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domingo, 16 de março de 2025

5162) Parolagens nordestinas (16.3.2025)




(pintura: Irene Medeiros, Campina Grande)
 

Dizem que os esquimós têm dezenove palavras diferentes para descrever diferentes tipos de neve. Pode ser que sim; palavras que aparecem com frequência na fala cotidiana acabam se desgastando um pouco, e gerando sinônimos, variantes, equivalentes. Sempre há algum temperamento mas criativo que introduz um jeito novo de exprimir uma idéia antiga. 
 
No linguajar nordestino, tenho observado a grande quantidade de expressões que se usa para exprimir o conceito de grande quantidade. É coisa que não acaba mais. 
 
"Assim de", por exemplo. Esta expressão é complementada pelo gesto de unir as pontas de todos os dedos em círculo e fazer pequenos movimentos de abre-e-fecha.    
 
"Rapaz, eu fui no comício ontem à noite. Disseram que ia ser fraco, mas a praça estava ‘assim’ de gente!"  
 
O gesto, pela convergência das pontas dos dedos, indica quantidade e aglomeração. É semelhante ao gesto que em outros lugares do Brasil os motoristas fazem uns aos outros, durante o dia, para alertar que o outro está com os faróis acesos, por distração.  Nesse caso, o gesto significa os raios de luz, e o piscar do farol.  Durante muito tempo, toda vez que eu via esse gesto nas avenidas ou nas estradas, pensava que queria dizer "o trânsito está ‘assim de’ gente lá atrás”.  
 
“Castigo”. Geralmente exprime uma grande quantidade de pessoas. Usa-se muitas vezes para exprimir o lado incômodo da presença de muita gente. 
 
"Detesto ir num Banco no dia 1º do mês, é aquele castigo de gente, cada fila enorme."  
 
"Pensei em ir na praia ontem, mas quando vi aquele castigo de gente passando nos ônibus acabei desistindo."  
 
Esse lado negativo expresso por “castigo” está presente também em “um horror”. 
 
"Passei três meses viajando, quando cheguei em casa tinha um horror de contas pra pagar." 
 
Embora também seja usado sem necessariamente dar uma idéia negativa. 
 
“ -- Aí pronto. O velho é assim.  Senta, paga um horror de uísque, me dá dinheiro e vai embora.” 
(Ricardo Soares, Nadir, pág. 127)
 
“Dar no meio da perna” (ou “... da canela”) é uma boa imagem visual.
 
“Rapaz, a festa foi demais, o uísque dava no meio da perna.” 
 
“De cambão aparece em linguagem de jogadores, em qualquer tipo de esporte ou de jogo, para indicar uma vitória de goleada, ou por grande diferença. 
 
“Eles disseram que iam armar o melhor time de todos, mas estão apanhando de cambão toda vez que jogam.”

“Em banda de lata” é outra imagem visual, se bem que na minha cabeça eu não entendo muito porque as bandas-de-lata implicam em grande quantidade. Enfim; usa-se muito, ainda hoje. 
 
"Rapaz, eu fui na festa de Fulana ontem, tinha gente em banda de lata."  
 
"No dia em que fizerem uma devassa no ECAD, vão prender gente em banda de lata." 
 
“Lote” e “magote” são palavras aparentadas não só pela rima, mas pela função: indicam em geral uma porção de gente, mas sempre com um viés desdenhoso ou pejorativo. 
 
“Ele chega de madrugada em casa com um lote de cachaceiros, acorda a mulher, e manda fazer comida pra todo mundo”. 
 
“Aquilo não é uma família, é um magote de desordeiros.”   
 
Certa vez, Martins Preto chegou à Fazenda Bonfim, onde seu filho, Pedro Martins, era o vaqueiro de maior confiança, procurou o proprietário, Antônio Nunes, e disse: 
-- Seu Antônio, eu estou muito aperreado porque Joaquim Aragão quer tomar minha terrinha e eu não sei o que vou fazer para sustentar o magote de moleque que eu tenho. 
(Pedro Nunes Filho, Guerreiro Togado, pag. 342)
 
“Outro tanto” exprime a mesma quantidade que acaba de ser mencionada.  
 
“Ele disse que Fulano vai pagar dois mil, e o pai dele outro tanto, para ajudar na sua operação.”   Também se diz “o mesmo tanto”. 
 
Quanto mais eles andavam
menos saíam do canto
porque o chão dessa ponte
avançava o mesmo tanto,
e eles não prosseguiam
pela força desse encanto.
(Braulio Tavares, A Pedra do Meio Dia, ou Artur e Isadora)
 
“Paiol” me parece um termo tipicamente paraibano, nunca vi sendo usado em outro lugar além de Campina Grande. 
 
"Eu não vou poder ir não, que estou com um paiol de coisas pra fazer nesse fim de semana."    
 
“Ruma” é termo bem antigo, e tem o sentido imediato de  monte, montanha, elevação de terra, com a conotação de grande quantidade.  
 
"Eu estou com uma ruma de provas pra corrigir em cima da mesa."    
 
Galinha põe todo dia
invez de ovos, é capão,
o trigo invez de semente
bota cachadas de pão,
manteiga lá, cai das nuvens
fazendo ruma no chão.
(Manoel Camilo dos Santos, Viagem a São Saruê)
 
Quando o chão está molhado
aparecem coisas boas:
se levantam cogumelos
que as capas parecem broas;
os sapos chocam de ruma,
bordam com cachos de espuma
os cenários das lagoas.
(Sebastião Dias, cit. em De repente, cantoria, de Geraldo Amâncio e Wanderley. Pereira, pág. 120)
 
“Só isso tudo?!” é uma exclamação irônica quando a gente se surpreende com algo além da conta, maior que as expectativas. Uma combinação de “Só isso?” com “Isso tudo?”. 
 
“-- Fulano, me empresta duzentos reais.  -- Só isso tudo?  Tá pensando que eu sou o Banco do Brasil?”   
 
“Só isso tudo?  Eu disse que gosto de doce de leite, mas se eu comer esse prato aí eu vou parar no hospital”. 
 
“Tem coisa que dá uma guerra” é um equivalente para “tem muita coisa, tem coisas demais.” 
 
“Na casa dele tem livro que dá uma guerra”. 
 
“Naquela novena de ontem tinha gente que dava uma guerra.”
 
