sábado, 9 de março de 2013

3129) Democracia eletrônica (9.3.2013)







Nada mais difícil do que implementar um sistema eletivo com base na opinião de todos. Os ingênuos acham que basta haver eleições para que haja, automaticamente, “democracia”, entendida aqui como a realização da vontade livre, espontânea e soberana da maioria do povo. Ledo engano, meus camaradas. E aqui está a Internet para mostrar os mecanismos que direcionam qualquer tipo de eleição. (Em tempo: não sou a favor das ditaduras. Apenas percebo que as eleições são um passo adiante, mas não são a solução do problema.)

Em 2012, o “rapper” Pitbull fez parte de uma campanha da rede de lojas Walmart. A loja que tivesse mais votos no “Curtir” do Facebook ganharia um show dele. Um jornalista de Boston lançou a campanha “Vamos exilar Pitbull”, pedindo votos para uma loja minúscula nos confins do Alasca. O saite Something Awful aderiu, e a loja, praticamente no meio do deserto, foi eleita. Pitbull teve espírito esportivo e foi fazer o show na neve, para algumas dezenas de gatos pingados. Sua vingança foi convidar publicamente o jornalista autor da idéia, que pra não dar uma de fraco teve que acompanhá-lo.

Sabotagem parecida (estou consultando o saite Cracker: http://bit.ly/VFgmho) ocorreu quando a cidade de Austin (Texas) decidiu mudar o nome do seu Departamento de Resíduos Sólidos (ou seja, do lixo). Pediu-se que a comunidade sugerisse nomes e votasse neles. O nome vencedor foi “Sociedade Fred Durst de Humanidades e Artes”, numa alusão ao polêmico vocalista da banda Limp Bizkit. Houve confusão, Durst disse que por ele tudo bem, mas a votação foi cancelada e o nome escolhido foi “Recuperação de Recursos de Austin”.

Em 2012, o Mountain Dew (refrigerante da Pepsi) lançou um concurso semelhante online para batizar uma nova linha de sabor. Houve uma imediata invasão de gozadores, através do popularíssimo saite 4chan, que sugeriram o nome “Hitler Não Fez Nada Errado” e despejaram uma cachoeira de votos online. O concurso foi cancelado.

Esses pequenos episódios mostram que qualquer votação é vulnerável a: 1) indicação de candidatos espúrios; 2) campanhas de voto anárquico. (Ou seja: tudo que for aberto ao público está aberto aos “trolls”, gozadores sempre dispostos a implantar a bagunça para se divertir). Campanhas políticas no Brasil já elegeram o rinoceronte Cacareco e o Bode Cheiroso de Jaboatão; ajudaram a eleger Clodovil, Enéas e Tiririca; reconduzem ao poder, há décadas, políticos não melhores do que estes e que são hoje Monstros Sagrados da República. O sistema eleitoral deve ser banido? Acho que não, mas poderia ser aperfeiçoado. Quanto mais abertura ele oferece, mais vulnerável fica a interferências que o deturpam.




sexta-feira, 8 de março de 2013

3128) Alvin Lee (8.3.2013)



(Alvin Lee em 1975)


Morreu dias atrás, numa cirurgia que não ficou bem esclarecida, aos 68 anos, o guitarrista Alvin Lee. Vi-o pela primeira vez no filme Woodstock, cantando (e estraçalhando com os dedos) “I’m going home by helicopter”.  Era um sujeito de cara engraçada, comprida, tocava de um jeito totalmente descontraído de quem não estava nem aí. Fazia uma coisa aqui, depois outra ali, abafava as cordas, jogava uma distorção, dedilhava nos bordões, depois vinha no pezinho do braço, testando sonoridades e escalas velocíssimas, mas – atenção – sem nunca perder o senso melódico. Tudo que fazia ao improvisar tinha uma intenção musical, não se resumia à simples rapidez acrobática.

Figura engraçada, Alvin Lee. No fim da apresentação de sua banda, o Ten Years After, em Woodstock, ovacionado pela galera, alguém se aproximou dele no palco e lhe entregou uma enorme melancia. Ele agradeceu, botou a melancia em cima do ombro, acenou para a galera, e saiu dali como se tivesse subido ao palco apenas para atender um pedido de um amigo: “Olha, sobe aí e faz 10 minutos de improviso que eu te dou uma melancia”.

