quarta-feira, 20 de março de 2019

4448) Terra Plana ou Terra Oca (20.3.2019)





O presente texto tinha um nariz-de-cera maior do que o de Cyrano de Bergerac, e acabou virando um texto independente, que publiquei há pouco no blog: “Os Filhos do Barro”.

E chego ao xis da matéria: a idéia de que a Terra é plana.

Vou logo avisando que acho essa idéia tão absurda e tão interessante quanto a de que a Terra repousa sobre quatro elefantes estacionados sobre o casco de uma tartaruga gigantesca (“Discworld”). Quais as provas que tenho para achar que o mundo não é assim? Nenhuma. É pura fé, baseada numa quase unanimidade de opiniões em tudo que li desde que aprendi a ler.

Nem sempre foi desse jeito.

Um dos momentos de conceptual breakthrough (ver: http://www.sf-encyclopedia.com/entry/conceptual_breakthrough) da minha infância foi por volta dos sete anos. Recordo de abrir uma revista (podia ser O Cruzeiro) na casa dos meus pais, e ver uma imagem de página inteira de um planeta gigantesco ocupando todo o céu escuro, e por baixo dele um oceano estendendo-se para todos os lados, a perder de vista. Acho que perguntei o que era aquilo, e alguém me respondeu: “É o Oceano Atlântico”.

Acho que a pessoa esqueceu de me explicar que o planeta ali representado era (provavelmente) a Lua. Eu pensei que era a Terra. A Terra, então, era redonda, flutuava no “espaço sideral” (eu já conhecia este termo) e por baixo dela, infinitamente, se estendia esse Oceano Atlântico. Concebi então um Universo infinito onde os astros flutuavam no vácuo e por baixo deles, em todas as direções, existia esse oceano sem fim, esse cósmico mar.

Não durou muito esse meu surto. Logo depois me lembro de ter colecionado o álbum de figurinhas Maravilhas dos Espaços Siderais, e depois o Céu e Terra, onde as coisas ganharam uma versão mais plausível, a versão da Ciência.


E havia (para a minha geração) livros de divulgação científica ou histórica, como Maravilhas do Conhecimento Humano de Henry Thomas, E a Luz se Fez de Rudolf Thiel, Nós e a Natureza e A Magia dos Números de Paul Karlson, Biografia da Terra de George Gamow, O Livro da Natureza de Fritz Kahn, pegando pela ordem em que puxo a linha da memória.


Eram livros baratos, cheios de ilustrações, e com prosa variada e acessível. Ninguém falava em Terra Plana. Não lembro nem sequer de histórias de FC com Terra Plana. O que havia de interessante na época, e eu prefiro até hoje, é a hipótese da Terra Oca.  Talvez por ser mais barrocamente pseudocientífica.

(A hipótese da Terra Plana não é mais absurda ou infundada do que tantas outras suposições pseudo-científicas que circulam por aí há séculos. Ela simplesmente está sendo usada, hoje em dia, como um dos “gatilhos” para corroer a credibilidade da Ciência e substituir o conhecimento científico por um fundamentalismo qualquer. Só neste sentido, o sentido político, ela tem importância, uma importância negativa.)

A Terra Oca foi usada por Edgar Allan Poe em pelo menos um conto clássico: o “Manuscrito Encontrado Numa Garrafa”, história de um navio fantasmático que tudo indica estar se dirigindo para uma abertura geológica no Extremo Norte do globo, um abismo onde a água desce revoluteando como num Maelstrom onde é preciso penetrar.



Lembro de um romance da coleção “Jovens do Mundo Todo” chamado Plutonia, e que era uma expedição russa à Terra Oca. Havia uma descrição que na época me impressionou, dos caras que vão avançando numa abertura geológica, sólida, e eles chegam à borda, não da Terra, mas do chão que pisam, porque o nosso solo rochoso é como uma casca de fruta, sólida mas fina, e eles que vinham caminhando pela face externa da casca deram a volta na borda e agora estão caminhando de volta pela face interna da carapaça geológica do planeta.

O terceiro livro que deitou e rolou com esse tema foi The Hollow Earth (1990) de Rudy Rucker, que pega Edgar Poe como um dos protagonistas durante o livro quase todo, e fazendo sua turma de exploradores mergulhar até o abismo central do planeta. Há uma sucessão feérica de ambientes cosmológicos, e um dos náufragos nesse mergulho no espaçotempo chama-se Reynolds. (Nas suas últimas horas de vida Poe, delirante, gritou sem parar, em desespero, chamando um tal de Reynolds, que ainda não se sabe quem foi. Há várias hipóteses.)

A Terra Oca geralmente implica num sol central e imóvel, parcialmente ocultado com regularidade por algum fator natural ou artificial. É o interior de uma enorme esfera, e ali o personagem precisa se acostumar à noção de um horizonte que se afasta cada vez mais, até desaparecer subindo. Ele se “dobra” para dentro, sobre si mesmo, e some lá no alto. É o contrário dos horizontes secos daqui, cortados a foice.

Lembrei uns títulos ali em cima e agora me veio na cabeça outro clássico, Manias e Crendices em Nome da Ciência (“Fads and Fallacies in the Name of Science”), de Martin Gardner, que saiu aqui no começo dos anos 1960 e tem um capítulo intitulado “Plana e Oca”. Gardner era um colunista veterano da revista Scientific American e publicou inúmeros livros de enigmas matemáticos e de divulgação científica.

Não vou discutir a plausibilidade científica da Terra Oca. A sua fantasia topológica de um mundo envelopando-se a si mesmo foi reconstituída com norrau científico e visão cinemascope-barroco (como dizia Brian Aldiss) por Arthur C. Clarke em Encontro Com Rama (o mundo oco é uma mega-espaçonave) e visualmente por Christopher Nolan em trechos de Interstellar (uma estação orbital em forma de rosquinha.)

