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quarta-feira, 3 de junho de 2026

5237) A Narrativa de Mistério e o Mistério da Narrativa (3.6.2026)




A narrativa de mistério muitas vezes se confunde com o romance policial. A sua essência, contudo, não depende da existência de um crime ou de uma investigação policial. Falando de um modo bastante genérico, o elemento “mistério” pode ser introduzido em qualquer tipo de narrativa, de qualquer gênero literário. 
 
Existe o mistério de horror (como em Stephen King). Existe o mistério romântico (Dom Casmurro). Existe o mistério de ficção científica (Stanislaw Lem, Philip K. Dick). O mistério existencial (Paul Auster, Franz Kafka). Cada tipo de ficção pode acolher dentro de si histórias onde o mistério é o motor principal. 
 
O mistério pode ser, por exemplo, um fato do passado que nunca se esclareceu direito. Uma “história mal contada”; aqueles segredos de família em que ninguém tem coragem de mexer, porque vai desagradar a X, ou manchar a reputação de Y, ou provocar a fúria de Z... Os anos passam, os segredos sussurrados vão se acumulando, as versões fantasiosas se multiplicam... Até que um dia algum personagem pensa: “Vou acabar com esse trauma” – e geralmente o romance é a história desse personagem, e do que ele mais cedo ou mais tarde vai acabar descobrindo. 



Pode ser a história de uma pessoa que desapareceu para sempre. Desaparecimentos misteriosos aparecem muito na literatura policial, mas nem todo sumiço implica num crime. Pessoas podem sumir por acidente, doença, vontade própria. Quantas histórias não existem, na vida real, de crianças que sumiram durante um passeio na floresta, uma viagem de férias, um acidente em que sua família morreu mas o corpo da criança nunca foi achado? 
 
Inúmeras histórias circulam aí sobre pessoas que se apresentam, anos depois, dizendo: “Aquela criança sou eu.” É verdade? É golpe? É este o mistério. 
 
São casos famosos, como o da Princesa Anastasia, a filha do Czar que foi fuzilado pela Revolução Bolchevique. Ou o caso do “herdeiro Tichborne”, na Inglaterra: um rapaz rico desapareceu num naufrágio, e anos depois um indivíduo se apresentou dizendo ser ele. Durante anos a Inglaterra não discutiu outra coisa. (Pelo que eu li, tenho certeza de que era golpe, mas a família estava ansiosa para acreditar.) 
 
Aqui mesmo no Brasil, há uma verdadeira enciclopédia de casos de crianças sequestradas ou de bebês roubados (ou involuntariamente trocados) nas maternidades. São mistérios. Não são necessariamente histórias de crime. Mas as pessoas têm fascinação por isto. 
 
E as crianças órfãs, abandonadas por pais que ninguém sabe quem são?  Toda novela ou série de TV tem um personagem assim, para ser envolvido em mistério e proporcionar lá na frente uma revelação surpreendente.



(A Gruta das Conchas)

 
Há lugares que são misteriosos, por serem resquícios de civilizações que não existem mais (as Pirâmides, as cidades em ruínas na jângal, etc.). Ou então por serem exemplos em pequena escala, mas não menos misteriosos, como a “Gruta das Conchas” (“Shell Grotto”), na Inglaterra, gruta subterrânea casualmente descoberta por um agricultor, com centenas de metros quadrados e paredes completamente cobertas por milhões de conchas do mar. Quem fez isto? Não se sabe.
 
Outro tipo de mistério que fascina a todo mundo é o desaparecimento de um objeto valioso. Uma jóia, uma pintura, um documento, uma peça de mobília... O valor não precisa ser monetário, pode ser valor afetivo, mas é o bastante para motivar uma busca e para que esse mistério mobilize uma aventura: Como desapareceu? Por ação de quem? Com que propósito? Foi destruído ou ainda existe, oculto em algum lugar? Histórias assim são capazes de gerar romances com centenas de páginas, se o autor souber imaginar um conjunto adequado de circunstâncias e explorar, pouco a pouco, as investigações, e a possível solução final. 
 
Tudo que nos deixa perplexos e que pode gerar uma boa história faz parte da literatura de mistério. (E aqui, vejam bem, estou incluindo a literatura de ficção e a de não-ficção: reportagens, relatos históricos, livros investigativos, etc.). 



("Os Dançarinos")


Histórias que se baseiam em mensagens cifradas são histórias de mistério. O exemplo clássico é “O Escaravelho de Ouro” de Edgar Allan Poe, um dos primeiros exemplos em que a criptografia (que era uma das obsessões de Poe) serviu de elemento essencial para uma história de aventuras. Algo que seria imitado por Conan Doyle em “Os Dançarinos”, e que Jules Verne iria reutilizar anos mais tarde. Várias aventuras de Verne se iniciam com a descoberta de um criptograma que, depois de decifrado, projeta seus heróis numa aventura. Para não falar nos livros de Dan Brown e seus seguidores. 
 
Há também o recurso ao “mistério retrospectivo”. Algumas histórias, aparentemente comuns, sem mistério algum, fazem no final uma revelação bombástica – ou uma sugesto sutil – que de repente lança uma luz diferente sobre tudo que foi mostrado até então. Nas últimas páginas, há uma Revelação. O livro se encerra. O que fazemos? Voltamos ao começo e passamos a reler a história, à luz desta informação nova, e descobrimos mil e uma pistas, mil e uma dúvidas novas. 
 
Em “Exame da Obra de Herbert Quain”, Borges fala de um romance policial aparentemente comum, mas nele há uma frase que, se o leitor lhe dá a devida atenção, obriga-o a uma releitura da história e à descoberta da verdadeira solução. 



(Blade Runner

 
Mistérios retrospectivos aparecem em Grande Sertão: Veredas (Diadorim é mulher), Blade Runner (Rick Deckard pode ser, ele próprio, um andróide), Testemunha de Acusação de Agatha Christie (o réu é culpado; perdoem o spoiler, mas a narrativa vale a pena), Lolita de Nabokov (a garota traía Humbert o tempo todo com Clare Quilty), e assim por diante. 
 
Aliás, um argumento interessante em favor do romance policial clássico (tipo Conan Doyle ou Agatha Christie) é que os bons romances oferecem uma segunda leitura superior à primeira. Somente ao saber “quem é o criminoso” somos capazes de perceber, retrospectivamente, as mil pequenas alusões e pistas que o autor, exercendo o “fair play”, distribuiu ao longo da história. 
 
