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sexta-feira, 27 de setembro de 2024

5106) O susto com o mundo (27.9.2024)



(Roy Andersson, About Endlessness)

 
A literatura da imaginação, que abarca muitos gêneros editoriais (o fantástico, a ficção científica, o horror sobrenatural, o realismo mágico, a ficção absurdista, etc.) depende tanto da imaginação do leitor quanto da imaginação do autor. 
 
De nada adianta um romancista executar piruetas e acrobacias do pensamento se ele não conta com um leitor capaz não apenas de acompanhá-lo nesses voos, mas de ter prazer com isto. 
 
No caso da ficção científica, é preciso lembrar que a ficção não pede emprestada à ciência apenas a disciplina, o amor pela exatidão, o raciocínio rigoroso. Tudo isto pode vir no pacote, mas haverá sempre uma lacuna se não vier também a fascinação pelo mistério e pelo desconhecido, o prazer pela aventura mental, a busca do conhecimento, a aceitação do real mesmo quando ele parece absurdo. Tudo isto é também da essência do conhecimento científico. 



 
Richard Feynman, um dos cientistas de cabeça mais aberta que já existiram, dizia:
 
Eu não me sinto amedrontado pelo fato de não saber alguma coisa, pelo fato de estar perdido num universo misterioso, sem sentido, que é o que de fato acontece, pelo menos do meu ponto de vista. Pode ser que seja assim. Isso não me amedronta. 
 
Sem mistério não há possibilidade de descoberta. A ciência não é apenas a propensão a ensinar, é a disposição para aprender. O verdadeiro cientista sempre começa dizendo: “Não sei, e isto me dá vontade de saber.” 




Ray Bradbury colocou no seu clássico As Crônicas Marcianas (1950) esta epígrafe:
 
É bom renovar nossa capacidade de assombro, disse o filósofo. A era espacial nos transformou em crianças novamente. 
 
Essa capacidade de assombro é o que caracteriza tanto o cientista quanto o ficcionista. Conta-se que Galileu Galilei, ainda bem jovem, foi desprezado por uma namorada e decidiu, como todo jovem, atirar-se no rio para matá-la de remorso. Ao se debruçar na ponte, criando coragem para o salto final, ele ficou observando os objetos que desciam arrastados pela correnteza, e percebeu que objetos de formato diferente desciam lado a lado, mas com velocidades diferentes. Por quê?... 
 
Foi o que bastou para ele esquecer o suicídio, a namorada, e correr para casa para esboçar o cálculo matemático daquele movimento. 
 
Este episódio é verdadeiro? Pouco importa (está no capítulo inicial de A Vida de Galileu, de Zsolt Harsányi). É verdadeiro, mesmo que seja ficção, e pode nos ensinar tanto quanto um romance de Tolstoi ou de Graciliano. É uma experiência humana, em forma de ficção. A boa ficção não precisa ser verdade “lá fora”, desde que seja verdadeira “aqui dentro”. 



George R. R. Martin, o criador de Game of Thrones, começou sua carreira literária como autor de ficção científica, que para ele cumpre uma função muito semelhante à da literatura de fantasia, embora com outros recursos. 
 
A FC é a nova fantasia. A fantasia mítica, tradicional, preenchia uma necessidade de maravilhamento por parte do leitor, uma necessidade de estranheza, de algo que a ficção realista comum não podia lhe dar. Historicamente, ela usava lendas como as dos fantasmas e dos elfos, deuses pagãos com os quais convivemos por milhares de anos, e nos quais as pessoas acreditavam pra valer. 
(Locus, dezembro de 2000, trad. BT)
 
O desenvolvimento da ciência e da filosofia foi de certa forma “encurtando” nosso mundo mental, tornando-o mais próximo, mais nítido e mais explicável, mas por outro lado bem menor que o mundo imaginativo da Antiguidade. Esse processo não parou até agora. Ganhamos de um lado – a Ciência nos permite manipular a Natureza – mas perdemos por outro, o lado imaginativo e simbólico. 
 
Tenho a impressão de que perdemos nossa capacidade de assombro. Antes, havia as Sete Maravilhas do Mundo. Você podia viajar e contemplar uma dessas coisas capazes de produzir deslumbramento, espanto. O mundo em que vivemos hoje não tem Sete Maravilhas. Se você parar pra pensar, vai perceber que temos um milhão de maravilhas: edifícios, monumentos... Está tudo ao nosso redor, mas não nos afeta. E por isso começamos a sonhar sonhos cada vez mais espantosos. E criamos artefatos como o Ringworld.  (idem) 
 
Martin se refere ao ciclo de romances de Larry Niven sobre o “Ringworld”, uma construção gigantesca que a Humanidade descobre em nossa galáxia: um anel artificial, metálico, com cerca de 300 milhões de quilômetros de diâmetro, tendo ao centro um sol. A FC está cheia dessas “macroestruturas” ou “grandes objetos mudos” cujas meras dimensões causam tontura. 


 (R
ingworld)
 

Um balanço dessas misteriosas maravilhas artificiais está aqui:
https://sf-encyclopedia.com/entry/macrostructures
 
Um aspecto interessante de toda a gigantesca aventura humana na conquista do espaço (o avião, o foguete, os satélites artificiais, o pouso na Lua, os super-telescópios, a Estação Espacial em órbita, etc.) é que as descobertas da ciência são pautadas pela imaginação da literatura. É frequente alguém observar que o escritor A ou B se equivocou nos detalhes técnicos de seu romance espacial escrito há meio século ou mais. Essa crítica esquece que cabe à literatura a imaginação em larga escala, não a profecia do detalhe técnico. O voo espacial é um problema imaginado por escritores e resolvido por cientistas. 