A renovação constante da língua se dá por esta necessidade de inventar novas palavras ou novas expressões comparativas para exprimir idéias comuns. Ninguém aguenta passar anos a fio dizendo as coisas sempre do meso jeito. Ou melhor – muita gente aguenta, mas muita gente, também, procura criar uma maneira mais exagerada, mais visualmente vívida, mais forçosa, mais surpreendente, mais engraçada... 
 
É uma forma incipiente de criação literária, porque a literatura não consiste apenas na contação de histórias, envolve também o enriquecimento dos modos-de-dizer. Esse vocabulário do concreto é um desafio permanente para as pessoas que são verbalmente inventivas – e que tantas vezes, vejam só, são pessoas de baixa escolaridade, mas muita habilidade verbal. 
 
 
 
 
 
 



terça-feira, 24 de setembro de 2024

5105) A palavra incontornável (24.9.2024)



 
De vez em quando o povo descobre (ou inventa) uma palavra. Ela começa com um susto-de-novidade, projetando uma luz diferente e interessante na frase onde se instala. “Que maneira legal de dizer isto”, pensam as pessoas, e se danam a usá-la a torto e a direito. 
 
É nova.  É diferente.  Desperta a atenção de quem ouve, e é sempre bom ter um jeito-de-dizer capaz de arrancar as pessoas do piloto-automático. Tirar as pessoas do transe-zumbiforme em que elas parecem estar mergulhadas, até mesmo quando estão andando, olhando, falando alto. 
 
É o caso atual da palavra “incontornável”. Num efeito curiosamente metalinguístico, ficou difícil contornar essa palavra, que volta e meia insiste em se postar à nossa frente, mãos nos quadris, atitude desafiadora. Não importam as voltas e volteios do nosso discurso verbal, a gente acaba indo na direção dela, tentando contorná-la como um motorista contorna um girador, mas... debalde. 
 
Depois que esbarrei nela cinco vezes seguidas antes das três da tarde, nas redes sociais, fiz uma promessa muda de nunca utilizá-la. Percebi que já estava se fossilizando em clichê, adquirindo as mesmas propriedade anti-pensantes da maioria do nosso vocabulário comum. Estava indo para a mesma prateleira onde já estão, por exemplo, instigante e camadas. 
 
“Camadas” é a besta-sinistra do meu confrade Lira Neto, cuidador do idioma, a quem irrita a onipresença dessa metáfora em tudo quanto é assunto. Tudo hoje em dia se define em termos de “camadas”. 


 

Há, de fato, muitas camadas superpostas no uso desse termo.  No começo de tudo, foi útil trazer esse aspecto para o meio da discussão, porque todo mundo começou a admitir que, sim, não só no mundo físico como no mundo das idéias tudo se organiza em películas superpostas. Tudo é constituído de layers, como as cascas geológicas que se recobrem umas às outras em nossos continentes. Por baixo de alguma coisa há sempre uma coisa diferente. 
 
Já disse algum pensador que se arranharmos a superfície de um cínico vamos sempre encontrar um idealista desiludido. E Fausto Fawcett, o Bardo Cibernético de Copacabana, já observou que se a gente raspar um Jetson vai encontrar por baixo um Flintstone. Camadas. 
 
Por que apareceu, de um momento para outro, essa necessidade de definir tudo em termos de camadas? Porque se trata de uma palavra instigante, e aí chegamos a esse outro piercing verbal, penduricalho que, por volta dos anos 1980, todo mundo trazia na ponta da língua. 
 
Falei disso aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2009/01/0755-palavra-instigante-1982005.html
 
São palavras que já existiam no idioma mas estavam meio que na despensa ou no freezer, e quando alguém lhes dá uma requentada e as traz para o centro da mesa não chegam pra quem quer. 
 
É longa a lista de palavras atualmente na moda, e já com verniz de clichê, a ponto de franzir a testa de muita gente.  Ressignificar.  Potente.  Território.  Narrativa.  Imersão.  Literalmente.  Icônico.  Multifacetado.  Resiliência.  Empoderamento.  



(Lewis Carroll, Through the Looking-Glass, ilustração de Sir John Tenniel) 
 

Estas palavras são idiotas? De jeito nennhum, são palavras bastante úteis e expressivas, e eu já devo ter usado todas elas. Só que, no momento, faço questão de não usar mais – porque já prevejo as caretas resignadas de muita gente. “Ai meu Deus, de novo essa palavra idiota, não aguento mais.” 
 
As palavras são como um chiclete, começam com um gosto agradável de hortelã ou de cereja, mas esse gosto logo desaparece, vai-se embora o susto-de-novidade que uma palavra invulgar contém. O açúcar se dissolve todo, e fica só a borrachinha. O chiclete vira clichê. 



(arte: Philadelpho Menezes)

 
Penso às vezes que isto acontece porque vivemos numa bolha cultural onde é muito rápido, para uma palavra, entrar na moda; e pelas mesmas razões é muito rápido tornar-se lugar-comum. Num país de mais de 200 milhões de usuários do idioma, essas sucessões de modismos e clichês se dão numa bolha minúscula de meio milhão a um milhão de leitores, se tanto.  
 
O ricochete interno nas paredes da bolha (leia-se imprensa eletrônica; leia-se redes sociais) é muito rápido. As palavras viralizam nas redes sociais, com todo seu charme de novidade e potência (êpa) expressiva; e logo viralizam mesmo, literalmente (êpa), como vírus, doença, uma coisa chata que quando a gente vê já contraiu.  
 
Alguns meses de uso intenso, de incômoda reiteração... e pronto, a palavra está puída, desgastada, desvalorizada, eu diria quase prostituída por tantos usos e abusos. 
 
Pobres das palavras, que culpa alguma carregam. Pobre da palavra incontornável, quando descobre que não é indispensável, inevitável, imprescindível.    


 


 



domingo, 15 de setembro de 2024

5102) A arte de inventar palavras (15.9.2024)




Devem ser poucos os leitores jovens que tenham ouvido falar no Dr. Castro Lopes (1827-1901), um filólogo que foi um dos grandes defensores da pureza do nosso idioma.  
 
Defender a pureza absoluta do idioma é tão utópico quanto como defender a pureza absoluta do ar que respiramos.  O mais que podemos fazer é controlar o nível de poluição e lutar para que o resultado seja bom para a saúde.  
 
O Dr. Castro Lopes defendia nossa saúde verbal combatendo os galicismos, palavras de origem francesa. Naquela época, o grande referencial para quem queria ser “chic” no Brasil era o francês; hoje, o referencial para quem quer ser “cool” é o inglês.  
 
