domingo, 25 de junho de 2023

4955) Tradutor, o herói invisível (24.6.2023)



 
Em seu magistral e enciclopédico compêndio de tradução Le Ton Beau de Marot (Basic Books, 1997), Douglas Hofstadter sugere a seguinte parábola (Cap. 13, trad. BT):
 
Aqui estão dois tostões de diálogo para vocês, o tipo de conversa que alguém pode ouvir facilmente numa grande cidade, ou num campus universitário:
 
Ele: Está sabendo? Vladimir Horowitz está na cidade, e vai dar um recital neste sábado.
Ela: Uau, vamos assistir! Me diga, ele vai tocar o quê?
Ele: Não faço idéia. Não tem a informação no cartaz. Mas vai ser uma beleza, Horowitz é sempre grande.
Ela: Ah, Horowitz! Que pianista! Posso passar a vida inteira escutando-o!
 
E agora, eis um diálogo bastante parecido, mas um que você nunca, jamais, em tempo algum vai ouvir, seja numa metrópole ou num campus:
 
Ele: Está sabendo? Gregory Rabassa acaba de traduzir mais um livro!
Ela: Uau, que notícia maravilhosa. Já está à venda?
Ele: Acho que não, mas em todo caso deve estar daqui a um ou dois meses.
Ela: Oh, sim... aliás, quem é o autor?
Ele: Não faço idéia. Não tinha essa informação no anúncio que eu li. Mas vai ser uma beleza, Rabassa é sempre grande.
Ela: Ah, Rabassa! Que tradutor! Posso passar a vida inteira lendo suas lindas frases!
 
Se você pensa que esta segunda conversa tem alguma possibilidade de acontecer... vá sonhando, amiguinho, vá sonhando.
 
A inequação armada por Hofstadter mostra muito bem as semelhanças e as diferenças entre as duas profissões. Um pianista é uma espécie de tradutor, no sentido de ser um intermediário imprescindível entre a partitura e o ouvinte. Um tradutor é uma espécie de instrumentista, fazendo com que o leitor que não lê inglês (ou coreano, ou mandarim) desfrute a experiência estética cifrada no original. (Ou quem sabe “a ilusão da experiência”, mas nem vamos mexer nesse formigueiro.) 
 
Meu amigo californiano Harry Ingham lamentava não saber escrever em espanhol. “Se eu escrevesse em espanhol”, dizia ele, “teria alguma chance de ser traduzido por Gregory Rabassa, e meu livro em inglês ficaria infinitamente melhor”. 
 
Exagero? Só um pouco. Um dos detalhes imponderáveis da tradução é a escolha de vocabulário. Muitas vezes eu coloco uma palavra que funciona bem no contexto, e me dou por satisfeito. Pode haver, porém, um sinônimo que acrescente alguma coisa à frase – uma nuance de significado, um efeito rítmico, uma conotação mais ampla... Se alguém “traduzisse” minha frase para o português, com essa alteração, eu seria o primeiro a pensar: “Rapaz, ficou muito melhor... Como isto não me ocorreu?”



Já comentei aqui no Mundo Fantasmo o livro de Rabassa, If This Be Treason (2005), em que ele comenta muitas de suas traduções da literatura latino-americana. Rabassa explica, em longos parágrafos, algumas opções de tradução do clássico Cien Años de Soledad (1968) de Garcia Márquez. O título, por exemplo: A Hundred Years of Solitude or One Hundred Years of Solitude? Ele opta por este ultimo, e explica por quê. Do mesmo modo, explica por que razão “solitude” lhe parece superior a “loneliness”.
 
Sobre o livro, aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2014/11/3666-gregory-rabassa-23112014.html
 
O tradutor é apenas um coadjuvante no show literário, mas sem a sua competência o show poderia desmoronar. Podemos imaginar um contexto futuro em que a sugestão de Hofstadter pudesse se tornar real – as pessoas comprando um livro não pelo autor, mas pelo tradutor, para fruir o trabalho do tradutor. Por que não? 
 
Ariano Suassuna, que gostava de demonstrações por absurdo, criou no Romance da Pedra do Reino (1971) o personagem Samuel Wandernes, um intelectual católico, monarquista, e nacionalista. Para Samuel, tudo que é brasileiro é superior ao estrangeiro, inclusive na literatura. No Folheto LXXVII do livro, ele diz:
 
Sou nacionalista, e, podendo, pilho os estrangeiros o mais que posso!  Para mim, Manoel Odorico Mendes é o autor dos originais da ‘Ilíada’ e da ‘Eneida Brasileira’: Homero e Virgílio são, apenas, os tradutores grego e latino dessas obras dele!  Castilho é o autor do ‘Fausto’ e do ‘Dom Quixote’, assim como José Pedro Xavier Pinheiro é o verdadeiro autor da ‘Divina Comédia’ que Dante traduziu para o italiano!

 
Exagero? Talvez, mas não podemos esquecer que Eça de Queiroz traduziu As Minas do Rei Salomão (1885) de H. Rider Haggard, tomando extensas liberdades com o texto original (o protagonista Allan Quatermain, por exemplo, vira “Alão Quartelmar”), numa verdadeira adaptação – tanto assim que este volume é habitualmente incluído nas edições das obras completas de Eça. É um dos livros de juventude de Ariano, e não é difícil ver aí uma fagulha inicial da megalomania nacionalista de Samuel Wandernes.   
 
Há muitos casos de tradutores que cedem à vaidade de aparecer mais do que o autor, de mexer no texto do autor. Às vezes por pressa e impaciência: já li romances policiais traduzidos por Monteiro Lobato em que ele pulava páginas inteiras de descrições de ambientes (a mansão do milionário, etc.), o que às vezes deixava a narrativa até mais leve e mais rápida. (Mas não aconselho ninguém a fazer isto.)
 
Recentemente estourou na imprensa um pequeno escândalo relativo a uma tradução para o inglês de um romance de Machado de Assis, quando um professor norte-americano verificou que a edição que ele usava em aula era mais completa do que a dos seus alunos, onde capítulos inteiros tinham sido suprimidos.
 