Dizia o Padre António Vieira:
 
"Dizem os filósofos que a admiração é filha da ignorância e mãe da ciência. Filha da ignorância, porque ninguém se admira senão das coisas que ignora, principalmente se são grandes; e mãe da ciência, porque, admirados os homens das mesmas coisas que ignoram, inquirem e investigam as causas delas até as alcançar, e isto é o que se chama ciência. Como filha da ignorância, me ensinará a mesma admiração a perguntar; e como mãe da ciência, a responder, posto que tão alta seja a segunda parte, como profunda a primeira. " 
(Padre António Vieira)
 
A literatura pauta a ciência, não por um processo organizado e metódico, mas porque ma imaginação dos escritores VALE TUDO. Ela parte ao mesmo tempo em todas as direções possíveis, excita a imaginação de leitores jovens, e são alguns destes que no futuro se tornarão cientistas e se dedicarão a tornar real um ou outro detalhe (quando este é factível, realizável) do que era apenas uma aventura fantástica. 
 
Nem tudo pode virar ciência. O foguete e a viagem à Lua foram concretizados. A máquina do tempo e a teleportagem instantânea talvez nunca o sejam. (Sou cético – aposto que nunca existirão.) O que de fato se realiza, porém, deve igualmente à imaginação de uns e ao senso prático dos que vieram depois. 
 
Tanto o cientista quanto o ficcionista devem ser capazes de se assustar com o mundo. Um susto que se transforma em interrogação, a interrogação em curiosidade, a curiosidade em pesquisa, a pesquisa em descoberta. 

 
Dizia G. K. Chesterton, em Tremendous Trifles:
 
O mundo nunca sofrerá uma escassez de maravilhas, e sim uma escassez de maravilhamento. Devíamos ser capazes de nos maravilhar com as coisas permanentes, e não com a simples exceção. Devíamos nos espantar com o sol, não com o eclipse. Devíamos nos assombrar menos diante de um terremoto, e mais com a própria terra. O que é maravilhoso na infância é que para as crianças tudo é fonte de assombro. Seu mundo não é simplesmente um mundo cheio de milagres, mas um mundo milagroso. 
 
Essa capacidade de se maravilhar – que na ficção científica recebeu o nome de “sense of wonder” – não é privilégio da FC. Está presente em outros tantos poetas e prosadores do mainstream. É aquilo que Carlos Drummond de Andrade chamava “o sentimento do mundo”, e que ele glosou de forma melancólica em poemas como “A Máquina do Mundo”, ecoando um deslumbramento terrífico experimentado por Augusto dos Anjos em “As Cismas do Destino”. 
 
É o que fazia Guimarães Rosa, outro menino permanentemente fascinado pelas coisas mais pequeninas da existência, dizer, arrebatado: 
 
Digo direi, de verdade: eu estava bêbado de meu. Ah, esta vida, às não-vezes,
é terrível bonita, horrorosamente, esta vida é grande.
(“Grande Sertão: Veredas”)
 
Sem esse susto e sem essa descoberta é possível escrever coisas belas e importantes sobre o mundo e a vida. Mas quem passa por essas epifanias escreve algo que é substancialmente diferente, algo que atrai um certo tipo de leitor como se fosse um campo magnético ou gravitacional. 


(G
uimarães Rosa)
 



sábado, 9 de março de 2024

5040) "Oppenheimer" (9.3.2024)



 
Não sei muitas coisas a respeito do físico J. Robert Oppenheimer, um dos criadores da bomba atômica. Mais da metade do que sei aprendi ontem, assistindo o filme Oppenheimer (2023) de Christopher Nolan, baseado numa biografia pesquisada durante décadas (American Prometheus, 2005, de Kai Bird e Martin J. Sherwin).
 
É um filme de três horas, muito bem dirigido, porque mostra homens de paletó discutindo o tempo inteiro, e ainda por cima conta uma história cujo final já sabemos: os cientistas conseguiram produzir duas bombas atômicas, que foram jogadas sobre o Japão, acabando a guerra. E o filme prende a nossa atenção.
 
Oppenheimer fala de ciência e de guerra, mas fala principalmente de política. E de um lado importante da política, a relação entre o Saber e o Poder, entre os que detêm o conhecimento técnico-científico, e os que financiam esse conhecimento e decidem como ele vai ser empregado.
 
São duas forças cegas, porque muitas vezes o Saber (Oppenheimer, no filme) pensa que sabe tudo, e não sabe; e o Poder (Lewis Strauss, no filme) pensa que pode tudo, e não pode. Os que melhor as utilizam são os mais conscientes dessas limitações.
 
Os homens do poder (nesse contexto, os políticos e os militares) precisam ganhar a guerra, e só podem ganhá-la se os cientistas fabricarem a Bomba. E Oppenheimer é uma encarnação convincente do cientista cujo primeiro compromisso é com a ciência, mas vê-se envolvido num jogo de moral e ética cujas manobras ele não domina.
 
Oppenheimer tem opiniões políticas – como muitos jovens de sua geração, leu livros de esquerda, interessou-se pelo comunismo, apoiou os Republicanos durante a Guerra Civil Espanhola. Não era de modo algum um apolítico: mas era despreparado para o varejo do poder, o toma-lá-dá-cá dos políticos profissionais, as intrigas de bastidores, as conspirações e as traições, as armações dos mais espertos contra os mais ingênuos.
 
Dias antes de Oppenheimer eu estava revendo um bom filme de espionagem, Tinker Tailor Soldier Spy (2011, Tomas Alfredson), baseado no romance de John Le Carré. A espionagem é, entre outras coisas, a arte de mentir sem ser descoberto e de ouvir mentiras sem ser enganado. Todo mundo mente o tempo todo.
 
O espião que havia em Los Alamos, no Projeto Manhattan, era Klaus Fuchs, e ele só aparece de passagem. A verdadeira batalha de espionagem se dá da parte de Lewis Strauss (Robert Downey Jr.) que se dedicou a destruir a reputação de Oppenheimer, acusando-o de espião comunista e de passar segredos para os russos.



