domingo, 3 de junho de 2018

4353) A space-opera mitológica de Samuel R. Delany (3.6.2018)



A chamada “space opera” (leia-se Flash Gordon, Star Wars, Star Trek etc.) é um dos subgêneros mais populares e mais esnobados da ficção científica. Aventuras de espaçonaves se comportando como bombardeiros ou caças das nossas Guerras Mundiais: perseguições emocionantes, desembarque em planetas de fauna exótica e civilizações belicosas. Narrativas cheias de wham!, bang!, booom! E tudo o mais.

É curioso que tenha sido a fórmula explorada em sua fase inicial da carreira por Samuel R. Delany (1942-), um dos autores mais eruditos da New Wave dos anos 1960 na FC norte-americana; talvez o cara que popularizou o uso da palavra “semiótica” no vocabulário do gênero.

Nova (1968) é o nono romance escrito por Delany num espaço de seis anos, começando com The Jewels of Aptor (1962). É uma space opera com os mesmos elementos de aventura, suspense e melodrama-sob-controle que a gente encontra nos livros de Alfred Bester, que ele aponta como um dos criadores do gênero.

Nova se abre, inesquecivelmente, num “bar de astronautas”, onde o pessoal bebe, conta aventuras e mente desbragadamente. O Bar dos Astronautas é o equivalente moderno do “bar dos marinheiros” da ficção tradicional. E em Nova o capitão Lorq Von Ray sai catando uma equipagem heterogênea entre a turma que está naquele cais-do-porto espacial.

Como nas histórias tradicionais de piratarias e de aventuras, o capitão “pega no laço” meia dúzia de cyborg studs, como são chamados os impulsionadores das naves. Eles pilotam com a mente; plugam-se a cabos grossos ligados a um controle. Todos têm algo como enormes portas-USB na face interna dos pulsos e na base da coluna vertebral. Plugam-se nos transmissores e mandam ver.

A idéia de pilotagem com a mente aparece no conto clássico “The Game of Rat and Dragon” (como resultado de uma simbiose entre seres humanos e gatos), de Cordwainer Smith, grande contista meio esquecido. E outros, certamente. A idéia não era nova mas era ousada, era mais um passo na direção da realidade virtual dos cyberpunks que surgiriam quinze anos depois.



Numa entrevista a Charles Platt, em 1979 (em Dream Makers, 1980) Delany explicava seu gosto pelas velhas fórmulas da space-opera, mesmo sendo tão sofisticadamente teórico na análise dos textos.

Não vejo isso como uma contradição em termos. Se fosse, eu não conseguiria fazer. Gosto de verdade da estrutura básica da space opera, esse território básico onde ela acontece, um território que contém inúmeros mundos e que existe como um conjunto de centros que se relacionam uns aos outros. Nosso pensamento já sofre uma organização pesada para ser gravítico, linear. Basta essa imagem básica de diferentes mundos inter-relacionados para cancelar toda aquela coisa metafórica de em cima & em baixo, superior & inferior. Deste modo existe um aspecto bom no perfil básico da space opera, e eu gosto de liberdade que isso nos permite.

O capitão Lorq Von Ray tem menos de 30 anos e foi criado numa colônia chamada New Brazillia. Ele explica a sua equipe pegada na rua que a missão deles é bem simples: aguardar a explosão de uma estrela prestes a tornar-se “nova” (explodir) e mergulhar nela, pois só nas condições especiais desse momento é possível recolher uma quantidade milionária de illyrium, o metal mais raro do universo.

Falei antes em Alfred Bester, o autor de O Homem Demolido (1953) e The Stars My Destination, ou Tiger! Tiger! (1956). Delany tem a mesma vivacidade de escrita, a vividez da sugestão visual ao leitor, e tem uma certa facilidade para misturar cultura alta e cultura baixa.

O Tiger! de Bester era uma variante FC da vingança do Conde de Monte Cristo, mas havia muito mais coisas; a narrativa saltava de um vasto painel para outro. É essa a lição dele que Delany traz para esse livro.

