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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

5215) As casas velhas da infância (2.1.2026)



 
Havia um ritual noturno, quando eu era menino, que me deixava cheio de importância. Era a hora de botar as trancas nas portas. 
 
Muita gente pode nem se lembrar, mas nas casas daquele tempo já existia um pouco desse medo pânico de hoje em dia, esse medo da invasão e do assalto. Esse medo que enriquece os serralheiros e cobre de grades as fachadas das casas e dos edifícios. 
 
Naquele tempo (eita como eu tenho usado essa expressão!) não se pensava ainda em cercar a casa de grades, como se fosse uma gaiola. No máximo, eram os cacos de vidro pontilhando o muro, que ficava parecendo (era a minha comparação mental) um cemitério de estegossauros. 




O mais prático era reforçar as portas e janelas, por dentro, pois ninguém tinha dinheiro para instalar portas e janelas de madeira-de-lei. E era aí que entravam as trancas. 
 
As trancas são traves horizontais que se coloca por dentro das portas para evitar uma invasão. Mesmo que um intruso apareça com uma cópia da chave, ou consiga arrebentar a fechadura, ele não consegue entrar – ao empurrar a porta, ela esbarra na tranca. 
 
-- Braaaaulio!... Hora de se deitar. Feche a janela dos fundos, e bote a tranca! 
 
Herói medieval, eu fechava as duas folhas de madeira da janela, enfiava para baixo o ferrolho de baixo, subia numa cadeira, enfiava para cima o ferrolho de cima, descia. Pegava a tranca que ficava encostada, em pé, no canto da parede e a colocava transversalmente, garantindo que a janela não abriria para dentro. Depois, fazia o mesmo com a porta. 



Havia dois sistemas. Um deles era o de chumbar dois suportes de metal pelo lado de dentro, e a tranca repousava em cima deles. Outro, que se usava mais nas janelas (quando as paredes eram bastante largas) era o se cavar pelo lado de dentro da janela, no próprio portal, dois buracos frente a frente, à altura do meio da janela. A gente enfiava uma ponta da tranca num deles, e depois a deslizava até encaixar a ponta oposta no buraco oposto. E aí dava uma boa sacudida, para comprovar a segurança. 
 
As trancas eram feitas de madeira, e não eram poucas as que, durante o dia, eu usava como espingardas nos meus tiroteios intermináveis pela casa afora, ora defendendo as tropas de Napoleão do ataque traiçoeiro dos prussianos, ora dizimando índios apaches e iroqueses. 
 
Também usavam-se canos de ferro, que eram o modelo preferido de meu pai. Às vezes ele pegava um cano velho sem serventia, mas sem ferrugem, serrava no tamanho certo e usava como tranca. “Esse aí ninguém quebra,” afirmava ele, seguro como o rei Salomão. 
 
Eu levava muito a sério essas tarefas. Leitor de Karl May e de Conan Doyle (o dos romances históricos, não apenas o dos contos sherlockianos) sabia do quanto um forte precisa ser defendido com unhas e dentes, e sabia que uma janela ou porta cambaia é meio-caminho-andado para que um latagão de peixeira em punho bote aquilo abaixo com duas ombradas, e penetre no recesso de um lar. 
 
Tínhamos medo de arrombadores, embora por mais que eu remexa no baú dos traumas não me lembre de nenhum que tenha acontecido conosco ou com gente próxima. 
 
Naquele tempo (eita) ninguém tinha medo de arrastão, tinha medo dos silenciosos assaltos noturnos, capazes de pegar uma família desprevenida. 



Um dos terrores da infância eram os ladrões que vinham armados de cigarros de maconha. Segundo voz corrente, eles pulavam o muro do quintal à noite, agachavam-se junto à porta (podia ser a da frente ou a dos fundos, tanto faz), acendiam o cigarro da maconha, davam tragadas profundas e depois sopravam a fumaça pelo buraco da fechadura. A fumaça ia se espalhando aos poucos pela casa, narcotizando a família. Então eles arrombavam a porta e carregavam o rádio, a geladeira, o fogão, os livros de aventura... 
 
Fui crescendo e começando a fazer perguntas. A primeira delas foi: “Se basta o sopro da fumaça para adormecer a gente, como é que o cara que fuma o cigarro não adormece?”  A resposta era: “Eles são treinados. Têm uma técnica para isso.” Argumento irrespondível, pelos meus critérios. 
 
As família contra-atacavam. O melhor antídoto para os sopros da maconha (dizia-se) era colocar um copo cheio de água encostadinho na porta , bem abaixo da fechadura. A água absorvia a maconha e evitava que ela se propagasse pela casa. 




(Reefer Madness)


Havia ladrões à solta, todo mundo sabia. Um famoso lá em Campina Grande era um tal de João Cabeludo, que assaltava, matava, vivia sendo perseguido pela polícia. João Cabeludo era ladrão, mas havia um tal de Barba Rala que era um tarado. Ninguém nunca me explicou o que era um tarado, nem por quê ele era perigoso; mas na infância as melhores explicações estão no rosto dos adultos. Quando eles se apavoram, é sinal para liberar o pavor geral. 
 
Daí que, mesmo com todas as portas e janelas devidamente trancadas, restava o teto como elemento imprevisível. As casas em que a gente morava tinham telhado, mas não tinham nenhuma laje ou forro de gesso isolando as telhas do resto do ambiente. De qualquer aposento da casa bastava erguer os olhos para ver a viga principal da cumeeira (a “linha”), as ripas transversais, as telhas por cima delas, arrumadinhas como escamas de peixe. 


 
E se alguém destelhasse a casa?  Não havia uma menção, no Almanaque do Porto (que meu pai colecionava) a um ladrão português famoso, Zé do Telhado? 
 
Sim. O ladrão podia vir munido de uma escada, ou então se subir num dos tonéis do quintal – tonéis de metal, forrados de cimento pelo lado de dentro e cobertos com tábuas, que eram nossa reserva de água.  
 
Dali, era somente subir, e destelhar a casa. Ainda hoje esse verbo, “destelhar” sempre me soa com algo de solerte, sinistro, cheio de más intenções. 
 
