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domingo, 25 de abril de 2021

4697) As distopias do mundo real (25.4.2021)



 
Como se tem falado sobre literatura Utópica e Distópica! Dez anos atrás, você só via a palavra “Distopia” em websaites de ficção científica. Hoje circula por todo canto. Não dou seis meses para aparecer nas letras de algum álbum de dupla sertaneja. “Veeeem... Vem trazer o sol para clarear meu dia...  Vem me tirar desta distopia... em que você me deixou!”
 
Tudo é possível, porque é o espírito do tempo, é o momento presente do mundo, envolto (além dos problemas permanentes, e cada vez maiores) com uma Pandemia e tentativas localizadas de quarentenas, lockdowns, etc. 
 
Na literatura há ficções sobre Utopias que parecem brotar em lugares remotos, espontaneamente, “de dentro para fora”, sem interferência de outras civilizações e em alguns casos sem interferência sequer de um programa organizado de governo. Seriam utopias espontâneas, como a sociedade dos índios – contratos sociais que foram se fixando por si mesmos, sujeitos a interferências, adaptando-se...
 
Em outros casos, temos as Utopias De Cima Para Baixo, aquele velho esquema de um grupo que toma o poder e decide estabelecer ali a civilização ideal da paz e harmonia, mesmo que para si tenha que recorrer ao extermínio dos dissidentes. É aquela contradição entre boas intenções teóricas e métodos práticos truculentos, tão bem expressa pelo Augusto Matraga, de Guimarães Rosa, em sua fase de beato: “Pro Céu eu vou, nem que seja a porrete!...”
 
Muitas utopias literárias são impostas a porrete, daí o comentário tão frequente de que a utopia de uns é sempre a distopia de outros.
 
As discussões recentes sobre este assunto têm se concentrado em três obras principais: Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, 1984 de George Orwell e Laranja Mecânica de Anthony Burgess. São três livros de autores respeitados pela crítica literária e pelo Establishment intelectual e acadêmico do seu país de origem – os três eram ingleses, embora Orwell tivesse nascido na Índia.
 
Este é um forte elemento em comum, porque todos três exprimem modos peculiarmente britânicos de refletir sobre governos fortes, guerra, sociedade rigidamente estratificada em classes sociais, demagogia política, embrutecimento das classes trabalhadoras, estrangulamento das possibilidades de futuro dos mais jovens. Há nos três livros muita coisa de universal, mas são um conjunto de reflexões tipicamente britânicas sobre o perfil que deverá ter a derrapagem final da Humanidade.



Não são as únicas receitas. É claro. Por exemplo, tanto Huxley quanto Orwell sofreram uma forte influência do russo Yevgeny Zamiátin, com Nós (1921), já publicado no Brasil (como A Muralha Verde, pela GRD; como Nós, pela Aleph).  Como o autor é meio obscuro, sua influência passa um pouco despercebida, mas eu diria que ele marcou toda essa geração de autores ingleses.
 
As distopias são “cenários de gargalo”, ordens sócio-políticas em que todas as possibilidades de ação e de realização humana veem-se bloqueadas em várias direções e canalizadas rumo a atividades que interessam a um governo forte, bem armado e com domínio da tecnologia, inclusive a tecnologia conceitual (manipulação ideológica das massas, etc.). O que nelas existe de caos são as emoções turbulentas, autodestrutivas e rancorosas da população – um pouco menos no livro de Huxley, onde um paraíso de drogas legalizadas a mantém numa agitação auto-erótica permanente.
 
As possibilidades, como sempre, são infinitas. O francês Georges Perec tem um curioso romance-memória, W ou A Memória da Infância (1975; Companhia das Letras, 1995). Uma das linhas narrativas do livro descreve a ilha de W, no Atlântico Sul, onde vigora uma sociedade baseada no autoritarismo, nos esportes atléticos, na competição incessante, na busca de índices numéricos, na violência física, na traição moral.
 
É como se numa oficina de ficção científica um professor dissesse a um aluno: “A sua tarefa vai ser imaginar um mundo organizado em torno de uma Olimpíada nazista permanente”.



O livro de Perec, apesar da superfície realista, é um pesadelo irreal, que só nos atinge de forma indireta. Muito mais real é uma narrativa onde somos capazes de reconhecer algo de nossa vida cotidiana. Frederik Pohl e C. M. Kornbluth escreveram The Space Merchants (1952), já traduzido no Brasil como Os Mercadores do Espaço, onde imaginam uma América do Norte faminta, desempregada e desvalida, mas como quem está no Poder são os publicitários, todas as pessoas imaginam que são felizes e que a vida é somente aquilo mesmo.
 




quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

4675) "Bravo Mundo Novo" (17.2.2021)




 A obra de George Orwell entrou recentemente em domínio público, e está havendo uma enxurrada de reedições de seus livros sempre necessários, sempre atuais.
 
Um caso interessante se deu com Animal Farm (1945), que diferentes editoras têm publicado no Brasil como A Revolução dos Bichos (nas traduções mais antigas) e como A Fazenda dos Animais (na versão mais recente, de Denise Bottmann).
 
Circula uma comprida polêmica, na imprensa e nas redes sociais, a respeito dessas duas opções de tradução. O que nem sempre é bom, porque tem gente que aproveita uma simples discussão de título para sair chamando os outros de idiotas e analfabetos. Mas sempre é bom, porque ao debater toda a rede de significados que se espalha em torno das palavras e das frases que usamos deixamos de obedecer cegamente a elas, e começamos a conversar com elas, e até a comandá-las, lucidamente.

 
O exemplo de Orwell me trouxe à mente o de uma obra que na minha lembrança está sempre pertinho da obra dele, e que é o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, cujo título faz uma citação de A Tempestade, de Shakespeare:
 
“Ó, maravilha! Que criaturas adoráveis estão aqui! Como é belo o gênero humano! Ó admirável mundo novo que possui gente assim!”
(William Shakespeare, A Tempestade, Ato V)
 
Huxley era um grande escritor também, e estava muito em voga na época de minha adolescência, via Editora Civilização Brasileira. Além do Admirável Mundo Novo, me marcaram muito O Gênio e a Deusa, O Macaco e a Essência e principalmente o díptico As Portas da Percepção / O Céu e o Inferno, livro que me fascinou desde pequeno por causa da ilustração da capa, que acabou me inspirando uma das minhas pragas favoritas quando estou com raiva de alguém: “Quero que ele vá pro inferno de cabeça pra baixo!”.



 
Huxley (nascido em 1894) foi professor de Orwell (nascido em 1903) a certa altura da vida, e os dois se respeitavam. Quando 1984 fez sucesso, o autor mandou enviar ao ex-mestre uma cópia do livro, a que Huxley respondeu com uma carta elogiosa e cordial. Na mesma carta, contudo, ele reafirmava (o ano era 1949) um princípio já declarado em seu próprio livro: que as ditaduras do futuro seriam menos baseadas na repressão policial e na tortura, e mais dependentes da propaganda, das drogas e de outras formas de controle. Ou seja, é mais prático, ao invés de oprimir uma população infeliz, dar a essa população uma ilusão qualquer de felicidade, e fazer com que ela colabore com o regime voluntariamente.
 
Os dois sistemas coexistem no mundo de hoje, onde podemos ver as ditaduras do chicote e as ditaduras do chiclete.
 
