; mas, como nos comportaríamos sabendo que, não importa o nosso esforço, o fim da história é predeterminado?

Este é o problema com a transposição para os games de obras preexistentes (claro que romances futuros poderão ser escritos de outras formas).  O livro-que-já-existe é um universo governado por um Destino inarredável, pela lei do “estava escrito”. 

Num game de Madame Bovary, de O Tempo e o Vento ou de 20 Mil Léguas Submarinas não existe espaço para o livre arbítrio, não há chance de que toda aquela atividade do jogador tenha a mínima influência no resultado. Um final diferente seria a própria negação do livro original. Uma Madame Bovary com final feliz? Isso é Flaubert?!

Um artigo de Matthew Wasteland avalia a possibilidade de adaptar, digamos, Moby Dick. Ele sugere por exemplo, que seja mantido o essencial do enredo, e que nos intervalos o jogador possa navegar, caçar baleias, meter-se em aventuras, etc.  

Para muitos, no entanto, isso seria uma enganação.  O final estaria pré-fixado, igual ao livro: o Capitão Ahab consegue arpoar a baleia mas é arrastado para o fundo do mar, e Ismael, o narrador, sobrevive “para contar a história”.  Todo o esforço do jogador para chegar a outro final teria sido desnecessário, inútil, porque desde o começo estava estabelecido que “era o dia da baleia”. Mas ele diz: 

“Se Melville tiver acenado com a possibilidade, mesmo a mais remota, de que Ahab vença, a mensagem do livro e sua interpretação podem mudar. Ao invés de destino e fatalidade, estaremos falando de probabilidade e sorte”. 

Imagino que não deva ser difícil conceber um game de tal forma que haja 10% de chance de que o capitão mate a baleia, desde que o jogador tome as decisões adequadas ao longo do jogo. 

Pelo visto, os games se prestam mais a adaptar romances pós-modernos, ambíguos, sujeitos a muitas interpretações, onde nunca se pode dizer com certeza “o que de fato aconteceu”.








segunda-feira, 28 de maio de 2012

2881) O tamanho do futuro (27.5.2012)




(ilustração: Frank R. Paul)

Histórias de ficção científica situadas no futuro geralmente se dividem em histórias de “futuro próximo” e de “futuro remoto”.  Se estamos em 2012 e meu romance se passa em 2035, trata-se de um futuro próximo, em que o Brasil, a Terra, os países, a tecnologia etc. serão certamente bem parecidos com os atuais, ressalvando-se as mudanças imaginadas pelo autor.  Por outro lado, se eu ambiento meu romance no ano 25.000 estarei visualizando uma Terra completamente imaginária, porque não há como fazer suposições cabíveis sobre o estado da Humanidade daqui a tanto tempo. Tudo fica a cargo da liberdade imaginativa de cada autor. Ambos os “futuros” têm o seu charme, o seu interesse, e podem gerar boas histórias.  (Pessoalmente, prefiro ler e escrever histórias de futuro próximo, mas alguns dos melhores livros que li foram de futuro remoto).

O pessoal do saite “io9” se deu o trabalho de responder uma pergunta interessante: que tipo de futuro foi mais escolhido pelos autores de FC em cada época?  Eles explicam que o levantamento feito não é científico, pois computou apenas 250 obras (livros, filmes, quadrinhos) escolhidas aleatoriamente, e lançadas entre as décadas de 1880 e 2000. (Acredito que um levantamento minucioso nos dará resultados bem diferentes; mas vamos dar valor ao esforço da rapaziada.)  E estabeleceram 3 tipos: Futuro Próximo (até daqui a 50 anos), Médio (entre 50 e 500 anos) e Remoto (de 500 em diante).

