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terça-feira, 18 de julho de 2023

4963) A arte da ironia (18.7.2023)



A repetição está na raiz de qualquer literatura. Tudo que dizemos provavelmente já foi dito por alguém, em algum momento. Não importa se eu já vi esta frase ou não; ela já foi dita. O fato de eu ter ou não consciência disto cria uma diferença. Se eu desconhecia a frase, estou repetindo; se eu a conhecia, estou imitando, mas posso também estar produzindo uma variante deliberada. A Literatura vive, também, da criação contínua de variantes do que já existe. 
 
São as variantes de uma idéia que, injetando nela algo de novo, garantem a sua sobrevivência e a chance de que venham a ser novamente imitadas no futuro. É assim que se criam os gêneros literários: imitando algo que já foi feito, e introduzindo pequenas surpresas e viradas-de-esquina. Repetindo o que já se tornou patrimônio coletivo, e inserindo nele uma contribuição individual. 
 
Mark Twain, um grande fazedor de frases, disse certa vez num discurso: 
 
“Fiquei triste ao ver meu nome mencionado como um dos grandes autores da Literatura, porque eles têm o triste costume de acabar morrendo. Chaucer já morreu, Spencer morreu, o mesmo aconteceu com Milton, com Shakespeare... e eu mesmo não me sinto muito bem”.
 
É uma enumeração grave e sisuda que resvala, aos poucos, para um final meio gozador. O que na retórica chama-se de bathos, uma forma de anticlímax que geralmente produz o riso quando a usamos de forma mais caricatural: “Entre as minhas influências literárias estão Shakespeare, Goethe, Dostoiévski e Didi Mocó.”  
 
Mark Twain foi o primeiro a fazer esse tipo de enumeração irônica? Pode ter sido, ou pode ser que não; não importa. Quando uma forma de dizer as coisas se revela eficaz, ela provavelmente será imitada por alguém. Em seguida, a existência desses dois exemplos aumenta as chances de que haja um terceiro. E depois um quarto, e depois um quinto... e eu mesmo já estou derrapando no mesmo caminho. 
 
Coube a Woody Allen, um discípulo de Mark Twain (todos os humoristas norte-americanos o são), dar sua versão desta figura retórica quando disse: 
 
Deus está morto, Marx está morto, e eu mesmo não estou me sentindo muito bem. 

Num poema do livro Sentimento do Mundo (“Ode ao Cinquentenário do Poeta Brasileiro”) Carlos Drummond de Andrade fez uma bela homenagem a Manuel Bandeira, e a certa altura comparou o destino discreto de Bandeira, de poetar quase em segredo, com o destino de outros colegas seus: 
 
Efetivamente o poeta Rimbaud fartou-se de escrever,
o poeta Maiakóvski suicidou-se,
o poeta Schmidt abastece de água o Distrito Federal...
 
Macacos me mordam se não há uma ironia mordaz nessa comparação, em que ele justapõe dois poetas (Rimbaud e Maiakóvski) que viveram trágica e radicalmente a poesia e Augusto Frederico Schmidt, um poeta-empresário, sócio de variadas indústrias, dono de supermercados.
 
Jean-Luc Godard é um autor que usa a ironia e o sarcasmo como outros usam o sal e a pimenta. Além do mais, é um citador inveterado, e já afirmou que o cinema deveria consistir apenas em pessoas diante de uma câmera lendo trechos de seus livros preferidos.



(A Chinesa)


Em A Chinesa (1967), ele faz a personagem Véronique (Anne Wiazemsky) dizer:
 
Olhe aqui... Nizan está morto. Merleau está morto. Sartre se escondeu dentro de Flaubert. E Aragon se escondeu na matemática. 
 
Ele se refere a Paul Nizan (1905-1940), escritor ligado ao grupo existencialista, cujo romance Aden-Arabie fornece o nome escolhido pelos personagens do filme de Godard para batizar a sua “célula maoísta”. Merleau é Merleau-Ponty (1908-1961), filósofo, co-editor com Sartre da revista Les Temps Modernes
 
A ironia com os contemporâneos vai na direção de Sartre, na época mergulhado em sua gigantesca análise da vida e obra de Flaubert (L’Idiot de la Famille, 1971-1972), e do poeta Louis Aragon. No caso deste não encontrei nenhuma relação com a Matemática, mas seja o que for soa como uma ironia (do personagem) para com um dos criadores do Surrealismo e depois comunista militante.



E da literatura e do cinema esse recurso retórico acaba chegando à música popular através de Caetano Veloso, na canção “O Estrangeiro” (no álbum Estrangeiro, 1989): 
 
O amor é cego,
Ray Charles é cego,
Stevie Wonder é cego,
e o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem... 
 
O mesmo recurso de enumeração decrescente serve aqui a outro propósito. Eu vejo uma intenção irônica ou levemente depreciativa nos exemplos de Carlos Drummond e de Godard. Não vejo o mesmo propósito neste exemplo de Caetano, que formou sua citação mais pelo ouvido (ecoando o trecho final de “...não muito bem...”) do que por uma intenção satírica. 
 
A letra de “Estrangeiro” é uma dessas letras viajandonas de Caetano, à base de citações inesperadas, associações livres, lirismo palavra-puxa-palavra, quase como uma escrita automática surrealista. Mas, como sempre, “existe método nessa loucura”. Caetano joga o tempo todo, nestes versos, com o conceito mutante de beleza visual, coisas que todo mundo vê mas vê de forma diferente. 
 
Uns acham a Baía de Guanabara uma beleza, outros um horror, outros a olham e não a veem. Enxergar é uma coisa, ver é outra. Isto é reiterado no videoclip, em que ele “vê”, se se virar, o velho e a moça que caminham atrás dele na areia da Baía. “Cego de tanto vê-la”, ele se equipara a Ray Charles, Stevie Wonder e Hermeto Paschoal, e se o faz no formato retórico celebrizado por Mark Twain, é com uma intenção totalmente diferente. 
 
“Repetir, modificando” é um conselho útil para quem escreve ou cria; aliás nem precisava ser um conselho, porque é uma coisa inevitável. Repetir é sempre modificar, porque mesmo se copiarmos a obra de alguém tintim-por-tintim o simples fato de fazer isto noutra época e noutro contexto já desvia e refrata as leituras possíveis. 
 
Não precisa. “Repetir, modificando” é um prazer. O que nos leva a fazê-lo é menos a preguiça de quem repete do que a excitação de quem quer introduzir uma variante, porque teve uma idéia nova em torno daquilo e mal pode esperar para botá-la na roda. 
 
 




sábado, 15 de abril de 2023

4932) A tristeza e a música (15.4.2023)




No conto que abre o livro Sagarana (1946), “O Burrinho Pedrês”, Guimarães Rosa encastoa uma série de pequenas histórias, “causos” que os vaqueiros contam uns aos outros enquanto conduzem uma boiada, num trajeto longo e vagaroso até a vila onde passa o trem.
 
Uma dessas histórias é contada pelo vaqueiro João Manico. Ele diz que anos atrás o atual patrão deles, Major Saulo, era apenas “Seu Saulinho”, e os levou para trazer uma boiada que acabava de comprar. Como na volta tinham que passar pela cidade de Curvelo, o vendedor do gado lhes pediu um favor: que deixassem lá um menino, um pretinho de uns 7 anos, para ser entregue ao irmão que ali morava. 
 