Ninguém é dono da verdade; cada um de nós se debate sozinho num nevoeiro, e o máximo que consegue é gritar de longe as experiências que está tendo e escutar de volta os gritos de quem está próximo. Nada mais.
 
Huxley, na carta a Orwell, pensava nas formas de controle mental (que ele considerava uma técnica superior à da “botina-no-rosto”), e dizia:
 
Na próxima geração, acredito que os governantes mundiais irão descobrir que o condicionamento ainda na infância e a narco-hipnose [combinação do uso de drogas e hipnose] são mais eficazes, como instrumento de exercício do poder, do que cassetetes e prisões, e que a cobiça pelo poder pode ser plenamente satisfeita ao se fazer com que as pessoas amem a sua escravidão; é melhor do que chicoteá-las e dar-lhes pontapés para que obedeçam. (trad. BT)




Acho que nesse ponto Huxley foi mais longe que Orwell, embora o método brutal descrito por este tenha sido dolorosamente realista. E o fato é que do ponto de vista da imaginação e do talento literário as duas obras se equivalem, e provavelmente será assim por muito tempo.
 
Voltando à questão da tradução dos títulos, fiquei pensando sobre a forma como algumas traduções de títulos se tornam clássicas, quase obrigatórias, e chegam até a impedir que alguém tente uma tradução alternativa. 

Não me refiro a traduções literais (The Time Machine será sempre A Máquina do Tempo, acho, e The Glass Key será sempre A Chave de Vidro). Mas às fórmulas que, no idioma de chegada, envolvem uma certa maneira criativa de expressão, que acaba se impondo, e eu diria até acabam intimidando um tradutor mais cauteloso.
 
Penso num dos mais célebres entre nós, O Morro dos Ventos Uivantes, que é o nome quase obrigatório de todas as traduções do Wuthering Heights (1847) de Emily Brontë, com variações para o singular, em algumas edições.


 
A expressão foi formulada (no singular) num poema de Tasso da Silveira (1895-1968), e já aparece na primeira tradução do livro entre nós, que Denise Bottmann em seu precioso saite Não Gosto de Plágio, identifica como sendo a de Oscar Mendes para a Ed. Globo de Porto Alegre, em 1938.
 
Não sei se alguém (nem mesmo Denise Bottmann!) teria coragem hoje de propor uma tradução diferente para esse título. O Morro dos Ventos Uivantes corresponde com bastante fidelidade ao original, tem uma cadência sonora impecável, e, mais que tudo, já se entranhou no inconsciente coletivo de nossa memória escrita. Imagino a hesitação de um leitor a quem aconselharam esse romance e ele recebe, no balcão da livraria, um belo volume de aparência gótica mas com o título Cumes Tempestuosos.
 
Não é totalmente absurdo, porque Cumbres Borrascosas é a versão em espanhol da mesma obra, embora a de Tasso da Silveira tenha se aproximado um pouco mais da versão em francês, que é tradicionalmente Les Hauts de Hurle-Vent, usado na tradução de Frédéric Delebecque em 1925 (não sei se tem alguma anterior a esta). O Alto do Uiva-Vento. Alguém se habilita? Quem já morou no Alto Branco não irá estranhar muito. 
 
“Antiguidade é posto,” já diziam os antigos em sua sabedoria, forma de esperteza. As versões mais antigas dos títulos literários acabam se associando à obra, mesmo quando não traduzem de forma precisa o título dado pelo autor, como foi o caso do livro de Orwell citado no início. 

Nos EUA, o clássico de Marcel Proust À La Recherche du Temps Perdu tem duas traduções vigentes: In Search of Lost Time, mais próxima do original, e Remembrance of Things Past, que para muitos leitores de lá ficou indissoluvelmente ligado à experiência da leitura e da lembrança.
 
Todo este cerca-lourenço até aqui é para chegar no título do livro de Huxley, que é Brave New World e no Brasil tornou-se, com toda razão, Admirável Mundo Novo. Em algum ponto do meu percurso eu já quis checar essa correspondência, para saber se uma eventual tradução Bravo Mundo Novo seria correta – porque sempre me acostumei a ver “bravo” como mero sinônimo de “corajoso”, ou, em sua versão paraibana “brabo”, sinônimo de “enraivecido”.
 
Mas de fato, o Dicionário Houaiss assinala que bravo, em sua acepção 11, corresponde a “digno de admiração; notável”.
 
Caso alguém optasse por essa maneira de traduzir, estaria errado? Certo que não. Mas logo a Falange Lacradora se ergueria empunhando chuços e trinchetes, bradando que o tradutor foi preguiçoso e usou um "falso cognato". Estariam errados? Totalmente, não, porque em última análise estariam falando em nome de uma tradução que é consagrada pelo tempo e pela memória, além de ser um octossílabo perfeito e (penso eu) uma expressão mais clara e eloquente do que a nova forma proposta.
 

(Aldous Huxley)
 
 
 
 
 
 
 
 





terça-feira, 1 de dezembro de 2020

4647) "Viagem a Altemburgo": uma utopia brasileiríssima (1.12.2020)



Não existe gênero literário mais chato do que a Utopia. (Existem, sim, e são muitos – mas qualquer indivíduo que já tenha lido meia dúzia de romances utópicos sente um impulso instintivo em concordar com isto.) 
 
Um romance utópico narra basicamente a chegada imprevista de um visitante a uma cidade (reino, país) de cuja existência ele não suspeitava, sua recepção por algum tipo de cicerone local, e um passeio pelo locus utópico, acompanhado de longuíssimas explicações sobre as vantagens do sistema local. 
 
É típico do romance utópico que o visitante seja um mero receptáculo das informações fornecidas pela população local, via cicerone. De vez em quando acontece que ele se meta numa aventura passageira ou num leve mal-entendido, cujo efeito narrativo é mínimo, serve apenas para que novas coisas lhe sejam explicadas.
 
Um esforço notável, embora não totalmente bem sucedido, para escapar dessa camisa-de-força demonstrativa, é o romance Viagem (São Paulo: Martins, 1955) de Guilherme Figueiredo, republicado, com modificações, como Viagem a Altemburgo (Rio de Janeiro: Atheneu-Cultura, 1990). 
 
O crítico Wilson Martins, cujas avaliações tenho sempre em alta conta, diz a respeito da obra:
 
Todo o atrativo do romance utópico reside, compensando a sua carência de humanidade, na inteligência de sua crítica, na finura da sua ironia. Nesse particular, coloco Viagem, sem hesitação, entre os mais perfeitos da espécie. (...) [E]scrito em inglês, o livro de Guilherme Figueiredo já lhe teria trazido celebridade internacional e o aplauso de, pelo menos, todos os admiradores de Swift, de Huxley, de Orwell.
(“História da Inteligência Brasileira”, vol. VII, págs. 362 e seguintes)

 
Para vocês verem que até um crítico respeitável escorrega nesse clichê bobão do “se fosse escrito em inglês”.
 
Viagem a Altemburgo conta a história de um paraquedista brasileiro cujo avião cai num ponto indefinido da Antártida. Ele é salvo pelos habitantes de Altemburgo, uma cidade-estado fundada séculos atrás por pessoas insatisfeitas com a civilização ocidental, e que existe às ocultas.
 
