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quarta-feira, 24 de julho de 2024

5085) A exceção e a regra (24.7.2024)

 


 
Uma expressão popular diz que “toda regra tem exceção”. Há mesmo uma derivada desta: “Fulano é a exceção que confirma a regra”. 
 
Georges Perec usou de maneira muito pessoal esse conceito ao conceber seus romances sujeitos a regras arbitrárias e asfixiantes, aquilo que os franceses chamam de “contraintes”, ou restrições.


 
No imenso romance A Vida Modo de Usar (1978) Perec concebeu e executou uma porção de regras e as seguiu de maneira obsessiva. As regras são arbitrárias, ou seja, ninguém o obrigou a empregar essas regras e não outras; mas ele as criou e obrigou-se a segui-las, por impulso estético, por desafio intelectual, por divertimento maníaco. 
 
Como alguém que diz: “Vou escrever uma carta onde todas as palavras têm que começar com a letra C”. Guimarães Rosa escreveu uma carta assim para seu amigo João Cabral de Melo Neto.  Ninguém o obrigou a fazer isso. 
 
Leia aqui, na página do Templo Cultural Delfos, a “Carta ao Cônsul Cabral”:
https://www.elfikurten.com.br/2016/03/joao-guimaraes-rosa-carta-ao-consul.html
 
A literatura tem espaço para desafios desse tipo, e o maior desafio é produzir com isto uma história que se torne interessante para o leitor, que o faça ter vontade de continuar lendo sem parar, e não fechar o livro dizendo: “Ah, entendi. A regra é essa, e ele vai fazer isso até o fim... Tchau!...”. 
 
Não é só a regra. É o modo como a vida humana, mesmo submetida a regras bizarras, continua sendo a coisa mais interessante em um romance.  
 
Perec dizia, contudo, que não é apenas a regra que é obrigatória, mas a exceção. Nesse livro, por exemplo, ele descreve um edifício parisiense com dez andares e dez aposentos por andar; em tese, o livro deveria ter 100 capítulos, mas só tem 99.  Por que?  É a exceção obrigatória. 
 
Perec escreveu o famoso La Disparition (1969; traduzido no Brasil por Zéfere como O Sumiço) sem empregar a letra E em momento algum.  É possível, contudo, que em algum ponto do livro apareça, leve, serelepe, demente, uma letra E para ser essa famosa “exceção que confirma a regra”. Eu ainda não a encontrei. 
 
Perec comparou esse tipo de recurso à idéia do “clinâmen”, um nome latino atribuído a um conceito da filosofia grega, acho que formulado por Epicuro. 



(Epicuro)


A teoria dos gregos dizia que os átomos se movimentavam no espaço afastados uns dos outros, e num movimento uniforme, inalterável. Desse modo (questionava alguém) como os átomos poderiam ter começado a se misturar, produzindo a matéria como a conhecemos? 
 
A resposta é que em algum momento um átomo se desviava imprevistamente e se chocava com os átomos mais próximos, e daí começava um amontoamento, um turbilhão de choques, os átomos se recombinavam e a matéria surgia desse processo. Isto era o “clinâmen”. 
 
Ou seja: para que haja ordem é necessária a presença de um fator de desordem, de contradição, de desobediência à regra, de voluntarismo. 
 
Isto talvez não se aplique à Ciência e à moderna teoria atômica, mas é interessante quando aplicado à literatura, onde as regras são outras e, o que é melhor: são inventadas pelos escritores, e não impostas pela Natureza.
 
Siga a regra: mas deixe uma portinhola aberta para que por ali se infiltre a exceção. Para que? Para tornar a regra mais nítida. Como naqueles filmes em preto-e-branco onde “do nada” surge uma imagem de um objeto colorido (O Selvagem da Motocicleta, A Lista de Schindler, etc.). 



E também para mostrar que o mundo não comporta apenas o previsível, mas o inesperado. A natureza não consiste apenas numa Ordem, mas numa sucessão de Ordens e Desordens, equilíbrios e desequilíbrios, onde o excesso de um é compensado pelo surgimento do outro. 
 
Numa entrevista de 1981, Perec assim justificava a necessidade de “temperar” suas regras exigentíssimas com alguns deslizes propositais: 
 
É preciso, e isto tem muita importância, destruir o sistema das restrições, das regras. Esse sistema não tem que ser rígido, ele tem que conter um elemento de jogo... É como se diz: tem que ranger um pouco. Ele não tem que ser completamente coerente, é preciso que haja um clinâmen – algo que aparece na teoria de Epicuro sobre os átomos: ‘O mundo funciona porque, no seu início, existe um desequilíbrio’. Segundo Paul Klee, ‘o gênio é um erro no interior do sistema’”.
 
Uma grande parte das explicações do mundo o descreve como uma luta eterna entre o Bem e o Mal. A literatura vem glosando essa “batalha” há milênios: heróis e vilões, mocinhos e bandidos, gente do Bem e gente do Mal... 
 
Tudo isto existe, é claro, mas o mundo não se resume a isto. O Bem e o Mal são conceitos que se aplicam à vida humana, mas não ao universo como um todo. 
 
Não existe bem ou mal nas reações nucleares que fazem brilhar as estrelas, nem na força da gravidade, nem nas aglomerações de matéria que produzem planetas, cometas, etc.  O que existe ali é um cabo-de-guerra permanente entre a Ordem e a Desordem. 
 
A Ordem (vista do ponto de vista humano) pode ser uma coisa boa ou uma coisa ruim; a Desordem, idem. Os interesses humanos, sejam coletivos ou individuais, vivem mergulhados nessa oposição. 
 
Quando há um excesso de Desordem, é preciso que alguém imponha ali um pouco de regras, para que haja algum tipo de comunicação, de união coletiva, de esforço coordenado, de redução de esforços e otimização de resultados. O excesso de Desordem, o caos, leva à Entropia: à dissipação de energia do universo. 
 
Quando há um excesso de Ordem, é preciso que surja algum elemento perturbador, que desequilibra o que está imóvel, que vem “desafinar o coro dos contentes”, que pega aquela ordem adormecida e a desperta, extrai reações, faz com que ela volte à vida. O excesso de Ordem, o imobilismo, leva à Entropia: a dissipação de energia do universo. 
 
A Ordem absoluta não se distingue muito do Caos absoluto. Falta a ambos o elemento de contradição que põe o universo em movimento. 
 
A Vida (o surgimento de seres vivos) pode ser o clinâmen do universo. 




 
 


sexta-feira, 30 de setembro de 2022

4868) O Universo conspira a meu favor (30.9.2022)




É um truísmo muito antigo, e foi popularizado por Paulo Coelho em alguns dos seus livros místicos. O seu teor é mais ou menos este: “Quando você se envolve na busca de um objetivo, o Universo inteiro conspira a seu favor”.
 
É uma frase muito lembrada sempre que acontece uma coincidência favorável. Vou na barbearia, tem um cliente na minha frente, entro numa livraria para enrolar meia-hora e acho o livro raríssimo que procurava há anos, e está por dez reais. Alguém me encarrega de um trabalho e penso em recorrer a um cara cujo contato perdi há muito tempo; na volta para casa, encontro-o no metrô e o problema está resolvido.
 