Sobre a Terra Plana e a Terra Oca já foi dito que há uma certa coerência em algumas das concepções. Aceitando certas premissas matemáticas, seria difícil distinguir, matematicamente, se estávamos numa Terra como a atualmente descrita ou numa Terra da hipótese de algum deles. De certo modo, os cálculos seriam opostos, mas simétricos. As evidências matemáticas não bastam: é preciso colher provas experimentais. (Há inúmeras.)

A Terra Oca é necessariamente um mundo fisicamente e visualmente muito diferente do nosso, e este é um dos trunfos do ficcionista que quer imaginar uma história assim. Pode haver oceanos inteiros na face interna da esfera terrestre, pendurados neste mesmíssimo instante por cima das nossas cabeças, do lado oposto do Sol. Mantidos no lugar pela força centrífuga, já que a esfera está rodando.



Onde seria a entrada? A primeira aventura de Poe, a do “Manuscrito...” se passa nos arredores do Polo Norte. Já A narrativa de Arthur Gordon Pym, que ficou inacabada (mas diz-se que conduziria à Terra Oca) se passa no Hemisfério Sul, rumo à Antártica. Em todas as teorias daquele começo de século 19 a entrada para o Oco Central ficava nas priximidades do Polo, para concentrar ali a dinâmica da rotação, criando o torvelinho que leva (em tese) a embarcação para o lado oposto, geralmente adernando-a, devido à troca brusca de vetor gravitacional.

Para quem se interessa pela literatura da imaginação, essas teses pseudo-científicas são instrutivas porque nos mostram de que maneira a mente humana procurar criar “modelos” que expliquem a realidade à sua volta. Não são mais absurdas do que a crença antiga e medieval de que a Terra está no centro de várias esferas concêntricas de cristal onde os astros estão engastados.

O problema é quando uma dessa concepções, sem outro argumento senão a palavra dos seus participantes, toma o poder e começa a mandar os discordantes para a fogueira.










domingo, 17 de março de 2019

4447) "As esposas de Stepford" (17.3.2019)





Este livro de Ira Levin (The Stepford Wives, 1972) é um dos pesadelos mais curiosos da literatura fantástica dos anos 1970. Teve uma boa adaptação cinematográfica dirigida por Bryan Forbes em 1975, com Katherine Ross e Paula Prentiss.  E outra, em tom de comédia, que achei bastante fraca, dirigida por Frank Oz em 2004, com Nicole Kidman e Matthew Broderick.

Mas é do livro que quero falar, e acho que o tema já é tão conhecido que não vou dar nenhum spoiler muito grave. O título, aliás, já se incorporou à linguagem corrente, pelo menos em inglês.

O casal Walter e Joanna Eberhart mora em Nova York, não aguenta mais o caos da grande cidade, e resolve aderir à vida suburbana, que nos EUA corresponde a comprar uma bela duma casa espaçosa, numa cidadezinha próxima, e ir e voltar de trem todos os dias. Eles têm um casal de filhos pequenos. Joanna é fotógrafa semiprofissional, e é feminista.

É um Romance Gótico, de acordo com a divertida definição de Donald Westlake de que “um romance gótico é uma história de uma mulher que se muda para uma Casa”. O que essa Casa representa em termos de ameaça, fica a cargo da imaginação de cada autora(a). Pense em Jane Eyre, em Rebecca, em Outra Volta do Parafuso...


O livro é fininho (160 páginas, na edição da Pan Books) e bem escrito, narrativa rápida onde cada frase conta, muito detalhes psicológicos e de ambiente bem captados com poucas palavras. Os personagens são meio personagens de série de TV dos anos 1970, com exceção da protagonista Joanna e de sua amiga Bobbie, as duas feministas da trama, as únicas que (literariamente) são tratadas como pessoas de verdade.

Escrevendo aqui no Mundo Fantasmo sobre o filme, fiz tempos atrás a seguinte comparação:

Em O Bebê de Rosemary (1968) de Roman Polanski, um jovem casal que começa a ascender socialmente vai morar num grande apartamento no Central Park. Aos poucos, a mulher vê o marido se portando de maneira estranha, e descobre, para seu horror, que ele se juntou a um grupo de vizinhos satanistas que pretendem fazer com que ela engravide do Diabo e dê à luz o Anticristo. 

Em As esposas de Stepford (1975) de Bryan Forbes, um jovem casal que começa a ascender socialmente vai morar numa grande casa no subúrbio. Aos poucos, a mulher vê o marido se portando de maneira estranha e descobre, para seu horror, que ele se juntou a um grupo de vizinhos cientistas que pretende fazer com que ela seja substituída por um andróide programado para obedecer passivamente ao marido.



Os dois livros são de Ira Levin. É óbvio que Stepford foi uma tentativa (bem sucedida) de reutilizar o plot de Rosemary. Numa oficina de romance, a leitura e análise comparativa dos dois seria muito proveitosa para perceber como certos mecanismos de enredo podem ser infinitamente readaptados sem que a maior parte do público perceba. (Agora estou me coçando para ler O Bebê de Rosemary, do qual só vi o filme.)

Stepford é uma espécie de condomínio fechado de caras ricos, que começam a frequentar o jovem casal.

Um é um ilustrador famoso, especialista em mulheres lindas: Joanna Eberhart fica vaidosíssima quando recebe a visita dele e ganha um retrato feito na hora.

Outro é um cara que trabalhou na Disneylândia, ajudando a programar os robôs eletrônicos que fazem personagens históricos como Abraham Lincoln, etc.

Um terceiro faz pesquisas linguísticas, e pede a ela que grave em fita cassete um enorme vocabulário de palavras isoladas, para captar nuances de pronúncia e sotaque.

E todos esses caras são casados com mulheres lindas, que não gostam de ler, não gostam de sair, passam o dia bem vestidas, bem maquiladas, arrumando interminavelmente a casa, polindo copos, encerando pisos, escovando cortinas, cortando grama, cozinhando, sorrindo...

