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sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

5021) Algumas leituras de 2023 - 3 (12.1.2024)

 

(Algumas leituras do ano passado, alguns dos livros que achei marcantes por variados motivos; sem nenhuma ordem especial. Como sempre, incluo apenas livros que li do começo ao fim. Se eu fosse incluir todos os livros bons que comecei mas não li por completo, não ia ter espaço que coubesse.)
 


 
O corpo encantado das ruas (Civilização Brasileira, 2023), de Luiz Antonio Simas
O Rio de Janeiro que me atrai, e que mais me ensina, não é o do Pão de Açúcar, é o da Pedra do Sal. O Rio se divide entre a Rua e o Resto. O que mantém coesa esta cidade partida é sua cultura das ruas, o caldeirão fumegante de heranças e memórias, o canjirão farto e compartilhado, de coração aberto, com quem compartilha de coração aberto. Esta coletânea de crônicas é um pequeno clássico contemporâneo, já em 12ª. edição; Simas é um dos que mexem nesse caldeirão, e sei que posso chamá-lo de “professor de rua”, no sentido em que existem “músicos de rua”. Trabalhando sem pausa na zona crepuscular entre a memória oral-familiar-grupal e o ensino formalizado pelas escolas e pelas editoras, Simas é um dos muitos operários da missão de explicar “uma cidade fundada para expulsar franceses que um dia resolveu ser francesa para esconder que é profundamente africana”. 
 
 


“Un episodio en la vida del pintor viajero” (2000), de Cesar Aira
Aqui no Rio de Janeiro há um fã-clube informal deste escritor argentino, mas todas as vezes que me aproximei em busca de informações fui gentilmente escorraçado sob o pretexto de ser um leigo total. Fico feliz em afirmar que tal obstáculo foi removido. Este livro curtinho e intenso relata (glosa, amplifica, interpreta) um evento trágico na vida do pintor Rugendas, muito conhecido aqui dos brasileiros, mas que também viajou pintando por toda a América Latina. Cruzando o pampa argentino, Rugendas sofreu um acidente com seu cavalo e ficou com o rosto totalmente despedaçado, sendo forçado a usar máscara e a tomar doses enormes de morfina e outros remédios. César Aira conta essa história como uma espécie de delírio psicodélico desse alemão que entrou para a História do Brasil. 
 



Lunário Encourado (Itatiaia, Ed. do Autor, 2022), de Adiel Luna
Adiel é violeiro, embolador de coco, enredador de rimas, mestre-pastor de palco embandeirado, e tudo o mais que se imaginar; inclusive autor deste livro que Pedro Américo, na contracapa, descreve como “uma narrativa com 20 cantos ou movimentos”. Numa série de poemas com formatações variadas, mas sempre dentro da prosódia sertaneja, ele constrói passo a passo a vida de um vaqueiro, usando com abundância a terminologia local. Tal como Elomar Figueira de Melo, tem a precaução de acompanhar tudo com um glossário em doses medidas, página a página. Mais que um longo poema, é uma longa suíte de canções de apartação, de vaquejada, de cavalo rompe-mato, de namoro e dança. Como diz o narrador a certa altura (p.79): “Meu branco, regule! Tem cousa que munta gente diz: não consta no mundo. Já ôto chega e dí: -- Consta no mundo!”. 



Nací (Je suis né) (2022), de Georges Perec
Todo ano faço minha romaria à obra de Perec e leio um livro que não conhecia ainda. Li este ano Nasci, na tradução espanhola (Anagrama, Barcelona). É livro póstumo (Perec morreu em 1982), reunindo material inédito e disperso. Alguns textos são textos preparatórios para sua memória W ou a Memória da Infância (1975). Há transcrição de uma carta dele a Maurice Nadeau (um dos historiadores do Surrealismo), na qual ele enumera os projetos em que trabalha na época (1969); uma entrevista a Frank Venaille, e outros artigos curtos sobre literatura e memórias. “Los lugares de uma fuga” narra na terceira pessoa um episódio em que um garoto (ele) foge de casa, mas só se lembra disso depois de adulto; é calmo e arrepiante. “El salto en paracaídas” é um longo monólogo de improviso (gravado ao vivo, numa reunião, em 1959) em que ele compara o lançamento de uma revista a um salto de paraquedas. 
 
 
 
A arte do nevoeiro indelével (Campina Grande, Papel da Palavra, 2023), de Maxwell F. D.
Tenho observado cada vez mais a convivência pacífica, principalmente nos livros dos novos poetas, entre o verso livre/branco e o verso metrificado/rimado. Desde que me entendo de gente vejo um dos dois convidando para a missa de 7º. dia do outro, e por sorte continuam vivos e bulindo. Como vivem e bolem neste livro de estréia de Maxwell F.D., onde as formas fixas convivem em paz com o verso solto, algumas brincadeiras gráficas e trocadilhísticas, mas sempre denotando algo essencial e que nem sempre está presente em quem publica livros: o gosto pela palavra, a curiosidade pela palavra, o sabor de manejar a palavra e indagar tudo que ela pode dizer: “a luz que tinha era pouca / bruxuleava a chama / donde a fumaça emana / onde há fumaça há fogo / então vou lá descobrir / cavar, olhar, confundir / ao deixar tudo desnudo / eu sem querer clareei / as incertezas do mundo”
 


 
Chêne et Chien (1937), de Raymond Queneau
Outra romaria anual me leva todo ano à obra de Raymond Queneau (1903-1976), o intelecto mais bem-humorado da literatura francesa, que tende a ser tão constipada. O título “Chêne et Chien” alude às palavras de que se origina seu nome de família: “carvalho” e “cachorro”.  O livro é descrito pelo autor como um “romance em versos”, e é uma espécie de autobiografia psicológica numa série de poemas de formatos variados: livres, metrificados, com e sem rima. Queneau reconta sua vida com auto-ironia, e há uma sequência de poemas em que ele se reporta aos seus anos de psicanálise, de forma impagável: “E vejam que esse sacripanta / quer me fazer pagar por estas sessões. (...) Eu, o doente, insisto / em julgar esse psicanalista: / é um sedento, um rapinante, / um pobretão ávido de lucro / uma ratazana cheia de audácia / um salteador de estradas!”. 
 