Paulo Coelho popularizou essa expressão, mas nos últimos anos já a vejo sendo substituída por “o algoritmo de Deus”. “Rapaz, eu precisava saber urgentemente o autor de uma citação que vi na época da Faculdade, liguei para várias pessoas, aí resolvi relaxar, peguei um livro policial... e lá estava a informação, porque o algoritmo de Deus não perde tempo.”
 
Cabe aqui, portanto, a indagação séria: é possível que o Universo inteiro conspire a favor de uma pessoa, para que ela alcance os seus objetivos? Ou isso não passa apenas de mais uma cenoura de otimismo pendurada diante das ventas de burros-de-carga como eu, para que eu continue “buscando o meu objetivo”, “me esforçando para superar os obstáculos”, “acreditando no meu potencial”, “conquistando meu espaço no mercado de trabalho” e outras receitas da escravitude empreendedorista?
 
Acreditar nisso significaria acreditar que esse Universo Conspirador possui consciência, possui vontade, possui poder de ação localizado, e que ele se importa comigo. Com a minha insetóide presença nas suas entranhas.


Lembro disto porque numa festa de São Pedro em Campina, anos atrás, estávamos em turma tomando alguma coisa ao redor de uma fogueira. Um amigo meu (chamemo-lo Rogério) estava mergulhado na sua tese de doutorado, as dificuldades de pesquisa, as necessidades de consultas bibliográficas. A certa altura, falou que conhecera por acaso, numa parada para abastecer o carro, alguém que tinha um documento científico obscuro do qual ele precisava; e saiu-se, bem satisfeito, com essa bendita frase sobre o Universo.
 
Eu tinha tomado algumas doses de Matuta e resolvi cortar o trunfo dele. Acendi um cigarro e perguntei:
 
– Tu acredita mesmo que o Universo, um departamento tão ocupado, larga as suas tarefas mais urgentes só pra ajudar na tua pesquisa?
 
– Não é assim que funciona – replicou Rogério, que não é bobo. – O que estou dizendo é que nas ações humanas existe um sistema invisível de correspondências, uma espécie de convergência estatística. A nossa percepção individual aprende isso de forma empírica e não-verbalizada ao longo da vida.
 
– Converse mais que eu pago seu lanche – disse alguém.
 
– Vocês são uns fariseus do conhecimento – rebateu ele. – Só acreditam no que diz no Manual. Pois eu digo a vocês que o Universo percebe, sim, o que nós precisamos, e age de acordo.
 
– Ele manda botar um livro numa prateleira dum sebo só porque viu que você dobrou aquela esquina e vai passar na frente?
 
– Não é assim tão simples. Há linhas de convergência. Enquanto minha mente consciente se preocupa com a necessidade da informação, há camadas mais profundas avaliando: Onde pode haver esse dado? Que tipo de livro? Que tipo de local acessível? Como estimular a Mente Consciente dele, essa senhora tão pedante e egocêntrica, a procurar a informação no lugar mais provável?
 
– E se a informação estiver num açougue, numa sapataria ou numa lanchonete?
 
– Não está, é claro. O Universo não é caótico. Há linhas de convergência.
 
– Eu já passei semanas numa biblioteca atrás de um dado qualquer e não achei – disse alguém. – O Universo estava de mal comigo?
 
– Eu poderia dizer que é porque você não estava suficientemente focado no seu objetivo – disse Rogério, – mas prefiro ser diplomático e dizer: Nem tudo na vida dá certo sempre. Por que teria de ser assim? São processos instáveis, sujeitos à influência de muitas variáveis. Às vezes você até pegou o livro certo, onde estava o tal dado; mas se interessou pelo título de outro capítulo e foi noutra direção... coisas assim.



– Mas por que motivo o Universo simpatizaria com um ser humano? – questionei. – Muito paternalista esse seu Universo. Muito bonachão... um universo querendo ajudar os jovens... Isso é coisa de quem já estudou em Seminário.
 
Toquei no calcanhar-de-Aquiles dele, que abespinhou-se.
 
– Existe uma energia subjacente, que permeia tudo – afirmou. – Nós somos sensíveis a ela, e ela a nós.
 
– Por que essa energia não salvou Saulinho? – disse alguém. Saulinho era um amigo nosso que tinha sido atropelado na véspera e estava no hospital, enclausurado em gesso.
 
– Excelente exemplo – tornou Rogério. – As sociedades humanas se organizam de um modo muito semelhante à dinâmica dos fluxos da energia natural. O trânsito precisa fluir, certo? Fluxos convergentes precisam parar de vez em quando para dar vez ao outro, e depois retomar seu curso. Saulinho é um abestado, vinha pensando na namorada e entrou no fluxo errado.
 
– E aí o Universo conspirou contra ele.
 
– Não “conspirou”, criatura. Isso é terminologia de filme de James Bond. As energias do universo circulam de acordo com lei do menor esforço, lei da economia energética... Quando estiver num avião, olhe a trajetória de um rio. O que é aquilo? Água solta, sendo atraída para o “centro virtual da Terra”, e procurando caminho ao longo de um terreno acidentado. A energia invisível é a mesma coisa. A gente larga uma balsa no rio e o rio vai levando, sem precisar de vela, de remos, de nada. Isso seria um exemplo do “conspirar a favor”, mas na verdade o que ocorre? A gente entende como aquela água está se comportando, e usa a nosso favor. Apenas isso.
 
– São as leis na Natureza – disse alguém que finalmente achou um meio de entrar na conversa.
 
– Chamar isso de leis é o mesmo que chamar de conspiração. Não são “leis”. São constantes, padrões de regularidade da matéria. A matéria se comporta de modo coerente. Temperatura, pressão, movimento, aceleração, ciclos biológicos, tudo isso se comporta de maneira constante, e a gente estuda isso há 10 mil anos.
 
– Mais – disse eu.
 
Ele fez um gesto de olímpico desdém, e prosseguiu:
 
– São detalhes. O homem usou o ímã, o magnetismo metálico, durante milênios, sem saber por que acontecia aquilo, mas entendendo como, e pronto. O conhecimento vai galgando degraus, de um em um.



Eu voltei à carga:
 
– Certo. Mas esse fato que você contou. O carro da UFCG parou para abastecer no Riachão. Vocês aproveitaram para tomar um café. Ficaram conversando, aproximou-se um cara que reconheceu você de uma palestra anos atrás. Puxou um assunto, depois outro, você descobriu que ele tinha a cópia de uma pesquisa de um professor dele, de “xis” anos atrás...
 
– Sim. Desculpe ter falado em conspiração-a-favor. Na verdade, foi uma convergência. Se eu faço uma palestra sobre um tema científico para 200 pessoas do ramo, estou lançando 200 anzóis com isca, sabendo da possibilidade de que mais cedo ou mais tarde algum dos 200 pegue num documento precioso e pense: “Ih rapaz, professor Rogério da UFCG mexe com isso... será que ele se interessa?...”  Convergências.
 
– E quem fez o carro parar para abastecer justamente ali, naquela hora?
 
– O Acaso. Um lance de dados jamais abolirá o Acaso.
 
– Então basta só esperar pelo Acaso.
 
– O Acaso funciona muito pouco com quem está esperando. Estar parado é fechar janelas de possibilidade. Estar em atividade constante é abrir, multiplicar janelas. Se eu não tivesse encontrado o cara lá no Riachão, talvez batesse com ele uma semana depois, um mês...
 
