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sexta-feira, 27 de junho de 2025

5187) Esse artista é meu (27.6.2025)




 
É uma discussão que ferve por aí desde o tempo de Adão e Eva: por que motivo nos sentimos incomodados quando um artista que admiramos passa a ser admirado / consumido / incensado por gente “que não tem nada a ver”? 
 
(Primeira digressão: escrevi “desde o tempo de Adão e Eva” mas tecnicamente eu deveria jogar essa referência para o momento da primeira obra de arte registrada no Livro do Gênesis, coisa que não consigo situar... Qual seria?) 
 
Há distorções que são óbvias e chegam a ser caricaturais. Lembro muito bem da cara de dignidade ofendida de um amigo meu, comunista, setentão, nordestino, me mostrando no smartphone uma passeata de bolsonaristas cantando “Pra Não Dizer Que Não Falei De Flores” de Geraldo Vandré, a Marselhesa esquerdista de nossa mocidade. 
 
Um incômodo mais sutil é o que acomete o pequeno fã-clube de algum artista de real talento que durante alguns anos só se vê reconhecido por esse núcleo fiel. Eles compram e divulgam seus livros, ou comparecem aos seus shows, peças, filmes. Vão aos poucos se solidificando num grupo onde todos são devotos e especialistas. Trocam informações entre si, reúnem-se para conversar sobre o artista, estão confortavelmente instalados numa comunidade que os aproxima e aconchega. 



(Os Ramones no metrô, foto de Bob Gruen)

 
E então alguma combinação de circunstâncias faz com que o “seu” artista seja revelado a esse ogro de mil cabeças, estúpido, insaciável, chamado O Grande Público. O escritor que vendia 20 mil livros passa a vender 700 mil. A banda de garagem que tocava em pequenos clubes agora está nos Lollapalooza e outros festivais, com turnê marcada na Europa. Ou seja, venderam a alma – não ao Diabo, com quem até Robert Johnson se entendia; mas ao Capitalismo, que é muito pior, porque existe. 
 
E de uma hora para outra os conhecedores-a-fundo e apoiadores-sinceros daquele Artista se veem atropelados por uma multidão de neófitos que ouviram cantar o galo mas não sabem onde, o que não os impede de ter opiniões exageradas e ruidosas sobre a afinação do galo e o giro da rosa-dos-ventos. E não adianta alguém dizer: “Eu acompanho esse artista há dez anos.” A resposta vai ser: “E daí?”.  
 
Penso nisso de vez em quando quando os meus Artistas obscuros são descobertos pela imprensa cultural ou, pior ainda, pela televisão. Ou, ainda pior, por influênceres que se baseiam em seus seis meses de experiência para emitir julgamentos definitivos sobre algum assunto em que eu queimo as pestanas desde quando tinha apenas o dobro da idade deles. 
 
A relação artística pode ser reduzida, de início, a um triângulo: Autor / Obra / Leitor (vou chamar só “leitor”, para simplificar).  Nunca é um triângulo equilátero, há sempre alguma dupla de pontos mais próxima, mas não importa: a área delimitada por estes três é o início de toda apreciação estética. 
 
Quando um quarto ponto se mete... essa área ganha outro tamanho, outra direção, outro significado. E aquele território que eu imaginava estar sob meu controle de repente não está mais. O playground aumentou de tamanho mas está cheio de gente esquisita que eu não conheço. (“Eu”, no caso, não tem que ser necessariamente a minha pessoa; é o grupo-de-consenso do qual eu faço parte.) 



(Bob Dtlan no estúdio, foto de Daniel Kramer)

 
Quando Bob Dylan se afastou da canção de protesto, aderindo à guitarra elétrica e ao rock, mais do que a repulsa ao estilo pop o que se viu foi a fúria dos que achavam que tinham um artista sob sua jurisdição: “Você vai fazer o que nós gostamos; você é nosso.” E Dylan (camaleônico, escorregadio, elusivo) não estava interessado nisso. 
 
Um artista tem sucesso sólido e permanente quando sabe (e consegue) conciliar a convivência entre o “núcleo duro” de seus fãs primeiros e fiéis, e essa vasta periferia dos que chegaram muito depois mas são muitíssimos mais. 
 
A psicologia do fã-raiz tende a ser ditatorial, se lhe derem muita corda. Não é apenas o fã bobinho das bandas pop. Os fãs intelectuais podem ser igualmente emocionais e possessivos. Quando Umberto Eco estourou vendendo milhões de cópias de O Nome da Rosa surgiram (na Europa, principalmente) protestos furibundos de semiólogos que se julgavam traídos porque seu ídolo estava agora “escrevendo romances comerciais para ficar rico”. 



(Kathy Bates, em Misery de Rob Reiner) 

 
Claro que nada se compara ao fã-medusa, aquele que tenta petrificar o Artista amado. Sua encarnação mais górgona é Annie Wilkes, a personagem interpretada por Kathy Bates no filme Misery (Rob Reiner, 1990), baseado no livro de Stephen King. Ela não apenas sente-se dona do Artista: sente-se patroa. Sente-se capacitada a dizer-lhe o que deve escrever, e de que modo. É o caso extremo em que o rival não são os outros fãs, mas o próprio Artista, quando teima em ser ele mesmo e fazer somente o que quer. 




Um caso igualmente extremo, mas mais sutil do que o da história de Stephen King, é o do conto “Queremos Tanto a Glenda”, de Julio Cortázar, na coletânea do mesmo nome (creio que no Brasil saiu como Orientação dos Gatos, Nova Fronteira, 1981). 
 
Nele, Cortázar põe em cena uma nova versão, silenciosamente maligna, do Clube da Serpente, o círculo de intelectuais expatriados que, em O Jogo da Amarelinha (1960) devora e discute exaustivamente a obra teórica de um tal Morelli, sem saber que se trata de um velhinho obscuro que mora não muito longe deles. 
 
Neste conto, porém, trata-se de um grupo de admiradores da atriz de cinema Glenda Garson (uma homenagem explícita a Glenda Jackson). O grupo surge espontaneamente, porque começam a avistar-se uns aos outros no cinema antes e após as sessões, reconhecer-se, cumprimentar-se, sair depois do filme para um café ou um trago. E assim forma-se “a aliança, aquilo que depois todos chamamos de o núcleo e os mais jovens o clube” (trad. BT). 
 
(Nova digressão: O inesgotável Kurt Vonnegut propôs em seu romance Cat’s Cradle (1963) os conceitos de wampeter e de karass. Um wampeter é um ser que se torna o foco de atenção e devoção fanática de um grupo de pessoas, o karass. Essas pessoas giram em órbita ao redor dele (órbitas espirituais, claro). Exemplos de wampeter podem ser uma idéia, um livro, o Santo Graal...) 




