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domingo, 8 de setembro de 2024

5099) Minhas canções: "Lavadeira do Rio" (8.9.2024)




Compor canções, como qualquer outra atividade criativa, tem suas marés, suas idas e vindas. Tem, por exemplo, épocas em que a gente está concentrado em produzir coisas complexas, mais esteticamente ambiciosas, e épocas em que a gente se dedica a fazer coisas mais simples. Uma tarefa nos descansa da outra, em ciclos alternados. 
 
Compondo com Lenine, muitas vezes ficávamos tentando produzir letras mais complicadas – com temas de ficção científica, por exemplo – e melodias com três ou quatro partes diferentes. E outras vezes corríamos para o abrigo da canção popular mais básica. Como a gente dizia na época: “Uma música que poderia ser gravada por Jackson do Pandeiro ou Marinês”. 
 
Um exemplo nessa linha, que já comentei aqui, foi “A Roda do Tempo”, gravada por Elba Ramalho: 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2019/12/4529-minhas-cancoes-roda-do-tempo.html
 
“Lavadeira do Rio” é uma música desse período, que foi sendo feita de modo intermitente, um trecho hoje, outro trecho daqui a mais um tempo, e ficou na gaveta até ser gravada por Elba Ramalho no disco Flor da Paraíba (1998), pelo próprio Lenine em Falange Canibal (2002) e por Maria Rita em seu disco de estréia Maria Rita (2003).   
 
Elba:
https://www.youtube.com/watch?v=tgEN-rD8P4s
 
Lenine:
https://www.youtube.com/watch?v=dlIZD6bj5RU
 
Maria Rita:
https://www.youtube.com/watch?v=2_Wdrqg87z8
 
Cantiga de lavadeira é uma coisa linda. 
 
A TV-Zero, do Rio de Janeiro, mostrou em sua preciosa série “O Som da Rua” um grupo de lavadeiras de roupa de Almenara (MG), na beira do rio Jequitinhonha, cujas cantigas de trabalho acabaram virando um espetáculo que correu o Brasil. Eis aqui um vídeo, apresentado pelo cantor Carlos Farias, que dá uma boa idéia da arte dessas cantoras: 
 
https://www.youtube.com/watch?v=SvaBe6SgYPQ
 
Recentemente, foi compartilhado no mural de Felix Rivera-Cabrera, no Facebook, um curto vídeo da cantora espanhola Buika escutando o canto de lavadeiras venezuelanas:
https://www.facebook.com/505332363/videos/1453560108629211/
 
O canto das lavadeiras é um dos muitos tipos do Canto de Trabalho, que por si só é um grosso capítulo na história da canção oral – a canção invisível, a que nunca é gravada, que surge espontaneamente para musicar um momento de vida e não tem o menor propósito de se transformar num produto comercial. 
 
Acaba se transformando, em muitos casos, e isso é bom, porque permite a gente como eu ficar sabendo o que cantam as mulheres venezuelanas quando lavam roupa ao ar livre. Cantam quadrinhas rimando ABCB, sempre com a mesma linha melódica (como nesse exemplo do Facebook), e a certa altura terçando vozes com uma afinação comovente. 
 
Quando nossa “Lavadeira do Rio” foi gravada por Elba Ramalho, um crítico comentou no jornal que eu e Lenine estávamos fazendo “macumba para turistas”, a conhecida expressão de Oswald de Andrade para designar a exploração do folclore (ou da cultura popular) para vender contrafações a consumidores desavisados. 
 
Um mal-entendido frequente nas nossas avaliações da música popular é achar que porque um sujeito é branco e de classe média ele cresce numa bolha impermeável e não convive com o que se chama “gente do povo”. 
 
Na minha visão, o contato entre classes sociais, pelo menos no Nordeste em que cresci, é muito mais intenso e constante do que se pode imaginar. Não só no Nordeste: eu diria que no próprio Rio de Janeiro esse contato existe, só que ele é mais pervasivo e habitual na Zona Norte (por exemplo) do que na Zona Sul, onde as classes se misturam na rua mas não se frequentam nas casas. 
 
No meu caso, as lavadeiras e suas cantigas foram parte da minha vizinhança desde os meus 11 anos, quando meus pais se mudaram para o Alto Branco, para as proximidades da Lavanderia Municipal, que fica a 20 ou 30 metros da nossa casa. O Alto Branco é uma colina muito úmida, com águas subterrâneas que descem o tempo todo, e afloram em certos trechos. 




Nas proximidades da Lavanderia, havia um trecho de poços dágua rodeados de grama (hoje essa área está toda coberta de casas), onde as mulheres lavavam roupa nos dias de sol. Além da Lavanderia oficial, esses poços atraíam mulheres que lavavam a roupa dos moradores em torno. E cantavam. 
 
Um detalhe interessante é que o Alto Branco sempre foi sujeito a ventanias, e de vez quando se armavam por ali alguns “redemunhos” violentos na direção dos poços dágua, arrebatando as roupas estendidas na grama e arremessando-as a dez ou vinte metros de altura, para desespero das lavadeiras. 
 