Guitarra é um instrumento danado de difícil, mais difícil do que violão, porque mais cheio de recursos. (Claro que podemos dizer também: o violão é mais difícil, porque os recursos são mais limitados, é preciso criar sonoridades apenas com o que está ali.) Alvin Lee não tinha apenas a velocidade supersônica que, infelizmente, acabou se hipertrofiando no rock e deixando para trás a sonoridade. Lee é da escola dos que fazem um solo longuíssimo com a guitarra aberta em notas nítidas e cristalinas com 20% de eco e 15% de distorção, apenas o necessário para que os dedilhados velozes se alternem com longas sustentações de notas que se elevam gemendo, retorcem-se sobre si mesmas como espirais de DNA e por fim deixam-se tombar no chão sonoro, enquanto o músico dispara em outra saraivada de semicolcheias que passeiam por todos os trastes ao mesmo tempo.

A guitarra é uma deusa destrutiva, uma fêmea fatal que arranca tudo de seus sacerdotes. Nunca me interessei pelos guitarristas como pessoas; nunca li uma biografia de Eric Clapton, de Jimi Hendrix, de Jimmy Page, de B. B. King... Sou capaz de escutá-los durante horas a fio, mas dez páginas da vida deles me deixam bocejando. O que dizer então de Alvin Lee, sua mais recente vítima, cujos despojos ainda palpitam diante do altar? Que descanse em paz. A parte dele que foi entregue em sacrifício à Deusa ficará viva para sempre, o que é uma maneira melodramática de dizer que vai durar mais do que eu. Se for assim, beleza. Uma cerva gelada em homenagem a Alvin Lee.



quinta-feira, 7 de março de 2013

3127) Meu romance de estréia (7.3.2013)





Um dos blogs literários que costumo ler é o ótimo The Elegant Variation, de um californiano chamado Mark Sarvas.  Dicas interessantes, ótimas entrevistas, mil idéias sobre literatura.  Numa postagem recente, ele explica que como jurado de um concurso para “Romancista Estreante” teve que ler uma grande quantidade de romances de estréia de jovens autores.  Anotou alguns dos defeitos mais frequentes, que vêm abaixo.

1) Tentar incluir coisas demais. O autor quer, no seu primeiro livro, abordar e resolver todos os problemas e fenômenos sociais do mundo. Conselho: Tudo bem em ser ambicioso, mas não queira ser um Atlas logo na primeira tentativa. 2) Não incluir muitas coisas. Estamos vivendo a apoteose da microliteratura, focalizada em detalhes mínimos e quase sem eventos a relatar. Tem gente demais estreando com romances-de-uma-idéia-só. 3) Achar que basta uma voz narrativa excêntrica para segurar o leitor de um romance. Vozes assim são bem vindas, mas muitas vezes toda a energia do autor é gasta em tentar manter essa voz, esquecendo de produzir outras coisas interessantes (ou então confiando que a voz irá distrair o leitor dessas ausências).

4) São muito coloquiais. Livros que a todo instante fazem referências a minúcias do cotidiano, coisas que muito em breve ficarão datadas. Um romance não é um bate-papo de mesa de bar. 5) São formais em excesso. O defeito oposto: muitos livros parecem ter sido escritos em outra época, de tão cintura-dura, formais, anacrônicos. Ou, o que é pior, parecem estar obedecendo religiosamente, item por item, algum Manual de Como Escrever Romances. 6) Começam com força total mas vão definhando ao longo do trajeto. São como maratonistas que disparam na frente, ébrios de triunfo, apenas para serem ultrapassados, perto do fim da prova, por competidores que souberam dosar melhor suas energias. Muitos livros desabam de vez no final, ou então vão se desorientando e se perdendo como se o autor não soubesse mais o que fazer com sua história.