Pois bem, no conto de Cortázar, o karass que se reúne em torno da imagem de Glenda Garson percorre todos os caminhos previsíveis dos fãs com um objetivo em comum: os encontros casuais, depois os encontros combinados, as visitas recíprocas, as infindáveis discussões sobre os incontáveis detalhes... Até que as discussões chegam a um ponto crucial. 
 
Somente pouco a pouco, a princípio com um sentimento de culpa, alguns se atreveram a deslizar críticas parciais, o desconcerto ou a decepção frente a uma sequência menos feliz, as quedas no convencional ou no previsível. (...) Começávamos a sentir que nosso carinho por Glenda ia mais além do mero território artístico e que somente ela se salvava do que imperfeitamente faziam os demais. (...) De repente os erros, as carências, nos pareceram insuportáveis; não podíamos aceitar que Nunca Se Sabe Por Quê terminasse assim, ou que O Fogo da Neve incluísse a infame sequência do jogo de pôquer (na qual Glenda não atuava, mas que de alguma maneira a maculava como um vômito, esse gesto de Nancy Philips e a chegada inadmissível do filho arrependido). 
 
Esses cinéfilos radicais dedicam-se, então a aperfeiçoar as obras em que sua musa atuou, para que em torno dela não existisse nada que não fosse a perfeição. São pessoas de recursos, isso não se discute. Um deles “havia sido sócio de Howard Hughes no negócio das minas de estanho em Pichincha”, de modo que dinheiro, jatinhos e tecnologia não são problema. Outro dispõe de “um computador” (o conto é de 1980). 
 
E eles põem mãos à obra. Localizam todas as cópias (numa época em que o cinema era 100% em celulóide) dos filmes de Glenda, extraem as cenas que lhes desagradam, refilmam (provavelmente com dublês) outras cenas de acordo com seus critérios... Ninguém (quase ninguém) percebe o deep fake que está sendo elaborado. 
 
A memória brinca com seus depositários e os faz aceitar suas próprias permutações e variantes, talvez a própria Glenda não tivesse percebido a mudança, e sim, porque isto todos nós percebemos, a maravilha de uma perfeita coincidência com uma recordação lavada de escórias, exatamente idêntica ao desejo. 
 
Glenda se aposenta das telas, o que parece coroar o esforço do fã-clube: sua obra agora está redonda, esférica, perfeita. Mas um dia a atriz resolve voltar a filmar, e isto é uma ameaça. A obra atingiu a perfeição: fazer um filme novo, agora, seria submeter-se aos erros, às influências da mediocridade alheia. O que fazer, então? E o narrador conclui: 
 
Quando Diana pousou a mão no braço de Irazusta e disse: “Sim, é a única coisa que nos resta a fazer”, falava por todos sem necessidade de nos consultar. (...) Saímos separados, cada um conduzindo seu desejo de esquecer até que estivesse tudo consumado, e sabendo que não seria assim, que ainda nos restaria abrir o jornal em certa manhã e ler a notícia, as estúpidas frases de consternação profissional. 
 
Ninguém é mais cruel do que um fã, ninguém é tão capaz de destruir a carne-e-osso do ser amado para manter intacta a imagem idealizada que tem dele. 
 
H. G. Wells tem uma crudelíssima parábola, “A Pérola do Amor” (1925; incluído na coletânea “O País dos Cegos e Outras Histórias”, Alfaguara, 2014, trad. BT) em que um príncipe indiano perde a jovem e linda esposa, por quem era apaixonadíssimo. Decidido a manter viva sua lembrança, ele gasta seus tesouros na construção de um palácio perfeito, chamado A Pérola do Amor. O corpo da princesa, num sarcófago de alabastro, é colocado bem no centro, e em volta dele começam a ser erigidas paredes, colunas, ornamentos arquitetônicos, com os materiais mais raros. 
 
Mas o príncipe não fica satisfeito. Embora todos digam que se trata do mais belo palácio já construído, ele todo dia acha um defeito aqui, outro acolá. O palácio está quase perfeito e ele não tem sossego. Um dia, ele pára por um longo tempo, olhando aquela maravilha, e por fim estende o braço e aponta com o dedo o sarcófago onde repousa a princesa, dizendo apenas: “Tirem essa coisa daí”. 




 
 
 





sábado, 9 de julho de 2022

4841) A inspiração para escrever (9.7.2022)




“De onde vocês tiram as idéias para as histórias que escrevem?”
 
É a pergunta que um escritor mais escuta durante a vida. Jornalistas, crianças, leitores em geral, colegas em início de carreira... todo mundo quer saber de onde vêm as idéias.
 
Minha resposta, hoje, é: "Minhas idéias vêm das idéias dos outros."
 
Vêm da vida real, também; mas é mais frequente virem dos livros que a gente lê, dos filmes que a gente vê. Quando a gente está lendo um livro, o aplicativo “Detetor de Boas Idéias” está ligado e em pleno funcionamento. Na vida real, às vezes acontecem coisas extraordinárias diante dos nossos olhos, mas estamos preocupados com outros detalhes.
 
Um amigo meu sofreu um “sequestro relâmpago” que durou horas. Foi levado a caixas eletrônicos, sacou dinheiro sob revólver, aquele pesadelo todo.
 
“Houve um momento,” disse ele depois, “o carro parado no trânsito, a arma encostada nas minhas costelas, que pensei: isto aqui daria um conto. Mas agora que passou não lembro mais de nada, ou pelo menos de nada que consiga escrever. É como se tivesse acontecido com outra pessoa. É uma experiência que não bate com o dicionário.”
 
Lendo um livro, a gente já pega a idéia com um mínimo de formato. A arte está em saber pegar essa idéia e torná-la nossa. Virar pelo avesso, decompor e recompor as partes, descartar o que é muito característico do autor original, ampliar um detalhe, obscurecer outro. Mas mantendo a chama, a vibração que nos fez pensar: “Opa, aqui tem uma idéia massa, que eu posso adaptar para o meu jeito de escrever.”
 
Muitos leitores de Stephen King curtem a série “A Torre Negra”, um ciclo de oito romances fantásticos que King levou mais de vinte anos para completar. A ação transcorre principalmente no futuro, numa Terra devastada, cheia de escombros da civilização. Há viagens no Tempo, há ambientação de faroeste (pistoleiros, etc.), há incursões pela nossa época atual, em flash-backs ou em viagens temporais.
 