Menino não presta, e uma diversão nossa, quando um redemunho se formava, era correr para o terraço ou a calçada e ficar gritando: “Rapadura Preta!... Rapadura Preta!...”  Rapadura Preta é um nome popular do Diabo que mora no meio do redemunho, e chamando esse nome (teoricamente) estávamos atraindo o redemunho na direção dos poços, para ver os lençóis, as camisas e as saias rodopiando no ar. 
 
Minha mãe ficava furiosa e partia lá de dentro empunhando um cinturão ou uma chinela, ameaçando dar uma surra em quem chamasse o Diabo para atanazar as pobres lavadeiras. 
 
Outro detalhe relativo a esta canção é que ela acabou se misturando com outra música, “Rita”, que tinha o mesmo formato de estrofe (duas quadras + refrão) e melodia parecida. Pegar o violão para tocar uma delas sempre induzia a tocar a outra, e desse modo letras e melodias foram se misturando e resultaram numa música só. 
 
Aqui outra interpretação, com a cantora paraense Lia Sophia: 
https://www.youtube.com/watch?v=ZNUrZLNZWwA
 
Em todo caso, a origem da canção como um coco, a sua intenção de parecer com um coco que “poderia ser gravado por Jackson do Pandeiro”, acabou encontrando rumo quando a música foi regravada pela dupla Caju e Castanha no disco Professor de Embolada (2013). 
 
A gravação de Caju e Castanha: 
https://www.youtube.com/watch?v=8rFsE0vv_4Y
 
 
************* 
 
LAVADEIRA DO RIO
(Lenine / BT)
 
Ah, lavadeira do rio...
Muito lençol pra lavar!
Fica faltando uma saia
quando o sabão se acabar.
Corra pra beira da praia
veja a espuma brilhar
ouça o barulho bravio
das ondas que batem na beira do mar. 
 
Ê-ô, o vento soprou
Ê-ô, a folha caiu
Ê-ô, cadê meu amor
que a noite chegou fazendo frio...
 
Rita, tu sai da janela,
deixa esse moço passar...
Quem não é rica e é bela
não pode se descuidar.
Rita, tu sai da janela,
que as moça desse lugar
nem se demora donzela
nem se destina a casar...
 
Ê-ô, o vento soprou
Ê-ô, a folha caiu
Ê-ô, cadê meu amor
que a noite chegou fazendo frio...
 
 
 
 
 
 






sábado, 6 de julho de 2024

5079) Minhas Canções: "República dos Viralatas" (6.7.2024)




O Suvaco do Cristo, também conhecido como “Bloco do Suvaco”, anuncia que vai encerrar suas atividades no Carnaval de 2026, quando completará 40 anos.  Quarenta anos de samba, suor, cerveja, irreverência, namoro e gréia. E, de acordo com o presidente-vitalício João Avelleira, está preparando uma antologia de sambas que marcaram sua história. Talvez seja a hora de abrir esse baú, ver erguer-se a nuvem de confetes empoeirados, purpurinas perfumadas, ecos no ar, samba no pé. 
 
Uma explicação necessária para quem não mora no Rio de Janeiro: o bloco ganhou esse nome porque foi fundado por uma turma boa do Jardim Botânico, moradores na altura da Rua Maria Angélica.  Olhando de lá o Cristo Redentor a gente está exatamente na linha reta que vai dar na sua axila direita. Dizem, inclusive, que quem primeiro fez essa piada de “eu moro no suvaco do Cristo” foi Tom Jobim, quando morava nesse trecho. 






Quem me arrastou para lá foi Lenine. Ele já puxava samba com a turma, e me chamou numa tarde remota de 1989 para concorrermos juntos – porque escolha de samba enredo de bloco é concurso, muito parecido com o de Escola de Samba. São muitos os chamados, e apenas um escolhido. Num ano pelo voto popular, ou seja, aplauso; noutro ano por um júri... Não há fórmula. Cada ano o mundo se reinventa. 
 
O tema sugerido eram os 100 anos da República Brasileira, aquele golpe militar que hoje associamos às barbas-de-molho do marechal Deodoro da Fonseca. Outro tema circulando “nas bocas” era o sucesso recente do filme de Martin Scorsese, A Última Tentação de Cristo, que fazia uma conexão óbvia com o padroeiro do bloco. 
 
Com este samba começamos uma estratégia de compor que acabou funcionando muitas outras vezes. Às vezes nossas músicas eram feitas em separado: um letrava a música do outro, ou o outro musicava a letra do um. Quando compúnhamos juntos, era cada qual com seu violão, caneta e papel, experimentando e anotando. 
 
Com os sambas, resolvemos largar os instrumentos e ficar andando pela sala, cantando (inventando melodia) a plenos pulmões. É uma maneira boa de fazer a música, porque um “laraiá-laraiá” interessante já sugere, muitas vezes, as próprias palavras que vão aparecer ali. 



(Lenine e BT no Suvaco)

 
E assim fomos chegando na primeira estrofe:
 
Foi ela
a primeira tentação
que molhou a minha mão
na fonte do pecado...
Foi ela
que bancou a Madalena
invadiu a minha cena
e me deixou pregado...
 
E por aí a letra foi avançando. Havia referências ao filme de Scorsese, mas também a piadas de conhecimento geral, inclusive a velha piada do nordestino que volta a sua terra e diz que a coisa mais bonita que viu no Rio foi “o Cristo Arrebentou”. 
 
