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domingo, 22 de abril de 2018

4338) Dez álbuns: 1 - "O Último dos Moicanos" (22.4.2018)




As pessoas do Facebook têm essas modas de sugerir fazer isso, fazer aquilo. A moda agora é de postar a capa de 10 álbuns que a pessoa ouve até hoje, porque marcaram sua história pessoal.

“Basta postar a capa do álbum, sem comentar nada,” foi a instrução que recebi de Toinho Castro e Mario Bag. Ponderei: “Que graça tem postar sem comentar?”  De modo que aqui vão, de um em um, dez álbuns que ouvi até a agulha furar o vinil. E que, tempo havendo e cerveja não faltando, continuo a ouvir, até hoje.

O Último dos Moicanos de Moreira da Silva teve a subida honra de ter sido o primeiro LP comprado quando meu pai comprou uma radiola bem boa em nossa casa do Alto Branco. Era 4 mil cruzeiros; eu dei 2 e minha irmã Clotilde deu 2, porque a gente ouvia rádio o dia inteiro, e éramos ambos fãs de Kid Morengueira.

Eu sempre me pergunto por que ninguém escreveu (pelo menos nunca vi) um livro sobre a obra de Miguel Gustavo, o criador desse imortal personagem junto com Moreira. Talvez ele tenha meio que caído em desgraça porque compôs algumas músicas do tempo da ditadura militar, inclusive o famoso “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, do meu coração...”, que virou o hino da Copa de 1970.

Não importa: era um cronista musical  pra ninguém botar defeito, e os sambas-de-breque de Morengueira são de uma criatividade espantosa, com antropofagia de cultura pop, efeitos de sonoplastia (tiros, cavalos), trechos paródicos, diálogos ping-pong brechtianamente enunciados pelo cantor, locução caricatural, um clima de nonsense narrativo absolutamente moderno.

Tinha jurado à minha mãe por toda a vida
não me meter em mais nenhuma trapalhada...
Depois daquele do bandido em que o índio me salvara
eu resolvi levar a vida sossegada.
Comprei um sítio, e já ia criar galinha
quando a notícia no jornal me encheu de ódio:
um bandoleiro aprisionara aquele índio
que me salvara no primeiro episódio!
(“Cuidado Moreira!...”)

Aqui, a gravação original:

Neste disco, Moreira, com a voz no auge, canta o que é provavelmente o único samba em francês da MPB (“Dancê mademoiselle, dancê... dancê avec moá... dancê mademoiselle, pasquê jêtéim bocú, mon peti-poá...”). (Mal escrevi isto e já descobri que existe um composto em 1922 por Pixinguinha e Duque, quando da famosa excursão dos Batutas a Paris.)

Aqui:

É uma música pichititinha num álbum quase todo de letras longas, serpenteantes, enroscadas sobre si mesmas e quando parecem que vão se perder são cortadas pela guilhotina do breque, que dá um freio de arrumação e retoma a cadência.

Falei em crônica, e vejam que beleza este devastador “Boletim Social”:

Boletim social, de um cronista conhecido
como Boca Rica (lá no Morro da Cuíca);
de uma festinha na tendinha do Fominha
que eu vou te contar (lá estava a Dagmar)
uma das dez mais legais do lugar, gostava de dançar,
o Chicão Caixa Alta patrocinava o ragú
birita com limão, faisão de Maria Angu. (...)

Aqui, o original:

Meio no estilo de uma “Festa de Arromba” fictícia, o cronista social vai enumerando os nomes pitorescos da malandragem presente, e a coluna-social se encerra assim:

E o repórter escreveu uma crônica
numa pedra de gelo e guardou numa estufa...
(Oi gurufim, gurufa...)

A primeira vez que ouvi a expressão “chave de cadeia” foi no samba homônimo em que Moreira se queixa da mulher-encrenca que arrumou:

(...) Vive me malhando, não sou palhaço,
vou mandar tirar seu nome tatuado no meu braço!
Aquele terno branco que eu dei duro pra fazer
você botou no prego e a cautela foi vender...
Meu relógio de ouro não estava perdido
só agora descobri que também foi vendido.