De onde King tirou sua inspiração para essa série de FC pouco convencional?  Por incrível que pareça, ele queria escrever uma “resposta” a O Senhor dos Anéis, que leu aos dezenove anos e que virou sua cabeça, como a de muitos outros. Mas ele não queria repetir o livro de Tolkien. Ele diz que a resposta lhe veio quando assistiu O Bom, o Mau e o Feio de Sérgio Leone, e percebeu a dimensão épica daquele faroeste, que para a sensibilidade dele tinha a mesma dimensão da fantasia de Tolkien. Ele diz:
 
Percebi que o que eu queria escrever era um romance que tivesse o mesmo sentido épico e mágico de Tolkien, mas cuja história acontecesse naquele ambiente do Oeste, majestoso, absurdo.
 
E assim, pegando dois universos praticamente irredutíveis um ao outro (Tolkien e Sergio Leone), ele construiu o seu próprio épico – que deve a ambos, e não se parece com nenhum.
 
Somente um escritor maduro tem essa capacidade. King não é apenas o fã entusiasmado, desejoso de escrever as histórias que lhe dão prazer como leitor. É um autor. Tem luz própria, e projeto próprio.
 
O saudoso editor Gardner Dozois, da revista Asimov Magazine, disse certa vez numa entrevista à Locus (dezembro 1997, #443):
 
Às vezes o material de um gênero precisa ser reinventado para ser apreciado esteticamente por uma nova geração de leitores. Lembro de ter conversado uma vez com Samuel Delany, e ele disse que em seu romance Nova estava tentando reinventar Alfred Bester e seu The Stars My Destination num formato mais esteticamente apropriado para a sua geração. E anos depois conversei com William Gibson, e ele me disse que o que estava tentando fazer era reinventar The Stars My Destination para a geração dele!
 
Isso mostra o peso que o romance de Bester (um clássico de 1956) teve sobre gerações sucessivas. Merecidamente, aliás – o livro saiu aqui no Brasil pela Brasiliense, com o título de Tigre! Tigre! 


 


Delany estava publicando Nova em 1968, e Gibson começou a publicar sua série de romances cyberpunk em 1984. Estavam imitando Bester? Não. Mas perceberam de onde vinha o impacto de novidade, de maravilhamento e de expansão da consciência que Bester conseguia produzir com seu texto. Entenderam o espírito. Estudaram a técnica. Criaram obras que em nada se assemelham ao livro de Bester – mas que têm um impacto semelhante.
 
Nossas idéias vêm das idéias alheias, mas muitas vezes temos a percepção de que ficamos fãs do livro tal porque o autor fez tais e tais coisas – e essas tais-e-tais-coisas podem ser adaptadas em contextos ou temas muito diferentes. É aí que entra a criatividade de cada um – Stephen King fugiu da fantasia medieval e criou uma fantasia de faroeste.
 
E por falar nisso, quando Alfred Bester escreveu The Stars My Destination, fez uma deliberada adaptação do enredo de O Conde de Monte Cristo (1844), de Alexandre Dumas. O saudoso José Paulo Paes, em sua coletânea de ensaios Gregos e Baianos (Ed. Brasiliense, 1984) faz uma excelente análise, usando o exemplo de Bester, de como essas grandes histórias sempre podem servir de ponto de partida para grandes histórias alheias.








quarta-feira, 1 de novembro de 2017

4283) O Halloween e o Saci-Pererê (1.11.2017)



Todo ano vai chegando essa época e recomeça a discussão. Chamo a essas coisas “o carrossel das discussões”, porque é um debate cíclico, que nunca se resolve, e que volta todo ano, de acordo com as rotações do calendário.

Uma vez publiquei alguma coisa nas redes sociais curtindo o Halloween e o pessoal me castigou um pouquinho. Como é que eu, um defensor da cultura popular brasileira, um estudioso do folclore, e paraibano ainda por cima, posso gostar de uma comemoração americanizada como essa?

Tem muita gente incomodada com isso, porque não se trata nem de decoração das lojas nos shoppings. São as nossas escolas, que estão promovendo festinhas de Halloween para as crianças, essas mesmas escolas que não se dão o trabalho de lhes ensinar o que são a mula-sem-cabeça, o saci-pererê, o boitatá.

De fato, estes nossos duendes deviam ser mais frequentados e discutidos. Não só eles – outros igualmente interessantes como o bradador, o pé de garrafa, o corpo seco, a mulher do chapéu grande, e outros que mesmo alguns defensores de nossas mais arraigadas tradições nunca ouviram falar.

O que irrita muitos adversários do Halloween é o fato de que ele (como outras coisas) denota aquele nosso complexo de inferioridade deslumbrada diante dos EUA, aquela nossa fascinação viralata diante de tudo que é moda em Manhattan e em Beverly Hills. Concordo. É uma demonstração de que nascemos para entregar de graça nosso ouro e pagar pela bijuteria alheia.

E se formos de fato para o vamos-ver, o Halloween que se comemora em nossas capitais está na mesma prateleira dos Pokemons e Digimons, das festas temáticas de Princesinhas Disney, dos Guardiões da Galáxia, das Tartarugas Ninjas e do Bob Esponja.

Varrer isso da cultura urbana brasileira de 2017? É mais fácil proibir o consumo de Coca-Cola e de uísque escocês no país.

Meu interesse pelo Halloween não tem nada a ver com Brasil ou com Estados Unidos, não tem a ver com as fronteiras políticas dos países ocidentais neste instável começo de século 21. Tem a ver com jazidas profundas, não com os loteamentos da superfície.

O Halloween me interessa justamente porque gosto de ler sobre essa área tão canhestramente classificada como folclore. É uma jazida, como já falei. É material icônico-narrativo com mil anos de idade. Uma cartografia de parte do nosso inconsciente coletivo que se revela através de monstros, duendes, bruxas, magos, demônios, vampiros.

Para mim, o Halloween (o meu Halloween) é vizinho-de-porta da Geografia dos Mitos Brasileiros de Câmara Cascudo, uma das minhas obras de cabeceira. Vizinho-de-porta das bruxas de Goya, do romance gótico europeu, das lendas judaicas do Golem e do Dybbuk, e das lendas árabes dos Djinns e dos Efrites.

É esta, para mim, a área semântica e simbólica dessa festa, e se ela virou uma comemoração pasteurizada e comercializada, sem nada de Brasil, reclamem de quem fez o mesmo com o Natal e o São João.

O Halloween me traz à mente o País de Outubro de Ray Bradbury e as histórias de assombrações de Almirante, e não estou nem aí para a decoração das vitrines do Shopping da Gávea. Halloween pode ser estrangeiro, mas para mim não é Walt Disney: é feito dos romances de Stephen King e dos quadrinhos de Neil Gaiman – os quais, neste sentido estrito, não são americanos nem ingleses, são afloramentos de uma correnteza subterrânea que vem desde a Babilônia e o Egito.