Essa música não chega a ser um samba-enredo (ou “samba de enredo”) propriamente, mas é algo bastante próximo. Tem que ter uma melodia que de vez em quando vai pra cima, com notas que se elevam. Porque é algo para ser cantado a plenos pulmões por mil, duas mil, cinco mil pessoas. Daí a estratégia de compor cantando, muito melhor do que simplesmente compor dedilhando no violão uma melodia linda, mas que não se presta ao berro coletivo. Em casos assim, o melhor é compor com o pulmão e a garganta.  
 



(William Voorhees, atual puxador oficial do bloco)

 
Uma coisa para que Lenine sempre chamava a atenção era saber a hora de modular para um tom diferente, Mi-maior ou Mi-menor conforme o caso (esta música é em Mi). Encerrada uma estrofe, era o momento de saltar para outro começo melódico, em outro tom. Além de dar variedade e beleza à melodia, na hora do desfile ajuda as pessoas (que estão aprendendo o samba enquanto o cantam – não é desfile de Escola!) a não se perderem, e perceberem em que parte da música o canto está. 
 
República dos Viralatas foi meu primeiro samba de bloco (para Lenine já era o segundo ou terceiro), e virou uma espécie de hino informal do Suvaco. Foi gravado pela primeira vez pelo próprio Lenine, no álbum Simpatia É Quase Amor – 5 Anos de Samba em Ipanema (1991). Uma homenagem ao Suvaco, feita pelo Simpatia, bloco-irmão da Zona Sul (onde nós também já puxamos belos sambas, mas aí é outra história). 




Não lembro se há outras gravações, mas há algum tempo circula na web essa participação de Lenine no “Samba da Gamboa”, ao lado de Diogo Nogueira e outros bambas, onde ele canta este “hino”, entre outras parcerias nossas. 
https://www.facebook.com/watch/?v=1159813874463448
 
O melhor retrato do Suvaco, seu clima, seu astral, as pessoas que o fazem é o ótimo documentário dirigido por Paola Vieira, uma das fundadoras do bloco, entrevistando os foliões e contando a história toda: 
https://www.facebook.com/permalink.php?id=330987693653932&story_fbid=3626655610753774&paipv=0&eav=AfYpsZ-ShtIqqU0BmWIz_apKFhmqcN5eZPDhO9TnAxVeEaeKGl4Qge5Tl25zx4LLGjw&_rdr
 
 
 
***************  



(João Avelleira, Lenine, Rogerinho)


 
REPÚBLICA DOS VIRALATAS
(Lenine & BT)
 
Foi ela
a primeira tentação
que molhou a minha mão
na fonte do pecado...
Foi ela
que bancou a Madalena
invadiu a minha cena
e me deixou pregado...
 
Mentia
e eu de besta não sabia
tudo quando acontecia
em dia de eleição...
Vem descendo a ladeira:
república brasileira
cem anos que só me dão (porrada)!
 
Porrada na sola do pé do povo
foi quando eu vi, o Suvaco passou,
na passarela onde o Cristo arrebentou (2x)
(E a República?)
 
República dos viralatas,
das concordatas, do economês...
República do golpe baixo;
é muito escracho com a cara de vocês...
República do deixa-disso,
e no banco suíço a grana engordou...
Se não melhorar, eu vou
vender goma de mascar
numa esquina de Moscou... (2x)
 
É tudo zé mané! É tudo zé-bundão!
O mundo é um cabaré, e tá assim de cafetão! (2x)
 



(Mu Chebabi, William e BT no Suvaco, carnaval de 2020) 
 






segunda-feira, 27 de novembro de 2023

5006) Minhas canções: "Tuareg e Nagô" (27.11.2023)



Na literatura de ficção científica e de fantasia existe um conceito chamado de worldbuilding, ou “criação de um mundo”. O autor imagina um mundo diferente do nosso, e ali ambienta suas histórias. Esse “mundo” pode ser outro planeta, no caso da FC, ou pode ser um mundo imaginário como o da série de “Narnia” (de C. S. Lewis) ou dos continentes descritos na série “Game of Thrones” de George R. R. Martin.

Um ponto crucial desses “mundos construídos” é que sejam coerentes, sejam surpreendentes, e sejam plausíveis. O leitor quer surpresas, que descobrir mistérios e novidades, quer se deparar com rasgos de imaginação que aumentem o prazer da leitura. Por outro lado, ele geralmente preza uma certa lógica no que está sendo mostrado; aquilo não deve ser gratuito ou desordenado. Se o autor mostra uma história de navios piratas e a certa altura introduz uma bomba atômica, a história fica parecendo uma bagunça de anacronismos. O que não impede um bom escritor de muitas vezes tornar verossímil alguma incongruência desse tipo.

“Tuareg e Nagô” é uma canção gravada por Lenine no CD Olho de Peixe (1993), seu disco de estréia solo, produzido com Marcos Suzano e Denilson Campos. Essa faixa nasceu da confluência de várias idéias.