Eles mostram num infográfico (http://on.io9.com/LkyWqK) que nos anos 1880, por exemplo, houve 13% de obras de Futuro Próximo, 52,2% de Médio e 34,8% de Remoto.  Algumas décadas são especialmente interessantes: as maiores incidências de obras sobre Futuro Próximo são nas décadas de 1900 (53,8%) e 1980 (59,2%).  Histórias ambientadas num Futuro Remoto tiveram seu auge na década de 1930 (48%) mas nos anos 1990 caíram para espantosos 2,7%, o menor índice de toda a pesquisa.  O Futuro Médio é o mais consistentemente explorado nessa amostra, tendo tido metade ou mais das obras em 5 diferentes períodos (o Futuro Remoto, por sua vez, nunca foi maioria).

O que dizem estes números? Poucas coisas, e não muito confiáveis (pela pequenez da amostra), mas se algumas dessas tendências se confirmarem num estudo mais sério elas indicam que a FC vem se preocupando muito mais com futuros extrapolados a partir do presente do que com futuros totalmente arbitrários e imaginativos. Isso nada nos diz sobre a qualidade literária dessas obras, mas diz bastante sobre a “história das mentalidades” das pessoas e das épocas envolvidas. Seu interesse e sua aplicação não são de natureza estética, apenas sociológica.

sábado, 26 de maio de 2012

2880) O clichê (26.5.2012)



A palavra “clichê” virou um termo pejorativo. Dizer: “Isso não passa de um clichê”, equivale a dizer: “Isto é algo inferior, algo errado, algo que não se deve fazer”.  

Uma fama imerecida, em grande parte.  Todo mundo precisa de clichês, e estou pensando em oferecer um milhão de dólares a quem apontar qualquer artigo meu, nesta coluna, sem um clichê sequer. 

Clichê, antigamente, significava aquelas placas de zinco que, recobertas de tinta, reproduziam as fotos nos jornais.  Meu primeiro emprego aos 15 anos, no “Diário da Borborema”, consistia justamente em ser “arquivista de clichês”. Quando a página era desmontada na oficina, eu limpava e guardava de volta, num armário, as placas-fotos usadas em cada edição, para serem usadas de novo no futuro.  

O clichê é isso: uma coisa já pronta, que não muda nunca, e que é repetidamente usada quando se quer mostrar de novo uma coisa.

Todo Papai Noel tem que dizer “rou, rou, rou”?  Todo mineiro come pão de queijo?  Todo gaúcho fala “tri-legal” o tempo todo, e todo nordestino fala “oxente”?  Não, mas para quem é de fora, esses clichês ajudam a carimbar uma informação, sem precisar se preocupar, porque o entendimento é instantâneo. 

Se num cartum aparece um negro de dreadlocks com um acarajé na mão e dizendo: “Que qué isso, meu rei...”, qual o Estado onde ele nasceu? Todo patrão é gordo e fuma charuto. Toda loura é burra. Todo paraíba é rústico e ignorante. Todo mexicano usa sombrero.

Na mídia, o clichê é mais frequente do que no mundo real, porque quem o usa quer apenas rotular algo e passar adiante para dizer outra coisa.  No mundo real, os elementos reais do clichê (os dreadlocks, o acarajé) se diluem no meio de mil outros elementos igualmente reais. 

Na mídia, o clichê é mais uniforme porque quem o repete prefere repetir sem interferir, copiar-e-colar.  Um Papai Noel dizendo “hum, hum, hum” seria imediatamente corrigido pelo empregador. Na vida real, as incidências do clichê são aleatórias, espontâneas, com variantes e desvios, mas quem usa o clichê na mídia não quer correr riscos afastando-se do modelo, e copia o modelo da forma mais exata possível. 

Na mídia, o clichê é mais limitado, porque não quer trazer uma informação nova, mas decolar a partir de uma informação velha. O clichê é uma premissa que não está ali para ser discutida, mas apenas para dar partida em outro enunciado. Equivale a um “todo mundo sabe que quem toma chimarrão é gaúcho, e estamos conversados”.  O clichê é o substituto de mil outras coisas tão reais quanto eles, mas que não ganharam esse peso simbólico do Detalhe Definidor que nunca muda, e que se transforma numa informação inquestionável.