Mostrando postagens com marcador Antonio Cândido. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Antonio Cândido. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

5149) As anotações finais de Antonio Cândido (3.2.2025)




(Gilda de Mello e Souza e Antonio Cândido)
 
 
No ano passado chegaram à web duas belas homenagens a Antonio Cândido (1918-2017), sociólogo, ex-professor da Universidade de São Paulo (USP), e um dos grandes críticos de literatura de sua geração. 
 
Um filme mais profissional, feito pelo veterano Eduardo Escorel, e outro mais intimista, mais coloquial, tendo como foco as conversas de Cândido com sua neta. 
 
Este último é O Avô na Sala de Estar: a prosa leve de Antonio Cândido (2024), e tem algo de filme doméstico que antigamente era rodado no formato Super-8 para ser exibido nas reuniões de família, ou enviado a parentes distantes para amenizar saudades. São pessoas trocando idéias, checando lembranças, respondendo a pequenas curiosidades. A direção é de Marcelo Machado e Fabiana Werneck, que acompanham as conversas entre o professor, então com 91 anos, e sua neta Maria Clara Vergueiro. 
 
O segundo filme, Antonio Cândido: Anotações Finais  (2024), dirigido por Eduardo Escorel, é mais elaborado como narrativa. Ele recorre às anotações dos cadernos pessoais que Cândido manteve a vida toda, uma espécie de diário íntimo onde ele comentava o mundo, registrava fatos do dia e da vida política, pregava fotos e recortes. 
 
O texto surge na voz de Mateus Nachtergaele, como substituto da voz de Cândido. Muito plausível e bem encaixada, em termos de dicção, pronúncia, gravidade e ritmo. A voz flui em paralelo com a página manuscrita, onde a caligrafia é solta, segura, legível, e se encadeia sem esforço ao fluxo do pensamento. 



 
Com mais de 90 anos de idade, Cândido queixa-se das pernas, e o filme mostra as calçadas paulistanas por onde ele caminhava todo dia, mas cada vez menos.  Ele comenta, com a curiosidade distanciada de cientista, a diferença do “ser” com o corpo em repouso, quando tudo parece estar normal-como-sempre-foi, e o corpo em movimento – quando os problemas começam a aparecer. 
 
Muitas das rememorações de Cândido se referem à família, à infância. A memória dos velhos é como um gramado onde logo se veem os caminhos muito percorridos. Percorrê-los mais uma vez os traz de volta à existência compartilhada, ao mundo das coisas verbalizadas, coletivas. Cândido nasceu em 1918, e a história de sua vida de rapaz, de estudante, de professor, de autor, está o tempo inteiro costurada aos fatos da História do Brasil. 
 
“O pai de Vovó Mariana enriqueceu no tráfico [de escravizados]”, informa ele, aduzindo em seguida que o dinheiro dessa atividade do bisavô não chegou à mãe. 



 
Cândido lembrava de maneira recorrente, ao discutir literatura, que sua formação era de Ciências Sociais, e que para ele a literatura não se limitava a questões estéticas, precisava ser vista em conjunto, no seu modo de brotar naquele lugar e naquele momento. Cabe ao crítico (e ao leitor) entender o como, o por quê e o para quê de uma literatura assim. 
 
Toda literatura é um acordo entre o coletivo e o individual. Todos nós escrevemos para o nosso tempo, inclusive quando queremos escrever contra ele, ficar livres da presença dele. 
 
Ninguém é moderno em 360 graus, na verdade. Ninguém é ousado em todas as direções. Cândido lembra que um iconoclasta como Baudelaire era moderno pela temática, pelo vocabulário, pelos seus retratos escandalosos da sociedade, pelo uso de drogas, pelas perversões sexuais – mas Baudelaire escrevia sonetos tradicionais e impecáveis, e poemas longos que eram classicamente rimados e metrificados.  
 
Não admira que as gerações seguintes, os Mallarmés, os Maiakóvskis, procurassem explodir também essas formas. “Sem forma revolucionária não existe arte revolucionária”. Tinham razão, porque cada um escrevia para o seu tempo. Todo vanguardista numa direção é conservador em alguma outra. Em literatura, ninguém incendeia uma floresta; no máximo, pode atear fogo à própria árvore. 
 
Curiosamente, Cândido confessa nas Anotações Finais que a poesia, embora o comova, não lhe produz reações fortes, reações físicas como choro, tremores, etc.  Quem consegue isso (diz ele) é a prosa de ficção. E passa a enumerar algumas das obras que em diferentes idades sucessivas, desde a adolescência, lhe produziram essa comoção física: Os Miseráveis (Victor Hugo)... o Père Goriot (Balzac)... Os demônios (Dostoiévski)... Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa)... 
 
É curioso que um crítico admita esse impacto (que em mim é muito raro, mas já aconteceu, e o compreendo) não na poesia, que parece ser mais emotiva, mas na prosa. Cândido talvez fosse mais sensível a essa perspectiva ampla, coletiva, que no romance é superior à da poesia. Aquilo que chamamos de “os grandes painéis históricos e humanos”.  E não é toda prosa, qualquer prosa: ele próprio afirma que há grandes escritores que não o emocionam assim. Como Machado de Assis: “prende, mas não abala”. 