Aqui, uma regravação posterior:

Uma coisa bem da época, na canção popular, era jogar o personagem numa situação meio fantasiosa e improvável, como Jackson do Pandeiro em “Falso Toureiro” ou Luiz Gonzaga em “Siri jogando bola”. No caso de Moreira, é a canção cujo nome não me vem agora, mas é ambientada numa “Mil e Uma Noites” que parece os filmes de J. B. Tanko:

Foi num sonho: eu estava num harém,
alta madrugada o Sultão apareceu.
Conversa vai, conversa vem,
na base do “chega pra cá”;
apontou uma e foi dizendo: “É por aqui!”...
Com a butuca escancarada
dava impressão do capeta, o homem estava abilolado,
veio chegando pro meu lado, eu fiquei todo arrepiado:
no pesadelo eu era uma beldade...
(Me olhava com ferocidade...) (...)

Moreira era conhecido como malandro, mas suas músicas cobriam um Rio muito mais amplo, para além do personagem. Era o Rei do Samba de Breque, mas suas gravações, principalmente nessa década (estou falando em 1960-e-bem-pouquinho) mostram um intérprete onde o dito “canto falado” já era praticado com desenvoltura total.

Se um dia alguém escrever um livro intitulado O Humor na MPB, Moreira da Silva terá que ter um capítulo só seu (tal como os Demônios da Garoa, tal como o Língua de Trapo, tal como Jorge Mautner ou Jards Macalé). O clima de descontração e informalidade, favorecido pelo conceito “malandragem”, contaminava as técnicas de gravação, as letras, os arranjos.

O Último dos Moicanos talvez nem seja o melhor álbum de Moreira, porque até o fim ele se manteve firme como uma rocha e adaptável como um rio. Cheio de suingue nas divisões silábicas, ele soube criar para si um personagem (tal como Luiz Gonzaga fez com seu chapéu de couro e gibão) e era flexível o suficiente para sair dele e voltar a ele sempre que lhe convinha. Esse lado histriônico, meio cinematográfico, deu-lhe um corpo de vantagem sobre intérpretes igualmente cheios de ginga como Jorge Veiga.












sexta-feira, 4 de agosto de 2017

4258) Luiz Melodia 1951-2017 (4.8.2017)




Ficamos agora sem o nosso negro gato, a nossa pérola negra, a voz que embalou os sonhos de muitas juventudes. Ainda que não tivesse embalado os sonhos de milhões, embalou os meus, e a perda aqui dentro do cofre dos afetos seria a mesma. Resta o consolo de que herdamos a música, pois a obra permanece. Consolozinho furreca esse. Puído de tanto uso a cada perda.

Durante o dia de hoje vi nas redes sociais desabafos e lamentos e risadas de pessoas que tocaram com Melodia, beberam com Melodia, excursionaram com Melodia; todos têm, é claro, episódios hilários ou tocantes para contar. Eu não o conheci pessoalmente, a não ser no palco, nos muitos shows seus que assisti ao longo da vida, primeiro pelo Nordeste afora, e depois no Rio de Janeiro. Não sei avaliar a pessoa. Só tive acesso ao personagem.

Luiz Melodia foi a essência concentrada de uma faixa da música carioca revelada para nós brasileiros a partir dos anos 1960. Um grupo de negros talentosíssimos e instáveis que inclui Jorge Ben, Tim Maia, Jards Macalé e muitos outros. Cada um com perfil musical próprio, mas todos trazendo aquela medula de samba que todo mundo conhece tão bem. Para alienígenas como eu, que não obstante a alienação amam o samba, o samba é uma roupa. Para eles é uma pele. Se lhes arrancarem todas as roupas que levam ao palco (soul, pop, blues, o que quiserem) é o samba que os recobre e os mantém inteiros.

Todos estes se projetaram um pouco aproveitando as ondas sucessivas da Jovem Guarda e do Tropicalismo. Movimentos de jovens que ajudaram os jovens sambistas daquele tempo a aceitar com curiosidade e sem culpa os sons eletrificados da época em que subiram nos seus primeiros palcos.