Os vaqueiros trazem o pretinho à garupa, mas o menino está inconsolável porque está indo embora. Ele não quer ir, pede para ser levado de volta, implora... 
 
E, aquilo, ele chorava, sem parar, e de um sentir que fazia pena... Não adiantava a gente querer engambelar nem entreter... Eu pelejei, pelejei, todo-o-mundo inventava coisa para poder agradar o desgraçadinho, mas nada d’ele parar de chorar... (...) ...O pretinho vinha comigo na garupa, dando soluços grandes, e molhando minhas costas de tanta lágrima... Então eu falei: — “Olha os bois também com saudade dos pastos lá da fazenda”... — Para que foi que eu fui dizer isso! Ele abriu ainda mais no bué, e começou a gemer: — “Ai, seu mocinho bom! Ai, seu mocinho bom! Me deixa eu ir-s’embora para trás! Me deixa eu ir-s’embora para trás!”... 
 
Quando ele viu que não adiantava nada pedir, garrou só a exclamar: — “Ai, seu mocinho ruim! Ai, seu mocinho ruim!... Eu só queria poder sentar agora, um tiquinho, naquela canastra de couro, que tem lá no rancho de minha mãe... Queria só ver, de longe, a minha mãezinha, que deve de estar batendo feijão, lá no fundo do quintal!”... 
 
Os vaqueiros ficam naquela sinuca, porque todo mundo está comovido com o choro do garoto mas não fazia sentido voltarem atrás com boiada e tudo. E lá vão eles. Montam acampámento para passar aquela primeira noite.
 
E foi aí, bem na hora em que o sol estava sumindo lá pelos campos e matos, que o pretinho começou a cantar... ...Ah, se vocês ouvissem! Que cantiga mais triste, e que voz mais triste de bonita!... Não sei de onde aquele menino foi tirar tanta tristeza, para repartir com a gente... Inda era pior do que o choro de em-antes... 
 
A voz do menino chega a lembrar (ou será que estarei me sugestionando?) a voz de um Milton Nascimento infantil mas já capaz das nuances futuras de um Milton Nascimento – que já era nascido quando Rosa publicou seu livro: 
 
Era assim uma cantiga sorumbática, desfeliz que nem saudade em coração de gente ruim... Mas, linda, linda como uma alegria chorando, uma alegria judiada, que ficou triste de repente:
...“Ninguém de mim
ninguém de mim
tem compaixão...” 




Os vaqueiros ficam indóceis, todo mundo nervoso. Um bebe cachaça, o outro puxa do bolso as cartas da família, outro cantarola triste... A história do pretinho tem um final trágico e meio sobrenatural, que fica reservado a quem se dispuser a ler o conto. 
 
O episódio do negrinho me trouxe à lembrança uma cena parecida, num dos meus contos preferidos de Mark Twain, “Uma Estranha Aventura” (“A Curious Experience”, 1881). 
 
Um adolescente pede para se alistar nas tropas do Norte, durante a Guerra Civil norte-americana, e é designado para ajudar na banda de música do quartel. O problema que surge é porque toda noite, no alojamento, antes de dormir, o menino (que tem uns 14 ou 15 anos) reza em altas vozes pedindo a bênção do céu para cada músico da banda; e depois desata a cantar hinos religiosos. 



(Mark Twain)
 
Um oficial relata o fato ao Major:
 
Mas o mais grave de tudo é que quando acaba a reza – quando ele finalmente acaba a sua reza – ele ergue a voz e começa a cantar. Bem, o senhor sabe que a voz dele, quando fala, é doce como o mel; sabe como seria capaz de persuadir aquele cão de ferro do portão a descer os degraus e vir lamber-lhe a mão. Creia na minha palavra, isso não é nada diante da cantiga! Ah, ele se limita a entoar aqueles versos , numa voz tão doce e tão suave, ali no escuro, que faz a gente pensar que está no céu. (...) E ele canta: “Assim como eu sou – um coitado, um cego, um desvalido...”  (...)  E ele faz um homem se sentir o bruto mais ingrato e mais canalha que já existiu. E quando ele canta sobre a casa em que viveu, e sua mãe, e sua infância, e as lembranças de antigamente, e os amigos que morreram e se foram para sempre, isso traz para a mente daqueles homens tudo que eles amaram e perderam em sua vida... 
(trad. BT)
 
Os hinos do garoto fazem aqueles soldados rudes chorarem aos soluços, e na manhã seguinte levantam-se todos fungando, com olhos vermelhos, sem coragem para olhar na cara uns dos outros. 
 
Ficam tal como os vaqueiros do conto de Rosa – que numa entrevista ao Correio da Manhã em 1946 asseverou ter misturado à história dos vaqueiros um personagem real: um menino preto que ele conheceu numa pensão onde morou, quando era estudante na capital mineira. 
 
A poética da tristeza ganha uma dimensão maior quando estabelece esse contraste entre a inocência da infância e o temperamento calejado de homens guerreiros. 
 
E existe o poder hipnótico da tristeza, a tristeza como uma emanação irresistível que brota de alguém e envolve os sentimentos de quem esteja em volta. É algo que foi expresso de maneira inesquecível por Samuel R. Delany em sua noveleta interplanetária Empire Star (1966; no Brasil, “Estrela Imperial”, Ed. Morro Branco, trans. Petê Rissati)).



O protagonista desta história é Comet Jo, um rapaz meio andarilho, que costuma tocar uma ocarina, e precisa pegar carona numa espaçonave para ir a outro planeta, cumprir uma missão qualquer. (Não é uma “missão qualquer” – este livro é cheio de coisas interessantes, mas que não vêm ao caso para esta citação.)  Ele é aceito na nave, e outro rapaz, também músico, chamado Ron, começa a lhe mostrar o que há lá dentro. 
 
Uma das coisas que há lá dentro é um carregamento de “Lll” (=a letra L, três vezes repetida), seres alienígenas.
 
Jo seguiu Ron por um corredor, passaram por uma escotilha, desceram uma pequena escada.
– Os Lll estão aqui – disse Ron, diante de uma porta circular. Ainda estava segurando o braço do violão. Empurrou a porta, e alguma coisa agarrou o estômago de Comet Jo e o virou pelo avesso. Lágrimas cresceram nos olhos dele, e sua boca se abriu. Respirou com dificuldade.
– É uma porrada, hein? – disse Ron em voz baixa. – Vamos entrar.
Jo estava amedrontado, e quando penetrou naquela penumbra sentia-se afundar dez metros a cada passo. Piscou os olhos para clarear a vista, mas as lágrimas voltaram.
– Esses são os Lll – disse Ron.
Jo viu lágrimas no rosto queimado de sol de Ron. Olhou para diante.
Eles estavam acorrentados ao piso pelos pulsos e tornozelos; Jo contou sete deles. Seus enormes olhos verdes piscavam na luz azulada do compartimento de carga. Seus torsos eram encurvados, as cabeças hirsutas. Seus corpos pareciam imensamente fortes.
– O que é que eu estou... – Jo tentou dizer, mas tinha alguma coisa presa na garganta. – O que é que eu estou sentindo? – sussurrou ele, pois era o mais alto que conseguia falar.
– Tristeza – disse Ron.
E assim que recebeu um nome aquela emoção se tornou reconhecível – uma tristeza vasta, avassaladora, que sugava todos os movimentos de seus músculos, toda a alegria dos seus olhos.
– Eles me deixam... triste? – perguntou Jo. – Por que?
– São escravos – disse Ron. – Eles constroem; constroem de uma maneira muito bela, maravilhosa. São extremamente valiosos. Construíram metade do Império. E o Império os protege desta maneira.
– Protege? – perguntou Jo.
– Ninguém pode se aproximar deles sem se sentir assim.
– Nesse caso, quem iria comprá-los?
– Não muitas pessoas. Mas existem em número bastante para que eles sejam escravos incrivelmente valiosos.
– Por que não soltam eles?! – perguntou Jo, e a frase soou no final quase como um grito.
– Economia – disse Ron.
– Como é que alguém pode pensar em economia sentindo-se deste jeito?
– Não é muita gente que consegue – disse Ron. – Essa é a proteção dos Lll.
Jo esfregou os olhos.
– Vamos sair daqui.
– Vamos ficar mais um pouco – retrucou Ron. – Vamos tocar para eles agora. – Ele sentou num caixote, empunhou o violão e fez um arpejo num acorde modal. – Toque. Eu lhe acompanho.
(Empire Star, trad. BT)
 