Apagadas as luzes, o quarto ficava naquela penumbra. Em noites de lua clara, filtrava-se alguma luz por entre as telhas, a gente ficava vendo aquele quadriculados das vigas e enquanto meus olhos estivessem abertos eu ficava na expectativa de perceber uma telha daquelas sendo arrastada para o lado, quase sem ruído, e depois outra, e outra... até que eu conseguisse ver um quadrado de céu com estrelas, e visse surgir ali a cara malevolente e barbuda de Long John Silver, ou a cara leprosa do capitão Sharkey.  Eu fechava os olhos e dormia. 
 
Claro que havia temores mais realistas, Havia os morcegos, que volta e meia ficavam esvoaçando de um lado para o outro, no escuro, me trazendo à memória os versos de Augusto dos Anjos: 
 
Vou mandar levantar outra parede... 
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho 
e olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho, 
circularmente sobre a minha rede! 
 
Havia as lagartixas, rapidinhas, pressurosas... Inofensivas, dizia minha mão; comem os insetos. (Adiantava MUITO dizer isso!...) Havia as baratas, ratos talvez, fugindo pelos caibros... E os lacraus. Eram lacraus daqueles pequenos, fininhos, cor de mel, habitantes dos buracos no alto das paredes. 
 
Uma noite, um deles caiu. Eu devia ter uns cinco ou seis anos, e dormia no quarto com a minha tia. Senti alguma coisa cair do teto bem junto do meu rosto, bater no travesseiro e fugir às pressas. Dei o alarme, como um Sheldon Cooper que se preza, e pulei da cama. 


(Young Sheldon)
 

Minha tia se levantou, acendeu o candeeiro, expliquei tudo. Reviramos o quarto inteiro, e ela dizia: “não caiu bicho nenhum, isso é manha sua”, procuramos por todos os lados, nada feito. Ela me ordenou que dormisse feito gente, abaixou o lume do candeeiro, e cada qual se deitou em seu canto. 
 
Foi só pousar a cabeça no travesseiro (que eu havia jogado para o alto no primeiro susto) e eu senti alguma coisa se mexendo ali embaixo, alguma coisa viva, presa, raspando, rac rac rac... 
 
Dei um segundo alarme, ela levantou de novo, mas agora eu tinha a prova. Erguemos o travesseiro e lá estava ele, feroz e assassino (ou talvez mais assustado do que nós), aguilhão erguido e trêmulo, pinças tateando o ar. Tia Adiza desceu-lhe o chinelo em cima, esbagaçou o pobre sem dó nem piedade, depois ajuntou-lhe os restos mortais usando os dois chinelos, e os jogou dentro do penico. 
 
Dormi como um santo, porque nada tranquiliza tanto a alma de um indivíduo como perceber que os horrores do mundo são reais, sim, e que ele não está ficando doido. 
 






terça-feira, 24 de outubro de 2023

4995) Cada qual com as suas manias (24.10.2023)



(Seu Nilo)
 
Toda pessoa tem direito a uma mania mansa, uma mania inofensiva, algo que na pior das hipóteses consome seu tempo livre e uma fatia de seu orçamento. Tem gente que coleciona chaveiros, latas de cerveja, cartões postais, selos. Tem gente que coleciona recortes de jornal. Tem gente que anota resultados de futebol, de eleições, de corridas de cavalos.
 
Meu pai era charadista e cruzadista, ou seja, gostava de resolver (e criar) charadas e problemas de palavras cruzadas nas muitas revistas que comprava todo mês, como Brasil Enigmista ou A Recreativa (para ele, Coquetel e congêneres eram para crianças ou amadores.)  Eu contraí esse vírus, e ainda hoje tenho que me conter quando vejo uma “grade” cruzadista pela frente.
 
Por volta de 1960 ele cismou de criar um dicionário de palavras cruzadas, e começou a anotar definições em pequenas fichas pautadas para as quais ele próprio construiu uma porção de gavetinhas de madeira. Não lembro qual era o viés do dicionário; acho que eram palavras organizadas pelo número de letras. Ele dava a mim e a minha irmã Clotilde um “agrado” monetário para a gente copiar definições das dezenas de dicionários que tinha na estante.
 
Aquilo exigia tempo, aquilo ocupava muito espaço, desarrumava a casa, e eu teria uns dez anos quando por motivos que nunca entendi ele desistiu do trabalho e mandou que a gente rasgasse tudo. Eu, que me divertia copiando as fichas, me diverti rasgando-as.
 
Meu pai era expansivo e piadista quando estava de bom humor, mas quando ficava contrariado fechava-se, virava uma ostra, uma esfinge. Cada pessoa tem seu temperamento. O dele era de não fazer confidências, o meu é de não fazer perguntas. Nunca me passou pela cabeça, a não ser postumamente, chegar para ele e perguntar: “Por que o senhor desistiu do dicionário?”.
 
Outra mania que ele tinha era o futebol, e esta eu herdei de corpo inteiro. Ele se entusiasmou loucamente com a Copa do Mundo de 1958, e comprava todas as revistas que traziam matérias sobre a Copa da Suécia: Manchete Esportiva, Fatos & Fotos, A Gazeta Esportiva Ilustrada... (Acho que a Revista do Esporte, em formato menor, só surgiu depois.)
 
Não só comprou como encadernou todas. E para mim a Copa de 1958 (cuja comemoração em tempo real presenciei meio aturdido, porque tinha apenas 7-8 anos) se transformou depois numa aventura literária. Eu pegava um daqueles enormes volumes encadernados, sentava no sofá, e passava uma manhã inteira lendo as detalhadíssimas reportagens sobre cada jogo, com mil fotos, diagramas ilustrativos de cada gol da Seleção, cartuns, piadas, entrevistas... e as páginas assinadas pelos irmãos Nelson Rodrigues e Mário Filho.
 
Em 1961 nos mudamos triunfalmente para a “casa própria”, no bairro do Alto Branco.  Nesse tempo meu pai já tinha tantos livros que a mudança foi feita em dois dias: no primeiro dia, uma camionete levou os livros, e no dia seguinte veio o resto da casa. O primeiro dia foi épico. O Alto Branco era (ainda é) uma colina muito úmida, com muita água à flor da terra, muita lama. A camionete atolou a 100 metros da casa, e atraiu a curiosidade de dezenas de garotos desocupados. Minha mãe, atarefada e expedita, coordenou uma força-tarefa com promessa de níqueis e lanches. A vizinhança ficou assistindo a caravana de guris descalços que sobraçavam pilhas de livros e os levavam ao seu destino final, voltando na carreira para buscar mais.
 
