O primeiro parágrafo do conto de James Blish, “A Work of
Art” (1956) é assim:
Instantaneamente, ele se lembrou do momento em que morrera. Lembrou, no
entanto, como que a dois patamares de distância: como se estivesse recordando
uma lembrança, e não o evento em si; e como se ele mesmo não estivesse presente
no instante em que morrera.
(trad. BT)
Personagens que ressuscitam (e que às vezes ressuscitam
amnésicos) são comuns na ficção científica.
Um começo inesquecível, para mim, é o da brilhante
noveleta de Kim Stanley Robinson, “A Short, Sharp Shock” (1990):
Quando ele voltou a si, estava se afogando.
Não é propriamente uma ressurreição (a história depois se
revela mais complicada ainda), e em termos de verossimilhança científica perde
para a arrepiante frase de abertura do romance de Greg Egan Distress (1995):
– OK, ele está morto. Pode conversar com ele agora.
É um mundo futuro onde uma pessoa morta pode ser revivida
por alguns minutos mediante uma overdose de estimulantes, que a fazem recuperar
(fugazmente) a consciência, mas ajudam bastante quando é o caso (como neste
livro) de um homicídio em que a vítima pode fornecer pistas sobre o criminoso.
Para quem se interessa pelo tema, vale a pena rastrear a
curiosa antologia Five Fates (ed.
Keith Laumer, 1970), com 5 contos (Keith Laumer, Poul Anderson, Frank Herbert, Gordon
Dickson e Harlan Ellison) que começam todos com o mesmo prólogo, a morte do
protagonista, e cada história imagina sua posterior ressurreição.
No caso de “A Work of Art”, bastam duas páginas para
entendermos o que se passa. O homem que está sendo ressuscitado é o maestro e compositor
Richard Strauss (1864-1949), autor de inúmeras óperas e da famosa Assim Falou Zaratustra (1896), cuja
fanfarra inicial foi usada por Stanley Kubrick em 2001: Uma Odisséia no Espaço.
Strauss é despertado por um cientista que se apresenta
como Barkun Kris, “um escultor de mentes”. Depois de se certificar que o
paciente está fisicamente bem, e lúcido, ele informa a Strauss que estão no ano
de 2161, ou seja, 112 anos após a morte do maestro, e que houve um trabalho de
reconstituição da memória e da personalidade original dele para um novo corpo,
saudável e mais jovem.
Para se certificar de que tudo correu bem, ele faz um
pequeno questionário biográfico. Quem era um indivíduo com as iniciais R. K. L.,
que Strauss conheceu quando regia a ópera de Viena? “Sem dúvida foi Kurt List,” diz Strauss; “seu primeiro nome era Richard, mas ele nunca o usava. Era meu
assistente de palco.”
“Por que motivo” (pergunta o doutor) “o senhor escreveu uma
nova abertura para A Mulher Sem Sombra,
e doou o manuscrito à prefeitura de Viena?...” Ele responde: “Para ser dispensado do pagamento da taxa de
remoção do lixo da ‘villa’ que eles me deram de presente”.
Bastam algumas perguntas deste tipo para confirmar que o
maestro está com suas memórias intactas, e em pleno uso de suas faculdades
mentais. Strauss é liberado pelos médicos, descobre que tem dinheiro suficiente
para se manter com certo conforto, e que todo mundo espera que ele volte a
compor e a reger.
Entrega-se ao trabalho, cheio de ânimo, mas fica
desconcertado com a música do ano 2161. Ele constata que a música do século 22
está infestada de compositores dodecafônicos, cujos deuses são Alban Berg,
Schoenberg e von Webern; e que ali prolifera também a tendência da música
estocástica, regida pelo acaso e que tem como ideal “...produzir uma música que seja ‘universal’ – ou seja, totalmente expurgada
de qualquer traço da individualidade do compositor”.