A primeira delas remonta ao disco Baque Solto (1983), de Lenine e Lula Queiroga. Esse disco é hoje o que se chama de “um clássico cult”. Eu tinha chegado ao Rio há cerca de um ano, e a turma que encontrei aqui era um grupo de parceiros de outras aventuras musicais no Nordeste: Lenine, Lula Queiroga, Tadeu Mathias, Mestre Fuba, Ivan Santos, Alex Madureira, Zeh Rocha... Todos morando no Rio, cantando no “Bar do Violeiro”, tentando gravar.

Quando o Baque Solto foi gravado, tinha composições e participação instrumental dessa turma toda – menos eu, que era um dos mais recentes. Sugeriram então que eu fizesse um texto poético falando da força da música nordestina, etc. e tal. E no dia em que fomos fazer a foto da “Gente de Baque Solto”, registrada no estúdio por Hélio Viana, levei o texto “Mapa do Tesouro”, que saiu no encarte do LP e é substancialmente a letra da futura “Tuareg e Nagô”:


É a festa dos negros coroados
no batuque que abala o firmamento...

Passou-se. Os meses e os anos fiaram seu fio de areia. Comecei a compor junto com Lenine, e uma das primeiras coisas que nos aproximou foi o gosto pela ficção científica, fantasia, fenômenos bizarros (de Charles Fort até Operação Cavalo de Tróia). E um dos nossos passatempos era imaginar, em sessões de devaneio e de “world building”, cenários para narrativas fantásticas.

Um desses cenários foi o que fiquei chamando de “A Ilha”, partindo de uma premissa simples. Todo mundo imagina a Atlântida como uma ilha futurista no meio do Oceano Atlântico – uma espécie de “Metrópolis” de Fritz Lang, mas com túnicas gregas e templos de mármore. Nossa idéia partiu da premissa contrária: e se essa ilha no meio do mar fosse na verdade uma ilha tropical, caribenha, ensolarada, fértil, super-populosa, tecnologicamente um tanto precária mas com uma vida cultural intensa?

Essa ilha seria uma confluência de todas as civilizações navegantes que cruzaram o Atlântico, cada uma deixando ali suas marcas. E assim surgiu o verso que depois tornou-se o refrão da música:


Quando o grego cruzou Gibraltar

onde o negro também navegou,

beduíno saiu de Dacar

e o viking no mar se atirou...

Uma ilha no meio do mar

era a rota do navegador:

fortaleza, taberna e pomar,

num país tuareg e nagô...

Estavam presentes na mistura uma série de povos que, teoricamente, teriam se encontrado e miscigenado nessa Ilha imaginária no meio do Atlântico. A Ilha servia de ponto de parada, descanso, reabastecimento, trocas comerciais... Algo bastante plausível, em termos de ficção. E de lá os navegadores seguiriam na direção Sul, cruzando a linha do Equador e chegando finalmente à América do Sul e o Brasil.

É o destino dos navegadores que partiam rumo ao oeste, à região onde o sol vai se pôr – “to sail beyond the sunset”, no verso famoso de Lord Tennyson.


E coube a Lenine pegar os versos antigos do “Mapa do Tesouro”, organizar tudo em estrofes, e mudar várias coisas para dar coerência ao “mundo construído”. Ali temos canaviais, estradas de ferro, plantações, frevo, religiões africanas... É de certo modo a Zona da Mata nordestina, mas, colocada nesse contexto imaginário, acho que ela ganha outras cores.

Cores caribenhas, na verdade, porque a Ilha, a nossa “atlântida”, ficava a meio caminho entre o oeste da África e o Golfo do México. Uma latitude e longitude que a deixavam praticamente ao lado do Mar do Caribe – ou seja, uma Ilha que parecia pouco com a Atlântida dos livros, e parecia muito com Cuba, Jamaica, Porto Rico...

Lembrei de uma frase de Gabriel Garcia Márquez numa entrevista, quando ele disse que o Recife era a cidade mais caribenha que ele conheceu fora do Mar do Caribe. Na época, fizemos os versos iniciais de uma canção glosando esse mote, explorando a assonância entre Caribe e Capibaribe:


Lá, onde o mar bebe o Capibaribe...

Coroado leão, caribenha nação

longe do Caribe.

 

“Coroado leão” é uma referência futebolística que nos era inevitável, mas esse fragmento, que tinha ficado como um começo apenas, encontrou seu complemento com a canção da Ilha.

Lenine pensava em termos de canções, eu pensava em termos de histórias. Cheguei a rabiscar resumos de contos que eu poderia ambientar nessa Ilha, contos focados apenas nos personagens e deixando essa questão histórico-geográfica como um pano-de-fundo remoto, mero ambiente, sem obrigação de explicar muita coisa.

Não avancei nessa direção porque nessa mesma época eu estava empenhado noutro projeto de “worldbuilding”: a criação da cidade imaginária de Campinoigandres, uma cidade árabe-ibérica no Portugal do século 14, onde ambientei vários contos e o meu romance A Máquina Voadora  (1994). Mas aí já é outra história.

“Tuareg e Nagô” foi lançada no Olho de Peixe em 1993 e teve várias regravações; minha preferida entre elas é a de Mônica Salmaso, em Trampolim:


https://www.youtube.com/watch?v=kirM7tkAvD4&ab_channel=M%C3%B4nicaSalmaso-Topic

 

Tuareg e Nagô

(Lenine/BT)


É a festa dos negros coroados

no batuque que abala o firmamento,

é a sombra dos séculos guardados,

é o rosto do girassol dos ventos...