Isto não é nada diante da façanha de William Julius Mickle, que em 1776 fez uma tradução de Os Lusíadas de Camões, e teve a cara-de-pau de incluir uma batalha marítima que não existe no original.
 
Veja aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2009/05/1041-os-lusiadas-em-ingles-1872005.html




quarta-feira, 21 de junho de 2023

4954) Primeiras Estórias: "Tarantão, meu patrão" (21.6.2023)



(João Guimarães Rosa)

A figura do doido é recorrente na obra de Guimarães Rosa, mas talvez fosse melhor dizer de um jeito diferente. Não é o doido propriamente dito, mas o personagem de comportamento amalucado. Não é o doido trancafiado no Pinel ou na colônia. É aquele camarada, meio vagueante do juízo, parado no ponto de ônibus, contando pra ninguém uma história que ninguém entende.  
 
O “doido solto”, como se dizia em Campina – o indivíduo que não vale a pena levar para o Manicômio, porque na verdade não é uma ameaça a si mesmo nem a ninguém. Uma figura imprevisível, que à gente às vezes tolera, mas com desconforto, porque sabe que de um instante para outro ele pode aprontar um surrealismo qualquer.  
 
Comentei dias atrás o conto “Darandina”, onde essa dualidade é pretexto para Rosa contar a história divertida do sujeito que entra no hospício, pede para ser internado alegando doidice, e, diante da negativa, volta para a rua, sobe numa palmeiras e lá em cima tira toda a roupa, jogando-a na multidão que se formou. Era doido ou não era?     
 
Algo parecido se dá com o penúltimo conto do livro, “Tarantão, meu patrão”, cujo narrador, conhecido por “Vagalume”, tem como patrão um fazendeiro que anda meio destrambelhado do juízo. A família o confinou na fazenda para esperar um médico, mas no abrir do conto o fazendeiro – “Iô-João-de-Barros-Diniz-Robertes!” – já está montando a cavalo e partindo, obrigando o pobre Vagalume a montar também e ir atrás. 
 
O patrão está “sem paletó, só o todo abotoado colete, sujas calças de brim sem cor, calçando um pé de botina amarela, no outro pé a preta bota; e mais um colete, enfiado no braço, falando que aquele era a sua toalha de se enxugar.”  Mas sua demanda preocupa: ele diz a Vagalume que está indo à procura do Magrinho para matá-lo. O Magrinho é o médico, sobrinho-neto dele, que dias atrás lhe aplicou uma lavagem intestinal. 
 
O patrão sai demente a cavalo, e Vagalume atrás, e ele alvoroça tudo por onde passa, seja porque já o conhecem, seja porque seus modos chamam a atenção. E ele vai convocando indivíduos para segui-lo. Faz gentilezas à mãe de um, conclama outro, faz discursos, e aos poucos a sua cavalgada vai crescendo. 
 
Que poder têm os doidos para atrair as pessoas? Não é qualquer doido, é o doido eloquente, porque essa combinação de imprevisto e veemência parece seduzir as pessoas que estão cochilando com a mesmice da vida. E ele vai de lugarejo em lugarejo. Desmancha uma procissão jogando dinheiro pro alto (“...a se curvar, o povo, em gatinhas, para poderem catar prodigiosamente aquela porqueira imortal”). E o séquito vai aumentando. 




As aventuras do Patrão são variadas, e nas mãos de um prosador com outro perfil renderia talvez um romance divertido como O Grande Mentecapto (1979) de Fernando Sabino. Vagalume segue o patrão como Sancho seguia o Quixote, sempre de olho, para que não se meta numa encrenca grossa. E ele também se entusiasma com o inédito daquilo: 
 
Todos vindos, entes, contentes, por algum calor de amor a esse velho. A gente retumbava, avantes, a gente queria façanhas, na espraiança, nós assoprados. A gente queria seguir o velho, por cima de quaisquer idéias. (p. 164)
 
O furor vingativo do velho não arrefeceu:
 
Ao que o velho sendo o que era por-todos, o que era no fechar o teatro. “Vou ao demo!” bramava. “Mato o Magrinho, é hoje, mato e mato, mato, mato!” – de seu sobrinho doutor, iroso não se olvidava. Súspe-te!  (p. 164)
 
Vagalume cavalga ao lado dele, e o tropel compassado dos cavalos vai fazendo brotar no texto a sugestão do título:
 
Me passei para o lado do velho, junto – tapatrão, tapatrão... tarantão... tarantão... e ele me disse: nada. Seus olhos, o outro grosso azul, certeiros, esses muito se mexiam. Me viu mil. “Vagalume!” – só, só, cá me entendo, só de se relancear o olhar. “João é João, meu Patrão...” Aí; e – “patrapão, tampantrão, tarantão…” (p. 164)
 
E assim segue a cavalgada, entre epopéias e onomatopéias, o grupo aumentando, até Vagalume se dar o trabalho de listar os “combatentes”, um prazer a que Riobaldo Tatarana se entrega várias vezes no Grande Sertão: Veredas:
 
E eu ali no mei. O um Vagalume, Dosmeuspés, o Sem-Medo, Curucutu, Felpudo, Cheira-Céu, Jiló, Pé-de-Moleque, Barriga-Cheia, Corta-Pau, Rapa-pé, o Bobo, o Gorro-Pintado, e o sem-nome nosso amigo.
 
E é essa “estranha cavalgada” que irrompe na casa do Magrinho, o sobrinho-doutor. E vejam só – a casa está em festa! É o dia do batizado da filha do Magrinho, e tudo ali é uma alegria só. Chega de repente esse Exército Brancaleone, empoeirado, suado, em bater de cascos e tinir de esporas. No meio a incerteza e da surpresa geral, o Patrão pede a palavra!
 