(Robert Downey Jr., como Strauss, e Cillian Murphy, como Oppenheimer)


Lewis Strauss está para Oppenheimer como Salieri estava para Mozart no filme Amadeus. É um indivíduo que publicamente admira o talento real do outro, mas na surdina faz o que pode para destruí-lo, por uma combinação misteriosa de inveja, ressentimento, vingança, ambição e sei lá o que mais. Robert Downey Jr., neste papel, está fisicamente mais parecido com Sherlock Holmes do que quando fez Sherlock Holmes (2009, Guy Ritchie). Seu personagem é um político ambicioso que abala de forma irremediável a carreira de Oppenheimer, numa luta de egos que é um dos motores do filme.
 
Entre outras frentes, a luta se dá após o fim da Guerra, em torno da fabricação da bomba de hidrogênio, chamada “a Super”: Oppenheimer era contra (temendo consequências apocalípticas) e Strauss era a favor. Essa discussão, aliás, está presente em um bom filme alemão, muito parecido com Oppenheimer, e que está no Amazon Prime: Adventures of a Mathematician (2020, Thor Klein), que conta a vida do matemático Stanislaw Ulam, um dos cientistas presentes em Los Alamos.
 
Aqui:
https://www.imdb.com/title/tt6875374/?ref_=fn_al_tt_1
 
É um filme tecnicamente e comercialmente menos ambicioso do que Oppenheimer, mas pertence a essa mesma estirpe dos “filmes de cientistas e políticos, de paletó, discutindo diante de um quadro negro”. E é também muito bom.




Richard Feynman, um dos meus cientistas preferidos, estava lá também, e faz muitos comentários sobre Los Alamos (e alguns sobre Oppenheimer) em seu livro de memórias Surely You’re Joking, Mr. Feynman! (1985). Feynman foi para Los Alamos com cerca de 25 anos; era um aluno brilhante, e se incorporou ao grupo dos físicos teóricos.
 
Em seu livro, ele cita seu colega, o matemático Paul Olum:
 
Quando fizerem um filme sobre isto aqui, vão mostrar um cara chegando de Chicago para fazer um relatório sobre a Bomba e levar de volta aos homens [da Universidade] de Princeton. Ele vai estar de terno e empunhando uma pasta e tudo o mais – e em vez disso está você aqui, vestindo uma camisa suja e explicando coisas para a gente, mesmo sendo uma questão tão séria e tão dramática. (trad. BT)
 
Feynman narra alguns episódios pitorescos em que se envolveu (tudo em que ele se envolve torna-se “um episódio pitoresco”) e a certa altura descreve um fato que dá o que pensar.
 
Durante a fase final da II Guerra, os computadores tiveram um avanço excepcional, e em Los Alamos a IBM ajudou os cientistas a criar um sistema de máquinas calculadoras, necessário para testar numericamente todas as reações possíveis na desintegração do átomo, em diferente hipóteses de trabalho. Eram milhões de cálculos, em computadores muito rudimentares comparados aos de hoje.
 
Feynman recebeu a função de treinar um grupo de rapazes do Destacamento Especial de Engenharia. Eram rapazes brilhantes, recém-saídos da “high school” e com talento para a engenharia. Mas eram muito jovens, e passavam os dias perfurando cartões numéricos nas máquinas, e entregando os resultados, num tédio mortal.
 
Ele viu que aquilo não ia dar certo e pediu a Oppenheimer para explicar aos garotos (porque tudo ali era segredo de Estado) o que eles estavam fazendo, para dar uma sacudida no grupo.
 
Oppenheimer foi falar com a Segurança e conseguiu uma permissão especial para que eu explicasse aos rapazes o que estávamos fazendo. Fiz minha palestra e eles se entusiasmaram. “Uau, estamos lutando na guerra! Agora tudo faz sentido!” Agora estava claro o que aqueles números queriam dizer. Se a pressão aumentasse muito, havia uma liberação maior de energia, etc. e tal. Eles agora sabiam o que estavam fazendo!
 
Transformação completa! Eles começaram a inventar maneiras de executar melhor aquele trabalho. Melhoraram o esquema. Trabalhavam de noite. Não precisavam mais de supervisores, não precisavam de nada. Estavam entendendo tudo; inventaram vários dos programas que passamos a usar.
 
E assim os meus rapazes tornaram-se úteis, e para isto bastou explicar a eles o que estavam fazendo. O resultado é que, antes, eles tinham precisado de nove meses para resolver três problemas, e nos três meses seguintes nós resolvemos nove problemas, o que é quase dez vezes mais.
 
É um exemplo interessante de trabalho alienado em contraste com trabalho onde existe uma motivação pessoal, íntima, do trabalhador. No caso, o patriotismo (era preciso ganhar uma guerra) e o prazer que todo cientista e todo engenheiro tem ao enfrentar um problema concreto e resolvê-lo.
 
E este é um dos pontos em que o Poder e o Saber se conjugam de uma forma ameaçadora. Porque o Poder conhece bem esse fanatismo pelo Saber que existe nos cientistas, principalmente quando jovens: a curiosidade voraz de entender o mundo, de examinar dificuldades, propor explicações, testar soluções... Dê-lhe um laboratório, equipamento, recursos e diga: “Quero resultados.”


(Gary Oldman, como o presidente Truman)

 
Essa investimento maciço no Saber estava na raiz da Bomba Atômica e depois (mesmo com a oposição de Oppenheimer e outros) da Bomba de Hidrogênio – que é incrivelmente mais potente (dez mil vezes mais), e relativamente muito mais barata, “a um custo de centavos por cada grama de explosivo, e não centenas de dólares, como na bomba de fissão nuclear” (In Any Light: Scientists and the Decision to Build the Superbomb, 1952-1954, Peter Galison e Barton Bernstein).
 