O Jorge Ben que trouxe em 1963 seu Samba Esquema Novo já estava pouco depois sendo escalado pela imprensa nos times informais da Jovem Guarda, e chegaria depois a sua fórmula imbatível que eu nem sei mais como se chama, na salada de rótulos de hoje. Será “samba rock”? Não importa; me lembro de uma entrevista onde ele dizia que o seu segredo era ter na Banda do Zé Pretinho dois baixos elétricos.

Tim Maia não se encaixou na Jovem Guarda mas deu-lhe uma massacrante volta-por-cima quando voltou dos EUA com seus primeiros sucessos esmagadores embebidos no soul, na percussão balançante, nos metais implacáveis e alegres da Vitória Régia.

Jards Macalé foi o mais tropicalista deste grupo, nas parcerias, nas canções gravadas, nas posturas conceituais desconcertantes e desabusadas – sem deixar de ser um eterno lobo solitário, um bloco do eu-sozinho sem similar na música da pátria.

E Melodia passeava pelo blues, pelo pop, pela canção romântica – da qual ele tinha um modo também só-seu de drenar o excesso de água com açúcar e aumentar a voltagem de tragédia. Canção de amor na voz de Melodia era sempre uma canção de amor durante um bombardeio.

Em parte talvez por aquela mágoa ancestral que administra a alegria momentânea de tantos brasileiros. O samba que, como viriam a lembrar depois os pais do Tropicalismo, é o pai do prazer e o filho da dor. As canções de amor que Luiz Melodia pescava nos repertórios mais improváveis estão sempre contaminadas por essa tristeza imensa que os olhos dele mostravam em cada close, mesmo quando o verso era brincalhão ou otimista.

Era o nosso negro gato, dono do pedaço, player com sete vidas, malandro de dar drible em bala. E ao mesmo tempo alguém que parecia trazer nas costas o peso de um milênio de escravidão e a influência má dos signos do Zodíaco. E uma angústia profunda que conferia vastidão ao verso mais singelo que cantasse.

Sempre cercado por músicos de talento que achavam um privilégio dialogar com um voz como aquela, Melodia era como aquele ator de teatro que pega meia dúzia de falas desenxabidas de um autor sem inspiração e diz (respeitando cada vírgula delas) caminhões de subtexto. O segredo é a voz, que colore esses versos, tanto os de alta voltagem poética quanto os versinhos tapa-buraco das canções pop. Agarra todos – e eleva todos ao lugar de onde soa, seja o alto da montanha ou o fundo-do-poço do coração.

Melodia era, como Augusto, um monstro de escuridão e rutilância. Capaz de cantar a alegria do nascer do sol:

“Juízo Final” (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares)
        
E de cantar a paz do cair da noite:

“Suave é a Noite” (Paul Francis Webster e Sammy Fain, versão de Nazareno de Brito)              :

De ir ao fundo do porão com o poeta que desceu aos infernos e sair dali brincando com as próprias cicatrizes:

“Que Loucura” (Sérgio Sampaio)

Era uma voz de quem foi lá no fim do futuro, viu tudo – e jurou não contar nada quando voltasse. As canções falam do presente, da vidinha boa e boba de todo mundo a cada dia. Era somente o olhar quem revelava o que ele viu, e a voz que nos consolava, como se dissesse: “Não se preocupe, não aconteceu ainda”.











terça-feira, 12 de março de 2013

3132) Barrados no clube (13.2.2013)





(Sérgio Sampaio)



Groucho Marx, numa frase famosa, definiu num paradoxo a atitude dos marginais e rebeldes de todos os tempos: “Não quero entrar num clube que me aceite como sócio”. 

O paradoxo inicial se dá pelo fato de que o sujeito sugere que, se o clube o aceita, não pode prestar. Se o clube o aceita, não merece respeito, não é digno do seu interesse. Se o aceita, está abaixo dele, ou na melhor das hipóteses no mesmo nível dele... e nesse caso que diabo ele vai fazer num clube furreca como esse?!