Para combater essa influência, que considerava nefasta, Castro Lopes passou a inventar palavras com raízes gregas ou latinas. Pelo seu raciocínio, ao que parece, o Brasil tinha mais a ver com Roma e a Grécia antiga do que com a França. 
 
O problema era que na sua mente de erudito bastava que a palavra fizesse sentido, filologicamente, para estar justificada.  Por exemplo: ele não gostava de “abajur”, palavra derivada do francês “abat-jour”; e propunha, para substituí-la, “lucivelo”.  Por que não usá-la? É uma palavra que contém as mesmas idéias, de “luz” (jour/luci) e de “ocultar” (abat/velo). 
 
Por algum razão, a palavra inventada não pegou.  Em toda minha vida, só vi essa palavra em artigos sobre o Dr. Castro Lopes. Por outro lado, na Paraíba todo mundo chamava o objeto de “quebra-luz”. 
 
Outro galicismo que ele abominava era “piquenique”, aportuguesamento do francês “pic-nic”: e propôs  em seu lugar “convescote”.  Esta chegou a ter uma certa aceitação, mas não substituiu a outra.  O doutor não gostava de “chofer” (do francês “chauffeur”) e sugeriu dizermos “cinesíforo”.  Não gostava de “galocha”, e propôs usarmos “anidropodoteca”.  E assim  por diante. 
 
Tenho grande admiração pelo doutor. Ele parece ter sido (não sei quase nada de sua biografia) um desses cientistas puros de coração, que se guiam pela razão e pela lógica, e ficam meio surpresos quando a Humanidade não os acompanha. Uma espécie de Sheldon Cooper das letras brasileiras. 
 
O exemplo do heróico doutor bastaria para chegarmos à conclusão falsa de que palavras inventadas não “pegam”, não se incorporam espontaneamente à língua.  Mas não é o que acontece.  Escritores (e também filólogos) criam palavras do nada, ou da justaposição inesperada de elementos, e em pouco tempo elas estão fazendo parte da nossa linguagem diária.  

Num dos seus prefácios a Tutaméia (“Hipotrélico”), Guimarães Rosa lista uma série de palavras e os autores que as inventaram (ou puseram em circulação): altruísmo (Auguste Comte), niilista (Turgueniev), egolatria (Rui Barbosa), necrotério (Alfredo de Taunay)... 




A estas poderíamos juntar intertextualidade (Julia Kristeva), anestesia (Oliver Wendell Holmes), eugenia (Sir Francis Galton), agnóstico (Thomas Huxley)...  
 
Atribui-se ao editor John W. Campbell, que pilotou durante décadas a revista Astounding Science Fiction, a criação do termo “hiperespaço” (“hyperspace”), para designar um espaço alternativo a este em que vivemos, um espaço onde fosse possível a uma nave viajar mais veloz do que a luz. 
 
Um método simples para inventar palavras é produzir uma variante de uma palavra já existente. Como Campbell fazia suas naves viajarem no “hiperespaço”, não me custou muito esforço sugerir (em A Espinha Dorsal da Memória, 1989) que os meus alienígenas, os Intrusos, viajavam no “hipertempo” (que em inglês seria “hypertime”), uma vez que tempo e espaço são apenas modos diferentes de nossa percepção do mesmo fenômeno. 
 
Guimarães Rosa foi um grande inventor de palavras novas, e há muitos livros dedicados exclusivamente a esse aspecto de seu talento literário.  
 
Rosa nem sempre inventava: às vezes recuperava, com pequenas alterações, palavras esquecidas.  “Nonada” e “tutaméia” são termos que ele repôs em circulação (pelo menos nos círculos literários), ambos significando ninharias, miudezas, coisas sem importância.  




No próprio volume de Tutaméia o autor nos presenteia com “fifrilim”, coisa insignificante (em “O Outro e o Outro”), “letrilhas”, versinhos populares (em “Sota e Barla”), “furta-flor”, o colorido do rosto de uma menina (em “Tresaventura”), “infinilhões”, grande quantidade (em “Estória no. 2”)... 
 
Por que ninguém usa estes termos, tão vívidos, tão intuitivamente verdadeiros?  Talvez porque sua origem literária seja evidente demais.  Os livros do escritor mineiro nos dão às vezes uma sensação constante de desperdício, de um léxico inteiro à disposição do povo, mas este não se sente à vontade para utilizá-lo porque o vê protegido (ou encarcerado) pela aura protetora da “literatura”. 
 
Os poemas de Carlos Drummond estão cheios de palavras cujo sentido e função poética são captados num instante: monstruário, incurioso, tremulargentina, ingaia...  
 
O poeta as inventa ou compõe por uma necessidade de expressão específica: para o assunto daquele poema, o tom de voz que o produz, os códigos verbais implícitos em cada um (erudito, irônico, paródico, etc.).  Talvez sejam palavras tão precisas, tão exatas, que só possam ser usadas uma vez. 
 
Ninguém pode prever se uma palavra vai ser incorporada à língua.  O próprio Dr. Castro Lopes, cujos fracassos mais retumbantes foram citados acima, nos proporcionou “cardápio”, que ainda hoje trava uma luta equilibrada com o francês “menu”.  “Cardápio” é uma palavra que pegou, pelo menos nos restaurantes. Por que?  É difícil saber.  
 
É relativamente mais fácil uma palavra nova se impor no meio mais erudito, no meio científico, quando corresponde à necessidade de encapsular num só termo um conceito novo ou complexo. É uma palavra que já nasce com a intenção de tornar-se propriedade coletiva. 
 
A palavra inventada com fins literários, porém, parece mais presa à personalidade de quem a inventou.  Basta ver a obra de notórios inventores como Lewis Carroll e James Joyce, para perceber que é ínfima a percentagem de palavras suas que chegaram à linguagem do dia a dia.  Talvez o uso desses termos, num contexto ficcional ou poético, as deixe demasiadamente personalizadas, ao passo que o uso “científico” de uma palavra nova a marque como sendo uma palavra impessoal, que pode pertencer a todos. 
 
Um exemplo recente de que tomei conhecimento foi a palavra “contradução” (“contraduction”), proposta pelo escritor Dan Barker, que a explica como um raciocínio feito às avessas, fazendo um efeito parecer a causa e vice-versa. Ele dá dois exemplos: quando estamos num trem parado na estação e vemos o trem ao lado entrando em movimento, temos a sensação de que é nosso vagão que está se deslocando. 
 