É a chuva, o roncar de cachoeiras

na floresta onde o tempo toma impulso,

é a força que doma a terra inteira

as bandeiras de fogo do crepúsculo...

 

Quando o grego cruzou Gibraltar

onde o negro também navegou

beduíno saiu de Dacar

e o Viking no mar se atirou...

Uma ilha no meio do mar

era a rota do navegador

fortaleza, taberna e pomar

num país Tuareg e Nagô.

 

É o brilho dos trilhos que suportam

o gemido de mil canaviais,

estandarte em veludo e pedrarias

batuqueiro, coração dos carnavais...

É o frevo a jogar pernas e braços

no alarido de um povo a se inventar,

é o conjuro de ritos e mistérios,

é um vulto ancestral de além-mar.

 

Quando o grego cruzou Gibraltar

onde o negro também navegou

beduíno saiu de Dacar

e o Viking no mar se atirou.

Era o porto pra quem procurava

o país onde o sol vai se pôr

e o seu povo no céu batizava

as estrelas ao sul do Equador.






sábado, 15 de janeiro de 2022

4784) Minhas Canções: "O Dia Em Que Faremos Contato" (15.1.2022)



 
Publiquei certa vez um artigo sobre “A ficção científica na música popular brasileira”, na saudosa revista Isaac Asimov Magazine (Ed. Record), onde fazia um balanço das temáticas da FC (alienígenas, viagens espaciais, computadores, astronautas, etc.) nas letras de nossa música. Lembro que Gilberto Gil era o compositor com mais exemplos.
 
Era uma questão que já nessa época eu conversava muito com Lenine, também fã de FC, e tínhamos a toda hora uma idéia de como usar a FC numa letra de canção.
 
Pelo que me lembro, estávamos falando alguma vez sobre os morros cariocas, o fato do samba vir do morro e não “do asfalto”, a alegria espontânea de quem tem uma vida difícil... Pensando nisso, agora, me vem à mente um trecho de Avram Davidson, num dos seus contos de folk-FC:
 
Raramente vi uma mulher das classes altas, ou classes médias altas, que não trouxesse linhas de desagrado em volta da boca, e raramente vi uma mulher das classes trabalhadoras que não parecesse estar feliz e sorrindo e dando gargalhadas.
(“El Vilvoy de Las Islas”, Isaac Asimov SF Magazine, agosto 1988, trad. BT)
 
Uma simplificação, certamente, mas corresponde a tipos que facilmente encontramos em nossa própria experiência. O que faz essas pessoas de vida tão sacrificada terem uma tamanha alegria de viver? Me veio à mente o verso famoso de Herivelto Martins em “Ave Maria do Morro”, gravada indelevelmente por Dalva de Oliveira:
 
https://www.youtube.com/watch?v=NS8Yl8HMStA&list=PLA4VX07pqX-a5wJ1HwpA1lHjJzQnhTTPv&index=9


(Dalva de Oliveira)
 
Barracão de zinco, sem telhado, sem pintura...
Lá no morro, barracão é bangalô.
Lá não existe felicidade de arranha-céu;
pois quem mora lá no morro já vive pertinho do céu...
 
Daí foi um passo para a faísca inicial da canção:
 
Pois quem mora lá no morro
já vive perto do espaço sideral.
 
E a idéia foi imaginar alienígenas que, ao descerem na Terra, desciam no morro – e se deixavam contagiar por essa alegria que nós mesmos, aqui da Terra, achávamos fascinante e não sabíamos direito como explicar.
 
Isto vinha também ao encontro de muitas antigas mangações nossas (e não só nossas) sobre os filmes norte-americanos que fazem as naves alienígenas desceram sempre nos EUA, e mais do que isto, em Washington, e mais do que isto, em frente à Casa Branca.


("A Invasão dos Discos Voadores", 1956)


("O Dia em que a Terra Parou", 1951) 
 
De acordo com a nossa premissa, então, os alienígenas não desembarcariam em São Paulo (sede do poder econômico), em Brasília (sede do poder político) ou em Natal (referência à Barreira do Inferno). Desceriam nos morros do Rio de Janeiro, porque é lá que estaria o que eles vêm buscar.
 
E aí encaramos outro clichê da ficção científica de língua inglesa: a Terra como um planeta militarizado, belicoso. Não são poucas as histórias da pulp fiction norte-americana em que o Primeiro Contato com outras civilizações nos revela que somos uma espécie de párias do universo, por causa da guerra, da bomba atômica, etc., e que por isso a Terra está excluída das “federações galácticas”, ou coisa parecida.
 
É a má fé, a consciência pesada dos EUA, não é mesmo? O maior orçamento militar do mundo sabe o quando deve a Deus e ao mundo.
 
Nossa premissa foi o inverso disto: a galáxia inteira estaria em guerra, as diferentes raças não saberiam mais o que fazer para interromper esse ciclo de destruição... E de repente encontram um planeta onde há guerra, sim, como em todo lugar – mas existe paz, existe festa, existe alegria, existe carnaval...


