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sexta-feira, 8 de maio de 2015

3809) "Santa Sangre" (9.5.2015)



Estou coordenando, para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro) uma Mostra do Cinema Fantástico, com filmes todos os sábados às 14 horas, entrada franca. A escola fica na esquina da Rua 1º. de Março com Rua da Alfândega, pertinho do CCBB. (Após a sessão, neste sábado, haverá debate comigo e o prof. Sérgio Almeida.)

Hoje, sábado 9, será exibido Santa Sangre (1989) de Alejandro Jodorowsky, cineasta brotado na onda do cinema underground dos anos 1970, os chamados “midnight movies”. Jodorowsky é uma figura arlequinal nas artes, tendo se envolvido com literatura, teatro, cinema, quadrinhos; foi parceiro de Moebius e de Fernando Arrabal. Na ficção científica é conhecido pelo seu projeto frustrado de adaptar o romance “Duna” de Frank Herbert, que não resultou em filme, nunca decolou, mas foi uma certa injeção de ambição imaginativa no gênero, pelo menos na Europa.

Dentre os seus filmes oficiais, El Topo (1970) é um faroeste iniciático, A Montanha Sagrada (1973) é uma jornada-do-herói controlada por um duende metalinguístico, e Santa Sangre é um melodrama mundo-cão, grotesco e surpreendente, uma mistura de filme-de-terror-B-mexicano baseado em pulp-fiction estilo “weird menace”. Tem pontos de contato com um certo tipo de cinema “udigrudi” que se fazia no Rio e São Paulo na época. Um cinema meio sujo, anárquico, e que mesmo numa das raras superproduções só produz na pindaíba. Filmes pululantes de marginais, artistas de circo, fanáticos religiosos, bandidos excêntricos, militares, padres, políticos, mutilados, anões, deficientes físicos... Tipos inquietantes, meio caricaturais. Violência física, mas esfriada pela imprevisibilidade do enredo.

Santa Sangre tem momentos daquele dramalhão com ressonâncias freudianas que se vê em Nelson Rodrigues ou em Buñuel. Deste, principalmente, tem aquele gosto pelo excessivo, pelo gótico, pelas imagens bizarras sem explicação. Tem alguma coisa daquele exagero mórbido do teatro de Grand Guignol ou de algum dos vários tipos de teatro da crueldade (ou da violência) que foram tão praticados naquela época.

A certa altura o filme faz lembrar o conto de Maupassant, “O artista”, em que um atirador de facas num circo confessa ter vontade de matar a esposa, que o acompanha no número, mas diz que não consegue “errar”. O cinema de Jodorowsky é muito referencial, cheio de alusões, citações, homenagens, paródias a Fulano ou Sicrano. Mas quando ele emula Hitchcock, não é de uma maneira previsível, como acabaram se tornando os filmes de Brian de Palma, onde a referência fica sendo a razão de ser da cena. Jodorowsky insere a referência, mas não é nela que a cena está focada.


terça-feira, 13 de março de 2012

2816) Moebius (13.3.2012)




Faleceu dias atrás o grande Jean Giraud, conhecido como Moebius, um dos maiores quadrinhistas da minha memória afetiva. Conheci os desenhos de Moebius nas páginas da antiga revista Heavy Metal (que na França se chamava Métal Hurlant), e depois ele começou a pipocar no cinema, ou assinando séries próprias de histórias em quadrinhos. Meus preferidos são O Incal, com argumento de Alejandro Jodorowski, e A Garagem Hermética de Lewis Carnelian: space-operas que correspondem a um conceito proposto por Brian Aldiss, “barroco cinemascope” (“widescreen baroque”): tramas calidoscópicas em imagens gigantescas, fervilhantes de detalhes que vão do mais cientificamente plausível ao mais surrealistamente improvável. Paisagens urbanas captadas em alucinantes planos gerais repletos de personagens, gadgets, objetos, formas não-identificáveis, uma proliferação de detalhes cuja exuberância foi aprendida e expandida por outros desenhistas depois dele. Situações que mesclam folhetim e desenho animado, com personagens de romance-de-Legião-Estrangeira envolvidos em aventuras intergalácticas.