O visitante recebe o nome local de “Amicus” (muitos nomes próprios em Altemburgo têm forma latinizada) e fica hospedado na casa do prefeito, Evandrus, que tem uma filha lindíssima, Luscínia, e uma espécie de assistente-discípulo, Leo. Esses três, principalmente, irão ciceronear Amicus em suas andanças.
 
Uma das primeiras coisas que ele percebe é que as pessoas em Altemburgo se vestem de maneira totalmente extravagante e pessoal; cada um traja o que lhe der na telha, e o paraquedista, logo nos primeiros capítulos, conta:
 
Ganhei uma túnica de linho, sandálias com fitas de trançar nos tornozelos, e recusei um diadema de miosótis que a banhista-chefe me ofereceu. (p. 15)
 
E depois:
 
Alguém suspendeu a cortina lateral da sala e entrou. Era um jovem de seus trinta anos, de quase dois metros de altura, com grossos bíceps à mostra, tostados de sol e ornados de argolas de metal. Vestia um saiote vermelho e branco, caído até as coxas, e atado à cintura por um cordão também vermelho e branco, de onde pendia uma sacola. Seus cabelos, arrumados em cachos, desciam encaracolados até a nuca. Uma fita cingia-lhe a fronte; trazia coturnos de corda e um bastão longo e nodoso. Era um tipo extraordinariamente belo, de duros olhos azuis dardejantes e forte maxilar cerrado. (p. 25)
 
A variedade de trajes é grande, mas na maioria são variações de trajes greco-romanos. É outro lugar comum na ficção científica, inclusive em inglês: a tentativa, raramente bem sucedida, de visualizar roupas plausíveis para pessoas do futuro, ou de civilizações imaginárias. (Valeria a pena pegar dois clássicos da FC norte-americana, Ubik de Philip K. Dick, e Triton de Samuel R. Delany, e fazer uma análise comparativa dos figurinos que eles sugerem.)
 
As pessoas levam Amicus para toda parte, explicam-lhe a origem histórica de Altemburgo, fazem-no participar de cerimônias públicas, dão-lhe acesso a documentos... e assim vai sendo cumprido o estatuto narrativo do romance utópico. Ou talvez fosse melhor dizer “estatuto descritivo”, porque não acontece muita coisa, a rigor, a não ser a ida de Amicus de ambiente em ambiente, de conversa em conversa.


(Guilherme Figueiredo, 1915-1997)
 
Guilherme Figueiredo cita nominalmente, e demonstra conhecer bem, a literatura utópica que o precedeu: H. G. Wells, Edward Bellamy, Thomas Morus, Aldous Huxley, Samuel Butler... O narrador demonstra uma certa consciência da natureza do gênero literário onde caiu de paraquedas:
 
O velho falava na certeza do meu interesse, convicto de que me prestava informações da maior utilidade. Mas enquanto isto, eu refletia sobre a espécie de mania pedagógica que atacava todos os altemburgueses e os conduzia sempre a um permanente desejo de expor, contar e exibir. (p. 159)
 
É a prosa vigorosa de Figueiredo que diferencia seu livro, positivamente, na comparação com outros clássicos do utopianismo brasileiro: São Paulo no Ano 2000 (1909) de Godofredo Barnsley, O Reino de Kiato (1922) de Rodolfo Teófilo ou A Liga dos Planetas (1923) de Albino Coutinho.
 
O livro é bem superior a todos estes, em termos de empuxo narrativo, de riqueza na observação de detalhes, de verossimilhança humana na narração de pequenas cenas, e principalmente nas páginas e mais páginas de críticas à sociedade brasileira da época do autor, críticas acaloradas, irônicas, sarcásticas, emotivas, sensatas ou não, arrazoadas ou não, mas demonstrando uma energia literária ausente nos exemplos acima. 
 
Wilson Martins se refere com entusiasmo ao Capítulo X do livro, onde Amicus produz uma violenta catilinária contra “a Civilização da Lata”, que é a civilização moderna. Diz o crítico, após citar parágrafos de Figueiredo:
 
A esse mundo que já existe, e no qual vivemos uma civilização de lata, não é difícil prever um porvir ainda mais enlatado: futuramente, até os banhos de sol e de mar virão enlatados, servidos a domicílio, em latas de quilo e de meio quilo... Faremos, igualmente, estações de água em lata, sem sair do apartamento, e, como a literatura já começa a ser gravada (o que Evandrus ainda não sabia), teremos, dentro em pouco, o livro enlatado: as livrarias serão substituídas por casas de discos, transformando-se em livrarias enlatadas...
(“História da Inteligência Brasileira”, vol. VII, pág. 364)
 
Figueiredo escrevia em 1955, Martins comentava em 1979: a lata de conservas lhes servia como símbolo de um futuro estandardizado, massificado, artificial.



(Uma estação de águas, em Oito e Meio de Fellini)
 
Curiosamente, um dos exemplos de experiências humanas a serem artificializadas, segundo Martins, são as “estações de águas”, que imagino serem aqueles períodos que as pessoas passam hospedadas em hotéis de cidades onde há fontes de água minerais com propriedades balsâmicas ou terapêuticas. Coisa mais século-19 eu não consigo imaginar. 

A angústia de Wilson Martins é a angústia de um personagem de Thomas Mann ou Henry James diante da invasão de massificações brutais como os desenhos de Walt Disney, o supermercado e a comida em conserva. No fundo, é a peleja do século 19 contra a década de 1950.
 
É o mesmo receio da novidade que vemos hoje com relação a tudo que é digital, virtual, online, photoshopado. É o receio de quem está se vendo obrigado a sair da “zona de conforto” (uma das expressões definidoras de nossa época) para a terra de ninguém, para um planeta onde o real e o fake são indistinguíveis, onde a bússola pode apontar em qualquer direção, um mundo conflagrado “where black is the color, where none is the number”, no dizer de Bob Dylan.
 
Viagem a Altemburgo é um livro com as limitações de sua época e de seu autor (se me perdoam esse truísmo). Seu defeito mais evidente é o fato de que Guilherme Figueiredo, quando resolve deixar de lado o turismo sociológico, embarca numa love story centrada no mais previsível dos enredos. Amicus, bem brasileiramente, se apaixona para bela Luscínia, a filha do seu anfitrião, consegue levá-la para a cama (por entre véus de elipses), e depois exige que ela pertença a ele, só a ele, pelo simples motivo de que ele a ama.
 
Luscínia tenta explicar-lhe, com riqueza de arrodeios, que lá em Altemburgo as pessoas vão para a cama com diferentes parceiros, sem pertencer a nenhum deles.  Apesar de gostar muito de Amicus, ela acha que se se prender monogamicamente a ele vai causar uma conflagração social em Altemburgo, devido ao tamanho da ofensa. Além do mais, o pobre Amicus tem como primeiro rival possível o jovem Leo, descrito mais acima, o “tipo extraordinariamente belo, de duros olhos azuis dardejantes e forte maxilar cerrado”.
 
Essa situação igualmente século 19 desencadeia, nos capítulos finais, um desfecho aventuroso, cheio de peripécias, fugas, perseguições, tiroteios, mortes.
 