 
(Antonio Cândido e Gilda de Mello e Souza) 

 
Fiquei fazendo uma conexão entre este trecho e outro depoimento, desta vez em O Avô na Sala de Estar. A certa altura, Cândido faz, para a neta, uma distinção interessante. Ele diz:
 
-- Eu expliquei pras minhas filhas. “Ah, você é mais afetuoso que a mamãe...”  Não. O negócio é o seguinte: eu sou mais afetuoso que a sua mãe, mas sua mãe é mais afetiva do que eu. Eu sou muito afetuoso. Eu encontro qualquer pessoa, “Oooh... como vai... você vai bem...  senta aqui, vamos conversar...”  Sua avó era mais seca. Agora, o sentimento... Sua avó era mais afetiva do que eu. Sua avó gostava muito mais das pessoas. 
-- Era mais emotiva?
-- Emotiva, e afetiva. Eu não sou.
-- Você não liga a mínima!
-- Eu sou muito indiferente pro meu próprio... Sou muito cordial, por isso sou muito afetuoso. “Oh, João, como vai, venha, João, apareça, e tal...” Mas no fundo, é uma pessoa que... Eu sou morno. Não sou nem quente nem frio. Não tenho ódio às pessoas, não quero mal às pessoas, também não quero muito bem. 
 
Do jeito que o mundo anda, em plena exaltação carnavalesca à emoção despudorada, não duvido que daqui a algumas décadas resolvam cancelar Cândido por sua tepidez confessa. Mas a simplicidade corajosa com que ele se descreve me deixa pensando no que diabo as nossas sociedades costumam carimbar como “normalidade afetiva”, e imaginar que, daqui a algumas décadas, pessoas como Antonio Cândido (e talvez eu próprio) venham a ser classificadas dentro de algum espectro psico-divergente, e precisem tomar algum abracadabra farmacêutico. 
 
Talvez seja essa afetividade contida a responsável por algumas das grandes viravoltas na vida do professor. Nos dois filmes que estou comentando ele lembra de forma renitente, reiterada, a figura de Gilda de Mello e Souza, a esposa falecida, e afirma que encontrá-la, conhecê-la, casar com ela foi o fato mais importante de sua vida. O que é normal (imagino) em pessoas que viveram juntas por mais de sessenta anos. E ele sente a sua perda como uma “injusta mutilação”. 



(Gilda de Mello e Souza e Antonio Cândido) 

 
A certa altura, porém, Cândido afirma que seu encontro com Gilda foi acima de tudo um encontro de amizades, e que ele e ela foram amigos durante quatro anos antes de começarem a namorar. Não seria isto um indício de uma afetividade (ou afetuosidade) sob controle?  De uma relação que se constrói no vagar da vida real, e não no arrebatamento das paixões repentinas? A pensar. 
 
Nonagenário, o professor se auto-examina e descreve a si mesmo nestes termos: “Inquieto, tenso, insatisfeito, mas com uma dose forte de bom humor – que não perdi.” Tomara que qualquer um de nós, com mais de noventa anos, tenha a graça de se sentir assim. 
 
 
***
 
 
O Avô na Sala de Estar está no streaming do SESC Digital:
https://sesc.digital/conteudo/filmes/cinema-em-casa-com-sesc/o-espirito-da-colmeia
 
O documentário Antonio Candido, anotações finais já pode ser alugado nas plataformas de streaming Claro TV (antiga NET NOW) e Vivo Play, via Canal Brasil. O filme também entra na programação do canal em fevereiro. 




 





segunda-feira, 24 de julho de 2023

4965) "Explicação": o manifesto de Carlos Drummond (24.7.2023)



 
Alguma Poesia (1930), livro de estréia de Carlos Drummond de Andrade, foi uma estréia discreta, como aliás a de todos os poetas modernistas. Antonio Cândido, num depoimento sobre Graciliano Ramos, no YouTube, lembra aos leitores de hoje que o Modernismo não tomou de assalto a literatura brasileira em 1922. Foi um movimento pequeno, localizado, à revelia do Brasil. Sua importância e sua influência foram se ampliando e se solidifcando muito aos poucos. 
 
Drummond estreou em 1930 com este livro onde já estão presentes muitos dos elementos que ele iria amadurecer e aprofundar ao longo da vida. 
 
Elementos que poderiam na época parecer uma adesão automática a certas táticas modernistas (o poema curtíssimo, o poema-piada, a gramática e a grafia bárbaras das ruas, a ironia, a desconstrução dos ícones românticos e parnasianos), mas hoje, em retrospecto, podemos considerar traços essenciais do autor. Das muitas portas abertas pela agitação modernista, foi por estas que ele se esgueirou com mais espontaneidade. 
 
O Modernismo de 1992 era afeito aos manifestos, às palavras de ordem. Drummond não redigiu nenhum, ao que eu saiba, mas vários poemas deste primeiro livro têm um pouco esse tom de quem dá as cartas, de quem anuncia valores. 
 
É o caso de “Explicação”, que começa lembrando Manuel Bandeira (“Uns tomam éter, outros tomam cocaína, / já tomei tristeza, hoje tomo alegria.”): 
 
Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres,
folha de taioba, pouco importa: tudo serve. 
 
Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.
 
Confesso que não visualizo com facilidade o poeta, com sua calva precoce e seus óculos redondos, pedindo uma bicada no balcão para curtir “o desprezo da morena”. Me soa como uma precoce infiltração sambista, talvez, agarrada a esse ubíquo verbo “cantar”. De mais a mais, a esta altura a intelectualidade e o samba já começavam a passear de braços dados, como registram Hermano Vianna em O Mistério do Samba (1995) e André Gardel em O encontro entre Bandeira e Sinhô (1996). 
 