Existe na cidade uma tenebrosa “Men’s Association” onde as mulheres não podem entrar e os maridos se reúnem várias noites por semana. Não leva muito tempo para na cabeça de Johanna se formar a terrível suspeita de que as mulheres de Stepford estão sendo substituídas por andróides (ou “ginóides”, para ser mais preciso) feitas à sua imagem e semelhança (com o busto sempre um pouco maior, é bem verdade) e que nunca dizem “não” aos maridos.

A melhor coisa na narrativa de Ira Levin é a cuidadosa acumulação de pequenos detalhes que vão se encaixando uns aos outros com a exatidão aterrorizante de todas as paranóias.


Tal como O Bebê de Rosemary, é a narrativa de um pesadelo de uma mulher solitária (ou que, neste caso, tem uma amiga cúmplice, solidária, fiel – e a perde da maneira mais arrepiante) que várias vezes por dia diz a si mesma que não, que não é possível, que está ficando doida, que pessoas de verdade não seriam capazes daquilo, que o marido dela não seria capaz daquilo... e veem as evidências se acumulando a cada instante.

É uma narrativa arrepiante, por ser curta – esticá-la para 300 páginas faria estalar o fio leve de verossimilhança que Ira Levin mantém retesado com sua prosa rápida. Poderia ter sido escrita por Philip K. Dick, pela enorme identificação com sua temática, embora Dick não tenha essa narrativa precisa, cinematográfica, econômica.

Quanto ao tema, é curioso que este romance de 1972, da época em que tantas mulheres jovens norte-americanas estavam lendo Betty Friedan, Kate Millet, Nancy Friday e outras autoras questionadoras, seja talvez mais atual hoje do que quando foi lançado.



***

Aqui, neste canal do YouTube, é possível ver o filme original de 1975. É um canal interrompido aqui e ali por comentários, e não tem legendas em português, mas o som e a imagem são OK, e o filme parece completo.)

E para quem já viu o filme, aqui um documentário com diretor, produtor, atores, comentando o trabalho, a importância do filme:







sexta-feira, 15 de março de 2019

4446) O Terceiro Artista (15.3.2019)



(todas as ilustrações são de Leo & Diane Dillon)


O trabalho em parceria requer que cada parceiro abra mão de um pedacinho de sua individualidade para permitir que o outro interfira na obra-em-progresso de acordo com sua visão.

Há muitas maneiras de obter esse equilíbrio. Os críticos de rock falam com frequência no modo Lennon-McCartney de compor. Ao contrário de muitas duplas onde um faz a letra e o outro faz a música, ambos costumavam compor sozinhos (letra e música) uma primeira parte, e entregar ao companheiro para fazer a segunda parte.


Um exemplo notório desse processo é “A Day in the Life”, em que John fez toda a primeira parte (“I read the news today, oh boy...”) e McCartney a segunda (“Woke up, fell out of bed...”).

O casal de artistas plásticos e ilustradores Leo e Diane Dillon, muito conhecidos dos leitores de ficção científica, contribui para isto com um conceito interessante, que eles chamam O Terceiro Artista. É uma espécie de entidade simbólica que, no momento da criação, tem precedência sobre a individualidade de cada um.

Os Dillons se tornaram famosos ao iniciar uma parceria com Harlan Ellison, fazendo capas que se tornaram clássicas como a de Deathbird Stories (1975) e as ilustrações internas da inconoclasta antologia Dangerous Visions (1967).


Dizem os Dillons, numa entrevista à revista Locus:

Diane: Quando criamos o conceito de O Terceiro Artista isso nos ajudou muito, porque fomos capazes de ver a nós mesmos como um artista e não como dois indivíduos, e esse artista estava fazendo uma coisa que nenhum de nós faria sozinho. Isso afastava da obra a possibilidade de estar apenas refletindo o ponto de vista de um de nós. (...) É como quando certos autores dizem que os personagens assumem o controle da história. Num certo sentido isso também acontece em nosso processo criativo.

Leo: As pessoas costumam falar no “estilo Dillon”. Acho que a certa altura nós fizemos um pacto. Decidimos abrir mão de nossas essências pessoais, a parte que tornava cada um capaz de uma arte pessoal. E com isso abrimos uma porta para todas as possibilidades. Se você não tem um “eu” – que continua a ter, é claro, apenas o deixa de lado – então você está aberto pra tudo, pode fazer tudo, ou tentar tudo.

(Locus, abril de 2000, trad. minha)


Não é muito diferente do processo descoberto por Jorge Luís Borges e Adolfo Bioy Casares para produzir algumas obras altamente satíricas, referenciais, eruditas, como Seis problemas para Don Isidro Parodí (1942) e as Crônicas de Bustos Domecq (1967) entre outras.

Em seu ensaio autobiográfico Perfis, Borges comenta:

Foi a certo ponto no início dos anos quarenta que começamos a escrever em colaboração – um feito que até aquela época eu achava impossível. Eu inventara o que nós achávamos que fosse uma intriga muito boa para uma estória de detetives. Numa manhã chuvosa ele me disse que devíamos fazer uma experiência com ela. Concordei relutante, e um pouco mais tarde naquela mesma manhã aconteceu. Um terceiro homem, Honorio Bustos Domecq, apareceu e assumiu a direção. Com o tempo, governou-nos com mão de ferro e, para nosso divertimento, e depois para nossa consternação, tornou-se completamente distinto de nós, com seus próprios caprichos, seus próprios trocadilhos e seu próprio estilo, muito elaborado, de escrever.