Temos também o tema do personagem misterioso, ou invisível. Algumas narrativas se baseiam na existência de um personagem que é mencionado o tempo inteiro, por todo mundo... mas nunca aparece. Tudo se atribui a ele, tudo depende às vezes de uma opinião ou de uma ordem dele, mas isso só é conseguido de forma indireta. Os outros personagens façam longamente a seu respeito, dão opiniões, louvam ou queixam-se; mas ele nunca aparece. E no entanto tudo na história gira em torno dele. 
 
É o caso de Rebecca, do romance homônimo de Daphne Du Maurier; do elusivo Almotásim, em « A aproximação a Almotásim” de Jorge Luís Borges; do enigmático Godot, de “Esperando Godot” de Samuel Beckett. 



 
A ficção científica nos acostumou a novos tipos de mistério. Entre eles, um dos que mais me fascinam é o das macroestruturas cósmicas. Alguns críticos já as chamaram, com bom humor, de “grandes objetos mudos” ou “grandes objetos burros” (“Big Dumb Objects”). Estas histórias descrevem a descoberta, por astronautas humanos, de “macro-estruturas” artificiais, de dimensões gigantescas e enorme complexidade tecnológica, deixadas ali por alguma raça de tecnologia muito superior à nossa. São verdadeiras civilizações espaciais, mas estão abandonadas e vazias. Quem as construiu? Quando? Pra quê? Como funciona tudo aquilo? 
 
O mistério, basicamente, consiste numa informação incompleta, ou misturada, que requer clarificação, requer resposta. Se o mistério for bem apresentado, ele gera na mente do leitor uma porção de hipóteses, uma porção de expectativas diferentes, tentativas de explicação para aquilo que parece inexplicável. E o leitor não descansa enquanto não souber qual é a explicação verdadeira. 
 
E com isto chega-se à bifurcação final deste gênero. É uma bifurcação definida pelo que eu chamo de “Protocolo da Resposta” e “Protocolo da Pergunta”. No primeiro caso estão as histórias que prometem ao leitor: “vai ter uma resposta certa no final, fique firme, continue lendo e todo o mistério vai ser esclarecido”. O romance policial detetivesco se baseia nessa certeza de que “tem uma resposta à nossa espera”. 
 
Mas existe, por outro lado, o “Protocolo da Pergunta”, que é mais arriscado e talvez mais difícil de manipular. Nas histórias regidas por este protocolo, não há resposta final. O enigma se mantém. Os personagens alcançam, no máximo, soluções parciais para o mistério, mas a maior parte dele permanece no escuro. E isto faz com que uma parte do público saia irritada do cinema ou largue o livro com aborrecimento, depois de ler a última página. “Cadê a resposta que eu esperei todo este tempo?”, pergunta o leitor insatisfeito. 
 
Por isso é importante cercar o livro (ou o filme) de certas sinalizações, para prevenir o público a respeito do que esperar. Não prometer que há uma resposta. Histórias baseadas no “Protocolo da Pergunta” são aquelas que anos depois todo mundo continua discutindo com o mesmo afinco. É um mistério que nunca se resolveu. Cada pessoa tem sua hipótese. O autor fica em silêncio. E o mistério continua. 
 
*******
 
No próximo sábado, 6 de junho, das 13 às 15:00, estarei discutindo este tema, presencialmente, como convidado da Feirinha do Livro do Largo de Santa Rita, no centro do Rio de Janeiro, ao lado da Av. Visconde de Inhaúma. É uma feira de editoras independentes, com palestras, debates, lançamentos de livros, em mais um esforço para revitalizar o Centro do Rio.
 
É uma “workchope”, como dizem os organizadores, com inscrições pagas e direito a um chope. Inscrições e informações: (21) 9-8816-7955. 





sexta-feira, 4 de julho de 2025

5188) O conto de mistério e suas variantes (4.7.2025)



 
Uma coisa é conto de mistério, e outra coisa é conto de crime. O que chamamos “conto policial” é a convergência entre os dois. Uma coisa não depende literariamente da outra. Há milhares de exemplos de ótimos contos (ou romances) onde aparece apenas um dos dois. 
 
Quando a gente vai ler em inglês, contudo, o romance policial aparece quase sempre sob a rubrica “Mystery”. Cada pessoa tem suas simpatias: eu simpatizo mais com o conceito de Mistério do que com os conceitos de crime, polícia, suspense, espionagem, investigação... 
 
Qualquer manual de escrita criativa ou de roteiro que a gente folheia irá nos dizer que o que empurra uma narrativa para diante é o Conflito. Ou seja: para que a narrativa tenha impulso, motivação, tensão psicológica, e force o leitor a ficar virando as páginas, sem conseguir soltar o livro, é preciso haver Conflito. O personagem quer algo, mas há uma porção de forças (pessoas, instituições, leis, etc.) tentando impedir: Conflito. Ou então o personagem não quer algo, e as mesmas forças tentam impor esse algo sobre ele: Conflito. 
 
Eu concordo com a importância do Conflito, mas faço algumas ressalvas. A primeira é: pelos resultados que vejo por aí, as pessoas traduzem “conflito” por “briga, agressão mútua, guerra”. Conflito, para elas, significa troca de socos ou de tiros, perseguições, ameaças, duelos violentos. Ou então personagens brigando entre si o tempo todo. 
 
A segunda ressalva é que há milhões de narrativas importantes, na literatura, no cinema, no teatro, em que há elementos muito mais importantes do que o conflito, e na verdade os conflitos que se estabelecem nessas histórias são um efeito secundário do tema principal. 



 
Peço licença aos partidários do Conflito para sugerir que um motor igualmente possante para uma narrativa é o Mistério. Ou seja: a tensão e o equilíbrio entre o conhecido e o desconhecido. Podemos graduar o microscópio até o nível mais elementar de definição: o “mistério” jaz exatamente nessas centenas de páginas que não lemos ainda, quando abrimos o livro no famoso “Capítulo 1”. Todo livro é um mistério à nossa espera. 
 
Como esse nível é o mais óbvio, nem vou me demorar nele. Lembro, porém, que toda narrativa de ficção consiste no desdobramento gradual de informações, revelações, iluminações de todos os tipos. Isto acontece através da ação, que nos conduz ao longo de surpresas, peripécias, suspenses e desfechos, puxadas de tapete, “plot twists”. São os personagens, que evoluem e se modificam (ou se revelam) ao longo da história. É o próprio ambiente, que nos traz revelações inesperadas (aqui penso especialmente nas histórias fantásticas que transcorrem em mundos bizarros). 
 
Quando não conseguimos largar um livro e ficamos virando página, virando página, é porque um Mistério se ergueu à nossa frente, para nos atrair; e ele vai sendo revelado de-pouquinho, para manter essa atração. 
 