O irreal e a suspensão da credulidade (Arribaçã, 2023), de W. J. Solha
W. J. Solha é um poeta privilegiado, um sibarita das letras, pois (ele mesmo o confessa) sua enorme e excelente produção literária é bancada integralmente por um circunspecto funcionário público, o bancário Waldemar José Solha, a quem o Banco do Brasil muitos serviços deve. Sua série de poemas-livro, caudalosos, whitmanianos, faz uma espécie de recenseamento das correspondências, relações, filiações, ecos e diálogos entre a pintura, a religião, a poesia, a história... Tenho comentado todos eles em meu blog, e este aqui é mais uma catadupa de imagens, de descobertas, de premonições: “E a humanidade – sempre antevendo o apocalipse – se sente, agora, a um lapso de ser eliminada pela Inteligência Artificial, / como o Homo Sapiens fez com o / Neandertal. / É a Terra se encaminhando / a seu objetivo / final”. 
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/10/4990-o-real-irreal-de-w-j-solha-9102023.html
 
 
 
Os gatos quando os dias passam (Ed. 34) – Thiago E
Livro de poemas com tema único é sempre um desafio arriscado. Sinto um livro de poemas como algo que vai aos poucos se ramificando em várias direções, ao invés de convergir para uma só. E atesto que Thiago Eh saiu-se com láureas dessa tarefa de encontrar novos dizeres e novas maneiras, em cada um desses poemas dedicados à raça alienígena que devagarinho está nos amansando. Como ele diz: “sem ser notado, um gato te acompanha / desde o parto – escondido pelo sangue / entre ombros e quadris em crescimento / fortaleceu alguns grupos de músculos /das pernas, do abdômen e dos braços / a fim de pôr teu corpo em quatro apoios / no chão, e assim brincar equilibrista / a criança descalça, hoje esquecida / que um felino lhe deu coordenação / quando bebê, enquanto nem podia / sequer supor o mais vago sentido / desta infantil palavra: engatinhar.” 
 


 
The Housekeeper and the Professor (2003), de Yoko Ogawa
Está sendo publicada aos poucos no Brasil a obra desta escritora japonesa. Ogawa tem uma forma oblíqua e interessante de contar suas histórias. Em muitos casos, elas abordam a relação entre uma mulher mais jovem e um homem mais velho, cada vez com diferentes dosagens de adoração, sadomasoquismo, vassalagem. Neste caso, uma governanta precisa cuidar de um cientista que sofreu um acidente e só lembra o que lhe aconteceu na última hora e meia. A dependência mútua entre eles cria uma afetividade gradual e distante, numa dinâmica relatada com voz impassível, e bruscas surpresas de vez em quando. 
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/10/4991-empregada-e-o-professor-12102023.html
 



Fábulas cabulosas e outras histórias subversivas (Rocco, 2022), de Henrique Rodrigues
O título dá uma idéia bastante próxima dessas historietas em que o autor revisita, da maneira irreverente, as mais conhecidas histórias infanto-juvenis, arrancando-as da noite aconchegante de seu contexto folclórico e trazendo-as, cara amassada, cabelo em desalinho, olhos piscando, para o meio-dia implacável do mundo atual. Atualizar histórias infantis tem sido um passatempo das décadas mais recentes, inclusive no campo da fantasia e do horror. Henrique Rodrigues as leva para o campo da crônica urbana atual, e as recheia com todo o linguajar (e conceitos) que atulham as redes sociais. De um lado temos Pinóquio, Branca de Neve, Pequeno Polegar e outros personagens, e de outro o jargão lacratório das redes: suas aventuras estão polvilhadas de “empoderamento”, “pertencimento”, “autoajuda”, “inclusivo”, “desconstrução”... O contraste entre arquétipos e clichês sempre rende boas risadas e boas reflexões. 
 

Transversais (Belém, Floresta Urbana, 2023), de Adriano Abbade
Uma das coisas que o Modernismo de cem anos atrás nos explicou foi que poesia lírica e registro prosaico podem ser complementares, fortalecendo-se mutuamente: a proximidade e o contraste faz ressaltar o que cada um tem de sensorial e de concreto. Adriano Abbade alterna poemas que lembram certas “notícias de jornal” de Bandeira ou Drummond, resgatando a beleza crua do banal da vida, e poemas de delicada percepção visual e sonora: “a poesia não está nesses versos / mas na cena que estes pretendem evocar / fim de tarde numa fazenda / generique miles davis a rolar / depois do vinho e da ganja / hae-mi levanta-se querendo dançar / despe o casaco / e a blusa branca / com as mãos cria uma ave /e tensiona com ela voar / seios beijando o vento / braços qual asa a planar / nua da cintura para cima / corpo de gaze aspirando ao luar / balé sem lastro / neste atordoante som / a leste cai a noite / em dourado azul neon.” 
 