Guilherme Figueiredo é um narrador vigoroso, como já falei, e mesmo sendo ainda engravatado demais para competir com os melhores nessa área, está anos-luz à frente dos nossos utópicos tupiniquins. Seu livro torna-se chato quando ele (ao que me parece) começa a enxertar textos que tinha na gaveta, dando-os como exemplos da literatura de Altemburgo. Aliás, esse defeito era muito mais visível na edição de 1955, como ele próprio reconhece no prefácio que antecede a edição de 1990:
 
O crítico Wilson Martins (...) aconselhou o autor a, em futura edição do livro, suprimir todo um capítulo. A professora Laura de Paula, como leitora de Editora Atheneu-Cultura, sugeriu ao autor a eliminação de trechos e digressões inúteis.
 
Tenho ambas as edições; tendo lido a mais recente, bastaram alguns minutos de comparação para ver que de fato os cortes foram feitos, e em grande benefício do livro.

 
Figueiredo foi autor teatral de sucesso, é um prosador de talento, e devo a ele um dos livros mais divertidos da minha juventude, o Tratado Geral dos Chatos (Rio: Civilização Brasileira, 1962), um volume fininho que passou anos na minha cabeceira, cheio de virtuosismo estilístico e de fina observação dos defeitos humanos.


 
Ele é também, aliás, um dos autores da famosa toada (e “politicamente incorreta”) “Maria Chiquinha” (“Que é que ocê foi fazer no mato, Maria Chiquinha? Eu precisava de cortar lenha, Genaro meu bem...”).
 
Como escritor, demonstra muito mais recursos do que os utopistas brasileiros citados acima. Nem mesmo Rodolfo Teófilo, romancista de sucesso, o supera em sua abordagem do gênero. O humor (sarcástico, ácido) é um dos elementos que o distinguem dos demais utopistas, que tendem a assumir atitudes professorais e moralizantes.
 
“Homem do seu tempo”, Guilherme Figueiredo deixa bem claro o quanto o seu narrador, Amicus, encarna os seus próprios rompantes de perplexidade masculina diante de uma sociedade teoricamente liberal nos costumes. 

Amicus é uma espécie de Nelson Rodrigues ou Adelino Moreira perdido no festival de Woodstock ou na Amorquia (1991) de André Carneiro, escandalizado diante daquele agarra-agarra e perguntando se aquelas pessoas conhecem O Verdadeiro Amor. E Luscínia, a beldade ambicionada, acaba tendo explosões deste tipo:
 
-- Meu pai, perdoa-me, perdoa-me! Só eu sou culpada, só eu... Como poderia prever que este homem, vindo de outra terra, teria por mim estranhos sentimentos? E como imaginar que eu os aprenderia, e o amaria egoisticamente, a ponto de repelir os meus amigos, a ponto de angustiar a todos que me amam?  (p. 198)
 
Toda utopia para nós é uma distopia para o nosso vizinho do lado, e mais: toda Utopia Social reflete apenas os avanços e os recuos mentais do indivíduo que a concebe.
 
 
 
 





domingo, 10 de agosto de 2014

3574) Utopias totalitárias (10.8.2014)




(ilustração: Alessandro Bavari)


Embora o conceito e o nome tenham nascido no século 16 com a Utopia de Thomas Morus (1516), a utopia literária é um gênero típico do século 19. Antes disso, as utopias costumavam ser satíricas, ou meras fantasias literárias. No século 19 começaram as utopias científicas. O marxismo é produto desse tempo em que, num dos auges periódicos do capitalismo, a Razão mobilizou todos os seus instrumentos conceituais para criar o paraíso social na Terra.

Uma das utopias brasileiras mais curiosas é O Reino de Kiato (1922) de Rodolfo Teófilo, sobre o qual já falei aqui (http://tinyurl.com/qbomjfl). É a típica utopia positivista, baseada na higiene, no civismo, na obediência, na pontualidade, na estrita obediência às leis vigentes, na organização administrativa e burocrática, na tecnologia, na padronização das idéias e do comportamento.  Foi esse livro que me veio à memória ao ler Viagem (1954), o relato póstumo de Graciliano Ramos sobre sua visita à URSS no último ano de vida de Stálin.

Em Kiato, a história é narrada pelo ponto de vista de James Paterson, um visitante que vai parar naquele reino por acaso e que começa a se inteirar da revolução que pôs no trono o Rei Pantaleão III, a quem Kiato deve sua indescritível prosperidade e sua estabilidade política. Kiato, fantasia utópica, contemporânea de Stálin, não é uma república comunista, mas prefigura muitos dos aspectos que em 1922 (ainda em plena guerra pós-revolucionária) mal começavam a ser implantados na URSS.

John Paterson e Graciliano Ramos passeiam pelas avenidas, pelas fábricas, pelas praças e pelos centros cívicos de Kiato e da Rússia, conduzidos por cicerones que lhes explicam o impecável funcionamento das instituições burocráticas, a assiduidade infalível dos trabalhadores, o entusiasmo dos cidadãos diante de qualquer chance de manifestar sua lealdade ao regime. Não se vê um mendigo, um trombadinha, um monte de lixo, uma droga. As bibliotecas estão cheias de coleções encadernadas.

Toda utopia é um sonho centralizado, o mundo reformatado do ponto de vista de uma só idéia, um mundo onde tudo é possível para a mente que comanda. Já a democracia é esta bagunça que conhecemos, eleições, falcatruas, manifestações, todos mandam e ninguém obedece, grupos se alternam no poder, cada um desmonta o que o outro começou a construir, todos reclamam, saem à rua, quebram coisas. Não admira que em plena democracia muita gente sonhe com utopias centralizadas, assépticas, eugênicas, um povo sem pobres, um povo de operários bem vestidos e bem alimentados que leem os livros impressos pelo Estado e que vão dormir pontualmente às dez da noite quando soam as sirenes.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

3086) "O Reino de Kiato" (18.1.2013)





(capa da 1a. edição)



Entre os romances utópicos que a literatura brasileira produziu no começo do século 20, O Reino de Kiato (No país da verdade) de Rodolfo Teófilo (1853-18921932), publicado em 1922, não traz nenhuma novidade ao gênero (repete a fórmula com zelo de principiante e deslumbramento de recém-chegado), mas pode suscitar boas discussões sobre que tipo de utopia os nossos escritores enxergavam para o país. 

Teófilo foi um sanitarista que realizou em Fortaleza campanhas de vacinação contra a varíola, durante uma das mais mortais epidemias dessa doença, a partir de 1900. 

Seus romances regionalistas (que não li) parecem ter adotado a veia naturalista de descrição minuciosa de fatos desagradáveis (a doença, etc.). Em Kiato, ele vai na direção contrária. 

Seu protagonista é o cientista norte-americano John King Paterson, que mais uma vez confirma a falta de jeito dos escritores brasileiros para criar nomes em inglês, os quais nunca soam plausíveis. 

Ao viajar para a Europa a fim de divulgar um remédio que inventara para curar as neuroses, Paterson vai aportar acidentalmente numa ilha, o Reino de Kiato, onde encontra um país que resolveu todos os seus problemas, principalmente os três que Teófilo considera “fatores da degeneração do gênero humano”: o álcool, a sífilis e o tabaco.

O Brasil daquela virada de século devia mesmo ser um país insalubre, porque esses romances utópicos insistem sem parar na importância da limpeza, da higiene, da ausência de vícios. Insistem também na eugenia, no que eles chamam “o aprimoramento físico e mental da raça”. 