O segundo exemplo, mais útil, é o da popular falácia científica de achar que a gravidade e a atmosfera da Terra foram concebidas por alguém para favorecer os seres humanos, quando é mais sensato imaginar que foram os seres humanos que se adaptaram a ambas. É o mesmo raciocínio de quem diz: “Como é sábia a natureza, fazendo os rios passarem bem pelo meio das cidades, justamente onde sua água é mais necessária!...”  
 
 
 

segunda-feira, 6 de maio de 2024

5059) O falatório nordestino (6.5.2024)




(Corbiniano Lins, "Monumento aos Pioneiros", Campina Grande)

Acho oportuno lembrar que estas minhas compilações de palavras e expressões não têm o objetivo de afirmar que elas têm origem no Nordeste, ou na Paraíba, etc.  São expressões da minha linguagem afetiva, que ouvi pela primeira vez na infância ou adolescência, e depois descobri serem um tanto raras, principalmente na linguagem escrita. Claro que não são exclusividade do Nordeste. Fazem parte de um Nordeste que é só meu, mas que me dá prazer compartilhar com quem se interessa. 
 
 
Às folhas tantas
Expressão usada, geralmente pelas pessoas mais velhas, para dizer: "em dado momento...  foi então que..."  Entra na narrativa para indicar um sentido de passagem de tempo, de que houve uma certa duração entre o que houve antes e o que vai ser narrado a seguir.   "Eles entraram no bar e ficaram conversando, comeram alguma coisa... Às folhas tantas, Fulano tocou no assunto do pedido de emprego."    
 
Imagino que há uma relação com a expressão muito frequente no linguajar dos cartórios: "Está registrando no Cartório Tal, livro 16, às fls. 27-28..."    Neste caso, a intenção é apontar um local preciso, enquanto a expressão anterior simplesmente indica transcurso de tempo.  Eis um exemplo típico de como uma utilização pode ter acabado dando origem à outra: 
 
Até dois amigos mais íntimos de Mary McCarthy se surpreenderam com suas maravilhosas (e mal organizadas) memórias, ao contar que chifrou fartamente todos seus conhecidos amantes e maridos.  Às folhas tantas se pergunta se é promíscua, porque dormiu com quatro homens no espaço de tempo de 24 horas. 
(Paulo Francis, O Globo, 29-6-1995) 
 
 
Deforeta
“Tomar uma deforeta” (pronúncia: "deforéta") é dar uma relaxada, descontrair um pouco, descansar, ir à janela ou ao terraço para respirar um pouco de ar puro.  “Faz três horas que a gente está pegado com esse trabalho...  Vamos dar uma paradinha e tomar uma deforeta, daqui a pouco a gente volta.”   Quando éramos garotos, minha irmã Clotilde sentenciava: “Deve ser uma corruptela de diaforético”.  Indagada sobre o que seria isso, ela respondia: “Não sei, mas parece nome de remédio”.  Na verdade, "diaforético" diz-se de algo que provoca a transpiração.  Variante: "deforéte". 
 
O senhor de engenho, por sua vez, estagnava na rotina e na indolência.  Sair da rotina era coisa que parecia exceder de todo a sua capacidade de ação.  A indolência do corpo não era menor que a do espírito.  Durante o dia tirava largos deforetes na rede da sala ou, deitado sobre montes de bagaço, espiava pachorrentamente o engenho moer. 
(Horácio de Almeida, Brejo de Areia, pag. 106) 
 
 
Pabulagem
Jactância; hábito de contar vantagem.  “Não venha com pabulagem não, que todo mundo aqui sabe que você é muito do mentiroso”.  Existe o verbo “se pabular”: “O papo estava até bom, mas depois de uma certa hora Fulano começou a se pabular, contando riqueza, aí eu enchi o saco e vim embora”. 
 
De que serve o senhor se pabular
que só conta grandeza e valentia
já mostraste a tua covardia
e vai correndo com medo de apanhar
se fugires, eu corro até pegar
a minha volta ninguém se livra dela
com uma mão no peito e outra na goela
mas se o bruto salvar-se dessa vez
eu pego ele, tranco no xadrez
e o Pelado servirá de sentinela. 
(João Martins de Athayde, Peleja de João Athayde com Raimundo Pelado do Sul
 
Vai dormir, que teu mal é sono
Expressão brincalhona que se usa em várias ocasiões: quando a pessoa está de fato sonolenta; quando está de mau humor, sem motivo; quando está perturbando o sossego dos outros.  "Cala essa boca, menino, deixa a gente acabar de ouvir a história!  Vai dormir, que teu mal é sono!" 
 
Já peguei Josué na Catingueira
uma noite de São João numa novena
meia-noite o rapaz fazia pena
deu-lhe frio levantou-lhe até coceira
quis meter-se debaixo da fogueira
ficou logo sem sentidos, descorado
não podia estar em pé e nem sentado
eu lhe disse: "vá dormir, seu mal é sono
vá sabendo, no sertão só tem um dono
é Carneiro, este velho seu criado." 
(João Martins de Athayde, Peleja de Serrador com Carneiro) 
 
“Mulher, vem pra dentro que teu mal é sono!  Vem, pra dentro,
vem!  Vem, que teu mal é sono, e o meu também!” 
(Ariano Suassuna, A Farsa da Boa Preguiça, Ato I) 
 
 
Todo mundo quer ser bom, e a lua falta um pedaço
Equivale a: "Não há quem não tenha algum defeito".  Observe-se que a grafia mais correta será com acento grave: "...e à lua falta um pedaço".  Há variantes, como: 
 
Na propriedade alheia
outro de fora não manda.
Todo mundo quer ser bom
a lua falta uma banda.
E um dos meus carneirinhos
quem sabe em que lugar anda! 
(Severino Pinto, cit. em Um século e meio de repentes, de Edvaldo Muniz de Melo, pág. 97)
 
 
Não se cresça!
O mesmo que “Não se atreva!  Não se meta a besta!”  Usa-se geralmente no imperativo.  “Olhe, Fulano, você não se cresça comigo não, porque amizade tem limite.” 
 
Dizia o príncipe ao anão:
Vou abrir sua cabeça,
O anão dizia: príncipe
É melhor que se esmoreça
Se renda logo à prisão
Fique calmo e não se cresça
(Minelvino Francisco da Silva, “O filho de João Acaba-Mundo e o Dragão do Reino Encantado”, em Minelvino Francisco da Silva, pag. 102)
 
Pegado
Vizinho; diz-se de moradias. “Eu estou indo morar pegado com a casa de Seu Fulano”.  Variante: “encostado”. 
 