Moebius foi um desenhista capaz de começar uma história mostrando um astronauta numa paisagem bizarra... Está perdido... Aproxima-se um veículo... Descem três criaturas bizarras (cada uma diferente das outras)... Há um diálogo banal de motorista com caroneiro... Vão parar num bordel submarino ou num tiro-ao-alvo subterrâneo... E a história vai avançando meio sem propósito, meio sem enredo. Percebemos então (vi depoimentos confirmando isso) que Moebius desenhava a história quadro a quadro, sem saber o que iria acontecer no quadro seguinte. Isso dava a essas histórias um clima meio philip-k-dickiano, aquela sucessão de pequenos espantos diante do insólito, porque o próprio autor está se espantando com o que lhe vem à cabeça e à caneta.

Outra obra inesquecível é Les Maitres du Temps (1982), desenhado por ele e dirigido por René Laloux, adaptando um romance de FC de Stefan Wul chamado, na edição portuguesa da Coleção Argonauta, O Vagabundo das Estrelas, uma bela história de aventuras e de paradoxo temporal. Moebius tem aquele charme indefinível de grande parte da FC francesa, que sabe misturar, à imaginação delirante da pulp fiction, questões políticas, metafísicas ou filosóficas, coisas que assustam os norte-americanos mas os franceses tratam com a naturalidade de quem saboreia um croissant. Os franceses (Moebius é simbólico disto) nunca levaram muito a sério a colonização da galáxia (que os EUA até hoje creem ser possível). Para Moebius, de maneira exemplar, a FC estava mais próxima de André Breton do que de Wernher von Braun.

quarta-feira, 30 de março de 2011

2517) A epifania da mente (30.3.2011)



A mente humana funciona a pleno vapor no período do nascimento até os três ou quatro anos. Nessa época aprendemos a pensar, aprendemos a ver e a ouvir, aprendemos a entender, aprendemos a aprender. Adquirimos o conhecimento sensorial das coisas em volta e do nosso próprio corpo; adquirimos controle motor sobre nossos órgãos e membros; adquirimos a linguagem, a socialização, a distinção entre imaginação e realidade. Aprendemos o nomes e as funções de cada objeto ou pessoa, e ao mesmo tempo aprendemos que tipo de comportamento cada uma delas espera ou exige de nós. Depois dessa época, amigos, paramos de aprender. Vivemos no piloto automático, correndo atrás quando a barra pesa, tocando a bola no meio de campo quando o placar é favorável. Mas paramos de pensar.

Talvez seja isto o que distingue os cientistas e os artistas: são pessoas que não pararam de pensar. Claro que há exceções para tudo, mas a ciência e a arte são atividades em que se espera do sujeito que tenha idéias novas, idéias únicas e pessoais. Num certo sentido, são obrigados a permanecerem crianças a vida toda, ou a manter uma banda de sua cabeça pensando como criança. Vendo as coisas como se fosse pela primeira vez.

Às vezes o cientista vê algo que só está ali virtualmente. Galileu estava um dia olhando uma carruagem que passava devagar e imaginou um pingo de lama caindo no aro de uma das rodas da carruagem. Imaginou que à medida que a roda rodava o pingo de lama descrevia um círculo, mas como a carruagem avançava horizontalmente o traçado desse círculo avançava também: surgiu daí a ciclóide. Esta curvazinha invocada já tirou pontos de muitos vestibulandos que não tiveram o prazer de descobri-la por si mesmos e sentirem-se Deus por um segundo.

Conta-se também (Zsolt Harsaniy, A Vida de Galileu) que ele quando jovem foi desprezado por uma namorada e decidiu se matar, jogando-se ao rio. Debruçou na ponte e ficou vendo as coisas que passavam na correnteza. A flutuação de alguns objetos começou a lhe parecer diferente da flutuação de outros, e, como o marinheiro na “Descida ao Maelstrom” de Edgar Poe, ele percebeu uma lei matemática naquilo. Mandou a namorada pastar e correu pra casa para fazer os cálculos.