Meu verso me agrada sempre...
Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.
Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
 
A “cambalhota” soma-se a muitos versos, já presentes neste primeiro livro, em que o poeta se oferece como algo parecido com um clown, um artista de circo, ocupações que a intelectualidade da época olhava com os mesmos olhos com que um intelectual de hoje observa o baile funk. E alguém imaginaria os grandes poetas da geração anterior (Bilac, Cruz e Sousa, Guimarães Passos) apregoando uma cambalhota? 
 
E ficamos com esta última linha, e seu eco inevitável trazendo à memória Cecília Meireles e seu “Não sou alegre, nem triste: sou poeta”, um achado de límpida simplicidade, que logo se incorporou à nossa linguagem falada. 
 
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
 
A sombra das bananeiras! Esta planta, velho símbolo nacional, é insistentemente convocada pelo poeta estreante (v. “Cidadezinha qualquer”, “Fuga”, “Sesta”). Faz parte do nosso Brasil, desde aquele tempo, o hábito de atribuir ao clima tropical e sua flora as características indolentes do povo. 





Mais interessante é a dicotomia que Drummond começa a estabelecer nas linhas seguintes:
 
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola...
saio desanimado...
Ah, ser filho de fazendeiro!
À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,
é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.
E a gente viajando na pátria sente saudades na pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era...
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.
 
Aqui não se trata simplesmente do poder da natureza. O poeta nos oferece algo em troca dela: Hollywood, por exemplo. E Drummond nunca foi imune às seduções do cinema de seu tempo, de Charles Chaplin a Greta Garbo. O cinema aparece aos olhos do rapaz como a promessa de um mundo feérico, onde de vez em quando as aventuras dos cowboys são estragadas pela contaminação bárbara de “uma viola”.





O Modernismo pós-1922 deitou e rolou em cima desses contrastes entre Rural e Urbano – contrastes que o Tropicalismo viria anos depois tonificar, valendo-se de um momento cultural muito mais vibrante no cinema, nas artes plásticas, no teatro, na própria literatura. 
 
A comparação drummondiana entre “a casa de nove andares comerciais” e “a casa colonial da fazenda” são o equivalente, em seu tempo, à “força da grana que ergue e destrói coisas belas”. E o jovem poeta já nos traz esta fórmula sua, que considero uma das mais diretas e inesquecíveis: “No elevador penso na roça / na roça penso no elevador”. 
 
Quem me fez assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices, a maior é suspirar pela Europa
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.
 
Ariano Suassuna, que se recusava a viajar para fora do Brasil, assinaria com entusiasmo esse verso sobre a burrice de suspirar pela Europa. Drummond, na verdura dos 28 anos, pensa muito na Europa em termos das pernas das atrizes, que o cinema começava a propagar e que as ruas de cidades como Belo Horizonte e Rio de Janeiro já se juntavam aos espetáculos das calçadas, do footing ao entardecer.
 
São curiosos estes versos sobre o fato de “ser tudo uma canalha só”. Cada leitor tem seu viés, é claro; eu já tive um tempo em que via nestas linhas uma aconchegante sensação de ser brasileiro como todo mundo. Hoje, nesta conflagrada terceira década do novo século, perto de se completarem os 100 anos do poema de Drummond, já não sei se um dia verei (ou alguém verá), mesmo poeticamente, os brasileiros como “tudo uma canalha só”. Houve uma clivagem brutal nestes últimos quarenta anos. 
 
Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?
 
A pergunta deste final – desabusada, cheia de intimidades – equivale a um pequeno manifesto sem cabeçalho. Tímido, discreto e convencional, por fora, Drummond também sabia ser irreverente, emotivo sem melodrama, menino sem puerilidade. Andando na rua poderia ser tomado por um parnasiano, mas dentro dele (como dentro da poesia brasileira) surgia de forma irresistível essa busca da linguagem direta e simples da rua à sua volta, da admiração franca mas nunca embasbacada diante do cinema estrangeiro, desse interesse pela coisas novas, coisas que podem se multiplicar, sob a condição de que deixem intactas as coisas velhas... 

Enfim: uma contradição que um século depois o país ainda não resolveu. 



sábado, 19 de agosto de 2017

4262) Antonio Cândido e a Literatura Nacional (19.8.2017)





(Antonio Cândido)


Sempre que a gente tenta defender algum tipo de arte do Brasil (literatura, cinema, ficção científica, seja o que for), em diferentes contextos, ouve alguns argumentos recorrentes, que se repetem como se fossem mantras, estribilhos, memes.

Um deles: “Olha, não adianta, foram os gringos que inventaram isso. Eles são muito melhores nisso do que a gente, não adianta querer concorrer com eles, basta comparar o produto deles com o nosso, chega dá vergonha”.

Outro: “Eu não sou nacionalista, eu não tenho obrigação de gostar de uma coisa só porque ela é brasileira. Meu interesse é a grande arte, o melhor produto. A meritocracia artística. Não vou gostar de uma coisa ruim só porque é brasileira.”

Muita da energia mental da minha vida foi consumida em torno dessas duas frases, que aliás são minhas, porque durante muito tempo fui eu que as pronunciei (e de vez em quando ainda o faço), fui que eu defendi essas posições, coberto, se não de razão, pelo menos de sinceridade.

Passemos adiante. No meu tempo de cineclubista, Paulo Emílio Salles Gomes era um professor de cinema da USP, famoso por ter estudado cinema na França, onde escreveu um livro sobre Jean Vigo, o cineasta de L’Atalante. De volta ao Brasil, tornou-se um defensor de cineastas brasileiros que aos nossos olhos não amarravam as chuteiras de Jean Vigo. E fez sobre um deles um livro magnífico: Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte.