7) São demasiado reconhecíveis. A gente abre dez livros e reencontra ali os mesmos relacionamentos, as mesmas situações vividas pelas mesmas pessoas das mesmas classes sociais. 8) Eles não justificam a própria existência. Toni Morrison dizia que escrevia para preencher um espaço vazio nas estantes. Há alguns tipos de livros que deveriam estar sendo escritos, mas não sabemos quais são até o momento em que lemos um deles. Infelizmente (diz Mark Sarvas) muitos escritores escrevem por escrever, escrevem para ter um livro publicado, mas chega a parecer que o texto em si, aquilo que estão escrevendo, é uma peça menor nesse processo.



quarta-feira, 6 de março de 2013

3126) A mulher desaparecida (6.3.2013)




(by Gonul Koçak)


O episódio aconteceu na Islândia e desta vez não é invenção minha, aconteceu mesmo. 

Um grupo de turistas, de ônibus, percorria a região vulcânica de Eldgja, no sul do país.  A certa altura, quando o grupo, depois de um passeio a pé, retornou para o ônibus, alguém deu pela falta de uma passageira, que havia saído junto com os outros mas não voltara. Olharam em torno, examinaram a estrada, o motorista buzinou, e nada da mulher aparecer. 

Como a região é vulcânica, todos se preocuparam – ela poderia ter caído numa cratera, desmaiado devido aos gases, etc. O motorista pegou o microfone, e, no inglês previsivelmente carregado que se usa em qualquer país ocidental, explicou a todos do que se tratava, e deu uma breve descrição da mulher desaparecida: asiática, cerca de 1,60m de altura, falando bem inglês, vestindo roupa escura.

O serviço de emergência local foi acionado, e os demais passageiros do ônibus juntaram-se à busca pela mulher, percorrendo de novo os caminhos que tinham trilhado durante o dia. Cerca de 50 pessoas, ao todo, passaram a noite examinando aquela área, munidos de lanternas, aflitos porque com o passar do tempo aumentava a possibilidade de que algo mais grave tivesse acontecido.

A notícia (que colhi no saite Wanderlust, em: http://bit.ly/T1qqOp) informa apenas os fatos, mas posso usar a imaginação para dizer que entre os ansiosos buscadores havia uma senhora, também passageira da excursão, que a princípio estava tão preocupada quanto os demais, mas foi se tornando mais hesitante e dubitativa à medida que as horas se passavam. Enquanto todos iam aos poucos cedendo ao cansaço, ao pessimismo e já a uma certa resignação diante do inevitável, ela ficava mais inquieta, deixando transparecer um misto de angústia e confusão. 

E a certa altura, lá pelas 3 da madrugada,  chamou de lado alguns passageiros que vinham sentados em poltronas próximas, no ônibus, e fez um discreto interrogatório. Ao ouvir-lhes as respostas, soltou uma exclamação de desabafo, e abraçou-se com eles, nervosa: “Então sou eu!”.

Era ela, de fato. Durante o passeio tinha voltado ao ônibus para trocar a roupa escura que usava por outra mais quente, ou mais confortável; e no retorno sentara numa poltrona diferente (os assentos eram livres). Ninguém achou estranha sua presença, mas, curiosamente, alguns deram pela ausência da outra senhora que viera perto deles durante o trajeto. E ela, ao ouvir dizer que alguém estava faltando, não imaginou que pudesse ser ela própria, visto que estava ali.  

A literatura existencialista, por mais que se esforçasse, não conseguiu produzir uma parábola tão cristalina sobre os bugs embutidos no software da vida humana.




terça-feira, 5 de março de 2013

3125) O Vale da Maldição (5.3.2013)





(Ibne Ammar)



O Vale da Maldição


Quando cessavam as chuvas, era costume dos homens jovens da tribo caminharem até o Vale das Ruínas para escavar a terra amolecida, à procura de mausoléus dos Construtores. Era um ritual que punha à prova a força física, a resistência e a ousadia dos jovens guerreiros.

Naquele outono, a pá de Uyal bateu numa quina metálica, e ele gritou pelos outros.

Uma tarde inteira de trabalho exumou a parte superior uma casamata de cimento, muito reforçada, mas já meio roída pelo tempo. Os líderes calcularam que era um vão com quarenta passos de largura; o comprimento e a profundidade, poderiam apenas supor.