Alejandro Jodorowsky, numa entrevista à revista carioca Azougue, contou este episódio: “Darei um exemplo do que faz a poesia. Eu estava nessa época no Chile, era um adolescente, um garoto de uns 20 anos e era muito amigo de um psicanalista. E um dia ele me disse que acabara de passar algo incrível, porque, ele disse, você sabe que um trauma é algo desagradável, mas tenho um caso de alguém que se tornou louco devido a um pensamento poético que teve. Há um rio em Santiago, o Mapocho, e no poente ele se pôs a observar o rio. As águas do rio passam, passam... o reflexo das estrelas permanece. Ficou louco. Isso se deu porque era uma pessoa comum. O primeiro pensamento poético que teve tornou-o louco”.

sábado, 10 de julho de 2010

2255) Filme B de intelectual (30.5.2010)



O melhor tipo de filme que existe é filme B feito por intelectual. É muito melhor do que filme A feito por gente tapada. 

E é juntar o melhor de dois mundos: um filme B é por definição um filme que não tem muitas ambições de bilheteria ou de crítica, um filme feito apenas para se pagar, sumir e dar lugar ao próximo. Não quer invadir mercados, não quer disputar espaço em centenas de salas, não foi feito sob uma enorme expectativa de desempenho nas bilheterias, não teve ações negociadas numa bolsa de mercados futuros. Só tem obrigações para consigo mesmo. 

O filme B é feito por uma turma, não por uma equipe de grandes estrelas. O que reúne essas pessoas não é o sonho da fama nem a ambição da fortuna, é a excitação de fazer um filme.

O problema dos filmes B em geral é serem feitos por pessoas cuja cabeça é uma mistura confusa de influências mal assimiladas e de idéias próprias sem relação entre si. 

Se não existissem as fórmulas de gênero (terror, policial, bang-bang, noir, zumbis, FC, etc.) os realizadores de filmes B não saberiam direito o que dizer ou filmar. Os gêneros lhes dão de bandeja um cardápio completo de temas, situações, personagens e enredos. Eles agradecem, e entregam-se à volúpia da filmagem. 

O resultado? Filmes B que seguem as fórmulas, admitindo vez por outra algumas surpresas e transgressões, mas que só não afundam porque a fórmula lhes serve de bóia. Sem ela, sumiriam como pedras.

Daí que o filme B feito por intelectuais não apenas nos traz algo de novo, como geralmente se eterniza. Não é outra coisa o melhor cinema de Glauber Rocha, Jean-Luc Godard, Alejandro Jodorowsky, Quentin Tarantino, Buñuel, Jim Jarmusch, Rogério Sganzerla. 

Todos trabalham com moedas contadas, mas suprem em criatividade e inovação as limitações de orçamento. 

Como são diretores de filme B, têm amor pelos gêneros e pelas fórmulas. Como são intelectuais, refletem criticamente sobre elas, uns questionam, outros interferem, outros aprimoram. 

É preciso ter a cara-de-pau de um Godard para dizer que Alphaville é um filme de ficção científica, a cara-de-pau de um Jodorowsky para dizer que El Topo é um faroeste, a cara-de-pau de Buñuel para dizer que Belle de Jour é um melodrama, a cara-de-pau de Glauber para dizer que Deus e o Diabo é um filme de cangaço. São – e não são.

Howard Hawks deu sua fórmula para um bom filme: “Três cenas boas e nenhuma ruim”. É uma definição exemplar para um filme normal. 

Um filme B, em contrapartida, seria: “Se tiver três cenas boas, todas as outras podem ser ruins”. 