Ver aqui:
https://www.jstor.org/stable/27757627
 
Um comentário no IMDB (Internet Movie Data Base) faz um lúcido comentário sobre a cegueira pessoal de Oppenheimer:
 
Ironicamente, apesar de ser um físico nuclear, alguém que naturalmente tem um conhecimento amplo a respeito de reações nucleares em cadeia, um tema recorrente no filme é que Oppenheimer não percebe a cadeia metafórica de consequências deflagradas pelas suas ações. Ele inicia e mantém relações com membros do Partido Comunista sem pensar no impacto futuro que isto pode ter na sua carreira como funcionário do governo norte-americano; e ele constrói a bomba atômica para derrotar o Eixo sem na verdade considerar os esmagadores efeitos que virão depois, como a subsequente corrida armamentista nuclear entre os EUA e a URSS. (Trad. BT)
 
Na queda-de-braço entre o Poder e o Saber, o Poder muitas vezes aposta na sede de conhecimento dos cientistas, na sua capacidade quase fanática de se concentrar num problema e não pensar em mais nada enquanto não o resolver. Pode ser a Bomba Atômica. Pode ser a Cura do Câncer. Pode ser a produção maciça de sistemas de Inteligência Artificial, de Fake News, de Deep Fake, de armas poderosas onde está sendo feito (hoje, agora) um investimento inédito de talento científico, recursos financeiros, e vontade política. Do jeito que ficou o mundo, existe sempre uma Guerra Mundial acontecendo.
 








sábado, 11 de maio de 2019

4465) Só Pode Ser Brincadeira, Sr. Feynman! (11.5.2019)



Saiu agora pela Ed. Intrínseca (Rio) uma nova edição de Só Pode Ser Brincadeira, Sr. Feynman!, livro meio informal de memórias do cientista norte-americano, sobre o qual já escrevi algumas vezes aqui no Mundo Fantasmo.

Não examinarei nem darei opinião sobre as descobertas científicas de Feynman, mas já que ele ganhou, entre outras coisas, o Prêmio Nobel de Física de 1965, alguma importância ele tem, além de um temperamento irrequieto, questionador, impaciente com a burrice alheia, mas bem humorado (e malicioso) o bastante para divertir-se às custas dela, ao invés de se desesperar ou se aborrecer.

A frase do título foi pronunciada pela esposa de alguma autoridade universitária, num jantar, quando Feynman, convidado, fez algum pedido que era uma espécie de heresia gastronômica e cerimonial.

Uma das diversões favoritas de Feynman era falar a verdade e se divertir com a incredulidade dos colegas. Professor por muitos anos (no Rio de Janeiro, inclusive) ele ironizava os alunos (e alguns professores) dizendo que viviam no piloto automático, ouviam mas não assimilavam, diziam mas não sabiam o que estavam dizendo, respondiam com precisão qualquer pergunta sem saber direito o que tinha sido perguntado e respondido.

Comprei esse livro em dezembro de 1990 de passagem por São Paulo, num sebo-estante que tinha ali numa praça.

No prefácio dessa edição da Bantam, Ralph Leighton diz (trad. minha):

As histórias contidas neste livro foram reunidas de forma intermitente ao longo de sete anos de agradável bate-papo com Richard Feynman. Considerei divertida cada uma das histórias isoladamente, e o conjunto delas me parece extraordinário. Que uma tal quantidade de coisas malucas tenha acontecido a ele é algo que às vezes é difícil de acreditar. E o fato de que uma pessoa fosse capaz de armar tantas traquinagens em uma só vida pode nos servir de inspiração!

As traquinagens eram às vezes um mero costume de pregar peças nos conhecidos, que muitas pessoas têm, cientistas ou não. Em outros casos, mais sérios, Feynman se valia das mesmas malandragens para envolver oponentes de raciocínio mais bitolado do que o dele. Há um episódio muito citado quando ele, reunido com outras autoridades para investigar o desastre com o ônibus espacial Challenger, propôs sua teoria para a causa da explosão e fez uma demonstração prática ali mesmo na mesa, diante de todo mundo.

Feynman batia de frente com os políticos e dizia que você pode trapacear a opinião pública, mas não as leis da natureza. Ele gostava de examinar tudo por todos os lados, e sempre se apegava aos fatos. Queixava-se de que quando as pessoas estão focadas demais nas próprias idéias não prestam atenção aos fatos, ou só o fazem seletivamente.

Feynman tem uma dessas inteligências recursivas, que estão constantemente se auto-interrompendo e se auto-analisando: Por que pensei assim? O que foi isto que eu senti? Por que razão essas coisas me pareceram ser desse jeito? O que é isso que eu estou presenciando?

Durante o tempo em que esteve ligado à Cornell University, ele esteve de passagem pelo Brasil e morou aqui durante meio ano, em 1951. Como era um percussionista amador (tocava bongô) acabou se juntando aos ensaios de uma escola de samba, que ele nomeia como Farçantes [sic] de Copacabana, tocando frigideira. Aventura que ele conta no capítulo deste livro intitulado (em português, no original) “O Americano, Outra Vez!”.

Há um trecho hilário em que Feynman está chegando ao Brasil e uma professora lhe pergunta como aprendeu nossa língua. Meio hesitante, mas aluno estudioso, ele diz que começou a aprender espanhol, mas depois descobriu que viria mesmo para o Brasil, “...e consequentemente aprendi português.” A frase que ele pensara em inglês era “So, I learned Portuguese”, e fico imaginando um Físico conhecendo uma língua em que “so” se traduz por “consequentemente”. Duas “partículas” equivalentes e diferenciadas.

Físicos teóricos da escala acadêmica e profissional de Feynman desfrutam de uma certa liberdade para imaginar cenários inesperados, mostrar que são coerentes, e depois aplicá-los ao mundo real. Podem passar décadas agarrados com uma idéia que avança a passo de jabuti, enquanto dão aulas, formam turmas, orientam futuros doutores. Podem jogar muitas teorias para o alto; faz parte de sua função; como o centroavante no futebol, ninguém espera que ele acerte o tempo inteiro. Mas todos sabem que se ele agitar e criar situações o tempo inteiro, algum gol ele acaba emplacando.

















sexta-feira, 8 de abril de 2016

4097) A Ciência numa frase (9.4.2016)



Richard Feynman, ganhador do Prêmio Nobel de Física, foi professor numa universidade carioca durante algum tempo. Era um cientista questionador, anticonvencional. Embora tivesse adorado o Brasil pelo seu espírito extrovertido, alegre, ele deu em seus livros de memórias um retrato muito pouco elogioso da educação brasileira. “A maioria dos universitários não são estimulados a pensar,” dizia ele, “tudo que querem é decorar fórmulas e aplicá-las nas provas, sem muito interesse pelo seu significado”.  Diagnóstico que bate com a minha experiência pessoal.