Era muito citada naquela época (mal citada, aliás), nos debates, uma frase de Paulo Emílio: “O pior filme brasileiro é melhor do que qualquer filme estrangeiro”. Essa frase me enchia de brios e de perplexidade. Como assim – a obra de Mazzaropi era melhor do que a de Antonioni?!

Muito se discutiu sobre essa frase; aqui (https://www.brasildefato.com.br/node/10496/) está o link para um artigo da infatigável Rô, Maria do Rosário Caetano, em que ela faz um balanço dessa lenda cineclubística. Mas pela parte que me toca o mundo mudou quando algum informante providencial me alertou que não era isso que Paulo Emílio tinha dito. Ele dissera, na verdade: “o pior filme brasileiro diz mais de nós mesmos que o melhor filme estrangeiro”.

Não se tratava de qualidade estética, e sim de revelação de uma identidade.

Se eu sou um mero consumidor, um cara que quer puxar a carteira e escolher o melhor produto, posso exigir Antonioni. Mas se eu sou um criador e preciso entender o sistema onde minha obra vai se instalar depois de pronta, preciso pensar um pouco sobre Mazzaropi.

Não é que Antonioni me seja alienígena e inacessível. É que meu DNA psíquico, para o bem e para o mal,  tem mais de Mazzaropi do que do cineasta de O Eclipse.

Não custava nada a Paulo Emílio, como estudioso do cinema, ter pulado de Jean Vigo para Jean Renoir, ou até para Alain Resnais, não é mesmo? Mas não, ele pulou para Humberto Mauro e todo um exército de paraíbas (somos todos paraíbas, aos olhos europeus) que queriam fazer cinema aqui nesta terra de sobrados e mocambos.


(Paulo Emílio Salles Gomes)

No artigo de Maria do Rosário, que vai muito mais fundo nesta questão, ela transcreve uma glosa da famosa frase, que Paulo Emílio teria pronunciado numa entrevista à revista Cinegrafia (junho de 1974), nestes termos:

“Nós tentamos seguir de perto toda a produção brasileira atual, sem exceção. (…) Isso é uma tarefa laboriosa, difícil, frequentemente ingrata, mas culturalmente muito satisfatória. A gente encontra tanto de nós num mau filme, ele pode ser revelador de tanta coisa da nossa problemática, da nossa cultura, do nosso subdesenvolvimento, da nossa boçalidade (…) Em última análise, é muito mais estimulante para o espírito e para a cultura cuidar dessas coisas ruins do que ficar consumindo no maior conforto intelectual e na maior satisfação estética os produtos estrangeiros”.

Nessa formulação a idéia pode parecer até meio injusta, como se o resultado final de tanto estudo fosse somente o conhecimento da nossa boçalidade. Mas descobrimos virtudes também. Descobrimos talentos nossos que não somente os gringos parecem não ter, como eles próprios admiram com sinceridade, quando tomam conhecimento do que fazemos.

O brasileiro é um bipolar, que vive saltando do ufanismo de Afonso Celso para o complexo de viralata diagnosticado por Nelson Rodrigues.

Uma das direções em que se pode ir para evitar esse desespero esquizoide é a direção seguida por Paulo Emílio. Conhecer o que o Brasil faz – não para amá-lo incondicionalmente por ser “a Pátria”, mas para entender esta imensa confusão de país que somos. Entender o Brasil (= produzir hipóteses plausíveis sobre o Brasil) não deve ser mais difícil do que entender Deus (como querem os teólogos) ou o Universo (como querem os astrofísicos).

E nos faria um certo bem ter a humildade intelectual não só de Paulo Emílio mas de seu contemporâneo da USP, Antonio Cândido, o crítico literário falecido pouco tempo atrás. Ele dizia de nossa literatura:

“Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não há outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; e se não a amarmos, ninguém o fará por nós. Se não lermos as obras que a compõem, ninguém as tomará do esquecimento, descaso ou incompreensão. Ninguém, além de nós, poderá dar vida a essas tentativas muitas vezes débeis, outras vezes fortes, sempre tocantes, em que os homens do passado, no fundo de uma terra inculta, em meio a uma aclimatação penosa da cultura europeia, procuravam externalizar para nós, seus descendentes, os sentimentos que experimentavam, as observações que faziam - dos quais se formaram os nossos”.



Não fazemos isto por simpatia paternal e piedosa para com um bando de coitadinhos que escreviam mal. A experiência humana deles não era inferior à nossa, por mais que nos julguemos civilizatórios e sofisticados porque compramos engenhocas eletrônicas em doze vezes no cartão. Queiramos ou não, o país se parece mais com esses escritores dos anos 1800 do que conosco.

Vi tempos atrás no Facebook uma citação de Gustavo Nagel a respeito de um comentário feito por um autor que não conheço, Jean Bottéro, sobre o “Canto de Débora” (poema do capítulo 5 de “Juízes”) em celebração a uma vitória dos invasores hebreus sobre os locais, e transcrevo:

"Tratava-se apenas de um punhado de homens, microscópicos, perdidos num momento qualquer da história, que lutavam sob a chuva por um lote de terra, sem que a ridícula agitação que faziam tivesse, na verdade, contribuição alguma para o homem e seu progresso, e que permaneceriam, eles e sua agitação, escondidos e esquecidos, como infinitos outros, sob a poeira do tempo, se esse canto imortal não os alçasse a um plano cósmico, universal e eterno, e os transformasse, aos olhos dos leitores, num momento crucial da história do mundo."