À maneira típica de Delany, vários conceitos estão expostos de forma entrelaçada nesse trecho: o esboço rápido das relações econômicas do Império interplanetário, a dominação de uma raça por outra, o conceito aparentemente contraditório de que um escravo é protegido pela tristeza que desperta nos outros (o que os trancafia na esfera do “não quero pensar nisso”); e o uso da música como fator de equilíbrio ou tentativa de comunicação. Sem falar no nome da raça escravizada – os “Lll”, um nome impronunciável, um conceito que (do ponto de vista do leitor, que neste momento é o mais “alienígena” de todos) pode ser lido mas não pode ser compartilhado em voz alta. 
 
A tristeza pode ser revelada através do canto, como no pretinho de Sagarana, pode ser provocada nos outros através do canto, como no conto de Mark Twain, e pode ser uma aura que, exalada telepaticamente (por assim dizer), pode ser atenuada pela música. 
 

 
(Samuel Delany, 1966)







domingo, 9 de janeiro de 2022

4782) Mortes romanceadas (9.1.2022)



Escrever ficção baseada em pessoas reais é uma coisa perigosa, principalmente se as pessoas ainda estiverem vivas. Quanto mais remoto o morto famoso, mais fácil usá-lo num romance: aí estão centenas de filmes fazendo fanfic com a vida alheia, desde Napoleão até Billy the Kid, desde Leonardo da Vinci até Sigmund Freud.
 
Numa entrevista à revista Locus (# 492, janeiro 2002), Kim Stanley Robinson comenta esse tipo de saia-justa literária:
 
Não é aconselhável criticar pessoas reais do passado, quando você lhes atribui palavras que afinal são suas. Isto se mistura ao problema ético de todo biógrafo, um problema que eu mesmo não gostaria de encarar. Howard Waldrop, por exemplo, demonstra uma afeição verdadeira pelos “personagens reais” que retrata, e isso pode contornar o problema, mas se você está criticando esses “personagens reais” eles não passam de alvos que você cria para poder derrubar.
 
Joyce Carol Oates encarou esse desafio em sua coletânea de contos Wild Nights! - Stories About the Last Days of Poe, Dickinson, Twain, James and Hemingway (Harper Collins, 2008). Em cinco histórias, ela ficcionaliza os últimos dias de vida de cinco personalidades literárias dos EUA (com pequenas variantes – cada conto tem uma proposta própria). Algum leitor-fã poderá se sentir ofendido.
 
Vejamos desde logo o conto “Grandpa Clemens & Angelfish, 1906”. Ao que parece, o grande Mark Twain tinha um certo fascínio estético pelas garotinhas pré-púberes e adolescentes, entre dez e dezesseis anos. Ele criou um clube chamado “Angel Fish and Aquarium Club”, com garotas a quem ele dava presentes e tratava como suas “netinhas”. Pois bem, é o que basta para Joyce Carol Oates compor um conto devastador onde o escritor torna-se amigo e afetuoso correspondente de uma garota e depois a abandona, quando ela atinge “a idade desinteressante”. Seus últimos momentos de vida são um pesadelo em que ele é perseguido por garotinhas que o espancam, rindo às gargalhadas.
 
Igualmente cruel (e igualmente inspirado em fatos reais) é o conto “The Master at St. Bartholomew’s”. O mestre é Henry James, o rei do subentendido e do understatement, o prestidigitador de sentimentos não-expressos, desejos inefáveis e tragédias mudas. Em plena Primeira Guerra Mundial, num chá elegante com senhoras da sociedade londrina, ele impulsivamente se oferece como voluntário para ajudar na recuperação de soldados ingleses feridos.
 
Começa aí uma descida aos infernos que horroriza e fascina James, um homem tímido, tido como homossexual reprimido durante a vida inteira, e que talvez tenha morrido virgem. Ao penetrar nas enfermarias repletas e caóticas do hospital St. Bartholomew’s, ele se vê diante da tragédia do corpo, da miséria do corpo, dos salões sufocantes com cheiro de mijo, de peido, de bosta, de carne gangrenada, de cotos de membros decepados. É o mundo de todas as coisas desagradáveis (sujeira corporal, penicos cheios, vômito) que nunca tinham encontrado espaço na sua ficção, uma ficção voltada para salões elegantes, chás-das-cinco, “garden parties”. E, ao que parece, ali naquele inferno nauseabundo o mestre encontra um sucedâneo do amor.
 
Diante disto tudo, fico sem saber como classificar “Papa at Ketchum, 1961”, em que a escritora acompanha o monólogo interior de Ernest Hemingway na decadência física, emocional e mental dos dias que precederam seu suicídio em 2 de julho de 1961. A reta final do autor de O Velho e o Mar foi algo triste. Vi em algum lugar uma de suas últimas entrevistas filmadas: ele precisava ler num papel as próprias respostas. Ferimentos de guerra, acidentes, diabetes, bebida, depressão, tudo contribuiu para que ele vivesse um processo ladeira-abaixo em seus derradeiros anos.
 
Joyce C. Oates descreve esses dias como o pesadelo de um machão que fez da força e da valentia a viga central da própria vida, e se vê agora reduzido a um velhote gagá, apoiando-se numa bengala e bebendo escondido. É um retrato cruel (mais uma vez), mas provavelmente autêntico, inclusive no modo como ele repete para si mesmo de que modo irá carregar a espingarda de dois canos, sentar na cadeira, apoiar a coronha no tapete (porque no chão liso ela pode deslizar), apertar o gatilho com o dedão do pé descalço...
 
Não é uma leitura leve. E por mais que o protagonista seja pouco simpático, a gente acaba admirando a mera obstinação de um homem que foi ferido na guerra, teve problemas graves de saúde a vida inteira, na velhice foi submetido a pesadas terapias de eletrochoque, tomava remédios tarja-preta, bebia constantemente, mas teimava e resistia. Até que...
 
Hemingway não foi o único da família a se suicidar: seu pai Clarence, sua irmã Úrsula, seu irmão Leicester e sua neta Margaux morreram da mesma forma.