Propuseram a Feynman certa vez um problema conceitual. Digamos que acontecesse na Terra um cataclismo e toda a nossa civilização fosse destruída, com todas as nossas conquistas científicas e tecnológicas. 

E digamos que fosse possível preservar, para a humanidade futura, apenas uma frase, uma frase que contivesse o máximo de informação sobre nossa ciência, sobre o máximo a que conseguimos chegar na decifração dos segredos do Universo. Que frase seria essa?

Feynman propôs esta resposta: 

“Todas as coisas são feitas de átomos, pequenas partículas que giram em movimento perpétuo, atraindo-se umas às outras quando estão próximas, mas repelindo-se quando são ‘apertadas’ umas de encontro às outras”.

Para Feynman, bastaria um pouco de imaginação filosófica e de experiências práticas para, partindo desse ponto, recomeçar a civilização. É algo que a humanidade procurava tateando, desde os filósofos pré-socráticos, e acabou estabelecendo como hipótese central de trabalho, milhares de anos depois, no decisivo século 20. 

A definição “partículas” é questionável, mas é um bom ponto de partida para discutir a natureza da matéria. O fato de que se atraem e se repelem em diferentes condições deixa implícita a cadeia de reações cuja existência comprovamos, e cuja natureza até hoje tentamos explicar (“força forte”, “força fraca”, “gravidade”, “eletromagnetismo”, etc.). 

Como faria a civilização futura para reconstituir todo o nosso edifício científico a partir dessa frase? Bem, isso aí daria um bom romance de FC na linha de Um Cântico para Leibowitz

A frase de Feynman mata a charada? De jeito nenhum. Um biólogo, um químico, um antropólogo, um economista etc. proporiam frases-síntese muito diferentes. 

O que desafios desse tipo têm de bom é que nos forçam a voltar para o básico-das-coisas, como quando uma criança nos faz totalmente a sério uma pergunta fatal: Por quê que chove? O sol é feito do quê?  Por que umas coisas caem e outras (uma pena, p. ex.) não? Pra onde a gente vai quando dorme? O que tem embaixo do chão? De que é que eu sou feito?





quinta-feira, 16 de maio de 2013

3187) Os desenhos de Feynman (16.5.2013)




Richard Feynman não tinha a vida pacata e acadêmica que se espera da maioria dos cientistas. Entre outras coisas, gostava de tocar bongô, tocou tamborim numa escola de samba do Rio de Janeiro (quando era professor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas), jogava em cassinos para testar o cálculo de probabilidades, e era um grande conquistador de mulheres. 

Seu volume de memórias, Deve ser brincadeira, Sr. Feynman! é um dos melhores que já li.

Feynman gostava de experimentar coisas que não conhecia; era um aventureiro do espírito, que não tinha medo de errar, nem de pagar mico, nem de perder tempo, nem de ser chamado de doido. Um cientista que tenha medo de qualquer dessas coisas nunca vai ser nada além de um burocrata de laboratório, e Feynman, de certo modo, fazia ciência porque achava divertido.

A certa altura da vida começou a frequentar aulas de desenho de um amigo que era artista, e a quem retribuía dando aulas de ciência. O resultado, bastante razoável (http://bit.ly/138CSxE), está no álbum The Art of Richard Feynman, com resultados que, se não são grandes obras de arte, são bastante apreciáveis, principalmente seus retratos de nus femininos. 

(Antes que digam que só gostei dos desenhos porque admiro o desenhista, lembro que acho muito ruinzinhos os desenhos e as pinturas de Bob Dylan, que, em outros aspectos, é um dos deuses-pequeninos do meu panteão.)

Disse Feynman sobre sua experiência artística: 

“O professor de desenho não dizia muita coisa aos alunos; a única coisa que me disse foi que meu desenho estava muito pequeno para a página. Em vez disso, ele nos estimulava a tentar novas abordagens. Pensei em como nós ensinamos Física: temos tantas técnicas, tantos métodos matemáticos, que nunca paramos de dizer aos alunos como fazer as coisas. Se você faz linhas muito grossas, o professor de Desenho não pode se queixar disso, porque sempre há um grande artista que fez grandes obras usando linhas grossas. Os professores não nos empurram numa direção especial; eles precisam transmitir o que sabem por osmose, e não por instruções, enquanto o professor de Física tem o problema de estar sempre ensinando técnicas, ao invés de ensinar o espírito da solução de problemas científicos.”

Essa diferença se dá porque a execução de cada desenho vai numa direção diferente: a da individualidade do aluno, do seu “olho”, da sua “mão”, seu jeito especial de fazer as coisas. 

Já um problema da Física precisa convergir numa única direção: a da descoberta de uma verdade universal. 

Ao desenhar, Feynman constatou que cada obra de arte é um universo próprio onde as leis dos outros universos têm validade limitada.







quinta-feira, 25 de outubro de 2012

3012) A frase de Feynman (25.10.2012)



(Richard Feynman)


A gente sempre imagina (os livros escolares têm grande parte da culpa) que a humanidade está constantemente evoluindo da ignorância para o conhecimento, da barbárie para a civilização.  Diria Augusto dos Anjos: “Ilusão trêda!”.  A barbárie não desaparece com o surgimento da civilização: é diluída por ela, assim como o leite já existente numa xícara não desaparece quando derramamos café dentro dela. Civilização e barbárie, ignorância e conhecimento, tudo isto continua a ser produzido sem parar. Varia apenas o ritmo e a intensidade de cada um.