Deveríamos celebrar com o mesmo entusiasmo nosso monstruário luso-afro-tupiniquim?  Sem dúvida, e de vez em quando estou aqui dando uma assopradazinha nessas brasas para que não se apaguem.  Não vejo contradição entre o Halloween estrangeiro e os monstros do nosso “folclore”. São todos consanguíneos. Pertencem a uma cultura anterior ao Mayflower e a Pedro Álvares Cabral.










segunda-feira, 22 de junho de 2015

3847) "Sobre a Escrita" (23.6.2015)



Está nas livrarias Sobre a Escrita ("On Writing") de Stephen King (Ed. Objetiva, tradução de Michel Teixeira), um livro que vale a pena ler e anotar, se você é um pretendente a escritor. Qualquer livro assim, em tese, pode trazer dicas importantes, e minha teoria pessoal é de que quem sente a necessidade de ler livros de “Conselhos Para Pretendentes a Escritor” está mesmo precisando de conselhos, portanto faz bem em ler. É o meu caso, para não ir muito longe. (Tem muitos que acham que já são escritores, sem ser, acham que ninguém pode ensinar-lhes coisa alguma, e neste caso a única coisa possível é deixar que continuem batendo com a cabeça na parede até que uma das duas se abra.)

King não é teórico, mas é um cara articulado e inteligente. Seu livro Dança Macabra é uma das melhores análises existentes sobre o terror e o fantástico nas artes narrativas. Sem vocabulário acadêmico e sem jargão filosófico (eu até suporto bem esses ingredientes, mas não lhes sinto a falta quando é o caso) ele é um leitor e espectador atento, sabe teorizar, sabe extrapolar a partir do que vê, e tem, por assim dizer, o espírito da coisa. Ao comentar uma obra, vai direto ao ponto; tem faro de enredo, assim como há atacantes que têm faro de gol. Terror e fantástico são algo que King entende intuitivamente, e vem provando isso há 40 anos.

Sobre a Escrita é metade manual-de-escritor e metade memórias, porque foi escrito quase todo após o atropelamento acidental que deixou King avariadíssimo, numa dolorosa recuperação que ele descreve no terço final do livro. Seus conselhos, bem, são os de sempre, os que aparecem em todo manual. Corte advérbios e adjetivos, enxugue o texto, não explique em demasia, pense sempre qual é a história que está tentando contar... O que diferencia cada manual é o modo como o autor encaixa esses conselhos no seu texto, os exemplos e contra-exemplos que fornece, o eventual bom humor, a eventual erudição.

A tradução brasileira saiu agora, mas o que li foi a edição original, que tem uma capa excelente de Shasti O’Leary. É a foto da lateral de uma casa, com uma janela de vidraças e, logo abaixo dela, aquela típica entrada norte-americana para o porão, aquela porta comprida no chão, inclinada de encontro à parede da casa. A porta de porão sugere uma entrada de serviço (neste livro, estamos entrando na literatura pela entrada de serviço, não pela porta de frente) e ao mesmo tempo o mítico porão de tantas histórias de terror como as do próprio King. O porão do inconsciente, o lugar onde estão escondidas as coisas que muitas vezes só podem vir à luz envoltas no campo-de-força da Narrativa.



quarta-feira, 15 de abril de 2015

3789) Crítico ou resenhador (16.4.2015)



(o crítico John Clute)

Antonio Cândido já elogiou com admiração o resenhador de livros, o crítico do varejo semanal, que escreve sobre o que vem parar em cima da sua mesa na redação. Dizia ele: “Não é fácil escrever todas as semanas sobre livros do dia, feitos muitas vezes por autores desconhecidos, a respeito dos quais não se tem a menor referência. Por isso digo que um crítico como Álvaro Lins, que acertava sempre e produzia artigos bem escritos, de grande densidade e destemor, enfrentava dificuldades maiores do que, por exemplo, Augusto Meyer, que escrevia não sobre o livro da semana, de autor frequentemente desconhecido, mas sobre Camões, Cervantes, Machado de Assis, Dostoiévski, Pirandello, Rimbaud.” 

Deve ser mais cômodo trabalhar com os clássicos, ou com textos em domínio público, do que com autores de carne e osso, cheios de opiniões, mas a questão nem é essa. A crítica e a teoria se desvalorizam quando passam longe da literatura. A crônica jornalística impõe a quem a escreve o contato com o inesperado. Escrever sobre um dado que gira e que não se definiu ainda, e que às vezes cabe a nós traçar o seu primeiro perfil.

O crítico John Clute diz: “Acho que a tentativa de captar e definir o que existe de ‘historiável’ em um texto novo, que é o que se espera dos resenhadores, é absolutamente inerente a qualquer compreensão de um texto qualquer. E acho que a crítica acadêmica, que tende a abstrair, em proporções industriais, temas a partir dos textos (numa espécie de mineração), tende a tropeçar logo na primeira barreira: a tarefa de descrever como um conto se livra contando do seu fardo. Porque se você não conseguir transmitir essa parte essencial, esse ‘como’, você só pode discutir em cima de uma generalização fatalmente vazia, desgarrada.” 

Alguns ficcionistas produzem textos críticos muito lúcidos e demonstram conhecer o gênero com que trabalham. Stephen King, Lovecraft, Henry James etc têm inclusive talento para a descrição sintética, resumindo em poucas linhas o sentido ou o impacto de um livro. Autores comentando livros alheios costumam ter uma abordagem mais pragmática, indo direto ao ponto, falando não como autores, mas como leitores.

Dizem que Pauline Kael, a grande crítica de cinema novaiorquina, escrevia aqueles seus comentários agudos e personalistas tendo visto o filme apenas uma vez. Via hoje, escrevia amanhã; os artigos estão preservados nos seus livros. O crítico vive, como diz Clute, como o canário na mina de carvão das coisas novas.  Para acusar de imediato qualquer mudança nas condições normais de temperatura e pressão, ou qualquer outro indicador que faça o ponteiro do novo pular.




quarta-feira, 16 de julho de 2014

3552) O desejo e o objetivo (16.7.2014)



Uma das piores coisas que podem acontecer durante uma discussão sobre literatura e mercado editorial é alguém aludir a Stephen King, J. K. Rowling ou Paulo Coelho para dar exemplo seja lá do que for. Esse pessoal que vende milhões passa para o autor novato a idéia de que o objetivo dele deve ser, também, vender milhões de cópias, o que é um erro. Na pressa de atingir esse número irreal, ele vai se oferecer pra “transar com Deus e com o lobisomem”, como dizia o parceiro do autor de O Alquimista. Não vai conseguir, e talvez acabe entrando para o clube azedo e ressentido dos que dizem: “Pois é... um país que não lê... ah, se eu escrevesse em inglês...”