Animaram-se ao descobrir num dos cantos um letreiro pintado. As construções com letreiros (eles nunca tinham visto uma) geralmente guardavam preciosidades: artefatos, máquinas em decomposição. Relíquias que podiam ser comercializadas.

Um mensageiro veloz partiu para um povoado próximo, onde havia quem decifrasse letreiros. Na manhã seguinte estava de volta, acompanhado de um homem gordo sobre um burrico. O homem, que se chamava Hamatul, exigiu primeiro uma refeição. Depois, foi levado ao sítio da escavação, onde pediu para lavar as mãos e o rosto, fazendo um ritual pomposo que deixou o grupo impaciente.

Conduziram-no por cima da escavação, sobre tábuas oscilantes, até o local onde o letreiro estava gravado. Ele examinou as letras uma a uma, acompanhando-as com o dedo.

- O que diz? - perguntou Uyal, ansioso para saber a importância de sua descoberta. O homem apontou as primeiras letras, todas diferentes.

- R-a-d-i-o - disse ele.

- O que significa? -  perguntou Gibrim, um rapaz de barba em ponta.

Hamatul limpou o suor da testa com a manga.

- Era o antigo meio de fazer ouvir a voz à distância – explicou. - Falava-se aqui, ouvia-se no povoado.

Uyal comentou:

- O eco dos vales.

- Não, - disse o homem. - Eram máquinas que ampliavam o som da voz, que era recebido por outras máquinas.

Os rapazes se entreolharam.

- Isto pode ser útil - disse Uyal, os olhos fitos nas letras vermelhas, desbotadas. - Em caso de guerra.

Os outros concordaram. Hamatul estava franzindo a testa diante dos outros sinais. Por fim murmurou:

- A-t-i-v-o.

Os outros esperaram. Ele enfiou a mão nas dobras da túnica e de um bolso interno puxou um Livro. Os rapazes se aproximaram, curiosos. Depois de folhear e de examinar os sinais várias vezes, ele explicou:

- Que funciona. Quer dizer que funciona.

Houve um brado guerreiro, e as pás e adagas foram erguidas no ar. Os rapazes jogaram-se todos ao trabalho, cavando, jogando terra para os lados. Alguns atacaram trechos do cimento já corroídos.

Uyal pagou as moedas combinadas a Hamatul, que disse:

- Tenham cuidado. Diz-se há muito tempo que neste vale há demônios invisíveis que matam somente com o sopro.

Uyal riu, confiante.

- Histórias de mulheres velhas, - disse ele, - para que os homens tenham medo do conhecimento.








domingo, 3 de março de 2013

3124) A pedra e o mandarim (3.3.2013)





Algumas correntes da psicologia dizem que um dos traços distintivos do ser humano é o que se chama de “compaixão” ou “empatia” (que filologicamente são quase a mesma coisa): a capacidade de se colocar no lugar do outro, de sentir (ou de imaginar que está sentindo) o que o outro sente.

Mario Quintana tem um pequeno poema que é a concentração da empatia numa pílula irretocável. Eis o poema (que, aliás, deu título a um livro de Caio Fernando Abreu), intitulado “Trecho de Diário”: 

Hoje me acordei pensando em uma pedra numa rua de Calcutá. 
Numa determinada pedra em certa rua de Calcutá. 
Solta. Sozinha. Quem repara nela? 
Só eu, que nunca fui lá. 
Só eu, deste lado do mundo, te mando agora esse pensamento... 
Minha pedra de Calcutá!. 

Essa capacidade de se comover com o minúsculo, o insignificante (e, no caso, um minúsculo e insignificante admitidamente fantasioso) exprime a empatia instintiva de certas pessoas. 

Me lembra o conto “O abacaxi de ferro” de Eden Philpotts (que incluí na antologia Contos Fantásticos no Labirinto de Borges), em que um cara se apaixona (sim, a palavra é esta) por um dos abacaxis de ferro que ele avista no gradil decorativo de uma casa, na cidade em que mora.

O contrário desse amor capaz de “amar o inóspito, o áspero, um vaso sem flor, um chão de ferro” (Drummond) é a indiferença pela sorte alheia, a frieza diante do semelhante. 

