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quinta-feira, 14 de novembro de 2019

4523) O absurdo poético (14.11.2019)




(Max Ernst, O Elefante Celebes, 1921)


A poesia fala por imagens inesperadas, que nos forçam a pensar em algo pela primeira vez. 

Dos recursos básicos à disposição do poeta (idéia, música, imagem) a imagem talvez seja o que nos produz o impacto maior à primeira leitura, porque nos evoca o mundo dos sentidos, e nos faz de maneira indireta ter experiências visuais, auditivas, táteis, etc. através da palavra.

Quando Manuel Bandeira diz (em “Cantilena”) que “o céu parece de algodão” está produzindo uma imagem visual, porque se trata de um dia chuvoso e nublado, e também tátil, porque o acúmulo de nuvens no céu lembra a textura macia, leve e difusa do algodão. 

Subindo um degrau na escala das metáforas, o poeta Marcus Accioly (em “Os bichos”) fala de “um céu de dragões entre espadas vermelhas”.  Aqui, a imagem não pode ser tomada ao pé da letra, porque busca apenas sugerir um por-do-sol nos vastos espaços sertanejos.  Os dragões e as espadas existem como projeções figurativas do poeta sobre as formas abstratas das nuvens e dos raios do sol.

O Surrealismo da década de 1920 foi um movimento importante para a libertação da linguagem poética.  Reunidos em torno do poeta André Breton e da revista La Révolution Surréaliste, esses poetas lançaram manifestos, criaram polêmicas, bateram-se contra a crítica literária, o governo e o clero, em nome de uma libertação do Homem que ia além da linguagem poética. 

Apesar de nascido no interior da literatura, o Surrealismo acabou se tornando mais conhecido durante o resto do século 20 pelo cinema de Luís Buñuel e pela pintura de Salvador Dali, Max Ernst e outros. 

O objetivo dos surrealistas era reproduzir o verdadeiro funcionamento do pensamento humano, livre de censuras impostas pela estética, pela moral, pela lógica, etc.  Isto era conseguido em muitos casos através da “escrita automática”, em que o poeta escrevia depressa, sem pensar. 

A qualidade literária desses escritos era muito oscilante, mas Breton argumentava que somos bitolados e deformados por fórmulas literárias antigas e que “é preciso limpar as estrebarias da mente”. 

Outro recurso empregado no interior do grupo era o poema escrito ao acaso, em pedaços de papel onde cada poeta escrevia algo, dobrava e passava adiante.  O resultado aleatório dessas palavras colocadas por cada um deles produzia frases de estranha beleza: “O cadáver delicado beberá vinho novo”, “A ostra do Senegal comerá o pão tricolor”, etc.

A poesia surrealista caracterizou-se por essas imagens desconexas, sem sentido, tanto assim que o termo passou a fazer parte da nossa linguagem diária para exprimir qualquer coisa absurda: “ontem eu vivi uma situação surrealista lá no escritório”, “o Brasil é um país surrealista”, etc.  

O impacto desse Movimento na poesia foi principalmente através do que poderíamos chamar, não de surrealismo puro, mas de surrealismo aplicado: a liberdade de usar as imagens mais inesperadas, mais chocantes, mais aparentemente absurdas.  O contato com as experiências surrealistas produziu em muitos poetas uma liberação imaginativa, enriquecendo seus recursos de comparação, de metáfora, de produção de imagens sensoriais.

Sem a influência do Surrealismo, talvez Garcia Lorca não tivesse a liberdade de escrever versos como estes (que lembram os quadros de seu amigo Dali):

Os morcegos nascem
das esferas.
E o bezerro os estuda
preocupado.
Quando será o crepúsculo
de todos os relógios?
Quando essas luas brancas
se fundirão aos montões?

(“A Selva dos Relógios”). 

Carlos Drummond não pode ser chamado de poeta surrealista, mas sem a liberação surrealista seria mais difícil que produzisse versos como estes de “Rola Mundo”:

Vi o coração de moça
esquecido numa jaula.
Excremento de leão
apenas. E o circo distante.
Vi os tempos defendidos.
Eram de ontem e de sempre,
e em cada país havia
um muro de pedra e espanto,
e nesse muro pousada uma pomba cega. 

Pablo Neruda também não escapou ao Surrealismo, presente não apenas nas imagens mas no espírito iconoclasta de “Walking Around”:

(...)
Acontece que me canso de ser homem.
E no entanto seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um murro no ouvido.
Seria belo
andar pelas rua empunhando um punhal verde
e dando gritos até morrer de frio.  

Talvez o grande poema-livro surrealista de nossa literatura seja a “Invenção de Orfeu” de Jorge de Lima:

Era um cavalo todo feito de lavas
recoberto de brasas e de espinhos.
Pelas tardes amenas ele vinha
e lia o mesmo livro que eu folheava.

O aparente absurdo da imagem surrealista típica nos leva a uma espécie de alongamento mental, a um esforço do intelecto e da sensibilidade para acomodar elementos disparatados.  O ensaísta Ernst Fischer dizia que “a arte não é para passar por portas abertas, mas para abrir portas que estão fechadas”. 

