Mostrando postagens com marcador sol. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sol. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

4917) O que existe por trás do Sol (27.2.2023)




(Sol Armorial) 
 
Quando mais jovem, em Campina Grande, trabalhei durante quase dois anos, como datilógrafo, na Reitoria da FURNe, a Fundação Universidade Regional do Nordeste (atual UEPB). Ficava em frente à Catedral, naquele prédio onde hoje funciona o Instituto Histórico.
 
Um dia eu estava indo à Faculdade de Filosofia (que ficava atrás da Catedral, a poucos metros dali) em companhia de Leopoldo, considerado o melhor datilógrafo da universidade. Era um cara mais velho do que eu, moreno, cabelo curto, não era de muita conversa mas tinha um senso de humor apurado.
 
Nesse dia a gente ia andando quando ele parou de repente.
 
– Espera um instante.
 
Voltou alguns passos e ficou examinando o chão de terra. Via-se ali um salto de sapato, salto preto, de sapato tipo Vulcabrás. O chão estava um pouco úmido e mole; Leopoldo escavou um pouco com a quina do pé, expôs o salto, deu um “bico” com um pouco de força e o salto de borracha saltou lá para a frente, deixando apenas o buraco na terra. 
 
– Tudo bem – disse Leopoldo, quando retomamos a caminhada. – É porque toda vez que eu passava aqui eu ficava pensando que tinha um cara enterrado de cabeça pra baixo, e só o salto do sapato aparecendo. 


(a antiga Reitoria da FURNe)
 
Essa imagem nunca saiu da minha cabeça (olha que já lá se vão 55 anos), porque nesse tempo eu vivia com o juízo cheio de surrealismo e de Luís Buñuel.  Fiquei fascinado com a possibilidade de você enxergar um pequeno objeto e ser capaz de visualizar, a partir dele, algo muito maior e totalmente absurdo. Como o galo de metal no campo nevado, onde o Barão de Münchausen amarra seu cavalo antes de dormir. Ao acordar, o Barão percebe que a neve derreteu e ele está numa pracinha, em frente à igreja, e o cavalo está esperneando lá no alto, preso ao galo do campanário. 
 
Corta para o Rio de Janeiro, éons depois.  Eu morava em Laranjeiras, e pegava com frequência o ônibus da linha 184 para ir ao Largo do Machado, onde tem metrô, comércio, lanchonetes, etc.  E um dia vejo pichado na parede de um prédio baixinho de apartamentos, já perto do Largo: 
 
O SOL É A BRASA DO BASEADO DE DEUS
 
Peço desculpas às pessoas religiosas que talvez se sintam ofendidas. Meu intuito aqui é apenas semiótico, porque essa frase, digna de um cartum de Moebius & Jodorowsky, tem uma construção muito semelhante à idéia de Leopoldo com o salto de sapato. É uma excelente fanopéia – na linguagem de Ezra Pound, a imagem visual vívida e instantânea, produzida por meras palavras.
 
Olhar para o sol, imaginá-lo como a brasa de um cigarro, visualizar um ser gigantesco por trás... A imagem era um tanto blasfema (Buñuel teria gostado). Mesmo assim, me lembrou outra imagem da infância, colhida talvez em Monteiro Lobato: a sugestão de que o céu da noite era uma vasta redoma de cristal escuro, e as estrelas eram buracos que os anjinhos faziam para espiar as travessuras das crianças da Terra. (Acho que isto está em Viagem ao Céu.)


O interessante dessa imagem não era nem mesmo a curiosidade dos anjinhos, mas o fato de que -- por trás dessa redoma escura e protetora existia o que? Existia uma luminosidade cegante, equivalente à do Sol, que se filtrava pelos buraquinhos. 
 
A materialidade da abóbada celeste é um tema antigo. Vivemos (dizia a imaginação medieval) no centro de uma esfera, que ora era transparente, ora opaca, ora azul, ora escura e pontilhada de brilharecos. 

Existe até a famosa gravura (que nem é medieval, é do século 19) em que um homem rompe o “vidro” dessa abóbada e enxerga por trás dela mecanismos gigantescos, engrenagens incompreensíveis.