Essa experiência humana, anônima e coletiva, geradora de produtos literários, não difere muito da experiência sofisticada de um romancista novaiorquino ganhador do Prêmio Pulitzer ou de um francês ganhador do Nobel. Eles se acham talvez superiores ao que escrevem, mas não o são, porque ninguém o é. Se o que escrevem tem algum valor, ficará. E quem atribui esse valor não são eles, são os leitores, aos quais muitas vezes eles se julgam superiores.


(G. K. Chesterton)

E para encerrar chamo ao banco de testemunhas o volumoso, exuberante e desbocado G. K. Chesterton, que celebrava o Império Britânico com toda a ironia de quem sabia muito bem de que barro ambos eram feitos. Diz ele, num texto de 1908:

“Minha aceitação do universo não é otimismo; parece-se mais com o patriotismo.  É uma questão básica de lealdade.  O mundo não é uma pensão barata em Brighton, que devamos abandonar, de tão miserável que é.  É a fortaleza da nossa família, com a bandeira tremulando no torreão, e quanto mais miserável for, menos devemos abandoná-la.  A questão não é saber se este mundo é triste demais para ser amado ou alegre demais para não sê-lo: a questão é que quando amamos uma coisa, se ela é alegre é uma razão para que a amemos, e se é triste é razão para amá-la mais ainda.  (...) Foi assim que as cidades se tornaram grandes.  Se remontarmos às raízes mais obscuras de nossa civilização vamos encontrá-las enlaçadas em torno de alguma pedra sagrada ou mergulhadas num poço igualmente sagrado.  As pessoas primeiro prestam tributo a um lugar, e depois conquistam glórias em seu nome.  Os homens do passado não amaram Roma porque ela era grande.  Ela tornou-se grande porque eles a amaram.”
(G. K. Chesterton, Orthodoxy, pags. 66-67)








domingo, 27 de setembro de 2015

3930) Ser fã (27.9.2015)




Era um coquetel de lançamento. A certa altura fui à longa mesa coberta de toalhas brancas para devolver ao garçom um morto e receber um vivo. 

Um cara que eu conhecia de vista aproximou-se. Brindamos, lustramos algumas frases polidas encontradas nos bolsos, e daí a pouco ele me veio com essa: “Estou até lhe devendo um pedido de desculpas. Uma vez fiz um mau juízo do seu caráter.”  

Era um cara corajoso, porque na minha terra dizer isso é motivo para execução sem reza. Ainda bem que a barbárie da metrópole me civilizou.

“Mas, por que?!”, exclamei, misturando surpresa e bom humor. Ele disse: “Um amigo nosso me mostrou uma crônica sua em que você escarnece de Borges. Ora, escarnecer do maior escritor do século XX é uma coisa inadmissível, não acha?”  

“Eu, escarneci de Borges?”. Meu espanto não tinha limites. Eu faço piadas até com a minha falecida mãe, quanto mais com Jorge Luís Borges.

“Devo ter dito alguma ironia,” falei, “mas não houve intenção de ofender, eu sou um grande fã de Borges.”  Pensei que isso era o bastante, mas ele voltou à carga: “Não, você não é fã de Borges. Você é um leitor casual. Se fosse fã estava vestido como eu.”  

Só então reparei que, sob o casaco de couro, ele estava usando uma camiseta com a imagem do autor do “Aleph”, uma daquelas fotos dele sentado, com as mãos pousadas sobre o castão da bengala.

Alguém já disse que um fanático é um sujeito que não muda de opinião nem de assunto. O impulso de ser fã – de ter uma admiração incondicional e permanente por algo ou alguém – não está somente em quem gosta de “Star Trek” ou do “Senhor dos Anéis”. Existe também entre os admiradores da arte erudita. 

Basta ver as cerimônias que os fãs de James Joyce realizam todo ano no “Bloomsday”, 16 de junho, o famoso dia em que transcorrem os acontecimentos do livro “Ulisses”. No mundo inteiro o pessoal se fantasia, se reúne em pubs, toma cerveja Guiness, recita e canta coisas relativas a Joyce e à Irlanda. Muitos são eruditos, PhDs, críticos vetustos, autores premiados; mas nesse dia adolescem todos, todos se tornam tão fãs quanto um guri fantasiado com os óculos e a vassoura de Harry Potter.

Já escrevi aqui sobre um depoimento de Antonio Cândido confessando as brincadeiras de fãs que eles e seus colegas, jovens, faziam tendo por tema os romances de Eça de Queiroz. Temos uma tendência a achar que a instituição do “fandom” foi criada por Hollywood, a qual apenas a industrializou e reexportou. 

Fãs, nesse sentido, já eram os estudantes paulistanos que em 1886 foram aplaudir Sarah Bernhardt no Teatro São José, e desatrelaram os cavalos de sua charrete, puxando-a eles mesmos até o Grande Hotel, com a diva dentro.



quarta-feira, 15 de abril de 2015

3789) Crítico ou resenhador (16.4.2015)



(o crítico John Clute)

Antonio Cândido já elogiou com admiração o resenhador de livros, o crítico do varejo semanal, que escreve sobre o que vem parar em cima da sua mesa na redação. Dizia ele: “Não é fácil escrever todas as semanas sobre livros do dia, feitos muitas vezes por autores desconhecidos, a respeito dos quais não se tem a menor referência. Por isso digo que um crítico como Álvaro Lins, que acertava sempre e produzia artigos bem escritos, de grande densidade e destemor, enfrentava dificuldades maiores do que, por exemplo, Augusto Meyer, que escrevia não sobre o livro da semana, de autor frequentemente desconhecido, mas sobre Camões, Cervantes, Machado de Assis, Dostoiévski, Pirandello, Rimbaud.” 