("Ziriguidum 2001")
 
 
Não deve ter passado despercebida a muita gente a nossa citação do “Ziriguidum 2001”. Foi este o enredo criado pelo carnavalesco Fernando Pinto (com quem eu havia trabalhado em shows de Elba Ramalho, no Canecão), e que deu à Mocidade Independente de Padre Miguel o troféu do carnaval de 1985.



(Fernando Pinto)
 
Fernando era um leitor de FC; talvez não fosse um fã-colecionador como eu ou Lenine, mas era antenado com a época, e depois da vitória na Sapucaí publicou na revista Veja um artigo justificando brilhantemente seu enredo, com as baianas vestidas de extraterrestre.
 
“O Dia Em Que Faremos Contato” tem outra curiosidade, que é uma capa pescada por Lenine num volume da antiga Coleção Futurâmica, das Edições de Ouro. É do livro O Homem Eterno (“Bang!”), de F. Richard-Bessière, uma das divertidas aventuras transtemporais do repórter Sidney Gordon. É uma capa rara (eu tenho o livro, mas com a capa mais comum). Ao que parece, veio da versão original francesa, da Éditions Fleuve Noir.



*******
 
O Dia em Que Faremos Contato
(Lenine & BT)
 
A nave quando desceu, desceu no morro.
Ficou da meia-noite ao meio-dia.
Saiu deixou uma gente tão igual e diferente:
falava e todo mundo entendia.
 
Os homens se perguntaram:
por que não desembarcaram
em São Paulo, em Brasília ou em Natal?
Vieram pedir socorro, pois quem mora lá no morro
vive perto do espaço sideral.
 
Pois em toda a Via Látea não existe um só planeta
Igual a esse daqui...
A galáxia tá em guerra; paz só existe na Terra,
a paz começou aqui...
 
Sete artes e dez mandamentos – só tem aqui...
Cinco sentidos, terra, mar, firmamento – só tem aqui...
Essa coisa de riso e de festa – só tem aqui...
Baticum, ziriguidum 2001... – só tem aqui...
A nave estremeceu, subiu de novo
Deixou um rastro de luz no meio dia
Entrou de volta nas trevas, foi buscar futuras levas
pra conhecer o amor e a alegria.
 
A nave quando desceu, desceu no morro
cheia de ET vestido de orixá...
Vieram pedir socorro, e se derem vez ao morro
todo o universo vai sambar.
 
Quando derem vez ao morro
todo o universo vai sambar...
 
 
 
 
 
 
 







sábado, 9 de outubro de 2021

4752) Minhas canções: "Teofania" (9.10.2021)



Minha primeira parceria com Chico César surgiu depois de uma convivência de muitos anos. Quando comecei a fazer meus shows mambembes de voz e violão na Paraíba, Chico era um adolescente recém-chegado à capital, e andava com uns caras-mais-velhos que eram meus amigos. Entre eles, Pedro Osmar e Paulo Ró, cabeças do grupo Jaguaribe Carne, uma das melhores entre tantas e tantas coisas boas que a música paraibana já produziu.

Aqui, um álbum-síntese do trabalho do Jaguaribe Carne:

https://www.youtube.com/watch?v=uZS2l4KcKmA

Tocamos naquelas rodas de violão em que o instrumento passa de mão em mão e cada um mostra uma ou duas canções por vez, e que é uma das mais democráticas formas de convivência entre músicos. E o que me chamava a atenção em Chico nem era o violão ou as melodias, que já eram de erguer as sobrancelhas: eram as letras, que mostravam a familiaridade do guri escuro, magro, de cabelos curtíssimos, com o Tropicalismo e os poetas concretistas de São Paulo.

O tempo passa, o tempo voa, Chico sumiu como todo mundo some, e um dia Chico reapareceu como alguns reaparecem.  Encontrei com Lenine num show qualquer do Canecão e ele me disse estar chegando de São Paulo, onde tinha ido fazer uma participação no CD de estréia de Chico César, gravado ao vivo.

“Que bom,” falei, “tem músicas legais?” Ele disse “escuta só”, e cantarolou: “Himalaia, himeneu / este homem nu sou eu / olhos de contemplação. / Inca, maia, pigmeu / minha tribo me perdeu / quando entrei no templo da paixão”. E eu pensei: “Danou-se, é ele mesmo.”

O resto é de conhecimento público, e eu vi uma grande justiça poética no fato de Chico, o concretista de Catolé, ter fincado sua bandeira e decolado seu foguete justamente a partir de São Paulo, a cidade dos Campos e espaços.

Chico César, como letrista, tem uma consciência da materialidade da palavra que talvez só alguns charadistas tenham, e só afirmo isto porque minha formação é charadística. A maioria das pessoas vê uma palavra como vê uma pedra: uma coisa inteira, completa, sólida, indivisível. Quem tem formação de charadista (ou de concretista, cujo endereço é na mesma rua) vê a palavra como um Lego de sílabas, de letras encaixadas.

Se alguém me mostrasse o título “A Prosa Impúrpura de Caicó” e me perguntasse: “O que diabo é isso, e quem foi que fez?”, eu diria no ato, “Rapaz, é uma brincadeira com A Rosa Púrpura do Cairo, e quem fez provavelmente foi Chico César.”  Como dizia Ariano Suassuna: “Eu sou da tribo; conheço os caboclos.”