Era apenas um presente para o meu irmão (Todavia, 2023), de Bruno Ribeiro
Um dos crimes mais cruéis da história recente da Paraíba? Pode ser, mas a concorrência a este título é tão grande que é preferível usar o termo consagrado junto à imprensa e ao público: “a Barbárie de Queimadas”. Em fevereiro de 2012, nessa cidade, um filho de uma família importante local ofereceu uma festa de aniversário ao irmão, e convidou algumas moças bonitas da cidade. O que elas não sabiam é que havia um “presente” para o aniversariante: no meio da noite, um bando de encapuzados invadiu a festa e começou uma longa sessão de estupros, de que o aniversariante e o organizador participaram. Duas das moças acabaram sendo mortas a tiros. Bruno Ribeiro usou este episódio para escrever uma reportagem corajosa (eu pelo menos não teria tido coragem de escrevê-la) sobre o mundo de hoje. 
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/09/4979-barbarie-de-queimadas-692023.html
 


Veja também:

Algumas Leituras de 2023 - parte 1

Algumas Leituras de 2023 - parte 2 


 






terça-feira, 6 de setembro de 2022

4860) Zazie no Metrô (6.9.2022)




Zazie Dans le Métro (1959) foi o livro de maior sucesso do romancista Raymond Queneau. Um sucesso meio improvável deste autor que foi tudo em sua vida literária, menos “previsível”, “regulamentar”, “mainstream” e “formulaico”.
 
Este último adjetivo até que se encaixa. Ninguém manipulou e pedicurou as fórmulas literárias tão habilmente quanto Queneau. Não para servir-se delas visando um bestsellerismo qualquer, mas para exibi-las, comentá-las, denunciá-las molequemente. Afinal, foi ele quem escreveu o hilário e santilário Exercícios de Estilo, contando os mesmos dois parágrafos de historiazinha  de acordo com 99 fórmulas diferentes.


 
Zazie parece ter batido no paladar do público francês por uma confluência de motivos. É a história de uma garota de 11 anos que mora no interior e vai passar o fim de semana em Paris, no apartamento do tio, enquanto a mãe vai folguedear com um namorado parisiense. Zazie é descolada, desbocada, despachada e desobediente. Fala palavrão pra caralho. Foge do apartamento para conhecer o metrô (mas este está em greve!), mete-se em grandes cafusões, mete os adultos em cafusões ainda maiores. É uma personagem meio inesperada e (para seguir a fórmula das resenhas da época) “conquistou com seus modos impudentes mas encantadores o coração de toda a velha França!... “



O segundo motivo é que Louis Malle lançou já no ano seguinte o filme homônimo, uma comédia pastelânica, amalucada, irmãosmarxista, que toma muitas liberdades com a história original, o que é ótimo. Fazer um filme de um romance é também traduzi-lo. Há mais coisas em comum do que se imagina. 
 
O terceiro motivo é que Queneau aproveitou essa moldura bem sessão-da-tarde para fazer do livro um campo de experimentação do que ele chamava de “néo-français”: uma adaptação fonética e descontraída da língua francesa, cheia de neologismos e coloquialismos, além de dar saltos imprevisíveis por diferentes registros de estilo de uma frase para outra.
 
O francês é considerado uma das línguas mais formais e mais rígidas do mundo, das menos afeitas à mudança. É como um bordado renascença. Se daquele jeito está bonito, é para continuar sendo feito assim por mais 200 anos, sem mexer em nada. Queneau regaçava as mangas e dizia: “Nada coisa nenhuma, vamos mexer sim senhor.”


Num dos seus melhores livros de ensaios, Bâtons, Chiffres et Lettres (Gallimard, na edição da 1965) ele inclui um longo texto sobre sua teoria do neo-francês, “Écrit en 1955”. Ele cita Voltaire (“A escrita é a pintura da voz; quanto mais parecida, melhor”) e Proust (“Nossa língua é apenas o resultado da pronúncia errada de línguas mais antigas”). Cita a experiência feita por um produtor de TV, que entrevistava escritores famosos e a certa altura dizia que a gravação tinha terminado – o intelectual começava então a falar numa língua natural, descontraída, conversacionista, um tomaladacá num tetatete entre gente de verdade.
 
Ele cita a observação do franco-cubano Alejo Carpentier (trad. BT):
 
Estou cada vez mais convencido de que o diálogo, tal como é escrito nos romances e nas peças de teatro, não corresponde nem um pouco à mecânica da verdadeira linguagem falada (não falo nem das palavras, mas do movimento, do ritmo, do modo real de discutir, de berrar, do modo como uma idéia se emenda ou não se emenda a outra). Aos poucos, depois dos primeiros romances do gênero “realista”, acabamos nos habituando a uma espécie de realismo mecânico, uma espécie de fixação convencional da fala, que não tem absolutamente nada a ver com a fala verdadeira. Existe em nossa linguagem falada algo muito mais vivo: mais desalinhado, mais arrebatado, com mais mudanças de movimento, uma sintaxe lógica que nunca foi verdadeiramente captada.


 


 
Eu tinha duas traduções de Zazie: a de Irène Monique Harlek Cubric (Rio: Rocco, 1985) e a portuguesa de Alexandre Rodrigues (Círculo de Leitores, via Portugália, 1974). E li agora a de Paulo Werneck para a Cosac Naify (2009).
 