“Ah, Fortuna inviolável!...”  A casa não era muito grande, os livros atravancavam tudo, mas havia uma garagem e meu pai nunca dirigiu carro, de modo que ergueram na garagem uma parede e uma porta. Os livros desceram para lá. A umidade porejava das paredes. Em poucos anos, as coleções de Manchete Esportiva etc. foram sendo corroídas por manchas de mofo. Era um papel-jornal barato, vulnerável. Enormes crateras esverdeadas se abriam no sorriso largo de Vavá, no choro de Pelé abraçado a Gilmar, na calma hitchcockiana de Vicente Feola, no cigarro no canto da boca de Nelson ao comentar “Meu Personagem da Semana”.
 
E a coleção de dezenas de volumes capa-dura foi trasladada melancolicamente para o lixo, enquanto eu reprimia os inevitáveis trocadilhos tipo “o mofo deu”. Meu pai nada dizia (pelo menos na minha frente). Acendia um cigarro e olhava a paisagem.
 
Devo ter herdado um pouco disso tudo, não só das manias como do estoicismo. Não sei onde foram parar as centenas de fichas técnicas de filmes que anotei em meus tempos de cineclube (Diretor/Produtor/Roteiro/Música/Fotografia/Elenco), nem os incontáveis cadernos onde copiava com fervor religioso os jogos do Treze (data/local/juiz/renda/gols do 1º. Tempo/gols do 2º. Tempo/placar final/escalação do time).
 
Perderam-se ao longo das minhas muitas mudanças de cidade em cidade. Espalharam-se com meus livros de bolsos, minhas revistas de contos policiais, meus Argonautas, meus Vampiros, para não falar nas pilhas de Pasquim, Opinião, Movimento, Versus, Flor do Mal, Rolling Stone... Meu tesouro se espalhou pelo tempo afora, tal como o Tesouro de Agra que hoje repousa no fundo do Tâmisa.
 
Quando alguém vem na minha casa e diz: “Puxa vida, você tem muitos livros, e acumula muito papel”, eu respondo baixinho: “Isto é apenas a ponta de um iceberg que derreteu”.
 
Todo maníaco é um obstinado, dizem os tratados médicos. Meu pai não desistiu e durante a década de 1970 iniciou um novo projeto faraônico: o Dicionário do Que, um dicionário inverso que ele datilografou em stêncils e rodou no mimeógrafo-a-tinta que mantinha no quarto dos fundos da casa do Alto Branco.
 
Cabe aqui, para os leigos (as pessoas normais) uma explicação sobre os dicionários inversos. Quando a gente vai resolver uma “palavras-cruzadas”, a gente se depara com uma definição que nos encaminha para a resposta. “Pedra de sacrifício”, é o que nos pedem: e a gente cedo ou tarde descobre que é “ara”. Minha iniciação à obra de Sigmund Freud veio ao descobrir que “o substrato instintivo da psique” é “id”.
 
Ora, muitas dessas pistas se iniciam pela palavra “Que”, esse coringa verbal que é para nosso idioma um problema e uma solução. “Que tem duas pernas” = não demoramos muito a entender que a palavra é bípede. Entretanto, os dicionários comuns são organizados em função da palavras, e não de suas definições. Sem saber a palavra, jamais encontraremos a definição-pista.
 
Vai daí que os cruzadistas dedicam-se a compilar “dicionários inversos”, organizados a partir das definições, e indicando no fim a palavra correspondente. Meu pai se dedicou a organizar todas as definições começadas com “Que...”, um projeto babélico, borgiano. Bem ou mal, ele produziu alguns volumes mimeografados, que distribuiu entre seus confrades da TERNOR (Tertúlia Nordestina), um grupo de aposentados bonachões que se dedicava ao mesmo passatempo.
 
Corta para a década de 1990, eu já morando no Rio de Janeiro, trabalhando como redator da TV Globo. Discutíamos pautas para os programas, e alguém sugeriu uma matéria sobre clubes de decifradores de charadas e palavras cruzadas: “é um pessoal excêntrico, mas simpático”. Eu me ofereci para pesquisar, e certa tarde bati à porta de um desses clubes, numa transversal da Av. Rio Branco. Havia dois ou três senhores conversando, entre poltronas, estantes e um balcão. Expliquei que era da TV (o que sempre produz um alvoroço de solicitude), estava fazendo uma matéria...
 
Mandaram-me sentar, crivaram-me de perguntas. Tive que demonstrar o meu conhecimento do assunto – e olhe, nunca me faço de rogado nesse departamento. Quando falei que meu pai pertencia à TERNOR, soltaram exclamações de familiaridade.
 
– Qual o pseudônimo dele? – perguntaram. (Todo charadista se assina com pseudônimo, mesmo que sua identidade seja conhecida de todos).
 
Respondi:
 
– “Pequeno Polegar”. Ele inclusive compilou um dicionário inverso, chamado Dicionário do Que.
 
Os caras arregalaram os olhos. Um deles foi à estante e não demorou a trazer o volume com capa de papelão, que folheei e reconheci, comovido. Apertaram minha mão, serviram-me cafezinho, responderam tudo que perguntei. A matéria da TV acabou saindo de pauta, mas aquela tarde foi ganha. Não estou sendo demagógico se disser que ver um livro meu na vitrine de uma livraria carioca me dá muito prazer, mas ainda menos do que tive ao encontrar naquela salinha modesta o resultado da mania mansa de Seu Nilo, e a vindicação das muitas noites que passou compilando (sem ambição de glória, sem cobiça de fortuna) o seu livro de areia.
 
 





quarta-feira, 1 de abril de 2020

4565) Eu me lembro XVIII (1.4.2020)




(Angelim)
1
Eu me lembro de uma vez, na infância, em que eu e meu irmão Pedro fomos passar férias em Angelim (Pernambuco), onde meu avô Pedro Quirino tinha uma fazenda, a Broca. Acho que ficamos lá algumas semanas. Meu pai gostava de botar apelidos de brincadeira; o meu apelido era Nego Brola, e o de Pedro, por ser meio rechonchudo, era Gordurinha. Depois de algum tempo que estávamos lá, chegou alguém de Campina Grande com uma carta de meu pai, e ele mandou duas quadrinhas para nós: “Eu aqui nesta cidade / ouvindo o som da viola / fico cheio de saudade / do meu filho Nego Brola”, e a outra: “E recordo em desatino / de manhã, de manhãzinha, / meu filho Pedro Quirino / conhecido Gordurinha”.