Eu uso de vez em quando, para abordar contos de mistério (em qualquer gênero literário) dois conceitos que chamo de “Protocolo da Resposta” e “Protocolo da Pergunta”. São conceitos opostos, que podem até vir misturados numa mesma narrativa, mas convém examinar cada um em separado. 
 
O Protocolo da Resposta é uma espécie de pacto, entre o autor e o leitor, de que os mistérios apresentados ao longo do livro têm uma resposta, elaborada pelo autor, e essa resposta será fornecida ao leitor no final, no interior da própria narrativa. 
 
Como se o autor avisasse: “Fique tranquilo. Sei que parece tudo confuso, ou sem pé nem cabeça, mas tudo isso vai ter uma explicação no fim.” 



 
O exemplo mais comum desse protocolo é o conto de detetive -- onde há um crime misterioso, cheio de pistas enigmáticas ou contraditórias, mas no final o detetive apresenta uma solução satisfatória para toda essa confusão. O leitor vai dormir tranquilo. O mistério foi respondido. 
 
Já o Protocolo da Pergunta é uma espécie de pacto em que o autor não promete nada ao leitor além da formulação de perguntas, de mistérios, de enigmas. A função dessas histórias não é esclarecer mistérios, mas deixá-los flutuando no ar, enquanto autor e leitor, de braços cruzados, os observam, perguntando-se: “E agora?...” 
 
Há quem deteste histórias assim. Há quem goste, e muito (eu, por exemplo). Os romances de Franz Kafka. A maioria dos filmes de David Lynch. Os contos de Robert Aickman. 
 
Por que? Talvez porque na vida real a quantidade de perguntas não-respondíveis seja muito grande, e a gente precise “engrossar o couro”, como se diz popularmente, para poder lidar com elas. Tornar-se calejado.  Não se deixar abater pelo Desconhecido. Ele faz parte da experiência humana. 
 
E é por esse mesmo motivo, claro, que as histórias com o Protocolo da Resposta nos são tão bem vindas, parecem tão confortáveis, como uma água de coco em dia de muita sede. 
 
Mas enfim – a natureza da experiência literária é que seja variada, divergente, contraditória, complementar... Cada história cumpre uma função diferente num momento diferente. E cada leitor escolhe o que lhe convém. 
 
Algumas semanas atrás, ministrei um curso online sobre a narrativa policial, A Narrativa de Mistério e Crime, pelo Instituto Caminhos da Palavra, capitaneado pelo imbatível Henrique Rodrigues. 


 
Foram quatro aulas muito proveitosas, e surgiu o pedido para uma expansão – que vem agora, pelo mesmo Instituto, nos dias 8, 15, 22 e 29 de julho (sempre às terças-feiras), e vai se intitular “O Conto de Mistério e Suas Variantes”. 
 
Vamos examinar contos de mistério de diferentes formatos: mistério detetivesco, mistério sobrenatural, mistério psicológico, mistério fantástico... Os rótulos não importam muito, mas com essa pequena amostra (quatro aulas, doze contos apenas!) é possível ter uma idéia das variações possíveis para esse tipo de conto. 
 
Que dependem, sempre, da criatividade e imaginação do autor – e da receptividade e imaginação do leitor, que precisa entender qual o protocolo que rege aquele conto, e aceitá lo numa boa.  
 
Informações e inscrições aqui:
Link: https://caminhosdapalavra.com.br/Cursos/o-conto-de-misterio-e-suas-variantes-com-braulio-tavares/
Mail: contato@caminhosdapalavra.com.br
Fone: (21) 98816-7955  
 
 



terça-feira, 9 de novembro de 2021

4762) Seis desaparecimentos misteriosos (9.11.2021)



1
A Biblioteca Municipal “Silva Jardim”, de Iguaratuba (PA), tem duas salas conexas, ambas com estantes, mesas e cadeiras. Cada sala comporta no máximo 16 leitores sentados. Um garoto de 15 anos desapareceu da sala interna, quando não havia ninguém mais com ele. Esta sala tem apenas a porta de comunicação com a sala externa, e cobogós de ventilação, estreitos, a dois metros de altura. A sala externa se comunica com uma pequena cozinha e banheiro, além de ter duas portas para a rua principal da vila. Ali trabalha a bibliotecária em sua escrivaninha. D. Dolores Furtado, 43 anos, funcionária pública, que cuida da biblioteca há oito anos. Segundo ela, havia um grupo de jovens na sala interna, fazendo trabalhos escolares, quando chegou Domício Eleandro da Rocha, 15 anos, pediu um livro e sentou sozinho numa mesa da sala interna. Morava perto dali, e era frequentador habitual. Meia hora depois, o grupo retirou-se. Poucos minutos após a saída deles, ela olhou pela porta e viu o rapaz mergulhado na leitura, e as outras mesas vazias. Na sala externa, onde ficava a escrivaninha dela, havia apenas uma mesa ocupada. “Era segunda-feira, véspera de feriado, dia imprensado”, explicou ela, para justificar o pouco movimento. Meia hora depois, ao olhar de novo a sala interna, percebeu que estava vazia. Não havia a menor possibilidade do rapaz ter saído sem ser visto por ela ou pelas outros leitores da sala externa. O livro que ele pediu foi deixado em cima da mesa. Isto aconteceu há seis anos, e não se teve mais notícias do rapaz.
 
2
Em 1961, na Cidade do México, uma paciente de 60 anos, a sra. María Rosa de Burgos, foi hospitalizada com anemia e esgotamento nervoso. Deu entrada no fim da tarde, foi medicada e posta a dormir num apartamento particular do Hospital de Las Mercedes, enquanto sua filha Carmela voltava para casa a fim de buscar objetos pessoais. Durante cerca de 45 minutos a paciente ficou sozinha, sem a companhia de qualquer outra pessoa, embora a porta do quarto ficasse no começo do corredor, bem à vista da enfermeira-chefe por trás de seu balcão. Após a saída da filha ninguém se aproximou da porta até que uma das enfermeiras foi ver se estava tudo bem, e no lugar da paciente encontrou uma bebê de poucas semanas de vida, febril, sem fraldas, sem qualquer sinal de identificação. D. María de Burgos jamais foi vista novamente. A bebê desenvolveu uma infecção no dia seguinte e logo faleceu. Na época, não existiam as tecnologias genéticas de identificação. Não se sabe de onde veio a menina, nem para onde foi a paciente idosa.
 