Zazie é uma dessas obras ao mesmo tempo impossíveis de traduzir e divertidas de tentar. Toda literatura baseada em trocadilhos, aliterações e assonâncias verte mal para outras línguas. Quem tentar manter o sentido perde os fonemas, e no caso desses efeitos os fonemas importam até mais que o sentido. É respirar fundo, tomar um gole e seguir em frente. Por outro lado, a proliferação de neologismos e invencionices verbais convida à dança. E o tradutor fica todo animado.
 
Impossível traduzir (ou ler) Zazie sem reconhecer o tempo todo que é um livro lúdico, um livro brincalhão, um livro livre e leve como um livro às vezes deve. 



A primeira (e famosa) palavra do original refere-se, enigmaticamente, ao mau cheiro de que um personagem reclama em voz alta, no meio da multidão suarenta de uma estação de trem. A frase francesa “normal” seria D'où (est-ce) qu'il pue donc tant?  Queneau recorre a toda hora a essas fonetizações, escrevendo o francês como os franceses o pronunciam, e que geralmente não tem muito a ver com a maneira como o escrevem. (Deve ser o idioma com mais letras mudas que há no mundo.) 
 
As traduções citadas acima, respectivamente como IMHC, AR e PW:
 
Doukipudonktan? (RQ)
Pômakifedô. (IMHC)
Donde parte este cheirete?  (AR)
Dondekevemtantofedô? (PW)
 
Como se vê, não há “a tradução certa”, e cada tradutor toma suas liberdades. Neste exemplo, o tradutor português desmanchou a palavra numa frase, num caso claro de tentar facilitar para o leitor. (E todo mundo faz isso, em algum momento.)
 
Algumas coisas são relativamente fáceis de traduzir, pois Queneau fonetiza em francês e é só fonetizar em português. Algumas soluções são tão óbvias que parecem consensuais: eu vi aqui a palavra “zatamente” (=exatamente), que eu uso de vez em quando, assim como “’pressionante” (=impressionante). É um jeito espontâneo da voz alta, mesmo que nem todo mundo fale assim.
 
PW traz a cada instante termos como tendi (=entendi), bojolé (=Beaujolais), rapibársdei tuiú (=apibeursdè touillou, no original), djins (=bloudjinnzes, no original)...
 
Como sempre, cada tradutor mexe onde lhe cabe. Na tradução de IMHC, o personagem Trouscaillon vira Bagalhães. A garçonete Mado Ptits-Pieds é mantida assim por PW, vira “Mada dos Pés Pequenos” em AR e “Madô-Pé-Miúdo” em IMHC. Eu, por exemplo, poderia traduzir por “Madô Pezinho”.
 
Essas notas apressadas falam apenas do vocabulário em si, mas o grande desafio de traduzir Queneau é que ele, neste livro mais que em outros, usa um variado repertório de “tons de voz”. Ele parodia a fala dos publicitários, a dos advogados, a dos locutores de TV, a dos conselheiros sentimentais, a de personagens literários... E insere esses pedaços de frases-feitas, frases-fritas, de linguagem fossilizada, facilizada, dentro do discurso normal, sem dar mais explicações, assim como o locutor que vos fala está fazendo agora, de maneira tão fluida que os linguistas futuros coçarão as carecas tatuadas para entender “que diabos querr dizerrr isto”.



Algum leitor pode meter os pés e dizer: “Deus me livre de ler um livro tão intelectual, onde é preciso ser PhD em literatura e linguística para entender!”. Pois apriore não entendeu nada, não capitou. Queneau é paródico, tal como Millôr Fernandes é paródico, como Luis Fernando Verissimo é paródico, como Paulo Leminski (o Leminski trocadilhesco e caricaturista de Catatau) é paródico. É um livro feito com a pena da gréia e a tinta da zuêra.
 
E afora isto tudo, ele conta a história de uma geração pós-guerra, forçada a crescer num mundo novo e sendo criada por gente velha. Zazie é apenas dois anos mais velha do que eu. Pertencia à geração do Antoine Doinel que Truffaut mostrou em Os Incompreendidos (“Les 400 Coups”, 1959), garotos que furtam uma máquina de escrever para comprar cigarros e gibis, e vão parar no reformatório.
 
Zazie conta, meio casualmente, que a mãe dela matou o pai dela a machadadas porque o pai abusava da filha. Daí que Zazie fica hospedada na casa do “tio Gabriel” e descobre que ele ganha a vida dançando de drag-queen numa boite gay, mas ele é casado com a misteriosa Marceline (ou será Marcel?) e se recusa a ser chamado, como ela o chama, de “hormossessual” (que ela não sabe direito o que é).
 
O clímax do livro é uma briga num bar-da-madruga (Les Nyctalopes), onde Zazie e sua turma dimaior enfrentam os mais rudes dos inimigos: garçons franceses!... Há um quebra-quebra-guabiraba generalizado, tropa de choque, mortes por metralhadora, fuga da polícia e tudo o mais. É um mundo novo – e Zazie com 11 anos parece estar mais à vontade nele do que todos os adúlteros que tentam protegê-la, enquanto reclamam que a pirralha fala muito palavrão. Palavrão o caralho.






terça-feira, 6 de julho de 2021

4721) "A Morte em seu Jardim" (6.7.2021)



Olha que beleza de tradução para o título do filme de Luís Buñuel La Mort En Ce Jardin (1956). Os catadores de lêndeas me enviarão telegramas expressos, caríssimos, informando que gramaticalmente deveria ser “A morte neste jardim”. Acontece que no filme, que acabo de ver pela primeira vez, tem muita morte, e jardim nenhum: é só um enfeite poético.
 