2
Minha mãe era religiosa (foi católica, depois virou espírita como a maioria das minhas tias), e meu pai era um agnóstico que na velhice fez as pazes com o Pai Eterno. O agnosticismo dele era mais o do boêmio do que o do filósofo; não se ancorava em reflexões ou em provas conceituais, mas, como o de muitos brasileiros, numa auto-suficiência materialista de quem não tem muito tempo a perder com assuntos invisíveis. Depois que minha mãe passou a frequentar centros espíritas, ele fazia brincadeira, mas nunca questionou o direito dela de fazer o que bem entendesse, contanto que ele pudesse produzir alguma piada a respeito. E assim se equilibravam. Uma vez estávamos na sala, numa manhã ensolarada, eu, ele e minha irmã Clotilde, cada qual lendo na sua poltrona, quando de repente a porta da frente, que dava para o terraço, se abriu sozinha... ficou assim durante alguns segundos... e voltou a se fechar, lentamente. Minha irmã disse: “O que foi isso?!” e ele abaixou o jornal e respondeu: “É algum amigo da tua mãe que foi falar com ela lá na cozinha”. Meu pai também me ensinou uma fórmula que segundo ele era recitada pelas velhas rezadeiras que iam “fazer passes” nas pessoas de nossa família (Comadre Laurinda, Siina de João Congo). Segundo ele a ladainha sussurrada dizia assim: “Se tu tava doente... por que não me dissesse... que eu te curava... com três peido meu... três de Mãe Maria... três de Pai Mateu... torrão, torrão, meu cagalhão”.  E recentemente vi um vídeo curtinho de um recitatório muito parecido com este, só que mais longo, e cheio de palavrões, muito divertido (foto acima).


3
Entre os oito e os doze anos eu detestava ir para o colégio, porque as aulas em geral eram chatas, o terror da nota baixa era constante, a timidez me travava para tudo, até pra comprar o lanche, e o bullying não perdoava (naquele tempo, era comum, numa classe com faixa etária média de 10 anos, ter uma meia dúzia de alunos com 16 ou 18.) Quando chegava o temido mês do início das aulas, eu tinha dificuldade de dormir à noite pensando nisso. Faltam dez dias... faltam nove... faltam oito... E me consolava pensando: “Não! Dá pra aguentar! Em junho tem um mês de férias! E em dezembro tem três meses!”  Isso me animava um pouco. E eu ia mais além: “Ora, é só de segunda a sexta! Vou ter o sábado e o domingo pra ficar em casa, lendo e brincando!”. O moral melhorava mais um pouco. Encorajado, eu insistia: “E tem outra: é só de manhã! Meio dia, eu volto pra casa, almoço, e tenho a tarde toda e a noite toda pra mim!...”  E com essas migalhas de conforto eu reunia forças para todo dia acordar, vestir o uniforme, lavar o rosto com aquela água gelada da torneira e partir para o sacrifício.


4
Eu me lembro da banca de revistas de Henrique, no Calçadão da rua Cardoso Vieira, antes mesmo do calçadão existir. Ela ficava exatamente na esquina com a Marquês do Herval, onde anos depois seria construído o Edifício Lucas. Eu saía do colégio Alfredo Dantas e ia direto para a banca, pegando minhas mesadas acumuladas para comprar revistas e livros de bolso. Comprava muitos livros policiais das Edições de Ouro: Shell Scott, Johnny Liddell, David Goodis, Bruno Fischer, Irving Le Roy... Um dia eu fui lá com minha mãe, comprei um livro, aí Henrique (que me chamava “meu prezado”) olhou para ela e disse: “Tenha cuidado, esse menino lê muito livro de crime, pode virar um criminoso.”  Dona Cleuza encarou ele e disse, firme: “O senhor tá enganado. Ele vai virar escritor.”




segunda-feira, 1 de abril de 2019

4452) A palavra cachéte (1.4.2019)



(ilustração: comprimidos)

Tem alguns termos que eu não acho que sejam necessariamente paraibanos, mas penso neles desse modo porque estão ligados à minha família, meu tempo de garoto, então pra mim são a cara da “Paraíba réa”. Têm uma carga afetiva, e acho que isso tem uma certa consequência filológica, etimológica.

As palavras que têm mais chance de se propagar (e se metamorfosear) etimologicamente ao longo dos anos são aquelas a que as pessoas recorrem com mais frequência, por motivos afetivos, inclusive.

Um exemplo: ninguém hoje em dia deve saber o que é “cachéte”.

(O acento agudo vai aqui para firmar a pronúncia. A gente deve sempre acentuar palavras pouco conhecidas, e que correm o risco de ser pronunciadas erroneamente pelos muitos que nunca as viram. Pelo menos nas primeiras vezes em que as usamos num texto. Danem-se os acordos ortográficos. Ortografia, inclusive de acentos, também pode, e deve, ser vista pragmaticamente.)

Cachéte significa pílula, comprimido, qualquer medicamento nesse formato. Meus pais diziam isso o tempo todo. “Tá com dor de cabeça? Tome esse cachéte.”

Uma vez, quando eu estudava em Belo Horizonte, meu pai teve que ir de Campina Grande pra Brasília com o reitor da FURNe, resolver alguma pendenga burocrática, e combinamos que eu ia passar dois dias lá com ele. Peguei o busão da Cometa e fui conhecer a Novacap. Seu Nilo tinha reuniões durante o dia, e de noite tomava umas e outras. Um dia amanheceu de ressaca, e chamou o bellboy do hotel. Ao abrir a porta, perguntou ao rapaz:

– Vocês têm cachéte pra ressaca?

A cara desacorçoada do rapaz está comigo ainda hoje. Ele disse:

– Ih, senhor... Eu estou por fora de cachéte.

– Cachete, rapaz. Tu sabe o que é. Cachete pra dor de cabeça.

Ele se apegou a essa frágil tábua de salvação e disse:

– Cachete nós não temos, mas eu posso trazer um comprimido pro senhor.

Entra aqui uma questão de ordem filológica. Existe uma diferença (me parece) entre comprimido e cápsula. Uma cápsula é um cilindro miudinho, oco, de extremidades rombudas, dentro do qual há um pozinho medicinal. Sua finalidade é ser engolida e garantir que o pozinho só seja absorvido pelo organismo daí a alguns minutos, depois que a “cápsula” propriamente dita se dissolva. Por quê, não sei, mas minha curiosidade científica só vai até aí, daí por diante é fé mesmo.