 
3
A srta. Meriane Burgos Quinderé, 52 anos, 1,68m de altura, 85 kg de peso, solteira, desapareceu da casa de praia de sua irmã Valquíria, no litoral de Cascatinha (ES), num sábado à tarde. A casa, onde havia seis pessoas, ficava meio isolada em relação às casas mais próximas, mas permanentemente sob a vista do sentinela do forte histórico de Três Nações, a menos de trinta metros. Naquele dia, a família toda foi à praia, e voltou para casa para o almoço. D. Meriane, de maiô e calçando sandálias havaianas, entrou no banheiro principal para tomar banho e trocar de roupa. Notando a sua demora depois de vários minutos, a família chamou em vão e depois arrombou a porta. Foram encontrados no banheiro o maiô que ela usara no banho de mar, as sandálias com que viera, e a muda de roupa (dobrada, não mexida) que trouxera para vestir depois do banho. O banheiro tinha apenas a porta que foi arrombada e uma estreita janela com basculante, para ventilação, janela esta voltada na direção do Forte, cujo sentinela garantiu que não viu ninguém sair por ali, muito menos uma senhora sem roupa alguma. Mesmo diante da improbabilidade dessa hipótese, um dos sobrinhos da desaparecida conseguiu içar-se até a janela para tentar sair por ela, mas ficou preso na passagem e acabou caindo e quebrando o braço. A família ofereceu uma sólida recompensa a quem trouxesse informações, mas de nada adiantou.
 
4
Na noite de 3 de maio de 1997, um carro se deteve na cancela de acesso ao Condomínio “Sonho Azul” na Estrada do Joá (Rio de Janeiro). O guarda que abriu a portinhola notou que o motorista estava sozinho, era um homem corpulento, de rosto largo, trajando paletó, e que aparentava estar chorando. O homem anunciou: “Casa oito, Dra. Freitas”. O vigia pegou o interfone e maquinalmente ligou para a casa oito, e quando não teve resposta lembrou-se que a casa 8 estava fechada há dois meses. Quando olhou novamente, o carro estava vazio, e uma fila de veículos recém-chegados já começava a se formar por trás dele. O segundo vigia, que saíra para fumar a alguns metros dali, garantiu sob juramento que ninguém havia deixado o automóvel, que continuou com o motor ligado e as luzes acesas. Seguiu-se uma certa confusão até que alguém tomou a providência de desviar o carro para que os demais automóveis de moradores e visitantes pudessem entrar. O homem que dirigia o carro (alugado poucas horas antes na locadora Hertz do Leblon, sob um nome que se comprovou falso) nunca mais foi visto. Representantes da administração do condomínio informaram às autoridades que a casa oito estava desocupada há várias semanas depois que a única moradora, uma médica aposentada, se enforcara no terraço.
 
 
5
O voo 1146 da Southwest Airlines entre Austin (Texas) e Miami (Flórida) decolou no dia 14 de fevereiro de 1973 com 84 pessoas a bordo. O voo foi sem escalas e tranquilo, com pequenas turbulências ocasionais, comuns na região próxima ao Golfo do México. Depois que todos desembarcaram, as comissárias perceberam nos porta-bagagens as bolsas e sacolas de duas passageiras, mãe e filha, que vinham sentadas juntas numa das últimas fileiras. Ninguém se lembrava de tê-las visto desembarcar, embora uma das atendentes tivesse trocado algumas frases com elas durante o voo. As bolsas de ambas estavam com documentos, carteira de dinheiro e objetos de uso pessoal. Elas eram a sra. Millicent Hopkins, 60 anos, e sua filha Nathalie, de 31, que iam comparecer ao aniversário de um parente. Pessoas da família que estavam à sua espera em Miami pressionaram por todos os meios a companhia aérea, a polícia revistou o avião de ponta a ponta. As duas senhoras Hopkins jamais foram vistas novamente, e a companhia abafou o caso.
 
 
6
Em 8 de julho de 1972, após uma reunião no Sindicato dos Gráficos de Ribeirão Preto (SP), onde se decidiu pela manutenção da greve da categoria, que já vigorava há duas semanas, o sindicalista Pedro Faustino Gitarelli, 42 anos, residente em São Paulo, despediu-se dos companheiros à 01:30 da madrugada. Embora o hotel onde se hospedara naquele dia estivesse a poucos quarteirões de distância, os colegas o aconselharam a tomar um táxi, devido ao adiantado da hora. Ele embarcou num táxi estacionado nas proximidades, cuja placa não chegou a ser anotada. O hotel não registrou seu retorno nesse horário. Um parente veio, dias depois, recolher sua mala e objetos pessoais. Pedro Faustino nunca mais foi visto, nem se tem notícias do seu paradeiro.
 
 




segunda-feira, 1 de junho de 2020

4585) 10 desaparecimentos (1.6.2020)




1
Amélio Barata, português, 35 anos, escriturário. Desapareceu no Rio de Janeiro, onde morava. Foi visto pela última vez saindo de carro da garagem do prédio onde trabalhava, às 18:12 de um dia corriqueiro, e não se soube mais dele. Até que, em 1996, quase quinze anos depois, o carro foi identificado como um dos muitos carros semi-destruídos na explosão de um caminhão-gaiola que ia do Rio para São Paulo, capital. O próprio dono havia assinado os papéis do transporte, mas não apareceu nem pôde ser localizado no endereço fornecido. Depois deste sinal de vida, não houve mais nenhum.

2
Deborah Winterslip, 43 anos, morava em Milwaukee (EUA) em 1971, e numa noite de sexta-feira estava com o marido recebendo dois casais de amigos para jantar, em seu apartamento. Enquanto os outros bebiam na sala ela foi à cozinha providenciar algo e demorou a voltar. O marido foi procurá-la, não achou. Ninguém na portaria a viu sair, os vizinhos não ouviram nada, não havia motivo aparente para que ela saísse sem dar explicações, nenhum telefonema inesperado, nenhuma discussão. Em 1983 ela foi encontrada sentada nos degraus de entrada no mesmo prédio, sem documentos, com a mesma roupa que usava naquela noite, envelhecida, doente, sem memória de nada.


3
Chad Evelyn, 48 anos, motorista de aluguel, caminhoneiro, nasceu no Arkansas, trabalhou em Detroit, passou alguns anos no México, voltou para a Califórnia, e de lá mudou-se para Austin, Texas. A última imagem que se tem dele é a de sua chegada no aeroporto local, com duas ou três malas. Não se sabe se alguém foi buscá-lo ou se pegou táxi. Desapareceu em algum vazamento do universo, desde a tarde de 28 de novembro de 1995. Oito anos depois, alguém usando seu nome escreveu uma série de cartas bizarras que foram publicadas na Seção de Cartas do American Statesman local, mas somente em 2011 isto chamou a atenção de um policial aposentado. Buscas foram feitas, sem resultado.