Todos, em roda de em grande roda, aparvoados mais, consentiram, já se vê. Ah, e o Velho, meu Patrão para sempre, primeiro tossiu: bruba! – e se saiu, foi por aí embora a fora, sincero de nada se entender, mas a voz portentosamente, sem paradas nem definhezas, no ror e rolar das pedras. Era de se suspender a cabeça. Me dava os fortes vigores, de chorar. Tive mais lágrimas. Todos, também; eu acho. Mais sentidos, mais calados. O Velho, fogoso, falava e falava. Diz-se que, o que falou, eram baboseiras, nada, idéias já dissolvidas. O Velho só se crescia. Supremo sendo, as barbas secas, os históricos dessa voz: e a cara daquele homem, que eu conhecia, que desconhecia. (p. 166) 
 
A festa termina assim em festa (Vagalume confirma: “Com alegria. Não houve demo. Não houve mortes”) e o conto se instala numa outra vertente da obra de Rosa, não muito comentada, mas presente. Como a define Paulo Rónai, em seu prefácio, “Os Vastos Espaços”, ao livro de Rosa: “o conflito esperado deixa de se cumprir”

Rónai identifica essa tendência dramática igualmente em “Famigerado”, “Os irmãos Dagobé”, “O Cavalo que Bebia Cerveja”, “Luas-de-Mel” e “Darandina”. 
 
Rosa é conhecido pelo sopro épico de suas batalhas de jagunços, seja nos duelos homem-a-homem, seja nos combates tropa-a-tropa. Nestes contos, no entanto, posteriores ao Grande Sertão, emerge o outro lado – o Rosa diplomata, o Rosa conciliador e negociante, o Rosa de sorriso zen-melífluo, o demarcador de fronteiras mutuamente concordadas, um homem com a preocupação-de-ofício de agüar os conflitos antes que eles peguem fogo.
 
Em “Tarantão”, ficamos sem saber o que o Patrão queria de fato – se ia mesmo matar o Magrinho e se comoveu ao ver o batizado – ou se tudo aquilo era esperteza prévia para alvoroçar meio sertão e arrebanhar uma “cruzada” de gente apanhada-a-laço. Mas tem quem possa saber o que um doido pensa?  Só se for doido também. Como o autor do conto (controladamente, estudadamente, bonacheiramente) devia ser.



(O último curso deste ano; quem se interessar se apresse)
 




domingo, 18 de junho de 2023

4953) "Impressões da Alta Mongólia" (18.6.2023)



 
O clown surrealista Salvador Dali estreou no cinema como parceiro de Luís Buñuel (Um Cão Andaluz, 1928; A Idade de Ouro, 1930). Os dois brigaram, mas paralelamente a sua milionária carreira como pintor, Dalí continuou fazendo breves incursões pelo cinema.
 
Uma obra curiosa, que está disponível no YouTube, é Impressions de L’Haute Mongolie (1975, Salvador Dalí e José Montes-Baquer). É um média-metragem de cerca de 50 minutos (parece que há uma versão mais longa nas cinematecas), narrando, com imagens produzidas pelo pintor, uma excursão fantasiosa à Mongólia, uma Mongólia onírica, muito diferente da Mongólia real. 

Aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=ZJk-DzMvVzE&ab_channel=BreconWalsh

A premissa fantasiosa do enredo parte do quadro de Vermeer A Carta. Nele, uma mulher de pé, num pequeno aposento, lê uma carta, tendo ao fundo um quadro. A câmera explora os detalhes da pintura enquanto Dali – no seu melhor estilo de voz bombástico-profético – explica que este quadro encerra um mistério. Essa carta, na verdade, traz para a mulher da pintura a notícia da existência de uma ilha misteriosa na Alta Mongólia, ilha cuja localização está revelada precisamente no mapa que aparece ao fundo. E o segredo principal desta ilha é que nela crescem cogumelos alucinatórios enormes, que a expedição narrada por Dali se prepara para ir buscar. É (diz ele) “um LSD sem LSD”.  
 
Seguem-se imagens borradas, abstratas, fortemente coloridas, saturadas de cor; Dali narra as justificações teóricas da viagem (sempre num discurso alucinatório-pomposo) e por volta dos 25 minutos começam a surgir as aeronaves de que ele se vale para o trajeto – trucagens meio amadorísticas com pequenos objetos que lembram cápsulas espaciais. 
 
O filme é bastante hábil em mostrar imagens coloridas e abstratas enquanto Dali descreve as paisagens com tranquila e peremptória subjetividade, quase como se estivesse lendo ali manchas de cartões Rorschach de testes psicológicos. Ele mostra "falésias", “colinas”, “florestas”, as areias brancas de uma praia que (segundo ele) não são mais do que milhares de gigantescos cogumelos alucinógenos pulverizados.
 
A imagem não é das melhores (é um filme para TV, e a cópia no YouTube parece ser tirada em VHS) mas nos permite ver exemplos do famoso método da “paranóia-crítica” teorizado e praticado por Dali. Uma mesma imagem pode ser vista de diferentes maneiras.  Dali e o diretor Montes-Baquer empregam as fusões e desfoques para fazer transições lentas de uma imagem para outra, e, frequentemente, de imagens abstratas para reproduções figurativas das cenas que a voz de Dali está narrando. Como se aquele borrão de cores e formas fosse ganhando significado pouco a pouco, pela imposição hipnótica da voz do narrador, que nos “ordena” o que devemos ver, e logo em seguida a imagem lhe obedece. 

 
Na sequência final, Dali traz o filme bruscamente para as ruas da cidade (talvez Port Lligat, onde ele tinha sua casa e seu estúdio), desfila pela rua com trajes extravagantes, parando o trânsito, varando o empurra-empurra da multidão, seguido por manifestantes que conduzem faixas e cartazes. Depois, todos pegam mangueiras e começam a lançar jatos de tinta colorida sobre uma parede. A imprensa filma, fotografa. Dali empunha uma câmera e filma também. 
 