É um dos filmes mais obscuros de Luís Buñuel, e sempre despertou minha curiosidade por ser sua única colaboração com outro dos meus autores favoritos, Raymond Queneau, que, alguns anos antes dele, fez parte do movimento surrealista parisiense dos anos 1920.  
 
Queneau saiu da França e passou duas semanas no México com Don Luís, colaborando no roteiro. Buñuel, em suas memórias, tem uma recordação das mais simpáticas de seu trabalho junto ao “pai de Zazie”. O roteiro que acabou nas mãos de Queneau tinha sido oferecido a Jean Genêt, o que diz bem da loteria de idéias que é o cinema profissional.
 

(Buñuel + Queneau) 
 
O filme tem duas metades tão distintas quando um Lado A e um Lado B: a Vila e a Floresta.
 
Na primeira, vemos uma área de mineração de diamantes onde um governo latino-americano autoritário oprime os mineiros e sufoca suas rebeliões desorganizadas. Por entre greves, revoltas, tiroteios, fuzilamentos, a força das circunstâncias forma um grupo de pessoas que fogem do exército.
 
O grupo tem Shark, um aventureiro cheio de recursos (Georges Marchal); Djin, uma prostituta bonitona e enganadora (Simone Signoret); Castin, um garimpeiro que está juntando diamantes para montar um restaurante quando voltar à França (Charles Vanel); sua filha Maria, bonita, surda e muda, protegida o tempo inteiro pelo pai (Michele Girardon); e o jovem e idealista Padre Lizzardi (Michel Piccoli).



Na segunda parte, esse grupo em fuga se perde na floresta, perseguido pelas tropas (eles tinham explodido um quartel, matando vários soldados), e começa a ocorrer dentro dele um jogo de poder, de ameaças, de traições, enquanto eles tentam alcançar a fronteira, ou pelo menos um rio que possam cruzar com alguma balsa improvisada..
 
Existe a crise social que coloca de um lado governo, empresas mineradoras e exército, e do outro os trabalhadores e os “independentes” em geral, como o padre e a prostituta. Tipicamente de Buñuel, não existe nenhum personagem que possamos ver como herói. Mesmo os que executam gestos nobres têm mais de uma motivação. Buñuel é do tipo que aceita a maldade humana como um dado obrigatório da realidade, mas desconfia sempre da bondade.
 
Em termos da obra do diretor, a primeira metade do filme, com suas tensões sociais entre patrões e empregados, se assemelha muito ao filme que ele fez imediatamente antes, Cela s’appelle l’aurore (1955), enquanto na segunda, com o grupo perdido na jângal amazônica, há elementos de Robinson Crusoe (1952) e do Anjo Exterminador (1962), em que um grupo isolado da civilização reverte lentamente à barbárie. As cenas de tiroteio urbano que encerram o Anjo, aliás, parecem tiradas da parte inicial deste filme.



Um dos prazeres de quem vê um filme de Buñuel, mesmo os que ele fez de maneira mais indiferente, no México, é descobrir aqui e acolá as imagens buñuelescas, que lembram o surrealismo.
 
Uma das mais fortes deste filme é a imagem da cobra que é morta e comida pelos fugitivos, quando estão a ponto de morrer de fome. Buñuel mostra uma imagem da pele vazia da cobra, depois do repasto, coberta por uma colônia fervilhante de formigas vermelhas.


Na fuga, eles encontram os restos de um avião caído na jângal. Encontram comida e bebida (champanhe quente, bebida no meio dos mosquitos). E roupas. É quando vemos Simone Signoret, que até então estava enlameada, desgrenhada, roupa em farrapos, surgir com vestido negro decotado, vestido de noite, coberta de jóias e diamantes achadas entre os defuntos da aeronave. Esta cena (e seu desfecho) é uma das mais buñuelescas do filme inteiro.
 
Em suas memórias (Meu Último Suspiro) Buñuel recorda elogiosamente uma pequena cena escrita por Raymond Queneau, que infelizmente “dançou” na montagem final. Djin, a prostituta, vai fazer compras no armazém. Pede isso, aquilo, e uma barra de sabão. Nesse instante, recebem a notícia de que um batalhão do exército está chegando à vila, para sufocar a rebelião. E ela diz: “Não, peraí, me dá seis barras.”  Com a vila cheia de soldados, claro, o trabalho vai aumentar.



A relação “tapas e beijos” entre ela e o aventureiro Shark me lembrou a dos personagens de Julie Christie e Warren Beatty no McCabe and Mrs. Miller (1971) de Robert Altman, que vi dias atrás. É a atração-com-atrito entre homens e mulheres explorados, calejados, meio ingênuos, meio canalhas. Personagens complexos, como os que a gente encontra em qualquer zona do baixo meretrício; muito além dos bons-e-maus do folhetim e dos dramas “sociais” com intenções doutrinárias.
 
A certa altura, um personagem começa a queimar cartões postais para alimentar a precária fogueira que eles acendem no meio da floresta; um cartão-postal de Paris à noite se anima, vemos as luzes piscando, os faróis dos carros em movimento. 

E no instante seguinte lá vai o postal para o fogo. Como a coroa de espinhos em Viridiana (1961), como o violoncelo em O Anjo Exterminador (1962). Simbolismo da civilização sendo destruída pela barbárie? Buñuel dava de ombros para o simbolismo. As imagens dele iam direto ao inconsciente coletivo. Todo “simbolismo” é racionalização a posteriori, é tentativa de domesticação do relâmpago que nos inquietou.