4
Zimbauê Sales, doméstica, 31 anos, do Recife, entrou para um grupo musical como percussionista e cinco anos depois estava tocando em festivais de verão na Europa. Viajava durante dois ou três meses, depois voltava para casa. Tocou com as principais bandas do Nordeste mas, fora ensaios e shows, estava sempre em casa cuidando das quatro filhas, que dividiam com ela todas as tarefas. Quando viajava, a mãe cuidava das filhas. Tudo estava bem até uma noite em Estocolmo em que ela parou de tocar, de repente, e ausentou-se do palco. A banda estranhou, mas teve que continuou tocando, e no final do show ela não estava no camarim, nem no teatro, nem no hotel, nem em Estocolmo. A banda voltou para o Brasil, depois de adiar a viagem por duas vezes. A polícia sueca continua investigando.


5
Julia Borges de Santana, 38 anos, escriturária, São Paulo. Após o encerramento de uma reunião na firma onde trabalhava, num sexto andar, todos desceram no elevador, menos Julia, pois a cabine estava muito cheia e ela disse: “Desçam vocês, eu desço em seguida”. Os colegas desceram, o elevador voltou a subir e eles ficaram à espera. O elevador desceu, novamente, mas estava vazio. Eles esperaram. Depois, dois deles subiram para ver a razão da demora. Não a encontraram, e a polícia também, nos meses que se seguiram. Revistaram o poço do elevador, todos os escritórios (que estavam fechados àquela hora, pois passava das 22:00), o pátio dos fundos, as laterais, a calçada. Julia nunca mais foi vista.

6
Homem não identificado, aparentando 50 anos, bem vestido. Entrou por volta das 16 horas numa livraria de livros usados em Montreal (Canadá). Depois de examinar as estantes durante cerca de meia hora, sem conversar com ninguém, ele levou dois livros ao balcão, pagou em dinheiro, recebeu o troco e antes de sair perguntou se poderia usar o banheiro, que ficava do lado de dentro do balcão. Entrou lá, e meia hora depois, como demorou a sair, o balconista bateu na porta, perguntando se precisava de alguma coisa. Sem resposta, a porta foi aberta, e não se viu sinal do cliente. O banheiro tinha apenas uma minúscula janela de basculante, por onde nem sequer uma criança poderia ter saído. O balconista não havia saído dali nem por um instante. Dois outros clientes estavam lá desde o momento em que ele entrou no banheiro. Os livros que ele comprou não foram encontrados. O balconista, nervoso, não lembra dos títulos.


7
Henry Leeworth, 46 anos, taxista, em Londres. Desapareceu ao dirigir o próprio táxi, com um passageiro no banco de trás, por volta das 19 horas de uma quinta-feira, em agosto de 1972, nas proximidades do Embankment. O táxi ficou retido num engarrafamento. O passageiro deu um cochilo de menos de um minuto (garante ele) e quando acordou o motorista não estava mais ao volante, embora o motor continuasse ligado. Ele imaginou que o outro tivesse descido para examinar os pneus. O motorista não voltou. Um guarda veio ver o que tinha acontecido, quando o tráfego voltou a fluir. O passageiro prestou vários depoimentos, todos idênticos, todos perplexos, nas semanas seguintes. A viúva (?) vendeu o táxi.

8
Colette Mazolle, 26 anos, estudante universitária, Paris. Mudou-se em outubro de 1998 para o apartamento que iria dividir com uma amiga no Faubourg St. Germain. As duas compraram alguns móveis, levaram malas e roupas e livros, e já estava tudo quase pronto para começarem a morar oficialmente. Colette foi ao apartamento pela manhã, para deixar a TV que os pais deram de presente, e voltou a sair. A amiga, Simone Mazzarello, 28 anos, saiu também para assinar documentos. Voltou duas horas depois para deixar lá algumas compras e viu que absolutamente tudo de Colette havia desaparecido: móveis, livros, roupas, papéis, objetos pessoais, artigos de higiene, a TV. Ninguém no prédio viu nada sendo levado embora (era um apartamento de terceiro andar, sem elevador). Não havia bilhete ou qualquer explicação, e Colette nunca mais foi vista.



9
Miranda Lethering, 6 anos, de Edinburgh. Desapareceu durante uma visita guiada a um museu de arte local, onde estava na companhia de mais dezoito coleguinhas e três professoras. A certa altura da visita, ainda no interior do museu, as professoras deram por falta da garota, que momentos antes estava admirando um sarcófago egípcio. Revistou-se o museu inteiro durantes horas, bem como as ruas vizinhas; o próprio sarcófago chegou a ser aberto naquela noite, por insistência das mestras, mas até hoje não se tem notícias da menina. Isto ocorreu em 1962.

10
Oito pessoas, homens e mulheres, com idades entre 22 e 67 anos, desapareceram durante um voo internacional direto, entre Nova York e Londres, em alguma data de novembro de 1993. O Boeing da BOAC decolou do aeroporto norte-americano com 185 pessoas a bordo e pousou na manhã seguinte em Heathrow com apenas 177. Durante o voo, os comissários percebiam de vez em quando alguma poltrona, antes ocupada, agora vazia, mas o avião tinha vários lugares desocupados e trazia mais de cinquenta componentes de uma orquestra, que mudavam de assento com frequência, para conversar. As oito pessoas desaparecidas não tinham relação com a orquestra: eram dois casais, e quatro passageiros que viajavam sozinhos. A presença de todos durante o voo foi confirmada pelos comissários. O voo era direto, sem escalas. Nada se soube deles daí em diante. A companhia aérea abafou o caso.











quarta-feira, 16 de outubro de 2019

4513) 26 perguntas (16.10.2019)



1
Por que motivo se diz que a imagem de uma impressão digital é uma imagem analógica?

2
Onde fica o centro geográfico-geométrico do território brasileiro, e será que existe um marco assinalando esse local?

3
É verdade que num labirinto finito basta avançar com a mão esquerda tocando a parede, seguir todas as curvas e esquinas, e cedo ou tarde se volta à porta por onde se entrou?

4
Existe algum processo historiográfico para descobrir quem compôs a melodia de “Ciranda, Cirandinha” (ou pelo menos onde e quando isso aconteceu)?

5
Existe (talvez nos arquivos dos jornais de Campina Grande) alguma foto reunindo os torcedores-símbolo do Treze e do Campinense nos anos 1970 – Zé Pezinho e Papa-Sebo?