Os habitantes de Kiato têm mais de dois metros de altura, trabalham com alegria nas tarefas da roça, e vivem num mundo absolutamente organizado, onde as mulheres se dedicam somente às tarefas do lar, os impostos são pagos com alegria nas repartições do governo, a população obedece feliz ao toque de recolher às dez horas da noite.

É típico de certas utopias começarem, lá pelo meio do livro, a parecer distopias. 

A ânsia civilizatória de Rodolfo Teófilo o faz imaginar uma nação feliz que mais parece um pesadelo, um país onde não existe polícia porque todos os cidadãos obedecem alegremente a tudo que o Rei Pantaleão III determina. 

Por ingenuidade sociológica, os autores que imaginam sociedades perfeitas sempre criam projetos totalitários, eugênicos, higienistas e repressores. Durante o tempo que vive em Kiato, Paterson não conversa com nenhum habitante local, apenas com seu hoteleiro, William Robert, inglês como ele. É como se aqueles cidadãos felizes fossem robôs inacessíveis, ou a Utopia não passasse de um museu holográfico com o qual não fosse possível interagir.








domingo, 30 de dezembro de 2012

3070) A FC de Pasárgada (30.12.2012)






Uma utopia é um lugar onde tudo acontece do jeito que a gente gostaria que acontecesse.  A utopia dos vegetarianos fecha os açougues, a dos dorminhocos multiplica os feriados. O Paraíso de algumas religiões, por exemplo, é uma variante da utopia. Não sei o que se passava na cabeça dos teólogos medievais que garantiam a existência, no céu cristão, de onze mil virgens. Para quê mesmo?... Atos falhos da psique, de que nem os eremitas do mosteiro estão a salvo.

A utopia de Manuel Bandeira tinha nome: “Vou-me embora pra Pasárgada...”. Bandeira quer ir para esse país imaginário (na antiga Pérsia, ao que parece) onde, ele garante, é “amigo do rei”. (É jeitinho brasileiro dando-se bem em qualquer lugar: “Eu sou ‘assim’ com os home”).  A ironia infantil do poeta denuncia logo de cara esse reinado impossível onde tudo é somente o desejo, desejo atendido no erguer de um dedo.

Os críticos destacam, nesse poema, a nostalgia do rapazinho tímido, fraco, assolado pela tuberculose. Ele anuncia a transformação miraculosa que sofrerá: “E como farei ginástica / andarei de bicicleta / montarei em burro brabo / subirei em pau de sebo / tomarei banhos de mar!”.  Tudo que lhe era proibido na vida real será possível nesse mundo.

Mas aí Bandeira nos vem com um trecho não muito distante da ficção científica futurista: “Em Pasárgada tem tudo / é outra civilização / tem um processo seguro / de impedir a concepção / tem telefone automático / tem alcalóide à vontade / tem prostitutas bonitas / para a gente namorar”. Parece com aquelas utopias urbanas meio dark de Robert Silverberg ou de Samuel R. Delany. Uma cidade cheia de gadgets para nos facilitar a vida, e só faltou dizer que as “prostitutas bonitas” são andróides, como as replicantes de Blade Runner ou as esposas-troféu de The Stepford Wives.

Utopias mecanizadas, como os eletrodomésticos inteligentes de The Jetsons. Guimarães Rosa, no Grande Sertão: Veredas, dizia: “Pois os próprios antigos não sabiam que um dia virá, quando a gente pode permanecer deitada em rede ou cama, e as enxadas saindo sozinhas para capinar roça, e as foices, para colherem por si, e o carro indo por sua lei buscar a colheita, e tudo, o que não é o homem, é sua, dele, obediência?”.  

O mundo automático é um sonho antigo, sonho de lavradores rudes: uma utopia onde os objetos trabalham sem nossa intervenção, como a bolsa que se enche inesgotavelmente de moedas nos contos de fadas, ou a toalha que ao ser estendida põe a mesa completa, no cordel. Essa utopia rural resultou no mundo urbano, moderno, high-tech.  Como todo sonho utópico que acaba se realizando, “deu no que deu”.


domingo, 4 de julho de 2010

2226) Utopias e horrores (27.4.2010)



(Lúcifer, por Gustave Doré)

Isaac Asimov, num artigo famoso sobre vilões literários, comentou o Paraíso Perdido de John Milton dizendo: “O Satã de Milton é indomável mesmo derrotado, e apresenta lampejos de piedade, e por isto é um personagem interessante, enquanto que o Deus de Milton nunca se permite ser menos do que perfeito, e por isto é tedioso”. Isto me parece uma regra geral para a contraposição entre heróis e vilões. Os heróis populares de 50 anos atrás eram muito mais certinhos e mais politicamente corretos do que os de hoje. Deixaram de ser: vejam Batman, Superman, etc. O que causou essa mudança foi o fato de que o público – principalmente o público jovem, consumidor de filmes e de histórias em quadrinhos – começou a se impacientar com heróis muito bem comportados e a ficar fã dos vilões. Os vilões eram muito mais excitantes! Para recuperar o terreno perdido, os roteiristas e escritores tiveram que tornar os heróis mais complexos, dando-lhes traços de cinismo, uma certa crueldade, uma esperteza malandra, etc.

Quando um herói tem que ser um modelo de conduta, ele perde a liberdade – que é o que mais fascina o público jovem. A rapaziada começa a se interessar pelo vilão, porque este, sim, é livre, faz o que lhe dá na telha, não dá satisfações a ninguém, não tem medo de nada, não tem superego, não tem código de conduta... Leitores jovens são mais seduzidos por isto do que por um diploma de bom rapaz. Essa falta de liberdade implodiu os heróis clássicos, dando origem, principalmente nos quadrinhos, aos moralmente complexos heróis contemporâneos, com quem os leitores se identificam melhor.

Isto me lembra uma frase de Evelyn Waugh: “A mente humana é muito inspirada quando se trata de inventar horrores, mas quando se trata de inventar um paraíso ela mostra suas limitações”. Se dermos uma olhada nas Utopias clássicas da literatura, da poesia, do cinema, veremos que nenhuma delas se sustenta como algo plausível, e algumas chegam mesmo a se aproximar da Distopia, do pesadelo. Por outro lado, para inventar pesadelos nosso talento parece ilimitado. (Existe também uma espécie de consenso de que o Inferno de Dante é muito mais vívido, interessante, movimentado e bem escrito do que seu Paraíso).

A verdade é que a Realidade é muito mais próxima do Horror do que do paraíso ou da utopia. O propósito da ficção é alçar voo elevando-se desse horror, mas sabendo que o céu é inatingível. As coisas terríveis nos parecem mais vívidas, mais fáceis de imaginar e de assimilar porque são parte da nossa experiência real, ao passo que os paraísos são uma incógnita. Se pudéssemos visualizar o conjunto das literatura humanas em relação a esses dois extremos, veríamos que a maior parte do que criamos está bem mais próxima do pesadelo do que do paraíso, pelo simples fato de que o pesadelo é inteligível e tem abundantes exemplos, e o paraíso não. Nossas literaturas têm voo baixo: enxergam de longe o céu, mas mal conseguem se afastar do chão.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

1605) Entre o chicote e o chiclete (4.5.2008)



(monumento a Isaac Newton na British Library)

Dizem que Sir Isaac Newton, depois de perder cerca de 20 mil libras em especulações financeiras, desabafou: “Eu consigo prever os movimentos dos astros, mas não a estupidez dos homens”. O que é uma ótima notícia para todos nós. Enquanto existirem seres humanos imprevisíveis, capazes de atitudes inesperadas, nenhuma ditadura poderá se manter eternamente. Nem as ditaduras do chicote, nem as ditaduras do chiclete. Nem aquelas que se baseiam na violência, no terror e na intimidação, nem aquelas que se baseiam no pão e circo, na alienação, no controle das massas através do entretenimento e do consumo.