(Elogio da Sombra / Perfis, Ed. Globo/MEC, 1971, trad. Maria da Glória Bordini, p. 109-110)


Esse curioso conceito de um “terceiro autor” parece refletir a sensação, numa parceria bem sucedida, de que não se trata de abolir personalidades, mas de compensar limitações recíprocas. Parece dar bons resultados quando os dois parceiros são bem diferentes um do outro. Os Dillon, além de serem marido e mulher, são um casal interracial. Borges e Bioy têm uma razoável diferença de idade (15 anos) e Borges comenta, no mesmo livro:

Nesses casos sempre se presume que o homem mais velho é o mestre e o mais novo, seu discípulo. Isto talvez tenha sido correto no começo, mas vários anos mais tarde, quando começamos a trabalhar juntos, Bioy era real e secretamente o mestre. (...) Opondo-se a meu gosto pelo patético, pelo sentencioso e pelo barroco, Bioy fez-me sentir que a serenidade e o comedimento são mais desejáveis. Se me permitirem uma afirmação generalizada, Bioy levou-me gradualmente ao classicismo. (p. 109)

Quando dois talentos complementares conseguem atuar com harmonia, esse “terceiro artista” é mais que a soma dos dois. Isto acontece com “Ellery Queen”, um dos grandes do romance policial clássico, que é na verdade a fusão entre os plots intrincados e as escaletas minuciosas de Frederick Dannay e os diálogos e personagens concebidos por Manfred B. Lee, ao longo de uma carreira de mais de 40 anos.


O processo não se dá sem tensão. Diane Dillon lembra que quando marido e esposa brigavam, o Terceiro Artista assumia o comando e obrigava os dois a se falarem, para que o trabalho não ficasse prejudicado. “Depois de uma certa altura,” diz ela, “a gente estava estirando a língua um para o outro, e fazia as pazes.”



Uma extensa coleção da obra dos Dillons:









quarta-feira, 13 de março de 2019

4445) Os doidos literários (13.3.2019)



Raymond Queneau chamou de “doidos literários" ("fous littéraires"), em seu livro Les Enfants du Limon (1938), todos aqueles sujeitos fora-de-esquadro que se dedicam fervorosamente ao estudo e à especulação, e acabam produzindo teorias sem pé nem cabeça sobre o Sistema Solar, ou sobre a Pedra Filosofal, ou sobre a Quadratura do Círculo, ou qualquer outro tipo de “viagem” pseudocientífica.

Queneau passou muitos anos de sua vida estudando esse pessoal tipo Terra Plana, Universo de Gelo, e assim por diante. Não só esses – também os “linguistas de fim de semana”, capazes de inventar um idioma totalmente arbitrário que, acham eles, se fosse aprendido por toda a humanidade acabaria com as guerras e as epidemias.

Neste capítulo, aliás, é imbatível (e divertidíssimo) o livro Babel e Antibabel de Paulo Rónai (Ed. Perspectiva, São Paulo), onde ele analisa as linguas inventadas mais conhecidas, como o Esperanto e o Volapuk, e outras mais excêntricas.


O que leva esses malucos a dedicarem sua vida inteira a projetos gigantescos dessa dimensão? Maldo eu que é uma mistura de Complexo de Inferioridade com Complexo de Superioridade, uma receita mais frequente do que se imagina.

Muitos deles são indivíduos com baixa auto-estima, tímidos, macambúzios, com pouco traquejo social. Muitos são solteirões misantropos, outros se refugiam em casamentos formais onde há uma mulher que cuida deles e não faz perguntas. Ganham a vida como bancários, professores, contabilistas, qualquer profissão que possa ser mantida numa rotina confortável.

Uma vez obtida esta segurança, eles decolam numa viagem (=delírio) de grandeza, de genialidade, uma verdadeira embriaguez conceitual de quem se considera o Gênio Supremo da Humanidade.

A pesquisa de Queneau localizou centenas de “doidos literários”; ele não conseguiu publicá-la (a pesquisa em si já estava se parecendo um pouco com as doidices dos pesquisados), mas conseguiu contrabandeá-la para o romance Les Enfants du Limon, "Os filhos do barro", onde ela aparece como o projeto intelectual de Monsieur Chambernac e seu ajudante Purpulan, uma dupla meio “Bouvard e Pécuchet”.

Chambernac afirma estar pesquisando apenas “os doidos literários franceses do século 19”. São aqueles cuja existência foi confirmada mas que não tiveram a glória de formar uma seita de seguidores. Para Chambernac/Queneau, quem chegou a ter discípulos não pode ser considerado “um doido literário”.

Essa pesquisa foi retomada depois por André Blavier no catatau de 924 páginas Les Fous Littéraires (Ed. Henri Veyrier, Alençon, 1982), com um impressionante repertório de pesquisa, ampliado a partir do de Queneau, de quem Blavier (1922-2001) foi amigo e discípulo.

Uma pequena amostra, com o “Sumário” de seu livro:



O que são os doidos literários?

Queneau, em Enfants..., estabelece que não basta ser um autor meio excêntrico que imagina ter feito uma super-descoberta pseudo-científica. É preciso não haver seguidores, não haver fama, não haver o elogio da crítica, não haver reedições de sucesso. Ou seja: quando o Doido Literário começa a ter um certo poder social, sua obra perde a graça, a graça do sintoma.

Queneau sabia muito bem o quanto as multidões podem ser levadas a acreditar numa teoria sem pé nem cabeça, seja ela científica ou religiosa. Ele eliminava (Enfants, cap. XXI) “todos os místicos, visionários, espíritas, teosofistas etc., cujas elucubrações possam ser ligadas a outras já mais ou menos reconhecidas, e que a prudência me aconselha a não tratar de forma leviana.”

A Pseudo-Ciência é uma arma política poderosa. Vale a leitura dos capítulos que Pauwels & Bergier dedicaram em O Despertar dos Mágicos às teorias do maluco Hans Hörbiger, chamado por alguns “o guru de Adolf Hitler”, propositor de uma Cosmogonia Glacial em que o Universo era visto como uma luta entre o Fogo e o Gelo.

Todos eles sabem que as pessoas não são motivadas pelo que compreendem, e sim pelo que desejam de forma profunda, e que se esse desejo for satisfeito, ou se a expectativa dele for estimulada, o sujeito é capaz de “compreender” tudo que lhe explicarem, inclusive que dois e dois são cinco e que tamanduá e bicicleta são a mesma coisa.