Pode ser um subgênero do Fantástico, ou do Insólito. Posso chamá-lo de “As Expedições Mirabolantes”: histórias onde um grupo de indivíduos parte de uma grande cidade rumo a um lugar remoto e obscuro, em busca de um objetivo misterioso, ou improvável, ou fantasioso, ou irrelevante... 
 
Um retrato mental e poetizado do sonho colonialista, só que aqui visto pelos olhos, não dos homens ambiciosos de riqueza e poder, mas do buscadores do insólito, do aventuresco, do imprevísivel. 
 
Entram nessa faixa obras como Le Mont Analogue (René Daumal, 1952), Conversions (Harry Matthews, 1962), La Vie mode d’emploi (Georges Perec, 1978), bem como o filme A Montanha Sagrada (Alejandro Jodorowski, 1973) e o romance brasileiro O Púcaro Búlgaro (Campos de Carvalho, 1964). 
 
Estas “expedições iniciáticas” são um capítulo peculiar da literatura do Colonialismo. Não se voltam para a tarefa ufanista e civilizatória do homem branco, seja para celebrá-la, como Kipling, seja para mostrar, como Joseph Conrad, seu fracasso (ou sua verdadeira natureza). O livro brasileiro, aliás, é uma sátira a essas empreitadas fantasiosas. 
 
Julio Verne tem um papel intrigante neste processo. Por um lado, é um cientista da era vitoriana (mesmo sendo francês), deslumbrado com os desdobramentos da Revolução Industrial e o pipocar simultâneo de centenas de descobertas científicas em seu tempo.
 
Por outro lado, é curioso ver como a obra de Verne é insistentemente estudada, na França, em função de uma segunda leitura, uma leitura ocultista, hermética, iniciática, em que as aventuras geográficas de seus heróis são alegorias de aventuras espirituais de caráter místico. Ele poderia ser, nesta leitura enviesada, agrupado junto aos demais autores das “Expedições Revelatórias” em que europeus partem para terras distantes ou imaginárias para elucidar questões enigmáticas, obsessivas ou meramente absurdas. 
 
Quando Salvador Dalí, em Impressões da Alta Mongólia, explica que foram a esse local exótico em busca de cogumelos alucinógenos, ele expande a tradição de Daumal, e a tradição de Raymond Roussel (Impressions d’Afrique, 1910; Locus Solus, 1914), a quem seu filme é dedicado. 



(Imagem de Raymond Roussel no filme de Dali)

 
E ao mesmo tempo está expandindo, na direção da cultura psicodélica e lisérgica dos anos 1970, o próprio Surrealismo francês do qual surgiu. 
 
É curioso que as pesquisas mentais de André Breton e dos outros surrealistas tenham mantido sempre uma distância prudente em relação às drogas. Sarane Alexandrian, em Le Surréalisme et le Rêve (Gallimard, 1974), comenta: 
 
Há portanto uma certa condenação da droga entre os surrealistas, baseada na convicção de que um homem que a emprega não tem confiança verdadeira nas generosas virtudes do surrealismo. (...) Os surrealistas não tecem louvores à droga, mantêm distância em relação a ela, e preferem ver os drogados como sonhadores mal sucedidos, que não conseguem sonhar senão sob o efeito de produtos tóxicos, ainda que fosse abusivo interditar-lhes esse uso. (p. 162-165, trad. BT) 
 
O Surrealismo explodiu como movimento avassalador na Paris da década de 1920, quando as drogas visionárias (não necessariamente alucinógenas) eram o ópio, o láudano e o absinto.  
 
William Burroughs, um filho bastardo do Surrealismo francês com a ficção científica dos EUA (J. G. Ballard foi outro) rumou para a América do Sul em busca do yagé, a poção miraculosa propiciadora de visões. Essa peregrinação lhe rendeu um livro, as Cartas do Yagé (L & PM, trad. Bettina Becker). 
 
Antonin Artaud, surrealista-raiz, foi igualmente para o México em 1936 em busca do peiote, dos xamãs, do retorno ao inconsciente coletivo. Uma viagem que décadas mais tarde ganharia uma versão popularizada e transformada em best-seller por Carlos Castañeda. 
 
A Mongólia de Salvador Dalí não é tão imaginária assim; é uma Mongólia mental, uma Pasárgada alucinógena, um Eldorado do inconsciente. Um permanente “convite à viagem” que a literatura, a poesia e o cinema de espírito romântico, ou neuromântico, reiteradamente escutam e repetem, como se soubessem que a Verdade não está no centro, e sim nas periferias. 
 
 







sexta-feira, 16 de junho de 2023

4952) Não dizer dizendo (15.6.2023)



Poesia se faz com palavras, ou com idéias?  Para alguns, a idéia vem primeiro. O poeta tem uma noção mais ou menos clara do que quer dizer, e procura as palavras mais adequadas para reproduzir o que está pensando.  Para outros, o poema pode até começar com uma idéia, mas ela produz um processo de palavra-puxa-palavra, e o sentido vai se formando meio de improviso, à medida que as palavras se ajustam umas às outras.  Poetas usam esses dois sistemas desde que o mundo é mundo.  Um teste que muitas vezes funciona é ver se o poema resultante é fácil ou difícil de traduzir.  Os poemas criados a partir de idéias são, em geral, mais fáceis (ou menos difíceis!) de traduzir do que os que são feitos a partir das palavras.

 

Qualquer idéia pode ser recriada através das palavras?  Alguns filósofos dizem que só pensamos de fato aquilo que conseguimos exprimir, mesmo que seja inventando palavras que não existiam antes.  E até mesmo a incapacidade de dizer pode ser dita, a incapacidade de criar poesia pode ser recriada poeticamente.

 

Manuel Bandeira, ao fazer uma dedicatória para uma leitora chamada Sacha, escreveu:

 

Sacha muchacha

nariz de bolacha!

(Meu estro não acha

outra rima em acha.

Por isso se agacha,

se cobre de graxa,

se arranha, se racha,

se desatarracha

e pede em voz baixa

desculpas a Sacha).   