-- Essas duas casas são pegadas ao casarão onde o senhor mesmo mora?
-- São sim senhor!
-- É verdade que elas se comunicam por portas internas?
-- É sim senhor!
-- Sua casa é pegada, pelo outro lado, ao prédio da Biblioteca que o senhor dirige?
-- É sim senhor!  A Biblioteca fica na esquina.  Depois, do lado direito e pegada com a Biblioteca, fica minha casa.  Depois, pegada à minha pelo lado esquerdo, vem a casa do Professor Clemente.  E finalmente, pegada à de Clemente, fica a casa do Doutor Samuel. 
(Ariano Suassuna, Romance da Pedra do Reino, pag. 272)
 
Olhe a boneca!
Exclamação de zombaria que se usa quando alguém vem nos anunciar uma novidade que já é do conhecimento de todos.  “-- Minha gente, vocês não sabem da maior...  O Papa morreu!  -- Olhe a boneca!   Deu na TV faz mais de meia-hora.”   Vem acompanhada de um gesto -- a pessoa que dá a resposta agarra um pedaço de pano, geralmente da própria roupa, e o exibe ao “dono da novidade”, como se mostrasse uma boneca.
 
 
 





terça-feira, 12 de março de 2024

5041) O Intranslatável (12.3.2024)



 
Alguém irá apontar com o dedo e sugerir que o título acima ficaria muito melhor como “o Intraduzível”. Não é a mesma coisa. 
 
“O intraduzível” é uma tradução linear e correta da expressão “the untranslatable”; dizendo isto, estamos traduzindo o que se pode traduzir. 
 
O intranslatável é um termo metalinguístico. Exprime, poeticamente, o resultado de nossos esforços quando somos obrigados, pela sina da profissão, a trazer para o nosso idioma uma criaturinha verbal que pula, esperneia, morde, e se recusa a entrar na gaiola.  
 
O resultado é isso aí em cima: uma palavra que não está lá nem cá, um sem-pátria a mais vagando num mediterrâneo entre o norte e o sul, entre o ocidente e o oriente.  
 
Pouco tempo atrás me caiu nas mãos uma cópia de um ótimo filme, Céleste (1980), de Percy Adlon, baseado nas memórias da criada que serviu Marcel Proust durante a última década de sua vida. Céleste Albaret (1891-1984) atuou inclusive como secretária do escritor, ajudando-o com seus manuscritos e notas. A relação terna e respeitosa que se desenvolve entre os dois é narrada com muita finura psicológica, e um uso impecável da câmera, da montagem e do som. 
 
Comentei o filme aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2024/01/5023-marcel-proust-um-planeta-distante.html
 
Só tem um problema: o filme é alemão. 



E eu passei uma hora-e-meia em sobressalto, vendo aquele apartamento cenograficamente francês, aquelas chaleiras francesas, aquelas porcelanas francesíssimas (pelo menos aos meus olhos brucutus de paraibano), aqueles bigodes, aqueles móveis... e escutando o tempo inteiro uma enxurrada de “Bitte”, “Guten Morgen”, “Entschuldigen Sie”... Me veio à mente a decepção que tive no tempo do VHS quando finalmente encontrei uma cópia de Rocco e Seus Irmãos de Luchino Visconti, e quando cheguei em casa o filme era dublado em inglês. 
 
Alguém dirá que não há problema algum. É só escutar “Guten Morgen”, imaginar que a atriz está dizendo “Bonjour”, e compreender que sua intenção é desejar “Bom dia”. 
 
Não discuto a validez desse atalho mental, até porque o pratico o tempo inteiro. Mas o fato de o filme visualmente francês ser auditivamente alemão gera um interessante problema estético. Queremos, num filme assim, mergulhar na atmosfera social e histórica de um espaço e de um tempo específicos. Queremos ser psicologicamente transportados para uma imitação aceitável do ambiente em que Marcel Proust escreveu seus livros – livros impregnadíssimos de toda uma carga francesa de significantes e significados, inextricavelmente entrelaçados àquele ambiente social. 
 
O diretor (que é alemão) errou? Deveria ter feito uma versão falada em francês? Alguns o fazem, por interesses comerciais ou mesmo estéticos. Acabei de ver, dias atrás, o Casanova de Fellini, um filme italiano, na versão falada em inglês. Mas este filme não se passa (como alega) em Veneza, em Londres ou em Wurttemberg – ele se passa no espaçotempo surreal da imaginação de Fellini, e a verossimilhança linguística está tão distante dele quanto o rigor biográfico. O filme é tudo menos realista. Se os diálogos fossem em russo ou japonês, seria a mesma coisa. 
 
É outro o caso de Céleste, quando vemos a minúcia com que o apartamento de Proust é reconstituído (ou imaginado). Talvez algum estudioso proustiano veja erros ou anacronismos, mas neste aspecto eu sou “grande público”, e não vi nenhum. Mas ouvir os ótimos atores (Eva Mattes e Jurgen Arndt) falando em alemão me dava a sensação de ver um perfeito filme-de-época (ambientado entre 1912 e 1922) com atores vestidos à moda de 2024. 




Este filme me veio justamente quando eu estava consultando uma das minhas bíblias sobre tradução, Le Ton Beau de Marot (1997) de Douglas Hofstadter. É um livro em que o autor, apaixonado por um poema singelo do francês Clément Marot,  pede a amigos dezenas de traduções, paródias, adaptações, pastiches desse poema – e os comenta, discutindo cada opção, e os motivos de cada opção. 
 
E no meio disto tudo Hofstadter discorre longamente sobre o ofício. Ele é um pouco como Isaac Asimov – um divulgador de assuntos complexos, e o faz trazendo-os para o seu dia-a-dia autobiográfico, explicando cada passo de seus raciocínios, e quando fala de tradução vai buscar exemplos na música, na pintura, no cinema, na informática... 
 
E a certa altura Hofstadter começa a se perguntar se é possível, por exemplo, traduzir nomes de lugares, ou se estes devem ser deixados no idioma original. (É o tipo da questão que em geral a gente passa por cima, mas ele pára... e questiona isso durante um capítulo inteiro.) 
 