– Ou talvez depois de ter publicado a tese com um buraco no meio.
 
– E daí? Toda tese tem mais buracos do que a defesa da Seleção Brasileira. E a gente precisa ajudar o Acaso. Precisa ser como aquele atacante que estava de costas para o gol, numa confusão dentro da área, a bola bateu na trave, bateu nas costas dele e entrou. Se ele não estivesse ali, o gol não acontecia.
 
– Coitado de Saulinho! – disse alguém. E bebemos à saúde dele.
 
 





domingo, 31 de agosto de 2014

3592) A hipótese Tunguska (31.8.2014)



Foi um risco incendiário e chispante, que cruzou o céu noturno, explodiu em estilhaços de fagulhas amarelo-rubras no meio de uma floresta ou tundra nevada, e desde esse dia o mundo não foi mais o mesmo. Ninguém percebeu a princípio, porque a escala da propagação foi orçada por volta de um século. Pois bem. Já mais de um século se passou.



Até então o mundo era determinista, era o que um cientista chamaria de mecânico e newtoniano. A explosão que teve ali não era uma bomba de nêutrons, que mata os seres vivos e deixa a propriedade intacta, nem uma bomba radioativa, que fulmina venenosamente o corpo vivo. Era uma bomba probabilística.  Ia direto alterar o menu do possível. O mundo tornou-se probabilisticamente instável. Em termos macrocósmicos um nerd poderia dizer que era um patch para fazer um upgrade de dificuldade no universo.



A causalidade de tudo, que era só dividida por dois, em infinitos múltiplos pares, se viu estilhaçar em dízimas periódicas irresolvíveis, com mais dígitos do que existem quarks no universo físico. O mundo tornou-se um produto de causa-e-efeito não-simétrico, sabotando a simplicidade das tabelas periódicas. O software básico do mundo tornou-se errático, cheio de exceções, de numeradores primos, de denominadores infinitos.



O choque da semicolisão entre o artefato e a Terra foi se alastrando anos afora. Onze anos depois, Charles Fort publicava seu primeiro volume de anomalias, e Robert L. Ripley começava a colecionar o estranho, o bizarro, o inesperado. O que antes eram franjas da mais remota improbabilidade pareciam de repente tomar conta do mundo. Metaforicamente falando, as telhas estavam subindo sozinhas para o teto. Tudo que era improvável mas não cientificamente impossível começou a ser um lugar comum. Mundo mais instável.


A parafernália astronômica e cosmológica é para distrair os humanos da verdadeira natureza do Universo e da Terra (com os dados da Terra, a situação real). O Universo não está em expansão, e sim em contração. Como uma esfera cheia de gás, estreitando-se, comprimindo o frevo de movimentos brownianos das moléculas que a habitam. O polarizador de probabilidades está zunindo a mil por hora. Pós-Tunguska, o mundo ficou mais acelerado, o tempo mais rápido, os anos mais curtos. O auge do surrealismo, o surgimento da mecânica quântica, de Tesla, de James Joyce, uma procissão de sintomas, filosóficos ou estéticos, registrando esse mundo de probabilidades que se estilhaçam em infinitos. Ficou como uma HQ de Moebius. Nada é tão comum que não possa ficar extraordinário, e nada é tão improvável que não haja um fiapo de história onde ele faça sentido.


sexta-feira, 31 de maio de 2013

3200) O número Pi (31.5.2013)





Todo mundo estudou isso no 1º. ou no 2º. grau, mas não custa fazer uma breve revisão da matéria dada. 

Pi, em matemática, é o número que indica a relação entre a circunferência e o diâmetro de qualquer círculo. Circunferência é aquele traço que a gente faz com o lápis quando desenha um círculo. Diâmetro é qualquer linha reta que atravessa o círculo de um ponto a outro da circunferência, passando pelo centro. 

Os gregos achavam que quando se dividisse o valor numérico (a medida em milímetros, digamos) da circunferência pelo valor do círculo daria um número exato.

Os gregos eram muito racionais, eram uma espécie de contabilistas do Universo. Para eles, toda conta tinha que bater, sem deixar resto. Descobriram que essa divisão dava um número quebrado, um pouco maior que três. Isso lhes deu um calafrio de constatação da bagunça matemática que é o Universo.

Einstein defendeu uma vez a tese de que Deus não joga dados; os gregos que primeiro calcularam Pi descobriram que Deus surrupia centavos da caixa registradora. A conta não bate.

Pi é geralmente definido, para os cálculos banais, como 3,1416 (para alguns mais puristas, 3,14159). Na verdade, é um número provavelmente infinito, porque por mais que se prolongue a divisão cada cálculo sempre deixa um resto, obrigando a recomeçar indefinidamente o processo. 


A revista Wired de março publicou este espantoso e borgiano comentário:

“PI contém tudo. Seus algarismos não se repetem, e ao mesmo tempo os números de 0 a 9 parecem ocorrer em igual proporção. Se isto for verdade, qualquer série de dígitos pode ser encontrada a certa altura em Pi; já que ele é infinito, qualquer série aparecerá ali, por mera probabilidade. Se convertermos ‘O Senhor dos Anéis’ ou a série inteira dos ‘Simpsons’ em código e pegarmos essa série numérica, ela aparecerá em Pi, naquela ordem, em algum momento”.

Isto transforma Pi num equivalente digital-numérico da Biblioteca de Babel de Jorge Luís Borges, com seus infinitos hexágonos de livros, em cujas páginas estão registradas todas as combinações possíveis de letras, e, consequentemente, todas as obras literárias e todas as combinações de palavras pronunciadas ou não pela humanidade em todas as épocas possíveis. 

Se PI de fato é infinito e não-periódico (seus trechos não se repetem) tudo está lá, transcodificado em números. 

Estão lá a obra completa de Borges e todos os meus artigos do Mundo Fantasmo, inclusive este, que estou digitando agora à 1:50 da madrugada sem saber que estou apenas repetindo, na minha doce ilusão de livre arbítrio, uma série numérica contida no círculo úmido deixado na mesa pela lata de cerveja que estou bebendo agora.








sábado, 8 de janeiro de 2011

2448) O número fatal (8.1.2011)



Nossas vidas têm regularidades tão implacáveis quanto as que regem o balé dos planetas e a multiplicação dos cromossomos. Pensamos que somos dotados de livre-arbítrio, mas nosso livre-arbítrio consiste apenas em imaginar que o temos. Um indivíduo que salta de um arranha-céu é livre para pensar o que quiser, inclusive que poderia interromper a queda, mas, talvez até para provar o seu livre-arbítrio, ele toma a decisão de continuar caindo. A natureza se repete; é do seu feitio. Não podemos imaginar que um belo dia uma laranjeira produza, no meio das laranjas habituais, uma graviola. Ou um relógio.

O caso de Thomas Adelmann, por exemplo. É um pacato comerciante de Munique, dono de uma loja de relógios que herdou do avô através do pai. Talvez fosse ele (que a cada noite, antes de dormir, toma de um caderno da capa preta e anota em colunas, com letra miúda, as despesas do dia, desde o metrô ao cigarro, desde o jornal ao carnê do seguro, desde as frutas que trouxe para casa à mesada da filha adolescente) uma das pessoas mais capacitadas para perceber a existência do número fatal, o número que rege sua vida. E este número é 611.

