terça-feira, 10 de janeiro de 2012

2762) A vida é linda (10.1.2012)




Eu fazia de tudo para deixar Florisbela feliz. Quando ela pedia para ir à noite no restaurante tal, eu dava uma geral no menu, à distância, e fazia com que preparassem alguns dos pratos preferidos dela (mas não tantos que a fizessem sofrer com indecisões). A coisa mais linda do mundo era vê-la arregalar os olhos azuis diante do cardápio e exclamar, deliciada: “Peixe ao molho de maracujá! Adoro isso!”. Sem falar nos sinais de trânsito, que eu sempre preferia ir abrindo de um em um, na hora, improviso total, maior jazz sem perder o compasso, enquanto ela murmurava: “Você dirige tão concentrado...”

Nada me dava mais prazer do que dar prazer a Florisbela, e para felicidade minha ela era uma menina de coração puro, por isso nunca tive de manipular as tômbolas da Mega Sena ou coisa equivalente; Florisbela desprezava os novos-ricos. Sua alegria era a das pequenas coisas, por isso eu conseguia presenteá-la com um arco-íris numa tarde sem chuva ou flores que brotavam nas alamedas do parque enquanto caminhávamos (e desapareciam para sempre quando íamos embora). Ir ao cinema com ela exigia de mim performances caprichadas, verdadeiras acrobacias mentais, como quando vimos Em Algum Lugar do Passado e ela foi a única pessoa no cinema a receber em suas retinas os dez minutos de um final feliz. (O pior é que depois era preciso monitorar as conversas dela com as amigas, que tinham visto a versão oficial do filme e achavam Florisbela meio desorientada.)

Beijava meu rosto e dizia: “Me sinto tão bem contigo, visse?...”, enquanto eu guiava pela cidade, meio à toa, ao volante de um carro sem uma gota de gasolina, evitando parar num posto para não quebrar o encanto das canções dos Beatles que estávamos escutando juntos (num pendraive vazio). Cada momento nosso era mágico e especial. Num domingo em que acordamos preguiçosamente, com alguns compromissos meio chatos, bastou perceber a languidez do seu olhar para produzir uma chuva que durou o dia inteiro, fazendo com que nos enroscássemos sem compromisso até a hora em que ela disse: “Vamos comer uma pizza?”, e a chuva parou como por milagre.

Os parcos conhecimentos astronômicos de Florisbela nunca lhe permitiram desconfiar do fato de que em todos os seus aniversários ela era presenteada com uma lua cheia espetacular. Isto me fez perder o senso de medida. Uma noite, quando passeávamos de mãos dadas à margem do Açude Velho, produzi uma aurora boreal que a deixou maravilhada, à beira das lágrimas. Mas de súbito ela teve um sobressalto, olhou desconfiada para mim e disse: “Peraí... Aurora boreal na Paraíba?!!!”. Aí pronto, desse dia em diante nada mais deu certo.

domingo, 8 de janeiro de 2012

2761) Prezado Eu (8.1.2012)



“Prezado Eu: Estou escrevendo do ano de 2010, quando atingi a idade totalmente ridícula de 62 anos, e venho lhe dar um pequeno conselho, em apenas cinco palavras: fique longe das drogas recreativas. Você tem muito talento e vai fazer muita gente feliz com suas histórias, mas (é triste, mas é verdade) você também é um viciado pronto para entrar em ação. Se você não der atenção a esta carta e mudar seu futuro, pelo menos dez anos da sua vida, entre os 30 e os 40 anos, vão ser uma espécie de eclipse tenebroso em que você vai decepcionar uma porção de gente e deixar de aproveitar seu próprio sucesso. Vai também chegar bem perto da morte, em várias ocasiões. Faça um favor a você mesmo e desfrute de um mundo mais luminoso e mais produtivo. Lembre que, assim como o amor, a resistência à tentação torna o nosso coração mais forte. Fique limpo. Tudo de bom, Stephen King”.