O filme B não tem medo de atingir os abismos, desde que confie no próprio impulso para, cinco minutos depois, atingir um pico de qualidade. O filme B feito por intelectuais é o último reduto de liberdade criativa, desde que seja assumidamente B em sua orgulhosa precariedade técnica. E que seja corajosamente intelectual ao dizer: “É só um filme B, mas toda a memória cultural do mundo cabe dentro dele”.


sábado, 8 de maio de 2010

2018) A “Montanha” de Jodorowsky (27.8.2009)



A Montanha Sagrada é o último filme na Mostra de Alejandro Jodorowsky que está em exibição no Cine SESC, no centro de João Pessoa (Rua Desembargador Souto Maior, 281). As sessões são gratuitas, e acontecem ao meio-dia e às 18 horas. O telefone do Setor de Cultura do SESC é 3208-3158.

Jodorowsky, chileno de origem russa que se tornou famoso fazendo teatro na França e depois cinema nos EUA e México, é um dos expoentes menos conhecidos, aqui no Brasil, da Contracultura dos anos 1960-70, da qual fez parte com uma intensa atuação, que continue até hoje, na literatura, cinema, histórias em quadrinhos, teatro, o escambau. Ele é um desses criadores infatigáveis que mal acordam já estão escrevendo, desenhando, interpretando, combinando formas, associando idéias... Tudo que faz é genial? Nem de longe. Faz um monte de coisas que (pra mim pelo menos) não fazem muito sentido. Mas com 80 anos recém-completados é uma usina de criatividade, energia e bom-humor. Dois anos atrás, assisti um debate com ele aqui no Rio, e pensei que era da minha idade.

A Montanha Sagrada é uma alegoria que lembra certas obras de Glauber Rocha como Cabeças Cortadas. (Eita, com essa referência já fiz 100 mil leitores desistirem de ver o filme!) Mas vai muito mais longe e mais fundo que o filme de Glauber, e tem uma narrativa onde o alegórico, o absurdo, o fantástico e o humorístico se alternam. É a trajetória de um indivíduo chamado O Ladrão através de estágios sucessivos de iluminação e de estudo, conduzido por uma espécie de Alquimista, sobre a verdadeira natureza da sociedade político-militar-industrial em que vivemos.

Moebius, o parceiro de Jodorowsky em HQ, dizia que a cabeça dele funcionava “como 3 mil computadores enlouquecidos”, e conta um episódio de quando estavam tentando adaptar o romance de FC Duna (que acabou sendo filmado por David Lynch). Discutiam como deveriam se vestir os nobres da Casa de Harkonnen. Jodorowsky tapou os olhos com a mão, andou até as estantes, tateou ao acaso, pegou um livro qualquer, abriu ao acaso, e encontrou uma reprodução de um quadro de Ticiano. “Vão se vestir assim!”, bradou ele, para horror e escândalo de Moebius, o qual, por mais maluco que seja (e não é pouco) teve uma formação francesa e cartesiana. “Percebi depois,” confessa o desenhista, “que esse método maluco de Alejandro nos mostra que o ponto de partida criativo pode ser qualquer um, e quanto mais inesperado melhor, porque abre caminho para a contribuição do nosso inconsciente, que sabe tudo”.

Em seu clássico estudo Midnight Movies, J. Hoberman e Jonathan Rosenbaum comentam que “Jodorowsky pode ser visto como um oportunista em estética, numa tradição compartilhada por camelôs de símbolos, de talentos variados, como Shuji Terayama, Fernando Arrabal, Jean Cocteau e Ken Russell”. A Montanha Sagrada, co-produzido por John Lennon, é a produção mais ambiciosa de Jodorowsky e, para alguns, seu melhor filme.

2017) “El Topo” (26.8.2009)



“El Topo” significa “a toupeira”, um animal subterrâneo que vive cavando na escuridão e um belo dia, por acidente, vem dar à superfície da terra, em pleno sol do meio-dia. É uma metáfora para a iluminação (no sentido místico, esotérico) que às vezes acomete um indivíduo sem que ele a procure. O raio divino que cai sobre Saulo na estrada de Damasco, o “estalo” do Padre Vieira, a epifania de Nietzsche na montanha tendo o vislumbre instantâneo do Eterno Retorno.