Estes três contos podem ser considerados como narrativas bastante realistas, admitindo-se a liberdade ficcional de fantasiar pensamentos, devaneios, pesadelos, etc.  O mesmo não acontece com o conto que abre o volume: “Poe Posthumous, or The Light-House”. É um conto despudoradamente fantástico. A premissa é de que Poe, no mês de outubro de 1849 em que morreu, teria ao invés disso encontrado uma espécie de mecenas que assumiu suas dívidas e despesas, e em troca disso o enviou para tomar conta, sozinho, de um farol localizado a duzentas milhas da costa do Chile.
 
Joyce C. Oates revela que a idéia para este conto lhe veio de um fragmento de poucas páginas, deixado inédito pelo próprio Poe, “The Light-House” – fragmento este que também foi usado recentemente como ponto de partida para o filme O Farol (2019) de Robert Eggers, com Willem Dafoe e Robert Pattinson.
 
Aqui, um link para o texto original de Poe:
 
https://eapoe.org/works/tales/lightha.htm
 
Oates parte desta idéia inicial de Poe, de um homem encarregado de cuidar sozinho de um farol, e desenvolve uma narrativa meio gótica, porque o farol em si é uma estrutura “de origem desconhecida”, que remonta a “antes da chegada dos conquistadores espanhóis”, e cuja escadaria apresenta um número diferente de degraus, cada vez que ele faz a contagem. E é uma história também meio lovecraftiana, porque as tempestades frequentes naquela latitude começam a trazer para as “piscinas” rasas formadas na rocha seres com aparência feminina, ao mesmo tempo repulsivas e atraentes, as “ciclófagas”. E mais não digo.
 
Se o conto sobre Poe já tem uma aura de ficção científica, o texto de Oates sobre Emily Dickinson, “EDickinsonRepliLuxe”, nos conduz para um futuro próximo onde é possível comprar ciborgues domésticos, feitos à imagem e semelhança de vultos famosos, celebridades da História.
 
O sr. e a sra. Krim são um casal mais ou menos afluente, marido endinheirado e esposa com ambições culturais (ela se considera poeta). Os dois adquirem uma ciber-réplica de Emily Dickinson e é ao mesmo tempo engraçado e patético acompanhar o nervosismo da dona da casa, que passa o dia espreitando sorrateiramente “Emily” em suas andanças pela casa. O ciborgue, aliás, tem a aparência externa da pessoa original, menos a estatura, que não ultrapassa um metro e meio.
 
Isto dá à “Emily” algo de boneca, mas ela tem iniciativa, apesar de ser introspectiva e tímida. Prepara e serve o chá, cuida das próprias roupas... e enquanto isto a sra. Krim vive na sua cola, ansiosa para presenciar o momento em que a grande poeta irá produzir um poema novo, um poema que não tinha sido escrito ainda, e esse poema terá sido escrito na casa da sra. Krim!  É a glória.


Joyce Carol Oates (nascida em 1938) é uma escritora respeitada nos EUA, mas raramente é citada nos textos sobre literatura fantástica e FC.  Há um bom verbete sobre ela na “Science Fiction Encyclopedia” (https://sf-encyclopedia.com/entry/oates_joyce_carol)  Pela avaliação de John Clute nesse texto, as duas décadas deste século têm mostrado uma inclinação cada vez maior da autora pelas narrativas fantásticas.
 
Ela já ganhou por três vezes o principal prêmio da literatura de horror, o Bram Stoker Award, com Zombie (1996), The Corn Maiden and Other Nightmares (2011) e Black Dahlia and White Rose: Stories (2012), além do World Fantasy Award por Fossil Figures (2011).
 
O livro que comentei aqui, Wild Nights!, foi publicado no Brasil sob o título Descanse em Paz, com tradução de Elisa Nazarian. Ao que parece, saíram edições pela Texto Editores e pela LeYa.


 
 








sexta-feira, 4 de setembro de 2015

3911) Mark Twain e a monarquia (5.9.2015)




Em seu romance Huckleberry Finn, Mark Twain conta a fuga de Huck Finn e do negro escravo Jim numa jangada à solta rio afora, e a certa altura aparecem dois dos seus personagens mais divertidos. 

São uma dupla de trambiqueiros que Huck salva e traz a bordo da jangada. Os resgatados contam o que fazem e por que razão vinham sendo perseguidos pela população da vila, e, num episódio hilário, revelam ao menino e ao negro suas verdadeiras identidades: um diz ser um duque inglês, e o outro se confessa o delfim-herdeiro do trono da França. São dois heróis picarescos; cruzam-se nesse momento pela primeira vez, e daí em diante vão se envolver em mil pequenos golpes, encenações. E Huck comenta:

“Não levei muito tempo para compreender que aqueles mentirosos não eram reis nem duques, coisa alguma, e sim simples vagabundos e aventureiros. Mas nada disse, nem deixei transparecer; guardei-o para mim mesmo; é o melhor; assim se evitam brigas e aborrecimentos. Se eles preferiam intitular-se duques e reis, eu não tinha objeções a fazer, contanto que se mantivesse a paz na jangada. E também não adiantava dizer a Jim, de modo que não lhe disse. Se eu nunca aprendi nada que valesse a pena com papai, aprendi pelo menos que a melhor maneira de lidar com essa espécie de gente é deixá-los agir a seu modo.” (Cap. XIX, tradução de Alfredo Ferreira)

O duque e o rei, como passam a ser chamados, são uma dupla cômica picaresca tradicional. Não são propriamente o Palhaço e o Besta, que Ariano Suassuna identificava em muitas narrativas populares, e usava nas suas. São dois espertalhões de personalidades e recursos diversos, em permanente luta um contra o outro, o que não exclui alianças eventuais em função de um golpe mais polpudo, ao fim do qual cada um procura trair o outro. 

Lembram os personagens de Michael Caine e Steve Martin em Os Safados, só que numa ambientação paupérrima de beira de rio, entre populações puritanas e crédulas.

Huck os aceita porque sabe que são dois intrujões inofensivos, capazes na pior das hipóteses de dar um prejuízo passageiro em alguém. Trapaceiros de beira de estrada, como certos tipos de Edgar Allan Poe, que mais sofrem do que gozam a vida que levam. 

Huck lê os dois corretamente, consegue vê-los com ironia, estar em guarda. O modo como explica ao escravo Jim como funciona a monarquia, e como Henrique VIII casava com uma nova esposa a cada noite, e pela manhã mandava decapitá-la, o deixa bem próximo das ironias de Dom Pedro Dinis Quaderna sobre o modo sanguinolento e saqueador como foram construídas as grandes monarquias européias a quem prestamos tantos salamaleques e rapapés.






domingo, 30 de março de 2014

3460) Escolhendo títulos (30.3.2014)



Ainda sobre a questão do título de um livro (ou de uma obra de outra natureza, mas que comporte um título): sua escolha deveria ser objeto das mesmas discussões madrugada adentro que os casais geralmente fazem para escolher o nome de um bebê.  Com um fator de dificultação a mais, porque o nome do bebê basta ser interessante e agradável, não tem a obrigação de condensar a essência do bebê (que nem existência tem ainda, coitado, quanto mais isso), ao passo que título de livro precisa ser tão elucidativo quanto um nome próprio, tão personalizado quanto uma impressão digital e tão expressivo quanto um rosto.