Deve ser mais cômodo trabalhar com os clássicos, ou com textos em domínio público, do que com autores de carne e osso, cheios de opiniões, mas a questão nem é essa. A crítica e a teoria se desvalorizam quando passam longe da literatura. A crônica jornalística impõe a quem a escreve o contato com o inesperado. Escrever sobre um dado que gira e que não se definiu ainda, e que às vezes cabe a nós traçar o seu primeiro perfil.

O crítico John Clute diz: “Acho que a tentativa de captar e definir o que existe de ‘historiável’ em um texto novo, que é o que se espera dos resenhadores, é absolutamente inerente a qualquer compreensão de um texto qualquer. E acho que a crítica acadêmica, que tende a abstrair, em proporções industriais, temas a partir dos textos (numa espécie de mineração), tende a tropeçar logo na primeira barreira: a tarefa de descrever como um conto se livra contando do seu fardo. Porque se você não conseguir transmitir essa parte essencial, esse ‘como’, você só pode discutir em cima de uma generalização fatalmente vazia, desgarrada.” 

Alguns ficcionistas produzem textos críticos muito lúcidos e demonstram conhecer o gênero com que trabalham. Stephen King, Lovecraft, Henry James etc têm inclusive talento para a descrição sintética, resumindo em poucas linhas o sentido ou o impacto de um livro. Autores comentando livros alheios costumam ter uma abordagem mais pragmática, indo direto ao ponto, falando não como autores, mas como leitores.

Dizem que Pauline Kael, a grande crítica de cinema novaiorquina, escrevia aqueles seus comentários agudos e personalistas tendo visto o filme apenas uma vez. Via hoje, escrevia amanhã; os artigos estão preservados nos seus livros. O crítico vive, como diz Clute, como o canário na mina de carvão das coisas novas.  Para acusar de imediato qualquer mudança nas condições normais de temperatura e pressão, ou qualquer outro indicador que faça o ponteiro do novo pular.




segunda-feira, 16 de setembro de 2013

3292) A crítica literária (15.9.2013)






Antonio Cândido já esboçou mais de uma vez a diferença entre o crítico literário acadêmico, que praticamente só lida com os nomes consagrados, e o crítico de jornal, que recebe os livros recém-lançados pelas editoras e tem apenas alguns dias para ler o texto e formar opinião a respeito. 

Essa crítica diária, enfrentando textos de autores novos e ainda desconhecidos, envolve o risco de quem salta no trapézio sem ter por baixo a rede de proteção.



Diz Cândido: 

“Não é fácil escrever todas as semanas sobre livros do dia, feitos muitas vezes por autores desconhecidos, a respeito dos quais não se tem a menor referência. Por isso digo que um crítico como Álvaro Lins, que acertava sempre e produzia artigos bem escritos, de grande densidade e destemor, enfrentava dificuldades maiores do que, por exemplo, Augusto Meyer, que escrevia não sobre o livro da semana, de autor frequentemente desconhecido, mas sobre Camões, Cervantes, Machado de Assis, Dostoiévski, Pirandello, Rimbaud.”  

Escrever sobre os clássicos é mais cômodo, mesmo quando o crítico traz uma visão nova, emite um juízo arriscado, ou se envolve numa polêmica. O clássico todo mundo já sabe do que se trata. É território ainda não totalmente desbravado, mas território conhecido.



O difícil é receber um livro de alguém sobre quem não se tem muita informação – um autor estreante, por exemplo – e se deparar com um texto inquietante, desconcertante, cheio de coisas novas e inesperadas que tanto podem refletir genialidade quanto maluquice. O risco de emitir uma opinião errada é grande. O crítico não sabe como aquele livro vai ser avaliado pelos seus colegas, ou pelo público. Precisa se manifestar. 

Ainda hoje são conhecidos os casos de críticos que num primeiro momento reduziram a pó a obra de Carlos Drummond ou de Guimarães Rosa, e que depois ou se retrataram ou se encarniçaram, por auto-defesa, nessa recusa teimosa.


“O jornalismo crítico é uma grande escola e, de certo modo, um teste importante, requerendo intuição certeira, rapidez de apreensão, capacidade de decidir e clareza de escrita,” diz Antonio Cândido, e continua: “Reconheço em mim um pouco dos requisitos mencionados, que me permitiram, por exemplo, reconhecer imediatamente o valor de três estreantes desconhecidos: João Cabral, Clarice Lispector, Guimarães Rosa. Cometi erros paralelos, dando importância a autores que não a tinham, supervalorizando livros fracos de autores famosos; mas não me lembro de nenhum erro calamitoso, isto é, considerar de primeira plana quem não era ou desqualificar alguém de alto nível. Mas talvez a memória esteja manobrando a meu favor…”






terça-feira, 14 de maio de 2013

3185) Viva o Socialismo (14.5.2013)




(Antonio Cândido)


Uma entrevista recente do crítico literário Antonio Cândido (http://bit.ly/qVH0r1) ao jornal Brasil de Fato andou dando o que falar nas redes sociais, onde há muita gente que ouviu o galo cantar e não apenas não sabe onde, mas desconhece o que seja um galo e o que seja um cocoricocó. Pensa que ouviu a buzina de um carro. 