El Topo está sendo exibido apenas hoje na Mostra Jodorowsky do Cine SESC, no centro de João Pessoa (Rua Desembargador Souto Maior, 281). As sessões são gratuitas, e acontecem ao meio-dia e às 18 horas. O telefone do Setor de Cultura do SESC é 3208-3158.

Alejandro Jodorowsky fez este faroeste metafísico em 1970, misturando influências de Sérgio Leone (que na época não era considerado mestre coisa nenhuma, era um mero diretor de bang-bangs italianos), Luís Buñuel, Glauber Rocha (isto quem diz sou eu), o Teatro do Absurdo, Samuel Beckett, e inúmeros elementos da Contracultura hippie dos anos 1960 (visões lisérgicas, misticismo oriental, xamanismo, etc.). O resultado é um filme tecnicamente precário mas surpreendente e fascinante. Hoje, um filme mais difícil de aceitar do que na época em que saiu, porque é fruto daquele período em que havia uma propensão muito maior para o que eu chamo de “filme B para intelectuais”. Hoje em dia, o cinema se dedica a produzir filmes A para analfabetos.

“A Toupeira” é um cowboy vestido de preto, que cavalga pelo deserto levando um menino nu (seu filho) na garupa e um enorme guarda-chuva que o protege do sol. O ator é o próprio Jodorowsky, e o pistoleiro irá enfrentar ao longo do filme uma série de aventuras surrealistas. Depois de exterminar um coronel e seu grupo de bandidos, ele é forçado a enfrentar quatro mestres pistoleiros que lhe darão lições de sabedoria antes de serem mortos. Depois passa por um processo de morte e ressurreição (o filme já foi descrito como “um western-spaghetti budista”) e transforma-se num monge mendicante, antes de ajudar na libertação de um povo que vive numa caverna, no interior de uma montanha.

El Topo se beneficiou de ter participado em 1970 de um festival de cinema de vanguarda no cinema Elgin, em Nova York, em que também foram exibidos filmes de John Lennon e Yoko Ono. Visto e elogiado pelo casal, o filme ficou em cartaz em sessões à meia-noite (por ser considerado “forte” para o público normal), sete noites por semana, de dezembro de 1970 até junho de 1971, sem nenhuma publicidade além do boca-a-boca, rendendo ao exibidor cerca de 4 mil dólares por semana. Deve-se em grande parte a ele o conceito de “midnight movie”: filmes que contém sexo e violência, linguagem anti-convencional, produção barata, idéias pouco ortodoxas, com forte apelo para públicos específicos, e capazes de desencadear um culto que os mantém em evidência décadas depois de sua realização.

2016) Mostra Jodorowsky em JP (25.8.2009)



O Cine SESC, no centro de João Pessoa (Rua Desembargador Souto Maior, 281) está exibindo esta semana uma mostra do cinema de Alejandro Jodorowsky, sobre quem já escrevi nesta coluna. A Mostra exibiu ontem, segunda-feira, La Cravate, curta-metragem de 1957. Hoje, passa Fando e Lys (1968), uma parceria do diretor com o espanhol Fernando Arrabal (o autor de Piquenique no Front e outros clássicos do teatro do Absurdo). Amanhã será exibido o faroeste metafísico El Topo (1970), que tornou Jodorowsky um sucesso “cult” em Nova York e criou, de certo modo, o gênero chamado de “midnight movies”. E na quinta-feira passa A Montanha Sagrada (1973), que em termos das produções precárias e inventivas do diretor pode ser chamado de super-espetáculo. As sessões são gratuitas, e acontecem ao meio-dia e às 18 horas. O telefone do Setor de Cultura do SESC é 3208-3158.