Já um comprimido é exatamente isso: um pozinho que foi compactado por alguma pressão enorme até se transformar num circulozinho espesso, duro. A gente engole inteiro e deixa desmanchar.

Voltando à raiz linguística, me ocorre imaginar que o “cachéte” de Seu Nilo vem do francês “cachet” (pronuncia-se “cachê”, como cachê de músico). A palavra vem do verbo “cacher”, que significa “apertar, pressionar, comprimir”, e então vualá! – em português torna-se “comprimido”.

Por algum tempo eu pensei que era o contrário. Pensei que quem deveria com mais justiça se chamar “cachéte” era a “cápsula”. Por que? Porque “cacher” em francês também significa “esconder, recobrir uma coisa com outra para que não fique visível”, etc. E na cápsula o pozinho vem exatamente assim – escondido.


(ilustração: cápsulas)

Vejam o que é o poder etimológico-afetivo de um termo (na composição do idioma a longuíssimo prazo), porque se Seu Nilo e Dona Cleuza não falassem o tempo todo em “cachéte” eu não estaria aqui agora, sessenta anos depois, lembrando desse termo só por tê-lo visto num livro de Raymond Queneau. Não ficaria cavucando um larusse onlaine em busca desse símbolo froidiano.

Quando eu era pequeno, era chato, luxento, exigente. Me recusava a tentar engolir um cachete inteiro, alegando que podia me sufocar. Minha Tia Adiza dava-se então o trabalho de esmagar o cachete com uma colher, reduzi-lo a pó, misturá-lo com uma pitada de açúcar, e me dar na colher, acompanhado de um gole dágua.

Essa infância espoilada teve uma consequência interessante: hoje eu detesto tomar qualquer tipo de remédio, e para mostrar que não sou mais cheio de fricote, sou capaz de aguentar dor por muito tempo. Já aos quinze anos eu cheguei a passar semanas inteiras com um dente doendo e sem dizer a ninguém.

Como é possível? – perguntará a platéia. E eu me lembro daquela piada sobre os dois hippies. Dois hippies estão, alta madrugada, dando uma bola no mato, olhando a lua cheia, junto de uma lagoa infestada de crocodilos. A certa altura da viagem, um deles diz: “Ih, meu irmão... Tou sentindo uma coisa aqui... Um jacaré tá comendo minha perna.” O outro diz, calmo; “É mesmo, rapaz? Qual?”  E o primeiro: “Sei lá, véio... jacaré é tudo parecido...”





sábado, 9 de março de 2019

4443) Eu me lembro XIV (9.3.2019)



1
Eu me lembro das lojas de instrumentos agrícolas que havia na rua João Pessoa, quando eu era garoto e às vezes passava uns dias no apartamento de Tia Adiza, lá no final da rua, no Monte Santo. Em algumas lojas havia tratores vermelhos, com rodas traseiras imensas, muito maiores do que as rodas dos carros, pneus com sulcos profundos e geométricos. O banco do motorista era pequeno, desconfortável, sem acolchoado, mas eu olhava de longe e tudo que eu queria na vida era sentar ali pelo menos uma vez. A cor vermelha era profunda, brilhante. Muitos anos depois, foi a cor desses tratores que me veio à mente quando escutei a canção”Meu Nome é Pablo”, com Milton Nascimento: “Meu nome é Pablo, como um trator é vermelho”. E quando li o famoso poema de William Carlos William, “The Red Wheelbarrow”: “Tanta coisa depende / de um carro-de-mão vermelho / brilhante de água da chuva / entre galinhas brancas”.


2
Eu me lembro que na campanha presidencial de 1960 meu pai torcia pelo general Henrique Teixeira Lott e minha mãe por Jânio Quadros. As pessoas usavam adereços de metal dourado que pregavam na roupa (isso era muito antes dos buttons, que as pessoas hoje chamam de bóttons). O símbolo de Lott era uma espada, o de Jânio uma vassoura. Eram adereçozinhos pequenos, com uns 2 centímetros no máximo, presos à roupa com um broche. Eu torcia por Lott meio por identificação com meu pai, e porque a espada me parecia um símbolo masculino, e a vassoura um símbolo feminino. Lembro também de uma propaganda de Jânio que era um disco fonográfico gravado em cima de um cartaz do tamanho de um livro: a gente colocava na vitrola e ele tocava uma música: “Ele vem aí, não demora não... ele vem aí com a vassoura na mão! / Tanto faz ser de Mato Grosso / tanto faz ser de Macaé / o que interessa é ser bom brasileiro / isso ele é!”.


3
Eu me lembro, ainda no capítulo sobre “espadas”, que eu tinha tamanha idéia-fixa com as histórias de aventuras medievais, fantasia heróica, etc., que os meus dois santos preferidos eram São Jorge e Santa Joana d’Arc, porque eram os únicos santos que eu via vestidos de armadura e empunhando uma espada. Eu também tinha uma devoção por Santa Luzia, de quem tinha uma gravura, uma mulher alva, de roupa preta, segurando uma bandeja onde havia dois olhos humanos. Dizia-se que os olhos dela tinham sido arrancados durante uma sessão de tortura, e por isso ela era protetora da vista. Como eu tinha muito medo de ficar cego, todas as noites, depois de rezar, eu dizia: “A bênção Santa Luzia, protegei a minha vista.”


4
Eu me lembro das peladas no Alto Branco, na beira da estrada; eu teria uns 12 anos e a única bola que a gente tinha era a famosa Bola Verde, que era de plástico e tinha um rasgão, de modo que cada vez que a gente “prensava uma bola” tinha que parar o jogo e desamassar a respectiva com as mãos. Nossa independência começou depois que comecei a trabalhar no Diário da Borborema, com 15 anos, e eu e Severino Brasil, que também trabalhava lá, rachamos o preço de uma bola de couro no. 3, com gomos marrons e brancos, na Casa Esporte, quase em frente à TV Borborema, e descemos eufóricos no fim da tarde pelo Beco dos Bêbos, a rua Alexandrino Cavalcanti, o Ponto Cem Réis, a ponte do canal e a subida do Alto Branco, correndo e trocando passes pelo meio da rua até chegar na casa dele, que era pertinho da nossa.