É o que caracteriza os sociopatas, que pensam somente em si mesmos e para quem os demais não passam de figuras ornamentais, sem vida. 

Quem explorou literariamente esse dilema foi Eça de Queiroz em O Mandarim (1880). O Diabo faz ao protagonista, Teodoro, essa proposta: 

“No fundo da China existe um Mandarim mais rico que todos os reis de que a Fábula ou a História contam. Dele nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a seda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver: e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição dum avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?”.

Dois indivíduos pensando em algo ou alguém no outro lado do mundo (Calcutá, Mongólia). 

Quintana imagina, sem que ninguém lhe peça, uma pedrinha numa rua do Oriente, comove-se com ela, chama-a “sua”. 

Teodoro toca a campainha, fulmina o mandarim e herda-lhe as riquezas. 

São exemplos da empatia e da indiferença para com os outros. As duas atitudes que Philip K. Dick descrevia como a afetividade da “moça de cabelos negros” e a frieza assassina de um inseto.









sábado, 2 de março de 2013

3123) Política literária (2.3.2013)





Um post muito divertido no blog “O palco e o mundo” de Pádua Fernandes (http://bit.ly/VwsGlj), intitulado “Não é literatura”, questionou de maneira bem-humorada e mordaz muitas práticas habituais do meio literário, explicando aos desavisados, com sarcasmo e comiseração, que nada daquilo é literatura.

Excertos: “Discutir quem ficou de fora da foto de lançamento de revista literária não é literatura. A lista de mais vendidos não é um gênero literário. Reclamar de não inclusão em antologia, quando até o primeiro cachorro que passou na rua o foi, não é literatura. Perguntar se a poeta é bonita não é literatura; decidir que ela não o é porque não iria para a cama com você, muito menos. Confundir crítica a seu livro com ataque a sua pessoa não o torna escritor. O livro já não o tornava.”

E assim por diante. O que Pádua Fernandes está alfinetando, coberto da razão, são os maus hábitos da política literária em nosso meio (isso vale para qualquer cidade brasileira, pelo menos para as que eu conheço). Comparada a outras atividades profissionais, a literatura é um projeto de suicídio a longo prazo e de baixo orçamento. O fato de circular pouco dinheiro no mundo da prosa e da poesia não impede seus praticantes de darem mais chiliques do que prima-dona de ópera ou de serem mais mafiosos do que traficantes de metanfetamina. A moeda corrente no mundo literário não é o dinheiro, é a vaidade, e para satisfazê-la há coleguinhas que não recuam diante de nenhuma armação, nenhum conchavo, nenhuma maledicência, nenhuma intimidação.

São minoria, felizmente; a maioria dos escritores que conheço, se tem algum defeito, é o de não entenderem muito bem como funciona o mundo da política, e digo política no sentido mais amplo de “luta pelo poder”. Se o sujeito não sabe fazer política literária, o melhor destino que pode ter é o de Kafka, que morreu anônimo e só depois dele morto sua obra virou best-seller – porque apareceram pessoas (Max Brod primeiro, outros depois) que se dispunham a fazer política literária em favor da obra dele. Essa política envolve contatos, convivência, troca de idéias, divulgação, envolvimento com causas coletivas, quando é o caso.

Quanto mais o escritor atua, mais chances tem de que seu nome se torne conhecido, e, por tabela, sua obra seja lida. A literatura mesmo só entra em cena no momento em que a obra é lida. Quando a literatura é boa, as pessoas que gostam de literatura trabalham até pela obra de alguém com quem não simpatizam. Corolário: se alguém simpatizar comigo mas não gostar dos meus livros, favor tratar-me bem e ignorar os livros. E vice-versa. O escritor não é a obra.





sexta-feira, 1 de março de 2013

3122) Repartição assombrada (1.3.2013)



Cuidado ao entrar ali, cidadão comum em busca de um atendimento ou da solução de algum problema! Aquele recinto povoado de funcionários, de mesas e de máquinas esconde em si um pesadelo, um drama que se confunde com a própria falta de sentido da existência. 

Ali, vagam fantasmas que interferem nos computadores durante o trabalho, apagando arquivos e retomando partidas de paciência ou de Tetris que um assistente administrativo deixou incompletas ao morrer. 