(em L’Atmosphère: météorologie populaire, Camille Flammarion, 1888)

 
A curiosidade de saber o que existe por trás do céu vem dessa visão medieval que colocava a Terra como o centro do Universo, e este seria uma série de esferas sucessivamente maiores, como camadas-de-cebola superpostas. Um universo imóvel onde as esferas (onde estavam “pregados” o Sol a Lua, as estrelas) meramente giravam em torno do seu centro, a Terra, mas a estrutura básica era fixa.
 
Dá para imaginar o choque na cabeça dos cientistas quando tiveram que admitir por aproximações sucessivas (via Kepler, Galileu, Copérnico, Newton, Einstein) o atual formato do Universo.
 
Restou aos poetas imaginar outras alternativas, no plano simbólico. Guimarães Rosa, que era meio chegado a um cigarro convencional, projeta suas fantasias no inventivo Lalino Salãthiel de “A Volta do Marido Pródigo” (em Sagarana, 1946):
 
“Magina só: eu agora estava com vontade de cigarrar... Sem aluir daqui, sem nem abrir os olhos direito, eu esticava o braço, acendia o meu cigarro lá no sol... e depois ainda virava o sol de trás p’ra diante, p’ra fazer de-noite e a gente poder dormir...”
 
É o caso também de Ariano Suassuna e sua forma peculiar de tratar os temas religiosos e sertanejos.  Não por acaso, um dos seus personagens mais famosos, Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, foi expulso do seminário da capital da Parahyba por causa de sua teoria do “Catolicismo Sertanejo”, no qual “a Santíssima Trindade tem cinco membros: o Pai, o Filho, o Espírito Santo, o Diabo e Nossa Senhora”.



(Irandhir Santos, como Quaderna)
 
A mitologia solar tem uma importância muito grande nessa visão-do-mundo que Quaderna expõe de maneira tão vigorosa e poética no Romance da Pedra do Reino (1971). Pudera. Todo esse romance é uma tentativa pessoal, por parte de Ariano, de equacionar o feixe de contradições e de confirmações em torno da tentativa de situar Deus e o Diabo na terra do sol. 
 
Em seu livro póstumo Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores, que é uma espécie de coral de muitas vozes e muitas “personas”, Ariano atribui a Dom Pantero um longo monólogo em tom apocalíptico (passagens inteiras do Apocalipse são citadas no livro) e a certa altura ele exclama: 
 
– O Sol é o girassol do sol de Deus!
 
A imagem do girassol é frequente na literatura mística, para indicar a alma sempre voltada na direção da Divindade. Para onde Deus vai, a alma do crente gira de mansinho, para nunca perder Deus de vista, para estar sempre inundada de sua luz.



Não sei se a frase de Dom Pantero é uma formulação de Ariano ou se ele está citando alguém (o livro é repleto de citações disfarçadas – é o “Estilo Régio” de Quaderna falando no centro), mas em todo caso é uma imagem de grande beleza. Uma fanopéia notável.
 
A idéia é que assim como o girassol volta-se para o sol o tempo inteiro, para embeber-se de sua luz, assim o Sol, por sua vez, volta-se o tempo inteiro para se embeber do “sol de Deus”, que neste caso deve ser algo de brilho incomensurável, inconcebível.
 
Reencontrei há pouco essa mitologia solar na leitura do volume 3 da série “The Sandman”, de Neil Gaiman, Dream Country (1991). 
 
Na quarta história deste volume, “Façade”, aparece a super-heroína Element Girl, a mulher indestrutível, capaz de manipular à vontade qualquer elemento da matéria. Ela é Rainie Blackwell, uma agente secreta que foi transformada em Element Girl após entrar em contato com uma divindade egípcia. Agora, está decadente, infeliz, incapaz de viver uma vida normal, e tendo que criar máscaras orgânicas para esconder seu rosto verdadeiro, cuja visão é insuportável às outras pessoas.
 
No fim, ela deseja morrer, e é visitada pela Morte, que faz parte do grupo dos Perpétuos. A Morte lhe aconselha que peça ao deus egípcio para reverter o que havia feito. “Mas onde vou encontrar esse deus?”, pergunta Rainie. A Morte diz: “Deixa de ser boba, esse deus é Ra, o sol. Vai na janela e fala com ele.”