Esta é uma das cartas que The Guardian encomendou a pessoas como Gene Hackman, Alice Cooper, James Belushi, Gillian Anderson, etc., com o mote: “Escreva uma carta para você mesmo aos 16 anos, dando-lhe o recado que achar mais importante (http://bit.ly/p0bFox)”. Todos nós sabemos que é impossível mudar o passado, e que se pudéssemos mudar o que fizemos aos 16 anos não chegaríamos ao ponto de, adultos, poder voltar no tempo para fazer essa mudança. É a viagem impossível, um paradoxo temporal que tem a sedução hipnótica das ilusões de ótica, das pinturas “trompe l’oeil” e das gravuras de Escher em que duas imagens incompatíveis parecem coexistir.

Stephen King é um dos escritores mais bem sucedidos, comercialmente, mas sempre teve problemas com a bebida (e outras drogas). Já vi uma entrevista em que ele declarava guardar apenas uma vaga lembrança de ter escrito o romance Cujo (1981), porque nessa época não fazia outra coisa senão se embebedar. Sua obra retoma de maneira obsessiva e mesmo cansativo esse tema: um escritor bêbado em conflito com a família (talvez O Iluminado seja o melhor livro dele sobre esse tema).

Entre os outros convidados, Hugh Jackman (“Wolverine”) aconselha seu Eu jovem a usar sempre protetor solar, e a manter uma lista das 5 coisas que gosta de fazer e das 5 coisas que sabe fazer bem, e avisa: “Um dia tudo isto vai se encaixar, e você vai descobrir seu caminho”. Esses conselhos fictícios são uma breve dramatização do balanço retrospectivo que todos nós fazemos de vez em quando para saber o que funcionou e o que não deu certo em nossas vidas. O “Eu” com 16 anos cometerá os mesmos erros e fará as mesmas descobertas; mas somente nós somos capazes de, agora, distinguir o que foi descoberta e o que foi erro.

sábado, 7 de janeiro de 2012

2760) Modos de dizer (7.1.2012)




Jorge Luís Borges disse que os séculos dão polimento às frases, assim como a água dá polimento aos seixos. Esse polimento, contudo, tanto embeleza quanto deturpa. Tem frases que com o tempo vão ficando mais erradas, vão se deteriorando, seja em termos de sonoridade, seja em sentido.

Antigamente tínhamos uma expressão para dizer que não estávamos dando importância a alguma coisa: “Estou me lixando para isso”. Não sei de onde veio esse “me lixando”, mas visualizo a cena de uma pessoa lixando as unhas e dizendo: “Não tenho tempo para me importar com isso, estou fazendo algo mais interessante: lixando as unhas”. Algo assim. 

E havia outra expressão equivalente: “Eu pouco estou ligando para isso”, a qual não precisa de explicação. Ora, de algumas décadas pra cá a TV está cheia de mocinhas louras sacudindo a cabeleira prum lado e dizendo: “Ah, não ligo, eu pouco estou me lixando para isso”. Dirão o mesmo, é claro, deste meu comentário.

Essa deturpação pela junção de contrários é estruturalmente equivalente à de uma cena que foi uma grande gozação no YouTube tempos atrás. O show de uma banda adolescente foi cancelado, houve empurra-empurra, garotos e garotas protestando histéricos, e uma adolescente chorando e dizendo pra câmara: “Gente, isso é uma grande falta de sacanagem!”.

Às vezes as modificações não alteram o sentido mas contaminam a forma da frase, de modo irremediável. Antigamente, quando queríamos dizer a alguém que perdesse as esperanças quanto a alguma coisa, dizíamos: “Tire o cavalo da chuva, Fulana não quer mais namorar com você”. (Acho que a origem da frase foi numa noite tempestuosa; uma pessoa que queria prosseguir viagem, e o dono da hospedaria disse: “Monsieur, tire o cavalo da chuva e guarde-o no estábulo, não convém pegar a estrada numa noite como esta”.) 

Em todo caso, por motivos insondáveis a frase hoje se cristalizou em “Pode ir tirando o cavalinho da chuva”, a tal ponto que quando digo a forma original sempre aparece alguém para me corrigir. Frases assim viram uma espécie de fórmula mágica, que toda vez tem que ser dita escrupulosamente da mesma maneira.