Uma coisa que me agrada no texto de Hofstadter é que ele tem um bom humor permanente e acha engraçadíssimos certos aspectos da linguagem. No Capítulo 14, ele transcreve o trecho de um livro, Sky! My Teacher, assinado por um tal de John-Wolf Whistle (nome real: Jean-Loup Chiflet). É um livro de humor sob a forma de um manual de ensino do inglês a quem fala francês, e boa parte da graça reside na tentativa de transportar, para uma língua, algo que é essencialmente vinculado à outra. 




Ele transcreve um parágrafo que vou me poupar de traduzir, já que o objetivo é divertir anglo-parlantes que têm um mínimo conhecimento dos nomes-de-lugares parisienses.

I like Paris. The streets I prefer are the streets of the Dry-Tree, the street of the Ferry, the boulevard Good-News, the street of the Cat-who-fishes, the street of the Look-for-noon, the street Mister-the-Prince, the street of the Little Fields, and the street Old-of-the-Temple. There are some places which I like very much, like the Game of Palm, the Doormanhouse, the theatre of the Madnesses-Shepherdesses, the hospital of the Fifteen-Twenty, the Prison of Health, and the big department stores like the Beautiful Gardener, the Good Market, the Spring.
(Le Ton Beau de Marot, Basic Books, 1997, p. 432)
 
Esta amostra, para mim, é tão engraçada quanto a enxurrada de gracejos que circula no Rio de Janeiro há anos, com sugestões de placas indicativas para os turistas estrangeiros, mostrando a direção de bairros e logradouros cariocas:
 
Rudder ………………….………… Leme
Orange Trees …………………… Laranjeiras
Flemish …………………………. Flamengo
Put Fire …………………………. Botafogo
Hard Bark ………………………  Cascadura
Wide of the Little Beach ..... Largo da Prainha
Will Go Soon ....................... Irajá
Nice To Meet You .......…….. Encantado
To Walk There .................... Andaraí
Bless You ............................ Saúde
 
Em outra minha “bíblia tradutória” (A Tradução Vivida, Paulo Rónai, Rio, Educom, 1976), o autor cita um exemplo parecido, uma tradução para o inglês do poema “Tragédia Brasileira”, de Manuel Bandeira. É a história de um casal carioca que vive na base do separa-volta-separa, mudando de endereço o tempo todo. A destemida Elizabeth Bishop verteu integralmente, ou adaptou, inclusive os nomes dos logradouros:
 
The lovers lived in Junction City. Boulder. On General Pedra Street. The Sties. The Brickyard. Glendale. Pay Dirt. (...) (pág. 30)
 
Claro que precisaremos recorrer ao original para perceber que “Brickyard” é “Olaria”, que “Pay Dirt” é “Bonsucesso”, e assim por diante.




Isto me trouxe à mente um trabalho antigo, que fiz em parceria com meu saudoso amigo, o fotógrafo Cafi. Uma revista estrangeira (Big Brazil) fez uma encomenda de um ensaio tipo fotos + texto, e ele tinha (tem, pois o acervo continua) uma coleção espantosamente grande e boa de fotos do interior de Pernambuco e principalmente da Zona da Mata, com seus carnavais e maracatus de baque solto.
 
Bolamos juntos uma matéria em forma dos ABCs da literatura de cordel, com verbetes e fotos correspondentes a cada letra do alfabeto: ABC dos Ultra-Terrestres, um trocadilho com o conceito de “extra-terrestres”.


 

Acontece que os editores queriam receber o texto em português e em inglês, e na hora de traduzir os verbetes tive que ir recriando nomes de cidades pernambucanas que de repente adquiriram uma estranha poesia.  Acho que tinha Beautiful Garden, Nazareth of the Woods, Lemon Tree, Little Salty, Good Advice, Stairs… (Big Brazil, n. 25, novembro de 1999)
 
É neste ponto que Douglas Hofstadter interfere e começa a matutar sobre a necessidade (ou não) de traduzir nomes de lugares, ou nomes próprios em geral, porque eles já estão carregados demais de ressonâncias culturais e afetivas.
 
E isto coloca para nós, brasileiros, uma questão interessante. Imagine se alguém abre um texto de Raymond Chandler, uma aventura inédita do detetive Philip Marlowe, e lê:
 
Era mais uma noite californiana, uma daquelas noites quentes e abafadas de Os Anjos, em que sopram apenas alguns raros ventos, parecendo bafos de uma fornalha invisível...
 
Teria a mesma crise de riso que eu tive anos atrás, ao folhear um Anuário traduzido, em que no verbete relativo ao rock-and-roll se dizia algo como: 

A temporada musical de verão foi intensa, com grandes shows ao ar livre de bandas como os Mortos Gratos e as Pedras Rolantes...
 
E no entanto somos o país, ou pelo menos a cultura-escrita de um país, que usa Londres em vez de London, usa Nova Iorque em vez de New York, usa Júlio Verne em vez de Jules Verne, usa Napoleão em vez de Napoléon... Livros brasileiros de cem anos atrás, ou até menos, referiam-se a autores como Carlos Marx, Frederico Nietzsche, Teófilo Gautier...
 
Deveríamos usar os termos originais? E quando se tratasse de nomes em russo, em chinês, em japonês? Deveríamos aportuguesar, ou simplesmente fonetizar? Sou antigo, ainda não me acostumei com o fato de que Pequim agora se chama Beijing, e que Bombaim virou Mumbai. Duas boas rimas jogadas no lixo; isso é um desaforo.
 
Essas palavras todas são intranslatáveis, porque mesmo traduzindo-as nunca conseguiremos trazê-las integralmente para o texto que estamos digitando. Traremos sempre pedaços, farrapos, uma casca sem miolo ou um miolo sem casca. De termos assim é feita toda a grande literatura e a grande poesia do mundo, porque, como já disse Robert Frost, “poesia é aquela parte que se perde na tradução”.  





 




quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

5032) Há dez mil anos atrás (15.2.2024)




Existe no mundo de hoje uma “Polícia do Idioma” que George Orwell não foi capaz de imaginar quando escreveu a sua distopia 1984, há mais de 70 anos atrás. 
 
É uma polícia – ou melhor dizendo uma milícia, porque eles mesmos resolveram sair prendendo e arrebentando, sem que ninguém os contratasse – que cismou de encontrar erros em tudo que vê pela frente. São as Palmatórias do Mundo, cuja especialidade é castigar quem comete erros. Na verdade, não são fanáticos do acerto, são fanáticos do castigo. 
 