E aí Chico me manda uma melodia pedindo uma letra, e a essa altura, graças aos milagres da montagem cinematográfica, já estamos no ano de 2001, e eu saio viajando de avião com meu gravadorzinho de fita cassete rodando, o fio no ouvido, e a melodia tocando em loop até que eu decore e seja capaz de, sem ouvir a fita, ir montando meu Lego e encaixando cada sílaba da letra em cada nota da música.

Era tempo de guerra, era tempo sem sol. As Torres Gêmeas tinham sido pulverizadas em setembro pelos aviões sequestrados, a Amerika arregimentava sua logística para a invasão do Iraque, que aconteceria em março de 2003. A guerra era uma certeza, mas o que mais me remexia a ferida era o fato de estarmos voltando às guerras religiosas, às pelejas da Cruz contra o Crescente, ao mundo alucinatório do Deus dos Exércitos, do Deus do Povo Eleito (e não pode haver mais de um).

O 11 de setembro de 2001, cujos 20 anos foram recordados poucas semanas atrás, talvez seja a data em que começou de fato o século atual (como alguns historiadores dizem que o século 20 só começou de fato em 1914, com a I Guerra Mundial).

Remexendo nas minhas anotações desse tempo, encontrei o último poema que rascunhei antes dessa data, no dia 9 de setembro, e que diz:

Quem era

o homem mais rico da Pérsia

no tempo de Zaratustra?

 

Quem era o grande general da Itália

quando Dante escreveu a “Divina Comédia”?

 

Quem era o maior banqueiro americano

no ano em que Poe escreveu “O Corvo”?

 

Quem era o Presidente da República

quando Augusto dos Anjos

escreveu os “Versos Íntimos”?

 

Quem é

o homem mais poderoso do mundo

hoje

quando o homem menos poderoso do mundo

acaba de nascer?

 

Era uma simples reflexão ociosa, sem alvo certo (e boa só por isto). Dois dias depois, no entanto, os conceitos de poder, nascimento e morte começaram a ser enviesados pela força gravitacional da primeira explosão de uma nova guerra, e uma guerra em nome de Deus.

O mundo está cheio de pessoas com fé num Deus que mata com esta mão e perdoa com aquela, como diz o soneto de Ruy Guerra na canção de Chico Buarque (“E se a sentença se anuncia bruta, / mais que depressa a mão, cega, executa, / porque senão... o coração perdoa!”).

O mistério dessa guerra reside todo no lado de lá, no lado do Deus bom e assassino, no lado dos mulás, dos talibãs. Porque do lado de cá eu não preciso de outra explicação senão o preço do petróleo, dos armamentos, das munições, do orçamento do Departamento de Defesa, e assim por diante. Religião também, só que no altar de outro Deus – o Deus Dinheiro, o Deus Número, o Deus Finança. O Deus sem ódio e sem paixões, cujos discos-rígidos gigantescos trabalham 24 horas por dia, refrigerados pelas “águas glaciais do cálculo egoísta”.

Daí surgiu esta letra, a partir de dezembro de 2001, rabiscada devagarinho em aviões, em pousadas, em aeroportos, e gravada por Chico no seu disco Respeitem Meus Cabelos, Brancos, de 2002.

 

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TEOFANIA

(Chico César / BT)

(em "Respeitem Meus Cabelos, Brancos", 2002)

 

Além do bem e do mal

com seu amor fatal

está o Ser que sabe quem sou.

No tempo que é um lugar

no espaço que é um passar

espreita-nos um olhar criador.

 

Muitos me dirão: que não!

Que nada é divino: nem o pão, o vinho, a cruz...

Outros rezarão: em vão!

Pois nada responde e tudo se esconde - em luz...

 

Deus do roseiral, do sertão,

do ramo de oliveira, e do punhal.

Deus dos temporais, dos tufões,

da dúvida, da vida e a morte vã.

 

Quanta solidão e eu não sei

se, homem só, suportarei.

Um sinal, um não,

e silencie, aqui e além, a dor...

 

Deus das catedrais, dos porões,

da Bíblia, do Alcorão, e da Torá.

Deus de Ariel e Caliban

da chuva de enxofre, do maná.

 

Quanta solidão e eu não sei

se, homem só, suportarei...

Um sinal, um não,

e silencie, aqui e além, a dor...


Além do bem e do mal...

 



quinta-feira, 3 de junho de 2021

4710) Minhas canções: "Alpinista Social" (3.6.2021)



Algumas músicas dão um trabalho danado pra fazer. A gente mexe nelas durante meses, às vezes durante anos, até achar que ficaram com jeito. Outras não: parece até que chegaram prontas.
 
Esta aqui surgiu numa tarde meio ociosa, o telefone tocou e era Lenine, com uma idéia e uma proposta. Ele vinha tentando entrar na rinha disputadíssima de músicas para trilha sonora de novelas da TV Globo. Além de render alguns caraminguás em direitos autorais, isso servia como uma boa vitrine para compositores e intérpretes.
 