No blog de Marcelino Freire “Ossos do Ofídio” (http://bit.ly/N2DOm8) li uma divertida discussão de Clarice Lispector com dois colegas. Ela queria intitular um livro seu A veia no pulso. Fernando Sabino foi contra, porque achou que o título sugeria Aveia no pulso. João Cabral disse que o título era ótimo, que não se tratava de um cacófato, e que as veias e o pulso são coisas que a mente associa uma à outra sem muito esforço, de modo que só um idiota entenderia errado. Aliás, o livro acabou se chamando A Maçã no Escuro – muito melhor, pelo meu gosto.

O jovem romancista perseguia o escritor veterano e enchia-lhe o saco pedindo sugestão de título para um romance. Um dia o cara se encheu e disse: Me diga uma coisa. Aparece algum tambor no seu livro? O rapaz: Não, não aparece.  Ele: Bom. Tem alguma corneta? O rapaz: Claro que não!  Ele:  Então está aí seu título: Sem Tambor nem Corneta!

Esse tipo de definição por exclusão lembra o conselho de Mark Twain de que sempre que se fosse criar uma biblioteca a primeira coisa a fazer seria não comprar os livros de Jane Austen. “Mesmo que nenhuma outra obra venha a ser comprada,” dizia Twain, “só pelo fato de não ter nenhum livro dessa senhora já será uma excelente biblioteca”.

Que ave misteriosa e insondável, a Coruja da Desinspiração, habitava o campanário mental de Machado de Assis, quando ele, a certa altura, anunciou que seu próximo romance seria intitulado Último?  (Não foi: é o atual Esaú e Jacó).  Ver que mesmo um indivíduo capaz de alguns títulos primorosos, como é o caso de Machado, considera usar um título tão torto e instável como Último, mostra que nenhuma fórmula esgota as possibilidades da resposta lá fora, de centenas, de milhares de pessoas diferentes. Você está acostumado a ler Os Pardaillans, ou Anos de Tormenta ou A Mansão Misteriosa, aí de repente ergue um livro no balcão da livraria e lê: Um Pouco Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo, você se pergunta que palavrão é aquele. Aí compra – porque o título inquietou. 


terça-feira, 4 de junho de 2013

3203) O sucesso errado (4.6.2013)




(Conan Doyle, por Charles Burns)




Muitas vezes um artista e o seu público têm opiniões diferentes sobre o trabalho dele. Ele quer ser reconhecido como o autor de “A”, mas o público só se interessa por outro trabalho dele, “B”, a ponto de irritá-lo. 

Às vezes um artista de muito sucesso popular tenta se blindar dizendo que na verdade gostaria de ”fazer algo mais sério”, por exemplo – ser artista de vanguarda. George Lucas diz que o sucesso de Star Wars o pegou de surpresa, e que na verdade gostaria de estar fazendo filmes cabeça para passar no circuito universitário. 

Caetano Veloso diz no livro Verdade Tropical que seu melhor disco, o que exprime o que ele gostaria de fazer, é Araçá Azul, seu disco mais experimental, e o mais rejeitado pela crítica e pelo público.

Lendo sobre Mark Twain, o criador de heróis popularíssimos como Tom Sawyer e Huckleberry Finn, além de inúmeros contos de humor lidos e relidos há mais de um século, vi que ele escreveu um livro chamado Personal Recollections of Joana of Arc (1897) que ele considerava sua obra prima. Não só ele: seu amigo William Dean Howells e seu biógrafo Albert Pigelow Paine diziam tratar-se de sua “suprema expressão literária”, o livro que iria imortalizá-lo. 

Ninguém conhece esse livro hoje; eu mesmo, que leio Twain há 50 anos, não sabia sobre ele. Sumiu. Ninguém se interessou, por melhor que seja.

É um caso parecido com o de Conan Doyle, que queria ser o continuador dos romances históricos de Walter Scott, e pode-se dizer que o conseguiu, com excelentes romances medievais (Sir Nigel, A Companhia Branca), sobre a época vitoriana (Rodney Stone), a corte de Luís XIV e a migração dos huguenotes para as pradarias da América (Os Refugiados), as fanfarronices e a coragem dos oficiais napoleônicos ("Brigadeiro Gerard”). Escreveu excelentes romances de FC (O Mundo Perdido, O Veneno Cósmico). 

Mas o público não queria saber disso. Só queria saber de Sherlock Holmes, o que irritava profundamente o escritor.

Estes exemplos parecem dizer que um artista nem sempre é o mais lúcido avaliador do próprio sucesso. Para Doyle, era mais importante se firmar como o continuador escocês de uma forma de literatura criada (em grande parte) por outro escocês (Walter Scott) do que ficar inventando mistérios banais para serem decifrados por Sherlock. 

Ele conseguiu seu objetivo de inscrever seu nome na literatura do século 19. O público foi quem acabou desviando sua obra e sua fama noutra direção, porque com o detetive de Baker Street ele ajudou a fundar, meio sem querer, e sem dar-lhe muita importância, o romance policial, o gênero mais popular do século 20.








terça-feira, 23 de abril de 2013

3167) Monteiro Lobato e Mark Twain (23.4.2013)





O que há em comum entre esses dois escritores, além do fato de que estão entre os primeiros que li, e os mais queridos? Uma porção de coisas.  Ambos foram escritores com uma obra para adultos séria e relevante, mas acabaram se tornando famosos como autores para jovens, em função de seus livros de maior sucesso. A imensa maioria dos que os conhecem leram apenas essas obras infanto-juvenis e desconhecem seus livros mais complexos.

Monteiro Lobato é famoso pela sua série de romances do Sítio do Picapau Amarelo, mas só é conhecido no Brasil. Às vezes imagino o susto e o maravilhamento de meninos ingleses, japoneses, norte-americanos, quenianos, se pudessem ler boas traduções dessas obras e conhecer um mundo de surpresas inesgotáveis. Mark Twain escreveu alguns livros com as aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, dois garotos rurais num ambiente mais realista do que o de Lobato, mas igualmente divertido. Aliás, Lobato fez adaptações de livros de Twain para a Editora Brasiliense, e talvez tenha sido através dele que muitos brasileiros conheceram o norte-americano.

Ambos tiveram flertes com a ficção científica. Lobato com o histórico O Presidente Negro (1926) e alguns volumes infantis (A Chave do Tamanho, Viagem ao Céu, A Reforma da Natureza); Twain com Um Ianque na Corte do Rei Artur (1889), uma história clássica de viagem no tempo, mesmo que sem explicação técnica de como isso aconteceu, e numerosos contos já reunidos em coletâneas. Ambos tiveram interesse pelo lado prático da literatura: Lobato criando a Companhia Editora Nacional e outros empreendimentos semelhantes, e Twain investindo todo seu dinheiro (e dos amigos) numa máquina impressora que pretendia concorrer com o linotipo. (Ambos deram com os burros nágua e perderam fortunas.)