6
Aquela rua à noite, calçada de paralelepípedos, que subia para a esquerda após a saída de um bar que fechava as portas tarde da noite, com uma turma que conseguiu comprar algumas garrafas e saía conversando e rindo em voz alta, aquilo foi vivido ou foi sonhado?

7
É verdade que, numa mesa de restaurante com muita gente, quem primeiro diz “vamos dividir pelo número de pessoas” é quem mais comeu ou bebeu?

8
Qual o fragmento de escrita poética mais antigo do mundo?

9
Por que será que uma pessoa morta só pode ser enterrada em terrenos bem específicos (não pode ser numa praça ou no quintal da casa, p. ex.), mas as suas cinzas podem ser largadas em qualquer canto?

10
Por que motivo algumas pessoas, geralmente mulheres, choram ser saber por que motivo estão chorando?

11
Quantas vezes eu terei sentado (no cinema, no ônibus, numa sala de espera, etc.) ao lado de uma pessoa que aniversaria no mesmo dia que eu, e ninguém ficou sabendo?

12
É verdade que o pão só cai com o lado da manteiga para baixo porque o lado que tem manteiga é mais pesado?

13
Se alguém começasse a caminhar pela praia, saindo da Ponta do Seixas (PB), indo na direção do sul, andando 12 horas por dia, quando tempo levaria para chegar na praia de Copacabana?

14
Existe algum significado oculto no fato de eu estar de passagem pelo Recife no dia em que morreram tanto John Lennon quanto George Harrison?

15
Quem guardou a mala cheia de manuscritos de Ernest Hemingway que foi esquecida para sempre numa estação de trem na França?

16
Por que motivo a mesma dor percorre o corpo, ardendo hoje aqui, amanhã acolá, como se estivesse à procura do ponto mais fraco de uma muralha?

17
Como se faz para cortar rocha vulcânica?

18
Existe alguma coisa no Universo que tenha uma única causa?

19
Quanto tempo leva o sangue para dar a volta completa ao corpo?

20
Por que motivo a gente ao acordar esquece completamente o que estava sonhando, mas no transcorrer do dia basta às vezes uma palavra, um nome, uma imagem, para aquilo tudo brotar de repente, por inteiro?

21
Existe alguma razão não-aleatória para o fato de a distância entre a Terra e a Lua ser de quase exatamente um segundo-luz?

22
Por que motivo biológico os nossos dedos não são todos do mesmo tamanho?

23
Como morreu Horácio Grande, o cangaceiro que iludiu Lampião com uma carta falsa e o levou a massacrar uma família inocente na região de Floresta (PE) em 1926?

24
Quais as faixas na discografia oficial dos Beatles em que participaram menos pessoas?

25
Por que motivo vemos fantasmas de pessoas de alguns séculos atrás mas ninguém jamais avistou o fantasma de uma pessoa da pré-história?

26
Quantas pessoas, que precisam diariamente subir de novo a mesma escada (em casa, no trabalho, etc.) já contaram e sabem exatamente quantos degraus existem ali?










sábado, 10 de setembro de 2016

4157) O mistério do 11 de setembro (10.9.2016)




(foto: Richard Drew / Associated Press)

Quando aconteceu o atentado às Torres Gêmeas, eu fiquei pregado à TV durante um dia inteiro, porque justamente na véspera um pequeno problema de hardware me deixara sem acesso à Internet. (Fiquei irritado porque 11 de setembro era a data marcada para o lançamento do álbum Love and Theft de Bob Dylan, e eu queria ver os clips de lançamento.)

Na época eu fazia freelancer para a Editora Guanabara, que estava para lançar um Atlas Histórico ligado à Enciclopédia Delta; e minha editora Liana Pérola Schipper me encomendou uma matéria longa, especial, sobre o assunto. Nos dias seguintes, resolvido o problema de conexão, eu praticamente não fiz outra coisa senão ler e capturar textos e imagens a respeito da catástrofe do WTC.

(Digressão: acho que isto é uma resposta neurótica comum, em mim pelo menos, diante de um fato esmagador e terrível. O processo de juntar e organizar informações sobre o fato de certa forma nos protege do perigo de pensar sobre ele. É uma fase intensa mas passageira.)

Quando o indivíduo é leitor de romance policial e de ficção científica, não há como não ser um cultor, em certa medida, das Teorias da Conspiração.

A literatura policial nos ensina que não há um limite visível para a cobiça humana por dinheiro, nem para as maldades que seres humanos são capazes de fazer para ter mais Poder. A ficção científica expande esse conceito para o Universo como um todo.

Li na época uma entrevista com um dirigente da CIA em que, depois de explicar mais ou menos (ainda se estava em plena investigação) como os terroristas tinham sido treinados para usar os aviões e tudo o mais, ele disse:

“O que me deixa mais acabrunhado é pensar que nós (a CIA) não teríamos ousado pensar num plano como este, e, se pensássemos, não teríamos acreditado que era possível.”

Modéstia do rapaz. Eu atribuo à CIA (e se não foi a CIA foi alguma outra agência da “sopa de letrinhas” de que falava John Michael Hayes, o roteirista de Intriga Internacional) um plano ainda mais mirabolante do que o de meia dúzia de jihadistas sequestrando o cockpit de três ou quatro aviões.  (Digo 3 ou 4 porque até hoje não vi o famigerado “avião” que teria sido jogado no Pentágono.)

Este link (http://www.europhysicsnews.org/articles/epn/pdf/2016/04/epn2016474p21.pdf) conduz a uma matéria do saite Europhysics News sobre o atentado, intitulada: “15 Years Later: On The Physics Of High-Rise Buildings Collapses”, de Steven Jones, Robert Korol, Anthony Szamboti e Ted Walter.

O cerne da questão é: como se explica que as duas Torres, que tinham estrutura de metal, tenham desmoronado daquela forma, se todos os testes provam que a temperatura daquele fogo seria insuficiente para fazer ceder o metal? E mais ainda: como se explica que o WC7, o terceiro prédio a desmoronar naquele dia, tenha aluído praticamente todo ao mesmo tempo, horas depois do choque dos aviões?

Já escrevi a respeito, aqui:



Em matéria de história mal contada, o World Trade Center nunca vai deixar de assombrar nossas noites mal dormidas. Mal contada – não por escassez de explicações, mas pelo excesso. A melhor maneira de esconder uma informação não é proibindo que seja divulgada, é disfarçando-a no meio de uma selva de informações irrelevantes e parecidas. (Aprendi isto com Agatha Christie.)

