segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

2749) Natal 2011 (25.12.2011)



("The Neverending Search", de David Ho)

...e a roda do Zodíaco e seu zoo,
como um filme de doze fotogramas,
sobre esta Terra projetou seus dramas
que nos dão a ilusão chamada vida.
Tridimensional e colorida,
sensorial, corpórea, carne-e-osso...
De onde virá, então, a voz que ouço
sussurrando que tudo é a Matrix?
Compartilho com os nerds e com os geeks
a noção de que o mundo é Simulacro;

uma área que une o micro e o macro
nesta hipernovela em que caminho
de mãos nos bolsos, tranquilão, sozinho,
pelos jardins da General Glicério
fotografando a face do mistério
de existirem jardins, papelarias,
escolas, locadoras, padarias,
este café que acolhe os literatos,
grama verde, remédio contra ratos...
Tudo tão verossímil. Tão real.

Tudo é vento e é fogo, mel e sal,
pedra de gelo e brasa sobre a pele;
tudo que nos atrai e nos repele,
o corpo vivo e seus magnetismos.
Por baixo deste chão, quantos abismos?
Mas eu caminho, e piso sem receio,
e num piscar constato que passeio
em Manaíra, e compro tapioca,
e o pão daqui, igual ao carioca,
sugere a hipótese de um mundo só.

Passa um carro-de-mão com seu forró
estrondando milhões de decibéis;
fico marcando o ritmo com os pés
enquanto espero meu sinal abrir.
Os carros passam sem me pressentir,
sem saber que vivi por mais um ano;
bem ou mal, eis-me aqui, sem nenhum dano
a não ser os de ordem financeira...
Abriu! E eu atravesso na carreira
como o último Beatle de Abbey Road.

Chego à vitrine, apalpo o cartão Gold,
que já está da finura de uma seda...
Natal, poeta, é uma cana azeda
que a gente chupa e louva-lhe a doçura.
Melhor presentear literatura,
dar poemas aos membros da família!
Sai mais barato que trocar mobília,
renovar guarda-roupa e tudo o mais...
Distribuir sextilhas ou hai-kais
e dar o caso como resolvido.

Sigo, a tirar velhas canções do olvido,
afinal é Natal, “bimbalham sinos”,
exumam-se os enfeites naftalinos,
e volta a ressoar pela cidade
Luís Bordón, “A harpa e a cristandade”,
o mesmo que tocava no Alto Branco...
Tanto tempo passou? Pois serei franco,
dentro aqui tudo aquilo ainda existe;
não me venham dizer, de dedo em riste,
que o meu passado se apagou em mim.

E ao futuro, também, só digo Sim;
talvez um simulacro, mas sincero.
E este presente do futuro eu quero:
os olhos calmos de um bebê mutante
que parecem dizer: não chore, cante
(e que me dizem mais quando adormeço);
e assim me redescubro e reconheço
ao zerar cada ano, cada “game”.
Sobrevivi, ou seja, recriei-me,
sempre o mesmo, e mudando em pleno voo...

sábado, 24 de dezembro de 2011

2748) A religião Jedi (24.12.2011)




A cada ano que passa, cada vez mais gente, no mundo inteiro, afirma pertencer à religião dos Cavaleiros Jedi. Para quem não está ligando o nome à pessoa, os Cavaleiros Jedi são os personagens da série Star Wars de George Lucas: os mais famosos são Obi Wan Kenobi (interpretado por Alec Guiness) e o cavaleiro renegado e luciferiano Annakin Skywalker, que trai a confraria e se torna o nefasto Darth Vader.

Os Cavaleiros Jedi não têm uma crença sistematizada, com textos, mandamentos, sei lá que mais. Existe uma espécie de código geral de conduta meio Taoísta; mas sendo o mundo o que é e estando como está, não é impossível que já exista uma “Bíblia Jedi” por aí afora. A Wikipedia registra a existência de uma crença espontânea e difusa, mas nada que se assemelhe, pelo menos, às religiões evangélicas que proliferam aqui no Brasil. (Em breve teremos uma religião por habitante.)