 

É um poemazinho de circunstância (do livro Mafuá do Malungo), sem maior pretensão literária, mas mostra de maneira claríssima a mais importante das lições poéticas: mesmo quando achamos impossível dizer o que queremos, sempre existe uma maneira de dizê-lo.  O poeta confessa (ou finge confessar) sua impossibilidade de achar rimas para o nome da pessoa a quem dedica o poema, mas no momento mesmo de admitir essa derrota as rimas parecem cair do céu, e o poema está feito.

 

Num tom diferente, quase trágico, Augusto dos Anjos produziu um soneto em que reflete sobre o processo de criação da poesia, “A Idéia” (1909):

 

De onde ela vem?! De que matéria bruta

vem essa luz que sobre as nebulosas

cai de incógnitas criptas misteriosas

como as estalactites duma gruta?!


Vem da psicogenética e alta luta

do feixe de moléculas nervosas,

que, em desintegrações maravilhosas,

delibera, e depois, quer e executa!

 

Vem do encéfalo absconso que a constringe,

chega em seguida às cordas do laringe,

tísica, tênue, mínima, raquítica ...

 

Quebra a força centrípeta que a amarra,

mas, de repente, e quase morta, esbarra

no mulambo da língua paralítica.

 

A descrição é poeticamente correta: a idéia brota no cérebro, mas quando queremos transformá-la em palavras ficamos mudos.  Em outro soneto (“O martírio do artista”) ele compara o poeta ao paralítico (ou, em nossa linguagem de hoje, à pessoa que sofreu um AVC) e não consegue falar:  “É como o paralítico que, à míngua / da própria voz e na que ardente o lavra / febre de em vão falar, com os dedos brutos / para falar, puxa e repuxa a língua, / e não lhe vem à boca uma palavra!"   

 

Há um elemento dolorosamente biográfico na concepção destes poemas. Sabe-se que o pai de Augusto, o Dr. Alexandre, sofreu um derrame e ficou “paralítico e afásico”, impossibilitado de se comunicar.

 

As imagens de Augusto são poeticamente fortes, são impressionantes, mas para sermos honestos temos que admitir que a culpa não é da língua.  Não é ela que forma as palavras, é o cérebro, o mesmo que forma as idéias.   E que compõe versos como estes, dizendo, de maneira brilhante, o quanto é difícil dizer.

 

Voltando mais atrás no tempo, temos um soneto de Olavo Bilac, “Inania Verba” (em Alma inquieta, 1902), no qual o de Augusto parece ter se espelhado. 

 

Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,

o que a boca não diz, o que a mão não escreve?

— Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,

olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...


O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava;

a Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...

E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,

que, perfume e clarão, refulgia e voava.


Quem o molde achará para a expressão de tudo?

Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas

do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?


E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?

E as palavras de fé que nunca foram ditas?

E as confissões de amor que morrem na garganta?

 

É um soneto sem a complexidade dos termos empregados por Augusto, com uma linguagem de clareza cristalina, onde os contrastes de idéia se dão por semelhança de forma (escrava / escreve) e por imagens visuais de apelo instantâneo (turbilhão de lava / sepulcro de neve).  Aqui, o poeta se queixa de outras coisas, que talvez não tenha conseguido exprimir, e que sugere nos dois tercetos finais.  Mas ao queixar-se o faz mostrando domínio completo da forma, do vocabulário, do ritmo (a repetição de “mudo”).  O seu final, ao falar naquilo que “morre na garganta” pode até ter sugerido a Augusto a imagem das “cordas da laringe”.

 

Cada poeta tem seu espírito, seu temperamento, e isto fica visível quando eles escolhem suas idéias, e, quando escolhem a mesma idéia, nas suas escolhas de palavras.  Cada um de nós tem sua maneira própria de dizer as coisas, e também de dizer que não consegue dizê-las.   Há momentos em que a poesia é apenas um sentimento que nos toma de assalto, nos invade, nos deixa cheios de emoções – e vazios de palavras.   Talvez a gente não consiga dizer o que sente; mas precisa dizer que não o conseguiu.   Carlos Drummond de Andrade, distante da linguagem expressionista e científica de Augusto dos Anjos, e do formalismo rígido e impecável de Bilac, encontra na simplicidade da dicção modernista recursos para falar dos seus próprios momentos “sem palavras”, quando diz em “Poesia” (Alguma poesia, 1930) :

 


Gastei uma hora pensando num verso

que a pena não quis escrever.

No entanto ele está cá dentro

inquieto, vivo.

Ele está cá dentro

e não quer sair.

Mas a poesia deste momento

inunda minha vida inteira.

 

Grande poeta não é o que sente grandes emoções.  Qualquer pessoa é capaz de emoções intensas.  O grande poeta é aquele que fotografa essas emoções, ou, mesmo quando não as fotografa a tempo, consegue captar sua sombra, sua pegada ou qualquer sinal de sua presença.  Como ele diz, no final do seu “Canto esponjoso”:

 


Vontade de cantar. Mas tão absoluta 

que me calo, repleto. 

 

 

 

(Uma versão deste artigo foi publicado no número de outubro de 2008 da revista “Língua Portuguesa”, da Ed. Segmento (São Paulo)


segunda-feira, 12 de junho de 2023

4951) Meu livro de 2023: "Não Ficções" (12.6.2023)



Tempos atrás eu estava trocando idéias com minha editora Sandra Abrano, da Bandeirola, e ela falou de sua vontade de publicar textos de não-ficção: artigos, ensaios, crítica, etc.  Me perguntou (retoricamente) se eu "por acaso não teria algum material".  Me toquei que nunca fiz uma coletânea dos muitos artigos que já publiquei sobre FC e literatura fantástica, artigos hoje inacessíveis, porque saíram nos fanzines de meus companheiros de trincheira intergaláctica: o Somnium, o Megalon, o Hiperespaço, o Universo Fantástico, o Borduna e Feitiçaria...
 