Eu cometo meus erros de português a três por dois, e em geral é por desconhecimento mesmo: eu não sabia que o certo era dizer X e dizia erradamente Y.  Me refiro a erros factuais, indiscutíveis (do meu ponto de vista). Quando me cutucam, corrijo e procuro me lembrar na próxima vez. 
 
Outras vezes são erros que se devem ao que chamamos de pensamento contra-intuitivo. Eu escrevo um errado que me parece certo, e vem uma pessoa e explica que devo escrever um “certo” que ao meu ouvido é errado. Até me esforço, mas não acostumo. Vida que segue. Escrevo como acho melhor. Podem me tirar um ponto na prova. 

O que eu gostaria de comentar agora é um dos termos mais escorregadios da nossa língua, que é o famoso “a’. Nós temos: 
 
1)      O “a” que serve como artigo definido: a porta / a janela / a parede. 

2)      O “a” que serve como preposição: Entreguei o prato a Fulano / minha casa fica a uma quadra do shopping / pergunte isso a minha mãe. 

3)      O “à” com acento grave, indicativo da crase, quando os dois “aa” anteriores se misturam num só: vamos à praia / andar à toa / viagem à França.

4)      E como se não bastasse, temos o “há” do verbo haver, que se pronuncia igual aos três anteriores: escrevi isto há um ano / há muita gente esperando / isto é tudo que há na gaveta. 
 
Uma maioria respeitável da população brasileira, comigo no meio, de vez em quando escorrega ao lidar com esses sósias. 
 
Uma coisa que sempre me incomodou foi redigir frases assim: Gosto de computador, mas também gosto de escrever a mão. Penso logo que esse “a” tem função de artigo. Eu estou escrevendo alguma mão? Mão de quem? Estou desenhando uma mão? Por isso prefiro escrever, para deixar tudo mais claro: Gosto de escrever à mão.  Mesmo que não haja nenhuma razão gramatical para esse acento. 
 
É o mesmo caso da expressão “à distância”: Fiquei observando tudo à distância, sem ser percebido. Tecnicamente falando, esse acento só deveria aparecer se eu estivesse me referindo a uma distância clara, precisa: Observei tudo à distância de vinte metros.  Mas continua parecendo estranha, aos meus olhos e ouvidos, uma frase assim: Não tenho muita simpatia com o ensino a distância. 
 
Transcrevo a explicação (que bate com a minha impressão pessoal) do websaite Língua Brasil, com o respectivo link:
 
https://www.linguabrasil.com.br/nao-tropece-detail.php?id=43
 
--- Tenho certa resistência em grafar ensino a distância, sem o acento grave indicativo de crase, como é comum encontrar nos documentos exarados pelo MEC. Alguns autores classificam tal ocorrência como crase facultativa. Podia comentar? Prof. José T. B. Neto, Umuarama/PR 
 
RESPOSTA – Não está errado o Ministério da Educação. Mas eu, assim como o professor, prefiro usar o acento – nessa e em outras locuções adverbiais femininas que indicam circunstância. O motivo é que a ausência do acento pode deixar o texto ambíguo. Em “ensinar/estudar a distância”, por exemplo, fica-se com a impressão de que é a distância que está sendo ensinada ou estudada. É o mesmo caso de viu a distância, escreveu a distância, curou a distância, fotografe a distância, permanece a distância [= a distância permanece] e assim por diante, que parecem melhor quando craseadas: viu à distância, escreveu à distância, curou à distância, fotografe à distância, permanece à distância. 
 
Em casos assim (vejam como a Língua é uma coisa curiosa) o acento grave não indica a crase – indica apenas que aquele “a” é uma preposição. Intuitivamente, o brasileiro vê o “a” sozinho como artigo (“convidei a comadre Sebastiana”), e quando sente que o “a” é preposição tem o impulso (geralmente equivocado) de mandar um acento grave: “já expliquei isso à você”. 
 
Outro caso que me deixa desconfortável é o de expressões como “há um ano atrás”. A regra básica a respeito disto é que quando é uma coisa situada no passado, usa-se “há”: Comprei este carro há quatro anos.  E quando é uma coisa situada no futuro, usamos “a” (preposição): Vou trocar de carro daqui a dois meses. 
 
Segundo os defensores da pureza da língua, esta regra já basta para esclarecer tudo, e portanto é errado dizer: Comprei este carro há quatro anos atrás. É desnecessário juntar na mesma frase a forma “há” e o termo “atrás” – ambos indicam passado, portanto um dos dois é desnecessário. 
 
Quando me cobram isto, eu digo: “É pleonasmo, é reforço, eu estou reafirmando de maneira inequívoca que é um fato passado; é um exagero normal da linguagem, como dizer ‘vi com os meus próprios olhos’.” 



Neste caso, contudo, me parece que a raiz do problema está na linguagem falada. A linguagem escrita, pela diferença gritante de grafia, nos permite distinguir entre “há” e “a”. Mas na linguagem falada, os dois sons são idênticos. Eu digo em voz alta: Comprei este carro há quatro anos, mas, no momento mesmo em que digo, tenho (até eu, o dizente) a sensação de estar dizendo: Comprei este carro a quatro anos. E aí, para reforçar minha intenção correta, coloco o “atrás”, para que não fique nenhuma dúvida de que me refiro a um fato passado. 
 
Certo? Errado?  O critério de certo-e-errado é essencial para a Língua, e se eu não pensasse assim não quebraria tanto a cabeça tentando acertar. Mas há momentos em que mais importante do que o rigor gramatical é a clareza na informação. A comunicação sem mal-entendidos e sem solavancos. A possibilidade do entendimento imediato sem digressões e sem pausas para explicar um detalhe. 
 
O verbo “haver”, tão simpático, é um verbo danado de irregular. Parece ter sido inventado por M. C. Escher – é cheio de esquinas abruptas, desvios inesperados de som, de grafia e de sentido, e todas as vezes que a gente bota ele na conversa se arrisca a ir parar num beco sem saída. Não e de admirar que o brasileiro, em geral, prefira substituí-lo pelo seu primo-pobre, o verbo “ter” quando lhe veste o sentido. Tem muita gente que faz assim, e se safa. 



(M. C. Escher, "Relativity")
 
 




terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

5029) As armadilhas da língua (6.2.2024)

 


Rola pela web um meme com trechos de um programa de Sílvio Santos onde as pessoas têm que sugerir letras para completar palavras num painel, e ganhar prêmios. O apresentador pede sugestões, e aí vem um picotado de respostas absurdas, que fazem a platéia gargalhar. 
 