O absurdo poético dos surrealistas cria novas associações de imagens e de idéias, produz emoções surpreendentes através do choque de elementos contraditórios, força o leitor a uma reeducação da sensibilidade. 

Em seu livro-poema, Jorge de Lima fala no “planalto das cobras laminadas”, em “céu duende”, num “subsolo gemendo lavas brancas”, em “águas subcelestes produzidas pelas chuvas das órbitas”, imagens que a um leitor de poesia de cem anos atrás pareceriam sem sentido mas que para um leitor pós-século 20 adquirem um supra-sentido. 

O sentido de uma imagem poética resulta de um pacto entre autor e leitor, em que este assimila o choque inicial de surpresa e, dando ao poeta um crédito de confiança, busca dentro de si próprio as ressonâncias de sentido e de emoção que aquelas frases lhe despertam.  Nunca serão as mesmas, é claro, mas um poema é isto, um gerador de múltiplas ressonâncias em múltiplos leitores. 


(Uma versão ligeiramente diferente deste artigo foi publicado pela revista “Língua Portuguesa”, da Editora Segmento (São Paulo), número 55, em maio de 2010.)










domingo, 22 de outubro de 2017

4280) Marcus Accioly 1943-2017 (22.10.2017)




Foi ele o primeiro poeta “erudito” que vi dominar com perfeição ritmos como o martelo agalopado, o galope beira-mar, o quadrão, o mourão, a embolada. Marcus Accioly, falecido neste sábado, dia 21, aos 74 anos, foi um dos grandes poetas brasileiros de uma geração acima da minha, poeta que comecei a ler aos 20 anos e não parei mais.

Pela sua dedicação pioneira aos esquemas de ritmos e de rimas da Cantoria de Viola, devo-lhe mais do que a muitos outros poetas tão grandes quanto ele, mas que escreviam noutro universo de formas. No universo das formas fixas da cantoria, “eruditizadas”, foi pela mão dele que entrei.

Seu livro mais conhecido talvez seja o infantil e premiado Guriatã: um cordel para menino (1980). Mas o livro fundador, o que o projetou como o principal poeta do Movimento Armorial de Ariano Suassuna, foi Nordestinados (1971), saído simultaneamente com o Romance da Pedra do Reino (1971) de Ariano. Foi nesse que encontrei pela primeira vez, no papel nobre do volume em brochura, os gêneros e estilos da poesia dos violeiros. Meu livro de cabeceira por muitos e muitos anos.

Logo depois veio Sísifo (1975), um poema épico em dez cantos, com formas variadas. Neste, Marcus fez um épico que era armorial por um lado e modernista por outro. Martelos agalopados celebrando Jack Kerouac ou Elvis Presley, numa afirmação ousada de repertório pessoal. Por mais que afirmasse a importância do movimento criado por Ariano, e se sentisse vinculado a ele, Marcus Accioly sempre escolheu seus próprios temas, que eram temas da sua geração de rapazes com a mesma idade dos Beatles, de Bob Dylan.

Sísifo introduziu também o peculiar uso dos parênteses dentro da estrofe metrificada, o qual que se tornou um dos traços estilísticos do poeta a partir de então. Linhas de martelo (ou de decassílabo genérico) metrificadas de forma impecável, mas incrustadas de trechos entre parênteses, criando assim duas vias simultâneas de fluxo poético.

Não tenho o Sísifo aqui comigo, mas ilustro com uma estrofe de Latinomérica (2001), seu último e gigantesco poema épico, com mais de 500 páginas:

cantei teu sol (América) na pele
do índio nu (chagacesa ou tatuagem)
esperando que o canto (em si) revele
o seu fogo despido de folhagem
(ou seu corpo movido pela hélice
dos músculos sem outra camuflagem
que a luz) cantei a carne em carne-viva
(o sangue em chama) a brasa sem a cinza

Latinomérica, onde ele insere a voz de um Homero na celebração épica do continente, é um poema-livro em 20 partes, cobrindo a história e a mitologia da América até os dias de hoje. Uma mistura (lá vou eu com minhas comparações esdrúxulas) do Canto Geral (1950) de Pablo Neruda com As Veias Abertas da América Latina (1971) de Eduardo Galeano e as Folhas de Relva (1855) de Whitman.

Mas sempre de acordo com as escolhas temáticas do autor: a Parte IX do poema, “O Ringue”, fala das guerras, guerrilhas e ditaduras latino-americanas sob a forma de uma luta de boxe. Há trechos na Parte XII, que o autor intitula “shadow boxing”, dedicados a autores norte-americanos como Edgar Allan Poe, Hemingway, Allen Ginsberg, Walt Whitman.