Conversa vai e vem, surge agora este livrinho que estamos lançando, sob o título auto-explicativo de Não Ficções, e com o subtítulo mais explicativo ainda de: A Literatura, a Ficção Científica, os Escritores e Seus Escritos
 
Como tenho feito nos últimos anos, será um livro em financiamento coletivo via Catarse, na base do pague agora e receba daqui a alguns meses. O lançamento fica mais interessante ainda porque é em dupla com o livro de George Amaral, Um Estranho Tão Familiar – Teorias e Reflexões sobre o Estranhamento na Ficção. Onde ele examina os processos de estranhamento literário e narrativo, uma das raízes (a meu ver) do famoso sense of wonder despertado pela FC, a sensação de maravilhamento que se tem ao ver uma coisa com um olhar diferente.




No meu livro, reuni textos publicados em jornais, revistas, fanzines, websaites, bem como prefácios e apresentações de livros alheios. Além dos fanzines, há textos saídos no Jornal do Brasil (RJ), Jornal da Tarde (SP) e outros.
 
Aproveitei para colocar artigos variados, tentando não me limitar à ficção científica.
 
Falo de poesia, por exemplo, no texto “A visão cósmica em Drummond e Augusto dos Anjos” (Jornal da Tarde, 1998). Sugiro ao leitor que leia, em sequência os poemas “As Cismas do Destino” de Augusto e “A Máquina do Mundo” de Drummond, para ver suas semelhanças estruturais e filosóficas, como se o texto do poeta mineiro fosse uma “resposta” ao de Augusto.






Falo da cultura popular nordestina, a literatura de cordel e a literatura oral que brota em torno dela; e da ciência popular preservada em obras como o Lunário Perpétuo, o clássico almanaque astronômico e astrológico do interior nordestino. Falo nisso a propósito de que? A propósito de um dos meus personagens favoritos, o cantador de viola John The Balladeer, cujo universo descrevo no texto “A folk fantasy de Manly Wade Wellman” (Megalon, 1999).


E falo da ficção científica na Literatura de Cordel, examinando folhetos como “História do Homem que Subiu em Aeroplano Até a Lua”, cuja autoria é atribuída tanto a João Martins de Athayde quanto a Leandro Gomes de Barros. O folheto foi publicado em Recife no ano de 1923, antes até de Hugo Gernsback, nos EUA, carimbar com o nome de Science Fiction as aventuras interplanetárias que estava publicando.


Alguns artigos vão relatando as descobertas literárias de que participei com meus amigos do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica). Autores brasileiros, obscuros, que estávamos na verdade re-descobrindo, porque um livro que conseguiu ser publicado por editora não é propriamente obscuro.
 
É o caso de meu artigo de 1993 sobre “A Rainha do Ignoto”, romance cearense, misto de ficção científica e fantasia, publicado em 1899, e que me foi revelado por Carlos Emílio Corrêa Lima. É o caso do texto de 1995 sobre “Statira e Zoroastes”, uma fantasia utópica (um país governado por mulheres” publicado em 1826 por Lucas José d’Alvarenga.  




A maioria destes artigos vem de uma época em que eu estava muito dedicado à pesquisa da literatura fantástica e FC no Brasil, ia às bibliotecas, passava pente-fino nos sebos, mantinha correspondência constante com outros abnegados.
 
Acho importante destacar o texto que publiquei em 1995 sobre “As aventuras de Dick Peter”, o detetive criado por Jeronymo Monteiro, sob o pseudônimo de “Ronnie Wells”. Jeronymo foi um fã infatigável da literatura popular, e a série Dick Peter, que começou como programa de rádio, evoluiu para abarcar livros de aventuras policiais e de ficção científica. Numa história ele está combatendo gangsters em Nova York, no outro está encontrando sobreviventes da Atlântida no interior do Brasil.



Tenho alguns artigos literários publicados fora do Brasil, mas resolvi incluir apenas um, como exemplo, porque o tenho como uma pequena façanha. Publiquei em The New York Review of Science Fiction (março de 1997) um artigo intitulado “From Borges’s Being to Perec’s Nothingness”. Trata-se de um lipograma, um texto em inglês com mais de 600 palavras onde a letra “A” não aparece nem uma vez. É uma homenagem a Perec, o rei do lipograma, e a Borges, porque refere-se o tempo todo ao livro de Borges cujo título é justamente A Letra Proibida.



O estudo da pulp fiction norte-americana me atraiu durante vários anos, e produziu vários dos artigos recolhidos neste volume. Um dos mais curiosos é “O Efeito Hoen” (Megalon, 2001). Em novembro de 1948, um fã chamado Richard Hoen enviou uma carta ao editor da revista Astounding SF afirmando ter gostado muito do número de novembro de 1949 da revista, inclusive citando o artista da capa e os títulos e autores de vários contos. O editor, John W. Campbell, decidiu levar a brincadeira a sério, e teve um ano para encomendar a cada autor um conto exatamente com aquele título. Não conseguiu 100%, mas em novembro de 1949 ali estava a revista “prevista” um ano antes, na qual Isaac Asimov, Robert Heinlein, A. E. Van Vogt e outros escreviam os contos imaginados pelo leitor.



A pulp fiction pode ter tido critérios literários pouco exigentes, mas é um exemplo histórico de literatura imaginativa produzida sob alta pressão. Era possível sobreviver escrevendo contos policiais ou de FC, nos anos da Depressão, mas era preciso escrever o dia inteiro, todo dia, sem descanso nem domingo. Comentei The Pulp Jungle, do prolífico Frank Gruber, que é um memorial dessa época, contando dezenas de fofocas e episódios pitorescos da comunidade dos escritores, mas também fornecendo números, estatísticas do mercado, e dando uma descrição pragmática desse tipo de literatura, pelos olhos de um profissional cínico e calejado. Meu texto saiu no fanzine Somnium (SP), em 2006.