-- L de elefante!...
-- C de Sebastião!...
-- R de ervilha!...
 
E o pessoal rola de rir. Eu também acho graça; no meu caso pelo inesperado da coisa, porque há uma fração de segundo entre o enunciado da letra, em voz alta, e o enunciado da palavra; e a palavra sempre é uma que eu menos esperava. 

Na televisão a gente sempre acha que tudo é combinado, tudo é pegadinha. Mas, supondo que não seja uma encenação combinada... As pessoas devem ser precariamente alfabetizadas. Podemos dar também o desconto do nervosismo. Estar sendo submetido publicamente a um teste, principalmente na TV, é duro. A pessoa sabe que a família inteira está assistindo, a vizinhança inteira, o Sistema Solar. 
 
Guardei por muitos anos uma prova de quando eu tinha 8 ou 9 de idade, prova em que me perguntaram em que dia a América foi descoberta, e em vez do dia 12 coloquei “24 de outubro” – que estava na minha cabeça, talvez, por ser o aniversário do meu pai. E a professora botou “Certo” na minha resposta! 
 
Acho que ela corrigia essas coisas mecanicamente, de noite, depois de tirar a mesa do jantar... Enfim. O analfabetismo não sacrifica apenas os analfabetos, mas desgasta os alfabetizadores. 
 
Mas nas três respostas que coloquei acima, eu percebo um paralelismo. Posso estar “viajando”, mas tenho a sensação de que essas pessoas, quando pensam nas palavras, não pensam em palavras escritas letra-a-letra, pensam em palavras faladas sílaba-a-sílaba.  
 
Esta diferença é uma das distinções essenciais entre a linguagem escrita e a linguagem falada. Talvez seja o hábito de escrever e recitar versos metrificados, mas quando estou falando eu sinto que estou pronunciando sílabas inteiras, nem me lembro que são (em geral) uma combinação de vogais e consoantes. Nem me lembro de como se escreve aquilo. Só lembro na hora de digitar no teclado ou de rabiscar com a caneta.  
 
O homem que diz: “L de elefante” está dizendo algo que corresponde à experiência dele com essa palavra, que pelo visto é apenas uma experiência de ouvir e de dizer. (Pouco importa se ele assina o nome ou não, se é capaz de ler uma placa ou não; o domínio da língua é sempre gradual e se expande aos poucos. E nunca termina.) 
 
Essa palavra é feita de três pequenas explosões sonoras: ele – fan – te. (Note-se que a primeira pequena explosão envolve duas sílabas, e/le, mas na cabeça desse cidadão elas parecem, plausivelmente, estar coladas e serem uma coisa só: ele
 
As letras servem para explicar, num código visual, como deve ser a explosãozinha de cada sílaba. A outra sílaba é FAN? Então temos o “F” para explicar que é preciso tocar o lábio inferior com os incisivos superiores, o “A” para indicar qual é o som básico que a garganta deve modular, e o “N” para indicar que esse som deve ser nasalizado. Três coisas para descrever uma. 

Por este mesmo raciocínio, entendo a pessoa que disse: “C de Sebastião”. E apois?!  Sebastião não começa com “sê”? E “ervilha” não começa com “err”? 




Durante muitos anos li aqui e acolá referências à personagem surrealista “Rrose Sélavy”, criada por Marcel Duchamp e glosada por Robert Desnos. Esse “R” duplo no começo do nome sempre me embatucou, mas debitei na mesma conta que já corria em nome de Sir Andrew Ffoulkes, um dos heróis do romance Pimpinela Escarlate. Excentricidades européias!
 
Só algum tempo depois li uma interpretação que me clareou tudo. O “R” duplo tinha a função de carregar ainda mais a pronúncia, porque o sentido do trocadilho é dizer: “Éros c’est la vie”. Eros é a vida. 
 
Os surrealistas tinham, entre outras qualidades, um senso de humor cortante, e um gozo inesgotável em saborear palavras. Desnos, em Corps et Biens (1930), enumera variações trocadilhescas em torno dessa personagem erótica e viva. E diz a certa altura: “Rrose Sélavy connaît bien le marchand du sel”. Rrose Sélavy conhece bem o vendedor de sal ? Pode ser, mas é desse modo que ele mascara o nome “Marcel Duchamp”. 
 
Uma brincadeira que pode parecer, aos de-fora da Tribo Trocadilhesca, uma perda de tempo, ou um esnobismo intelectualóide. Não é. É o prazer de brincar com as palavras, o mesmo que faz o cantor Xangai gracejar com o nome dos amigos, e em suas conversas referir-se de vez em quando a “Ivanova Vilanildo” ou “Virias Fatal”. 
 
Voltando à ponta da meada: as palavras faladas não são feitas de letras, elas são feitas de sons. Passamos dezenas de milhares de anos usando as palavras como simples sons feitos com a boca e escutados com a zurêia. A escrita só surgiu muito depois – e é limitada, incompleta, depende muito da interpretação do leitor (o que pode ser uma vantagem, às vezes).
 
E a escrita não é uma transcrição da linguagem falada. (Esta seria a “escrita fonética”). É outro conjunto de convenções, que corre em paralelo; procura servir de mapa para a fala, que é o território. Ouvindo meus rockzinhos na adolescência eu ficava besta em ver como os ingleses rimavam “girl” com “world” ou com “pearls”, e mais: como essas grafias nada tinham a ver com o som gutural que essas palavras têm na vida real – na fala.
 
Bob Dylan:
https://www.youtube.com/watch?v=jJ4QrBFVIBM
 
Uma coisa que acho legal no linguajar pop-escrito de hoje em dia, em inglês, é o modo como o pessoal usa números e letras maiúsculas para substituir sílabas.
 
“Nothing Compares 2 U” = Nothing compares to you
“4ever” = forever
“2NE1” = “to anyone”
“INXS” = “in excess”
 
…e por aí vai. O que pode ser visto como a linguagem falada invadindo domínios da linguagem escrita, forçando a existência de novas grafias. Tal como acontece em nossas comunicações online, onde usamos “kd vc”, “tb”, “rs rs rs”, “kkkkkkk”, “pqp”, etc.
 
Isso é escrever certo? É escrever errado? A Gramática condena ou autoriza esse tipo de escrita? Eu acho que não cabe à Gramática condenar nem autorizar: cabe a ela examinar, entender como funciona, descrever seu funcionamento e registrar: “É fato. Está acontecendo.”