E até em setores mais eruditos aparecem contaminações assim. Todo mundo conhece a frase de Hamlet: “Existem mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa vã filosofia”. A frase é uma beleza, mas até hoje ninguém me explicou quem é o responsável por esse adjetivo “vã”. Ele não aparece no texto original, mas se infiltrou de modo tão sorrateiro que quando digo a frase correta alguém corrige: “Não é ‘a nossa filosofia’, é a ‘nossa vã filosofia’...” E o autor das peças de Shakespeare dá a milionésima volta no túmulo.






sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

2759) “Bonita Maria do Capitão” (6.1.2012)



O centenário de nascimento de Maria Bonita, mulher de Lampião, motivou o lançamento de um livro que celebra sua vida e seu mito, realizado por Vera Ferreira (neta do casal) e Germana Gonçalves de Araújo. É um álbum de luxo (Editora da Universidade do Estado da Bahia, www.uneb.br), com excelente produção gráfica e uma abundância de fotos e de documentos de época, na primeira parte, e na segunda um apanhado do reflexo da figura de Maria Bonita na cultura brasileira em geral. Eu contribuí com uma pequena crônica. Há poemas de Jessier Quirino, Ângelo Rafael, Myriam Fraga e outros. O pesquisador cearense Nirez contribui com um artigo sobre as canções da MPB que mencionam Maria Bonita. Laura Bezerra estuda as imagens de Maria no cinema, Jeová Franklin a sua presença na xilogravura, através do cordel, e André Betonassi estuda as histórias em quadrinhos que a têm como personagem.

Dentro da sempre crescente bibliografia sobre o cangaço, acho que são poucos os livros sobre Maria Bonita. A figura central de Lampião domina esses estudos, e de qualquer maneira a maior parte deles tem um viés histórico e sociológico que os faz ter que abordar o cangaço como um todo, e não pessoas específicas. Entende-se a inesgotável atração da figura de Lampião, seja como herói ou como bandido, como justiceiro social ou como criminoso sádico, como estrategista ou como marqueteiro de si próprio. A polêmica extremada que cerca Virgolino nasce de sua própria personalidade, contraditória como a de qualquer indivíduo de valor projetado numa situação-limite dentro de um ambiente sem lei. Nessas circunstâncias, é de se esperar que um sujeito seja generoso de manhã e brutal no fim da tarde; protetor de uns e algoz de outros. É de se esperar que deixe atrás de si um rastro de ódios e de gratidões.

Maria é um personagem fascinante porque não tem nenhuma dessas facetas de Virgolino. Não conheço histórias de nenhuma violência praticada pessoalmente por ela, a não ser a participação nos combates (minha impressão é confirmada no artigo de Sérgio Augusto de Souza Dantas). Não sei se era estrategista ou diplomata no meio da intrincada rede de negociações políticas e militares da guerrilha sertaneja. Para todos nós, é a figura aventureira da mulher que abandonou a tranquilidade de uma vida doméstica pela vida selvagem na caatinga, onde a única certeza era a morte no final. Este livro se encerra com a presença de Bonita (e do cangaço) na moda. Isto, de certo modo, chancela o último estágio da transformação de uma pessoa em imagem, cada vez mais diferente de si própria e mais parecida com o próprio mito.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

2758) O quarto vazio (5.1.2012)




("Empty Room", de Mojca Savicki)

As oficinas literárias popularizaram um conceito chamado “Síndrome do Quarto Vazio”. É o diagnóstico de milhares de contos apresentados nessas oficinas que começam mostrando isto: um personagem sozinho, dentro de um quarto vazio (ou com o mobiliário reduzido ao mínimo), muitas vezes com amnésia, sem lembrar quem é ou o que está fazendo ali. 

É exatamente a condição do escritor sem idéias que, para cumprir uma tarefa designada pelo professor precisa escrever um conto, e não tem assunto. Ele começa do zero mental, que, literariamente, se exprime pela imagem do quarto vazio.