5
Eu me lembro que meu pai, charadista nato, colecionava uma revista portuguesa chamada Brasil Enigmista, cheia de charadas, palavras cruzadas, rébus, etc. A revista tinha uma seção chamada “Você é o Sherlock”, escrita por Leiria Dias, com pequenos casos policiais cuja narração era interrompida a certa altura. Havia concursos para ver quem deduzia quem era o assassino (e justificava). Publicavam contos também, e me lembro de ter lido uma história de "William Irish" (pseudônimo de Cornell Woolrich) chamada “Prato Frio”, um crime dentro de um elevador enguiçado e cheio de gente.


6
Eu me lembro que minha mãe, costureira dedicada, colecionava uma revista chamada Jornal das Moças, cheia de matérias sobre moda, vida doméstica, beleza, etc.  Tinha também uma seção de piadas, e uma de curiosidades com o nome “Tudo Isto é Verdade”. E tinha uma história em quadrinhos, serializada, em preto e branco: “Mark Taylor”, com as aventuras de um cara no norte gelado dos EUA, ou Canadá. Como eu pegava as revistas fora de ordem, acabava lendo esses quadrinhos como quem pula capítulos rayuelamente, numa ordem totalmente imprevista, mas que não nos impede de montar o quebra-cabeças.

















domingo, 12 de agosto de 2018

4375) Dia dos Pais (12.8.2018)




Eu não sou muito acompanhador dessas efemérides, Dia disso, Dia daquilo. Nem meu aniversário eu comemoro. (Não, não há problemas, nem teorias justificatórias. Questão de hábito, apenas.)

Como hoje está todo mundo nas redes sociais botando fotos e contando episódios (alguns muito bonitos) sobre seus progenitores, lembrei de postar algo sobre Seu Nilo. O pobrema é que todo ano tem essa cerimoniazinha e não quero ficar repetindo as postagens dos anos passados.

Vai daí, reproduzo abaixo um trecho do Capítulo 4 (“Deixa a vida me levar”) do meu romance recém-lançado Bandeira Sobrinho – Uma Vida e Alguns Versos (Fortaleza: Editora IMEPH, 2017). É um retrato 3x4 daquela figura indescritível. (O capítulo prossegue falando da minha mãe, mas quem quiser ler vai ter que encomendar o livro no link abaixo.)



-oOo-

(...)

Algum tempo depois dessa cantoria eu passei uns dez dias em Campina (eu já morava em Salvador, na época). Estava surgindo a possibilidade de ir morar no Rio, porque Elba Ramalho tinha gravado algumas músicas minhas que estavam rendendo direitos autorais. Ir morar no Rio! Eu estava morrendo de medo, se bem que hoje percebo que aquilo não era medo coisa nenhuma, era vontade.

Uma noite minha mãe (quando eu vinha passar uns dias em Campina eu ficava na casa dos meus pais, no bairro do Alto Branco) me disse que ia fazer um bolo porque era aniversário de alguém da família, algum parente que vivia longe; mas tudo na vida dela era pretexto para bolo, etc. E ia fazer um jantar mais caprichado.

Às oito da noite, eu liguei de um orelhão, perto do Bar de Seu Manu.

– Bença, mãe.

– Deus lhe abençoe. Tá aonde?

– Tou aqui perto do Edifício Rique. Tem bolo mesmo?

– Oxente, eu não disse que tinha? Tá pronto. Vem jantar?

– Acho que vou. Seu Nilo tá acordado?

– Tá por aqui, doido que você chegue pra conversar.

– Eu vou levar um amigo meu, Bandeira Sobrinho, aquele cantador da Rádio Borborema.

– Traga, traga mesmo. Tem bolo, tem café, mas se quiserem cerveja vão ter que trazer.

– Deus me livre, eu de segunda-feira pra cá tô arripunando cerveja.

Ela deu aquela risada longa dela – “ra-rraaaai!...” – e eu desliguei.

Foi muito bom ter levado Bandeira, porque ele e meu pai sentaram no terraço e daí a pouco se envolveram numa discussão sobre formas de soneto, onde cada qual procurava lembrar mais variantes do que o outro.

Para os que não conheceram meu pai, o jornalista e poeta Nilo Tavares, basta fazer uma lista breve:

1)      Era baixinho. Não sei a medida da altura dele. Era charadista e enigmista, membro da TerNor (Tertúlia Nordestina), colaborador de incontáveis revistas Brasil afora, com o pseudônimo de Pequeno Polegar. Uma vez, já morando no Rio, fui ao Círculo Enigmístico Carioca, perto da Av. Rio Branco, pesquisar uma matéria pra TV, e quando falei que meu pai tinha escrito um Dicionário do Que (locuções começadas com a expressão “Que...”), o cara foi lá dentro e trouxe um exemplar encadernado.
2)      Gabava-se de ser capaz de passar 24 horas ininterruptas recitando sonetos de autores brasileiros, inclusive dele mesmo, mas mesmo na Paraíba nunca apareceu homem nenhum que ousasse pegá-lo na palavra.
3)      Era do Recife e minha mãe era de Coxixola-PB (“A Cidade Que Precisa Dizer Que Existe”). Conheceram-se em Angelim (PE), casaram e vieram morar em Campina Grande, onde nascemos os quatro filhos: Clotilde, eu, Pedro e Inês.
4)      Nunca foi apologista, mas como trabalhou na Rádio Borborema conhecia os violeiros que passaram pelo Retalhos do Sertão, um dos mais tradicionais programas de cantoria no rádio. Para os cantadores mais antigos, como Zé Gonçalves, eu era “o filho de Nilo”.
5)      Torcia por três times: o Sport Club do Recife, na cidade onde se criou; o Treze Futebol Clube, na cidade onde iniciou sua vida de chefe de família; e o Flamengo, no seu país, que era feito em grande parte de jornais impressos e de emissoras de rádio.
6)      É simbólico da nossa relação que em 1975, quando o Flamengo foi a Campina jogar com o Treze, eu perguntei: “O senhor acha que a gente ganha?”, e ele respondeu: “E tu acha que a gente vai perder para um time fraco como o do Treze?”, e eu disse, “Peraí, Seu Nilo, a gente é quem, no seu vocabulário?” Foi um momento judaico-cristão em nosso relacionamento.
7)      Mas isso prova apenas que ele era mais romântico do que eu.

Em 1980 meu pai teve o que chamamos na época de uma “trombose”, ficou com um lado do corpo meio avariado, precisou fazer fisioterapia. Tinha que ficar apertando uma bolinha que de vez em quando escapava, e todo mundo corria a devolvê-la. Fisioterapia fica mais interessante quando vira uma diversão para todos os envolvidos, não é mesmo? Uráy, o antigo zagueiro do Treze, ia lá em casa para ajudá-lo nos exercícios, ia para dar uma força, só pela lembrança da convivência.