Vender dez milhões de exemplares não pode ser o objetivo de ninguém que publica um livro, ainda mais se for um livro de estréia. É um objetivo irreal, que chega à beira do absurdo, mas mesmo assim vejo muitos autores jovens e autoconfiantes dizerem: “Se a série Crepúsculo vendeu tanto assim, por que um livro meu não pode vender também?”.  Isso, minha gente, não é um objetivo, é um desejo.  Todo mundo é livre para desejar o que quiser, sonhar com o que bem entender.  Mas isso não pode ser confundido com um objetivo.  Objetivo é algo que está no horizonte do possível, algo que pode ser planejado e cumprido.

Quando Dan Brown ou Stephen King fazem a tiragem inicial de um livro novo com um milhão de exemplares, isso não é um desejo, é um objetivo.  Toda a história anterior da vendagem do autor o autoriza a imprimir um milhão de cópias de uma tacada só. Ele já sabe que é possível vendê-las. (Às vezes encalha; às vezes, dependendo da aceitação do livro, mesmo Brown ou Coelho levam anos para vender essa tiragem inicial. Mas o objetivo era fundamentado, sim.)

Meus livros têm em geral uma tiragem de 2 ou 3 mil exemplares, que é a tiragem padrão do mercado brasileiro.  Alguns já venderam 40 ou 50 mil, mas nem por isto eu coloco esse número como um objetivo. Se rolar, beleza.  Mas o bom senso aconselha, a mim e aos editores, ir de pouquinho, sentindo a resposta do público, e preparando tiragens maiores se a gente vir que a aceitação é boa.

Colocar Paulo Coelho e seus não-sei-quantos-milhões de livros vendidos na conversa é despertar um desejo confuso e infantil de sucesso instantâneo, sucesso com pouco esforço. Duvido que algum novo autor se dispusesse a fazer a peregrinação que Paulo Coelho fez, com o Diário de um Mago embaixo do braço, de livraria em livraria, de rádio em rádio, de jornal em jornal, de TV em TV, de amigo em amigo, vendendo caladinho seu peixe, pensando talvez que iria ser um sucesso com 20 mil livros vendidos.


domingo, 8 de janeiro de 2012

2761) Prezado Eu (8.1.2012)



“Prezado Eu: Estou escrevendo do ano de 2010, quando atingi a idade totalmente ridícula de 62 anos, e venho lhe dar um pequeno conselho, em apenas cinco palavras: fique longe das drogas recreativas. Você tem muito talento e vai fazer muita gente feliz com suas histórias, mas (é triste, mas é verdade) você também é um viciado pronto para entrar em ação. Se você não der atenção a esta carta e mudar seu futuro, pelo menos dez anos da sua vida, entre os 30 e os 40 anos, vão ser uma espécie de eclipse tenebroso em que você vai decepcionar uma porção de gente e deixar de aproveitar seu próprio sucesso. Vai também chegar bem perto da morte, em várias ocasiões. Faça um favor a você mesmo e desfrute de um mundo mais luminoso e mais produtivo. Lembre que, assim como o amor, a resistência à tentação torna o nosso coração mais forte. Fique limpo. Tudo de bom, Stephen King”.

Esta é uma das cartas que The Guardian encomendou a pessoas como Gene Hackman, Alice Cooper, James Belushi, Gillian Anderson, etc., com o mote: “Escreva uma carta para você mesmo aos 16 anos, dando-lhe o recado que achar mais importante (http://bit.ly/p0bFox)”. Todos nós sabemos que é impossível mudar o passado, e que se pudéssemos mudar o que fizemos aos 16 anos não chegaríamos ao ponto de, adultos, poder voltar no tempo para fazer essa mudança. É a viagem impossível, um paradoxo temporal que tem a sedução hipnótica das ilusões de ótica, das pinturas “trompe l’oeil” e das gravuras de Escher em que duas imagens incompatíveis parecem coexistir.

Stephen King é um dos escritores mais bem sucedidos, comercialmente, mas sempre teve problemas com a bebida (e outras drogas). Já vi uma entrevista em que ele declarava guardar apenas uma vaga lembrança de ter escrito o romance Cujo (1981), porque nessa época não fazia outra coisa senão se embebedar. Sua obra retoma de maneira obsessiva e mesmo cansativo esse tema: um escritor bêbado em conflito com a família (talvez O Iluminado seja o melhor livro dele sobre esse tema).

Entre os outros convidados, Hugh Jackman (“Wolverine”) aconselha seu Eu jovem a usar sempre protetor solar, e a manter uma lista das 5 coisas que gosta de fazer e das 5 coisas que sabe fazer bem, e avisa: “Um dia tudo isto vai se encaixar, e você vai descobrir seu caminho”. Esses conselhos fictícios são uma breve dramatização do balanço retrospectivo que todos nós fazemos de vez em quando para saber o que funcionou e o que não deu certo em nossas vidas. O “Eu” com 16 anos cometerá os mesmos erros e fará as mesmas descobertas; mas somente nós somos capazes de, agora, distinguir o que foi descoberta e o que foi erro.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

2717) Armadilhas de hotel (18.11.2011)




Eu sou diferente da maioria das pessoas: adoro dormir em hotel. Muita gente se queixa da “impessoalidade” dos hotéis, mas é justamente disso que eu gosto. Gosto de ambientes impessoais, onde ninguém sabe quem eu sou, e posso ser tratado com a cortesia e a distância que se dedica a qualquer cliente, freguês, usuário. Hotel é a coisa mais democrática que existe. Ninguém está me tratando bem porque eu sou eu, está me tratando bem porque tem o compromisso de tratar bem qualquer hóspede. (Estou falando dos bons hotéis, é claro. Que são muitos.)

Mas hotel é um lugar perigoso danado. Uma vez, eu estava fora do Brasil, sozinho, e saí para tomar umas cervejas. Ao retornar para o hotel de madrugada resolvi tomar um banho. Era uma daquelas banheiras de chão recurvo, e quando isso se juntou com o sabonete e a espuma do xampu, não precisou nem o efeito da cerveja para me fazer escorregar e cair com toda força. Sofri uma fratura no crânio e meu corpo só foi encontrado na manhã seguinte, quando a arrumadeira passou no corredor e viu a água saindo por baixo da porta do quarto. (Brincadeira: só fiz machucar o ombro, mas imaginem a perda que a Literatura Brasileira por um triz não sofreu!)

Outra armadilha de hotel, onde muita gente já se deu mal, é a tal da água aquecida. Parece que existe um “boiler” central no porão, que ferve a água e a distribui pelos encanamentos na direção dos quartos. (Lembram-se do “boiler” de que Jack Torrance tinha que cuidar, em “O Iluminado” de Stephen King?) A gente liga a água fria, e depois vai temperando com a água quente. Já vi notícias de jornal sobre gente que se atrapalhou (senhoras idosas, a maioria delas), ligou somente a torneira de água quente e postou-se embaixo. Amigos, aquilo desce fervendo. Altamente desaconselhável.