Essa situação pode ser estendida para os milhares de livros e contos que chegam a ser de fato publicados pelas editoras e expostos nos balcões das livrarias. A gente pega, folheia, e constata que o livro fala daquilo: um personagem sozinho, num ambiente que quase não é mostrado, sem passado, sem futuro, debatendo-se em suas dúvidas íntimas (ou coisa equivalente). 

Por incrível que pareça, dezenas de livros assim são publicados por ano. Uma quantidade tão grande que não admira que de vez em quando um deles seja bom e possa ser lido até o fim. Mas, amigos, fazer um livro bom com esse tipo de situação é mais difícil do que fazer um livro bom sobre um assunto de verdade. Um cara sozinho num quarto? Sempre tem um escritor que consegue tirar algum leite dessa pedra, mas 999 dão com a cara na porta.

Samuel Delany, num dos seus manuais de escrita, observa: 

“Quanto menos interesse o autor ou os seus personagens tenham pelos seus empregos, rendas, famílias, classe social, locatários, amigos, vizinhos e paisagens (ou seja, tudo que os conecta com o mundo material à sua volta), menos ele terá sobre o que escrever”. 

Em geral, o escritor que gosta de escrever sobre quartos vazios é um sujeito insatisfeito com a própria vida, com a própria família, o próprio emprego, a casa onde mora, a cidade onde vive. Ele não quer escrever sobre aquilo, pelo contrário. Quer fugir daquilo como o diabo da cruz. Quer esquecer esse enredamento social e humano a que todos nós estamos sujeitos, e não tem paciência (ou criatividade) para imaginar uma situação totalmente diferente. Melhor pensar num personagem amnésico, dentro de um quarto vazio, remoendo suas elucubrações íntimas ao longo de 150 páginas.

A literatura fantástica e a ficção científica são muitas vezes acusadas de serem fugas à realidade, quando na verdade a grande maioria dos textos fantásticos se esmera em produzir uma realidade humana e social suficientemente densa para receber o choque do fantástico. 

Quem quer fugir da realidade não inventa outro planeta: tranca-se num quarto vazio.






quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

2757) A morte nos separe (4.1.2012)




O conto “Death do us part” de Robert Silverberg (1997) se abre com um vertiginoso parágrafo futurista descrevendo o casamento entre os protagonistas:

“Era o primeiro dela, e o sétimo dele. Ela tinha 32 anos, e ele 363; aquela antiga relação entre a primavera e o outono da vida. Passaram a lua-de-mel em Veneza, em Nairobi, na Cúpula do Prazer da Malásia, e depois num daqueles sofisticados ‘resorts’ L-5: uma reluzente esfera transparente com sol artificial num ciclo de 24 horas e cachoeiras que se despejavam como cascatas de diamantes. E depois partiram para a bela casa aérea dele, suspensa em cabos retesados mil metros acima do Pacífico, para começarem ali a parte cotidiana de sua vida em comum”.

Marilisa e Leo são um casal típico da elite desse mundo futuro; ele é um artista cinético, internacionalmente famoso. Seu trabalho é criar painéis animados feitos com areia colorida e cristais, que mudam de imagens e de cores de acordo com variações do terreno, de tal modo que a cada duas horas estão exibindo imagens totalmente diferentes. Essa elite do futuro se submete periodicamente a um tratamento que eles chamam “o Processo”, que os mantém eternamente jovens. A certa altura do casamento Marilisa começa a perceber que há algo de errado, e descobre por fim que Leo casou com ela por piedade. Ela é uma das raras pessoas em quem o “processo” não funciona, e está condenada a envelhecer e morrer como as pessoas de antigamente (=nós).

Millôr Fernandes afirmou uma vez: “Injustiça social pra valer era se umas pessoas morressem e outras não”. É esse o mundo descrito por Silverberg, e que não é totalmente impossível de acontecer. Se não nos termos propostos pelo autor (que afinal são mera imaginação), mas dentro de possibilidades técnicas que já se desenham hoje. Não é impossível que algumas pessoas nascidas hoje, em 2011, possam um dia atingir os 100 anos sem muita deterioração física e mental.