O cafezinho trazido na garrafa térmica desaparece antes de ser bebido; foi satisfazer alguma sede ectoplásmica, ou espantar o sono dos que mofam no Limbo. 

Ai de quem deixar vazia sua cadeira em certas horas próximas do crepúsculo, pois um paletó espectral surgirá no encosto, reivindicando a posse daquele espaço, mesmo que seu dono esteja agora a debater-se na Geena, o lugar onde há choro e ranger de dentes.

Não adianta comprar todo dia uma caixa nova de clips de papel; ao abri-la, será constatado que algum espírito penitente encangou todos eles numa correntinha que simboliza seu aprisionamento no âmbar pegajoso de algum Umbral. Ali, as tardes intermináveis do expediente se arrastam entre bocejos, suspiros, olhadas sorrateiras ao relógio que recusa-se a avançar. 

Que farfalhar de folhas de papel se escuta de vez em quando? Será o vento bonachão e corriqueiro deste mundo, ou uma corrente de ar vinda do outro, ao se abrir alguma das eclusas ou clarabóias que servem de passagem entre os dois? E essas esferográficas que secam sem aviso? E essas impressoras que, do nada, começam a esmigalhar as folhas A4 nelas inseridas? E essas fluorescentes que começam a piscar de forma intermitente, nem queimando de vez nem voltando ao normal?


Ah, esses homens e mulheres não sabem a profundeza do aquário que os acolhe todos os dias, entre uma e outra batida no relógio de ponto. Não sabem que das profundezas abissais do casulo de espiritualidade que os envolve começam a subir, atraídas pela sua presença, as hordas de lâmias famintas, de abantesmas espavoridas, de sanguessugas fantasmais que acessam nosso mundo para alimentar-se da sua luz e sua vida, às custas da energia vital dessas vítimas desavisadas que, ali, atrasam processos, esquecem empenhos, desperdiçam verbas, extraviam currículos e comprovantes, arquivam petições sem despacho, confundem agendas, protelam atendimentos, encalham tramitações, deixam telefones tocando em vão como bichos torturados, e, presos na gosma cinzenta do baixo-astral que os entorpece, olham pela centésima vez o relógio e pela centésima vez murmuram: “Eita!... Hoje dá meia-noite mas não dá seis horas!...” 





quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

3121) Ser cineclubista (28.2.2013)





Minha vida de cineclubista ocorreu entre os 16 e os 30 anos. Nesse período eu tive várias atividades cinéfilas, nas cidades onde morava: Campina Grande, Belo Horizonte, Campina Grande de novo, Salvador. 

Mesmo quando não era um cineclube, era o espírito de cineclube que inspirava essas atividades. O espírito de amar o cinema, gostar não somente dos sofisticados e ambiciosos “filmes de arte”, mas de qualquer coisa besta relacionada ao cinema: o barulhinho treme-treme da película 16mm vibrando diante da luz, o cheiro ácido que se elevava das latas de filme ao serem abertas, a contagem regressiva da ponteira riscada que precedia o filme propriamente dito, a música que tocava antes da abertura das cortinas... 

A relação amorosa (eu quase diria: a relação sexual) entre nossa mente e aquela imagem luminosa gigantesca preenchendo o mundo à nossa frente. Uma relação ao mesmo tempo de desejo e desafio, entrega e controle. Por um lado, deixar-se embeber pelo filme, e por outro domesticar e subjugar o filme através de fórmulas mágicas criadas por mim mesmo, como estas linhas que escrevo agora.

Para os incréus, um cinéfilo é um intelectual pedante que diz entender filmes que ninguém entende, inclusive ele. Mas o cineclubista ou cinéfilo é o cara que não visa apenas “entender o filme”. Ele quer alcançar a vida que há por trás do filme. 

Mesmo que os simbolismos ou hermetismos de Bergman ou Godard continuem sendo grego para ele, ele pode, mergulhando no estudo de Godard ou Bergman, entender quem são esses caras, e o que são os filmes que fazem. Um cinéfilo olha uma cena e vê algo além do retângulo luminoso que é tudo que o espectador comum enxerga. Ele percebe como aquilo foi feito tecnicamente. Ele sabe que aquele movimento de câmara deve ter exigido dias de ensaio. Ele entende que certo efeito de iluminação não está ali por acaso, foi discutido noites a fio ao redor de uma mesa.