Que me conste, ninguém ainda embolsou um tostão graças à religião Jedi, que surgiu como uma piada nos países de língua inglesa, com a mesma intenção satírica com que milhões de brasileiros votavam em “Raul Seixas” no tempo em que nos pediam para escrever na cédula o nome do candidato a presidente. Alguns britânicos o faziam por discordar da inclusão do quesito “religião” num censo. Vai daí que no censo de 2001 (ver http://bit.ly/1aDh9D) na Inglaterra e País de Gales a religião Jedi apareceu com 390.127 crentes, superando crenças como o Judaísmo e o Budismo. A questão tem sido discutida a sério no Parlamento britânico, onde se discutem penalidades contra o ódio religioso, etc., e em certos momentos é preciso definir oficialmente o que é uma religião.

Em todo caso, esse número vem sendo acompanhado por outros, menores mas expressivos, em outros países. No censo de 2001 (prestes a ter seus números superados, portanto) a Escócia tinha 14 mil Cavaleiros Jedi. No mesmo ano o Canadá registrou 21 mil, a Austrália 70 mil. A Nova Zelândia apresentou 53 mil Jedi, o que faz dela o país com maior densidade populacional (1,5 %) dos seguidores da Força, se bem que outro censo, feito em 2006, fez este número cair para 20 mil (o que parece corresponder ao número dos verdadeiros crentes – os outros devem ter se afirmado Jedi só para fazer piada).

O censo da República Tcheca, feito agora em 2011, revelou mais de 15 mil pessoas pertencentes à religião Jedi. Lá, o censo não fornece alternativas para múltipla escolha, e nomear a religião é uma iniciativa do entrevistado. Será interessante acompanhar os resultados dos próximos censos nos países europeus e acompanhar a criação do Mundo Simulacro, formatado para imitar a ficção.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

2747) FC e antropofagia (23.12.2011)



(ilustração: Albert Nuetzell - Amazing Stories, setembro 1960)

Existe uma discussão permanente, nos círculos brasileiros de ficção científica, sobre a necessidade (ou a mera possibilidade) de um FC que funcione, entre nós, como o movimento modernista de 1922 funcionou em relação à poesia, a pintura, etc. A discussão vem sendo travada nestes termos pelo menos desde 1988, quando Ivan Carlos Regina publicou o “Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira” (veja o texto completo em: http://bit.ly/sosAWC). A esta altura, todo mundo entende qual era mais ou menos a proposta dos “antropófagos” de 1922, tal como a colocou Oswald de Andrade: devorar a cultura européia como os índios caetés devoraram o Bispo Sardinha. Usá-la não como modelo, mas como combustível, para pôr em movimento uma cultura repleta de elementos nossos.

O manifesto de ICR critica os autores brasileiros que preferem imitar o modelo norte-americano de FC, repetir os mesmos temas, os mesmos clichês, a mesma linguagem – porque, vamos e venhamos, é muito mais fácil fazer “fanfic” do que literatura. (A “fanfic”, a ficção produzida por fãs, é quando os leitores de Harry Potter, Star Trek, etc. escrevem suas próprias histórias utilizando esses personagens e contextos. Não tem propósito criativo estrutural; apenas o prazer de produzir variantes das obras originais.)

Diz o manifesto: “(...) Precisamos deglutir urgentemente, após o Bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, o alienígena mauzinho, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz, o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas. / A ficção científica brasileira não existe. / A cópia do modelo estrangeiro cria crianças de olhos arregalados, velhinhos tarados por livros, escritores sem leitores, homens neuróticos, literaturas escapistas, absurdos livros que se resumem a capas e pobreza mental, colônias intelectuais, que procuram, num grotesco imitar, recriar o modus vivendi dos países tecnologicamente desenvolvidos. / A ficção científica nacional não pode vir a reboque do resto do mundo. Ou atingimos sua qualidade ou desaparecemos. (...)”.