Corria o ano de 1990, pelo que calculo. Tínhamos acabado de compor um samba, “Virou Areia”, que ganhara um dos prêmios no Festival de Avaré, a FAMPOP. A esta altura já tínhamos composto alguns sambas de sucesso para os blocos da Zona Sul (Suvaco do Cristo, Simpatia é Quase Amor). Que tal emplacar um samba numa novela? A novela da vez era Lua Cheia de Amor, que a Globo estava gravando e estrearia em breve. Ele pegou o carro e foi lá em casa, no Catete.

 
O conceito – música de novela tem que ter um conceito – era simples. A personagem se chamava Kika Jordão, e ia ser interpretada por Arlete Salles. Era uma mulher de classe média fascinada pelas colunas sociais, pela vida das socialites, e querendo se enturmar no meio delas. Uma mulher sem muita classe, querendo bancar a “phyna” e batendo na trave o tempo todo. O marido trabalha com algo relativo a roupas, tecidos, etc.
 
Em inglês a expressão para esse tipo de gente é “social climber”, alpinista social. Foi esse o ponto de partida. Lenine fez uma levada inicial, cantarolada na base do tã-rã-rã, do lá-rá-rá, e os versos foram surgindo.
 
Apesar da idade ela nunca se cansa
de entrar nessa dança e sair no jornal...
E tem sempre um plano
por debaixo do pano:
ela é alpinista social...


(Arlete Salles, como "Kika Jordão")
 
“Por debaixo do pano” é uma alusão talvez pouco sutil à profissão têxtil do marido. Tínhamos que falar um pouco nas pessoas que querem “falar estrangeiro” ou citar nomes de gente famosa, e esta foi talvez a estrofe mais divertida de fazer:
 
Vira a noite no drink a pensar no overnight
no hi-fi do society ela rodou...
 
O “overnight”, de triste memória, era a aplicação financeira que os bancos faziam diariamente para manter o poder de compra dos correntistas. Numa época em que havia inflação de até 2 ou 3% ao dia, na virada-da-noite era preciso recuperar essa perda.
 
Pensamos então em falar em gente famosa, porque Kika Jordão teria o cacoete habitual de dizer que “era assim com” A, B, ou C.  Na época, o comandante Jacques Cousteau vinha ao Brasil com frequência, não seria impossível alguém no Rio dizer que já tomara algum “champã” com ele. E veio o verso:
 
Plástica no nome, pra não dar vexame;
de francês só conhece Jacques Cousteau.
 
O problema é que não encaixava na métrica! O nome do cara tem quatro sílabas, não havia como encaixá-lo naquelas três notas. Precisávamos de um nome igualmente francês de três sílabas – e o que nos ocorreu foi Belmondo, o famoso Jean-Paul Belmondo de Acossado, que, trinta anos atrás, era mais lembrado do que agora. E ficou: “De francês só conhece Belmondo...”
 
(No YouTube, quem transcreveu a letra não conhecia o ator, e teve que se virar com “Belle Mondeau”, que não deixa de ser uma saída interessante.)


(Jacques Cousteau + Belmondo)
 
Mas os compositores eram (são) teimosos que só um par de mulas, e nenhum dos dois queria abrir mão do nome do bravo oceanógrafo. E assim saíram-se com esta preciosidade, iniciando a estrofe seguinte:
 
E já que custou
tanto a chegar        
no sopé da montanha principal...
 
Com este, garantimos nosso lugar de honra entre os “20 Trocadilhos Mais Infames da MPB”.
 
Lenine gravou a música, com um ótimo arranjo e uma orquestração arrasante. Arlete Salles deu um baile com a personagem. E durante meses chega dava gosto ver as presepadas cênicas depois das quais ela dava uma rabissaca e saía de rua afora, com um sobe-som da música:
 
Lá vai ela, nas pegadas da moda...
 
Pense numa música feita em duas ou três horas, à base de café e bolacha Maria!  Fiquei muito satisfeito, e durante os meses seguintes pensava com meus botões: “Olha aí, como foi simples... Em uma tarde, abri para mim um caminho profissional novo: compositor de trilhas sonoras de novelas!  Vou emplacar muitas outras músicas nas novelas da Globo!”.
 
Ledo engano. Pra mim, foi a primeira... e única.
 
 
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A gravação de Lenine:
ALPINISTA SOCIAL
(Lenine / BT)
 
Apesar da idade ela nunca se cansa
de entrar nessa dança e sair no jornal...
E tem sempre um plano
por debaixo do pano:
ela é alpinista social...
 
Vira a noite no drink a pensar no overnight
no hi-fi do society ela rodou...
Plástica no nome, pra não dar vexame;
de francês só conhece Belmondo.
 
E já que custou tanto a chegar
no sopé da montanha principal,
ela se preza, ajoelha e reza
para ser alpinista social.
 
Lá vai ela, nas pegadas da moda,
na alta roda, quer passar sem pedigri...
Defasada, mas é boa aluna,
topa qualquer uma, nessa pressa de subir...
 
Lá vai ela... no hi-fi do society
Lá vai ela... quer sair no jornal
Lá vai ela... por debaixo do pano
Lá vai ela... alpinista social
Lá vai ela... sem pedigri
Lá vai ela... nessa pressa de subir
Lá vai ela...