Não são apenas as ditaduras que tentam prever o comportamento humano. As utopias também. Utopias são uma espécie de ditaduras benignas, ditaduras do Bem. São aqueles governos que projetam, com boas intenções, a sociedade ideal, onde todos tenham direito a tudo, sem nenhum tipo de injustiça, bibibi, bobobó. O problema é que para obter isso as utopias fazem uma “limpa” total na sociedade. Não admitem a bagunça, a rebeldia, a contradição. Dizem que na “República” de Platão os poetas seriam expulsos. Por quê? Ora, porque são imprevisíveis.

No tempo de Platão não existiam muitos instrumentos para avaliar as opiniões das massas, mas mesmo assim os gregos inventaram lá o seu formato de democracia, com eleições e tudo. Hoje, com as infinitas possibilidades do controle eletrônico, das pesquisas de opinião, dos mecanismos interativos de comunicação de massas, da lavagem cerebral proporcionada pelo rádio, TV, etc., é claro que todo tecnocrata com sonhos mais audaciosos pensa consigo mesmo: “Chegou a hora! Agora vai ser possível não apenas saber o que 180 milhões de pessoas querem de fato, como também fazer com que todas elas queiram justamente o que nos convém”.

Nem o próprio Isaac Newton resistiria a um desafio como este. Porque existem dois tipos de cientista: os Grandes Individualistas e os Técnicos Competentes. Os primeiros têm por sua própria natureza um certo desprezo para com as massas, que aos seus olhos não passam de um admirável gado novo. Os segundos talvez nem sintam esse desprezo, mas vêem nas multidões o laboratório ideal para experimentos quantificadores em larga escala, que é o que lhes interessa. Quando um governo ambicioso consegue formar um quadro tecnocrático onde os dois tipos estejam bem representados, já está no meio do caminho para articular sua máquina privada de pesquisa e manipulação.

E o que nos salva é aquele herói que o cinema norte-americano, paradoxalmente, sempre endeusou. O indivíduo indomável, o individualista por conta própria, que não se acha superior a ninguém, quer apenas que o deixem em paz, dono do seu nariz, com as mãos ocupadas no que lhe apraz e com as pernas livres para ir onde quiser. Este é o indivíduo que comete as estupidezes lamentadas por Newton, mas que em última análise é o último homem livre, seja ele ovelha negra ou lobo solitário.

sábado, 29 de agosto de 2009

1225) A Utopia e o Apocalipse (15.2.2007)




(Eduardo Galeano)

Uma vez vi um comandante de navio explicando a dificuldade de manobrar um daqueles petroleiros que cruzam os oceanos: “Por ser um navio muito pesado, ele responde muito lentamente ao freio, e só pára de fato 10km depois. Portanto, se a gente avistar um iceberg a 9km, não tem mais jeito a dar: já bateu. É só ficar esperando, e rezar”. 

Não sei se ele falou em rezar; escapou-me agora, no instante da digitação, como nos escapa pelos dedos a maior parte dos clichês que trazemos na mente e que jamais seriam aprovados pela censura estética da nossa consciência. 

Mas o fato é que em momentos assim, com um iceberg 9 quilômetros à frente, nossos dedos reagem de moto próprio. Indicador e médio cruzam-se dentro do bolso da calça, para que ninguém nos veja regredindo à superstição. Ou então fazemos o sinal-da-cruz, ou batemos na madeira fingindo que estamos tamborilando os dedos, despreocupados. 

Primeira lição a extrair disso: quer saber o que o Inconsciente de um sujeito está pensando, olhe para o que fazem os seus dedos.

Todo este papo de cerca-lourenço do parágrafo anterior é sintomático do sujeito que sabe que tem uma coisa desagradável para dizer e fica enrolando, falando em redor, com medo de se aproximar do centro. Mas nove quilômetros passam rápido, e aqui chegamos. 

Todos os leitores devem ter sabido do relatório ambiental divulgado dias atrás por uma equipe internacional de cientistas. O recado que eles nos dão sobre o aquecimento global pode ser resumido mais ou menos assim: aconteceu algo de terrível com o planeta. Não pode mais ser evitado; já aconteceu, e por culpa nossa. Tudo que podemos fazer agora é preparar o mundo para as conseqüências, que só virão, aos poucos, durante as próximas décadas. 

Ou seja, o navio já bateu, e os pilotos que podiam tê-lo desviado não o fizeram. Coloquem os salva-vidas. Os que ainda não sabem nadar podem se matricular no curso de natação a ser ministrado na piscina do convés.

A consciência de um Apocalipse pode ser estranhamente reveladora para o ser humano. Tem gente que só se mexe quando sabe que aconteceu uma catástrofe. O Apocalipse tem o efeito inverso da Utopia. O escritor Eduardo Galeano afirmou certa vez: “A Utopia está no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte afasta-se dez passos. Por muito que caminhe, nunca a alcançarei. Para que serve a Utopia? Para isto: serve para caminhar”. 

Um Apocalipse anunciado, uma tragédia que se anuncia para o futuro, pode ter um efeito semelhante. Dá tempo para o mundo inteiro se preparar. Ninguém pode se queixar de estar sendo colhido de surpresa. A ficção científica, por exemplo, vem anunciando essas catástrofes ambientais desde os anos 1960. 

Para que servem o Aquecimento Global, o Degelo dos Polos, a Invasão dos Oceanos, a Submersão das Cidades Litorâneas? Para isto: serve para caminhar. Não precisam preocupar-se com você mesmos; mas preparem seus filhos.






sábado, 5 de julho de 2008

0436) Uma utopia paulista de 1909 (12.8.2004)



(Erik Desmazieres: "Ville Imaginaire")


Ontem referi minha descoberta do livro São Paulo no Anno 2000 de Godofredo E. Barnsley (1909), romance utópico escrito pelo filho de um ex-soldado Confederado que veio morar no Brasil após a derrota do Sul na Guerra Civil americana. O livro é uma prefiguração do que nossa maior cidade poderia vir a ser no futuro, se corretamente administrada. A literatura utópica não foi muito praticado em nosso país, o que só faz aumentar a importância história de livros como este e como Sua Excia. a Presidente da República no ano 2.500 de Adalzira Bittencourt (1929), O reino de Kiato de Rodolpho Teophilo (1922) e outros. Estas obras são analisadas em detalhe no livro fundamental de Roberto de Sousa Causo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil – 1875 a 1950 (Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003). O livro de Barnsley, contudo, é uma obra rara, difícil de obter até nas bibliotecas universitárias dos EUA; o exemplar que li é da Biblioteca Nacional, no Rio.