Foi se recuperando aos poucos, mas como deixou de trabalhar, sua diversão principal, além de ler, de decifrar e de compor charadas, e de ver TV, era esperar visitas que sentassem com ele no terraço da nossa casa na colina do Alto Branco. Ficava ali e via Campina Grande estendida horizontalmente à frente, como num filme de 70mm. Gostava de receber gente e conversar sobre as coisas boas da vida.











quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

3433) Quando eu era criança (27.2.2014)


(Eu e Tide no carnaval)

Tem um blog impagável (http://coisasqueeuachavaqdoeracrianca.tumblr.com/) onde as pessoas contribuem com suas lembranças de infância, aqueles pequenos equívocos meio absurdos que toda criança comete por não entender direito o mundo dos adultos. Exemplos do blog: “Eu pensava que em hotéis só entravam homens, e em motéis, mulheres”; “Eu pensava que uísque 12 anos era para crianças de 12 anos tomarem”; “Eu achava que sexo oral era de hora em hora e sexo anal de ano em ano”, etc.

Bem... Eu me lembro que eu achava que a Terra boiava solta no espaço, junto com planetas e estrelas, e que por baixo de tudo havia o Oceano Atlântico, que se expandia até o infinito em todas as direções.  Outra: meus pais mandavam ter cuidado com giletes, dizendo que havia perigo de alguém se cortar, etc., de modo que sempre que eu via uma gilete de bobeira eu a pegava, me trancava no banheiro, quebrava-a em pedacinhos, jogava na privada e dava descarga. Quando pequeno, eu ouvira dizer que o Inferno era embaixo do chão, então quando eu via um buraco qualquer na terra eu me agachava para espiar, para ver como era o inferno.

Uma vez perguntei a minha mãe o que tinha dentro do corpo da gente, eu ficava apontando: “E aqui?”, e ela dizia: “O fígado”, etc., até que a outra pergunta ela respondeu distraída “o ovário”, e dias depois eu disse: “Não posso ir pra aula, estou com dor no ovário”. Ainda nos mistérios sexuais, eu lia nos contos da época coisas como “e daquele beijo apaixonado nasceu um dia nosso filhinho...” e imaginava que as mulheres engravidavam com um beijo, o que trouxe um suspense adicional a qualquer filme, pois bastava haver um beijo e eu ficava imaginando que a mocinha ia ser botada de-casa-pra-fora.

Uma vez, ouvindo uma novela de rádio, eu lamentei que não fosse TV para a gente ver as aventuras dos heróis na selva, e minha irmã Clotilde disse: “Não, se fosse TV a gente ia ver uma sala cheia de microfones e as pessoas lendo o texto em folhas de papel”, e eu achei a TV uma decepção. Minha Tia Adiza, que era solteira, morou conosco muitos anos, e como ela todo dia trocava de roupa e ia para o trabalho, tal como meu pai, eu perguntei a minha mãe se Tia Adiza era mulher ou homem.

Durante algum tempo acreditei que quando alguém era condenado a prisão perpétua ele ia para a cadeia e nunca mais morria. Uma vez discuti com Tide sobre a pronúncia do nome Washington, que eu dizia que era Uachínton e ela dizia que era Vasguitón.  Vendo filmes de guerra, eu cheguei à conclusão de que quando dois países entravam em guerra eles mandavam os respectivos exércitos brigar na África, que era uma espécie de continente baldio.


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

3325) Seu Nilo (24.10.2013)






Meu pai se gabava de ser capaz de passar 24 horas recitando de memória sonetos dele e de seus poetas preferidos (Olavo Bilac, Emilio de Menezes, Augusto dos Anjos) e inúmeros outros. 

Quando eu tinha 8 ou 10 anos, nas paredes da nossa casa havia, emoldurados, um retrato a carvão de Castro Alves, a reprodução de uma foto de Lampião, uma página de revista com uma foto de Bilac e o soneto “Dualismo” (que ainda sei de cor), uma foto de meu avô Braulio, que não cheguei a conhecer.

Tinha somente o curso secundário, foi tipógrafo, encadernador (ainda tenho livros encadernados por ele), funcionário público (foi chefe de gabinete de três reitores da URNe, atual UEPB), jornalista e radialista (na Rádio Borborema e Diário da Borborema, principalmente). 

Era organizadíssimo, “caxias”, muito severo com os funcionários, mas muito justo. Nos fins de semana, era um grande boêmio, bebia bastante, gostava de se cercar de gente alegre. 

Era desafinado e não cantava, mas o terraço da nossa casa vivia cheio de gente tocando violão e cantando; ele se limitava a acompanhar, batendo com uma faca numa garrafa. Gostava de fazer paródias de músicas conhecidas e em casa improvisava um soneto sobre qualquer bobagem que acontecia, o que divertia todo mundo.

Torcia pelo Sport do Recife (a cidade em que cresceu), pelo Flamengo, e pelo Treze; eu herdei essas três paixões. Temos fotos dele ao lado de Dida (do Flamengo) e de Telê (do Fluminense) quando esses times jogaram em Campina Grande. 

Colecionava revistas de futebol (Manchete Esportiva, Revista do Esporte, Gazeta Esportiva Ilustrada), encadernadas;  encadernou também tudo que conseguiu juntar sobre as Copas de 58 e 62. Esse material acabou se perdendo devido ao mofo, pois nossa casa no Alto Branco era muito úmida. 

Também colecionava dicionários, porque era charadista e enigmista, colaborador de muitas revistas Brasil afora sob o pseudônimo de Pequeno Polegar (era baixinho).

Não ligava muito para cinema. O único filme que o vi elogiar foi Ziegfield, o Criador de Estrelas, e seu ator preferido era Edward G. Robinson. 

Gostava de ler Coelho Neto, Humberto de Campos, Guerra Junqueiro, bem como folhetins (Ponson du Terrail, Michel Zevaco, Xavier de Montepin) e romances policiais tipo Shell Scott. 

Gostava de trabalhos manuais, de mexer com serrote, martelo, etc. Durante muitos anos teve um mimeógrafo no quarto dos fundos, com o qual ganhava a vida imprimindo boletins, quando estava desempregado. 