Alguns críticos dizem que este filme é um dos menos interessantes de Buñuel. Como tantos outros de sua fase mexicana, é um filme de ação constante, narrativa bem encadeada, personagens que suscitam um permanente interesse. Falta-lhe talvez o anarquismo e o niilismo dos seus grandes filmes surrealistas.
 
Buñuel recorda em suas memórias:
 
Durante a rodagem de La Mort En Ce Jardin, junto ao lago de Catemaco, o chefe da polícia local, que limpara vigorosamente toda a região, ao ver que o ator francês Georges Marchal gostava de armas e de tiro, convidou-o, como se tratasse de algo perfeitamente natural, para uma caça ao homem. Era preciso ir no encalço dum assassino conhecido. Marchal recusou com horror. Algumas horas mais tarde, vimos os policiais passarem e o chefe informou-nos negligentemente que o assunto já estava encerrado.
(Luís Buñuel, O Meu Último Suspiro, Lisboa, Distri Editora, trad. Maria Helena Santos; p. 228)
 
André Breton tinha razão; o surrealismo é apenas uma região onde o real e o fantástico deixam de ser percebidos como opostos.
 
Na última cena do filme, os dois únicos sobreviventes do grupo emergem da floresta e avistam o lago, em cuja margem oposta está o Brasil. É o seu caminho de fuga. Um cínico pode vir a considerá-lo um dia o final mais trágico em toda a filmografia de Luís Buñuel.



 
 





segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

4537) Leituras 2019 - 3 (30.12.2019)




Encerrando as minhas anotações dos livros que li este ano, tenho aqui alguns títulos de obras que li ou reli depois de muito tempo. Este é um detalhe interessante, porque a gente lê um livro aos 25 anos e passa o resto da vida achando que já leu e que pode passar adiante. Nem sempre. Ninguém ouve um álbum de música (um disco realmente bom) uma vez somente. Um bom disco nos leva a revisitá-lo com alguma freqüência. Tudo bem que um disco dura uma hora, se tanto, e a leitura de um livro pode demorar muito mais. Mas a nossa lembrança do livro também precisa ser oxigenada de vez em quando.

Vão aqui, portanto, alguns títulos do Fantástico, ou do Insólito, ou da Ficção Científica, que não me incomodarei de reler daqui a mais alguns anos.



Tales of Neveryon (1978), de Samuel R. Delany.
O livro é de “Espada e Feitiçaria”, quando seria melhor descrevê-lo como “Espada e Economia Política”. Os contos interligados deste volume mostram uma sociedade escravocrata, no começo da sua história escrita, e mostra a enorme complexidade social, psicológica e política desses mundos pré-alfabeto. Sua abordagem dessas questões é comparável à da “Trilogia da Fundação” de Isaac Asimov, e mostra que um livro não precisa “pertencer” à ficção científica para descrever e interpretar cientificamente um mundo imaginário.



Les Fleurs Bleues (1965) de Raymond Queneau.
Este livro deveria ser incluído em toda lista de fantasias clássicas sobre o tempo.  Talvez não o seja porque não corresponde à estrutura clássica de uma aventura onde um personagem  se envolve num conflito que precisa de uma resolução. Um roteirista de Hollywood talvez se perdesse nesta narrativa onde dois indivíduos, separados por séculos, sonham que são o outro, e toda vez que o sonho de um se interrompe o do outro começa. Cidrolin, na Paris do século 20, e o Duque de Auge, na Idade Média, são duplos ou reflexos um do outro, e suas pequenas aventuras, que na têm nada de heróico, correm em paralelo – sendo que a história do Duque, a cada reiteração, está algumas décadas mais à frente, pulando de século em século, até no trecho final do romance ele aparece em Paris, com sua armadura, seu francês arcaico, seus escudeiros e seu cavalo falante. Os livros de Queneau são gostosos de ler mas devem ser difíceis de traduzir, pela exuberância de trocadilhos, arcaísmos, jogos de palavras, alusões históricas e outras referências obscuras, que mesmo assim não atravancam  a narrativa.



The Stepford Wives (1972), de Ira Levin.
Este romance curto e preciso me surpreendeu por sua economia narrativa, e me agradou pela semelhança estrutural com outro livro famoso do autor, O Bebê de Rosemary. Num subúrbio norte-americano, um casal jovem tenta se integrar à vizinhança de empresários bem sucedidos e suas esposas bem maquiladas, até que a mulher (uma feminista em botão) descobre a conspiração masculina que pretende transformar todas elas em robôs obedientes. É uma ficção científica narrativa com a estrutura revelatória de um conto de horror, onde uma personagem fica o tempo inteiro dizendo a si mesma que só pode estar ficando louca, que pessoas normais jamais seriam capazes de conceber e executar um plano tão diabólico... e a certa altura ela percebe que a “boa notícia” seria que de fato estava louca -- porque a conspiração é real.



Aura (1962), de Carlos Fuentes.
Um aspecto que muitas vezes fica em segundo plano na literatura fantástica latino-americana é que ela tem de um lado um Realismo Mágico fundamentado na mentalidade mágica, mítica, mitológica dos povos pré-colombianos, e pelo outro lado existe um Fantástico que busca inspiração nas práticas mágicas européias como o ocultismo, a alquimia, as artes divinatórias como o Tarô, a magia ritual, etc.  O choque entre Europa e América no século 16 não foi apenas do racionalismo europeu contra a mentalidade mágica indígena: foi também a pororoca entre os canais de contato com o sobrenatural que os invasores e colonizadores trouxeram consigo. Aura é também uma história de duplos e de reflexos – no caso, de uma mulher muito idosa que consegue projetar uma imagem física e palpável de si mesma, para seduzir um rapaz de quem ela precisa para cumprir uma tarefa. Aura traz também uma “aura” junguiana com sua narrativa de uma mulher que seria a encarnação de uma anima, um espírito vital feminino a cujo fascínio um homem não consegue resistir; e sua ambientação é quase expressionista, explorando uma mansão decadente, sombria, onde a iluminação é escassa e tudo se revela através de gritos, de sussurros, de ruídos, de passos, de perfumes, do toque de mãos no meio das trevas.