O cinéfilo vê o filme e espreme o sumo do prazer estético do filme, sabendo, ao mesmo tempo, o sangue, o suor e as lágrimas (para não falar nos dólares e nos reais) que aquele filme exigiu de quem o fez. 

O público vê o drama dos personagens; o cinéfilo deduz, do que vê na tela, os dramas de toda aquela longa ficha técnica cujas funções ele conhece. Ele sabe dos bastidores, dos camarins, entende a luta pelo poder que resulta num diálogo, numa cena, num corte. O público se emociona com a história, vê o filme como se o vivesse. O cineclubista se emociona com a história dos que contaram essa história vista pelos outros. Ele vê a vida por trás do filme, e com isso aprende a ver a vida por trás da vida.







quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

3120) O olê e o olá (27.2.2013)




Estávamos tocando violão num terraço. No meio do pot-pourri, não me perguntem como, cantamos “Mulher Rendeira”. Depois, na hora do “o-tocador-quer-beber”, um estrangeiro fluente em português, amigo dos donos da casa, perguntou o que era “mulher rendá”. A gente se safou dizendo que o verso dizia: “mulher, rendar!”, algo como: “mulher, tá na hora de fazer renda!”. 

Não sei se ele acreditou. Eu (que dei a explicação) não acreditei. Fiquei matutando e tenho uma teoria.

É uma constante na música brasileira a presença de versos, títulos, refrões (principalmente refrões) que constam de dois elementos, um terminando em “Ê” e o outro terminando em “Á”. 

Acho que o mais típico é o famoso refrão do samba do Salgueiro em 1971, “Festa para um rei negro”: “Ô-lê-lê, ô-lá-lá, pega no ganzê, pega no ganzá” (ouça aqui: http://bit.ly/dUgjM.) Tão famoso que hoje é cantado (com outra letra, claro) pela torcida do Barcelona. 

Tanto quanto o “rendá” do exemplo anterior, o “ganzê” é uma palavra que em princípio não existia, entrou apenas para compor o dístico. Pega bem no ouvido do povo essa sequência de sons, ê-á, ê-á. Pega bem no meu ouvido, pelo menos – e imagino que pegue bem no da galera, pela quantidade de exemplos que tem por aí.

Chico Buarque se consagrou, aos meus ouvidos, não com “A banda”, mas com “Olê Olá” (“Não chore ainda não / que eu tenho um violão / e nós vamos cantar...” – em: http://bit.ly/dUgjM), a canção que deixou pelo menos uma frase-feita na língua brasileira: “a noite é criança, o samba é menino”.  

João Bosco tem o ótimo “Odilê, odilá... / Que que vem fazer aqui meu irmão? / Vim sambar” (em: http://bit.ly/7s1cw1). E reparem como mais uma vez um dos termos parece fazer sentido na frase e o outro não, porque “odilá” pode ser uma saudação à distância como “ó de lá”, uma possível resposta para “ó daqui!”; e o “odilê” não parece ter sentido verbal, o sentido é apenas melódico, para compor o dístico sonoro. 

Sem esquecer, aqui pertinho, Beto Brito com seu “Imbolê”: “Tá o maior imbolê / tá o maior imbolá / em me embolei com você / ninguém vai desembolar...” (em: http://bit.ly/9PsSNr).

Exemplos brasileiros são incontáveis, mas no remexer da cachola fiquei pensando: o “Ob-La-Di, Ob-La-Da” dos Beatles não obedeceria a uma lei sonora parecida? Ao que se diz, MacCartney pegou esse refrão de um amigo jamaicano que vivia zanzando em Portobello Road. 

Falta o “Ê”, concordo, mas aí está o dístico meramente melódico, uma simples melopéia poundiana, rabisco sonoro sem intenção verbal, terminando em “á”... Resíduo africano, de cantilenas, ladainhas, estribilhos tribais? Um assunto a se pensê, um assunto a se pensar.