Na verdade, os artistas marginais (e os marginais em geral) gostam de ser escorraçados, gostam do preconceito, gostam de ser vistos com desconfiança. 

Em seu livro sobre o marginalíssimo Sérgio Sampaio (Eu quero é botar meu bloco na rua, Ed. Língua Geral, 2009), Paulo Henriques Britto lembra que “a associação entre rock e a condição de outsider é um tema recorrente no período pós-tropicalista”, e cita a canção em inglês do disco londrino de Caetano que diz: 

“Você sente uma vaga sensação de orgulho quando lhe dizem: ‘Aqui você não pode entrar – cai fora’ – rock and roll é isso aí”. (“That’s what rock and roll is all about”).

Ser barrado na porta de alguma coisa dá a idéia de que você é considerado indigno, mas também sugere que você é considerado perigoso, é uma ameaça. 

Faz bem ao ego ser barrado. Ser perseguido produz medo, mas a adrenalina que combate esse medo é pensar que quem é perseguido é porque tem algum poder. É a fantasia compensatória de todos os “slans”, de todos os “precogs”, de todos os X-Men da FC: somos barrados porque somos uma ameaça. 

Quem é barrado é porque pode, se entrar, botar a perder o Paraíso Terrestre de alguém. Pode “desafinar o coro dos contentes”, como ameaçavam Torquato Neto e Macalé. Pode “estragar o piquenique” como garantia Paulo Leminski. Pode “invadir sua praia” como prometia ferozmente o Ultraje a Rigor.

Gilberto Gil, no “Rock do Segurança” (“O segurança me pediu o crachá / eu disse: Nada de crachá, meu chapa...”) é quem melhor cristaliza essa sensação de superioridade. O mendigo/ET barrado na porta da mansão é mais livre, mais louco, mais inteligente, mais perigoso e mais potencialmente feliz do que todos os burgueses trancafiados em sua Calle da la Providencia. 

Ser barrado quer dizer que você foi reconhecido, quer dizer que eles admitem o transtorno que você pode causar se cruzar aquela porta, como os Piratas do Tietê ou os Palhaços de Laerte. 

Ser barrado é a condecoração final para quem não quer entrar no Clube – quer ser mesmo é reconhecido como ameaça ao clube.  Até porque, como lembra Gil, “meu amigo – se eu quisesse eu entraria sem você me ver!”.










terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

2481) "A labareda que lambeu tudo” (16.2.2011)





(Caetano Veloso e Geneton Moraes Neto, em plena Era Paleozóica)

Este documentário idealizado e escrito por Geneton Moraes Neto (co-dirigido com Jorge Mansur) foi exibido pelo Canal Brasil, e talvez vire filme. Geneton é um dos melhores entrevistadores da TV Globo, embora a maior parte do seu tempo seja dedicada à edição-em-chefe de programas variados. Mas é um ex-cineclubista, um ex-superoitista, e ele próprio se questiona na primeira parte: “Será que não desperdicei com jornalismo um tempo que poderia ter dedicado ao cinema?”. 

O filme (ou programa, como queiram chamá-lo) é uma tentativa de acertar essas contas, e o faz com um tiro certo, misturando política, Tropicalismo e cinema novo. Geneton entrevista Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé e Jorge Mautner, sobre o tempo em que viveram no exílio; mas o cinema entra por vias transversas, porque Glauber Rocha é uma presença constante nas lembranças de todos.

A primeira parte tem também Paulo César Peréio fazendo uma espécie de “alter ego” do diretor, recitando um texto em que ele explica a necessidade do filme e seu modo de concepção. As entrevistas se concentram no período em que os quatro músicos viveram no exílio. 

A identificação de Geneton com o Tropicalismo (e seu relacionamento de longo tempo com alguns dos entrevistados) o leva a conseguir tirar um novo leite de uma pedra já tão ordenhada. É divertido ouvir Caetano contar histórias de Glauber: como ele gostava de andar nu dentro de casa a qualquer hora do dia, ou de como conseguiu que Jean-Luc Godard escrevesse uma carta elogiando Caetano (sem conhecê-lo) para tentar livrá-lo da prisão. 