E ambos foram acusados de racismo por terem escrito romances em que adultos negros apareciam sendo maltratados ou ridicularizados por crianças brancas: a Tia Nastácia de Lobato e o escravo Jim de As aventuras de Huck. Uma acusação injusta por ignorar a pressão da mentalidade do tempo em que viveram. Talvez o mesmo venha a acontecer conosco, que os acusamos. Se o Brasil virar um dia uma democracia racial sem Casa Grande nem Senzala, nossos descendentes nos considerarão racistas e escravocratas pelo fato de que pagávamos pessoas negras para cozinharem nossa comida, lavarem nossa roupa e cuidarem dos nossos bebês. Achamos tudo isto uma coisa normal, faz parte do mecanismo social em que crescemos, e é difícil para nós imaginar que os brasileiros do futuro talvez olhem para nós com repulsa e mandem tirar nossos livros das bibliotecas eletrônicas de suas escolas.



quinta-feira, 21 de março de 2013

3139) Livros pirateados (21.3.2013)





Em 1907, Mark Twain estava de passagem por Londres, indo para Oxford, onde receberia um título “honoris causa”, e aproveitou para se encontrar com seu amigo Bram Stoker. Os dois conversaram sobre vários temas e Twain deu conselhos ao autor de Drácula sobre como escrever histórias fantásticas: “A única maneira de escrever histórias de bruxaria é surrupiá-las por inteiro da obra de Balzac. O francês atingiu a perfeição em um dos seus ‘Contes Drôlatiques’... conheço uma livraria no Strand onde você pode comprar uma edição pirata, reproduzida por câmera fotográfica, por apenas meia coroa”.

Esse detalhe, reproduzido na biografia de Barbara Belford (Bram Stoker, Phoenix Giant, 1996), dá uma pista da desenfreada pirataria de livros que alimentava os grandes mercados editoriais do Ocidente há cem anos. Se entendi bem, os piratas não se davam o trabalho de recompor um livro no linotipo: fotografavam a página aberta em duas, e reproduziam as imagens, certamente com um mínimo de qualidade que pelo menos permitia a leitura. Mais ou menos como a galera pirateia filmes inteiros hoje em dia levando câmaras (ou mesmo celulares) para o cinema (todo mundo já viu piratas onde se avistam as cabeças dos espectadores à frente da imagem).

Twain e Stoker já tinham sido sócios numa empreitada editorial falida do primeiro. Twain foi uma espécie de Monteiro Lobato – torrava todo o dinheiro dos seus best-sellers em empreitadas editoriais mirabolantes, que acabavam dando com os burros nágua. Em 1898, ele convenceu Stoker e seu patrão, o grande ator Henry Irving (dono do teatro Lyceum, do qual Stoker era o gerente), a comprar ações do projeto de uma máquina de composição tipográfica (o “Paige Compositor”) que concorreu com o linotipo lançado por Mergenthaler, e foi derrotada por ele.  Twain trabalhou muitos anos como tipógrafo, e era um entusiasta dos novos modos de produção gráfica – consta que a primeira obra literária que chegou à editora numa versão datilografada foi o seu Vida no Mississippi (1883).

Aliás, isto pode ter influenciado Bram Stoker a dar à máquina de escrever portátil um papel importante em Drácula (1897), pois é nela que Mina Harker escreve parte do seu diário que narra a caça ao vampiro. E um grande impulso para a popularização do romance de Stoker foi que, por causa de um detalhe técnico, Drácula sempre esteve em domínio público nos EUA desde seu lançamento. Cem anos atrás, edições piratas e direitos autorais de livros impressos eram um território tão fluido quanto é, hoje, o dos livros eletrônicos. Os sucessos desse período mostram um momento em que qualidade e venda não foram antônimos.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

2428) Mark Twain e a Internet (16.12.2010)




Uma diversão de quem mexe com ficção científica é tentar descobrir em textos antigos a menção a alguma coisa que não existia no tempo em que o texto foi escrito, e que pode ser interpretada como um vislumbre profético. 

Não que a função da FC seja predizer o futuro, assim como a função da literatura policial não é provar que o crime não compensa. Mas um escritor inteligente e bem informado é capaz de extrapolar o desenvolvimento ou as consequências futuras de algo que já existe no seu tempo.

No saite Cracked tomei conhecimento de um conto de Mark Twain que eu tinha (em The Science Fiction of Mark Twain, Archon Books, 1984, editado por David Ketterer) mas nunca lera. 

 O conto é “From the London Times of 1904” e foi publicado em 1898. A história, contada sob a forma de reportagem, é vista como uma prefiguração da Internet. 

Um homem, o Capitão Clayton, é acusado do assassinato de seu desafeto, o cientista Szczepanik, inventor do “telectroscópio”. Este invento, depois de demonstrado na Feira Mundial de Paris, em 1901, é conectado à rede telefônica mundial. Diz Twain: 

“Este sistema aperfeiçoado de telefone sem limite de distância foi introduzido, e assim os fatos diários de todo o planeta tornaram-se visíveis a qualquer pessoa, podendo ser comentados, também, por testemunhas separadas por qualquer número de léguas”.

Condenado à morte, Clayton pede para passar seus últimos dias observando o que se passa no resto do mundo através do telectroscópio. 

“A conexão foi feita com a estação telefônica internacional, e dia a dia, noite a noite, ele chamava um recanto do globo, depois outro, e observava sua vida, estudava suas estranhas paisagens, falava com seus habitantes, e percebia que graças a esse maravilhoso instrumento ele era quase tão livre quanto as aves no ar, mesmo prisioneiro por trás de cadeados e barras de ferro”. 

O desfecho da história é quando o condenado reconhece, num evento que está acontecendo em Pequim (a coroação do Czar da China!), a suposta vítima, Szczepanik, que tinha fugido à fama mudando de nome e de aparência; e tudo acaba bem.

A simultaneidade do processo é destacada por Twain, após o reconhecimento: 

“Um mensageiro levou a notícia a Szczepanik no pavilhão, e era possível ver a perplexidade em seu rosto enquanto escutava. Então ele veio até a outra extremidade da linha, e falou com Clayton e com o governador e os demais”.

Nada mau para quem escrevia em 1898, não é mesmo? 

O telefone era uma invenção recente, mas de rápida propagação nos EUA. Em 1890 cobria toda a Nova Inglaterra; em 1893 tinha alcançado Chicago, em 1897 Minnesota, Nebraska e Texas, e em 1904 cobria todo o continente. 

Twain reúne em seu conto despretensioso algumas ideias básicas, se não da Internet inteira, pelo menos do Skype: a malha telefônica, a transmissão de imagens e sons em tempo real, a possibilidade de visualização de cenas e de diálogo áudio-visual entre pontos remotos do globo.






terça-feira, 25 de maio de 2010

2076) A literatura e o jogo (3.11.2009)



Num artigo na revista eletrônica Salon (http://tinyurl.com/mwo2sy), D. A. Blyler comenta os vícios de pessoas criativas (bebida, drogas, etc.) e a certa altura discute a questão de jogo. Será que o vício de jogar prejudica a criatividade de escritores e outros artistas? Curiosamente, parece que o jogo (baralho, dados, roleta, etc.) vem perdendo terreno para outros vícios. Cem anos atrás, era tido como um dos principais “fatores de desagregação da sociedade”. Hoje em dia, critica-se a proliferação dos bingos, das máquinas caça-níqueis, etc., mas apenas em termos da formação de quadrilhas e da desonestidade do jogo em si (as máquinas são preparadas para que o usuário sempre perca, etc.). Mas o jogo como vício do indivíduo vem perdendo terreno. Conheço gente viciada em bebida, em drogas, numa porção de coisas, mas não lembro de nenhum conhecido meu que seja viciado em jogos de azar.