É confortável pensar que a evolução humana é uma lei da natureza, mas as idéias confortáveis são tão perigosas quanto os paraísos artificiais. Não duvido nada que nas próximas décadas aconteça alguma catástrofe planetária (calma, estou virando a boca pra lá), de natureza econômica ou ecológica, e em um simples século a gente perca tudo que aprendeu. Como teria dito uma vez Einstein: “Não sei que armas serão usadas na Terceira Guerra Mundial, mas na quarta serão arcos e flechas”.

Perguntaram ao físico Richard Feynman (procurem meus artigos sobre ele no Mundo Fantasmo): Se algum cataclismo destruísse todo o nosso conhecimento científico, mas você pudesse deixar para os homens futuros uma simples frase, que frase seria essa?  Que informação essencial, comprimida numa pequena cápsula, permitiria reencontrar o caminho perdido da ciência?

Feynman respondeu que um ponto de recomeço importante seria a hipótese atômica, ou seja, o nosso conhecimento sobre a matéria de que o Universo é feito. E ele sugeriu a frase: “Todas as coisas são feitas de átomos, minúsculas partículas que giram em movimento perpétuo, atraindo-se umas às outras quando estão a pequena distância, mas repelindo-se quando tentamos apertá-las umas de encontro às outras”. Para Feynman, esta descrição contém uma quantidade enorme de informação sobre o mundo. O fato da matéria que parece sólida consistir em “grãos” invisíveis, separados por espaços vazios; o fato de esses grãos manterem relações de energia entre si (atração e repulsão); o fato de que, quando tentamos interferir no equilíbrio das partículas, essa energia reage de maneira violenta (como quando pegamos dois ímãs e tentamos forçar suas extremidades iguais uma de encontro à outra).

Feynman esgota o assunto? Claro que não. Biólogos, astrônomos, geneticistas etc. iriam certamente propor outras frases, outras fórmulas. Bem que poderíamos compilar uma antologia delas e gravá-las em todas as línguas, em todas as montanhas, em todas as memórias. Uma nova Tábua de Esmeralda, preservando as células-tronco do conhecimento, para fazer o mundo nascer de novo.


domingo, 8 de agosto de 2010

2315) Darcy e Feynman (8.8.2010)





Reparei um dia destes que nesta coluna vivo a falar elogiosamente de Richard Feynman, dizendo que é um dos sujeitos mais inteligentes que já vi. Não retiro uma vírgula, mas acho engraçado que eu nunca tenha me dado o trabalho de dizer o mesmo sobre um cara que mora metaforicamente aqui na esquina. 

Darcy Ribeiro, sob muitos aspectos, é o Feynman brasileiro. Fãs de um e fãs do outro hão de erguer agora, respectivamente, a sobrancelha esquerda e a direita, diante desta leve heresia. Não pode haver uma dupla de cidadãos mais dessemelhantes. 

Darcy era mineiro, foi simpatizante do comunismo, estudou etnologia, viveu dez anos entre os índios, tornou-se educador, fundou a Universidade de Brasília, viveu no exílio, foi vice-governador do Estado do Rio. 

Feynman era um norte-americano, filhos de judeus de ascendência polaca; trabalhou em pesquisas de energia atômica, ganhou um Prêmio Nobel de Física. O que têm em comum?

Basta ver as imagens dos dois falando (vocês pensam que o YouTube só serve pra ouvir música?) que qualquer pessoa percebe. Feynman e Darcy eram dois faladores compulsivos, incessantes. Alguém disse uma vez que para conseguir uma entrevista completa com Darcy bastava dizer: “Boa tarde, professor Darcy”, e ele começava: “Boa tarde, aliás uma belíssima tarde, típica da civilização tropical que o Brasil está construindo para o terceiro milênio, porque o choque das raças ocorrido neste território...”, e ia embora numa banguela de uma hora e meia. 

Darcy falava rápido como uma metralhadora; Feynman mais lentamente, mas talvez seja porque as imagens dele a que temos acesso já são dos seus últimos dez anos, durante sua queda-de-braço final contra o câncer. Mas, mais do que falar, ambos eram sujeitos ligados o tempo todo. Pense em dois cérebros com todas as luzes acesas! 

Darcy e Feynman são a prova viva, por exclusão, da teoria de Colin Wilson de que nós, seres humanos, somos todos zumbis, passamos a vida quase toda no piloto automático.

Senso de humor é outra característica dos dois. Não o senso de humor blasé e egoísta tão em moda nos nossos círculos pseudo-intelectuais, mas um senso de humor de quem se diverte com a estupidez humana sem deixar de se comover com o destino humano. E sem perder o afeto pelos humanos à sua volta, principalmente se forem só humanos, sem títulos, cargos ou posses.

Outro traço em comum: eram questionadores inveterados, indivíduos que nunca tiveram papas na língua, nem medo de contradizer, desafiar ou desmentir qualquer autoridade, por maior que fosse, que tivesse a infelicidade de dizer uma bobagem na sua frente. E o faziam com um sorriso divertido no rosto, sem rancor, sem agressividade, usando apenas a maior arma do intelecto: a verdade dos fatos. 

Usando apenas isto, incomodaram muita gente, enfrentaram tempestades administrativas e políticas, pagaram caro muitas vezes pela sua honestidade intelectual, e fizeram um enorme bem aos países onde atuaram.





quarta-feira, 9 de junho de 2010

2131) Verdades e mentiras (6.1.2010)





A mente humana tem uma relação engraçada com os conceitos de verdade e mentira. Muitas vezes somos incapazes de enxergar uma coisa verdadeira diante dos nossos olhos, só porque ela não se apresenta da maneira que esperamos. Temos idéias preconcebidas sobre o que parece verdadeiro e o que parece mentira, e essas idéias determinam nossos erros de julgamento.

Richard Feynman, Prêmio Nobel de Física, conta (no livro O Sr. Está Brincando, Sr. Feynman?) que quando jovem fazia parte de uma Fraternidade universitária, aqueles grupos de estudantes que dividem o aluguel de uma casa (o que no Brasil chamamos de “república de estudantes”). 