Pior é quando a gente esquece de trancar a porta por dentro ou colocar o “Não Perturbe”. De manhã cedo a arrumadeira mete a mão na maçaneta e emburaca quarto adentro, empunhando balde e esfregão. Vai ver que foi isso que ocorreu com Dominique Strauss-Kahn, aquele garanhão de terceira idade do FMI, que abrecou uma camareira em Nova York. Até agora não sei se foi ela que caiu na armadilha dele ou ele que caiu na armadilha dela – pense numa dupla de raposas!

Hotel de serial killer (o Bates Motel de Psicose). Hotel de onde não se consegue sair (“Hotel California”). Hotel povoado de fantasmas residuais (o “Hotel Avenida” de Drummond). Hotel transtemporal onde os universos paralelos se entrelaçam (Ano Passado em Marienbad). Todo hotel é uma área de superposição de destinos humanos, um máximo de linhas-de-tempo individuais por metro quadrado.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

1211) O encantamento da fala (30.1.2007)




Em seu romance Misery, Stephen King conta a história de Paul Sheldon, um escritor de sucesso que se recolhe numa casa de campo para terminar um romance. Com o livro pronto, ele sofre um acidente de carro e é salvo, numa dessas coincidências inevitáveis da literatura, por Annie, uma de suas fãs mais radicais. 

Annie mal consegue acreditar na própria sorte: ali está ela, salvando seu ídolo, que está com as pernas quebradas! Quando Sheldon volta a si, os dois começam a conversar, ele lhe mostra o manuscrito do livro novo, mas Annie fica chocada ao saber que o desfecho não é o que ela esperava. (O livro conclui uma série, com personagens já conhecidos) 

Ela exige de Sheldon que termine o livro do jeito que ela quer. E os argumentos físicos que usa são vigorosos, dolorosos, cruéis.

Não li o livro, mas vi o filme de Rob Reiner. Os livros de King passam bem para a tela, ainda mais neste caso, em que os atores são Kathy Bates e James Caan. Sheldon vê-se forçado a escrever sob as ordens de Annie, refazendo o livro inteiro de acordo com o gosto dela, e procurando ganhar tempo até que alguém descubra o que aconteceu e venha salvá-lo. 

Como Sherazade, o autor de Misery tem que contar interminavelmente uma história para salvar a própria vida, vivendo a situação paradoxal de não poder interromper a narrativa nem poder terminar a história, para não morrer. (Porque Annie, depois de algumas tentativas de fuga de Paul, decretou que ele não sairá dali vivo).

Como Penélope, na Odisséia, Sheldon finge que está adiantando um trabalho mas, sabendo que concluí-lo é perigoso, passa a sabotar sua própria atividade. 

E o poder meio encantatório que ele tem sobre Annie, sua carcereira e carrasca, parece um pouco com aquelas flautinhas ou rabecas mágicas dos contos folclóricos: o herói toca o instrumento ao ser atacado por dragões ou guerreiros, e põe os atacantes para dançar sem parar. O problema é que ele também precisa tocar sem parar, porque no momento em que fizer uma pausa o dragão ou os guerreiros vão fazê-lo em pedacinhos.

Será que Stephen King tem consciência da persistência da memória oral, desses contos populares com mil anos de idade, nos romances que escreve? 

Pode ser. King não é inculto nem “naïf”. Suas entrevistas são articuladas e interessantes, e seu livro Dança Macabra, sobre a evolução da história de terror na literatura e no cinema, é impecável, mostrando um sujeito que sabe ir direto ao que importa, numa história. 

King não é um estilista, não é um literato, não é um pensador. Tem uma imaginação mórbida e doentia demais para meu gosto. Mas é um animal literário, no sentido de ser um contador de histórias nato, aquele que, no instante do arrebatamento criativo, faz com que brotem dentro de si imagens e histórias que ele pensa serem criações suas, e o leitor também, mas que são apenas testemunhos do quanto o nosso Inconsciente é coletivo, e é quem manda na literatura popular.





sábado, 4 de outubro de 2008

0569) Pulp fiction e melodrama (14.1.2005)




Uma coisa que pessoalmente me irrita na literatura popular é o que poderíamos chamar de exagero emocionalista. Em literatura assim, tem-se a impressão de que os personagens são uns transtornados. A todo instante os olhos de alguém “fuzilam de ódio”, Fulano está “espumando de fúria”... Parece que não basta ao autor dizer que o cara se aborreceu: é preciso dizer que “todo seu corpo foi tomado por um tremor incontrolável de raiva, enquanto que chispas de fogo pareciam saltar de seus olhos azuis.”

É uma herança dos melodramas românticos de fins do século 18, entrando pelo 19. Nos livros daquela época, era um exagero bem-vindo, uma libertação da imensa racionalidade e frieza da literatura européia que os precedera. Hoje, é mero truque narrativo para poupar tempo e esforço mental tanto a quem escreve quanto a quem lê. Os personagens “explodem”, “vociferam”, “são tomados de uma incontrolável agitação”, “enfurecem-se”, “soltam gargalhadas sardônicas”, “prorrompem em pranto convulsivo”. Como as situações, por si sós, são pobres em dramaticidade (porque inverossímeis, ou mal concebidas) é preciso carregar na linguagem para impressionar os leitores mais impressionáveis.

Crises de terror ou ataques de paixão fulminante acontecem como um raio que cai do céu. Acabei de ler um interessante livro de terror (A escolha dos três, de Stephen King) onde um sujeito conhece uma mulher negra, com as duas pernas amputadas, que anda em cadeira de rodas e ainda por cima é esquizofrênica (tem dupla personalidade), e se apaixona por ela antes mesmo da gente virar a página. Impressionante. Só acreditei porque o autor estava dizendo.

Quem usa cacoetes deste tipo precisa ser muito competente em outros aspectos da escrita. No caso de King, por exemplo, o que me atrai não são seus personagens, mas os intrincados mundos fantásticos que ele é capaz de conceber, como na série A Torre Negra, a que pertence o livro acima. (Ver “Tolkien no Far-West do Futuro”, 6 de junho) King é um escritor desigual: O Iluminado, por exemplo, é muito bem escrito, e tem um personagem principal complexo e fascinante. Quando isto não acontece, o que torna seus livros merecedores de atenção é sua habilidade de conceber situações e ambientes extraordinários, no melhor estilo da pulp fiction.