Em Nova, temos o mito de Prometeu (de ir “buscar o fogo celeste”), que Ray Bradbury abordou em “Os frutos dourados do sol” (1953); mas depois de dez páginas o leitor está tão mergulhado na história que não precisa ficar traçando paralelos. Não é um paralelo: é um mero pretexto mitológico para que a misão-impossível pareça fazer sentido.

Nova foi escrito entre Atenas e Nova York, durante umas férias-carregando-pedra do jovem autor (tinha 26 anos então). Logo nos primeiros diálogos os personagens falam em turco e logo mudam para o grego, e por isso suas frases estão todas umas com as outras se parecendo. “These gentlemen their lunch you give.” O estilo Yoda de jogar o verbo para o fim pode neste livro não ter sido inventado, mas ele certamente popularizado foi. “Not to good going to be is. Out of practice am.” (Nova).

É também na entrevista a Charles Platt que ele faz esta advertência, sobre o perigo de um neófito qualquer se meter a escrever dentro de um gênero que nem aprecia nem conhece.

Você tem que saber o que são aquela histórias antigas, e o que significam, para poder dizer algo que seja realmente novo, porque, se você não as conhece, o que você vai acabar dizendo são as coisas antigas, sem perceber.

E ele tem outra proposta bastante clara:

Toda ficção é propaganda, e a ficção que a gente gosta é a propaganda na qual a gente acredita, e a que a gente não gosta é a propaganda em que a gente não crê.

Enquanto não chega o mergulho na “nova”, Lorq conta a um e a outra episódios de sua vida e delineia aos poucos a gigantesca competição de sua família (que é do sistema das Plêiades) e a de um casal de irmãos zilionários, do sistema de Draco.


(The Mouse toca "syrynx" para a tripulação de Lorq Von Ray)
(ilustração: sky hndx: 
  
A ação é interestelar, mas tem até uma festa a fantasia em Paris e um resgate nas montanhas nevadas de Katmandu. É uma civilização pós-terrestre, onde tripulantes de nave jogam xadrez, botam Tarô, e alguém se queixa de que a Terra inventou o Tarô mas ficou para trás, não acredita nele.

Tem um personagem, Katin, que está escrevendo um livro e a toda hora liga um pequeno gravador-de-mão para teorizar (mas sempre dizendo algo que faz sentido). Tem o Mouse, o típico personagem delanyano que é meio clown, meio marginal, meio andarilho ou, para permanecer na alusão aos romances de piratas, o grumete esperto. Ele toca a syrynx, um instrumento que é uma mistura de gaita de foles com sintetizador eletrônico e projetor holográfico.

Neste livro a prosa de Delany está mais aventuresca e mais fluente do que em outro livros seus igualmente bons. A linguagem é brusca, precisa, tem gírias e wisecracks quando os personagens pedem, fala de ciência, fala do formato das sociedades.

Eu sempre acho que quando uma sociedade começa a se fazer em pedaços você tem um vislumbre melhor de como ela realmente funciona, quando as coisas não estão em céu de brigadeiro, porque grande parte dessa superfície está ali para esconder o modo como as coisas de fato acontecem (entrevista a C. P.).

Delany, Bester, Cordwainer Smith são alguns autores em cujas mãos a space opera deixa de parecer um desenho de Hanna Barbera para pré-adultos e vira um gênero literário tão interessante quanto os romances de terror de Stephen King: a situação pode ser clichê, mas as pessoas a quem ela acontece são pessoas interessantes, e por causa delas a gente compra o pacote completo.

Não só eles: entre os mais recentes eu citaria David Zindell (Neverness) e Dan Simmons (Hyperion). São praticantes hábeis do que Brian Aldiss chamava “o Barroco em Cinemascope” (“widescreen baroque”).

Fica ainda melhor se além disso o autor tiver uma imaginação descontraída para inventar gadgets tecnológicos e teorias científicas. Digo “descontraída” no sentido de não precisar de 40 páginas tentando empilhar argumentos pra fazer a gente acreditar que aquela nave viaja mais rápido que a luz. Não precisa. Sabemos que é impossível, queremos é ouvir a história.









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