(Neil Gaiman + Colleen Doran, Malcolm Jones III, Steve Ollif, Todd Klein)
 
Ela o faz e diz:
 
-- O sol... eu não tinha percebido antes... O Sol, também, é apenas uma máscara... E o rosto por trás dele é tão belo... é...
 
Element Girl usava dezenas de máscaras para poder ser vista pelos humanos (sua casa é repleta delas), e desse modo não lhe é difícil entender que o Sol é apenas uma máscara cegante destinada a afastar a curiosidade daqueles que desejam ver “a verdadeira face de um Deus”.
 






sábado, 6 de agosto de 2022

4850) O sol e a chuva (6.8.2022)



(Luiz Gonzaga)

Uma imagem poética parece ter uma plasticidade infinita.  Pode ser utilizada de mil maneiras, e cada contexto lhe dá uma significação nova.  Podemos dizer inclusive que a poesia é o triunfo absoluto do contexto sobre o sentido original das palavras, a palavra “em estado de dicionário”, como disse Drummond. 

 

Uma palavra num texto poético (e aqui incluo tanto os poemas escritos quanto as letras de canções) existe e significa para o contexto em que está sendo usada.  Tirada dali, seu sentido é zerado novamente.

 

Veja-se, por exemplo, um tema antiquíssimo na poesia: o contraste entre o sol e a chuva.  Em contextos poéticos diferentes, os dois recebem tratamentos diferentes.  No Nordeste, por exemplo, o sol é um mal necessário.  Sem ele seria impossível a vida no planeta, mas também não precisava exagerar .  No Cancioneiro Nordestino, o sol provoca medo, ou um respeito misturado com repulsa, uma mágoa que não tem perdão que cure.  Como cantava Marinês: 

 

No Nordeste imenso, quando o sol calcina a terra

não se vê uma folha verde na baixa ou na serra...”

(“Aquarela Nordestina”, Rosil Cavalcanti). 

 

O sol é sempre visto como o sol da seca, o sol da morte, do calor insuportável. Como dizia Guimarães Rosa, no Grande Sertão: Veredas: “a luz assassinava demais”.

 

O poeta nordestino vê o sol como uma ameaça, como mostram os versos de “Súplica Cearense”, de Gordurinha: 

 

Meu Deus, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho

pedi pra chover, mas chover de mansinho

pra ver se nascia uma planta no chão.

 

O sol é uma ameaça permanente, uma ameaça que não pode ser exorcizada com súplicas ou com preces.  Sua presença nas canções sertanejas é sempre ominosa, massacrante, transformando a paisagem num inferno.

 

Que braseiro, que fornalha,

nem um pé de plantação...

(“Asa Branca”, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

 

Quando o sol tostou as folhas

e bebeu o riachão

fui inté o Juazeiro

pra fazer minha oração...

(“Légua Tirana”, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

 

Por outro lado, a chuva é vista pelo poeta nordestino como uma bênção.  Um dia chuvoso é uma festa transbordante de alegria.

 

Rios correndo, as cachoeiras estão zoando,

terra molhada, mato verde, que riqueza!

e a asa branca à tarde canta, que beleza,

ai ai, o povo alegre, mais alegre a Natureza!

(“A Volta da Asa Branca”, Luiz Gonzaga e Zé Dantas)

 

Uma tarde de inverno no sertão

é um grande espetáculo pra quem passa

serra envolta nos tufos de fumaça

água forte rolando pelo chão;

o estrondo da máquina do trovão

entre as nuvens do céu arroxeado;

o raio caindo assombra o gado

atolado por entre as lamas pretas.

rosna o vento fazendo piruetas

nas espigas de milho do roçado.

(“Inverno no Sertão”, Ivanildo Vila Nova e Geraldo Amâncio).

 


(Cartola)

Muito diferente é o modo de ver o sol e a chuva no Rio de Janeiro.  Para um poeta carioca, sol é sinônimo de alegria, chuva é um fenômeno melancólico com o qual é preciso se conformar.  A indagação mais ansiosamente murmurada pelos cariocas, dia após dia, ano após ano, é: “Será que vai dar praia?...” – enquanto os olhos súplices se voltam para o céu, buscando o sol com a mesma ansiedade com que os sertanejos buscam as nuvens grossas e cinzentas que podem salvar sua vida.  