Já foi diferente, e acho que na literatura o maior exemplo de gênio viciado em jogo foi Dostoiévski. Dizem que seu romance O Jogador é o melhor retrato literário desse universo soturno, à meia-luz, saturado de café e cigarros. O jogo produz uma droga biológica chamada norepinefrina. É um desses casos curiosos em que a droga viciante não é ingerida pelo viciado, é produzida pelo seu próprio organismo desde que o viciado se submeta a esta ou aquela atividade. (Vejam artigo “O Jogador”, de 13.5.2003, em meu blog: http://tinyurl.com/yguo4r2).

Blyler cita um cruel provérbio francês que diz bem do caráter precipicial dessa atividade: “Existem dois prazeres no jogo: o de ganhar e o de perder”. E a frase da Mark Twain (que, pelo visto, era chegado a um carteado): “Existem dois momentos na vida de um homem em que ele deve apostar tudo: quando pode, e quando não pode”. Blyler discute o lado positivo de “ter mentalidade de jogador”, e cita como exemplo elogiável o caso (que não sei se é verdadeiro) do jovem Steven Spielberg, que teria se infiltrado num estúdio de Hollywood, montado um escritório e começado a se comportar como se fosse funcionário do estúdio, começando assim uma carreira de sucesso.

Isso, no entanto, pra mim não conta. É um lance de ousadia profissional, talvez ligeiramente criminoso (“falsidade ideológica”?...), mas na selva de Hollywood vale quase tudo. Jogo, pra mim, é jogo-de-mesa. Aquilo que fez o filósofo Diderot dizer: “O mundo é a casa dos fortes. Nunca saberei, senão no fim, o que perdi ou ganhei neste lugar, neste vasto cassino onde passei mais de 60 anos, copo na mão, chacoalhando os dados”. O jogo serve como atividade lúdico-masoquista, e também como metáfora da condição humana. Sempre estamos jogando, ou seja, depositando todos os nossos esforços em ações sempre sujeitas ao Acaso, ao Improvável, à combinação de variáveis que raramente podemos prever e mais raramente ainda podemos controlar. Um lance de dados nunca abolirá o Acaso, mas, como dizia Fritz Leiber: “gonna roll the bones!”.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

2055) O julgamento tendencioso (9.10.2009)



Uma das coisas mais absurdas da Santa Inquisição não era a prática da tortura, que ao fim e ao cabo faz parte da nossa atividade policialesca desde que o mundo é mundo. Era a prática do Nonsense. Havia um teste, ao qual eram submetidos os suspeitos de heresia, que prima pelo absurdo. Mandavam-no caminhar sobre brasas, de pés nus, por uma certa extensão; ou andar dez metros segurando uma barra de ferro em brasa. Se se queimasse é porque era culpado. Foi provavelmente satirizando esses processos que Mark Twain inventou (“O Romance de Virgem Esquimó”) o julgamento esquimó em que o réu era jogado às águas: se fosse inocente morria afogado, se fosse culpado conseguia salvar-se.

Faz parte da mentalidade religiosa esse flerte com o improvável, porque para quem acredita em Deus – ou pelo menos num Deus que se dá o trabalho de interferir pessoalmente em cada pequena disputa humana, contenda de vizinhos, batida no trânsito, briga de bar – não existe Acaso. Tudo é a expressão da vontade de Deus, que prefere se comunicar de forma críptica e indecifrável. Daí que tantas escolas místico-filosóficas utilizem seus lances-de-dados para ganhar um vislumbre desses processos: búzios, I-Ching. Tarô.

Profetizo que um dia a nossa assim-chamada civilização irá recorrer a processos parecidos para determinar a culpa ou inocência dos acusados de um crime qualquer. Afinal, nosso aparato tribunalício de hoje não passa de um teatro, onde, como se diz por aí, um júri de 12 pessoas se senta para decidir quem fala melhor, se o promotor ou o advogado de defesa.

Estamos deixando de ser uma civilização beletrista, oratória, e indo na direção de uma civilização baseada em escolhas randômicas, permeadas com opções místicas. Por volta de 2050, quando um cara for acusado de um crime ele será submetido ao veredito de diversas tendências do pensamento então contemporâneo. Primeiro, ele participará de uma leitura do Tarô por um tarólogo juramentado do Sistema Penal. O tarólogo “botará as cartas” e no final emitirá o seu parecer técnico sobre a culpa do acusado. Em seguida, ele prestará o teste grafológico. Terá a missão de escrever sua versão dos acontecimentos de que é a acusado, à mão, num máximo de duas laudas, que serão enviada ao Instituto Grafológico Judiciário, onde técnicos darão seu veredito sobre a confiabilidade do que o acusado afirma por escrito.

Claro que nenhuma dessas instâncias será definitiva. A mentalidade da época será cumulativa, holística, multidisciplinar. Alguns países instituirão o lançamento de búzios; outros, a Tábua Ouija que colherá o depoimento póstumo da vítima. Suponho que haverá recursos ainda mais sofisticados: um gerador aleatório de dígitos (como os que criam os localizadores dos voos para as companhias aéreas), que em seguida serão submetidos ao crivo da Numerologia. A sentença será baseada no somatório destes julgamentos, e as possibilidades, como sempre, são infinitas.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

1888) A arte do duelo (28.3.2009)




Nos diários de sua convivência com Jorge Luís Borges, intitulados Borges, à pag. 223, Adolfo Bioy Casares conta a comparação feita pelo seu colega entre dois tipos de duelos praticados nos EUA no século 19 (ou na literatura do século 19, uma vez que os exemplos vêm de livros de Mark Twain e Julio Verne). 

O primeiro exemplo é o que Twain chama de “duelo à californiana”. Dois indivíduos se insultavam mutuamente e se juravam de morte. Quando se defrontavam, geralmente num “saloon”, o mais rápido puxava a arma primeiro e alvejava o outro, que também sacava a sua e se defendia da melhor maneira possível. Diz Borges: “As baixas, às vezes, não se contavam entre os duelistas”.

É o duelo tradicional que o filme de far-west refinou até produzir aquela cena clássica que na vida real terá ocorrido muito poucas vezes: os dois inimigos, frente a frente, na rua vazia (todo mundo está do lado de dentro, colado às janelas, espiando), caminham na direção um do outro. 

A sutileza deste tipo de duelo nasce da presunção de que quem puxa a arma primeiro está ameaçando o outro de morte, portanto o outro tem o direito de matar em legítima defesa. Cada um tem que esperar que o outro saque primeiro, e espera ser rápido o bastante para atirar (e acertar) primeiro.

O outro tipo, chamado por Julio Verne de “duelo à americana”, é travado no capítulo 21 de Da Terra à Lua, entre Barbicane e Nicholl. (Li o livro há 40 anos e francamente não recordo esta cena.) Borges diz que nunca viu menção a esse tipo de duelo em outros autores, e especula se não será uma invenção de Verne. 

Nesta modalidade, dois homens que se juram de morte embrenham-se num bosque, como caçadores, levando consigo armas, munição, mantimentos. Caçam-se por vários dias: “dormem, com muitas precauções, perseguem-se, evitam-se, despistam um ao outro, armam emboscadas até que um dos dois consegue surpreender o outro e matá-lo”.