Coletâneas como esta são de interesse de um público reduzido, talvez, público de algumas centenas de pessoas. O fato de termos hoje a opção do financiamento coletivo torna possível uma primeira tiragem de livros pré-vendidos, que serve como impulso inicial para que o livro se torne conhecido e procurado. É diferente de quando a editora imprimia 1.000 ou 2.000 exemplares, guardava num galpão na Zona Oeste, e ficava esperando que alguém tivesse interesse.
 
A projeto através do Catarse é o lançamento da linha “Bandeirola Ensaio e Crítica” da Editora Bandeirola, e, como já falei acima, estou nesta estréia ao lado de George Amaral, com seu Um Estranho Tão Familiar: Teorias e reflexões sobre o estranhamento na ficção, que não li ainda, mas já está na fileira de leituras no futuro próximo. Já publiquei um livro de temática próxima (Freud e o Estranho: Contos Fantásticos do Inconsciente, Casa da Palavra, 2007). Há vários processos de estranhamento na literatura fantástica e de FC.




George é psicanalista, mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Eu e ele somos os “premiados” com a chance de inaugurar uma série de ensaios que a Bandeirola já está encomendando ou negociando com pesquisadores da FC e literatura fantástica.
 
Aqui, o link com mais detalhes sobre os livros, e as diversas opções de apoio:
 
catarse.me/insolita
 
 






sexta-feira, 9 de junho de 2023

4950) O escritor enquanto Deus (9.6.2023)



(Ernest Hemingway)
 

Uma idéia que tento sempre passar (em cursos, oficinas, etc.), para quem quer fazer literatura de ficção, é o fato de que o escritor é o Deus de sua história. Não um Deus onipotente, onisciente e onipresente, mas em todo caso um Deus como aqueles da mitologia, com o poder de fazer as coisas acontecerem de acordo com a sua vontade. Inclusive de acordo com as suas venetas, com os seus impulsos.
 
Todo mundo sabe disso, concordo, mas uma coisa é saber, e outra coisa é descobrir por conta própria. 
 
Minha descoberta se deu, em grande parte, numa noite décadas atrás, no período paleozóico conhecido como “a Era da Olivetti Mecânica”. Eu tinha acabado um trabalho que me consumiu uns dois meses, trabalho remunerado, “para fora”, ou seja, uma coisa estritamente profissional. Entreguei, tive uma reunião matinal que entrou pela tarde, e o projeto foi aprovado integralmente, com aperto de mãos e promessa de depósito em breve. Voltei para casa aliviado e triunfante.
 
De noite resolvi dedicar-me aos meus projetos pessoais, ou seja, à primeira idéia genial que me viesse à cabeça, coisa que acontecia quando eu estava, como naquela noite, com uma cerveja aberta à frente, uma lauda em branco no rolo da máquina, e um cigarro Galaxy aceso entre os dedos (era no tempo em que eu fumava essa desgraça). 
 
Comecei a bolar um conto meio ao acaso, um conto mezzo Rubem Fonseca mezzo Luiz Vilela. 

Rio de Janeiro, época contemporânea. Um cara sai para beber à noite, e reencontra por acaso um amigo de juventude, lá da Paraíba, que não via há mais de vinte anos. Abraços, euforia, risadas, os dois começam a beber juntos, entram naquele estágio de “e Fulano, que fim levou?”, “tem visto Sicrana, como vai ela?”, “e tua família, todos bem?” – porque é assim o ser humano, passa dez anos sem nem se lembrar de alguém, mas na primeira chance quer saber da vida. 
 
Os caras começam a beber no Largo do Machado, depois vão até a Lapa, porque o Nova Capela nunca fecha, de lá vão para um subúrbio, porque não estão bêbados, e o que está ao volante (a história é contada do ponto de vista dele) é experiente. Mas vão para um subúrbio, num bar no meio do matagal, e lá enchem a cara com seriedade. Ao saírem do bar o amigo puxa um assunto antigo, uma discussão que os dois tiveram anos atrás. 
 
Isso não é hora para lembrar disso, defende-se o dono do carro. Não vamos estragar uma noite tão bacana. Você já estragou, naquele dia, diz o amigo, ligeiramente trôpego. Me chamou de pobre e de unha-de-fome. Que é isso, retruca o primeiro. Não me lembro de nada disso. Fiz só uma comparação entre você e seu irmão. Tá vendo como lembra? Diz o outro, em voz pastosa e triunfante. Seu filho da puta. 
 
Para encurtar a história, os dois se enraivecem, brigam, se esmurram, o dono do carro puxa um revólver, alucinado de raiva (acaba de perder um dente da frente, afrouxado por um soco) e dá dois tiros no amigo. Apavora-se. Olha em redor. Bar fechado, matagal, luzes distantes. Ninguém viu. Ele pega o carro e some. 
 
A história vinha sendo contada do ponto de vista dele, mas agora o carro segue um caminho de terra, chega à BR e desaparece ao longe; e a narrativa permanece no local do crime, um parágrafo final descreve o corpo do outro, a vida se esvaindo aos poucos, a poça de sangue aumentando, e ele caído ali, na escuridão, no meio do mato, nos fundos de um terreno baldio que servia de estacionamento. Carros passando ao longe e ele desaparecendo aos poucos. 
 
Fui dormir satisfeito, ou bêbado, o que é a mesma coisa. No outro dia fui pra rua resolver vários assuntos, tive uma tarde atarefada, mas de noite (estava sozinho em casa, minha mulher estava viajando) abri outra cerveja e fui reler o conto. 
 
Fiquei com pena dos caras!  Achei sacanagem – dois amigos se reencontram, tudo bem que no passado houve um desentendimento, se chatearam um com o outro, mas amizade tem que ser como água, que você mexe, agita, tira um pedaço, e ela volta pro formato de antes. Pra que isso? Fiquei com pena do defunto esfriando no matagal. Fiquei com pena do outro, cantando pneu nas curvas da rodovia, o revólver ainda quente guardado no bolso, a ponta da língua tentando manter o dente no lugar. 
 