 

O Cancioneiro Carioca reflete esse estilo de vida, desde o samba até o rock e a bossa-nova.  Desta vez é a chuva que é um mal necessário, mas todos rezam para que passe logo.

 

Finda a tempestade, o sol nascerá,

finda esta saudade, hei de ter outro alguém para amar...

(“O Sol Nascerá”, Cartola e Elton Medeiros)

 

Chove chuva, chove sem parar...

Mas eu vou fazer uma prece

pra Deus, nosso Senhor,

pra chuva parar de molhar o meu divino amor...

(“Chove chuva”, Jorge Benjor)

 

Me dê a mão, vamos sair pra ver o sol...

(“Estrada do Sol”, Tom Jobim e Dolores Duran)

 

"Vamos sair pra ver o sol!"  Que sertanejo diria isto à sua amada? 



Mas mesmo o amor ao sol pode ganhar contextos diferentes.  Uma coisa é amar o sol no Rio de Janeiro; outra coisa é amá-lo num país frio e nublado como é a Inglaterra na maior parte do tempo.  Daí que as letras dos Beatles, por exemplo, estejam cheias de referências ao sol, como símbolo da alegria:

 

Veja, querida,

o sorriso retornando aos seus rostos.

Veja, querida,

parece que faz anos desde que ele esteve aqui.

Lá vem o sol...

E eu digo que está tudo bem.

(“Here Comes the Sun”, George Harrison)

 

Um dia você vai olhar e ver que eu parti;

pois amanhã pode chover, então... eu seguirei o sol.

(“I’ll follow the sun”, Lennon & McCartney)

 

Eu preciso rir, e quando o sol aparece

eu tenho um motivo para rir...  Bom dia, luz do sol!...

(“Good Day, Sunshine”, Lennon & McCartney)

 

Aí vem o rei sol, aí vem o rei sol

Todos estão rindo, todos estão felizes

(“Sun King”, Lennon & McCartney)

 

Em termos de simbolismo poético nunca se tem uma relação única entre imagem e sentido, ou mesmo uma solução sim-ou-não.  As soluções poéticas são múltiplas, e mesmo quando coincidem, pode ser por motivos diferentes.  Tanto cariocas quanto londrinos amam o sol e abominam a chuva – mas os dois vivem em cidades de clima totalmente oposto.  Em Londres, o normal é o dia nublado e chuvoso, e o dia de sol é uma festa da Natureza.  No Rio, o sol é um direito civil, um piso mínimo de liberdade e alegria a que todos têm direito, e um dia sem ele é como um dia passado na cadeia. 

 

Não há soluções poéticas óbvias, ou, pelo menos, sempre é possível fugir ao óbvio, desviar-se do clichê, recusar a enganadora facilidade do que já foi dito e repetido.  Razão, como sempre, tinha John Lennon, quando dizia:

 

Sento num jardim inglês, esperando o sol,

e se o sol não vier

eu me bronzearei na chuva inglesa.

(“I Am the Walrus”, Lennon & McCartney)

 

(Este artigo foi originalmente publicado da revista Língua Portuguesa, Editora Segmento (São Paulo), número especial, novembro 2010)

 

 

 

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

1299) Massa concentrada (12.5.2007)



A NASA criou o termo “mascon” (derivado de “mass concentration”, que podemos adaptar, para manter a ordem dos termos, para “massa concentrada”) para designar certas regiões da superfície da Lua com uma anomalia gravitacional, exercendo uma atração maior que o normal, devido à existência de grande concentração de massa no subsolo. O crítico literário Stephen Henderson apropriou-se deste termo para indicar palavras, que ele chama de “mascon words”, que embora sejam palavras comuns para outras pessoas, possuem na cultura Afro-americana um peso maior, porque correspondem a uma massa de experiência oculta, subterrânea, compartilhada apenas pelas pessoas de raça negra. Palavras como “blues”, “train”, “home”, etc. são ouvidas e escutadas de maneira diferente por um norte-americano negro.

Vejam em português a palavra “chuva”. Para um sertanejo, é uma palavra sagrada, sinônimo de esperança, de vida. Para quem vive no campo com a mão na testa tocaiando as nuvens, chover ou não chover é uma questão de vida ou de morte. Uma vez, aqui no Rio, vi uma pessoa dizer para outra, brincando: “Você tem cara de quem gosta de chuva”. Pensei cá comigo: “E pode existir alguém que não goste de chuva?!” Claro que pode. Chuva, aqui no Rio, significa transtorno para quem está preso no trânsito rumo ao escritório, ou então uma má notícia para quem pretendia ir à praia. É, tanto quanto no Sertão, uma palavra “mascon”, só que neste caso com uma concentração de energia totalmente inversa.