Só que isso não vai acontecer para todos, e sim para os muitos ricos. O conto de Silverberg é, na superfície, o contraste entre os que vivem muito e os que vivem pouco (com uma leve alusão ao final de Blade Runner, em que Rick Deckard nos lembra que os humanos, tal como os andróides, podem morrer a qualquer instante). Os cenários vertiginosos descritos nesse parágrafo inicial parecem, no conto, uma metáfora das inimagináveis riquezas que o Tempo reserva aos que não morrem; mas esse próprio “não morrer” é uma metáfora de ter muito dinheiro, ser muito poderoso. Ser imortal é uma metáfora para ser rico. Estar condenado a morrer um dia é estar condenado a viver como nós: uma casinha, um carrinho, um emprego, uma família...

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

2756) A palavra mangar (3.1.2012)




“Mangar” é uma dessas palavras que, lá pelo Rio e São Paulo, denunciam de cara um nordestino. Me lembro de uma vez em que um grupo de amigos fazia gozação com meu vocabulário e eu disse: “Eu falo igual a vocês todos, não vejo motivo pra ficarem mangando de mim”. Foi o que bastou! 

Diferentemente de muitos outros termos do nordestinense, lá fora as pessoas em geral entendem o que a palavra quer dizer, e conseguem usá-la com propriedade. O ponto onde a coisa trava é a regência verbal. Nós dizemos “mangar de”: “Todo mundo mangou de mim porque eu abotoei errado a camisa e não reparei”. Pessoas não-nordestinas usam a-três-por-dois a regência “mangar com”: “Não sei por que vocês estão mangando comigo”.

Isto parece que vem de longa data, como se pode ver neste exemplo colhido meio ao acaso: “...parecia crer que, oculto em algum lugar, Deus também o ouvisse e mangasse com ele, de lá do forro do céu, mando modo: -- ‘Você pecou de bobo, Chefe! Foi trabalhar, de bobo, só...’” (Guimarães Rosa, “Buriti”).

Por que será? Talvez porque quando uma pessoa de fora entende o significado de “mangar”, os primeiros sinônimos que lhe ocorrem sejam “fazer gozação, sacanear, tirar onda, zoar, etc.”. E a regência de todos eles usa a preposição “com”: “Você está fazendo gozação comigo, a gente estava tirando onda com a cara da professora, a galera começou a zoar com Fulano, etc.”.

E estas duas formas se alternam no ouvido dos sudestinos, inclusive dentro da fala e da escrita de um mesmo autor.

 Em sua peça Nova Viagem à Lua (1877), onde mistura personagens urbanos e caipiras, Artur Azevedo faz um personagem dizer (ato 3, cena 6):

“Que vestimenta é esta? Eu não sou sordado! Quem me vestiu assim? Mangarum comigo!”.

Já na cena 12 do mesmo ato, o personagem Arruda diz ao filho: “Venha cá, seu rei da Lua, então ‘vacê’ mangou de seu pai...”

Isto certamente se deve ao fato de que o teatrólogo conhecia a palavra através de diferentes pessoas, que usavam tanto a regência correta quanto a errada. E na hora de escrever, “ao correr da pena”, como se dizia na época, vinha-lhe ora uma ora outra expressão, sem que ele percebesse.

A melhor maneira de consertar esse pequeno erro é explicar às pessoas de fora que “mangar” significa “zombar” – um verbo que pede a mesma regência, usando a preposição “de”: “A gente ontem estava mangando da torcida deles, mas agora são eles que estão zombando da gente”. 

Diferentemente dos outros sinônimos acima, são verbos totalmente intercambiáveis, que têm o mesmo sentido e pedem a mesma preposição. Portanto, vamos definir mangar como zombar, e parar de fazer as duas coisas com nossos compatriotas.






domingo, 1 de janeiro de 2012

2755) Começos de livros (1.1.2012)




O que faz um bom começo de um livro?

 Um começo tem que ter algo de sólido e bem construído, que faça o leitor sentir firmeza.