Del Amor y Otros Demonios (1994), de Gabriel Garcia Márquez.
Em relação ao livro de Fuentes é (como dizia o matuto) “uma coisa muito parecida, mas completamente diferente”. É a história do endemoninhamento de uma infanta, filha de um nobre decadente, que se suspeita ser vítima da hidrofobia e do vudu dos escravos negros. Seus acessos aterrorizantes de autoviolência física e de blasfêmia verbal levam a Igreja local a ordenar um exorcismo, e o padre exorcista, coitado, acaba se apaixonando (muito compreensivelmente, aliás) pela pré-adolescente que não era mais do que uma menina indomável que o desprezo dos pais levou a ser praticamente criada pelos negros da senzala. Um dos aspectos interessantes da narrativa é o prólogo em que Garcia Márquez explica que o enredo lhe surgiu a partir de um fato real que cobriu para um jornal em seu tempo de repórter – e o “fato real” que ele descreve é mais fantástico do que o livro inteiro. Que, inclusive por este detalhe, é um primor.




334 (1972), de Thomas M. Disch
Pertence ao subgênero da FC que pode ser descrito como “pesadelos das megalópoles num futuro próximo”, cultivado brilhantemente por J. G. Ballard, John Brunner, e outros. Disch descreve a vida cotidiana em torno de um enorme edifício residencial nas primeiras décadas do século 21, ou seja, hoje – num romance escrito nos anos 1970. “Romance” é um modo de dizer, porque Disch conta várias histórias paralelas, de famílias cujas vidas se entrelaçam. Ele examina essa Nova York do futuro não sob a ótica das inovações tecnológicas (que são poucas e discretas), mas das mudanças sociais provocadas por políticas de seguros, de emprego, de habitação, de estudo. Um romance mainstream ambientado no futuro, por assim dizer. Um bloco narrativo curioso envolve uma espécie de videogame ou RPG ambientado na Roma Antiga, que a personagem acessa através de drogas, e a respeito do qual ela se informa com um profissional que é meio psicólogo, meio consultor especializado. Outro bloco descreve as artimanhas de funcionários de um grande hospital para a venda clandestina de cadáveres recentes a pervertidos.




The Cosmicomics (1965), de Italo Calvino
Italo Calvino é talvez o autor mais bem informado cientificamente entre os muitos europeus recentes que cultivam um certo fantástico fabulatório, o que inclui algumas obras de Umberto Eco, Raymond Queneau, Salman Rushdie, José Saramago, Kazuo Ishiguro, Michel Houellebecq, e certamente inúmeros outros. Digo “bem informado cientificamente” do ponto de vista do leitor padrão de ficção científica: em suas Cosmicômicas, Calvino descreve a criação do Universo do ponto de vista de alguns seres primordiais que estão vagando pelo espaço desde as primeiras fusões de elementos pesados que dão origem às estrelas, seres que se comportam exatamente como italianos médios vivendo suas vidas cotidianas, suas brigas de vizinhos, seus problemas conjugais, suas disputas profissionais. Esta série de doze contos curtos (há uma sequência, T Zero, que ainda não li) é uma fusão incrivelmente bem sucedida entre a espantosa escala galáctica e supra-galáctica de (por exemplo) Olaf Stapledon e qualquer relato bem humorado da vida urbana da Itália moderna. É como se o Universo, em sua escala macro, fosse habitado por personagens de Federico Fellini.










domingo, 13 de outubro de 2019

4512) Para quem a gente escreve? (13.10.2019)




É uma das perguntas que nos fazem nas entrevistas: “Para quem o senhor escreve?...”

Em geral eu corto o nó górdio dizendo que escrevo para mim mesmo – falo de coisas que me interessam, eu mesmo faço críticas e levanto questões, eu mesmo procuro dar respostas e expor argumentos. E me dou por sortudo quando vejo que tem alguém que acaba lendo e gostando.

Quando a gente está publicando num jornal ou revista de grande circulação, ou para um público muito distante, sempre surge uma dúvida. Deve-se explicar certos conceitos ou não? Deve-se explicar quem foi Fulano, quem foi Sicrano?  Ou basta dizer o nome? Será que os leitores vão saber?

Se eu escrevo um artigo para um público em geral posso dizer algo tipo: “O romance de hoje talvez não precise do excesso de realismo de Flaubert, e aparenta se contentar com menos”.

Imagino que a maioria dos leitores tenha pelo menos uma idéia aproximada de que “Flaubert” é Gustave Flaubert, o autor de Madame Bovary, grande romancista francês do século 19.

Mas com um nome menos famoso convém dar pelo menos uma pista: “Por outro lado, ninguém precisa fazer como Wallace e dedicar duas páginas inteiras à descrição de um ambiente”.

Dizer “Wallace” não bastaria, se estou de fato me referindo a David Foster Wallace, o autor de Graça Infinita; hoje, com Google e tudo o mais, a gente pode citar o nome completo e presumir que o leitor realmente interessado pode dar uma busca e satisfazer sua curiosidade, desde que a pista seja suficiente.