Jodorowsky é uma figura fascinante, e em 2007 foi exibida aqui no Rio de Janeiro uma mostra bem mais extensa de sua obra, inclusive o longa Santa Sangre e vários curtas. Um dos aspectos mais interessantes do diretor salta aos olhos quando a gente folheia um catálogo ou um apanhado qualquer de críticas a seu respeito: é a enorme variedade de nomes com os quais ele é comparado. Uns citam Sérgio Leone, outros Rocky Horror Show. Alguns o comparam aos quadrinhos de FC de Moebius e outros aos filmes de Buñuel . Seu estilo fragmentado e surpreendente lembra o de Glauber Rocha e também o de David Lynch. Sua predileção foi criaturas grotescas evoca Fellini e ao mesmo tempo evoca o Expressionismo alemão.

Jodorowsky é um desses criadores inquietos que estão se lixando para coerência estética ou para a criação de um “estilo pessoal”. Uma das características mais interessantes do seu cinema é uma sensação permanente de que tudo pode acontecer, de que não existe nenhuma regra, nenhum limite, nenhuma barreira. Em vez de ser um cineasta até a medula, ele é um criador híbrido, que escreve romances e poemas, investiga o Tarô e a magia, escreve histórias em quadrinhos e peças de teatro, recorre ao romance policial, à ficção científica e ao surrealismo. Ou seja, todos esses gêneros ou linguagens são meros instrumentos dos quais ele lança mão quando lhe convém, criando uma “salada” expressiva que poderia resultar em mero papel-carbono, se não fosse justamente essa permanente imprevisibilidade que ele impõe a suas narrativas.

Os filmes de Jodorowsky não são para qualquer público, e eu pagaria o preço de dez ingressos pelo prazer de ver um “público de cinema de shopping” entrando, inadvertidamente, numa sessão de El Topo pensando que se trata de um filme de cowboy, ou de A Montanha Sagrada pensando que se trata de um filme místico. Cada um deles é exatamente isso, mas de uma maneira tão inesperada e heterogênea que um espectador casual correria o risco de fritura irremediável dos neurônios.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

1476) “Santa Sangre” (6.12.2007)



Este filme de Alejandro Jodorowsky, exibido na retrospectiva desse autor no CCBB do Rio, é outra incursão sua no universo do “filme B para intelectuais”. O filme “B” propriamente dito é o filme feito com pouco dinheiro, com objetivos comerciais, e seguindo de perto uma fórmula consagrada. O filme B para intelectuais é feito também com pouco dinheiro, mas tem objetivos estéticos, filosóficos ou políticos, e tende a “explodir” as fórmulas que utiliza.

Santa Sangre foi feito no México por Jodorowsky em 1989, a convite de um produtor que lhe sugeriu um filme sobre um “serial killer” que matava mulheres. Jodorowsky produziu um filme de duas horas que começa num circo à la Fellini onde ocorrem adultérios e crimes à la Buñuel. A primeira metade conta a vida de Fênix, um rapaz internado num hospital psiquiátrico após ver o pai, artista de circo, cortar os braços da mulher e suicidar-se. Na segunda metade, reaparece a mãe, que o domina mentalmente e passa a usar seus braços e mãos como se fossem os dela, levando-o a cometer crimes.

Este breve resumo seria o bastante para um filme B convencional, que se dedicaria a contar apenas isto. Jodorowsky, no entanto, cria várias narrativas menores dentro desta, cada uma delas parecendo pertencer a um gênero diferente: terror, fantasia, surrealismo, “exploitation movie”... O filme B para intelectuais tem essa falta de cerimônia com relação às fronteiras entre os gêneros. O diretor B convencional é em geral um artesão que se especializa num tipo de filme específico (FC, faroeste, policial, etc.) e age como se a intrusão de elementos estranhos fosse um defeito, uma confissão de incompetência. O intelectual que dirige filmes B parece divertir-se com essas intromissões, essas pequenas heresias. Ele não se sente submisso nem às convenções nem às exigências do mercado. Não faz filmes para ganhar dinheiro, mas para se exprimir, para defender um ponto de vista, para se divertir – e os gêneros que se danem.

Santa Sangre traz citações explícitas a Psicose de Hitchcock, ao Homem Invisível de H. G. Wells, a clássicos do terror como As Mãos de Orlac e O Médico e o Monstro, aos incontáveis filmes que misturam terror e circo, às lutas de tele-catch mexicanas. Num debate após o filme, o diretor contou divertidas histórias de bastidores mostrando os truques (tão comuns no cinema brasileiro) para conseguir de graça elementos que um filme “A” simplesmente incluiria no orçamento.