Como se sabe, na vida não há coincidências, a não ser que consideremos uma coincidência o fato de que toda tarde, após o trabalho, voltamos para a mesma rua, entramos na mesma casa e dormimos na mesma cama. Coincidência, os números marcados numa régua estarem todos a um centímetro de distância um do outro? A vida de Thomas Adelmann estava regida em ciclos de 611 horas ou 611 dias. Esta era a raiz (o x-linha e o x-duas-linhas) que zerava de forma satisfatória as modestas turbulências produzidas no Universo pela sua presença; e o readmitia no fluxo da harmonia universal.

Thomas nunca somou as letras do seu nome completo, do da sua noiva, e dos pais e avós de ambos. Se o tivesse feito teria chegado ao número 611 e isto lhe pareceria um dado aleatório. O lacônico testamento do pai, deixando-lhe, previsivelmente, a loja na Schillerstrasse, tinha um total de 611 palavras. O bilhete de loteria que um vendedor com óculos verde-escuros lhe ofereceu numa estação de trem ostentava um número que era (mas como Thomas poderia saber?...) 611 ao quadrado (ele agradeceu e recusou o bilhete, que dias depois fez a fortuna de uma professora de piano regida pelo mesmo algoritmo). E como explicar a Thomas que o dia de sua morte ocorrerá num múltiplo de 611 em relação ao do seu nascimento?

Se existissem deuses poderíamos elogiar sua generosidade. Não os havendo, basta dizer que é uma feliz coincidência o fato de que as regras fundamentais do nosso destino nos são invisíveis, de tão amplas. São como as Linhas da Nazca, que traçam figuras quilométricas e imperceptíveis sob os pés dos incautos viajantes. Fosse o número, ao invés de 611, um simples 3 ou um simples 7, é possível que numa noite insone Thomas saltasse na cama, gritando “Eureka!”. Ao que nos consta, isto até agora não aconteceu.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

2383) A Presidência segundo P K Dick (26.10.2010)





O livro de estreia de Philip K. Dick foi Loteria Solar (1955), onde ele misturou a “pulp fiction” de ação & aventura da sua época e as ideias inesperadas que passaria a introduzir no gênero até sua morte em 1982. 

No ano de 2023, a escolha do Presidente (chamado de “Quizmaster”) é realizada através de um sorteio entre os ”power cards” dos cidadãos (uma mistura de cartão de crédito e CPF), de modo que qualquer um, em tese, pode ser levado à presidência de um momento para outro. 

A criação desse sistema visa a diluir as tradicionais formas de pressão política (partidos, etc.), e reflete um mundo (numa data futura que para Dick era muito mais distante do que para nós) influenciado pela Teoria dos Jogos:

“Minimax, o método para sobreviver ao grande jogo da vida, tinha sido inventado por dois matemáticos do século 20, von Neumann e Morgenstern. Tinha sido empregado na Segunda Guerra Mundial, na Guerra da Coréia, e na Guerra Final. Estrategistas militares, e depois financistas, tinham experimentado com essa teoria. Em meados daquele século, von Neumann tinha sido nomeado para a Comissão de Energia Atômica dos EUA, como um reconhecimento da importância crescente de sua teoria. E em dois séculos e meio ela tinha se tornado a base do Governo”.

Essa sociedade começa sorteando bens de consumo para os cidadãos: 

“Mas, para cada homem que ganhava um carro, uma geladeira, uma TV, havia milhões que não ganhavam nada. Gradualmente, ao longo dos anos, os prêmios dos sorteios evoluíram de bens materiais para itens mais realistas: poder e prestígio. E, por fim, para o posto mais cobiçado: o de Quizmaster, o que distribuía o poder”.

A influência da Teoria dos Jogos de von Neumann é deixada explícita por Dick; o que não sei é se ele teria, em 1955, lido o conto de Borges “A Loteria de Babilônia”, que é exatamente isto, a história de uma sociedade que começa sorteando prêmios em dinheiro e evolui para o sorteio de “elementos não pecuniários”: benefícios e castigos. 

(O conto é de 1941, e não sei se em 1955 já teria sido traduzido para o inglês; sua primeira tradução inglesa em livro é de 1962.) 

A coexistência de prêmios e castigos também está presente no livro de Dick, pois o Quizmaster eleito está permanentemente sob a ameaça de robôs assassinos que fazem parte do jogo. Ou seja, ninguém obtém o Poder sem algum tipo de risco.

A ideia de que um governante pudesse ser escolhido por sorteio sugere um sistema de poder tão bem estruturado que é capaz de diluir qualquer idiossincrasia do eleito, e de compensar suas deficiências. O governante seria uma espécie de figura decorativa, “rainha da Inglaterra”, servindo acima de tudo para manter diante da população a ilusão de que “qualquer um pode chegar lá”. Uma Mega-Sena política em que todo cidadão em dia com o Estado está automaticamente inscrito. O Poder pouco influi na sociedade, vira mero objetivo de disputa entre o que o ocupa e os que querem abatê-lo.






quarta-feira, 11 de agosto de 2010

2317) O aleatório controlado (11.8.2010)



Ter que escrever todos os dias é um excelente exercício para os músculos da inspiração, os quais, tais como os músculos da respiração (diafragma, etc.) tanto podem funcionar de modo automático quanto de modo deliberado. Assunto nunca falta. Quando parece estar faltando, basta-me olhar para a parede da esquerda e estender a mão para a estante de livros à minha direita, pegar um livro ao acaso, abrir ao acaso, e naquela página encontrar o “assunto para a coluna de hoje”. Estou usando a palavra Acaso de maneira distorcida, porque não se trata de um Acaso total, e sim do que eu chamo “o aleatório controlado”.

Por que motivo eu não encontraria, nessa página apanhada às cegas, um assunto que me motivasse a escrever? O livro foi apanhado às cegas mas não foi comprado às cegas, foi fruto de uma escolha no ato de adquirir e de outra escolha no ato de mantê-lo na estante (porque são muitos os chamados, e poucos os escolhidos). Se está aqui ao alcance de mão é porque fala de algo que me interessa, e sendo assim seria eu muito burro se não conseguisse encontrar, num livro que me interessa, algo que valha a pena ser discutido publicamente. Algo como “Técnicas Artesanais Para Filtrar Processos Randômicos de Direcionamento de Discussões Intelectuais”.

Houve um tempo em que eu acordava, ligava o computador, e pensava: “Vou escrever a coluna de hoje em torno de algum assunto que venha na minha caixa de emails”. Bingo! Nesses dias, por uma mágica subjetiva, me aparecia não apenas um, mas três ou quatro assuntos bons de desenvolver. Alguns eram aleatórios: spams, circulares, propaganda, coisas que foram mandadas para mim sem estarem sendo mandadas para mim especificamente. Outros eram coisas encomendadas por mim, mas sem poder prever nem o conteúdo nem o momento em que chegariam às minhas mãos: newsletters de saites e de publicações sobre assuntos que me interessam (ciência, literatura, poesia, cinema, FC e por aí vai). Um belo dia abro a caixa e lá está um email da revista Edge discutindo os recentes aspectos científicos do conceito de Moral e Ética. Só está lá porque eu cliquei num botão, meses atrás, dizendo que estava interessado em qualquer coisa que essa revista viesse a discutir.