Gil descreve com detalhe o processo de criação da música “Cálice”, e Macalé conta história impagáveis, como a de quando, sob efeito do LSD, foi ver o Museu de Madame Tussaud e se apaixonou pela Branca de Neve, tendo que ser retirado aos prantos pelos amigos.

É de Macalé a frase que dá subtítulo ao filme (cujo título principal é Canções do Exílio), e que serve como metáfora da ditadura militar que “passou o rodo” na cultura brasileira. Na verdade, ele se refere ao calor carioca, que eles sentiram no momento em que, de volta ao Rio, a porta do avião se abriu e o calor entrou, dando aquela sensação de “finalmente cheguei em casa”. 

Geneton se pergunta (com a voz de Peréio) durante o filme: “Por que não fazer um filme com as pessoas simplesmente falando? Por que tudo tem que ser tão cortado, tão curto? Por que tem que se partir do princípío de que as pessoas não estão interessadas em coisa nenhuma?”.

Ver gente falando sobre assuntos que nos interessam ainda é um dos grandes trunfos da TV (e do cinema; e da Internet com seu YouTube e tudo o mais). É curioso ver essa discussão numa época de Big Brother, um programa que enclausura pessoas numa casa e precisa inventar gincanas imbecilizadas ou festinhas debilóides para dar-lhes algum assunto sobre que conversar. Parece haver um consenso de que é sempre interessante ver pessoas conversando. A diferença é apenas de repertório.





segunda-feira, 29 de novembro de 2010

2413) Um Morcego na Porta Principal (28.11.2010)




Vi na TV a cabo este documentário sobre Jards Macalé (direção de Marco Abujamra e João Pimentel), que vem, não sei se por coincidência ou colateralidade, na esteira de vários outros trabalhos sobre artistas ligados ao Tropicalismo, como é o caso de filmes sobre Tom Zé e Os Mutantes. 

Macalé foi ligado ao Tropicalismo – mas do mesmo jeito que Tom Zé, outro grande bloco-do-eu-sozinho, também foi. Macalé é um sujeito imprevisível, personalista no bom sentido, que dança conforme a própria música. 

Como se sabe, existe Artista Bumbo e Artista Tarol. 

Artista Tarol é aquele que chama uma atenção danada, fazendo solos e floreios, exibindo-se, arrancando aplausos. Artista Bumbo é o que quase não aparece, mas é ele quem dita o ritmo. 

O Artista Tarol é muito bom para fazer enfeites, mas se entregue a si próprio perde o rumo porque não tem uma idéia muito clara de quem é nem pra onde está indo. Em geral, produz melhor se tiver ao lado um Artista Bumbo, que fica meio fora dos holofotes, ajudando o outro a se exibir, e mandando recados telepáticos: “Agora acelera. Agora retarda. Agora um breque. Agora samba. Agora maracatu”.

E há os que são Bumbo e Tarol de si mesmos, como Jards Macalé, que já foi hippie tropicalista, sambista de breque à Morengueira, cirurgião de dor de cotovelo, semi-roqueiro pop com tempero da Zona Norte... faltam rótulos. Numa única vida já teve mais encarnações do que certas socialites tiveram em vidas passadas. 

O filme reúne um bom material de arquivo com áudios e vídeos raros, de uma época em que fazer audiovisual custava uma gruta de Aladim, e o edita com depoimento dos companheiros de geração do Morcego.

Vi ou revi imagens de palco em que Macalé, debruçado sobre o violão, ronca, se esguela, rasga um rugido lá das entranhas da garganta, soluça e balbucia: trinta anos atrás ele fazia o que tempos depois consagrou Tom Waits diante do microfone. 