Este é o lado crítico do manifesto, e acho que permanece tão atual quanto em 1988. Deglutir, devorar, antropofagizar, implica sempre em destruir, “quebrar” aquele material em seus elementos constitutivos, usá-lo como eventual banco de dados para produzir uma literatura que não venha do impulso de imitar, mas de dizer verdades pessoais. Literatura é a verdade pessoal de cada um, e para essa verdade emergir precisa desligar esse piloto-automático que gera a fanfic e a imitação.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

2746) Evolução copiadora (22.12.2011)

A revista eletrônica Edge (http://bit.ly/vmEGf8) reproduz uma palestra de cerca de 40 minutos com o biólogo Mark Pagel em que ele defende uma interessante teoria, que em alguns aspectos me fez lembrar a visão evolucionista (e pessimista) de H. G. Wells em A Máquina do Tempo

Pagel faz um breve histórico da evolução da vida na Terra, lembrando que o planeta tem 4,5 bilhões de anos, as formas de vida primitivas surgiram há 3,8 bilhões, plantas e animais simples surgiram há 500 milhões, os seres humanos primitivos há cerca de 200 mil, e a História do Mundo que estudamos no colégio remonta a no máximo dez mil anos. (Eu acrescentaria, por minha conta, que os últimos 200 anos produziram um mundo novo, e que os últimos 50 viraram esse mundo novo pelo avesso.) 

Pagel observa que o ser humano desenvolveu, através da memória e da linguagem, um “aprendizado social” mediante o qual as descobertas de um indivíduo são rapidamente assimiladas pelos demais, e passadas adiante no espaço e no tempo. 

Isto fez, raciocina ele, com que inventar e copiar sejam funções essenciais para a sobrevivência da raça. Se a raça precisa de um novo instrumento ou uma nova técnica, não é preciso que todo mundo a invente. Basta que um invente, e os outros copiem. O que o grupo precisa é que a descoberta seja compartilhada. 

Uma consequência disto é que num grupo de 50 pessoas, uma horda primitiva, basta que meia dúzia sejam criativos. Mas num grupo dez vezes maior, o número de pessoas criativas pode continuar sendo o mesmo, porque a memória e a linguagem se encarregarão do “aprendizado social”. Dessa forma, à medida que a população aumenta (e as comunicações se aperfeiçoam), o número de pessoas criativas diminui proporcionalmente, porque o aprendizado social se encarrega de disseminar suas invenções e descobertas. 

Desde que haja uma pequena quantidade de inventores, de descobridores, de pessoas genuinamente criativas, a sociedade tem meios para distribuir os resultados dessa criatividade, para serem copiados pelos demais. 

Por isso, talvez estejamos atingindo (depois da Internet) um ponto-sem-retorno que é consequência deste longo processo em que a necessidade de copiar foi muito mais estimulada do que a necessidade de criar. 

Pagel ironiza inclusive as grandes corporações, que em tese seriam redutos de criatividade bem remunerada, dizendo que 

“ao invés dessas corporações dedicarem seu tempo e sua energia na produção de novas idéias, elas querem apenas comprar outras empresas que possuem essas novas idéias. E isso nos mostra o quanto essas idéias são preciosas, e o esforço que as pessoas são capazes de fazer para adquiri-las”.






 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

2745) “Mais Que Humano” (21.12.2011)



Este romance de Theodore Sturgeon, de 1953, é um dos grandes romances de ficção científica de sua época, e aparece na maioria das listas dos melhores do gênero. Ser incluído nessas listas não é uma questão de qualidade literária, mas de presença histórica. Obras que compõem um cânone são as obras formadoras, aquelas que uma vez publicadas passam a servir de ponto de referência obrigatório. More than Human conta a história de um grupo de crianças e jovens de rua, marginais, desprezados pela família, com poderes paranormais que utilizam da modo aleatório, sem compreendê-los totalmente. Encontram-se pouco a pouco, meio por acaso, e acabam formando uma Gestalt, um grupo em que cada um deles desempenha um papel essencial. Uma pode mover objetos com a mente, outras podem se transferir instantaneamente de um lugar para outro, outro induz as pessoas a lhe obedecem, como num hipnotismo instantâneo, etc. Juntos, tornam-se uma criatura nova, o Homo Gestalt.