O primeiro exemplo é o aleatório puro; o segundo é o aleatório controlado. Podemos controlar o que nos chega por Acaso se escolhermos uma fonte de estímulos aleatórios. É como ligar o rádio para ouvir músicas. Não podemos escolher as músicas uma por uma, elas nos vêm de acordo com a vontade do programador. Mas eu sei que se ligar na rádio A tenho mais probabilidade de ouvir rock, e se ligar na rádio B provavelmente vou ouvir MPB. Fechamos um pouco o leque de opções, mas ainda deixando-o suficientemente aberto para saber que o resultado, impossível de prever de forma específica, ainda assim estará dentro de uma faixa de controle e escolha da nossa parte.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

2178) Decisão do Júri (2.3.2010)



“Na cidade de Campina Grande, aos vinte e sete dias do mês de novembro de dois mil e nove, a partir das onze horas, reuniram-se os membros do júri do Prêmio Literário Estadual “Serra da Borborema”, os senhores Amadeu Garcia Trancoso, Luiz Antonio Salamanca, José Roberto Carvalho da Silva, e as senhoras Heloísa Furtado e Maria das Graças Cantanhede Rocha, que, tendo examinado as vinte e oito obras concorrentes, decidem por unanimidade: 1) Conceder o Prêmio à obra intitulada Microinfinitos, conjunto de poemas inscrito pelo autor de pseudônimo “Montag”; 2) destacar os seguintes aspectos da obra vencedora.

Em primeiro lugar, a proposta inovadora de interatividade, em que o leitor é convidado a tornar-se co-autor da obra. Destacamos o recurso principal empregado para este fim, ou seja, o uso de códigos numéricos (p. ex.: 3-8-120-5) para a escolha aleatória de palavras por parte do leitor, obedecendo à disposição dos livros em sua biblioteca, onde 3 refere-se à prateleira, 8 ao livro, 120 à página e 5 à palavra. O autor sugere também um engenhoso sistema de substituição de números, em que, por exemplo, 123 pode ser decomposto em 1-2-3, em 12-3 e em 1-23, caso não haja prateleiras, páginas, etc. correspondendo ao primeiro número sugerido.

Poemas são montados através desse processo, que fornece ao leitor a matéria-bruta (termos isolados) que caberá a ele relacionar sintaticamente, organizando-o em verso de acordo com sua própria sensibilidade literária. Cada página de códigos numéricos pode resultar num poema de extensão equivalente a um soneto.

Em segundo lugar, ressaltamos o fato de que, não satisfeito com isto, o autor propõe na segunda parte um conjunto de códigos que terão, para cada leitor, valor diferente. Números personalizados, por assim dizer, o que coloca a escolha vocabular num duplo nível de aleatoriedade. O autor sugere algumas dezenas de módulos intercambiáveis indicando números que são peculiares a cada leitor, desde os mais óbvios (identidade, CPF, data de nascimento, data de nascimento do cônjuge e filhos, telefone residencial ou comercial, celular, número do Pis-Pasep, número do prédio ou apartamento onde mora, CEP, placa do carro, etc.) até números referidos de forma mais indireta: número total de letras do nome (do próprio leitor, do cônjuge, dos pais, dos filhos, etc.), soma do dia, mês e hora em que a leitura está sendo feita, e assim por diante.

Assim procedendo, o leitor terá diante de si em cada sessão de leitura uma cadeia de algarismos (por exemplo: 758432637499557338505058...) que poderá ser dividida de incontáveis maneiras: prateleira 7, livro 5, página 8, palavra 4. Ou então prateleira 7, livro 58, página 4, palavra 7. Ou prateleira 7, livro 5, página 84, palavra 3... As possibilidades, como sempre, são infinitas. Com o que se deu por encerrada a reunião, redigindo-se a presente ata, que vai assinada e rubricada por todos os membros do júri.”

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

1536) Seis macacos escrevendo (14.2.2008)



Dizem que foi Thomas Huxley o idealizador deste experimento mental (eis aqui um curioso oxímoro!): se colocarmos seis macacos diante de seis máquinas de escrever, dentro de um milhão de anos eles terão escrito todas as obras de Shakespeare. As versões do mito são muitas – algumas, mais ambiciosas, prevêem: “todos os livros do Museu Britânico”. É o típico caso da profecia inútil, porque se damos como premissa o prazo de um milhão de anos é o caso de dizer, como Fernando Pessoa, que até lá morrerão os macacos, morrerá o Museu Britânico e morrerão as línguas em que os livros foram escritos.

Esta lenda foi citada por Rubem Fonseca num dos saborosos artigos de O romance morreu, seu livro mais recente. Fonseca fornece outra versão da proposta: “Se um número infinito de macacos for colocado à frente de um número infinito de máquinas de escrever, os macacos acabarão produzindo as obras completas de Shakespeare”. A mera proposta de uma quantidade infinita de objetos materiais (ou, pior ainda, de seres vivos) nos dispensa de levar adiante o experimento.

Meu primeiro contato com este cheque-sem-fundos-filosófico foi através do conto “Lógica Inflexível” do obscuro Russell Maloney, numa antologia de contos fantásticos da Cultrix. É um conto em que um milionário excêntrico, Mr. Bainbridge, ouvindo falar dessa teoria, resolve pô-la em prática, com seis chimpanzés e seis máquinas. Dias depois ele chama a sua casa um cientista e, cheio de perplexidade, exibe a produção dos macacos até aquela data: “A prosa de John Donne, um pouco de Anatole France, Conan Doyle, Galeno, as peças teatrais de Somerset Maugham, Marcel Proust, as memórias da falecida Maria da Romênia, e uma monografia de um certo Dr. Wiley sobre as gramas dos pântanos de Maine e Massachusetts”.

Este último detalhe é o mais saboroso, e o que nos dá melhor idéia do gigantismo da tarefa. Os macacos de Mr. Bainbridge não se limitam a copiar as obras de Shakespeare ou dos grandes autores, mas parecem capazes de reproduzir tudo que já tenha sido colocado em letras de forma pelos seres humanos. O amigo de Mr. Bainbridge, contudo, não arreda pé de suas convicções. Diz que se alguém jogar uma moeda para o ar e der cara cem vezes seguidas, isto nada prova: a longo prazo, cara e coroa se sucederão numa proporção de 50% para cada uma. E prediz: “Logo estes chimpanzés começarão a escrever coisas sem pé nem cabeça”.

Não direi como acaba o conto, mas remeto o paciente leitor para “A Biblioteca de Babel” de Borges, onde estão enfileirados nas estantes os produtos dos seis chimpanzés de Mr. Bainbridge, mesmo sabendo que, como nos diz o narrador, “por uma linha razoável ou uma notícia justa há léguas de cacofonias insensatas”. Tempo havendo, e macacos não faltando, foi-nos dada a oportunidade de escrevermos Shakespeare e todas as obras do Museu Britânico, e não desperdiçamos nossa chance.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

1489) Coincidências (21.12.2007)



(Salvador Dali, "A Retrospective Bust of a Woman")

Há pessoas que vêem na mais banal coincidência um sinal do Destino, uma mensagem mística para dizer-lhes que Alguém, num plano portentoso e sobrenatural, está velando por elas. 