Já me reclamaram por escrever referências tipo “o filósofo alemão Nietzsche”, com o argumento de que “todo mundo sabe que Nietzsche foi um filósofo alemão, e explicar essas coisas é paternalismo”. Não acho. Pelo menos no meu público leitor, tem muita gente que não sabe, o que não é nenhum demérito. Eu não sei quem são metade dos autores que meus amigos citam, e não me acho burro por isto.


(Raymond Queneau)

O escritor francês Raymond Queneau pegou a certa altura da vida uma tarefa assombrosa, a de coordenar a Encyclopédie de la Pléiade, uma coleção gigantesca de informações coletadas sobre todas as áreas, ampliando em muito a respeitável tradição de Diderot e d’Alembert, os enciclopedistas do século 18.

Não sei quantos volumes acabaram saindo. O único que tenho é o volume 1 da Histoire des Littératures, que inclui as “Littératures anciennes orientales e orales”. São mais de 40 colaboradores, num volume de 1.700 páginas, fazendo resumos de literaturas nacionais que vão desde a egípcia à bérbere, desde a coreana à bizantina.

A quem se destinavam esses livros?

Num folheto explicativo lançado em 1956 pela Gallimard (editora da Enciclopédia), ele explica ao leitor alguns problemas com que se defrontaram:

Analisemos um por um estes obstáculos. Primeiro, as palavras. Pode ser que um leitor se incomode caso encontre palavras como periélio, anastomose, estrofóide; ou, pelo menos, esta é uma suposição plausível por parte do editor. Por sua vez, o mesmo leitor, o leitor real, reconhecerá de boa vontade que ignora o significado delas. Por outro lado, pode-se supor que ele sabe o significado de paralelepípedo, antibiótico ou radar, mesmo que o conhecimento real que se esconde por trás de cada uma dessas palavras seja com frequência bastante pobre. Onde fica, então, a linha divisória? É muito difícil de determinar. Supõe-se que alguém saiba o significado de hexágono, elétron ou célula; no caso de eclipsóide, mésotron ou gene, já não é tão óbvio; e com símplex, spin ou neotenia já nos afastamos bastante da linguagem comum e corrente.

Por essas e outras não custa nada dar, no correr do texto, pelo menos uma idéia do que a palavra significa naquele momento, até porque pode ser um neologismo, uma palavra de invenção recente, com que o leitor não se deparou ainda.

Uma coisa é falar de ficção científica num fanzine que só é lido pelos aficionados, e outra é republicar o mesmo artigo numa revista de circulação nacional. Claro que é preciso revisar o que foi escrito, e contextualizar muitas informações.

O problema é que muitas vezes qualquer autor se sente numa zona de conforto excessiva, se sente muito à vontade diante do seu público-alvo e acha que não precisa explicar coisa nenhuma.

Um exemplo disso, dessa camaradagem implícita que acaba irritando um leitor casual, eu acabei de ver num artigo de Jonathan Lethem na revista Granta (#86, Summer 2004), “Two or Three Things I Dunno About Cassavetes”.


(John Cassavetes)

Lethem é um escritor que admiro bastante, escreve FC, escreve romance fantástico e “mainstream”. Neste texto, ele analisa o cinema de John Cassavetes, que é mais conhecido como ator (O Bebê de Rosemary, Os Doze Condenados, etc.), mas foi um dos mais importantes diretores do cinema independente dos EUA.

Lethem começa seu artigo descrevendo um casal que entra num cinema-poeira no centro de uma cidade, numa sessão da tarde, num dia de meio da semana, com o cinema quase vazio. O casal senta e assiste o filme. E no segundo parágrafo, Lethem começa a comentar:

Eles acabam de ver um filme de John Cassavetes. Eu diria que não importa muito saber que filme foi, mas eu sei que vocês sabem que não me refiro a um dos filmes ruins dele, um daqueles que a gente evita falar a respeito, aqueles bem do começo ou bem do final  da carreira; ou, isso mesmo, nem sequer aquele que não é grande coisa, aquele que ele escreveu e dirigiu, estrelando sua maior atriz, sua esposa, mas que ele não levou muito a sério, e por falar nisso você também não. O homem e a mulher acabaram de assistir um dos grandes. Você sabe a que filmes eu me refiro, aqueles que mudam sua vida. Um que você jamais esquecerá onde estava quando o viu pela primeira vez ou como foi a sensação de vê-lo, um que fez você ficar pensando “Mas o que diabo foi isto? Preciso ver isto novamente. Quem é esse tal de Cassavetes?” Não, eles assistiram aquele de que tanto tinham ouvido falar – aquele sobre a família, os amigos, os irmãos, os atores, aquele sobre o homem e a mulher. (Trad. BT)

Pois é. Não acho que Lethem deveria ter escrito diferente, o texto é dele; não acho que deveria ter enchido seu parágrafo com asteriscozinhos explicatórios. Ele deve ter do público da Granta uma noção mais veraz do que a minha. Mas esse trecho é um exemplo muito bom de quanto alguém escreve para seus coleguinhas, aquele texto de fã para fã, cheio de piscadelas cúmplices, onde se diz só meias palavras porque do outro lado da folha de papel só tem bons entendedores.

Para quem escrevemos?  Eu diria que cada texto tem um público em mente, e é isso mesmo, tem que ser assim. O que não impede que de vez em quando a gente se equivoque, como quem vai de bermuda e havaianas para um jantar da diretoria da empresa, ou de black-tie para uma arquibancada de futebol.


(Jonathan Lethem)