Os trechos dos doidos literários citados em Les Enfants... (Le Barbier, Roux, Hussenot, etc. etc.) são de deixar perplexo um leitor moderno. Não pelo trabalho conceitual de inventar tudo aquilo, porque afinal de contas um escritor de ficção científica ou de fantasia (como Tolkien) é capaz de criar enciclopédias igualmente gigantescas e detalhistas. Mas o escritor sabe que está inventando. O doido literário pensa que está descobrindo.

É a certeza da própria certeza (e da própria genialidade) que move esses indíviduos, e é uma sorte da humanidade que eles sejam, na esmagadora maioria, sujeitos obscuros e arredios. Uma mistura de Policarpo Quaresma com Bispo do Rosário.

Porque quando acontece de ser um cara com carisma, com eloquência, extrovertido, ambicioso,  arregimentador, calculista... Deixa de ser um doido literário. Passa a ser um perigo para a literatura, e para o mundo.









segunda-feira, 11 de março de 2019

4444) A Colecionadora (11.3.2019)



Eu fiquei pensando numa idéia para um argumento, podia ser filme, livro, etc., meio que inspirado no livro O Colecionador (1963) de John Fowles, que foi filmado em 1965 por William Wyler com o mesmo título.

Pra quem não conhece, é um livro extraordinário (e um filme bastante bom) onde Frederick Clegg, um sujeito macambúzio, insignificante, mesquinho, curte uma paixão voyeurística à distância por uma estudante de Belas Artes que ele vê sempre passar na rua, chamada Miranda.

Um dia, Clegg ganha uma fortuna na loteria, e como não tem família, vive só, não precisa dar satisfações a ninguém, ele prepara o porão da casa onde mora, rapta Miranda e a mantém refém, dizendo algo tipo “você vai ficar presa aqui até se apaixonar por mim”.

Clegg, que ela passa a chamar de “Calibã” (o diário escrito por ela no cativeiro é uma das partes principais do livro) é o típico sujeito que hoje se chama “incel”, “celibatário involuntário”, ou, no curto e grosso, um cara que gostaria de comer gente, mas não come ninguém porque ninguém suporta ele.

Muito bem. Uma das táticas mais elementares de “brainstorming criativo” é inverter situações: em vez da família rica que fica pobre, imaginar uma família pobre que fica rica, ou em vez de um navio onde todo mundo é real e aparece um fantasma imaginar um navio onde todo mundo é fantasma, e aparece um cara real.

As possibilidades, como sempre, são infinitas.

Eu me pus a imaginar uma reversada no plot de John Fowles, e imaginar uma nova Miranda, contemporânea e carioca da gema. Ela é linda, inteligente, sensível, artística, solteira, politicamente correta, cheia de entusiasmo pela vida...  Ganha uma herança vultosa e se deixa arrebatar por um sonho: pegar aquele rapaz feioso, nerdoso, que a segue pela rua e a stalkeia nas redes sociais, e ensinar a ele a beleza da vida!

Todo ser humano é fundamentalmente bom, acredita ela. Vamos apostar nas pessoas! Todo mundo só precisa de uma chance, mas uma chance real, concreta. E a luz prevalecerá!

Não, nada de sexo envolvido. Mas como ela mora sozinha no casarão que herdou dos pais, e tem um porão super climatizado (onde o falecido pai tinha seu laboratório fotográfico), e acabou de ganhar uma baba de grana de herança...

Aqui entra, roteiristicamente, um trecho problemático porque é preciso devisar uma maneira plausível de fazer Miranda sequestrar o cara sozinha. Mas dá pra resolver – como ele é praticamente um ermitão, sem amigos, não darão muito pela sua falta. E ela pode abordá-lo, dizer algo tipo “apareça lá em casa às 3 da madrugada, sem ser visto, discretamente, e não sabe a surpresa que o espera...”  Qual o nerd misantropo e donzelão que não morde essa isca?

Ela se assanha toda e começa os preparativos.  Por que não fazer uma caridade àquela alma atormentada, aquele protofascistazinho meio imberbe (Miranda tem 40 anos, é uma coroaça nos trinques, Calibã tem trinta de ressentimento e cigarros), manietá-lo, trazê-lo a pão e água (e ocasionais recompensas pavlovianas), dar-lhe umas lições de moral, de ética pós-moderna, mostrar-lhe o erro dos seus modos, até que ele desperte, se ilumine por dentro, floresça, desabroche, passe a devorar com sofreguidão livros de Foucault e poemas de Walt Whitman, descubra as sutilezas da música de Tom Jobim e o vigor telúrico do Cacuriá de Dona Teté?!

Miranda é pura, é boa, acredita na humanidade. Ela quer ser uma Anne Frank ao contrário, e para isso atrai Calibã, sequestra-o, deixa-o trancafiado. Não teme os confrontos a sós: ela faz academia, capoeira e krav-magá, enquanto que “Frederico” é anoréxico e baixinho.

O filme ou livro reconstituiria os textões verbais com que ela tenta convencê-lo de que é errado dar de ombros para o desmatamento da Amazônia ou incentivar o desmantelamento da escola pública. Ela explica a ele que a Terra não é plana, leva inclusive um globo terrestre (“quer que eu desenhe?”). Ela diz que ele é um dos responsáveis pelo aquecimento global e pela concentração de renda nas mãos dos super-ricos.

“Frederico” se recusa terminantemente a ceder numa vírgula. Insulta-a, chama-a dos piores nomes, diz que a amava quando era à distância, mas que agora está vendo que ela não passa de uma vagabunda igual a todas as outras... O papo de todo serial-killer.

Miranda se desespera. As amigas a veem tensa, perguntam o que é, chamam para um café na livraria preferida. Ela não sai mais de casa: sua existência virou uma anti-terapia 24 horas por dia.

