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sábado, 27 de fevereiro de 2010

1718) A beleza do feio (13.9.2008)





(detalhe - O Jardim das Delícias, de Hieronymus Bosch)

Uma das questões mais delicadas da Teoria Estética é a aparente contradição entre o ideal de Beleza (que se propala ser o objetivo maior da Arte), e o fato de que admiramos obras que retratam algo repugnante, horrível ou aterrorizador. Quadros como as máscaras e os esqueletos de James Ensor, as bruxas de Goya, os corpos semi-destruídos de Francis Bacon. 

Nem quero chegar perto da arte contemporânea e suas incursões pelas mutilações corporais; basta me deter na boa e velha pintura a óleo, feudo confortável do academicismo, do culto à estética grega e ao equilíbrio romano. Por que motivo aqueles artistas cultivavam o Feio, e, mais ainda, por que ele nos parece Belo?

Dizem os teóricos da Arte que uma das categorias mais extremadas do Belo é o Sublime. “Sublime” é um dos adjetivos mais diluídos e malbaratados da nossa língua. As letras de músicas falam em “teu sorriso sublime”, “o momento sublime em que nos beijamos”, “a beleza sublime de uma criança”, etc. 

Segundo os filósofos, o Sublime não é o Mimoso. Nada tem a ver com essas delicadezas. Ele é vizinho do Medonho, do Grandioso e do Terrível. Schopenhauer criou uma gradação de experiências do Sublime que, nos seus graus mais elevados tem o Sublime propriamente dito, cujo exemplo é a Natureza turbulenta (algo que pode ferir ou destruir o observador, como uma tempestade), o sentimento pleno do Sublime (a contemplação de algo tremendamente destruidor, como a erupção de um vulcão próximo) e a experiência mais completa do Sublime (quando o observador experimenta sua total insignificância e anulação diante da Natureza).

Além disso, engana-se quem pensa que procuramos a Arte apenas para a contemplação estética, a edificação do espírito ou o entretenimento sem compromisso. Procuramos a Arte também, em todas as suas formas, em busca de experiência-limite, em busca do contato com coisas que tememos ou que não conseguimos compreender. 

Existem obras que funcionam porque nos permitem vislumbrar zonas crepusculares do nosso inconsciente, obras que nos provocam medo ou repulsa, mas que nos obrigam a imaginar por quê. Podemos encontrar isso nas formas mais diluídas da arte, como nos filmes de Zé do Caixão ou nos romances de Stephen King; e podemos encontrá-lo nas tragédias de Ésquilo ou de Shakespeare, na pintura de Dali ou de Hieronymus Bosch, no cinema de Buñuel, David Lynch ou Fritz Lang.

A psicanálise chamou a mente humana de “máquina desejante”, um mecanismo impulsionado pelo desejo. A impressão que tenho é que há dois tipos de desejo, o Desejo Positivo e o Desejo Negativo. Ou, se quiserem, a Atração e a Repulsa. Ambos nascem na mesma região íntima, são forças simétricas, mas uma é de atração e a outra de repulsão. Freud falava na energia da vida e da morte, Eros e Tânatos. O lugar de onde emanam é um só, e uma das suas chaves é a arte, capaz de despertar em nós não apenas a sensação do Belo, mas a sensação do Terrível.





quinta-feira, 26 de junho de 2008

0425) Os “racconti” de Luis Fernando Borgerth (30.7.2004)

(Fernando Borgerth,
"Cinturão de Asteróides")


Alguns artistas plásticos se impõem à nossa imaginação pelo uso das formas, outros pela pesquisa de texturas, outros pela coerência cromática... Não prolongarei esta desnecessária enumeração. Prefiro dizer que tenho uma curiosidade especial pelos artistas cujas obras mostram uma dimensão que chamarei de “literária” à falta de um termo melhor. São “literárias” porque parecem contar uma história, parecem mostrar algo que aconteceu há poucos instantes ou que está a ponto de acontecer, parecem nos dar entrada num universo de lugares e criaturas muito distintos do nosso. Artistas cuja matéria prima são os seres e os eventos de um espaço-tempo vizinho ao nosso, mas puramente imaginário.

No carioca (radicado em Belo Horizonte) Luiz Fernando Borgerth existe esta coerência obsessiva, que se espalha por um espaço pictórico aparentemente inesgotável. A maioria dos seus quadros mostra cenas da vida cotidiana num mundo que, pela arquitetura, pelas roupas, lembra uma Europa medieval; parecem ilustrações de contos de Boccaccio, mas um Boccaccio dotado de um olho tão esperto e contemporâneo quanto um Ítalo Calvino. No catálogo da exposição individual que acontece em Belo Horizonte até 30 de julho, Eulalia Jorda-Poblet lembra os nomes de Bosch e Brueghel, e de fato o trabalho de Borgerth tem em comum com o destes o uso de um espaço amplo com dezenas de personagens que, em grupos de três ou quatro, dedicam-se a ações distintas, como que compondo mini-quadros dentro do quadro maior.

Só que Bosch e Brueghel, diz ela, são pintores invadidos por um senso de ameaça e de pecado ausente dos quadros de Borgerth. Obras como “Em Cinemascope” (2003), cheia de mulheres seminuas e de gente bebendo, ou “Folhagens” (2004), um matagal repleto de fadinhas igualmente nuas e álacres, podem evocar o “Jardim das Delícias” boschiano, mas o espírito que os governa parece mais próximo da inocência de certas visões de Chagall ou de Paul Klee, um olho meio infantil, ainda não corrompido pelo mundo, e que se dedica ao traço com a aplicação de um pré-adolescente.

Falei em conteúdo literário, e não sei por que me vêm à mente as “Fábulas Italianas” de Calvino, contos folclóricos recontados pelo escritor; ou os contos de Ray Bradbury sobre as cidadezinhas do interior onde basta chegar um circo ou um parque-de-diversões para que coisas extraordinárias comecem a acontecer. Há algo de histórias-em-quadrinhos nestes pequenos quadros (quase todos acrílico sobre tela, com cerca de 30x40cm), há algo dos anacronismos propositais de Moebius, algo das aparentes incongruências de Lewis Carroll... Imagens (infelizmente pequenas) dos trabalhos de Borgerth podem ser vistas em: http://www.murilocastro.com.br/expo/expo.php?expo=10. São pequenas polaróides de um mundo onde algo extraordinário está acontecendo, e se olharmos para elas por bastante tempo acabaremos nos transportando para lá e descobrindo o que é.