É este último tipo de duelo que me parece, hoje, mais rico de possibilidades dramatúrgicas do que o velho face-a-face do faroeste. 

Basta lembrar Enemy at the Gates (2001), o filme de Jean-Jacques Annaud em que Jude Law e Ed Harris são dois atiradores de elite durante a II Guerra (um soviético, o outro nazista) que se perseguem mutuamente. 

Há também o curioso e um tanto excêntrico filme de Ridley Scott Os Duelistas, ambientado na época de Napoleão, em que Harvey Keitel e Keith Carradine são dois oficiais que se detestam e, sempre que se cruzam, às vezes com anos de intervalo, desafiam-se mutuamente para um duelo à espada.

O “duelo às claras”, o confronto clássico do faroeste, é rápido. Exige uma longa preparação, e uma tensão que se avoluma, mas tipicamente se resolve em alguns segundos. Somente alguns casos raros, como o famoso duelo no Curral OK, podem ser explorados em longas sequências. O duelo às escondidas, com seu jogo de gato e rato, suas alternativas, pode render filmes ou romances inteiros.






sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

1644) A voz de Deus (19.6.2008)




Numa história indiana, dois vizinhos discutiam por um lote de frutas. A árvore ficava no terreno de um deles, mas seus ramos se projetavam por cima da cerca, de modo que as frutas caíam no terreno ao lado. O primeiro alegava ser dono do lugar de onde vinham as frutas; o outro alegava ser dono do lugar onde elas brotavam e caíam. 

O juiz lhes perguntou: “Querem uma decisão tomada pelos homens, ou por Deus?” Os dois concordaram que a decisão de Deus teria mais credibilidade. O juiz então dividiu as frutas em dois lotes, tendo num deles apenas uma, e no outro todo o restante. 

E sorteou os lotes entre os dois vizinhos.

Este episódio é um entre milhares em que um tribunal humano confessa sua dificuldade em tomar uma decisão justa, e recorre a um sorteio. 

O sorteio surge da noção de que no mundo não existe o Acaso, pois mesmo os acontecimentos mais banais são determinados pela vontade de Deus. O que chamamos de Sorte ou Azar pode nos parecer inexplicável, mas faz parte dos planos divinos. Foi uma decisão dele. 

Não adianta discutir os méritos do resultado, pois, como todas as religiões repisam desde que o mundo é mundo, “os desígnios de Deus são inescrutáveis”.

Talvez por isto os jogos de azar nos despertem uma fascinação tão grande. O baralho, a roleta, o bingo, o bicho, a loteria, tudo isto são cerimônias que concebemos para, lidando com um conjunto nítido e finito de elementos, podermos ficar sabendo com certeza absoluta o que foi que Deus quis que acontecesse, mesmo que jamais percebamos o porquê.

A coisa se complica quando chega no universo tribunalício. Li em num conto de Mark Twain que os esquimós tinham uma maneira prática de saber se um sujeito era culpado ou inocente do crime que lhe atribuíam. Levavam-no para um rio de águas revoltas, e atiravam-no lá de cima. Se ele sobrevivesse, era culpado; se morresse, era inocente. 

Há um vislumbrezinho de lógica nesse sistema – se o sujeito escapava era porque era esperto, e todo sujeito esperto está a um passo de ser desonesto, ou seja, esperto às custas dos outros. Mas convenhamos que para um indivíduo inocente era um tribunal do tipo “cara eu ganho, coroa você perde”.

Quanto ao cara-ou-coroa para conhecer a Decisão Divina, há um episódio curioso ocorrido no Maracanã lá pelos anos 1950, quando o Fluminense e outro clube disputavam uma decisão. Deu empate no jogo e na prorrogação. Não se usava ainda a disputa de pênaltis, e o título seria decidido no cara-ou-coroa. 

O juiz chamou os dois times ao centro do campo, rodeados por radialistas e fotógrafos. Antes da disputa, Pinheiro, capitão do Fluminense, chamou o time de lado e cochichou algumas instruções. 

O juiz jogou a moeda para o alto, estendeu a palma da mão, mas, antes que a apanhasse, os jogadores do Fluminense esbarraram nele, e se espalharam berrando, agitando os braços, abraçando-se, e logo os foguetões pipocavam e o pó de arroz subia. Até hoje ninguém soube qual tinha sido a vontade de Deus.






segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

1624) “As aventuras de Huck” (27.5.2008)



Estive relendo As Aventuras de Huck, de Mark Twain, que já foi chamado “o romance mais divertido que já foi escrito”. Se não é, está perto de ser. Twain é um desses escritores adultos que sabem pensar como uma criança, contar a história do ponto de vista da criança, e ao mesmo tempo manter estilo e narrativa sob um controle de adulto. Alguns autores perdem esse controle. Passam a raciocinar como crianças e não como escritores, o que torna seus livros uma coisa infantilóide. Outros evitam isto indo na direção oposta – distanciam-se da criança e contam suas aventuras “de cima”, com um olhar paternalista cheio de ideologia. Mark Twain não. Ele faz tudo certo.

Huckleberry Finn é um garoto que foge de casa e percorre o rio Mississipi de canoa e jangada, metendo-se em aventuras tragicômicas. A descrição da vida beira-rio, o universo de infância de Twain, é de enorme beleza, porque decorre do seu conhecimento de milhares de detalhes e de aspectos secundários daquele ambiente, algo que só um nativo tem. Eu não sei nada do Mississipi, mas tudo que Huck Finn descreve e demonstra tem uma verossimilhança enorme, porque ele possui aquele “saber só de experiências feito”. Soa verdadeiro. Como devem soar verdadeiras a um leitor estrangeiro as aventuras do Carlinhos de Menino de Engenho e do Pedrinho do Sítio do Picapau Amarelo.

O livro tem uma posição curiosa na cultura dos EUA. A seu respeito já se escreveu uma estante inteira de estudos e teses. Ao mesmo tempo, é ferozmente perseguido em alguns setores politicamente corretos, porque, passando-se na época da escravatura, mostra sem culpa o modo como os negros eram tratados pelos brancos – e usa o tempo todo a palavra “nigger”, considerada hoje nos EUA umas das mais ofensivas do idioma, a ponto de ser mencionada na imprensa como “the N Word”, “a palavra que começa com N”. É tabu, e daqueles bem pesados.

Não era tabu em 1885 quando Mark Twain escreveu seu livro. Posso entender que leitores negros de hoje se compadeçam do escravo Jim, que tem um amor e uma fidelidade canina por Huck, e que na parte final serve de mero brinquedo para os divertimentos dele e de seu amigo e mentor, Tom Sawyer. A crueldade inocente dos garotos, para mim, tem menos a ver com o racismo (ou seja, com uma convicção profunda de que os negros são inferiores) do que com as diversões meio sádicas de qualquer criança, dentro das regras do seu mundo. Me lembra um pouco o modo como as crianças de Cem Anos de Solidão transformam a avó Úrsula em brinquedo, depois que esta fica gagá e indefesa. Parece também com o sofrimento de Tia Nastácia nas mãos dos garotos do Picapau Amarelo, que valeu igualmente a Lobato uma série de críticas pelo alegado racismo. O caso é que, em vez de criar histórias educativas sobre como os garotos deveriam se comportar (as quais têm lá sua utilidade, suponho), Twain, Lobato e Zé Lins são garotos grandes que contam exatamente como se comportavam.