Aqui eu empanquei pela segunda vez. Conseguirá Miranda fazer a razão prevalecer sobre o obscurantismo? Vai salvar aquela alma? Ou conseguirá Frederico pegá-la num vacilo, subjugá-la fisicamente, inverter a situação, submetê-la a um destino pior que a morte? Ou quem sabe será Miranda quem vai acabar perdendo as estribeiras e dizendo algo na linha de “pois você agora vai provar do seu próprio remédio”, manietando-o em seguida, abrindo a gaveta dos instrumentos, enquanto a câmera recua horrorizada degraus acima, passando a porta que se abre e depois se fecha, saindo para aquela rua tranquila do Cosme Velho onde madames e rapazes passeiam cachorros e ninguém é capaz de adivinhar os conflitos íntimos que rolam nos porões deste Brasilzão de todos nós.








sábado, 9 de março de 2019

4443) Eu me lembro XIV (9.3.2019)



1
Eu me lembro das lojas de instrumentos agrícolas que havia na rua João Pessoa, quando eu era garoto e às vezes passava uns dias no apartamento de Tia Adiza, lá no final da rua, no Monte Santo. Em algumas lojas havia tratores vermelhos, com rodas traseiras imensas, muito maiores do que as rodas dos carros, pneus com sulcos profundos e geométricos. O banco do motorista era pequeno, desconfortável, sem acolchoado, mas eu olhava de longe e tudo que eu queria na vida era sentar ali pelo menos uma vez. A cor vermelha era profunda, brilhante. Muitos anos depois, foi a cor desses tratores que me veio à mente quando escutei a canção”Meu Nome é Pablo”, com Milton Nascimento: “Meu nome é Pablo, como um trator é vermelho”. E quando li o famoso poema de William Carlos William, “The Red Wheelbarrow”: “Tanta coisa depende / de um carro-de-mão vermelho / brilhante de água da chuva / entre galinhas brancas”.


2
Eu me lembro que na campanha presidencial de 1960 meu pai torcia pelo general Henrique Teixeira Lott e minha mãe por Jânio Quadros. As pessoas usavam adereços de metal dourado que pregavam na roupa (isso era muito antes dos buttons, que as pessoas hoje chamam de bóttons). O símbolo de Lott era uma espada, o de Jânio uma vassoura. Eram adereçozinhos pequenos, com uns 2 centímetros no máximo, presos à roupa com um broche. Eu torcia por Lott meio por identificação com meu pai, e porque a espada me parecia um símbolo masculino, e a vassoura um símbolo feminino. Lembro também de uma propaganda de Jânio que era um disco fonográfico gravado em cima de um cartaz do tamanho de um livro: a gente colocava na vitrola e ele tocava uma música: “Ele vem aí, não demora não... ele vem aí com a vassoura na mão! / Tanto faz ser de Mato Grosso / tanto faz ser de Macaé / o que interessa é ser bom brasileiro / isso ele é!”.


3
Eu me lembro, ainda no capítulo sobre “espadas”, que eu tinha tamanha idéia-fixa com as histórias de aventuras medievais, fantasia heróica, etc., que os meus dois santos preferidos eram São Jorge e Santa Joana d’Arc, porque eram os únicos santos que eu via vestidos de armadura e empunhando uma espada. Eu também tinha uma devoção por Santa Luzia, de quem tinha uma gravura, uma mulher alva, de roupa preta, segurando uma bandeja onde havia dois olhos humanos. Dizia-se que os olhos dela tinham sido arrancados durante uma sessão de tortura, e por isso ela era protetora da vista. Como eu tinha muito medo de ficar cego, todas as noites, depois de rezar, eu dizia: “A bênção Santa Luzia, protegei a minha vista.”


4
Eu me lembro das peladas no Alto Branco, na beira da estrada; eu teria uns 12 anos e a única bola que a gente tinha era a famosa Bola Verde, que era de plástico e tinha um rasgão, de modo que cada vez que a gente “prensava uma bola” tinha que parar o jogo e desamassar a respectiva com as mãos. Nossa independência começou depois que comecei a trabalhar no Diário da Borborema, com 15 anos, e eu e Severino Brasil, que também trabalhava lá, rachamos o preço de uma bola de couro no. 3, com gomos marrons e brancos, na Casa Esporte, quase em frente à TV Borborema, e descemos eufóricos no fim da tarde pelo Beco dos Bêbos, a rua Alexandrino Cavalcanti, o Ponto Cem Réis, a ponte do canal e a subida do Alto Branco, correndo e trocando passes pelo meio da rua até chegar na casa dele, que era pertinho da nossa.


5
Eu me lembro que meu pai, charadista nato, colecionava uma revista portuguesa chamada Brasil Enigmista, cheia de charadas, palavras cruzadas, rébus, etc. A revista tinha uma seção chamada “Você é o Sherlock”, escrita por Leiria Dias, com pequenos casos policiais cuja narração era interrompida a certa altura. Havia concursos para ver quem deduzia quem era o assassino (e justificava). Publicavam contos também, e me lembro de ter lido uma história de "William Irish" (pseudônimo de Cornell Woolrich) chamada “Prato Frio”, um crime dentro de um elevador enguiçado e cheio de gente.


6
Eu me lembro que minha mãe, costureira dedicada, colecionava uma revista chamada Jornal das Moças, cheia de matérias sobre moda, vida doméstica, beleza, etc.  Tinha também uma seção de piadas, e uma de curiosidades com o nome “Tudo Isto é Verdade”. E tinha uma história em quadrinhos, serializada, em preto e branco: “Mark Taylor”, com as aventuras de um cara no norte gelado dos EUA, ou Canadá. Como eu pegava as revistas fora de ordem, acabava lendo esses quadrinhos como quem pula capítulos rayuelamente, numa ordem totalmente imprevista, mas que não nos impede de montar o quebra-cabeças.

















quarta-feira, 6 de março de 2019

4442) Como desperdiçar o Poder (6.3.2019)


(general Tom Thumb, 1838-1883)

O Poder é uma coisa engraçada. Quando a gente está por baixo, lascado, sem soluções, sem alternativas, a gente costuma se lamentar: “Ah, se eu ganhasse a Mega-Sena!...”