Um dia, alguém desaparafusou e roubou a porta do quarto de alguns estudantes, para pregar-lhes uma peça. Todos puseram-se a investigar, e Feynman teve a idéia de incrementar a brincadeira. Durante a noite seguinte, ele fez o mesmo com a outra porta do quarto dos colegas, e a escondeu no porão. 

Ao amanhecer, novo reboliço. Os estudantes estavam irritados, e quando ele desceu para o café da manhã perguntaram: “Feynman! Foi você quem tirou a outra porta?!” E ele disse: “Oh, mas é claro que fui eu! Olha aqui esses arranhões na minha mão: foi quando eu carreguei a porta para escondê-la”. Os outros exclamaram; “Ora, vá se danar. Quem terá sido?...”

Feynman tinha dito a verdade, mas como seu tom de voz era sarcástico ninguém acreditou. Depois, a primeira porta foi encontrada, e os “ladrões” juraram de pés juntos que só tinham roubado uma. A Fraternidade convocou uma reunião para resolver o problema. 

Várias sugestões foram feitas, e então Feynman pediu a palavra. 

“Não precisamos saber quem roubou a porta”, disse ele; “é óbvio que é alguém metido a esperto. Muito bem, sr. Esperto, damos a mão à palmatória, reconhecemos que você é mais esperto do que nós todos. Não precisa se acusar. Basta deixar em algum lugar um bilhete dizendo onde está a porta, e nós reconheceremos que você é um Super-Gênio”.

Outro estudante sugeriu, então, que cada um deles jurasse, pela sua palavra de honra, que era inocente. E o presidente começou a interrogar: 

“Muito bem, vocês todos vão responder pela sua palavra de honra. Jack, você tirou a porta?” 

“Não, pela minha palavra de honra”. 

“Tim, você tirou a porta?” 

“Não, pela minha palavra de honra”. 

“Maurice, você tirou a porta?” 

“Não, pela minha palavra de honra”. 

“Feynman, você tirou a porta?” 

“Oh, sim, claro que fui eu que tirei a porta!...” 

“Que diabos, Feynman, estamos falando sério aqui, será possível? Sam, você tirou a porta?...”

E o interrogatório prosseguiu. Quando Feynman finalmente os convenceu de que tinha roubado a porta (e mostrou onde a escondera), todos o acusaram de ter mentido durante o interrogatório e faltado à sua palavra de honra. Ninguém lembrava textualmente do que ele dissera. 

Ele tinha dito a verdade, mas o tom de voz empregado, e a sua fama de gozador, tornaram invisível a verdade que ele dizia.





sábado, 26 de dezembro de 2009

1452) O arco-íris de Feynman (8.11.2007)



Richard Feynman é um cientista citado volta e meia aqui nesta coluna como uma das mentes mais criativas e menos convencionais da Física moderna. Um interessante livro a seu respeito é O Arco-Íris de Feynman de Leonard Mlodinow (Rio de Janeiro, Sextante, 2005) em que o autor narra o período em que foi bolsista no Caltech (California Institute of Technology) onde Feynman trabalhava. Mlodinow era um jovem cientista inseguro quanto ao caminho a seguir; Feynman estava encarando um câncer que já o levara a várias cirurgias e que acabaria por matá-lo alguns anos depois. Os diálogos entre os dois (gravados em fita) são uma das partes mais interessantes do livro.

Feynman costumava dividir os cientistas em dois tipos: os babilônios, que observavam o comportamento da Natureza e tentavam deduzir suas leis ou constantes, e os gregos, que desenvolveram um sofisticado sistema de idéias cuja validade dependia de idéias anteriores (axiomas, postulados, demonstrações lógicas, etc.). Os cientistas de espírito grego procuram teorias matemáticas sobre o Universo, cuja beleza ou elegância os convença de que são verdadeiras. Os de espírito babilônio procuram teorias que expliquem os fenômenos, mesmo que sua demonstração matemática seja pouco ortodoxa. Era o caso de Feynman.

No capítulo 17, Feynman compara a criatividade do cientista com a do escritor. Ele diz que na juventude tentou escrever histórias de ficção. Pegou como modelo um volume de contos populares dos Irmãos Grimm e achou que não seria muito difícil escrever uma daquelas histórias. E ele diz: “Não consegui fazer nada que não fosse uma rearrumação do que já tinha lido. Percebi que infelizmente, quando recombinava aqueles elementos, era incapaz de criar uma trama essencialmente diferente, uma saída criativa, enquanto na história seguinte havia sempre um tipo de surpresa que a distinguia das demais”.

Feynman desistiu porque pelo seu julgamento cada história recolhida pelos Irmãos Grimm tinha um “pulo do gato” que ele não sabia reproduzir. Era-lhe muito mais fácil ser anticonvencional na Física Quântica do que nos contos de fadas. Ao meu ver foi apenas uma questão de desistência prematura, e é possível que uma mente como a de Feynman conseguisse acabar criando algumas histórias aceitáveis. Contos populares como os dos irmãos Grimm (que não foram escritos por eles, como se sabe, mas recolhidos em pesquisas com pessoas idosas de regiões remotas da Alemanha) exibem uma tensão entre o tradicional e o inesperado. Obedecem a estruturas muito rígidas, que já foram analisadas, por exemplo, por Vladimir Propp; mas dentro dessas estruturas, que são complexas, as variações podem ser incontáveis. Feynman desistiu de escrever pelo mesmo motivo por que tantos outros indivíduos não se tornaram escritores: tinham a inteligência para entender o modelo, mas não tiveram motivação emocional para apossar-se dele, desobedecer-lhe, violentá-lo, enriquecê-lo com novidades.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

0828) Feynman, amor e morte (11.11.2005)



Um dos sujeitos que mais admiro é Richard Feynman (pronuncia-se “fáin-man”). Acho até que ele era mais inteligente do que eu (ganhou um Prêmio Nobel de Física, e eu não). 