Tem que revelar de imediato alguma coisa sobre a história que vai ser contada; e tem que colocar uma interrogação, um mistério, que faça o leitor querer descobrir a resposta.

Tem que parecer uma informação completa em si mesma; e tem que estar ligado ao resto do livro de tal forma que a gente só entenda por completo aquele parágrafo quando tiver lido o livro inteiro.

O romance A Child Across the Sky de Jonathan Carroll (1989) começa assim:

Uma hora antes de se suicidar com um tiro, meu melhor amigo, Philip Strayhorn, me telefonou para falar sobre polegares. 
– Já notou que quando a gente lava as mãos a gente na verdade não lava os polegares?

Tragédia e banalidade surgem juntas nesse trecho, juntamente com a primeira insinuação de um mistério. O telefonema (que se estende por umas duas páginas) já está contaminado por essa notícia do suicídio, que o personagem-narrador sabe que aconteceu, mas o personagem-ator da cena não pode saber, pois o suicídio só acontecerá depois. E o livro inteiro consiste no desvendar dos mistérios (um tanto tenebrosos) da vida de Strayhorn, um diretor de filmes B de terror.

Gertrude Stein começa The Making of Americans (1912) assim:

“Uma vez um homem raivoso arrastou seu pai ao longo do próprio pomar. ‘Pare!’ gritou por fim o velho que gemia. ‘Eu não arrastei meu pai para além dessa árvore”. 

É um começo com algo de brutal e algo de cômico. Tem algo de “conto de exemplo” insinuado pela abertura com “Uma vez...”. E, sendo a saga de duas famílias, sugere o tema da repetição cíclica de tragédias e glórias, típica do gênero.

Uma das vantagens da ficção científica sobre outros tipos de literatura é a possibilidade de dizer coisas de dimensões cósmicas, coisas que se referem à própria natureza do Universo, numa linguagem simples, direta, aparentemente banal.

Robert Charles Wilson começa desta forma seu romance Spin, de 2005 (na verdade este é o início do Capítulo 2, mas o Capítulo 1 é um mero preâmbulo, preparando o flash-back que remonta ao início da história):

“Eu tinha doze anos e os gêmeos tinham treze, na noite em que as estrelas desapareceram do céu”. 

Samuel Delany dizia que na FC podemos interpretar literalmente frases que na literatura comum são meras metáforas. Spin conta exatamente isto: o desaparecimento de todas as estrelas (inclusive o Sol) por uma ação extraterrestre. E este fato avassalador é contado a partir da infância e da vida adulta desses três protagonistas, e de como esse aparente “fim do mundo” determina suas vidas.





2754) Fragmentos de crenças (31.12.2011)



São muitas as metáforas para a fragilidade de nosso conhecimento do Universo, seja ele o conhecimento científico ou o religioso. Só temos acesso a fragmentos, e organizamos esses fragmentos de acordo com sistemas um tanto ou quanto arbitrários. Vêm daí as metáforas tradicionais que ironizam as limitações do nosso saber. Somos a traça que está devorando uma coleção da Enciclopédia Britânica. Somos a formiga que percorre o Louvre e tenta descrever o que está vendo. Somos a mosca do cinema que sai da platéia e vai pousar na tela, na esperança de entender melhor o filme.

Em Um cântico para Leibowitz de Walter M. Miller Jr. (1960), uma guerra atômica no século 20 deixa o planeta em ruínas. Dessas ruínas, penosamente, ergue-se uma nova civilização, não sem que antes o mundo passe por uma idade das trevas em que a ciência, o conhecimento e os livros eram considerados culpados pela desgraça que acontecera. A ordem religiosa de São Leibowitz tenta preservar documentos importantes para que nem tudo da cultura humana seja destruído; mais ou menos como em Fahrenheit 451 as pessoas decoram livros inteiros para evitar que seu texto se perca. Muitos desses documentos são papéis que pertenceram ao fundador da Ordem, um engenheiro elétrico chamado Leibowitz, e vários trechos do livro mostram a discussão dessas relíquias conservadas através dos séculos. Quando o texto das relíquias é reproduzido, vemos que são diagramas de instalações elétricas, listas de supermercado e outras coisas que nós, do século 21, facilmente identificamos, mas que não podem ser compreendidas nessa cultura do século 26, que é meio medieval e mística.