Não peça isso. Seria a pior coisa que poderia lhe acontecer. Não existe coisa mais perigosa do que o Poder nas mãos de quem não sabe usá-lo.

Uma vez, quando eu era redator de humor, escrevi um quadro com um personagem pobre chegando para um amigo rico e mostrando os volantes da Mega-Sena, em que tinha acabado de apostar. Quando ele se afasta, o amigo comenta: “Não sei pra quê pobre joga tanto na loteria. Se pobre tivesse sorte, nascia rico.”

É cruel, mas é psicologicamente verdadeiro. As pessoas pensam assim.

O Poder (dizem os Poderosos, os Capitanistas Hereditários) é pra quem está pronto para exercê-lo em sua plenitude.  Pra quem é preparado. Pra quem estudou. Pra quem tem “berço”. Pra quem foi criado num ambiente em que os meandros do Poder eram discutidos de modo até casual no café da manhã, no almoço, no jantar.

E de certa forma estão certos, porque o aprendizado do Poder é longo e espinhoso, é sempre feito às custas do pobre estudante. Não é pra quem quer, é pra quem pode.


Que o diga o mago Ged, da Trilogia de Terramar, de Ursula Le Guin, que teve de carregar pelo resto da vida uma cicatriz enorme no rosto, resultado de uma bazófia imprudente na adolescência. Ele quis mostrar que era o poderosão e desencadeou uma magia sinistra que quase o leva embora. (Pagou um preço alto. Não morreu; quem morreu foi o mago, seu professor, que conseguiu salvar-lhe a vida.)

O Poder nas mãos de um despreparado é sempre um desperdício. É exatamente por isso que os Poderosos: 1) tentam manter os despreparados longe do Poder; 2) tentam evitar que alguém se prepare e possa concorrer com eles próprios.

Uma pessoa despreparada não sabe o que fazer com uma bomba atômica, com um milhão de dólares, com uma Ferrari novinha em folha, com uma Miss Universo, com uma mansão de 99 quartos.

Todos sonham com isso, ou afirmam sonhar. No dia que conseguem, botam tudo a perder, porque não conseguem enxergar muito longe do próprio nariz.

É como aquela história do cara que se perde no bosque, descalço. A certa altura ele enterra o calcanhar num espinho e o espinho tora dentro. Ele sai mancando e chorando pelo mato afora. Dias depois, acha a Lâmpada de Aladim jogada por entre as moitas. Esfrega, o Gênio aparece e lhe diz: “Você tem direito a três pedidos.” E ele grita: “Tira esse espim do meu pé! Tira esse espim do meu pé! Tira esse espim do meu pé!”.

O Poder é patético quando colocado em mãos aflitas, impacientes, despreparadas. É o bêbado ao volante, a criança com um 38 carregado, o craque sub-20 comandando uma mesa de 20 pessoas na boate. Pode até não resultar em desastre, mas quando resulta ninguém se admira.

Por falar em nariz, isso me lembra uma cena de um dos filmes da minha infância, o musical O Pequeno Polegar (“Tom Thumb”, George Pal, 1958, com Russ Tamblyn, Peter Sellers e Terry Thomas).


Um casal de lenhadores encontra na floresta a Rainha das Fadas, que lhes concede três desejos. Eles voltam para casa e começam a discutir. Vamos pedir isso, vamos pedir aquilo; vamos pedir uma casa nova, dinheiro, um castelo...

– Você não sabe o que pedir – diz o marido.

– Você vai estragar tudo – diz a mulher.

– Vamos fazer assim – diz ele. – Eu faço um pedido, você faz outro.

– Comece – diz ela.

– Eu quero uma salsicha DESSE tamanho – diz ele.

Tóinnnnn...  Uma salsicha enorme aparece em cima da mesa, e a esposa se desespera.

– Como você é burro ! Estragou o primeiro pedido! Podia ter pedido uma casa nova, tanta coisa... Ai, eu casei com idiota. Só queria que essa salsicha ficasse pendurada no seu nariz, seu bobão!

Tóinnnnn... A salsicha magicamente substitui o nariz do sujeito. Aí são os dois que se desesperam, se acusam mutuamente, se ofendem... Mas não tem jeito: o terceiro pedido é para que a salsicha desapareça e o nariz dele volte ao normal. E assim os três pedidos são jogados pela janela.


A cena não foi inventada pelo filme, claro. É uma função narrativa Proppiana ou Stith-Thompsoniana, que vem há séculos adquirindo novas formas. Sua estrutura é basicamente essa:

1)      Alguém conquista um poder imenso, mas de uso limitado.
2)      Usa esse poder, num primeiro arranco, para realizar as próprias fantasias, o que resulta numa situação de caos, colocando o próprio indivíduo em risco.
3)      O que resta do poder é consumido para “apagar incêndios”, ao invés de produzir qualquer melhora na situação anterior.

Claro que o Poder é um Fenômeno Complexo, não se resume a esse aspecto específico. Mas depois não digam que eu não avisei.











terça-feira, 5 de março de 2019

4441) O Tesouro de Sierra Madre (5.3.2019)




O filme O Tesouro de Sierra Madre (1948) de John Huston foi na sua época uma superprodução da Warner Brothers. É uma história de faroeste – sujeitos miseráveis arriscando tudo na mineração de ouro – e por trás dessa aventura um estudo sobre ambição, paranóia, cobiça.

Peguei o DVD pra ver de novo por causa do episódio de A Balada de Buster Scruggs, dos irmãos Coen (comentado aqui no blog, em 11 de fevereiro passado) onde Tom Waits faz um garimpeiro solitário que descobre uma jazida e depois é atacado por um espertalhão que quer se apoderar dela.

Era uma coisa comum no garimpo: bandidos que ficavam rondando, deixando que alguém fizesse o trabalho duro de cavar a terra, e quando o cavador achava alguma coisa eles caíam em cima, matavam o cara e exploravam o filão.