Poucos acontecimentos do novo século podem se comparar ao impacto da queda das Torres. Mesmo a Guerra do Iraque e a do Afeganistão, que se seguiram, foram guerras convencionais, iguais a qualquer outra guerra.  O atentado do 11 de setembro teve acima de tudo o impacto do ineditismo, do nunca-acontecido, do fato que estourou-a-costura da nossa imaginação.

Talvez um dia seja confirmado que a queda das Torres não se deveu à ação de terroristas islâmicos, e foi na verdade uma gigantesca queima-de-arquivo de empresas privadas e do Governo que estavam metidas em enrascadas mil, além de uma excelente oportunidade de sofrer um ataque estrangeiro que obriga a um revide imediato, como em Pearl Harbor.

Há muitas teorias de que na II Guerra os EUA precisavam de um pretexto para entrar numa guerra que a população via com distanciamento, e adotaram uma atitude passiva-agressiva, pedindo ao Japão: “Me dê motivo”.  Os japoneses, em sua euforia expansionista, caíram na armadilha e bombardearam o porto.

Se confirmarem um dia que os próprios EUA derrubaram as Torres, este fato será tão relevante e tão impactante quanto a queda das Torres, quinze anos atrás.

E será uma revelação crucial sobre a natureza de nossa civilização: uma civilização em que qualquer história gigantescamente absurda pode ser impingida como verdade à população, durante uma quantidade de tempo finita (mas suficiente para os objetivos estratégicos imediatos).






terça-feira, 29 de setembro de 2015

3931) O enigma nas letras (29.9.2015)




Em Arsène Lupin, Ladrão de Casaca, a primeira coletânea de contos do gentleman-assaltante-detetive criado por Maurice Leblanc, grande sucesso do romance policial entre 1905-1935, há um conto em que o mistério repousa numa fórmula antiga, preservada através das gerações.

Convidados importantes estão no castelo de Georges Devanne, admirando “as incomparáveis riquezas acumuladas através dos séculos pelos senhores de Thibermesnil.” Numa das torres, Devanne mostra a todos o frontão da estante, onde o nome do castelo está soletrado com sólidas letras de ouro.

Vou omitir a aventura, subsequente, porque me interessa a frase da fórmula antiga. Ela diz, no original francês: “La hache tournoie dans l’air qui frémit, mais l’aile s’ouvre, et l’on va jusqu’à Dieu.”  Mais ou menos: “O machado gira no ar que treme, mas a asa se abre e vai-se até Deus.”  Durante séculos essa indicação do tesouro da família passou de geração em geração, transmitida com fervor por pessoas que já as receberam de quem não as compreendia. Eram as coordenadas do tesouro. Esperava-se que um dia algum descendente da família descobrisse o seu sentido.

Arsène Lupin percebe que os objetos citados na frase estão ali mascarando três letras, porque em francês é muito parecida a pronúncia de “hache” e H, “air” e R, “aile” e L.  Ele descobre que entre as sólidas letras de ouro por cima do frontão da estante monumental, dizendo THIBERMESNIL, existem três que são móveis: o H gira e o R treme e o L se abre. “E vai-se até Deus.”  Executando esses movimentos nas respectivas letras, abre-se a porta ancestral da passagem secreta, e vai-se até a capela do castelo por um subterrâneo. (Que Lupin utiliza para saquear as riquezas do castelo, no primeiro movimento dessa trama.)

O mistério vinha pelo menos desde o reinado de Henri IV (morto em 1610). A pessoa que cifrou a senha de abertura do mecanismo usou premeditadamente letras cujos nomes, ditos em voz alta, evocavam substantivos variados: machado, ar, asa. Era fácil construir uma estrutura memorizável em torno desses três substantivos, sem dar a entender que eles estavam ali apenas para representar três letras.

É um enigma engenhoso, porque se vale da superposição entre linguagem oral e linguagem escrita, usando uma para preservar pistas em outra. Neste conto, Lupin mede forças com Sherlock Holmes (no livro chamado Herlock Sholmes, por querelas autorais). O conto de Leblanc (1906) lembra “O Ritual Musgrave” (1893) de Conan Doyle, também sobre uma fórmula preservada mas não compreendida. Mas Leblanc vai um passo além de Doyle, como bom discípulo, e introduz uma criptografia de natureza mais original.



terça-feira, 14 de maio de 2013

3186) 16 mistérios (15.5.2013)




De quem era o número de telefone que o detetive Kingsley levava anotado num papel quando foi abatido a tiros na esquina de Oitava Avenida com rua 43? 

O que pretendiam os ladrões que arrombaram o Rijksmuseum em abril de 1976, sem nem sequer tocar em inúmeras telas valiosíssimas, e roubando apenas a obscura Telêmaco brinca na praia (1825) de Jacobo Mirotsky, que nunca foi recuperada? 

Por que motivo os mergulhadores do litoral paulista examinam todos os galeões naufragados naquela região, mas por uma espécie de consenso silencioso não se aproximam jamais dos restos da nau de Afonso Quartim, afundada por uma tormenta em 1647?

Quem deixou aberta naquela noite a janela do lado do motorista do carro do Dr. Sérgio, facilitando o posterior arrombamento e o roubo do aparelho de som onde ele, na volta para casa, deixou plugado o pendraive onde estava gravada a reunião dos acionistas, encerrada há pouco? 

Em que base militar sub-orbital estão vivendo e sendo analisados pela ciência a tripulação e os passageiros do “Mary Celeste”? 

Quem foi o homem preso num buraco e executado às pressas em nome de Saddam Hussein? 

O que disse Heloísa Binelli na longa mensagem de 11 minutos que deixou gravada na secretária eletrônica de seu noivo Rafael, antes de se suicidar, e que ele, sem perceber, apagou sem ouvir?

Quanto custou, afinal, a fazenda que Alípio Monteiro vendeu ao próprio sogro, e com o dinheiro recebido comprou a própria fazenda de volta e mais duas? 

Quem construiu as enormes plataformas submarinas com degraus por onde poderiam subir milhares de pessoas, e que hoje jazem submersas no Mar do Japão? 

Por que a palavra “adumptarelli” desapareceu do italiano moderno mercê de um simples decreto de um Papa no século 18? 

Onde está escondida a correspondência entre Lee Oswald e Jack Ruby nos seis meses que precederam o Caso Kennedy?

Quem estrangulou, no trajeto entre o 33o. andar e o térreo, o ascensorista encontrado morto no elevador do prédio da Sears na praia de Botafogo?  

Por que Nilcéia disse a Raimundo que não era prima de Rute, sem saber que ele conhecia a família dela e achou que mentindo ela revelava ter preconceito racial? 