Os papéis de Leibowitz, que afinal não são mais importantes do que qualquer papel das gavetas de nossas escrivaninhas, são tratados com o cuidado que o mundo de hoje dá aos Manuscritos do Mar Morto ou ao Livro Sagrado dos Maias. Quem os estuda acredita existir ali uma sabedoria oculta, mesmo que ninguém consiga chegar a um acordo sobre o seu significado. Uns tentam interpretá-los cientificamente (mas à luz de uma ciência que já não é a mesma nossa) e outros os tratam como objetos sagrados, inspiradores. Miller parece sugerir que o nosso mal-entendido com relação aos nossos textos sagrados (Miller pertencia ao pequeno mas importante grupo de escritores católicos da FC norte-americana) talvez nos conduza ao erro pelo viés da Razão, mas pelo viés da Fé pode servir de inspiração para nos conseguir o acesso a verdades mais profundas. O que importa não são as banalidades escritas nos papéis de Leibowitz, mas as coisas grandiosas que os religiosos do futuro imaginam decifrar neles.

sábado, 31 de dezembro de 2011

2753) Criação aleatória (30.12.2011)




Na revista Edge (http://bit.ly/vmEGf8), o biólogo Mark Pagel estuda o modo como o pensamento criativo se dissemina no interior das sociedades, e o compara com a evolução biológica. 

Esta se dá através de pequenas mutações aleatórias em nossos genes, ao serem passados dos pais para os filhos. Muitas vezes não dão certo, mas às vezes dão, e “uma das coisas mais notáveis da natureza é que a seleção natural, atuando sobre essa variação genética gerada sem controle, é capaz de achar a melhor solução entre muitas, e sucessivamente incorporar essas soluções umas às outras. E, através desse processo extraordinariamente simples e não controlado por ninguém, criar coisas de complexidade inimaginável”.

Pagel compara isto ao que ele chama de “aprendizado social” (“social learning”), o processo através do qual as novas idéias são avaliadas pelo grupo, umas são descartadas, outras aceitas: 

“Qualquer processo evolutivo dessa natureza precisa ter tanto um mecanismo de escolha, uma seleção natural, quanto o que podemos chamar de mecanismo generativo, um mecanismo capaz de criar variedade”. 

Muitíssimas vezes o que o pensamento criador faz durante mais tempo é andar às cegas, tatear, dar saltos no escuro, escolher um caminho em vez de outro, sem saber exatamente por que este e não aquele. Tentar combinações ao acaso, produzir reviravoltas sem razão aparente, inserir elementos que não sabe exatamente o que são... tudo isto faz parte da atividade criadora na arte, na ciência, na literatura, etc. 

Cria-se (mecanismo generativo) sem muita preocupação com a lógica ou o planejamento; e depois passa-se um pente fino no que foi criado (mecanismo de escolha).

Pagel enfatiza a importância do fator randômico, ou aleatório, em “qualquer processo evolutivo que consiste na exploração de um espaço desconhecido, tal como se dá com os genes, ou com os neurônios explorando o espaço desconhecido em nosso cérebro e tentando criar conexões, ou com as nossas mentes tentando produzir idéias novas e explorando o espaço de alternativas que nos conduz para o que chamamos de criatividade”.

Meu conselho aos jovens artistas: produzam intuitivamente, levados pelo instinto, sem planejar. O planejamento nos traz de volta à repetição. Quando pensamos racionalmente, em geral, estamos repetindo modos de pensar que aprendemos, que já são consagrados, coletivos. 

A criação (artística, científica, etc.) precisa lidar com hipóteses absurdas, argumentos sem provas, descobertas inexplicáveis, elementos aparentemente sem sentido. Somente depois devemos ligar o “mecanismo de escolha” para achar o equilíbrio entre o aprendido e o recém-descoberto.