A crítica cinematográfica costuma chamar (corretamente) de “filme B” a produção norte-americana de estúdios como Republic, Monogram, etc., ou de produtores independentes como Roger Corman, que faziam um longa num fim de semana. Por mim, o “filme B para intelectuais” inclui grande parte da obra de Godard, Glauber Rocha, Buñuel e outros que, como Jodorowsky, trabalharam com pouco dinheiro e puderam usar o cinema como uma destruição criativa de fórmulas e de receitas.

sábado, 2 de janeiro de 2010

1466) “A Montanha Sagrada” (24.11.2007)


Está em exibição no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio (vai depois para São Paulo e Brasília) o “Festival Alejandro Jodorowski”, em homenagem ao escritor e cineasta chileno, radicado na França. Jodorowski já foi chamado de “a Contracultura de um homem só”, pela sua atividade múltipla. O pessoal que me chama de “multimídia” devia prestar atenção nesse rapaz, que dirige filmes, escreve livros e roteiros de quadrinhos, bota cartas de Tarô, faz sessões de Psico-Magia, dirige e atua no teatro, compõe as próprias trilhas sonoras, e ainda encontra um jeito de ser especialista em misticismo oriental, ocultismo, sexo tântrico, etc. Foi parceiro de Fernando Arrabal, Jean Cocteau, Moebius e muitos outros, e amigo de roqueiros como John Lennon e Marilyn Manson.

Na abertura do Festival foi exibido A Montanha Sagrada, filme produzido por Allen Klein, ex-empresário dos Beatles, com dinheiro fornecido por John Lennon e Yoko Ono. O filme foi filmado em 1973 no México, e é ambientado num desses universos latino-americanos surrealistas que tantas vezes encontramos nos filmes de Glauber Rocha ou nos livros de Garcia Márquez, Lezama Lima ou Carpentier. É uma sucessão de imagens chocantes, absurdas, poéticas, violentas ou grotescas, enquanto a câmara acompanha a peregrinação de um homem nu, que lembra vagamente Jesus Cristo, ao longo de uma metrópole repleta de cadáveres, massacres políticos e turistas endinheirados que filmam a própria esposa sendo currada pelo Exército local. Há uma cena espantosa, o “Grande Teatro de Sapos e Camaleões”, em que estes animais encenam (vestidos a caráter), numa maquete, a destruição do império asteca pelos europeus.

O filme de Jodorowsky lembra muitos as obras do chamado “cinema udigrudi” que se praticava no Brasil naquela mesma época, os filmes anárquicos e desconexos de Rogério Sganzerla, Julio Bressane, Neville d’Almeida e muitos outros, além dos delírios alegóricos com que vários cineastas do Cinema Novo (Glauber, Nelson Pereira, Jabor, Cacá Diegues, etc.) procuravam desconcertar os censores, notoriamente incultos e pouco inteligentes. Há constantes referências ao LSD, ao misticismo oriental, ao rock, o que leva Jodorowsky mais para o lado udigrudi; mas seu filme é caro inclusive para os padrões do Cinema Novo da época. Dizem ter custado 750 mil dólares, o que era bastante dinheiro na época. O pessoal que fazia “udigrudi” no Brasil trabalhava com um décimo disto, ou um centésimo (como no recentemente comentado Hitler 3o. Mundo, 29 de setembro).

Não é de admirar, pela incessante inventividade visual e de roteiro (ainda que numa estética datada) que Jodorowsky tenha conseguido 2 milhões em financiamentos para filmar Duna, o clássico da FC. Também não é de admirar que o projeto tenha sido tirado de suas mãos depois que o dinheiro evaporou. Seu cinema é uma mistura de cinema de arte, cinema “exploitation” e filme B, uma mistura única e que ainda nos ensina muita coisa.