Podemos pegar a palavra “sol”, por exemplo. Curiosamente, o sertanejo não detesta o sol, não tem horror ao sol, por mais que nossas canções o chamem de “sol inclemente”, sol que “calcina a terra”, sol que “queimou as folhas e bebeu o ribeirão”. Em qualquer simbologia sertaneja o sol é visto como uma divindade, mas que precisa ser encarada com cautela, como o Fogo.

É curioso ver como “Sol” é também uma palavra “mascon” em outros contextos musicais. O Sol é endeusado, tratado quase como um Deus Egípcio, tanto na música carioca quanto na música inglesa – só que por motivos inteiramente diversos. Na música do Rio, o sol é sinônimo de praia, festa, luz, alegria, sensualidade, corpos jovens e bronzeados. Acostumado a uma superabundância de sol, o carioca o considera indispensável ao “estar vivo”, não admite separar-se dele um dia sequer. Já na música inglesa, o sol é símbolo de calor, vida, motivo para sair de casa, para tirar o paletó e aproveitar aquele breve episódio de luz e calor numa vida úmida, sombria, vivida entre quatro paredes. Tendo tão poucas chances para apreciar o sol, o britânico o reverencia como algo raro e muito precioso, algo a ser fruído segundo por segundo, porque nunca se sabe quando ele surgirá de novo. Porque, como diziam os Beatles, “amanhã pode chover, e nesse caso, eu irei atrás do Sol”. Palavras com massa concentrada: massa de emoções individuais e coletivas, palavras que cristalizam toda uma cultura.

sábado, 11 de outubro de 2008

0595) O charme de um dia nublado (13.2.2005)


(Bradley Schmehl, "Voice of the City")

Nada tenho contra o sol, contra esta cascata dourada de raios de fogo que parecem tornar o mundo inteiro mais colorido, mais vivo, mais vibrante de uma energia alegre e boa. Mas pergunto: por que motivo os Adoradores do Sol, essa multidão monoteísta que se acotovela nas praias e nas piscinas, é incapaz de reconhecer a beleza e a poesia de um dia nublado? O sol recorta contrastes lancinantes, fende o mundo com suas lâminas, e o deixa fatiado em placas de luz e de sombra. No dia nublado, a redoma de nuvens filtra e esbate esse brilho excessivo. O mundo fica tomado por uma luminosidade leitosa, espessa, macia. É uma luz que parece vir de todas as direções, que não projeta sombras, uma luz democrática e onipresente, a única capaz de mostrar o mundo como ele realmente é.

Nada tenho contra o Sol, repito. Admiro-o como admiro um leão, um tigre: ele lá e eu cá. Reconheço sua beleza e sua importância, mas francamente, não preciso da companhia dele o tempo todo. Tá liberado, companheiro! Vá aquecer os fiordes da Escandinávia, vá dourar os trigos da Suécia, vá bronzear Bjork. Eu por aqui vou indo muito bem, tomando banho-de-lua, como Celly Campello. O sol é um uísque-caubói duplo, e quem sou eu para negar seus méritos? Tem seus momentos, sem dúvida, mas para o correr normal dos meus dias prefiro um vinho suave, um crepúsculo roxo-lilás com nuvens e estrelas.

Gosto de “dias brancos” como os de Geraldo Azevedo & Renato Rocha, como gosto das “noites brancas” de Dostoiévsky. Gosto de ver a cidade trancada nesta caverna de claridade uniforme, ao abrigo daquela fogueira nuclear que nos cresta a retina e nos esturrica a pele. Gosto ainda mais do ar frio que geralmente sopra nesses dias, um friozinho gostoso que nos faz procurar o conforto de um casaco, e o calor aconchegante da companheira, porque tudo passa a ser pretexto para enlaçar-lhe a cintura, colar corpo com corpo, acelerar o sangue. É um ar fino, que clareia os pulmões; como se todos os Bancos do mundo tivessem desaparecido e deixado atrás de si apenas o ar condicionado, a única coisa que têm de bom.