(Note-se que nada há de propriamente futurista neste
aspecto: Blish estava satirizando a música da década de 1950. Ele era de
formação erudita, e dizia detestar “os Beatles e demais coleópteros”.)
A sátira vem aqui, quando ele se refere a outra moda a da
“science music”:
Este termo não refletia nada a não ser os títulos das composições, que
aludiam ao voo espacial, às viagens no tempo e outros temas de natureza
romântica ou improvável. Não existia nada de científico nessa música, que
consistia apenas de uma colagem de clichês e de imitações dos sons do mundo
natural, e na qual Strauss percebia horrorizado sua própria imagem, diluída e
distorcida pelo tempo.
É uma alusão mordaz à “science fiction”. Essa música
colhida entre “os sons do mundo natural” lembra a obra de autores modernos como
Edgard Varèse (um ídolo de Frank Zappa), do qual já possuí um LP estranhíssimo,
e tudo isto me deu uma idéia que acabei glosando em meu conto “Stuntmind”
(1989):
Outro dia, igual a todos. Estou agora nu, meu corpo gira entre os
colchões de ar no interior do cilindro, estou imponderável e vertical, flutuo,
descrevo giros em torno de mim, no meio do círculo de lâmpadas bronzeadoras.
Nos ouvidos, fones com música documental: os sons do resgate de um galeão
espanhol naufragado há cinco séculos. O ar aquecido me faz bem. São 23 horas e
14 minutos de uma noite de inverno... lá fora.
Como será a música do futuro? Que sensibilidades deformadas, aperfeiçoadas, desviadas, recompostas, terão os nossos
descendentes?... Talvez sejam capazes de apreciar um Mozart ou um Tom Jobim,
mas... como serão os artistas deles, os artistas cuja música só poderia ter
sido composta no tempo deles?
Strauss convive de forma meio rebelde com os compositores
da ISCM, a “Interplanetary Society for Contemporary Music”. Quando vai se
registrar na entidade, é submetido de má vontade a testes, e ouve o funcionário
referir-se aos “mestre do passado, como Shilkrit, Steiner, Tiomkin e
Pearl”... Vejo aí, no mínimo, a citação
a dois compositores de trilhas sonoras de Hollywood: Max Steiner (Casablanca, ...E o Vento Levou) e Dmitri Tiomkin (Matar ou Morrer, Duelo ao Sol).
Strauss continua a ser um homem de seu tempo, e decide
compor uma nova ópera, lançando mão, teimosamente, de um libreto de um autor do
século 20 – Venus Observed (1950), de
Christopher Fry. Ele trabalha,
irrita-se, decepciona-se, entusiasma-se... enfim o trabalho habitual de um
compositor de ópera.
Vem a noite da estréia, salão repleto, cheio de
autoridades – e ele vê nas filas da frente a nata da guilda dos “escultores
mentais”, em torno de seu ressuscitador, o dr. Barkun Kris. Começa a ópera,
Strauss rege com ardor, mas começa a perceber que alguma coisa não está
correndo bem.
E de súbito, no meio do terceiro ato, ele
compreendeu.
Não havia nada de novo naquela música. Quem estava
ali era o velho Strauss – porém mais fraco, mais diluído do que nunca. (...) Suas
resoluções, sua determinação de abandonar os velhos clichês e maneirismos, a
decisão de dizer algo de novo – tudo tinha desaparecido diante da força do
hábito.
De certo modo essa constatação de Strauss já seria um
desfecho satisfatório para o conto. Um homem pode ser ressuscitado, mas a
“chama” da sua vida original é irrecuperável, etc.
Blish, porém, tem um pulo-do-gato para executar diante do
leitor. Porque quando as luzes se acendem e a imensa platéia fica de pé,
Strauss percebe que os aplausos não se dirigem a ele, o compositor, o regente –
mas ao dr. Barkun Kris, que sobe os degraus do palco e se posta ao lado do
pódio e do maestro.