Cândido afirmou, com a simplicidade com que fala de literatura, que o socialismo é uma doutrina triunfante, porque deve-se a essa doutrina a maior parte das conquistas sociais coletivas do nosso tempo. 

Muita gente acha que “ser triunfante” é conquistar o Poder, a Presidência da República, o Trono, ou então ter mais dinheiro, mais bancos ou mais exército.

Diz Cândido: 

“O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. 

Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo... tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais.”

Se alguém fosse esperar que os capitalistas criassem creches, dessem plano de saúde, garantissem salário-mínimo e carteira assinada, etc., ia morrer ao relento. O Capitalismo só fez essas concessões porque foi pressionado pela ameaça socialista; preferiu entregar os anéis para não perder os dedos. 

O Capitalismo, então, é a encarnação do demônio? Não: é a encarnação do Homem, de seu impulso de criar, de competir, de produzir, de crescer, de ser melhor, de ser maior, de lutar, de acumular e multiplicar. Só que esse é o nosso lado egoísta, individualista, reptiliano. Precisa ser contrabalançado pelo nosso lado gregário, solidário, compassivo, capaz de enxergar os interesses do grupo e não apenas os do indivíduo. Um equilibrando o outro.

Sem o Capitalismo, seríamos um mundo materialmente miserável. Sem o Socialismo seríamos modernos, sofisticados, auto-suficientes, mas capazes de vender a mãe a um bordel e o filho recém-nascido ao tráfico de órgãos, se isso nos proporcionasse um decimal a mais de lucro, uma dose a mais da droga chamada Dinheiro.




sábado, 8 de outubro de 2011

2682) Graciliano e Cândido (8.10.2011)




(Graciliano Ramos e Antonio Cândido)

Circula na Internet (deve estar no YouTube) um vídeo de uma palestra de Antonio Cândido sobre o escritor Graciliano Ramos e sua obra. 

Aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=p3r-dY-0Ows 

Cândido, que deve ter uns 90 anos, é talvez uma das últimas pessoas vivas que conheceram Graciliano pessoalmente. 

Ele narra episódios de sua juventude no interior de Minas, quando ele e outros rapazes que gostavam de ler iam para a estação esperar a chegada do trem, onde vinham as caixas de livros para serem recebidas pelo dono da livraria local. E eles, que não eram bobos, compravam os livros ali mesmo no abrir da caixa, antes que chegassem à vitrine. 

Ele fala da importância das capas modernistas dos livros de Jorge Amado, Graciliano, etc., o quanto aquelas capas com desenhos diferentes produziam neles, jovens, a sensação de um mundo que estava mudando e de uma literatura que era (ironia das ironias!) o anúncio dessa mudança. Hoje, a literatura (não falo da ficção científica) é sempre a última a ficar sabendo.

Uma observação interessante de Cândido diz respeito ao Modernismo, que hoje é muito mais importante do que quando aconteceu. Cândido lembra que os livros modernistas vendiam pouco e eram pouco lidos. Sua influência se expandiu ao longo do século inteiro, mas, na época em que houve a Semana de Arte Moderna, o Brasil leitor a ignorou solenemente. Hoje, a gente fala da Semana como se ela tivesse tido em 1922 a repercussão de um Rock in Rio.

Outra coisa que ele destaca é o fato de que quando falamos em Romance Regionalista nordestino estamos nos referindo aos habituais suspeitos: Jorge Amado, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, José Américo de Almeida, Graciliano... 

Cândido lembra que escritores duradouros como estes surgem por entre outros autores, dos quais, a princípio, não se distinguem. Todos são novos, todos são vibrantes e estão dizendo algo nunca dito; e são todos lidos em conjunto. Com o passar dos anos, acontece uma decantação, uma filtragem. 

E ele diz: “Vou citar para os senhores alguns dos grandes autores dessa primeira fase do regionalismo, e penso que só os professores aqui presentes conhecerão algum”. 

Tiro e queda: dos nomes citados eu só conhecia Permínio Asfora (que ele pronuncia “Ásfora”), de quem meu pai tinha em casa, nos anos 1950, o romance Fogo Verde

E ele cita os demais, livros e autores que foram grandes quando surgiram e já não o são: Amando Fontes, Lauro Otaviano (Gororoba), Aurélio Pinheiro (Macau), Clóvis Amorim (Alambique), João Cordeiro (Corja), Cordeiro de Andrade (Cassacos)... Tirando Cândido e mais uma meia dúzia de macróbios, quem lembra desses heróis, que foram eclipsados por Graciliano & Cia?







quinta-feira, 29 de abril de 2010

1967) Antonio Cândido e as frivolidades literárias (28.6.2009)





(Antonio Cândido)

Jornalistas gostam de elaborar listas dos “Dez Melhores do Ano”, construir tabelas comparativas, item por item, entre dois tipos sociais (“O Carioca x O Paulista”, “O Conectado x O Gutemberguiano”) ou fazer pequenos testes de trivialidades: Em que filme de Hitchcock ele aparece através de uma porta envidraçada? Qual o diretor famoso que faz uma ponta em Contatos Imediatos? Qual o livro de poemas que Anna Karina está lendo em Alphaville?

Uma função dessas brincadeiras é serem brincadeiras mesmo, atividades sem utilidade prática realizadas num contexto de pouca tensão. 

Outra envolve um certo exibicionismo: quer apostar que eu sou mais bem informado do que você, conheço mais detalhes sobre algo que nós dois apreciamos? 