Dêem-me dias brancos, dias nublados, dias propícios à meditação e à paz, ao cultivo das emoções tranqüilas e dos afetos prolongados, e à contemplação da Terra sem o clamor ensurdecedor das fornalhas do Sol. Dêem-me esses dias parecidos comigo, esses dias que vibram no meu diapasão contemplativo e sereno. Podem ficar com os outros – e isto me alegra duplamente, porque sei o quanto farei feliz a Humanidade, distribuindo-lhe dias ensolarados às mancheias. Mas guardarei para mim essas moedas de modesta prata, este céu com nuvens brancas de Chagall ou cinzentas de El Greco, este meio-dia no inverno da Serra da Borborema onde minha alma se formou, e onde aprendi que é possível haver no mundo beleza sem alarde, alegria sem frivolidade, e paz sem tédio.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

0499) O sol e a chuva (24.10.2004)



Alguns dias atrás falei aqui sobre a luz e a treva, e a injustiça de se atribuírem valores absolutos a cada uma (a luz como algo necessariamente bom, a treva uma coisa má). 

Outra parelha dessas que sempre me chamou a atenção foi o sol e a chuva. Qualquer nordestino, por exemplo, sabe que o sol é um mal necessário. Sem ele seria impossível a vida na terra, mas o problema é que com ele a situação não melhora tanto assim. 

Ouçam o Cancioneiro Nordestino de A a Z, meus camaradinhas, para vocês verem como o sol nos provoca medo, ou um respeito misturado com repulsa, uma mágoa que não tem perdão que cure. 

“No Nordeste imenso, quando o sol calcina a terra...” 

“Meu Deus, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho...” 

E a chuva? Ave Maria! Chuva é festa, é alegria, é banho de barreiro, é menino sapateando em poça de lama, é o véio mais a véia tomando banho na bica... Chuva traz as coisas boas da vida.

Aí a gente dá um pulo pro Rio de Janeiro, e tudo muda de figura. Chuva aqui é palavrão, e o sol é a panacéia universal, o remédio que cura todos os males. A indagação mais ansiosamente murmurada pelos cariocas, dia após dia, ano após ano, é: “Será que vai dar praia?...” – enquanto os olhos súplices se voltam para o céu, buscando o sol com a mesma ansiedade com que os sertanejos buscam as nuvens grossas e cinzentas que podem salvar sua vida. 

E dêem uma olhada no Cancioneiro Carioca, desde o samba até o rock circo-voador e a bossa-nova. “Fim da tempestade, o sol nascerá...” “Me dê a mão, vamos sair pra ver o sol...” Que sertanejo diria à sua amada uma heresia destas proporções?

Mas isto não é tudo. Bote o passaporte no bolso e vamos dar um pulo maior, até a Inglaterra. 

O Cancioneiro Beatle também está cheio de referências ao sol e à chuva. 

“Pois amanhã pode chover, então... eu seguirei o sol.” 

“Aí vem o sol, e eu digo que está tudo bem...” 

“Eu preciso rir, e quando o sol aparece eu tenho um motivo para rir... Bom dia, raio de sol...” 

Meu amigo!... Que sertanejo no mundo pronunciaria semelhante absurdo?!

Na verdade, isto mostra que em termos de simbolismo poético nunca se tem uma solução única, ou mesmo uma solução sim-ou-não. As soluções poéticas são múltiplas, e mesmo quando coincidem, pode ser por motivos diferentes. 

Tanto cariocas quanto londrinos amam o sol e abominam a chuva – mas os dois vivem em cidades de clima totalmente oposto. Em Londres, o normal é o dia nublado e chuvoso, e o dia de sol é uma festa da Natureza. No Rio, o sol é um direito civil, um piso mínimo de liberdade e alegria a que todos têm direito, e um dia sem ele é como um dia passado na cadeia.

Não há soluções poéticas óbvias, ou, pelo menos, sempre é possível fugir ao óbvio, desviar-se do clichê, recusar a enganadora facilidade do que já foi dito e repetido. Razão, como sempre, tinha John Lennon, quando dizia: 

“Sento num jardim inglês, esperando o sol, e se o sol não vier eu me bronzearei na chuva inglesa.”