Amassei a última página, voltei para o teclado e para a história. Sim, eles saem. Eles discutem, mas não tem murro. Era pobre, não era, isso e aquilo, aí o cara do carro puxa o revólver. Nesse instante o outro diz: “Mas Fulano, que história é essa? Tu anda armado agora?”  O cara está furibundo e diz: “Isso aqui é o Rio de Janeiro, seu merda, aqui a pessoa tem que se cuidar, não é aquela bosta da Paraíba onde vocês dormem de janela aberta.” O outro está bêbado mas tem amor próprio, ergue o dedo no ar e diz: “Não insulte a Paraíba, filho ingrato, porque até Lampião tinha medo, só passava por lá pra cortar caminho pro Juazeiro.”
 
Os dois começam a rir. O primeiro abre o tambor do revólver e mostra: “Essa porra está sem bala, eu morro de medo de um acidente”. Se abraçam rindo, mangando um do outro, e vão à procura de um bar aberto, mesmo porque já passa das quatro e meia da madrugada.
 
Ficou melhor o conto? Ficou pior? Não sei, porque foi um dos muitos que numa tarde de verão e impaciência eu rasguei em quatro e enchi com eles um saco de lixo, daqueles de plástico azul. Mas nesse episódio eu me senti não um Deus, mas dois – porque soube que tinha o poder de matar, e o poder de trazer de volta à vida. 
 
Então, quando eu sento para escrever alguma coisa, eu procuro invocar de dentro de mim esse poder, porque não existe coisa mais perigosa neste mundo do que um poder que o indivíduo tem e não utiliza. Esse poder se rebela, ele incha, estoura as costuras da alma, e acaba desequilibrando a vida do sujeito, como um cachorro que a gente compra, bota dentro de casa e deixa crescer sem domesticar. 
 
Tenho inclusive a impressão (não posso mais checar, joguei o conto fora) que os tais amigos eram escritores, e a certa altura um dos dois, nem lembro qual, dizia ao outro: “Não tem sentido você sentar pra contar uma história onde só acontece o banal, aquilo que acontece todo dia na vida de todo dia, ou então, pior ainda, acontece o extraordinário conforme-as-expectativas, o fantástico self-service, a tentativa pálida de reescrever um livro alheio que a gente leu e gostou. O poder-de-fazer-acontecer não deve ser estragado, malbaratado, jogado aos porcos. Faça acontecer coisas que lhe deixem o olho brilhando, a respiração acelerada, a boca seca, o coração batendo e dizendo: caralho, velho, não acredito que isso está acontecendo na tua história!...” 
 
Foi isso que um dos amigos disse pro outro, ou melhor, teria dito, porque na verdade não teve conto nem nada, isso foi só uma coisa que eu estava pensando no sofá da sala, meia hora atrás. 




quarta-feira, 7 de junho de 2023

4949) Contracapa de Midjourney (6.6.2023)



(Joan Miró: A Fazenda)


&   o choro é livre – e a gargalhada também

 

&  uma multidão com texto e com ensaio seria capaz de muita coisa

 

&  a força da gravidade é uma mistura de ação presencial e wi-fi

 

&  o espelho: tem sempre esse fantasma pronto, à minha espera

 

&  podem fazer o que quiserem com meu boneco de cera; não ficou parecido

 

&  você só sabe a honestidade de alguém se lhe fizer uma proposta irrecusável

 

&  uma foto preserva um segundo do passado e afunda o resto nas trevas do esquecimento

 

&  tem gente que sempre repete as frases que diz, como se quisesse deixá-las em negrito 

 

&  entre outras variantes clássicas, tem se projetado ultimamente o conceito de “a boçalidade do Mal” 

 

&  nada como o silêncio luminoso das noites do sertão 

 

&  tem gente que lava o rosto e joga a água fora sem nem agradecer a ela 

 

&  classificar as coisas assim é como dizer que os biscoitos se dividem em redondos e quadrados – e só 

 

&  certos filmes antigos têm o encanto dos navios naufragados, das catedrais em ruínas 

 

&  o bom enxadrista é o que consegue usar as peças do adversário para fazer sua jogada 

 

&  nos fuzilamentos vendam-se os olhos dos prisioneiros para proteção dos executores 

 

&  a paz não pode destruir a guerra, mas pode diluí-la 

 

&  certos textos parecem radioativos, basta ler aquilo e o pensamento fica envenenado 

 

&  o bom cineasta filma um pavão em preto-e-branco e ninguém percebe esse detalhe 

 

&  o futebol hoje é assim: “Autoriza o árbitro!” – e “Desautoriza o juiz do VAR...” 

 

&  onde subiu prédio sofreu pedreiro 

 

&  o Tempo não é algo que se desloca; ele vibra, ele estremece 

 

&  liberdade hoje em dia é feito um colírio que a gente leva no bolso e pinga umas gotas quando sente falta 

 

&  uma pedra no meio do caminho incomoda menos do que uma pedra no sapato 

 

&  a elevação dos oceanos talvez liberte, talvez sufoque a população dos aquários 

 

&  a pena é mais poderosa do que a espada, porque pode desenhar uma balança em que ela tem mais peso 

 

&  todo jatinho de empresários é um Cavalo de Tróia

 

&  em vez de proibir alguma coisa, deviam ridicularizar; seria mais eficaz 

 

&  ensinar não é iluminar, é acender 

 

&  um Deus não é onipresente se o seu castigo vai mais longe que o seu perdão 

 

&  ser honesto não é uma fraqueza, embora muitos só sejam honestos porque lhes falta a força de não sê-lo 

 

&  ela tinha a nobreza das pessoas feias que só podem contar consigo mesmas 

 

&  um homem vai ser fuzilado mas pede para esperarem o nascer da lua cheia 

 

&  não, o Romance não está morto, apenas num estado agudo de catalepsia mental 

 

&  todo mundo tem um olho que enxerga melhor do que o outro