A história se conclui com o aparecimento de um derradeiro personagem, que, após ser perseguido pelo grupo, acaba sendo salvo por uma de suas integrantes e se junta a ele. Sua função é proporcionar ao grupo (que era isolacionista, egocêntrico, amoral) uma moralidade, um senso de finalidade, uma missão a cumprir junto à espécie humana. A infância sofrida e perseguida daquelas crianças produz, quando elas descobrem seus super-poderes, uma espécie de vingança cega contra a humanidade que os desprezou. (Os personagens mutantes da série de HQ “X-Men” herdaram algo dessa atitude.) Somente com a chegada de um personagem que exige deles uma atitude ética o Homo Gestalt passa a funcionar com sua plena capacidade.

É possível que o livro tenha influenciado um conto de Robert Sheckley, “Specialist” (1953), onde aparece uma nave cuja tripulação é composta por criaturas extraterrestres interligadas através da função de cada um: o Olho, o Motor, as Paredes, o Pensador, a Fala... Eles chegam à terra em busca de um Propulsor, ou seja, um ser humano. Sem ele, são uma Gestalt organizada e infalível; mas para dar os saltos que fazem a nave viajar mais rápido do que a luz, precisam desta espécie, o Propulsor, que extrai energia de si mesmo: “Os Propulsores viviam há séculos por entre o medo e a dúvida. Guerreavam por causa do medo, matavam por causa da dúvida”. E é essa energia de que a Nave precisa para mover-se pelo Universo. Os textos de Sturgeon e Sheckley podem servir de metáforas da sociedade ou da mente humana, que por mais organizadas e eficientes que sejam precisam de um componente subjetivo essencial para poderem funcionar com seus plenos poderes.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

2744) A palavra pantim (20.12.2011)




Uma das palavras mais elusivas do nosso idioma nordestinense; serve para um número tão grande de situações que fica difícil atribuir-lhe um sentido principal. Se eu tivesse de escolher algum, escolheria: “fricote; manha; frescura; nhém-nhém-nhém”. 

-- Vamos, rapaz! Começa logo esse show, e deixa de pantim! 

Ou:

-- Deixe de pantim, eu estou só trocando o curativo. 

É qualquer reação exagerada, artificial, “valorizando” demasiadamente uma situação que não tem muita gravidade. Como neste exemplo de Nei Leandro de Castro, em As pelejas de Ojuara

Teve uma hora que Silva da Mata parou, deitado de costas, a língua para fora, os olhos revirados. Ficou desse jeito, totalmente imóvel, a respiração suspensa. Ojuara fez força para não rir daquele pantim, o mais demorado que ele já tinha visto na vida. 

No folheto da 2ª Peleja de José Costa Leite com Maria Quixabeira, de José Costa Leite, vemos: 

Você com esse pantim 
já está me chateando 
a mulher é quem não presta 
a metade vive enganando 
mas já vi uma direita 
uma vez, eu não sei quando. 

 Na canção de Capiba “Quem vai pra farol é o bonde de Olinda”, de 1937, ele já diz: 

Você sabe que eu sei 
e todo mundo já fala 
porém você quer me ocultar; 
confesse logo e deixe de pantim para mim 
que você vive a me enganar. 

Dicionários on-line por aí dão-lhe um significado que, sinceramente, nunca vi sendo utilizado: “boato, notícia assustadora, alarmante”. Vejo, por outro lado, a expressão “fazer um pantim” no sentido de “fazer uma encenação qualquer para pregar susto em alguém”: “Ele ficou escondido atrás da porta, com um lençol, quando os meninos entraram ele fêz um pantim, e os meninos saíram correndo”. 

Outra acepção de “fazer pantim” é esboçar um gesto, deixando-o incompleto, ou apenas a título de ilustração: “Ele não puxou a faca não. Fez só o pantim, mas a gente se assustou e saiu correndo.” "Passa a carteira pra cá, ligeiro! Sem fazer pantim!" 