Não precisa ser uma revolução total em suas vidas, como encontrar na calçada um bilhete premiado de Loteria. Bastam pequenos sinais. 

A costureirinha está sacolejando no ônibus, rumo ao trabalho. Fecha os olhos e lembra do namorado. Pensa: “Meu Deus! Será que ele gosta mesmo de mim? Me dê um sinal!...” Abre os olhos e vê pendurado na banca de revistas um DVD intitulado “Amor Sincero”. E considera isto uma resposta divina.

A jornalista Leonor Amarante me relatou um fato que foi direto para minha coleção de coincidências. 

Ela estava em Natal, organizando uma exposição de artes plásticas, sua área de atuação. Conheceu um artista chamado Guaracy Gabriel, os dois trocaram telefones e ficaram de se ligar. Dias depois, no hotel em que estava, ela ligou para o número do artista. Acontece que ela tinha anotado erradamente o número, como percebeu depois; tinha trocado um ou outro algarismo.

A ligação foi atendida e ela perguntou: “É da residência (ou do ateliê) de Guaracy Gabriel?” 

O sujeito que atendeu disse: “Não senhora, isto aqui é um orelhão, na rua tal”. 

Ela disse: “Eu estou ligando para esse número porque quem me deu foi essa pessoa, dizendo que era o da casa dele”. 

O cara do outro lado disse: “Não, é um telefone público, mas... a senhora disse que estava ligando para Guaracy Gabriel, o artista?” 

“Sim, para ele mesmo” 

“Um momento... Ei! Guaracy! Telefone pra você!”

Ou seja, a ligação errada caiu num telefone público, foi atendida por alguém que conhecia a pessoa para quem ela estava ligando, e ainda por cima o destinatário da ligação estava passando por acaso justamente ali, naquele momento! 

Calculadoras em punho, amigos: quais são as chances matemáticas de uma coisa assim acontecer? Minha vontade é traduzir esta história para o inglês e remetê-la para Alan Vaughan, autor do interessante livro Incredible Coincidence, repleto de ocorrências tão estranhas quanto esta, e até mais.

O caso de Leonor se parece com outro que achei na Internet. Em 1953 o jornalista Irv Kupcinet foi fazer uma reportagem em Londres. No quarto do Hotel Savoy, onde se hospedou, encontrou alguns objetos pessoais esquecidos por outro hóspede. Examinando-os, descobriu que seu dono era Harry Hannin, um jogador de basquete que fazia parte da famosa equipe dos Harlem Globetrotters, os quais viajavam pelo mundo inteiro fazendo jogos-exibições. 

Kupcinet, que conhecia Hannin pessoalmente, guardou os objetos para devolvê-los quando encontrasse o amigo. 

Dois dias depois, recebeu uma carta de Hannin. Ele dizia que tinha se hospedado no Hotel Meurice, em Paris, e no quarto em que ficou lá tinha encontrado uma gravata com o nome de Kupcinet bordado – que o próprio havia esquecido ali, antes de ir para Londres. Se não é verdadeiro, é bem inventado.




quarta-feira, 5 de agosto de 2009

1170) A morte quântica de James Kim (13.12.2006)


(James Kim)

Suponhamos, leitor, que você está viajando de carro, com sua esposa e duas filhas pequenas. A certa altura, você pega uma entrada errada, sem perceber, e segue em frente, certo de que chegará em algumas horas à cidade para onde vai. Mas você agora está na verdade penetrando num Parque Nacional, uma reserva ecológica pouco habitada. Quando percebe que se perdeu, seus celulares já estão fora de área. Você faz meia-volta para procurar a rodovia principal, mas (“Ih, devia ter abastecido naquele posto!”) sua gasolina está acabando. E começa a nevar. No carro não há comida alguma além de papinhas de bebê, biscoitos e água mineral. Nenhuma comunicação com o mundo. Você estaciona num local aberto de onde possa ser visto por um possível helicóptero de busca; mas como dar o alarme? Passa-se um dia; passam-se dois, três. O frio é intenso, mesmo dentro do carro. Sua mulher e suas filhas olham para você, esperando uma decisão. Você continua esperando, ou deixa-as ali e parte em busca de socorro?

Este é, cientificamente, um ponto de decisão, de mutação, de inflexão. Um momento em que qualquer decisão tomada conduzirá a um desfecho diferente. É um momento quântico no sentido de que algo já começou a acontecer, mas você não sabe o quê. Os dados de que dispõe são insuficientes. Quanto durará a nevasca? Alguém já deu o alarme? Queimar os pneus, de um em um, lhes dará calor pelo tempo necessário? Em que direção, e a que distância, fica o socorro mais próximo? Em suma: é mais certo esperar, ou ir à luta?

Foi isto que aconteceu semanas atrás com o jornalista James Kim, que se perdeu num parque do Oregon. Kim deixou a família no carro e foi em busca de socorro. Pouco tempo depois, o carro foi encontrado pelas equipes de busca e a família foi salva. O corpo de Kim foi encontrado dias mais tarde, junto ao riacho cujo curso ele estava acompanhando, esperando achar alguém. Kim morreu de hipotermia a cerca de uma milha de distância de um abrigo onde teria podido encontrar calor e comida. É fácil agora, depois que se sabe o que aconteceu (depois que a função colapsou) dizer que a escolha de Kim foi errada. Talvez ele tenha cedido àquele impulso (ao qual imagino que eu talvez cedesse também) de pensar: “Ora que diabo, estamos parados aqui há dias e nada acontece! Preciso fazer alguma coisa!” É uma decisão sensata, emocionalmente justificada e racionalmente aceitável. Mas sabemos agora que foi a decisão errada, e que o certo seria ter paciência e esperar mais um pouco.

Até mesmo aqui, no universo macro, tão distante do mundo subatômico, vemo-nos às vezes no interior de uma função dinâmica, complexa, que está se encaminhando para um resultado que não podemos prever mas na qual devemos interferir com a observação A ou B. E o modo como escolhemos conferir o resultado final sempre influencia, de um modo ou de outro, o que acontecerá (e que, de certa maneira, já tinha começado a acontecer).

terça-feira, 14 de abril de 2009

0975) Numerologias (2.5.2006)


(Karlsson - relógio de parede)

A “numerologia” que está na moda é a que atribui valores numéricos às letras do alfabeto e valores simbólicos aos números, para com isto determinar, através do nome, as qualidades morais de alguém, ou adivinhar o seu futuro. Para uns, uma perda de tempo; para outros, uma maneira, entre muitas, de inventar significado para a própria vida.

Chamo também de numerologia (e chamo por conta própria, não sei se o dicionário concorda) a qualquer atividade que procure descobrir harmonias inesperadas nos números que nos cercam, e que são menos raras do que se imagina. A rigor, só existem dez números, e eles se repetem o tempo todo. Se a gente ficar prestando atenção, vai descobrir certos arranjos seriais que nos levam a supor uma intencionalidade da parte do Arquiteto Cósmico.

