Este
romance de Jennifer Egan, lançado agora pela Ed. Intrínseca, tem uma estrutura
narrativa inesperada que só vai se revelando aos poucos, misturando duas
histórias que soam incrivelmente reais embora uma dela possa ser fictícia. Em princípio, estamos acompanhando a viagem
de Danny King, um “hipster” de Manhattan, a um país da Europa Central, para
onde seu primo Howard o convidou com a proposta de trabalhar na restauração de
um antigo castelo e transformá-lo num hotel de luxo. Danny e Howard são amigos
de infância, mas na adolescência houve um episódio traumático entre os dois,
que enche Danny de culpa e de incerteza, porque ele não sabe ao certo as
intenções do primo (que agora é riquíssimo, e que ele não vê há muitos anos) ao
chamá-lo para aquele lugar remoto.
Esta
história vai se misturando aos poucos com a história de um presidiário nos EUA,
Ray, que está fazendo uma oficina de escrita criativa na cadeia e começa a
botar uns olhos compridos na direção da professora, Holly. Não vou esmiuçar
aqui o modo como essas duas histórias se misturam, porque este é um dos truques
principais do livro, que é escrito com um controle e uma alegria imaginativa
raros hoje em dia. A crítica o
classificou como “romance gótico”, pela presença central do castelo e do seu
Torreão cheio de mistérios. A incursão
de Danny King pelo castelo reproduz a incursão de Jennifer Egan pelo gênero
gótico: uma pessoa moderna, conectada, penetrando num ambiente com séculos de
existência e de história acumulada.
Esse oposição entre o antigo e o modernoso é uma
das polaridades deste livro que fascina e desconcerta, embora este último termo
deva ser tomado no melhor dos sentidos.
Egan é uma narradora onisciente que nunca aparece, embora a vejamos
manipular os personagens, como aquelas pessoas de preto que seguram os
personagens em certos teatros de bonecos: visíveis o tempo todo, mas podemos
abstrair sua presença no instante que quisermos. Este romance concilia o melhor de certa
literatura experimental (a busca de modos não convencionais de contar uma
história) e da literatura clássica (personagens envolventes, peripécias cheias
de suspense). Há um trecho, uma simples linha na página 207 do original inglês,
em que o uso de um mero pronome muda o livro inteiro, faz um monte de peças se
encaixarem e um monte de fichas caírem. Isto só ocorre em livros ousados, que
se atrevem a executar um número de malabarismo na corda-bamba, com pleno
domínio da técnica. Um bom livro é aquele que a gente lê a última página às 4
da manhã e volta atrás para reler, porque percebe que a segunda leitura vai ser
mais recompensadora do que a primeira.
3 comentários:
Bah, Braulio, vai me fazer comprar. Gracias pela isca.
Comprei, li e gostei. Valeu a indicação.
Bom livro, não é mesmo? Fiquei interessado nas outras coisas dela. Tem este outro aqui:
http://mundofantasmo.blogspot.com.br/2011/01/2463-um-conto-em-power-point-2612011.html
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