Tenho imensa curiosidade em saber a origem desse termo, mas nunca me ocorreu uma hipótese que valesse a pena. 

Existe uma leve possibilidade de que venha do francês pantin ("fantoche; pessoa ridícula"). O filme de Luís Buñuel Este Obscuro Objeto de Desejo baseia-se num romance de Pierre Louys intitulado La femme et le pantin (filmado também por Julien Duvivier, com Brigitte Bardot, e por Josef von Sternberg, com Marlene Dietrich). 

Literalmente, seria "A Mulher e o Fantoche": a personagem é uma jovem bonita que passa o filme inteiro prometendo entregar-se a um homem idoso, e esquivando-se dele na hora H. Ou seja, em bom paraibanês: ela não dá nunca pra ele, faz somente o pantim.







domingo, 18 de dezembro de 2011

2743) Novos milionários (18.12.2011)



Sete mil novos milionários por ano. Esta é a quantidade que o Brasil produz, segundo a revista Forbes. Um artigo recente (http://tinyurl.com/7po2pzb) dessa revista nos adverte, contudo, que eles são milionários em moeda brasileira, pois o seu valor em dólares é algo em torno de 540 mil. Para um país do BRIC não está nada ruim, embora faça lembrar a frase (não sei se é de Gandhi ou do Dalai Lama) de que alguns países produzem riqueza e outros produzem ricos. O Brasil, amigos, está botando rico pelo ladrão.

A Forbes lembra que a estatística, que na verdade fala em 19 milionários por dia, levou em conta todas as riquezas do indivíduo: investimentos, propriedades, poupanças e outros ativos, além de dinheiro em caixa. E diz que o Brasil tem atualmente 137 mil milionários e cerca de 30 bilionários, de acordo com a lista elaborada pela própria revista em 2011, sendo que 70% da riqueza do país estão concentrados em São Paulo e Rio de Janeiro. (Imagino que este número se refira à riqueza desses banqueiros e altos executivos, não à riqueza do país como um todo.)

O engano mais frequente em torno dos milionários é pensar que todo sujeito rico conquistou esse dinheiro roubando. Errado. Muitos enriquecem honestamente, e a única crítica que se pode fazer a sua fortuna é que foi obtida através da exploração do operariado, do crescimento desenfreado dos bancos e das multinacionais, etc.; mas o trabalho dele, em si, não envolveu corrupção ou apropriação indébita.

Essa é minha dúvida principal, porque um corrupto, traficante, contrabandista, gangster, etc. desfruta, é óbvio, de uma riqueza indevida. Mas o que dizer de um gerente de conglomerado financeiro que ganha um milhão por mês? É o salário dele, pagam-lho porque acham que o merece. É um pouco como salário de jogador de futebol. Eu não consigo encontrar uma relação concreta entre os salários sauditas que esses atletas ganham e o futebolzinho bambala que jogam. Mas se os próprios patrões concordam em pagar isso, problema deles.

E volto à questão. É possível, talvez, ser um funcionário honesto (dedicado, ético, que age estritamente dentro da lei) num conglomerado financeiro. O problema é que um conglomerado financeiro é, no mundo de hoje, algo comparável ao conglomerado celular popularmente conhecido como “câncer”. Suas intenções podem até ser as mais angelicais possíveis, mas seu funcionamento é predatório, suicida, e tende a destruir o organismo onde habita. É possível ser correto no interior de um sistema que age de forma incorreta? Até que ponto a surrada justificativa do “estou apenas cumprindo ordens” os absolve das fortunas que ganham?

sábado, 17 de dezembro de 2011

2742) A epifania do líder (17.12.2011)




(Tancredi Scarpelli, "Balboa avista o Pacífico")

Dizem que os primeiros europeus a avistar o Oceano Pacífico, do lado oposto do continente americano, foram os da expedição de Vasco Nuñez de Balboa. Vi na Wikipedia uma citação da "História da América" de William Robertson em que esse momento histórico é descrito. Diz o texto:

“Os índios haviam garantido que do topo da próxima montanha eles poderiam avistar esse oceano que procuravam. Quando, depois de muito esforço, conseguiram subir a maior parte da íngreme encosta, Balboa ordenou aos seus homens que se detivessem, e avançou sozinho até o topo, para ser o primeiro a desfrutar daquele espetáculo pelo qual tanto ansiara. Assim que viu o Mar Sul em sua extensão infinita diante dos seus olhos, ele caiu de joelhos, e erguendo as mãos para o Céu rendeu graças a Deus, que o guiara naquela descoberta tão importante para o seu país, e tão honrosa para ele próprio. Seus seguidores, vendo suas manifestações de alegria, avançaram para juntar-se a ele em seu deslumbramento, júbilo e gratidão”.

O gesto de Balboa de mandar os soldados se deterem para que ele fosse o primeiro a avistar o Oceano é à primeira vista uma inversão da situação dos capitães de navio. Cabe a Cabral a glória de ter descoberto o Brasil, mas o próprio Cabral tinha consciência de que quem primeiro avistou o Monte Pascoal foi o rapazinho na gávea, naquele cesto preso no alto do mastro. Isso talvez o incomodasse: a consciência íntima de não ter sido o primeiro. 

Ter apenas a glória simbólica, a glória do comando, era pouco para Balboa. Ele queria ter a certeza de ter sido o primeiro, de fato.

Por outro lado, esse egoísmo lembra a famosa cena da "Odisséia” em que Ulisses, desejoso de saber como era o canto das sereias, faz-se amarrar ao mastro para escutá-lo, e manda os marinheiros taparem os ouvidos com cera. O momento de epifania, de êxtase, é reservado ao chefe; os trabalhadores não podem, porque depende deles o rumo seguro do navio. 

Faz parte do sistema o fato de que cem remadores ou cem soldados estão ali apenas para garantir ao seu chefe as experiências numinosas que a aventura lhes reserva. Todo aquela esforço coletivo é em nome de um homem: Cortez conquistou o México, Napoleão perdeu a campanha da Rússia.

E nada nos impede de imaginar que quando Balboa enxergou o Pacífico entendeu de imediato o quanto, diante daquele universo de água, tudo o mais era pequeno. Ficou com o olhar chapado das pessoas que descem da nave alienígena em "Contatos Imediatos". 

Ocorre muitas vezes que essa visões de epifania e transcendência não deixam um indivíduo vaidoso pelo conhecimento adquirido, mas modesto por conhecer agora as próprias dimensões.




sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

2741) Drummond: “Família” (16.12.2011)




Uma parte considerável de Alguma Poesia (primeiro livro de Carlos Drummond, publicado em 1930) é de poemas sobre a vida doméstica, descrita de diferentes pontos de vista (“Infância”, “Sweet Home”, etc.). Um tema que foi se diluindo gradualmente. Não lembro de nenhum texto nessa linha em livros como Claro Enigma, por exemplo. Na verdade, há dois tipos de textos muitos diferentes: os poemas em que Drummond evoca sua família real, suas lembranças reais (o pai, a mãe, etc.) e os poemas em que ele compõe pequenos quadros de vida doméstica que não se referem propriamente a ele mesmo, mas a famílias imaginárias cuja existência está plantada na zona limítrofe entre a paz e a pasmaceira, entre a tranquilidade e o tédio.

“Família” pertence a essa linha: “Três meninos e duas meninas, / Sendo uma ainda de colo. / A cozinheira preta, a copeira mulata, / o papagaio, o gato, o cachorro, / as galinhas gordas no palmo de horta / e a mulher que trata de tudo”. Parece a descrição da fotografia de uma família. Ou um daqueles “grupos de família numa sala” que os pintores antigos gostavam de compor. Essa enumeração de personagens humanos e animais, porém, soa como uma receita de bolo, uma lista de ingredientes necessários para preparar a família mineira ideal.