Faço este balanço porque vivo dividido entre dois mundos. Num, o que vale é a história, e o estilo literário não passa de “frescura de intelectual”. No outro, o estilo é tudo, e o resto são “concessões ao mau-gosto dos iletrados”. Tristes mundos estes nossos! Mal sabem uns e outros que alguns dos melhores estilistas da literatura americana de hoje surgiram no interior da ficção científica: John Crowley, Gene Wolfe, Ursula LeGuin, William Gibson... O grande escritor, hoje, é capaz de lançar mão do universo incrivelmente rico e complexo da literatura popular, e tratá-lo em linguagem de gente grande.

sábado, 3 de maio de 2008

0381) Tolkien no Far-West do futuro (9.6.2004)




Acabei de ler um livro que me deixou pensativo: The Gunslinger, o primeiro volume da série “The Dark Tower”, escrita pelo subestimado Stephen King. São sete enormes livros que King começou a escrever em 1970 e concluiu no ano passado, ou seja, 33 anos depois. 

Diz ele que quando leu O Senhor dos Anéis aos 19 anos teve um impulso imediato de escrever uma história parecida. Centenas de jovens tiveram o mesmo impulso, daí a existência, hoje, do gigantesco mercado de histórias de Fantasia, não só na literatura (Terry Brooks, Stephen Donaldson, Fritz Leiber, George R. R. Martin, Marion Zimmer Bradley, etc.) como no cinema, nos quadrinhos, nos “role playing games”.

A primeira idéia de King foi fazer o que todos fizeram: escrever uma batalha épica entre o Bem e o Mal, com elfos, orcs, dragões voadores, espadas mágicas... Mas ele não se sentia à vontade escrevendo uma fantasia baseada em campônios ingleses e ambientações escandinavas. 

A revelação lhe veio ao assistir O Bom, o Mau e o Feio, faroeste italiano de Sérgio Leone, e ver “um Clint Eastwood com dez metros de altura” e “um Lee Van Cleef com rugas que pareciam desfiladeiros”. Os dois universos se fundiram em sua mente: 

“Percebi que o que eu queria escrever era um romance que tivesse o mesmo sentido épico e mágico de Tolkien, mas cuja história acontecesse naquele ambiente do Oeste, majestoso, absurdo.”

The Gunslinger conta a história do pistoleiro Roland de Gilead, e de sua caça ao Homem de Preto, feiticeiro do Mal (uma espécie de Saruman). Ao longo da história vamos percebendo que aquele mundo fica vagamente no futuro. A ambientação é de faroeste, mas aqui-acolá os personagens evocam um passado onde havia grandes cidades, arranha-céus... Das areias do deserto, emergem maquinarias gigantescas e enferrujadas. 

Ficamos com a sensação de que em algum ponto do século 21 houve o colapso da nossa civilização, e que a humanidade se reorganizou como pôde. Nesse faroeste futurista, existem mutantes radioativos, ferrovias subterrâneas abandonadas, e pianistas de “saloon” que tocam “Hey Jude”. 

Quem quiser mais informações sobre a série, pode achá-las em: http://www.stephenking.com/DarkTower/.

Não é mais Tolkien, portanto. É uma resposta orgulhosa e viril dos sertanejos norte-americanos à obra de Tolkien, da qual o livro de King guarda aquele mesmo espírito épico, mas traduzido em elementos próprios (o faroeste, a ficção científica). 

Em “Tolkien e Guimarães Rosa” (14.1.2004) e em artigos nos dias seguintes, comparei estes dois autores, e agora quero colocar Stephen King nessa mesma prateleira. Aquietai-vos, ó críticos: não estou dizendo que King é um estilista comparável a Rosa. Mas ser escritor não é apenas ter estilo, é também ser fabulista, como disse Drummond. 

King é injustamente chamado de “fast-food” literário, mas para mim seu livro é uma carne-de-sol com macaxeira e um café bem forte, que é como eu gosto dessas coisas.





quinta-feira, 27 de março de 2008

0306) Segredos do Pai Mateus (13.3.2004)

(Foto: Gustavo Moura)

O lajedo do Pai Mateus fica no município de Cabaceiras, a duas horas e meia de carro de João Pessoa, e a uma hora de Campina Grande. Não precisa ser um Indiana Jones para chegar até lá. A fazenda onde o sítio arqueológico está situado (http://www.paimateus.com.br/) tem uma pousada com piscina, restaurante, e uns 20 chalés quase sempre ocupados por turistas que vêm em excursões via João Pessoa e Natal. Por algum motivo, grande parte dos turistas são escandinavos: geólogos, fotógrafos, budistas em busca de recolhimento, rapaziada que pratica bicicross, rappel, trekking e outros esportes radicais. A região serviu de locação para filmes como O Auto da Compadecida de Guel Arraes e São Jerônimo de Júlio Bressane.

Faço este “release” turístico para deixar claro que se um sujeito anêmico, sedentário e fotofóbico como eu conseguiu escalar os lajedos e percorrer aquelas trilhas, qualquer um de vocês consegue. A paisagem é impressionante. Eu tenho umas excentricidades na minha relação com a natureza. Todo mundo, quando fala em natureza, pensa logo em bichos e plantas. Eu, não. Quando me falam em natureza a primeira coisa que me vem à cabeça são montanhas e rochedos. O apartamento onde hoje moro, no Rio, abre janelas para um rochedo imenso do qual, em dias de temporal, descem cachoeiras de chuva espumante. Não troco isso por dez oceanos atlânticos.

O Pai Mateus fica naquela região pedregosa e bruta do Cariri paraibano, fonte inesgotável de riquezas minerais (caminhões da Bentonita União não param de ir e vir). À medida que nos aproximamos, vemos a rocha subterrânea aflorando por todos os lados, o que me lembra uma descrição de Stephen King: “a camada rochosa rompia a pele da terra, como uma procissão soturna e corroída pela erosão”. O lajedo propriamente dito é como um imenso pires emborcado, em cujo topo equilibram-se improváveis esferas de pedra, com 3 a 5 metros de altura. Algumas delas estão corroídas por dentro, e lembram capacetes de motoqueiro. Mesmo “quando o sol calcina a terra”, no interior dessas minicavernas a temperatura é fresca, há um curioso efeito de som que parece uma concha acústica, e a face interna é coberta de inscrições feitas pelos índios.