Em poder de quem estão atualmente as máscaras de chumbo usadas por Manoel Pereira e Miguel Viana quando morreram em 20 de agosto de 1966, em Niterói? 

Quando será descoberto o cofre de mogno enterrado pelo coronel Pamplona embaixo da soleira de sua fazenda em Mirassol, contendo cartas e diários escritos por ele durante a fracassada Revolução da Foice? 

Como foi decidida a demarcação de fronteiras que cedeu ao Brasil o Pico da Neblina, com todas as consequências geopolíticas que isso terá no século 22?










quarta-feira, 7 de março de 2012

2811) O Poço do Dinheiro (7.3.2012)




Existem dois tipos de mistério, o mistério sobrenatural (que envolve espíritos, almas, etc.) e o mistério natural (que se reduz ao mundo da matéria). Este segundo tipo se divide em mistérios fantásticos e mistérios realistas. Os fantásticos incluem coisas que, se confirmada sua existência, mudariam nossa visão do mundo (sem envolver nada espiritual): o monstro do Lago Ness, a Atlântida, por exemplo. Os mistérios realistas envolvem apenas segredos, enigmas, etc., nada que mude nossa visão das ciências; são os mistérios históricos. Quem foi Kaspar Hauser? Quem era o Prisioneiro da Máscara de Ferro? Quem foi o Embuçado que avisou os inconfidentes mineiros que seu plano fôra descoberto? São fatos isolados, específicos, cuja solução em nada alteraria os paradigmas da Ciência humana.

Um dos mais interessantes é o que Rupert Furneaux chamou, em seu livro Grandes Mistérios da Humanidade, o Poço do Dinheiro. Em 1795, alguns rapazes descobriram em Oak Island (uma ilhota em Nova Escócia, na costa do Canadá) o que parecia ser uma escavação circular, como um poço soterrado. Iniciaram então uma “busca ao tesouro” que durou o resto das suas vidas, atravessou os séculos 19 e 20, e continua até hoje (veja o saite: http://www.oakislandtreasure.co.uk/). Toda a engenharia contemporânea não foi capaz de chegar ao fundo desse poço onde já foram encontrados vários tipos de artefatos (o que é de se esperar) e numerosas camadas protetoras de madeira ou de pedra indicando que quem enterrou algo ali cercou-se de enormes precauções para que aquilo não fosse descoberto. Talvez já se tenham gasto milhões de dólares na escavação desse poço, mas cada vez que se vai mais fundo ele é inundado pela água do mar (que fica próximo) por um “sofisticado sistema de túneis protetores”.

O que diabo pode haver ali? Talvez dinheiro dos piratas ou dos revolucionários do século 18. As teorias mais delirantes falam no Santo Graal, na Arca Perdida da Aliança, nos segredos dos Templários, e até (não estou brincando) na prova de que as peças de Shakespeare foram escritas por Sir Francis Bacon. A teoria mais cética diz que aquilo é apenas um sumidouro, uma terra alagadiça que desmorona sobre si mesma sempre que é escavada, e que engoliu artefatos dos antigos pioneiros ou de marujos que fizeram ali algum ponto de apoio provisório. O Poço do Dinheiro é um mistério natural (ninguém sugeriu explicações espirituais) e realista, porque o que quer venha a ser encontrado dificilmente mudará nossa visão do mundo. A menos que seja uma antecâmara para a cripta submarina em R’lyeh, onde Cthulhu prepara, sonhando, o seu retorno à Terra.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

2471) O mistério Krapotkin (4.2.2011)



“A semelhança eufônica com o nome do famoso anarquista poderia explicar, em parte, o relativo ostracismo a que o escritor russo-brasileiro Krapotkin foi estranhamente relegado", comentou o crítico J. Silveira sobre o fato de que até o Google localiza com dificuldade as (poucas) páginas dedicadas ao excêntrico romancista. Criador de uma Oulipo “avant la lettre”, e várias vezes comparado a Borges (cuja obra aparentava desconhecer ou desdenhar), ele não tem relação com Piotr Kropotkin (1842-1921), reverenciado por anarquistas e libertários do mundo inteiro, principalmente entre os jovens (ainda hoje, em manifestações contra o G-8, em Davos ou em qualquer parte, veem-se jovens “punk” com cabelo moicano azul empunhando posters do barbudo e atarracado pensador russo). Já o escritor, Nikolai Krapotkin (1916-1995), teve a possível má sorte de emigrar em 1945 para o Brasil, onde produziu sua obra e onde se enterrou para sempre no âmbar translúcido da nossa língua, que se tornou para ele, como para tantos outros, “esplendor e sepultura”.

“Há um poço subterrâneo, de trajeto caligráfico, ligando Rússia e Brasil”, escreveu Krapotkin num artigo publicado em 1961 na Revista do Livro, “uma corrente de energia psíquica entre territórios tão apartados e distintos; ela produz a mesma crispação cósmica arrebatando o intelecto, a mesma fascinação com a clareza da álgebra e com as sombras do incognoscível”. Krapotkin publicou aqui Ouroboros (1965), Mardi Gras (1972), O Livro dos Jogos (1978) e o póstumo (inacabado) O Livro das Superstições (2011). Seu roteiro de ficção científica O Livro Invisível (não filmado, publicado em 1990) só pode ser chamado de FC, segundo um crítico, “no sentido em que Alice in Wonderland pode ser chamado de literatura infantil”.

Krapotkin era um escritor fora-de-esquadro (a seu respeito, ver: http://tinyurl.com/4nf5f28). Com notória facilidade para idiomas (escrevia nas principais línguas européias), utilizava de modo surpreendente o português, desconcertando e divertindo o leitor. Contudo, sua principal força não é no nível estilístico, mas no estrutural. Assim como Italo Calvino, Harry Stephen Keeler ou Milorad Pavich, sua originalidade estava principalmente na estrutura interna da narrativa e no modo como organizava a sucessão de peripécias. Seu uso de cartões perfurados, como os dos antigos programas de computador, foi visto por alguns críticos como uma influência de Nabokov; mas essa semelhança superficial foi desmentida por Antonio Biely num artigo da saudosa revista Nicolau, de Curitiba.

Um grupo de abnegados está exumando a obra de Krapotkin, grande parte da qual (como sua volumosa correspondência literária, meticulosamente preservada em cópias carbono) continua inédita. Especula-se também sobre sua utilização de pseudônimos, pois mais de uma vez queixou-se de que seu verdadeiro nome era visto com desconfiança pelo leitor brasileiro.