Eu me habituei a chamá-lo de “Seu Nilo” desde pequeno, e esse tratamento ficou para o resto da vida. Meu pai completaria hoje, 24 de outubro de 2013,  cem anos de idade. Agora, tomarei uma em sua memória. Tin-tin!







terça-feira, 25 de outubro de 2011

2696) Severino Marinho (25.10.2011)




(Marinho e D. Lurdinha)

Recebi a notícia do falecimento de Severino Marinho Leite, e me vejo mais uma vez, nas últimas semanas, diante dessa missão impossível: dizer o que uma pessoa representou em algum momento da nossa vida. Uma morte é um desses momentos que nos deixam sem saber o que dizer. Não porque não haja coisa alguma a ser dita, pelo contrário. De repente há uma vida inteira, milhões de coisas para serem ditas. Pode-se começar por qualquer ponto e prosseguir indefinidamente; esse excesso de caminhos acaba por nos condenar à imobilidade.

Marinho foi um dos grandes amigos do meu pai, e em muitos momentos foi uma espécie de anjo da guarda que orientava nossa família em situações difíceis. Uma vez, quando Seu Nilo estava meio enfarruscado com a vida, por causa de projetos que não andavam pra frente, alguém lhe perguntou se ele não tinha amigos, e ele disse: “Tenho, sim: Severinos Marinhos Leites”. Não o disse certamente para menosprezar os outros; mas sem dúvida porque naquele momento era Marinho o único capaz de ajeitar os óculos dourados de lentes verdes, passar a mão pelo cabelo e dizer: “Calma, Nilo, isso vai se arranjar, vamos analisar o problema”.

Não vou insistir apenas na minha perda pessoal. Melhor dizer logo que a perda de Campina Grande foi muito maior do que a minha. Não apenas pelo cidadão, mas porque Marinho foi o torcedor-símbolo do Treze, o homem que manteve ao longo de seus mais de 80 anos de vida o registro permanente dos jogos do Galo (jogo, data, local, placar, autores dos gols, escalação do Treze). Quantos times brasileiros podem se gabar de um torcedor assim? Em 1975 quando fizemos, sob a orquestração de Hélio Soares e do presidente Zé Agra, a revista do cinquentenário do Galo, foi dos arquivos de Marinho que extraímos as estatísticas de todos os resultados do Galo naqueles cinquenta anos. O mesmo com Mário Vinícius ao compor seu livro monumental sobre a história do alvinegro.

Uma bela lembrança que guardo, do meu tempo de garoto, é de uma viagem noturna ao Recife, quando ele e meu pai me levaram de carro para ver um torneio na Ilha do Retiro, que teve na preliminar Náutico x Palmeiras (a única vez em que vi Djalma Santos jogar) e na principal Sport x Corinthians. Estudei no Alfredo Dantas com seus filhos Marcos e Fernando. Depois tornei-me amigo de sua filha Cida Lobo, que foi há pouco tempo sub-secretária de Cultura do Estado. Marinho era para mim uma figura paterna, um pai mais jovem e mais comedido, levemente brincalhão e sempre sereno. O Treze que ele tanto amou deu-lhe alegrias nos últimos tempos. A cidade que ele defendia cresceu tanto que hoje nem percebe o quanto sente sua falta.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

2056) 50 anos de FC (10.10.2009)



Em setembro comemorei um cinquentenário especial. Foi em setembro de 1959 que meu pai me deu, em meu aniversário, um livrinho de bolso intitulado Planeta Maldito, de Vargo Statten. Foi meu primeiro livro de ficção científica, anterior a Julio Verne, a H. G. Wells e a todos os que se seguiram. Era o volume 3 da Coleção Futurâmica, das antigas Edições de Ouro, e li em seguida todos os títulos da coleção. (Que ainda tenho hoje, quase completa: recomprei tudo em sebos cariocas.)

Planeta Maldito (o título original é “The Catalyst”), livro de 1951, tem todas as virtudes e defeitos da FC escrita nos anos 1920-30-40. Descobri depois que “Vargo Statten” era um dos pseudônimos do enormemente prolífico John Russell Fearn (1908-1960), que escreveu centenas de livros e chegou a ter uma revista lançada em seu nome (Vargo Statten Science Fiction Magazine).

O livro é pulp fiction da mais delirante. O enredo: um casal de astronautas, Scott e Nancy, em sua espaçonave particular (!), está extraindo rochas em Mercúrio e descobre por acaso um gigantesco veio de diamantes. Arranca o mais que pode, e traz aquilo para sua mansão em Londres. De quebra, vem no meio das pedras um pedaço de rocha mercuriana. Certa noite, um ladrão entra na mansão do astronauta, rouba os diamantes (junto com o pedaço de rocha) e foge. De manhã cedo, o leiteiro encontra uma estátua de ouro no meio da rua, a estátua de um homem em tamanho natural, nu, em atitude de quem está correndo.

Descobre-se então que a rocha mercuriana (“o catalisador”) é capaz de transformar a água em ouro, e como o corpo humano tem não-sei-quantos por cento de água, o ladrão, ao tocá-lo, foi transformado numa estátua de ouro (!). (Ah, Breton, Dali, Buñuel... Vocês não passavam de principiantes...) Começa uma busca frenética pelo catalisador, que, varrido sem atenção pelos lixeiros, começa a transformar em ouro toda a água dos esgotos de Londres e acaba atingindo o Oceano Atlântico. E novas estátuas de ouro, nuas, aparecem aos montes: as roupas são incendiadas pela reação química (!).

Descobre-se por fim que os oceanos de Vênus são capazes de derreter não só o catalisador quanto o ouro criado por ele, e toma-se a decisão de banhar o planeta Mercúrio com essa água, para destruí-lo e evitar nova ameaças à Terra. Uma frota de naves faz um trajeto de ida e volta entre os dois planetas, jogando água venusiana na superfície de Mercúrio, até que este se fragmenta e os pedaços são atraídos para dentro do Sol. O clímax do livro é quando a espaçonave de Scott e Nancy começa a ser atraída pelo Sol e o resto da frota consegue trazê-la de volta usando “barras de atração” que contrabalançam a gravidade solar (!).

“The Catalyst” tem imagens memoráveis: estátuas de ouro, oceano solidificado, planeta se esfarelando... Aos nove anos de idade, habituê de matinais, cinematografei tudo em meu écran mental. Se tivesse deixado para ter essa experiência aos 20 anos, babau Tia Chica.