São Paulo no Anno 2000 é claramente o livro de um indivíduo culto e que tem idéias muito firmes sobre o que precisaria ser feito para que o mundo fosse um lugar decente de se viver. Indivíduos com este perfil são os grandes autores de romances utópicos como os que provavelmente serviram de inspiração e modelo a Barnsley: Looking Backward: 2000-1887 de Edward Bellamy (1888) e News from Nowhere (1890) de William Morris. Nestes dois livros, como no de Barnsley, os protagonistas adormecem no presente e acordam no futuro. Diz o narrador de São Paulo no Anno 2000, descrevendo como adormeceu numa praça no centro da cidade: “A candura, a benignidade, o socego daquelles sitios produziu em mim um suave torpor e, fechando-me os olhos ao mundo das realidades, apresentou-me um outro mundo inteiramente imaginario, povoado de visões maravilhosas. Pouco a pouco, insensivelmente, o scenario, as arvores, as cousas, foram-se transfigurando, como nas fitas cynematographycas.” O próprio narrador se compara a Rip van Winkle, o personagem de Washington Irving que também dorme durante um século.

Alguém perguntará: que importância pode ter um livro de quase cem anos atrás, e que não é, como eu próprio afirmei ontem, de grande valor literário? A resposta é simples. Arte literária não é tudo na vida dos livros. Livros valem também por serem documentos involuntários de uma época. Escritos para os homens do seu tempo, muitas vezes só são corretamente avaliados por leitores de muitos anos depois. Às vezes pretendem ser obras de arte e não o conseguem, mas ainda assim não deixam de ter valor histórico, sociológico, antropológico. Eles nos dizem como as pessoas dessa época pensavam, como avaliavam a sociedade em que viviam, quais os seus parâmetros, quais as suas aspirações. Intenções à parte, muitas vezes eles, atirando no que vêem, acertam, cem anos depois, no que não sabiam que tinham visto.

0435) “São Paulo no Ano 2000” (11.8.2004)


(Ilustração: Erik Desmazieres)

Há cerca de 15 anos, boa parte do meu tempo livre era passado na Biblioteca Nacional, aqui no Rio, vasculhando os fichários à procura de livros obscuros de ficção científica, e de novelas fantásticas escritas por autores brasileiros. Um resultado disto foi o Catálogo editado em 1992 pela própria Biblioteca, onde registrei mais de 130 dessas obras (número que de lá para cá aumentou muito). Outro resultado foi a antologia Páginas de Sombra – contos fantásticos brasileiros, que publiquei em 2003.

Uma das minhas descobertas mais interessantes foi São Paulo no anno 2000, ou Regeneração Universal – Chronica da Sociedade Brasileira futura (São Paulo: Typ. Brazi de Rothschild, 1909), romance utópico descrevendo a metrópole paulista nesse remotíssimo futuro. Durante anos pensei em escrever um pequeno ensaio a seu respeito, mas sempre me deparei com a absoluta falta de informações sobre o autor, de quem eu sabia apenas que se chamava Godofredo E. Barnsley. Mesmo depois da Internet, de nada me adiantou passar pente-fino no Google; surgiam centenas de Barnsleys, mas não este.

O problema foi resolvido com a visita recente ao Rio da “brazilianist” M. Elizabeth Ginway, professora da Universidade da Flórida e autora de Brazilian Science Fiction: Cultural Myths and Nationhood in the Land of the Future (Lewisburg: Bucknell University Press, 2004). Ela conseguiu localizar um neto do autor, que mora nos EUA. Através dele ficamos sabendo que Godofredo Emerson Barnsley era filho de um ex-soldado Confederado que, como muitos outros sulistas, migrou para o Brasil após a derrota na Guerra da Secessão. Godofredo nasceu em Quartis (SP) em 1874, e faleceu em São Paulo em 1935. Na juventude, chegou a morar por alguns anos nos EUA, mas voltou ao Brasil, e estabeleceu-se como dentista em Campinas (SP), tendo sido considerado um dos melhores dentistas paulistanos. Foi também professor da Faculdade de Odontologia na USP.

Seu livro é uma curiosa experiência em literatura utópica. O Narrador adormece numa praça no centro de São Paulo, e quando acorda vê-se numa metrópole desconhecida. Só depois descobre que havia dormido durante 100 anos. Começa a conhecer a cidade, guiado por um ancião chamado Orecnis Ocitirc, um “crítico sincero” do mundo em que vive. Em vez dos 320 mil habitantes de que o Narrador se recorda, São Paulo tem agora um milhão e meio. O livro enumera – usando as costumeiras e entediantes descrições de toda narrativa utópica – as conquistas no campo da educação, saúde, transportes, etc. São Paulo no Anno 2000 (ao qual retornarei amanhã) é um “romance prescritivo”, sem altos vôos literários, voltado para o objetivo maior dos livros desse tipo: criticar o mundo do presente, apontando soluções que deveriam ser adotadas no futuro. Gênero largamente cultivado na Europa e nos EUA, teve poucos exemplos no Brasil, o que torna ainda mais importante a sua existência, independentemente de sua qualidade artística.

segunda-feira, 10 de março de 2008

0173) A loucura da razão (10.10.2003)



As Utopias são tentativas de criar mundos baseados na ordem, na justiça, no equilíbrio. O sonho utópico existe também no campo dos idiomas, e não têm sido poucas as tentativas de criar línguas artificiais baseadas na lei e na ordem. 

A mais bem sucedida até hoje é o Esperanto, se bem que o Klingon, criado pela comunidade de fãs do seriado “Star Trek” já pulou em poucos anos para o segundo lugar. 

Na minha opinião, todavia, um indivíduo que se senta à escrivaninha e pega a caneta para inventar uma língua a partir do zero já está dando pistas de uma certa “variância” mental, parecida com a daquele doido do lixão de Salvador, que ficava com um apito na boca indicando aos urubus em que direção deviam voar.

Um desses indivíduos foi o padre espanhol Bonifácio Sotos Ochando, que por volta de 1845 criou a “Língua Universal”, com a qual queria resolver os problemas de comunicação da humanidade. A história do Padre Ochando é um dos mais divertidos capítulos do divertidíssimo livro Babel e Anti-Babel (SP, Perspectiva, 1970), onde Paulo Rónai analisa as principais línguas inventadas. 

Explica o mestre húngaro-brasileiro que a idéia do Padre era luminosamente lógica. Todos os conceitos podiam ser indicados pelas letras do alfabeto e suas posições. 

A primeira letra de uma palavra, por exemplo, indicaria sua classe; a segunda, sua subclasse; a terceira, o gênero; a quarta, a família, a quinta, o indivíduo. A terminação, por sua vez, indicaria a espécie gramatical: “C” para os advérbios, “L” para conjunções, “E” para interjeições, etc. Assim, bastaria saber de cor a tábua classificatória para, ao ver uma palavra, decodificá-la instantaneamente.

Em vez de palavras evoluídas ao léu, como estas que estou usando, teríamos uma linguagem de lógica tão infalível quanto a Geometria de Euclides ou a tabela periódica dos elementos. 