Por exemplo: na próxima quinta-feira, dia 5 de maio, as pessoas que usam certos tipos de relógio eletrônico verão no mostrador, durante um instante fugaz, a seguinte série de números: 01:02:03 04/05/06. Ou seja: uma hora, dois minutos e três segundos de quatro de maio de 2006. Alguns anos atrás, foi possível ver a série 00:01:02 03/04/05. E assim por diante. Outros horários e datas curiosos a serem vistos este ano são: 06:06:06 06/06/06, ou seja, seis horas, seis minutos e seis segundos de seis de junho de 2006; e 11:10:09 08/07/06, que quer dizer onze horas, dez minutos e nove segundos de 8 de julho de 2006.

Vi num livro de quebra-cabeças uma coisa parecida, referindo-se ao dia 7 de agosto de 1990, quando em alguns relógios apareceu a série 12:34:56 7/8/90 (doze horas, trinta e quatro minutos e cinquenta e seis segundos daquele dia). Tudo depende, é claro, do formato escolhido para exibição dos números no mostrador. As combinações, apesar de numerosas, são limitadas, e cedo ou tarde um número aparentemente “de propósito” acaba aparecendo. São casos típicos de ordem aparente que brota do caos. Se um número finito e reduzido de elementos se recombina o tempo todo de maneira aleatória, ele acaba reproduzindo certos padrões aparentemente simétricos ou ordenados, dando a impressão de algo “proposital” ou fatalista.

Um exemplo crucial disto é quando jogamos na Mega Sena um grupo aleatório de números (digamos: 05 – 11 – 28 – 33 – 40 – 41) e na segunda-feira descobrimos que estamos milionários pro resto da vida. Para todo o resto do Brasil, esta série foi uma série caótica, desorganizada. Para nós, que estamos segurando nos dedos trêmulos o comprovante das dezenas apostadas, é o maior exemplo possível de Ordem gerada pelo caos (pelo giro aleatório das tômbolas da Caixa Econômica). Uma Ordem que no caso só o é aos olhos de um único indivíduo, mas que nem por isto deixa de ter para ele o mais transcendental dos significados. Produzir significados em padrões aleatórios é uma função obrigatória da mente humana, das sociedades humanas. Talvez seja a melhor receita para não bater de cara com o absurdo da existência.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

0531) A máquina pensante (1.12.2004)


(do saite "Thinking Machine")

Uma das características mais interessantes do jogo de xadrez (como da maioria dos jogos, mas, concentremo-nos num só) é o fato de existir uma hierarquia estratégica que se sobrepõe à mera probabilidade matemática dos movimentos. Essa hierarquia se refere aos movimentos que deixam o jogador mais próximo de derrotar o oponente. Antes de cada movimento, existe um número gigantesco (embora finito) de possibilidades, em função do movimento de cada peça e das casas disponíveis para ela. Matematicamente, todos estes movimentos se equivalem. Estrategicamente, uns são mais relevantes do que outros.

Podemos então dizer que há três tipos de jogadas. Primeiro, a jogada possível: qualquer movimento para a frente, para trás ou para o lado, que seja permitido pelas regras, independentemente de sua utilidade. Segundo, a jogada obviamente útil: a jogada que tem mais probabilidade de ameaçar o oponente ou de conquistar para o jogador uma posição vantajosa. E terceiro, a jogada surpreendente: uma jogada pouco óbvia, que à primeira vista parece totalmente absurda, mas que pode desencadear uma combinação improvável de movimentos e dar a vitória ao jogador.

Quando um computador é programado para jogar xadrez, os movimentos do primeiro tipo são facilmente programáveis: o bispo pode ir para estas e estas casas, mas não pode ir para aquelas. Os movimentos do segundo tipo também podem ser programados, desde que se possa prever, para cada situação possível no tabuleiro, quais os caminhos mais rápidos para obter a vitória. Os movimentos de terceiro tipo são os mais difíceis. Eles são mais elegantes, mais ricos, mais surpreendentes, e possuem não apenas um valor estratégico, mas um valor estético. São o pulo-do-gato.

O saite “Thinking Machine 4” (em: http://turbulence.org/spotlight/thinking/chess.html) oferece um interessante recurso para ilustrar o modo como uma máquina pensa o xadrez. A cada jogada, linhas coloridas vão surgindo na tela indicando os movimentos mais prováveis para responder à jogada feita pelo adversário. À medida que a máquina “pensa”, algumas linhas vão ficando mais encorpadas, mais nítidas, porque um número maior de manobras passa por ali, até chegar o momento em que a máquina responde à jogada que fizemos.

Assim como no campo verbal podemos distinguir uma linguagem mais previsível e mais “pobre” (a linguagem normal do dia-a-dia) e uma linguagem menos previsível e mais “rica” (a linguagem poética), os movimentos no xadrez podem ser classificados em graus de previsibilidade e riqueza. Os melhores movimentos são os que cumprem uma função estratégica, possuem uma simplicidade estética (como a “elegância” das fórmulas matemáticas) e guardam um grau maior de imprevisibilidade. Escrevem por linhas tortas. Criam um atalho imprevisto. São inexplicáveis à primeira vista, mas na seqüência das jogadas o adversário percebe qual era a armadilha – quando já é tarde demais.

quarta-feira, 19 de março de 2008

0283) Ganhei (perdi) meu dia (15.2.2004)




Me digam se a vida não parece uma coisa escrita por Woody Allen. Recentemente, um cidadão de 73 anos, residente no Estado de Indiana (EUA) foi sorteado num concurso de loteria onde o sorteio é gravado em video-teipe e vai ao ar algumas horas depois. 

Mr. Carl Atwood estava presente ao sorteio em que seu número foi contemplado com um prêmio de 57 mil dólares. Ao recebê-lo, ele disse: “Estou muito agradecido a todos. Nunca esperei ganhar um prêmio tão grande. Agora vou poder comprar um bom automóvel.” 

Horas depois, o sr. Atwood fêz uma visita à loja onde havia comprado o bilhete premiado (talvez para agradecer, comemorar...) e na saída, ao atravessar a rua, foi atropelado por um caminhão e morreu no hospital. 

Nesta mesma noite, o programa foi ao ar, e ao anunciar sua vitória a estação colocou no ar uma foto sua, com o letreiro: “Em memória de Carl Atwood”.

Parece brincadeira, não é? Mas uma pequena parábola urbana como esta pode ser lida de diferentes maneiras. Para alguns, é um aviso de que Deus (ou o Destino) dá com uma mão e tira com a outra. Para cada benefício, uma penitência. Para cada prazer, uma punição. Ter muita sorte é uma espécie de pecado, que deve ser expiado tendo muito azar. 

É a teoria moral dos prêmios e castigos, que embebe toda nossa cultura judaico-cristã. Ninguém será feliz impunemente. Ganhou na loteria? Pois aguarde!

Existe, contudo, outra teoria metafísica que dispensa os julgamentos morais. O sujeito tem duas escolhas: 1) uma vida calma, onde nada acontece de bom ou de ruim; 2) uma vida agitada, onde coisas boas e ruins acontecem em profusão. 

Ou seja: ele pode escolher se deseja reduzir ou intensificar o próprio campo probabilístico (v. “O campo probabilístico”, 3.9.2003). 

No caso de Atwood, quem sabe se dias antes ele não fêz uma prece: “Oh, Senhor... Não acontece nada! Setenta e três anos, nenhum problema resolvido, sequer colocado! Tá muito chato esse negócio aqui! Eu queria uma vida movimentada, onde acontecessem coisas fora do comum!” Aí Deus anotou numa caderneta, chamou o arcanjo... 