O violão de Macalé parte de um refinamento harmônico quase erudito para uma vigorosa desconstrução quase punk, de batidas e pancadas, lapadas e rasqueios sem intenção caligráfica. O filme dá uma boa ideia dos muitos e surpreendentes lados do parceiro de Waly Salomão nas canções de “morbeza romântica”. Fico pensando que os garotos punk de hoje, que torcem o nariz para a caretice do samba e da MPB, se vissem Macalé por inteiro concederiam: “Esse aí não, esse aí é maneiro”.

Com as gravadoras, principalmente, a personalidade de Macalé sempre foi angulosa e cheia de arestas, arriscada de conviver muito de perto ou durante muito tempo. Como todos os grandes individualistas, veste o próprio personagem 24 horas por dia, e quem não gostar que se explôda. Diz na cara o que lhe dá na telha, não costuma abaixar o queixo nem diminuir a voz. 

Como tantos outros artistas chamados de maldito, na verdade é maldizente, nunca teve papas na língua nem cardeais no Vaticano. Bolerista elétrico? Bossa Nova trash? Trópico-dadaísta? Faltam rótulos.






quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

0844) Os estilistas excêntricos (30.11.2005)


(Tom Zé)

Dentro da literatura de ficção científica há um grupo de autores a quem a crítica se refere com um termo que acho muito útil: “the oddball stylists”, “os estilistas excêntricos”. São autores que todo mundo admira mas não sabe onde enquadrar. Usam os temas e as imagens da FC, conhecem as regras do gênero, mas suas obras sabotam sistematicamente estas regras. Esta descrição destaca dois aspectos essenciais: 1) são estilistas (ou seja, têm um informação e um domínio da técnica literária muito acima da média), e 2) são excêntricos, estão sempre fazendo algo imprevisível, fora-de-esquadro. Este último aspecto é importante, porque um autor como Ray Bradbury (autor das Crônicas Marcianas e de Fahrenheit 451) é um estilista, mas não é excêntrico. Após o choque inicial de quando o conhecemos, sua obra vira uma planície calma, sem catabís e sem surpresas.

Estilistas excêntricos na FC são autores como Avram Davidson, R. A. Lafferty, Gene Wolfe, Cordwainer Smith e outros. Mas não é deles que quero falar aqui. Eu gostaria de pedir emprestado este conceito e aplicá-lo à Música Popular Brasileira, onde encontramos mestres de inquestionável talento que em princípio são grandes estilistas, mas não são excêntricos, pelo contrário: na sua obra, a única surpresa é a alta qualidade do que produzem, com uma admirável constância. Mas são autores que não nos pregam sustos. Eu não acho, por exemplo, que a obra de talentos como Edu Lobo, Chico Buarque, Milton Nascimento, Tom Jobim, Gilberto Gil, João Bosco e vários outros seja uma obra excêntrica. Pelo contrário. Se a MPB tem algum tipo de centro, são eles.

Mas o que dizer de um artista como Tom Zé? Um artista como Hermeto Paschoal? Um artista como Jorge Mautner, ou Jards Macalé? Para mim são estilistas excêntricos, porque mesmo que a gente não goste do que eles fazem (e muita gente que gosta de uns não gosta dos outros), ninguém pode negar duas coisas: todos são tecnicamente competentes, e nunca se pode afirmar com certeza como será o perfil de seu próximo trabalho. São fontes permanentes de surpresa, de susto, de imprevisto. Sua excentricidade pessoal não reside em seu comportamento meio “clown”, em sua mistura proposital do sublime e do grotesco, do erudito e do brega, do refinado e do descartável (embora todos eles tenham tais misturas, em doses variadas). São excêntricos porque temos a impressão de que o centro de seu mundo mental não coincide com o “centro” da música popular. Cada um deles parece ter um projeto próprio que só ocasionalmente coincide com “a linha evolutiva da música popular brasileira” que, ao que parece, era o projeto próprio de artistas como Tom Jobim ou João Gilberto. Os estilistas excêntricos da MPB têm o poder de subir ao palco e na primeira música puxar o tapete onde milhares de pessoas pensavam estar pisando minutos atrás, fazê-las dar uma cambalhota, e cair de volta sobre o tapete – que levanta vôo com todos juntos.