Bastaria vermos a palavra “ERUBA”, por exemplo, para saber pelo E inicial que se trata de um ser vivo, pelo R que é um animal vertebrado, pelo U que é um mamífero, pelo B que é um ruminante sem chifres, e finalmente pelo A que é um camelo. Sem falar em outras sutilezas, como o uso de um F final para indicar admiração, tornando obsoleto o ponto de exclamação. A palavra ERUBAF, portanto, significaria algo como “Que camelo!”

De boas intenções, contudo, está pavimentado não só o caminho do inferno, como também o do hospício mais próximo. Se lógica e ordem fôssem as únicas virtudes existentes, não seríamos pessoas, e sim cristais de neve comunicando-se por palíndromos. 

O Padre Ochando tentou classificar e dicionarizar todas as coisas e todos os conceitos do mundo, mas da sua língua perfeita salvou-se muito pouco. 

Rónai transcreve, a título de despedida, as primeiras linhas do Padre Nosso, na Língua Universal: “Lu Lagu sacasen, safe riaburbem be el amadas, su naglarden na sacen ibape, agoldirden lis sacas na sacen apebe, su-riajerden na sacen ucabe be anabe jal be el amada.” Amém!





sexta-feira, 7 de março de 2008

0078) O país de Dorian Gray (21.6.2003)




(Ursula K. Le Guin)
Todo mundo já parou um dia para imaginar como seria o país ideal. A escritora norte-americana Ursula K. LeGuin parou também, e imaginou num conto uma cidade utópica chamada Omelas. 

Ela descreve uma festa popular nessa cidade: jovens e anciãos desfilando com guirlandas de flores, as ruas ensolaradas, as crianças sorrindo, a música ressoando no ar. Diz ela: 

"Não conheço as leis e as regras dessa sociedade, mas desconfio que eram poucas. Assim como eram capazes de viver sem a monarquia e a escravidão, eles conseguiam viver sem bolsa de valores, sem publicidade, sem polícia secreta e sem bomba atômica.” 

Nessa cidade, “a felicidade se baseava na percepção equilibrada do que é necessário, do que não é necessário nem destrutivo, e do que é destrutivo.”

Ao cabo de algumas páginas, depois de descrever belezas e mais belezas, ela pede licença para revelar um último aspecto de Omelas. 

No porão de um dos edifícios da cidade há um quartinho, sem janelas, e com uma porta que vive trancada. Dentro desse quarto há uma criança, que não se sabe ao certo se é menino ou menina. Tem dez anos, mas aparenta ter no máximo seis. A criança está suja, doente, e mal sabe falar; consegue apenas dizer às vezes, na direção da porta: “Por favor, deixe eu sair. Eu vou me comportar bem.” 

Uma vez por dia a porta se abre, e alguém traz um prato de comida e um jarro com água. E a porta se fecha novamente.

Todas as pessoas em Omelas sabem que a criança existe. Este fato é explicado a todas as outras crianças quando elas chegam aos oito ou dez anos; algumas são levadas até lá para vê-la. E aprendem que a felicidade em Omelas tem um preço. Se um dia a criança fôr libertada, medicada, e alimentada, toda a prosperidade de Omelas irá desmoronar. 

Valeria a pena sacrificar a felicidade de milhares de pessoas para agradar a uma só? Seria justo? Não se sabe, mas a verdade é que de vez em quando há pessoas que saem caminhando até os subúrbios e vão embora. Para onde? Não sabem: só sabem que estão indo embora de Omelas.

O conto intitula-se “Aqueles que vão embora de Omelas” (“The ones who walk away from Omelas”), e ganhou o Prêmio Hugo de Ficção Científica de 1973. É uma história de ficção científica, sim. Não tem espaçonaves nem alienígenas, mas é uma extrapolação futurista, um modelo de sociedade projetado a partir de características da nossa. 

O país de Omelas me lembra o romance de Oscar Wilde O retrato de Dorian Gray, onde um playboy da alta sociedade se mantém jovem e belo a vida inteira, enquanto um retrato seu, trancado no sótão, envelhece em seu lugar. Toda vez que elogiam minha inteligência ou meu talento eu fico pensando que em algum lugar por aí existe um cara com meu rosto e meu nome, trancado num porão, a quem nunca foi dado o direito de aprender a ler, de trabalhar, de pensar por conta própria e de ser gente. Não é que Omelas seja um mau lugar, mas acaba dando uma vontade danada de ir embora.






0052) O país dos bondosos (22.5.2003)



Ser declarado invisível talvez seja preferível a ser eletrocutado, ou a ser trancado numa cela, mas qualquer pessoa que já tenha “levado um gelo” sabe que não é boa coisa. 

 Como punição social, o gelo já foi utilizado até na ficção científica. Damon Knight publicou em 1955 o conto “The Country of the Kind” , a história de uma sociedade utópica do futuro, onde as máquinas proporcionam paz e abundância. Nesta sociedade perfeita, um adolescente comete um crime, após séculos de paz obrigatória. O dilema: o que fazer? Matá-lo, prendê-lo, seria politicamente incorreto.

A solução achada é típica das utopias, lugares onde tudo é tão perfeito que está a um passo do pesadelo. Decide-se que o criminoso será declarado invisível. Ninguém pode falar com ele, tocá-lo, relacionar-se com ele de qualquer forma. Uma modificação genética o faz emitir um cheiro insuportável, que ele próprio não sente, mas que o identifica de forma cabal, por mais que se disfarce. E, caso ele esboce qualquer ato de violência contra uma pessoa, um implante no seu cérebro provoca uma crise epiléptica artificial, que o faz perder os sentidos.

Esse indivíduo, que narra a história na primeira pessoa, caminha pelas ruas como um fantasma, praticando atos de vandalismo que são rapidamente consertados sem que ninguém se queixe.  

Ele entra nas lojas, leva o que bem entende; todos fingem que não viram. Persegue pessoas, insulta-as, ameaça; elas se fazem de surdas. Quando tenta agarrá-las, ou agredi-las, bzzzzz! – o alarme epiléptico dispara, e o põe a nocaute. Em alguns momentos, ele se sente insuportavelmente só; em outros, pensa: “eu sou o rei deste mundo.”

Nessa sociedade milionária e bondosa, o homem invisível descobre um dia uma coisa chamada Arte, uma forma de expressão que existira no passado. Ele fica com a impressão de que tempos de paz só produziam imitações e obras derivativas, mas os períodos violentos produziam grandes artistas: Praxíteles, da Vinci, Rembrandt, Renoir, Picasso... 

Ele invade lojas, rouba materiais; torna-se escultor. Passa a viajar, colocando suas estátuas em lugares públicos, mas ninguém dá atenção a elas a partir do instante em que percebem que são produzidas por ele, pelo Bandido, pelo único ser imperfeito num mundo onde todos são impecáveis.

A história termina com ele vagado pelo mundo, tentando fazer com que as pessoas leiam um cartaz onde escreveu: 

“Você pode ser dono do mundo comigo. Pegue uma coisa pontuda, e apunhale alguém. Pegue uma coisa pesada, e esmague alguém. Basta isto. E você vai ser livre. Qualquer um pode ser livre.”

Isto é uma história de ficção científica? Não tem espaçonaves nem ETs. Mas fala do que, ironicamente, talvez seja o melhor dos futuros que nos aguardam. Talvez não tenhamos a sorte de chegar a isso, mas alguma coisa desse mundo já existe, na paisagem que vejo pela janela enquanto batuco aqui minhas teclinhas.