No Tesouro, Walter Huston (ator extraordinário) explica, em sua primeira cena, por que o ouro é tão valioso. “É a quantidade de trabalho humano, de gente que se esforça para achá-lo e arrancá-lo. Ouro só serve pra fazer pulseira e obturar dentes” (algo assim).

Seu personagem é o personagem mais complexo do filme de John Huston. A “estrela”, Humphrey Bogart, ótimo ator, faz um sujeito, Fred Dobbs, obsessivamente querendo ficar rico. Os outros, o velho Howard (W. Huston) e o jovem Bob Curtin (Tim Holt) têm planos pessoais para o futuro, quando venderem o ouro. Dobbs diz apenas que pensa em ir a um banho turco, depois a um restaurante bem caro e ficar devolvendo pratos, mandando preparar de novo.



“E depois?”, perguntam os outro. Dobbs não sabe. Dobbs é o capitalista Yang, o que só pensa em ganhar sem parar.

É um minerador típico, e nisso incluo as grandes empresas mineradoras que fazem bilionários pelo mundo afora arrancando ouro, ferro, manganês, nióbio, diamante. Querem arrancar, vender pelo melhor preço, enriquecer... e depois? E depois dos jatinhos com pias de ouro, dos vinhos de 100 mil dólares, dos bunkers subterrâneos para sobreviver ao Juízo Final?

Howard (o personagem de Walter Huston) é a mente mais lúcida num filme de sonâmbulos. É espertalhão, descolado, safo, experiente. Tal como o ator – que, segundo se diz, não falava uma palavra de espanhol, mas decorou as falas (muitas) e as diz com fluência espantosa.



Howard ajuda os índios mexicanos, fazendo respiração artificial num garoto que se afogou; passa a ser visto como milagreiro. E ele mesmo pisca o olho para os colegas, decidido a faturar em cima do prestígio adquirido, mas sem enganar a si próprio.

Quando vão embora, depois de extrair o ouro, ele diz aos colegas que precisam fechar as feridas da montanha. “Que papo é esse?”, estranham eles. E ele diz: “A montanha nos deu seu ouro. Não podemos deixá-la toda aberta, toda escavada. Temos que tratá-la bem”.

Hoje seria classificado como um discurso “eco-friendly”, mas é a persistência (positiva, acho, neste caso) da velha mentalidade animista. A natureza é viva. Ele sente, ela nos vê, ela percebe, ela se relaciona. Um animismo que pode muito bem excluir o espiritual, o sobrenatural, e exprimir um senso profundo de identificação entre bichos de carne e osso (e pás e picaretas) e o lugar de onde arrancam a sobrevivência.

No fim do filme, quando o ouro é desperdiçado e derramado por bandidos ignorantes, cabe ao velho Howard reagir com gargalhadas diante de tantos meses perdidos. E ele ensina o amigo jovem (interpretado por Tim Holt) a reagir da mesma forma.



Não há como não lembrar de outro filme sobre uma mineração que não dá certo, Zorba, o Grego (1964) de Michael Cacoyannis. Ali, na sequência final, vem abaixo o sistema de cabos e roldanas instalado para transportar os troncos de árvores (que forneceriam a madeira para escorar a mina). E o velho Zorba (Anthony Quinn) cai na gargalhada, e arrasta no riso o jovem Alan Bates. E os dois começam a dançar na areia da praia.


Como se diria no Nordeste, “desgraça pouca é meio de vida.”

Temos uma tendência a ver nessas duas reações, no final desses dois filmes, uma expressão de vida, de liberdade, um dar-de-ombros diante das perdas materiais. E é uma visão correta. Perdeu-se tudo?! Dane-se, bora fazer outra coisa.

O capitalismo tem um lado Yin e um lado Yang, um lado libertário e um lado trancador.

A visão Zorba, a visão Howard (curiosamente projetada, em ambos os filmes, em atividades de mineração) faz predominar no final o lado Yin da coisa. Um impulso que arrasta o capitalismo, um impulso de mobilidade, de ação: vamos tentar, vamos tentar de novo, vamos fazer outra coisa, mas com o mesmo espírito, depende só de nós.



O outro lado, a face Yang, é o do capitalismo meramente predador, a mandíbula come-come. O capitalismo-usura, o capitalismo acumulação-de-fortunas, o capitalismo ascético, sem prazer, sem alegria, o capitalismo insetóide que sabe apenas devorar. Os banqueiros bilionários e soturnos de terno preto, que almoçam qualquer coisa e cujo sofá da sala está puído.

O cinema passou um século, em filmes como estes, celebrando o lado alegre do capitalismo. O capitalismo-aventura, o capitalismo iniciativa-pessoal, o capitalismo jogo, cassino, roleta, de apostar tudo sem medo de perder. O lado Yin, que de certa forma seria expresso nesta estrofe do famoso “Se...” de Rudyard Kipling (trad. Guilherme de Almeida):

Se és capaz de arriscar numa única parada, 
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
e perder, e ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

Um resenhador mal-humorado diria que é por causa dos Zorbas vestindo Armani que a Lehman Brothers quebrou e o Fyre Festival deu com os burros nágua.

Fazer o quê? O capitalismo tem esse lado vibrador, dinâmico, individualista. O sujeito hoje está na capa de todas as revistas econômicas do Ocidente e poucos anos depois está na cadeia. Qual o problema? “Dane-se, quando a gente sair, bora fazer outra coisa.”

A Sierra Madre é a Mãe Natureza, está sempre ali, aberta, disponível, expondo suas riquezas mais íntimas, “como uma mulher nua deitada à luz do sol”.  Alguns, como o velho Howard, querem tirar apenas o que precisam para levar uma vidinha tranquila, voltada para outras coisas.

Outros são os Fred Dobbs, os Pac-Men obcecados, os famosos wonder-boys que pensam apenas no próximo bilhão de dólares. Diante deles, que se cuidem a Sierra Madre e o rio Paraopeba.