
Os cinéfilos mais jovens conheceram Federico Fellini através de Amarcord, um dos seus grandes sucessos, que foi seguido por uma série de filmes menores dos quais (para mim) apenas E La Nave Va atinge esse pico de qualidade. (Não que os demais sejam ruins: mas são apenas toque-de-bola-no-meio-campo). Por isso não viveram uma época em que Fellini era um diretor perigoso de se gostar. Nos anos 1960 havia duas correntes poderosas na crítica de cinema: os católicos e os marxistas. Os católicos acusavam Fellini de zombar do Catolicismo; os marxistas o acusavam de ser católico demais. Filmes como A Doce Vida estão por trás desse cabo-de-guerra.
A Doce Vida se abre com uma imagem hoje famosa: uma enorme estátua de Cristo sendo levada pelos céus por um helicóptero, pendurada a um cabo de aço. Uma imagem inocente se vista na rua, mas numa tela, e num filme de Fellini, ganha logo uma conotação ominosa, de zombaria e sacrilégio. Algo de que Luís Buñuel se queixava, quando fazia seus personagens se referirem a “uma Virgem Maria lavável, de plástico” em O anjo exterminador, ou quando mostrava em Viridiana um crucifixo-canivete. Na vida real, nada de mais. Num filme de Buñuel, uma blasfêmia. O Cristo sendo levado pela máquina voadora deu origem a um sem-número de citações. Quem viu Adeus, Lênin há de lembrar a estátua do líder comunista em cena igual.
Uma longa cena do filme mostra a badalação em torno de uma falsa aparição da Virgem Maria para um casal de crianças. Fellini mostra a formação, nesse povoado perto de Roma, de um carnaval de mídia e comércio parecido com o que Billy Wilder descreve em A Montanha dos 7 Abutres. Com diplomacia e esperteza, o diretor mostra um padre negando com veemência que aquilo seja um milagre legítimo, e atribuindo má fé às crianças. De nada adianta: o circo está armado, as rádios, as TVs e os fanáticos invadem o local, a família das crianças recebe propinas para posar para fotos, dezenas de doentes são trazidos em padiolas na esperança de uma cura.
Todo o filme está permeado de cenas mostrando a comercialização, banalização e falsificação do sentimento religioso. Perto do final, Marcello visita o castelo de uma família nobre, que tem dois Papas em sua árvore genealógica. Sem ter o que fazer, os riquinhos empunham candelabros e vão explorar uma mansão abandonada que há na propriedade. Vão em busca de assombrações; um grupo se reúne em volta de uma mesa e inicia uma sessão espírita, o que leva uma mulher a ter algo como um ataque histérico disfarçado de possessão mediúnica. Um parente, diz, sarcástico: “O marido separou-se dela porque costumava encontrar fantasmas na cama”. Religião “fake”, misticismo “fake”, espiritualidade “fake”... Fellini falava disso tudo. Os católicos se incomodavam porque ele ironizava a religião; os marxistas se irritavam porque lhes parecia que o diretor dava a ela demasiada importância.
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