Outra envolve esse fetichismo inocente de quem sente prazer em extrair, de uma obra que lhe dá prazer, a derradeira gota de significado ou de informação, por mais irrelevante que seja.

Em seu livro O Albatroz e o Chinês, num ensaio intitulado “Dos livros às pessoas”, Antonio Cândido faz uma comparação entre as personalidades e os estilos de Machado de Assis e Eça de Queiroz, e relembra seus tempos de estudante e jovem intelectual, num ambiente – princípio do século XX – que comparado ao mundo de hoje é de uma notável sobriedade. Ainda assim essas atividades um tanto frívolas não eram estranhas aos leitores da época. Diz Cândido:

“Machado era menos lido, menos conhecido e menos estimado. Sobretudo, menos incorporado aos hábitos mentais. De fato, muitos sabiam de cor trechos dos livros de Eça e os seus personagens eram comentados como gente viva. No ginásio e na universidade fazíamos estes testes divertidos de conhecimento, como: 

"Quem, e em que romance, é visto com seus bigodes louros no fundo de uma frisa? Qual o personagem cujo alfinete de gravata é um macaco comendo uma pera? Qual a cor da gravata de André Cavaleiro quando jantou pela primeira vez na casa dos Barrolos? Que autor Jorge está lendo no começo d’O Primo Basílio? 

"Machado nunca teve esse tipo de popularidade, por ser menos pitoresco e menos aberto, o que não quer dizer que seja maior ou menor. É uma questão de naturezas literárias diferentes que tornam difícil a avaliação comparativa, como também nos casos de Stendhal e Balzac, Dostoiévski e Tolstoi, Proust e Joyce”.

Esta pequena rememoração dá um perfil curioso da época da juventude de Cândido. Vê-se que os romances de Eça não apenas eram lidos em grupo – ou seja, todo mundo lia os mesmos livros no mesmo tempo – mas eram relidos, quase que decorados, a ponto de ser possível fazer perguntas com esse grau de minúcia, pois se alguém as fazia era porque sabia a resposta, e porque confiava que algum outro leitor as saberia também. 

Uma brincadeira inconsequente que hoje em dia se repete no âmbito de livros como os da série Harry Potter ou O Senhor dos Anéis. Literaturas que despertam o impulso lúdico e afetivo, tanto quanto o intelectual e analítico.





sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

1462) Os dois críticos (20.11.2007)


(João Alexandre Barbosa)

Participei neste fim-de-semana da “Balada Literária” que aconteceu em São Paulo, organizada por Marcelino Freire e Maria Alzira Brum Lemos. Foram numerosos lançamentos, shows, debates, recitais poéticos, etc., mas para mim o ponto alto foi a mesa do domingo, uma homenagem póstuma ao crítico João Alexandre Barbosa que reuniu Antonio Cândido, Davi Arrigucci Jr. e Boris Schnaidermann. Fiquei feliz (e um pouco intimidado) ao ver pela primeira vez em carne e osso, à minha frente, esses três indivíduos cuja obra leio (desorganizadamente, confesso) há cerca de quarenta anos.

Antonio Cândido declarou, a certa altura, que João Alexandre Barbosa foi um personagem da transição do crítico literário de jornal para o crítico literário acadêmico. Ele lembrou que até a década de 1930 não existiam cursos superiores de Letras no país, e os críticos de literatura, quando formados, vinham de áreas como o Direito, e exerciam a crítica através dos jornais. Críticos de jornal foram figuras ilustres como José Veríssimo, Sílvio Romero e tantos outros, até que pouco a pouco começaram a surgir gerações sucessivas de indivíduos formados em Letras, cuja atividade crítica e teórica se dava nas revistas universitárias, nos congressos, nas coletâneas de artigos acadêmicos, e no magistério propriamente dito.

Para Cândido, João Alexandre foi um dos primeiros grandes nomes dessa transição entre a crítica de jornal (mais ensaística, mais “literária”) e a crítica acadêmica, mais rigorosa e investigativa. A geração de Cândido começou publicando em jornal, e depois ascendeu à Universidade; a geração de Barbosa já estreou na crítica acadêmica.

Cândido fez um elogio singelo e respeitoso à atividade crítica de jornal, que ele classificou como “crítica de risco”, porque é feita no calor da batalha, avaliando, meio de improviso, obras de estréia assinadas por autores desconhecidos. O crítico acadêmico, disse ele, muitas vezes se refugia sob o manto protetor de um Camões ou de um Machado. Corre o risco de erro de avaliação, mas não de erro de escolha. Já o crítico de jornal recebe um livro hoje, de alguém de quem nunca ouviu falar, e tem alguns dias para ler e dar seu diagnóstico.

Cândido recordou o dia em que recebeu um livro com o título Perto do Coração Selvagem e não sabia se “Clarice Lispector” era de fato uma mulher ou um homem escrevendo sob pseudônimo. A obrigação de julgar o livro em si pode levar a erros, a arrependimentos futuros (por ter elogiado, ou por ter descido o sarrafo), mas este é um perigo que o crítico acadêmico raramente corre, porque em geral pode escolher seus objetos de estudo. E o mestre da USP criticou uma certa mentalidade que ainda vigora em setores da academia, a de que a Universidade só pode estudar autores mortos, “porque o autor vivo ainda é uma incógnita”. É um recuo estratégico para o terreno do lugar comum; um medo de correr riscos defrontando-se com um texto inclassificável de um autor desconhecido.