Você é cientista, caro leitor? Seus estudos, ou sua carreira profissional, são no domínio das Ciências, do entendimento das leis do Universo, do cultivo do pensamento lógico e organizado? Não leia Einstein nem Isaac Newton: leia Feynman. 

Lógica e doidice, rigor e imaginação atingiram ali o ponto de equilíbrio que conjuga o máximo de duas forças mutuamente contraditórias e interdependentes.

A primeira esposa de Feynman, Arline, morreu de tuberculose em junho de 1945, quando ele trabalhava em Los Alamos, nas pesquisas para a construção da bomba atômica. 

Junto da cama dela no hospital havia um relógio. Arline disse a Feynman que aquele relógio era um símbolo do tempo que os dois tinham para viver juntos. No dia em que ela morreu, Feynman, a quilômetros de distância, recebeu uma notificação do hospital, na qual estava registrada a hora exata do óbito. Quando chegou lá, ele observou que o relógio na cabeceira da cama marcava exatamente a hora em que ela tinha morrrido. O relógio parara no momento exato da morte dela.

Pelo menos, é o que qualquer pessoa pensaria. Feynman, mesmo arrasado pela dor, recusou a explicação sobrenatural. Pensou, pensou, e ocorreu-lhe que o relógio era velho, o mecanismo era precário. Provavelmente quando Arline morreu, o relógio já tinha parado. Quando a enfermeira constatou a morte, olhou para ver as horas – e simplesmente anotou o que o relógio parado estava marcando. 

Diz Feynman: “Nunca pensei numa explicação sobrenatural. Tive que parar e procurar entender o que tinha acontecido”.

Insensíveis, os cientistas? Em outubro de 1946, mais de um ano após a morte de Arline, Feynman escreveu-lhe uma carta, que foi encontrada entre os papéis dele após sua morte em 1988. Ele dizia: 

“Querida, eu adoro você. Há muito tempo não lhe escrevo, mas você vai me perdoar porque sabe que eu sou assim, teimoso e realista. Achei que não havia sentido em lhe escrever. Mas agora eu sei que preciso fazer isto, fazer o que demorei tanto: dizer que te amo. É difícil entender, com a minha mente, o que significa amar alguém depois de morta. Mas eu ainda quero lhe confortar, tomar conta de você. E quero que você me ame e tome conta de mim. Quero ter problemas para poder discuti-los com você; quero que a gente faça planos juntos. Planos de aprender a costurar nossas próprias roupas, ou de aprender chinês, ou comprar um projetor de cinema. Será que posso fazer isto? Não. Estou sozinho, sem você que era a instigadora de todas as nossas aventuras malucas. (...) Você é tudo que me restou. Você é real. Minha esposa querida, eu adoro você. Eu amo minha esposa. Minha esposa está morta.” 

A carta, que ele nunca mostrou a ninguém, tinha a aparência de ter sido muitas vezes manuseada e relida ao longo daqueles 42 anos.





quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

0702) A flor de Feynman (18.6.2005)



Um dos clichês mais irritantes que vejo por aí é quando alguém diz que os cientistas são indivíduos frios, objetivos, sem sensibilidade e sem emoções. “Como?! O sr. é químico, e gosta de música clássica? Mas que coisa surpreendente!” Alguém que diga coisas desse tipo perde algumas centenas de pontos em meu conceito. Um dos meus heróis no mundo da ciência é Richard Feynman, que ganhou um Prêmio Nobel de Física, e foi um dos indivíduos mais inteligentes, informais e irreverentes que a ciência americana já produziu. Recomendo com insistência sua autobiografia, Surely you’re joking, Mr. Feynman!, da qual há uma tradução portuguesa, Certamente está a brincar, Sr. Feynman! O título tem tudo a ver com o personagem. Feynman costumava dizer ou fazer coisas que chocavam, escandalizavam ou deixavam perplexas as pessoas; coisas que num primeiro instante pareciam absurdas. E que depois, bem examinadas, mostravam ser verdades límpidas, lógicas, irretorquíveis.

Falei no Prêmio Nobel para não pensarem que Feynman era um maluco-beleza, porque em seu livro ele conta como andava de quatro pelo tapete para descobrir se farejava tão bem quanto um cachorro, ou como, quando estudava em Princeton, passava dias examinando o comportamento das formigas para saber como elas tomavam decisões. Ou como fazia cálculos de cabeça que deixavam espantados os colegas, usando truques simples de substituição; ou como desenvolveu uma técnica própria para descobrir a combinação de um cofre. Feynman morou no Brasil e tocou tamborim numa escola de samba, mas... esta é outra história.

Em outro livro, The Pleasure of Finding Things Out: The Meaning of it All, Feynman se queixa de um amigo seu, artista, que diz: “Vocês cientistas não sabem entender a beleza de uma flor: vocês pegam a flor e separam parte por parte, até ela perder a graça”. Ele diz: “Ora, tudo que outras pessoas vêem numa flor eu também vejo, mas vejo muito mais. Eu posso imaginar as estruturas das células lá dentro, e ver como são bonitas. A flor tem beleza numa escala de centímetros, mas também numa escala muitíssimo menor. O fato de que a flor é capaz de desenvolver cores para atrair insetos também é interessante. Isto quer dizer que os insetos enxergam as cores. Será que eles têm também um senso estético? Como se vê, o conhecimento científico só faz aumentar a beleza e o mistério das coisas, não vejo como possa diminuí-lo”.

Eu me arrisco a dizer a Feynman que ele talvez não tenha percebido que grande parte das pessoas que elogia a beleza não se interessa por ela. Gostam das flores e dos crepúsculos como um enfeite para seu lazer, como algo que está ali com a função de proporcionar-lhes deleite. Grande parte da apreciação estética não tem nada dessa curiosidade desinteressada de Feynman. É apenas uma fruição egoísta de um prazer socialmente encorajado. Um sujeito só acha mesmo que uma flor é bonita no instante em que admitir que a flor é tão importante quanto ele.