Além dos personagens, a família inclui uma cenografia meticulosa de objetos, e pequenos rituais associados a eles: “A espreguiçadeira, a cama, a gangorra, / o cigarro, o trabalho, a reza, / a goiabada na sobremesa de domingo, / o palito nos dentes contentes, / o gramofone rouco toda noite / e a mulher que trata de tudo”. Note-se a reiteração da frase “e a mulher que trata de tudo” num tom de calculada ambiguidade. A mulher é mencionada como se fosse a figura mais poderosa, e ao mesmo tempo a frase tem aquele tom taxativo, machista, bem tradicional, dos sujeitos que dizem: “aqui na casa quem manda é a patroa”, num tom que deixa bem clara a situação de subserviência dessa “patroa”.

A vida social de-portas-afora é descrita em breves cápsulas na estrofe final: “O agiota, o leiteiro, o turco, / o médico uma vez por mês, / o bilhete todas as semanas / branco! Mas a esperança sempre verde. / A mulher que trata de tudo / e a felicidade”. Rotina, vidinha conservadora e um tanto fundada em preconceitos (veja-se o tom com que se refere ao “turco”, à “cozinheira preta e a copeira mulata”, como se fossem coisas). A palavra “felicidade” na linha final surge como um elemento obrigatório a partir do qual todos os outros tivessem sido deduzidos. Parece um retrato de família a óleo mostrando na parede um dístico: “Aqui nesta casa todo mundo é obrigado a ser feliz”.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

2740) Arte Acontecimento (15.12.2011)




No futuro próximo irá se intensificar a prática da Arte Acontecimento, mas num plano diverso dos “happenings” dos anos 1960, que privilegiavam o inesperado, o espontâneo, o aleatório. A Arte Acontecimento, ou Arte Evento, irá extrair seu perfil de atividades como o Teatro de Guerrilha, ou Teatro Invisível, de Augusto Boal; os “flash mobs”, ajuntamentos de pessoas com um propósito específico, convocados via Twitter ou celular; os atores que fazem “estátua viva” na calçada; os ativistas ecológicos que interrompem desfiles ou solenidades atirando pizzas ou sangue nos participantes. Nesta forma de arte futura, grupos se organizarão e realizarão peças instantâneas, em lugares públicos, nas quais os transeuntes serão coadjuvantes involuntários e imaginarão que estão presenciando um fato casual, não uma sequência prevista e deliberada de acontecimentos.

Um forte impulso será dado a esta Arte pela disseminação das famosas “pegadinhas” da TV, que estão condicionando o público a aceitar com passividade ou simpatia interferências ficcionais (no sentido de serem pré-roteirizadas) no seu cotidiano. Aceitaremos esses teatrinhos de rua como aceitamos a música de rua ou os pintores que fazem quadros com spray sentados na calçada.

Alguns desses grupos preferirão usar uniformes ou signos facilmente reconhecíveis, como acontece com grupos já existentes – a Confraria do Garoto, no Rio de Janeiro, é um bom exemplo. Outros virão disfarçados de transeuntes. Alguns grupos provavelmente homenagearão personagens fictícios com os quais se identificam ou com que têm certa filiação simbólica ou sentimental, como os Palhaços ou os Piratas do Tietê, do cartunista Laerte, ou os agentes da Intempol, a polícia temporal criada por Octavio Aragão.

Muitas dessas ações de rua serão expansão de Role Playing Games e de atividades típicas da Internet. Jogos, disputas ou encenações terão lugar através da Web, em tempo real, e em determinados momentos exigirão que seus participantes saiam à rua e participem de tais ou tais ações numa praça, num restaurante, num edifício público, num metrô, etc. Webcams farão a conexão, transformando a rua num palco e a Web numa platéia. Note-se que nada disto se aplica a atos públicos, protestos, ações políticas tipo “Ocupem Wall Street”, mas apenas a ações coordenadas de finalidade estética, artística, ficcional. A Arte Acontecimento consistirá em pequenas histórias ou pequenas situações, potencializadas pela Web, em que ações humanas e diálogos humanos servirão para iluminar a condição humana num ambiente em que será difícil distinguir entre vida e arte, entre o espontâneo e o planejado.