E aí se dá a revelação. Dirigindo-se a Strauss, o doutor
lhe explica que ele na verdade se chama Jerom Busch, e foi escolhido como
objeto daquela “escultura mental”, depois de muita pesquisa, por ser um
indivíduo totalmente destituído de ouvido musical e de talento para a
composição. Com base nas informações biográficas sobre Richard Strauss, a mente
de Busch foi “esculpida” de modo a imaginar que era o compositor ressuscitado;
e assim tornou-se capaz de compor uma ópera.
A qualidade musical dessa ópera era irrelevante,
secundária – porque a verdadeira obra de arte em todo aquele episódio não era a
música, e sim a escultura mental. “Strauss” não era o artista. Era a obra de
arte.
O conto de Blish coloca um problema que estamos
discutindo hoje com intensidade: qual o elemento humano que caracteriza a Arte?
Damos instruções verbais a um programa como Midjourney e
em minutos ele produz uma ilustração detalhada, surpreendente. Seja boa ou má, ela
em princípio não se distingue da ilustração feita por uma pessoa. Isto é arte?
Damos instruções ao Music LM (do Google), seja uma
descrição verbal, seja assobiando um tema musical... e ele compõe trechos
musicais de acordo. Isto é música?
Damos instruções a um ChatGPT (a ferramenta da OpenAI) e
ele nos redige um artigo acadêmico (meio bobinho ainda; mas aguardem mais algum
tempo), uma letra “de Bob Dylan”, um poema “de Dylan Thomas”. Isto é
literatura?
(chatGPT)
No mesmo conto “Stuntmind”, que citei acima, incluí a
possibilidade (já extensamente discutida nos anos 1980) de “conversar” por
escrito com computadores que utilizariam “personas” literárias:
Volto à Biblioteca. Sento diante de um dos micros, escolho programas ao
acaso (De Assis, De Camp, De Quincey, De Sade...), troco cartas durante algumas
horas.
Em “A Work of Art”, James Blish nos ilude o tempo
inteiro, porque ao nos mostrar um Richard Strauss possivelmente ressuscitado
(ou mesmo reconstituído), imaginamos que é porque esse mundo futuro quer ter em
si talentos equivalentes aos talentos do passado. Precisa de obras de arte
humanas, verdadeiras. E o “Strauss” produz apenas uma colagem derivativa – mais
ou menos o que acusamos, hoje, nas criações do Midjourney, ChatGPT, etc. Falta
o elemento humano: criador, personalizado, imprevisível.
Na reviravolta final, ficamos sabendo que a obra de arte
que estava em questão não era a ópera escrita por “Strauss” – era a escultura
mental produzida peplo dr. Barkun Kris, e esta parece ter sido plenamente
satisfatória. Fez um analfabeto em música criar uma ópera de Richard Strauss,
uma façanha que corresponderia ao Pierre Menard, do conto de Borges, reescrever
por conta própria uma página de Cervantes.
Do ponto de vista de “Strauss”, a ópera foi um fracasso.
Revelou-se sem mérito, sem talento, uma simples re-arrumação mecânica dos
cacoetes e truques criativos do verdadeiro Richard Strauss. Uma obra de arte
frustrada, portanto.
Do ponto de vista do dr. Barkun Kris, a escultura mental
foi um sucesso, mesmo que a ópera resultasse medíocre. E na verdade, Kris
parece nem perceber (com sua mentalidade musical de 2161) que a ópera não era
boa. Diante da platéia, no final, ele elogia a genialidade da personalidade
“Strauss” que ele criou.
Ocorre, no entanto, que o falso “Strauss” percebeu que a ópera era medíocre. E
nesse momento ele tornou-se equivalente ao Richard Strauss verdadeiro: um
artista capaz de saber se o que produz é bom ou não. E dessa forma ele acabou
fazendo da escultura mental do dr. Kris um sucesso maior do que este seria
capaz de supor. Por um breve período, ele conseguiu de fato produzir alguém com
a mente criadora (com a visão autocrítica) de Richard Strauss.