Podem achar que é uma explicação cínica, mas me parece mais equilibrada do que a velha história do castigo moral. Não existem castigos, prêmios, punições. Existem vidas onde nada acontece; e vidas onde acontece de tudo. Atwood teve 73 anos de uma, e um dia da outra.

E, filosofia à parte, podemos optar também pela explicação prática. Atwood tirou 54 mil dólares e nunca tinha visto tanto dinheiro na vida. Foi dar um abraço no dono da casa lotérica, provavelmente um sujeito que há 20 anos lhe vendia bilhetes e dizia, “Bote fé, seu Atwood! Um dia o senhor tira a sorte grande!” 

Foi lá, agradeceu, comemorou, e na hora de atravessar a rua estava tão eufórico que, pela primeira vez naqueles anos todos, esqueceu de olhar se vinha carro. 

As teorias metafísicas são muito úteis, mas eu sempre acho que tem um detalhe operacional que explica tudo.





terça-feira, 11 de março de 2008

0214) O funil da ciência (27.11.2003)




Eu morava num décimo andar, numa rua do Catete. Estava escrevendo à máquina, aí peguei uma folha de rascunhos, amassei, fui à janela e joguei a bola de papel lá embaixo. Um gesto mal-educado, confesso, mas o texto estava tão ruim que eu perdi a paciência. A bola descreveu uma curva, levada pelo vento, aí ricocheteou na carroceria de um caminhão parado em frente à loja de móveis, e entrou pela janela de uma camionete que passava a toda velocidade. 

Pronto! Lá se foi o cara, com meu artigo amassado dentro do carro.

Qual a probabilidade matemática de que isto acontecesse de propósito? Um tanto remota. Poderíamos reconstituir a cena interditando a rua, pedindo ao cara da camionete que ficasse passando ali àquela velocidade, enquanto eu, lá de cima atiraria bolas e mais bolas de papel tentando acertar o caminhão na hora exata, etc. 

São muitas as variáveis envolvidas: o ângulo e a força do arremesso inicial, a direção e a força do vento, o ângulo e o ponto exato da “tabela” na carroceria do caminhão, a passagem da camionete no ponto certo e no momento exato, etc. 

Mas se a gente dispusesse de uma verba da NASA ou do CNPq seria possível, ao longo de semanas, de meses, ir chegando a um controle cada vez maior de cada uma dessas fases, até conseguirmos mais arremessos certos do que errados.

É assim que a ciência resolve problemas de ordem prática. Na engenharia, na astronáutica, na medicina, seja lá onde fôr, o sujeito tem pela frente um problema tão complicado quanto este (geralmente muito mais) e é preciso ir “cercando”, fase por fase, tentando eliminar as variáveis não-essenciais, e reduzir ao máximo a variabilidade de outras. 

É por isso que muitos problemas teóricos, para simplificar, usam expressões tipo “em condições normais de temperatura e pressão”, ou “numa superfície ideal, com atrito zero” ou “um corpo em movimento retilíneo e uniforme”: tudo isto serve para eliminar variáveis e adiantar o cálculo. Mas num problema da vida real não se pode eliminar isto por decreto. Tem que encarar.

Não sou da turma triunfalista que acha que a Ciência pode tudo, mas já se descobriu tanta coisa do mundo físico que, com dinheiro e know-how, pode-se fazer coisas impensáveis há 50 anos. 

Mas não se faz tudo que é tecnicamente possível. Quem afunila, fiscaliza e direciona a atividade científica é a possibilidade de lucro social (a cura de doenças) ou de lucro econômico. 

Aí voltamos ao início: será que a NASA ou o CNPq estariam dispostos a gastar essa grana toda só para saber como acertar uma bola de papel dentro dum carro? Não. Pode-se descobrir um método engenheirístico para isso; mas não há utilidade social, não há interesse político em descobrir. 

Agora, se fôr para mandar uma nave à Lua, ou para extrair petróleo do fundo do mar... é muitíssimo mais difícil, vai dar muitíssimo mais trabalho, vai custar incrivelmente mais caro, mas vale a pena. Por isso fizemos.





segunda-feira, 10 de março de 2008

0151) O xadrez e o repente (14.9.2003)



Entre as fotos antigas de meu pai havia uma em que ele estava sentado diante de um tabuleiro de xadrez; um sujeito de terno, em pé, estava pegando numa peça para fazer a jogada. 

Eu perguntei porque o outro cara não jogava sentado, e Seu Nilo explicou que esse cara era um campeão espanhol ou mexicano que veio a Campina Grande e jogou as chamadas “partidas simultâneas” contra 20 ou 30 pessoas, lá no extinto e saudoso Campinense Clube. 

Se o leitor não é enxadrista, precisa saber que as simultâneas são uma tradição no mundo do xadrez. Um Mestre do xadrez é capaz de enfrentar “x” pessoas em “x” tabuleiros, e vencer a maioria das partidas. Ele faz a primeira jogada no primeiro tabuleiro, e deixa o adversário pensando. Aí joga no segundo, e passa adiante. Quando completa a rodada, volta ao primeiro tabuleiro para ver qual foi a resposta do adversário; e recomeça tudo.

Esse estilo vapt-vupt parece em desacordo com o espírito do xadrez, jogo de profundos raciocínios, imensa concentração, e demoras intermináveis. Todo cartunista já desenhou um tabuleiro de xadrez com duas múmias, ou dois esqueletos, ou dois sujeitos envoltos em teias de aranha, pensando, pensando... Então, que história é essa de jogar contra 20 ou 30 caras, e jogar na base do pêi-bufo?

O número de combinações possíveis depois da 10ª jogada é de trilhões, quatrilhões, sei lá. É impossível um jogador avaliar todas as possibilidades. Depois que ensinaram xadrez aos computadores, as máquinas começaram a experimentar todas as soluções possíveis na base da “força bruta” (ver coluna “A solução Herodes”, de 5 de julho), e de fato têm derrotado muitos campeões. 

A essência do xadrez, contudo, não é a força bruta: é a intuição estratégica e estética do grande jogador, um talento que faz com que ele rapidamente descarte 99% das jogadas possíveis e se concentre naquelas, mais improváveis, que podem iludir a vigilância do outro e lhe render um xeque-mate. 

A criatividade no xadrez se assemelha à criatividade na matemática. Os grandes matemáticos, ao conceberem uma nova fórmula, muitas vezes não sabem sequer que utilidade ela pode ter, mas sabem que ela possui “elegância” (termo muito frequente no raciocínio matemático), e portanto deve ser útil. Elegância matemática (e enxadrística) é quando se consegue reunir numa fórmula um mínimo de elementos e um máximo de possibilidades criativas.

O Mestre que joga 20 simultâneas se beneficia, ironicamente, do fato de que ele tem menos tempo para pensar do que os seus adversários. Ele não poderia enfrentar, dessa maneira, 20 Grandes Mestres. Ele joga, passa adiante, e deixa o outro sujeito ali, se aperreando. Ao chegar diante de cada tabuleiro, ele “fotografa” a posição das peças e intuitivamente percebe que deve explorar este ou aquele lado, bloquear este ou aquele setor... 

Como um legítimo repentista, ele pega a deixa e responde na hora. O verso já estava pronto, há mais de mil anos.