Os metros são variados, mas Latinomérica usa na maior parte do tempo o formato da oitava camoniana em decassílabos, com rimas toantes, como nesta estrofe do trecho dedicado ao poeta beat Lawrence Ferlinghetti:

(saímos a um café e nos servimos
no self-service) “ponha pouco açúcar
e (se adoçante) basta pôr dois pingos
feito colírio” (ergue um brinde à música
das colheres e eu fiz um brinde aos sinos
das xícaras) foi só (com sua túnica
vermelha e a minha azul como um contraste
tiramos uma foto aquela tarde)

Quando o conheci pessoalmente eu já não era mais apenas seu leitor, já era também um autor publicado, e nos encontrávamos nos eventos literários, hospedados no mesmo hotel, recitando no mesmo palco. Marcus era aquele tipo de rosto longo, muito corado, cabelos brancos curtos, barba branca sempre bem aparada, visual aristocrático, conversa descontraída e risonha. Um poeta beatnik com sotaque dos engenhos pernambucanos.

E eu não deixei de ser o garoto de vinte anos que o descobriu numa república de estudantes em Belo Horizonte, para onde meu pai me mandou um jornal do Recife com um artigo sobre um tal de movimento cultural que Ariano Suassuna estava inventando em Pernambuco, e um poema de Marcus Accioly intitulado “Os bichos (galope beira-mar)”, uma das viradas-de-esquina decisivas no meu modo de ver a literatura.

Poema que ajudou a me levar de volta à Paraíba e aos “Retalhos do Sertão”, e do qual ainda hoje, 46 anos depois, recito de cor esta estrofe inicial (são oito ao todo), nas minhas oficinas de poesia, para não esquecer como esse capítulo da minha história começou:

Rumor entre folhas, os sóis abrasados,
os pássaros mudos, confins do sertão;
garganta, vereda, covil, chapadão,
coivaras, lajedos, clareiras, cerrados;
a marca profunda dos rastros pesados
o andar sorrateiro com jeito de dança
a boca feroz sob a pele tão mansa
o salto e o rugido suspensos no espaço
os dentes de pedra e as garras de aço
pupilas de sangue nos olhos da onça.
(“Os bichos”, em Nordestinados)









quinta-feira, 27 de março de 2008

0306) Segredos do Pai Mateus (13.3.2004)

(Foto: Gustavo Moura)

O lajedo do Pai Mateus fica no município de Cabaceiras, a duas horas e meia de carro de João Pessoa, e a uma hora de Campina Grande. Não precisa ser um Indiana Jones para chegar até lá. A fazenda onde o sítio arqueológico está situado (http://www.paimateus.com.br/) tem uma pousada com piscina, restaurante, e uns 20 chalés quase sempre ocupados por turistas que vêm em excursões via João Pessoa e Natal. Por algum motivo, grande parte dos turistas são escandinavos: geólogos, fotógrafos, budistas em busca de recolhimento, rapaziada que pratica bicicross, rappel, trekking e outros esportes radicais. A região serviu de locação para filmes como O Auto da Compadecida de Guel Arraes e São Jerônimo de Júlio Bressane.

Faço este “release” turístico para deixar claro que se um sujeito anêmico, sedentário e fotofóbico como eu conseguiu escalar os lajedos e percorrer aquelas trilhas, qualquer um de vocês consegue. A paisagem é impressionante. Eu tenho umas excentricidades na minha relação com a natureza. Todo mundo, quando fala em natureza, pensa logo em bichos e plantas. Eu, não. Quando me falam em natureza a primeira coisa que me vem à cabeça são montanhas e rochedos. O apartamento onde hoje moro, no Rio, abre janelas para um rochedo imenso do qual, em dias de temporal, descem cachoeiras de chuva espumante. Não troco isso por dez oceanos atlânticos.

O Pai Mateus fica naquela região pedregosa e bruta do Cariri paraibano, fonte inesgotável de riquezas minerais (caminhões da Bentonita União não param de ir e vir). À medida que nos aproximamos, vemos a rocha subterrânea aflorando por todos os lados, o que me lembra uma descrição de Stephen King: “a camada rochosa rompia a pele da terra, como uma procissão soturna e corroída pela erosão”. O lajedo propriamente dito é como um imenso pires emborcado, em cujo topo equilibram-se improváveis esferas de pedra, com 3 a 5 metros de altura. Algumas delas estão corroídas por dentro, e lembram capacetes de motoqueiro. Mesmo “quando o sol calcina a terra”, no interior dessas minicavernas a temperatura é fresca, há um curioso efeito de som que parece uma concha acústica, e a face interna é coberta de inscrições feitas pelos índios.

O Pai Mateus foi um eremita que no século 18 era uma espécie de curandeiro junto às tribos locais. Na loca mais larga de todas, ainda se vê a cama que ele usava em suas curas, um retângulo de pedra que, para ser equilibrado sobre duas fileiras de pedras menores, deve ter exigido o esforço de pelo menos uns doze homens fortes. Dali se avista um por-do-sol que evoca o verso de Marcus Accioly, “um céu de dragões entre espadas vermelhas”, com o sol pousando ao lado da única montanha que brota do horizonte, a qual tem a forma exata do Teorema de Pitágoras. Não, amigos, não creio em deuses astronautas. Só imaginamos deuses, e só criamos astronautas, porque o mundo é do jeito que é: imprevisível, misterioso e belo.