O Pai Mateus foi um eremita que no século 18 era uma espécie de curandeiro junto às tribos locais. Na loca mais larga de todas, ainda se vê a cama que ele usava em suas curas, um retângulo de pedra que, para ser equilibrado sobre duas fileiras de pedras menores, deve ter exigido o esforço de pelo menos uns doze homens fortes. Dali se avista um por-do-sol que evoca o verso de Marcus Accioly, “um céu de dragões entre espadas vermelhas”, com o sol pousando ao lado da única montanha que brota do horizonte, a qual tem a forma exata do Teorema de Pitágoras. Não, amigos, não creio em deuses astronautas. Só imaginamos deuses, e só criamos astronautas, porque o mundo é do jeito que é: imprevisível, misterioso e belo.

segunda-feira, 10 de março de 2008

0162) Crianças cruéis (27.9.2003)

Por que motivo as crianças têm fascinação por histórias de terror e violência? Já me fiz esta pergunta antes (“Crianças e monstros”, 2 de maio), mas acho que nunca vou acabar de respondê-la. Devo ter lido em algum lugar que quando uma criança tem medo de um tigre e passa o resto da infância desenhando tigres isto é uma forma de domesticar o tigre que ficou dentro de seu cerebrozinho. Lá dentro existe a memória ameaçadora de um tigre que um dia a assustou. Se ela desenhar 99 tigres que lhe obedecem e que se deixam transferir, comportadinhos, para a folha de papel, o tigre-contra fica numa tremenda duma inferioridade em relação aos tigres-a-favor.

A literatura de terror que prolifera no mundo, com todos os seus dráculas e frankensteins, é uma extensão desse processo. Mergulhamos a cara num livro de Lovecraft porque sabemos que, quando a barra começar a ficar muito pesada, basta fechar o livro e olhar em volta – o que pode haver de pior à nossa frente é nosso time levando mais uma goleada para o país inteiro ver. O terror literário e cinematográfico é um terror totalmente sob controle. Basta ver a expressão feliz dos adolescentes que se amontoam nos cinemas que exibem as aventuras de Jason e de Freddy Kruger.

Ah, se todos os males do mundo fossem estes!... Mas não são. Existe uma ruindadezinha embutida em cada um de nós, um instinto malévolo que nos levou a cometer, na infância, atos que não cometeríamos hoje, depois que a lavagem-cerebral civilizatória nos transformou nos cidadãos exemplares que agora somos. Lembro-me ainda hoje das manhãs que passei usando um binóculo invertido, como se fosse uma lupa, diante do qual eu decapitava com gilete uma imensa quantidade de saúvas vermelhas, que estoicamente ofereciam suas vidas pelo bem da Ciência. Verdade que a única coisa que a Ciência aprendeu foi que é possível decapitar uma saúva com uma gilete. Se a Humanidade um dia escapar da extinção graças a este detalhe, não se esqueçam de me agradecer.

Talvez meu instinto carniceiro (ou científico) tenha se satisfeito com estas experiências. Mas não me esqueço de um episódio relatado por Stephen King. O cantor Bing Crosby deu de presente ao filho pequeno uma tartaruguinha, e o garoto ficou louco por ela. Tempos depois a tartaruga morreu. O menino ficou inconsolável. Crosby botou o menino na perna, filosofou, explicou-lhe o sentido da vida, falou que a morte é inevitável, propôs fazerem um funeral. Botaram o cadáver numa caixa, prepararam uma sepultura no jardim, fizeram o ritual, rezaram. Na hora de botar na cova a caixa de sapatos que servia de ataúde, o menino pediu para dar uma última olhada. Abriram a caixa... e a tartaruguinha estava mexendo as patas. Não tinha morrido, afinal de contas. Houve um instante de surpresa, e aí o garoto voltou-se para o pai e confidenciou baixinho: “Acho que vamos ter que matá-la.” É a vida, companheiros.

domingo, 9 de março de 2008

0138) O depressivo (30.8.2003)



Uma vez eu conversava sobre Literatura com alguns amigos quando alguém foi na estante, pegou um livro de Dostoiévski, e comentou que certo conto foi escrito numa fase em que o autor estava muito deprimido, arrasado por problemas financeiros e de saúde, pensando em suicidar-se, etc. 

Eu folheei o livro (faz muitos anos, não lembro mais que livro era), li alguns trechos, e tentei imaginar que tipo de emoções depressivas resultariam numa prosa tão bem escrita quanto aquela. 

Pensei, com a irreverência sacrílega que me é tão espontânea: “Oxente, eu bem queria ter uma depressão e escrever desse jeito! Era lucro!”

Anos depois eu estava editando um livro e me deram para examinar uma “boneca”, uma prova do livro em seus primeiros estágios. A diagramação proposta e as ilustrações estavam todas lá, mas não o texto. Nos lugares que iriam ser ocupados pelo texto, havia apenas blocos inteiros de letras sem sentido, guardando o lugar. 

Eram apenas duas letras, repetidas aleatoriamente: nnoonn oooonn oooonnn nooooonnn ooo nnnooo nnonono ooono nonono nnnoo ooonono oonnoonnoo ooooonnn nono onon nonooo nnnooo nnonono oo... Acho que é uma convenção gráfica usar estas duas letras, e não jfjfjf, kwkwkw ou outras.

Naquela madrugada insone, olhando esse texto-fantasma, vi ali pela primeira vez um hipotético texto literário produzido por um escritor com depressão. Estava ali a mais aterrorizante força da Natureza: a Entropia, a perda de energia, a perda de significado, a perda da diferenciação. 

A Entropia é a progressão rumo ao que os cosmólogos chamam “a morte térmica do Universo”: o dia em que todas as estrelas terão esgotado seu combustível e o Universo inteiro será uma extensão indiferenciada, reta e uniforme como a linha horizontal de um eletrocardiograma numa UTI, quando o coração pára de bater, pára de fazer a linha luminosa no mostrador dar aqueles pulinhos ritmados, e avança numa direção só: piiiii...

Texto produzido pela depressão, o de Dostoiévski? Besteira. Aquilo ali é a cura da depressão. Ler pessimistas como Kafka, Cioran, Albino Forjaz de Sampaio, cura a depressão de qualquer pessoa. 

O que deveria nos aterrorizar é a ausência de idéias, de emoções, de palavras, de sentido. 

Quem assistiu “O Iluminado” de Kubrick (ou leu o livro de Stephen King) deve lembrar a cena mais apavorante do filme. Jack Torrance, o protagonista, está endoidecendo aos poucos, mas todo dia senta na máquina e passa horas escrevendo um romance. A certa altura, a mulher dele pega aquelas centenas de folhas escritas, e vê que em todas elas há apenas uma frase, repetida obsessivamente: “All work and no play makes Jack a dull boy” (“Só trabalhar, sem se divertir, faz de Jack um menino deprimido”). 

Esta única frase, de cima a baixo, ao longo de centenas de páginas, depois de semanas de trabalho. Aquele sujeito, sim, está a um passo do zero absoluto, está a um passo de ser capaz de escrever apenas: nononono nnnoonnoo ooooonno ooooooo...